Eles são irresistíveis. Têm curvas sensuais, formatos surpreendentes, cores provocantes, materiais inusitados. Melhor ainda: num mundo em que manequim acima de 40 parece uma anomalia, caem bem até em quem está acima do peso.
Para muitas mulheres, comprar um par de sapatos é prazer capaz de aliviar demissão, dor-de-cotovelo, traição, coração partido e até algum desastre na cadeira do cabeleireiro. As egípcias, 3 000 anos antes de Cristo, já ornamentavam os pés com jóias. No Império Romano, as sandálias das imperatrizes exibiam (como hoje, aliás) tiras incrustadas com pedras preciosas.
Um sapatinho de cristal (tremendamente incômodo, com certeza, mas quem é que vai se importar com isso numa hora dessas?) uniu Cinderela a seu príncipe encantado e desde então muitas mulheres viveram infelizes para sempre por não ter um igual.
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PELES E PENAS Seja contrastando cristais com maciez na sandália Gucci (à esq.) ou plástico com penas de faisão na Roger Vivier (à dir.), estes sapatos têm três pontos em comum, todos bem altos: preço, salto e potencial erótico |
"Um belo par de sapatos faz a mulher se sentir tão poderosa que pode mudar totalmente a maneira como ela se porta", garante Tamara Mellon, presidente da empresa que fabrica os cobiçadíssimos Jimmy Choo.
Tesouro muitas vezes enterrado no closet feminino, disponível apenas aos olhos (maravilhados) da dona, sapatos abrem na alma – e no talão de cheques – das mulheres uma comporta difícil de ser controlada.
Que o confirmem a voraz ex-primeira-dama filipina Imelda Marcos (3 000 pares), sua colega de consumo Lily Marinho (confissão presente no livro Roberto & Lily), a mitológica Evita Perón (900 pares) e, distante em número mas não menos impressionante, a empresária Lucília Diniz (300 pares, sendo que o preferido, uma sandália Louis Vuitton, ela quase não usa "para não gastar"), a atriz Cláudia Raia (300 pares), Hebe Camargo (200 pares) e muitas, muitas outras.
Por que tanto encanto? Enquanto uma bonita bolsa, de grife importante, satisfaz o senso de estilo e alimenta a auto-imagem social, os sapatos fazem tudo isso e ainda agem numa área muito mais sensível: a do erotismo.
Belos sapatos aumentam o potencial de sedução, e não é preciso ser nenhum podólatra para entender por que o fetichismo em torno dos pés tem um capítulo especial na história do comportamento erótico.
Em termos bem objetivos, o sapateiro chique Fernando Pires, conhecido pelos modelos escancaradamente fetichistas, resume: "Eu procuro fazer produtos que seduzam as mulheres.
Elas, por sua vez, vão seduzir seus namorados e maridos e causar inveja nas amigas". Quanto mais alto o salto, maior a obsessão.
Ao forçar para cima o arco do pé, um par de saltos altos obriga a mulher a empinar seios e nádegas e adotar um andar ondulante, entendido pelos que gostam de dominar como uma oferta e pelos que gostam de ser dominados como uma ordem.
Aí reside, justamente, o fascínio do salto agulha, diz a inglesa Caroline Cox, autora de Stiletto: ele torna a mulher, ao mesmo tempo, "submissa e agressiva, fetiche e fetichista, predadora e presa".
Prazer escondido por saias volumosas que se arrastavam no chão, só no começo do século XX os sapatos femininos avançaram à cena aberta.
Nas maisons de alta-costura, em Paris, e nos ateliês italianos, calçados se casaram com luxo pelas mãos de artesãos refinados como André Perugia, Salvatore Ferragamo e Roger Vivier, até hoje sinônimos de excelência em calçados.
A Vivier, falecido em 1998, credita-se a invenção do salto agulha. "Roger deixou um legado de estilo único, muito elegante. O que eu faço é interpretar esse estilo para o mundo moderno", diz seu substituto, o francês Bruno Frisoni.
A marca Perugia deixou de existir, mas a Ferragamo, fundada em 1927, permanece em plena atividade, tocada pelos herdeiros.
Seguindo a trilha dos três desbravadores, diversos sapateiros de luxo se destacaram na história recente dos calçados. Atualmente, imperam o canadense Patrick Cox, o sino-malásio Jimmy Choo, o cidadão do mundo Manolo Blahnik (nasceu nas Ilhas Canárias, foi educado na Suíça e mora em Londres), o italiano Sergio Rossi e o francês Christian Louboutin.
Estes, os independentes, visto que todas as grandes grifes de luxo – Gucci (a sandália de pele e cristais da foto da esquerda), Chanel, Yves Saint Laurent, Prada, Valentino – lançam a cada temporada sua própria, exclusiva e cara coleção de calçados.
Um Jimmy Choo imprime na etiqueta até 1 700 dólares (4 200 reais) quando o sapatinho tem detalhes preciosos.
"Nossos calçados são feitos a mão, por artesãos italianos. Os materiais são selecionados com muito rigor e todos os detalhes são perfeitos", justifica Tamara, da Jimmy Choo.
Frisoni, da Vivier, criador de uma obra-prima com tira transparente e calcanhar e salto recobertos de delicadas penas de faisão (3 900 dólares, ou 9 700 reais), destaca a sofisticação dos materiais.
"Um macio par de botas de pele de cobra ocupa na mala o mesmo espaço que uma sapatilha", argumenta. E pergunta: "Não é um luxo viajar chique e levando pouco peso?". Única resposta possível, acompanhada de um suspiro profundo: "Se é".
Fonte: veja.abril.com.br