Criado em 1958 por um grupo de estudantes da Escola de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, o Teatro Oficina distinguiu-se por ter absorvido, na década de 60, toda a experiência cênica internacional, vinda de fins do século passado até aqueles dias, dando-lhe um cunho eminentemente brasileiro.
A primeira grande realização do elenco, em 1963, foi Pequenos Burgueses, de Górki, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, responsável por todas as montagens subseqüentes de maior qualidade. A crítica reconheceu nela o melhor exemplo de encenação realista, na linha stanislavskiana, produzida no Brasil. Andorra, de Max Frisch (1964), já incorporou a linguagem épica, deslocada em Os Inimigos, também de Górki (1966), brigando com o estilo do autor.

A estréia de O Rei da Vela, em 1967, teve o mérito de incorporar Oswald de Andrade, com um texto publicado em 1937, à História do Teatro Brasileiro, e de ser o arauto de um movimento batizado como tropicalismo, de repercussão em outras artes.
Galileu Galilei (1968) quebrava o racionalismo extremo de Brecht com uma carnavalização eminentemente brasileira. E Na Selva das Cidades, do jovem Brecht (1969), que aproveitou as lições de Grotówski, tem o direito de considerar-se o mais poético espetáculo moderno em nosso palco.
Incansável na sua busca, o Oficina pretendeu romper as fronteiras convencionais do teatro, fazendo "te-ato" em Gracias, Senior, criação coletiva de seus atuadores, não mais intérpretes, em 1972. Aparentada a Paradise Now, do Living Theatre norte-americano, a montagem foi discutida em virtude de posturas autoritárias que parecia conter.
A rigidez da censura política, os problemas internos do grupo e o exílio de José Celso puseram fim à aventura brilhante do Oficina.
Fonte: www.mre.gov.br
Histórico
Influente e importante companhia ao longo dos anos 1960, transforma-se em grupo nos anos 1970, tendo como esteio a figura do encenador José Celso Martinez Corrêa. Ressurge reformulado nos anos 1980 e, sob a denominação de Oficina Usyna Uzona, atua até hoje.
O Oficina soube abrir-se e incorporar, paulatinamente, as mais significativas transformações da cena ocidental, sempre em posição de vanguarda, vindo a alcançar um destaque absoluto com sua encenação de O Rei da Vela, em 1967, obra que catalisa o movimento tropicalista.
Em 1958, nasce no Centro Acadêmico 11 de Agosto, do Largo São Francisco, o movimento a oficina , com a intenção de fazer um novo teatro, distante tanto do aburguesamento do Teatro Brasileiro de Comédia - TBC quanto do nacionalismo do Teatro de Arena. Inspirado pelas idéias existencialistas de Sartre e Camus, monta, a partir de 1959, diversas peças em regime amador. Entre outros, participam dessa fase José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi, Carlos Queiroz Telles, Amir Haddad, Caetano Zamma, Fauzi Arap e Ronald Daniel.
Em 1961, com a aquisição do Teatro Novos Comediantes, na Rua Jaceguai, são criadas a companhia profissional e a sala de espetáculos, com a encenação de A Vida Impressa em Dólar, de Clifford Oddets, dirigido por José Celso Martinez Corrêa. Entre seus fundadores estão José Celso, Renato Borghi, Fernando Peixoto, Ítala Nandi e Etty Fraser. Em 1962, são levados à cena Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, com direção de Augusto Boal, e Quatro Num Quarto, de Valentin Kataev, dirigido por Maurice Vaneau. Entre outros, participam desses espetáculos Henriette Morineau, Maria Fernanda e Mauro Mendonça.
Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, estréia em 1963, e no ano seguinte, quando do golpe militar, o Oficina está em cartaz com essa montagem realista de impacto, cujo ponto alto são as interpretações, nascidas a partir das técnicas de Stanislavski, transmitidas ao grupo pelas aulas de Eugênio Kusnet. Voltando-se posteriormente para o pensamento de Bertolt Brecht, o grupo monta Andorra, de Max Frisch, em 1964, e Os Inimigos, de Máximo Gorki, em 1966, ambas direções de José Celso que radicalizam a sua pesquisa artística. Em 1966, a sala é destruída por um incêndio. São feitas remontagens de antigos sucessos, para levantamento de fundos e reconstrução do teatro. Entre os intérpretes desse período sobressaem-se Célia Helena, Eugênio Kusnet, Miriam Mehler, Beatriz Segall, Betty Faria, Raul Cortez, Abraão Farc e Linneu Dias.
Em 1967, com O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, o Oficina alcança grande notoriedade, lançando o tropicalismo, que aglutina setores da música, do cinema e das artes plásticas, dando impulso a um movimento estético coeso e de abrangência nacional. Essa hegemonia o coloca em posição de destaque e referência dentro da cultura brasileira dos anos 1960. Levado à Europa, o espetáculo torna o grupo internacionalmente conhecido. As montagens de Galileu Galilei, 1968, e Na Selva das Cidades, 1969, ambas de Bertolt Brecht, coroam esse movimento ascensional e são consideradas perfeitas recriações brasileiras do universo do autor alemão. Dão oportunidade a elogiadas interpretações de Renato Borghi, Ítala Nandi, Cláudio Corrêa e Castro e Fernando Peixoto.
A realização do filme Prata Palomares, em 1969/1970, leva a uma crise interna e ao esfacelamento da companhia. Com nova equipe e sob a liderança dos remanescentes José Celso e Renato Borghi, o Oficina patrocina a vinda do grupo experimental norte-americano Living Theatre e com ele trabalha. Lança-se, no ano seguinte, a uma longa viagem pelo Brasil. Essa excursão, denominada "saldo para o salto", consiste na remontagem de alguns antigos sucessos, quando novas experiências cênicas são empreendidas.
Os frutos desses novos rumos se materializam em 1971, com Gracias, Señor, obra de criação coletiva que faz emergir o Oficina Usyna Uzona. A radicalização de linguagem proposta nesse novo trabalho possui contornos vivenciais, aprofundados na encenação seguinte, uma recriação autobiográfica de As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, 1972. Dessa nova formação constam nomes como Esther Góes, Henrique Nurmberger, Luis Antônio Martinez Corrêa, Joel Cardoso, Cidinha Milan, Analu Prestes. Em 1974, José Celso é detido e exilado, trabalhando precariamente em Portugal, onde elabora e dirige o filme Vinte e Cinco, 1976. Após seu retorno para o Brasil, em 1979, concentra esforços em projetos que incluem novas linguagens. A década de 1980 registra limitada ação do grupo, que apenas ministra oficinas, organiza leituras e eventos de curta duração.
Em 1991, José Celso retoma à cena em As Boas, de Jean Genet, em que atua ao lado de Raul Cortez e Marcelo Drummond, seu novo parceiro de trabalho, que o acompanha nas décadas seguintes, dividindo a gestão da nova fase do grupo. Volta a chamar a atenção com Ham-let, de Shakespeare, em 1993, a montagem reinaugura o Teatro Oficina. Fechado desde 1974, o Oficina é transformado numa "rua cultural", pelo projeto de Lina Bo Bardi.
A partir desses redimensionamentos o grupo envolve-se com a produção de espetáculos, vídeos, filmes, músicas e DVDs. Nessa fase, a autoria das realizações é basicamente coletiva, embora a presença de José Celso continue galvanizando e centralizando os projetos. Além de Marcelo Drummond, alguns dos integrantes mais assíduos do grupo são Catherine Hirsh, Leona Cavalli, Paschoal da Conceição, Denise Assunção, Bete Coelho. As encenações de As Bacantes, adaptação coletiva do texto de Eurípides, em 1996, e Cacilda!, do próprio José Celso, 1998, seguem a proposta de releitura e desestruturação dos textos originais, em benefício da incorporação de material autobiográfico, seja dos integrantes ou do próprio Oficina, num aparentemente infindável movimento autofágico de ir e voltar às próprias origens. Entre 2002 e 2006, Zé Celso realiza a montagem na íntegra da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. O projeto é divido em cinco espetáculos de cinco horas de duração em média, cada um: A Terra, O Homem I, O Homem II, A Luta I e A Luta II.
Analisando a trajetória do Oficina, a crítica Mariângela Alves de Lima indica: "O diálogo entre conhecidos é substituído bruscamente pela proposta de abandonar todas as mediações do espetáculo e procurar outro público, outra forma de comunicação, outro espaço de atuação e outras formas de informação. O desejo de viver uma integração, depois de ter esgotado a particularidade de um grupo social, inverte a direção do trabalho do Oficina para a estranheza de todos os níveis da comunicação artística. [...] A metáfora perfeita e a conclusão para o sonho dessa passagem é a tomada do espaço atravessado pela cidade, por todos os estranhos que o Oficina sonha alcançar desde que rompeu as relações familiares. A Usina: uma rua onde nada está dado. A cidade atravessa-a com todas as suas diferenças de tal forma que o Oficina se perca nessa multidão e possa confundir-se com ela e ser o que ela é".
Referência
1. LIMA, Mariângela Alves de. Eu sou índio. In: O NACIONAL e o popular na cultura brasileira: seminários - teatro. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 163-171.
Fonte: www.itaucultural.org.br