
Ajaccio, Córsega, 15 de agosto de 1769. Um ano depois de aquela ilha ser comprada de Gênova pela França, nasce uma criança, batizada com o nome corso de Napulione, filho de Carlos-Maria Buonaparte, advogado do Conselho Superior daquela ilha, e de Maria Letícia Ramolino. É o segundo de uma prole de oito: José, Napoleão, Elisa, Luís, Pauline, Carolina e Jerônimo, por ordem de nascimento.
Sua família faz parte da pequena nobreza insular, com origem em Florença, na Toscana. No século XII, havia três ramos desta família: o primeiro, com sede em Treviso, extinguiu-se em 1397; o segunda, chamado de os Buonaparte de San-Miniato, extinguiu-se em 1570; o terceiro estabeleceu-se principalmente entre Gênova e Veneza. Um membro deste terceiro ramo, L. Maria Fortunato Buonaparte, fixou-se em Ajaccio em 1612, sendo o bisavô do recém-nascido.

Em 1778, Carlos-Maria Buonaparte é nomeado representante da Córsega na corte de Luis XVI, onde permanecerá por vários anos; assim, a figura fundamental do pequeno Napulione é sua mãe. Adiantada para sua época, exige que seus oito filhos tomem banho todos os dias, quando o comum é fazê-lo uma vez por mês, se tanto (Napoleão conservará este hábito por toda a vida, tomando prolongados banhos muito quentes todos os dias). Sua firme disciplina cria influências duradouras sobre o voluntarioso caráter de Napulione.
Antes que ele complete nove anos, seu pai encaminha-o à França continental, para prosseguir seus estudos. Em 1779, ingressa na escola militar de Brienne, em Champanha, um dos doze colégios que acolhem os filhos da nobreza pobre. Ele ali permanecerá durante cinco anos: bom aluno, mas áspero e taciturno, Bonaparte não é bem aceito por seus camaradas. Fala francês com carregado sotaque italiano, que jamais perderá de todo. Gosta de isolar-se para meditar e sente profunda aversão aos franceses, aos quais acusa de serem os opressores dos corsos. É um leitor voraz, que faz anotações detalhadas de tudo o que lhe cai sob os olhos. Apesar disso, distingue-se apenas em Geografia e Matemática, tendo também se dedicado ao atento exame de obras como a História universal de Políbio, as Vidas paralelas de Plutarco ou a Expedição de Alexandre, escrita por Arriano de Nicomédia, livros que terão profunda influência em seu espírito. Ele mostra já uma propensão para a arte do comando, chefiando os jogos militares de que participa.
Em 1784, morre seu pai, deixando-lhe a mãe em sérias dificuldades para custear os estudos de seus filhos: José passa a estudar Direito, Luciano é matriculado no seminário de Aix-en-Provence e suas irmãs são educadas por Madame Campan. Bonaparte, que precisa encontrar uma renda para sustentar a família, é considerado apto a prestar o concurso de ingresso na Escola Militar de Paris, a fim de completar sua formação. É admitido como cadete-fidalgo em 22 de outubro e, estudando o Tratado de Bezout dia e noite, conclui sua formação em 10 meses em lugar dos 4 anos normais. Em setembro de 1785, ele entra na artilharia, no Regimento de la Fère, em Auxone, sendo nomeado segundo-tenente em Valence em 1787. É então um jovem esguio, de aproximadamente 1,68 m de altura, estatura mediana para um francês de seu tempo.
Quando estala a Revolução Francesa, em 1789, o tenente Bonaparte acha-se em Paris e assiste à invasão das Tulherias pelo povo. Volta à Córsega por diversas vezes, onde Pasquale Paoli lidera o movimento de independência da ilha. Bonaparte é eleito chefe da Guarda Nacional em 1792. Porém, a execução do rei, em 21 de janeiro de 1793, provoca uma revolta dos partidários da independência. Os bonapartistas apóiam a Revolução, enquanto os paolistas são partidários de uma monarquia moderada, nos moldos ingleses. Estoura uma guerra civil e a família de Napoleão, cuja residência foi saqueada pelos paolistas, é obrigada a deixar a ilha precipitadamente com destino a Toulon, em junho de 1793, indo estabelecer-se em Marselha.

Em 28 de agosto de 1793, realistas e soldados estrangeiros (ingleses, principalmente) ocupam Toulon, porto no Sul da França. Bonaparte, já capitão de artilharia, continua apoiando a Revolução e, no mesmo ano, é enviado ao cerco destinado a livrar Toulon da presença britânica. Concebe um plano eficaz e o submete a seus superiores, mas eles não lhe dão importância; nada acontece até que o comando das operações é entregue a um velho soldado, o general Dugomier, que percebe seu valor e o adota. Em dezembro de 1793, o ataque é realizado com sucesso, em conformidade com seu plano, e Bonaparte é encarregado de comandar a artilharia. Este episódio lhe vale o posto de general-de-brigada; é-lhe oferecido um comando no exército que combate os insurgentes do Oeste. Bonaparte não aceita e permanece em Paris.
Bonaparte torna-se amigo do irmão mais moço de Robespierre; quando este político é derrubado, em 27 de julho de 1794, Bonaparte é preso como suspeito por algum tempo e logo libertado. Posto em liberdade, permanece em Paris sem nenhuma função efetiva, até que, em 1795, explode naquela capital a chamada Insurreição do Vindimiário, meio realista, meio baderneira, que ameaça derrubar o governo. Paul François Jean Nicolas, visconde de Barras, comandante do Exército do Interior, propõe-lhe combater a sublevação. Bonaparte aceita; não tem tropas suficientes para fazer frente à multidão que se aproxima, mas, à última hora, um jovem oficial de cavalaria, Joachim Murat, traz-lhe alguns canhões, obtidos no subúrbio. Bonaparte não hesita em fazer fogo sobre a multidão indefesa (mais tarde, ele dirá que limpara as ruas de Paris com um “sopro de metralha”). É uma carnificina, mas que lhe dá ascendência sobre o Diretório. Alguns dias depois, Barras se torna um dos cinco membros do Diretório e Bonaparte é promovido a general de divisão e o substitui no comando do Exército do Interior.

Nesta época, ele é apresentado a Maria Josefa Rosa Tasher de La Pagerie, viúva de um oficial guilhotinado pela Revolução, mãe de duas crianças (Hortênsia e Eugênio) e ex-amante de Barras (e de muita gente importante mais). Ela consegue ser apresentada a ele, mas é completamente pega de surpresa quando o general se apaixona por ela e a pede em casamento. Um tabelião, amigo de Josefina (assim Bonaparte a chamava, por não gostar do nome Rosa), desaconselha aquela união, pois o pretendente, a seu ver, é “apenas mais um desses generais sem comando, que só de seu têm a espada e o manto” . Barras, porém, mostra-se encantado com a idéia de livrar-se de sua ex-amante e a estimula a desposar o general magriço e petulante (como presente de casamento, acena com a chefia do Exército da Itália). Bonaparte é nomeado em 2 de março de 1796, casa-se com Josefina uma semana depois e, passados alguns dias, assume seu novo posto.
A República da França está envolvida em mais uma guerra contra a Áustria, que domina a Europa central e o Norte da Itália. Incumbe ao exército chefiado por Bonaparte a função secundária de atrair alguma atenção dos austríacos, cabendo ao corpo principal das forças republicanas, a Oeste, a tarefa de derrotá-los.
As aparências são de que Bonaparte não possa conseguirá sequer cumprir seu papel de coadjuvante: ele comanda um exército Brancaleone de 40.000 homens mal nutridos, mal vestidos e mal equipados, sem nenhum moral; seu próprio general conta apenas 24 anos de idade e só participou do cerco de Toulon.
Desenvolvendo uma atividade espantosa, porém, ele arrasta seus soldados e vence em o exército austríaco do general Beaulieu, mais numeroso e melhor equipado, em Montenote, Lodi e Arcole. A seguir, vence o exército sardo nas batalhas de Millesimo e de Mondovi em abril de 1796. Os sardos pedem um armistício, assinado em Cherasco, em 28 de abril de 1796. Em 18 dias, dois exércitos são vencidos em cinco batalhas: Bonaparte começa a fazer-se respeitado por suas tropas e a tornar-se popular na França.
Do lado austríaco, Beaulieu é substituído por Wurmser, que será batido por Bonaparte nas batalhas de Castiglione (agosto de 1796) e Bassano (setembro de 1796). Wurmser é, por sua vez, substituído por Alvinczy, que será derrotado na batalha de Arcole (novembro de 1796). Em janeiro de 1797, Alvinczy retorna à Itália com um exército de 45.000 homens e é vencido de novo na batalha de Rivoli (janeiro de 1797), sendo obrigado a capitular em 2 fevereiro de 1797. Na primavera, Bonaparte vence o exército austríaco do arquiduque Carlos em Tagliamento (março de 1797), depois na batalha de Tarvis (abril de 1797) e outra vez na batalha de Neumarkt (abril de 1797). Depois desta última derrota, os austríacos pedem um armistício. A Áustria, representada pelo arquiduque Carlos, negocia um tratado desfavorável em Campo-Formio em outubro de 1797. O exército de Bonaparte fizera o que o corpo principal do exército francês não conseguira: vencera a guerra.

Nesta campanha, Bonaparte capturou 160.000 prisioneiros, tomou 2.000 canhões e 170 bandeiras. Em um ano de lutas, quebrara as regras da estratégia então vigentes e deu início a uma nova era da história militar. Sua notável série de triunfos resultou de sua habilidade em aplicar um conhecimento verdadeiramente enciclopédico dos assuntos militares a situações reais. Durante a campanha da Itália, Bonaparte utilizou (como os outros generais da Revolução) o primeiro sistema de telecomunicações do mundo, o semáforo de Chappe. Era também um mestre tanto no uso da espionagem e dos ardis, bem como demonstrava ser possuidor de um incomum instinto para saber onde, quando e como atacar. Sua estratégia repousa em princípios simples: atrair o inimigo a um terreno escolhido, identificar um ponto débil em suas linhas e concentrar com habilidade o ataque neste ponto, dividindo as forças adversárias para batê-las uma de cada vez. A tática era também simples: uma nuvem de soldados atirando a esmo progredia sem ordem definida, esgotando o inimigo pelo fogo cerrado. A infantaria atacava então, abalando as linhas inimigas pela massa. A cavalaria era usada para romper as forças inimigas em pedaços e perseguir os fugitivos. A celeridade era considerada por Bonaparte como elemento essencial: segundo ele, a rapidez nas manobras permitia multiplicar “massa por velocidade”.
Na Itália, Bonaparte toma consciência de seu poder. O sucesso nos campos de batalha garante-lhe enorme popularidade, tanto na Itália quanto na França: ele cria uma pequena corte se forma a seu redor em Milão. Em 1797, por intermédio do general Augereau, Bonaparte organiza uma manobra política que lhe permite afastar muitos realistas do poder em Paris e preservar a república jacobina.

Ao voltar da Itália, em outubro de 1797, Bonaparte persuade o Diretório a levar a guerra ao Egito, de onde ele imagina poder cortar à Grã-Bretanha o domínio sobre a Índia; o Governo já lhe teme a popularidade e aceita a idéia. Em 23 fevereiro de 1798, o projeto é apresentado a Barras. Em abril, é criado o Exército do Oriente, colocado sob as ordens de Bonaparte, que decide que a expedição será cientifica, ademais de militar. Assim, integrarão a expedição matemáticos, engenheiros, astrônomos, químicos, farmacêuticos, médicos, mais de 150 cientistas das mais diversas áreas do conhecimento (durante esta campanha será descoberta a Pedra de Rosetta, que será o ponto de partida para a decifração dos hieróglifos por Jean-François Champollion; como um todo, a expedição científica será muito mais importante que a militar).
Em 19 de maio de 1798, Bonaparte deixa Toulon com o grosso da frota francesa e consegue escapar à perseguição da frota britânica de Nelson. Em 10 e 11 de junho de 1798, os franceses tomam Malta, pois Bonaparte tem necessidade de assegurar as comunicações ulteriores com a metrópole. Em 19 de junho, depois de haver deixado uma guarnição de 3.000 homens no lugar, a frota se dirige a Alexandria, aonde chegará em 1° de julho e que será tomada em 2 de julho, depois de uma curta resistência.
Bonaparte deixa 3.000 homens em Alexandria e começa a subir o Nilo. O primeiro combate verdadeiro acontece em Chebreïs em 13 de julho, onde os cavaleiros mamelucos são facilmente derrotados, graças ao uso da artilharia. Em 21 de julho, ocorre a batalha das Pirâmides de Gizeh, quando Bonaparte vence outra vez o exército dos mamelucos (reza a lenda que, antes desta batalha, Napoleão teria dito a suas tropas: “Soldados, daquelas pirâmides quarenta séculos vos contemplam”, mas, ao que tudo indica, as pirâmides não são visíveis do local onde se travou o combate). Em 24 de julho, Bonaparte e seu exército entram no Cairo. Em 1° e 2 de agosto, um desastre: a frota francesa é quase inteiramente destruída em Aboukir pelos navios de Nelson. Por conseqüência, os britânicos dominam o Mediterrâneo e Bonaparte torna-se prisioneiro de sua conquista. Em 9 setembro, encorajados por esta derrota, os turcos declaram a guerra à França.
Bonaparte manda o general Desaix perseguir Murad Bey até o Ato Egito, completando assim o domínio do país. Estimulados pelos ingleses e pelos turcos, os mamelucos sobreviventes sublevam a população do Cairo contra os franceses em 21 de outubro de 1798. A rebelião é impiedosamente reprimida: Bonaparte restabelece a situação pelo terror, mandando decapitar um enorme número de insurgentes, expondo suas cabeças à multidão e bombardeando a Grande Mesquita do Cairo. Por fim, com a decretação de anistia geral, a calma retorna.
Em 1799, o Sultão envia tropas para combater os franceses. Em 10 de fevereiro, Bonaparte deixa o Cairo com o seu exército e bate os turcos em El-Arich e Gaza, na Palestina. Em 7 de março, a cidade de Jafa é tomada e pilhada pelos franceses; declara-se no exército francês a peste (doença infecciosa causada pela bactéria Yersinia pestis). Em 19 de março, Bonaparte sitia sem sucesso a fortaleza de São João d’Acre. Em 13 de abril, os cavaleiros de Junot põem em fuga os cavaleiros otomanos na batalha de Nazaré e, em 16 de abril, na batalha do monte Tabor, Bonaparte e Kléber esmagam o exército enviado pelo Sultão para aliviar o assédio a São João d’Acre. Napoleão determina que os soldados franceses doentes sejam mortos por meio de ópio, mas o médico-chefe da expedição, René-Nicolas Dufriche, barão Desgenettes, recusa-se a cumprir tal ordem. Diante disto, Napoleão determina o transporte dos doentes para Jafa. Quando o exército francês é obrigado a deixar a cidade, Napoleão consegue que seu farmacêutico-chefe ministre láudano (um derivado do ópio) aos doentes em estágio terminal (há quem atribua a morte destes homens a um incêndio).
De volta a Acre, Bonaparte tenta em vão, de 24 de abril a 10 de maio, tomar a cidade; assim, em 17 de maio de 1799, decide abandonar o cerco e retornar ao Egito. Seu objetivo era invadir o Oriente Médio, chegar à Índia (então colônia britânica), dominá-la e reentrar na Europa por terra, à frente de um exército multinacional. Em 14 de junho, chega ao Cairo e, em 25 de julho, bate os turcos na batalha de Abukir.
Neste momento, o Diretório, temeroso de uma invasão da França após uma série de derrotas impostas pela Segunda Coalizão, ordena-lhe a volta à França. Bonaparte, que não dispunha de nada mais que um exército enfraquecido e doente, tendo perdido sua marinha, deixa o comando do exército do Egito ao general Kléber e retorna (Kléber se mostrará um excelente administrador e, em 20 de março de 1800, vencerá os turcos na batalha de Heliópolis. Esta vitória permitirá à França conservar o Egito, mas Kléber morrerá assassinado, em 14 de junho de 1800, no Cairo, no mesmo em que Napoleão vencerá a batalha de Marengo. O sucessor de Kléber, o general Menou, capitulará em 31 de agosto de 1801, diante das forças turco-britânicas depois de haver perdido 13.500 homens, principalmente vítimas das epidemias. Depois da Paz de Amiens, os soldados franceses restantes serão repatriados em navios ingleses).
Napoleão desembarca em Fréjus em 9 de outubro de 1799, após haver outra vez escapado por milagre à esquadra britânica durante os 47 dias da travessia. No caminho que o leva a Paris, ele é aclamado pela população.