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Simão Bolívar

1783-1830

Simão Bolívar
Simão Bolívar

General e estadista venezuelano, um dos maiores vultos da América Latina, chefe das revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.

Herói de mais de duzentas batalhas, recebeu o título de “O Libertador”, conferido pelos parlamentos dos países por ele libertados do jugo espanhol e deu nome à Bolívia. Com a guerra civil de 1829, a Venezuela e a Colômbia separaram-se; o Peru aboliu a Constituição bolivariana, e a província de Quito tornou-se independente com o nome de Equador.

Grande orador e escritor de mérito, deixou alguns ensaios, entre os quais Meu delírio no Chimborazo. Foi um homem muito avançado para a sua época, escreveu sobre sociologia e pedagogia, além de tratados militares, econômicos e políticos.

Simon Bolívar teve ao seu lado, em vários combates, o brasileiro José Ignácio Abreu e Lima, filho do Padre Roma (também Abreu e Lima), fuzilado pelos portugueses durante a Revolução de 1817, em Salvador.

Fonte: www.camara.gov.br

Simão Bolívar

Retrato de Simón Bolívar pelo pintor José Gil de Castro.
Retrato de Simón Bolívar pelo pintor José Gil de Castro.

Libertador: 1783 - 1830

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1783: Nasce em Caracas.

1794: Samuel Robinson transmite a Simón Bolívar os ideais libertários da Revolução Francesa.

1800: Vai para Madrid.

1804: Vai para Paris.

1805: No Monte Aventino jura libertar a América do Sul do domínio espanhol.

1810: Com Miranda, participa na Junta do Governo que proclama a independência da Venezuela.

1813: Entra em Caracas, é proclamado «Libertador».

1815: Publica a Carta a um Cavalheiro da Jamaica.

1817: Toma Angostura.

1819: O Exército da Libertação atravessa os Andes.

1821: Proclamação da Grã-Colômbia.

1822: Entra em Quito; grande paixão por Manuela Saenz; encontra-se com S. Martin.

1824: Derrota dos espanhóis em Junin.

1825: Constituição da República de Bolívar (Bolívia).

1826: Bolívar convoca o Congresso do Panamá.

1830: Sucre é assassinado em Quito; Bolívar morre, tuberculoso, em Santa Marta.

Memórias apócrifas de Simón Bolívar

INFÂNCIA

Folheio a minha papelada, tudo sepultado há tanto tempo. A minha Mãe, o sorriso, a indulgência. As primas Aristiguietas, a minha primeira farda, Espanha, Paris, o amado e odiado Bonaparte, Roma, Miranda, a travessia dos Andes, o sonho da Grã-Colômbia, San Martin, Sucre, a conferência do Panamá, Manuela feminina e guerreira. Tudo se foi, lavrei o mar, sou quase um velho, estou no fim. Valeu a pena?

Bolívar na Batalha de Arauare em 5 de Dezenbro de 1813, segundo um óleo de T. Salas.
Bolívar na Batalha de Arauare em 5 de Dezenbro de 1813,
segundo um óleo de T. Salas.

Caracas, Maria Antonia, Juana Maria, saias-balão, minhas irmãs a voltear, não param de rir com as minhas diabruras. Simoncito! diz a minha Mãe, nunca mais tomas juízo, não sejas tão rebelde, vais sofrer muito na vida... Não me lembro é do Pai, tinha eu três anos quando morreu. O luto, isso lembro. As pretas a carpir, velas acesas, as meninas a chorar. A Mãe a partir para a herdade, nunca mais há-de voltar, fica maior e apagado o nosso palacete. Juan Vicente, o meu irmão mais velho, alto, silencioso, sempre atrás de mim, adoração. Pensa que sou um santo a saltar do andor. D. Miguel Sanz é que não pára de esbravejar, Simoncito, tu és pólvora. Então, Mestre, fuja que eu vou explodir!

Professores, muitos, corrupio, ninguém me atura. D. Carlos Palacios, meu tio e tutor, descobre um outro, Samuel Robinson, que me obriga a dispensar os meus escravos, ninguém é dono de ninguém, cada qual dono de si. E eu? Para que preciso eu de um mestre? Não sou escravo de ninguém, aprendo sozinho, sou dono de mim. Ri-se. Dá-me a ler o Emílio do Rousseau. Na herdade ensina-me a cavalgar. E a nadar, nus, ele e eu. É mal visto por todos. Vagabundeara pela Europa. Casara com uma índia. Em vez de baptizar as filhas, dera nomes de flores às meninas. Não sei como o tio se decidiu a contratá-lo. Amarinha à copa de um ipê. Segura-se a um ramo com as pernas, abre os braços, Simoncito, a Liberdade é o estado natural do Homem, nem escravos nem senhores, todos livres como pássaros!

Livre? Sou livre, por acaso ? Sou mas é um crioulo. De boa linhagem, sangue branco, mas crioulo desprezado pela Corte. Sangue honesto de moleiro, diz Robinson. Mestre, sois louco? Sangue dos nobres de Espanha! E a mó que está no escudo dos Bolívares? Como explicas? Moleiro, Simoncito, é sangue de moleiro... Fúria, quero matá-lo. Agarra-me os braços. Arrasta-me pela ruas de Caracas. Leva-me ao Arquivo. Folheia catrapázios e poeiras. Lá está a prova: o meu ancestral, o primeiro que veio de Espanha, era realmente um moleiro. Não contenho as lágrimas, vergonha, labéu. Dá-me uma palmada nas costas, anima-te rapaz, é o melhor dos sangues! Tudo fez com o próprio esforço, não precisou de escravos. Mestre, libertemo-nos de Espanha, odeio os espanhóis! Ai odeias? Diz-me lá, Simoncito: e a quem odiarão os pobres índios?

A Liberdade, ai a Liberdade... Em Nova Granada há um levante contra os espanhóis. Robinson está envolvido. Chacinada a maioria dos revoltosos. Os poucos sobreviventes, presos. Entre eles, Samuel Robinson. Mestre Miguel Sanz é quem o safa da pena capital. Consegue até que o deixem fugir e ele desanda para o exílio. Onde o mestre, onde o amigo? Voltarei a vê-lo? Tudo esfumado...

EUROPA, CASAMENTO E MORTE

Milícia, eu garboso, farda vermelha, as donzelas fascinadas. As primas Aristiguietas, uma delas a provocar-me, lábios ardentes, Simoncito quando casamos? De Madrid, meu tio Esteban Palacios manda chamar-me. Escapo ao matrimónio prematuro. Aos dezassete anos desembarco em Espanha.

O caraquenho D. Manuel de Mallo é, por agora, o favorito da rainha. Mulheres, festas galantes, despiques, ameaças de duelo, fausto, embriaguez. Venço Fernando, o príncipe herdeiro, em luta de lanceiros. Aprendi com Samuel Robinson os golpes índios, não há quem possa derrotar-nos. Desarmo o Infante, deito ao chão o seu chapéu, gargalhadas na sala d'armas. Vai queixar-se à mãe. Ela fita-me da cabeça aos pés, devora-me, é apenas um jogo, meu filho. Ciúmes eu tenho de D. Manuel de Mallo... Mas depois as lúbricas alternâncias, Godoy é agora o favorito da rainha. Mallo em desgraça, acusado de traidor. Também o tio Esteban é preso. É a voragem do sarcasmo imperial a sorver os crioulos. O Marquês de Ustáriz e a meiga Maria Tereza del Toro safam-me dos esbirros de Godoy, colocam-me em Paris.

Bonaparte é o primeiro Cônsul. Será ele o Emílio no poder? O clero reduzido a nada. Agora só vale a linhagem do valor, não mais a do sangue. Leio e repudio Maquiavel. Adoro Montesquieu. Por onde andará Samuel Robinson?

Godoy expulso do leito da rainha e já amansa a hostilidade contra os crioulos. Regresso a Madrid. Maria Tereza del Toro sorri, diverte-se com as minhas ideias revolucionárias, arroubos! Tem que ser minha esta donzela, da meiguice quero fazer minha mulher. O Marquês consente e casamos. Embarcamos para Caracas. Festas e mais festas, o despeito das primas Aristiguietas e mais uma contradança. De madrugada Maria Tereza desfalece, febre súbita. Logo expira nos meus braços. A solidão, o desespero, de mim perdido fico.

JURAMENTO

Sete meses depois reparo no olhar de Juan Vicente pairando sobre mim, ansiedade. Abraço-o, choro por fim. Sequei, jamais voltarei a amar. Não voltarei a casar, eu juro. E Manuela? Serei justo com Manuela?

Casamento de Simón Bolívar com Maria Teresa Rodriguez del Toro (Maio de 1802, Madrid).
Casamento de Simón Bolívar com Maria Teresa Rodriguez del Toro (Maio de 1802, Madrid).
Maria Teresa morreria oito meses depois, em Caracas, vítima de febre amarela.

Tenho 21 anos, volto a Paris. Bonaparte conquista a Europa, cai um país atrás do outro, ele é o Herói. Ofereço um banquete em minha casa. Generais, políticos, sacerdotes, poetas, filósofos, mulheres, belas mulheres. Entre elas, Fanny de Villars, esposa de um ancião complacente. Bebo demais e acuso Napoleão de trair a Liberdade. Acuso Bonaparte de só pensar em coroar-se. Acuso-o de fomentar uma polícia secreta. Acuso os oficiais que cegamente seguem o tirano. Causo escândalo. Mesmo assim sou convidado a assistir à coroação. Ele é um deus que admiro e invejo, é um demónio que eu odeio.

Dizem-me que Samuel Robinson está em Viena. Corro para a Áustria, abraço o Mestre, comoção. Agora dedica-se a experiências químicas. A Ciência libertará os homens da miséria. E tu podes libertar os homens da tirania. És rico, dispões de homens e dinheiro e a América precisa de um Libertador.

Outra vez me abrasa Samuel Robinson. Torno a Paris. Os naturalistas Humboldt e Bompland acabam de regressar da América do Sul. Mostram-me as suas colecções de fósseis e plantas. Subiram o Guaviril, o Orinoco e o Rio Negro. Conhecem melhor a Venezuela do que eu. Falam-me da hospitalidade crioula. Não suportam é a arrogância dos espanhóis. Humboldt, fronte alta, olhar límpido, voz pausada, jovem amigo, tenho as maiores esperanças no seu Continente, desde que ele se liberte da tirania espanhola.

Escrevo a Robinson, combino encontro na Itália. Em Milão reunimo-nos com os partidários de Manzoni. Em Roma falamos com M.me. De Stael e Lord Byron. Subimos ao Monte Aventino. Contemplamos a capital. Discorro sobre a história de Roma. Robinson escuta-me em silêncio, ironia vejo eu no seu olhar. Mestre e Amigo: diante de vós, juro pelo Deus dos meus pais, juro por minha honra e por minha pátria que não darei descanso a meu braço nem repouso à minha alma antes de romper os grilhões com que nos oprime o poder espanhol!

MIRANDA

Juramento solene mas depois não me aguento, torno aos braços de Fanny. Já compreendo a ironia no olhar de Robinson... Passa mais de um ano. Acorda-me a guerra entre a França e a Espanha. Desprendo-me, parto.

A Espanha invadida pelos franceses, grande efervescência em Caracas. Em 1806 (estava eu na Europa), Miranda tentara sublevar-se. Falhara, abandonado pelos próprios compatriotas. Exilou-se na Inglaterra. Ele falhou, não falho eu. Junto um grupo de crioulos liberais. Em 1810, após uma breve escaramuça, conseguimos formar a nossa própria Junta de Governo. Sou enviado em missão diplomática a Londres. Tento obter apoio contra eventuais ataques das forças napoleónicas. Lord Wellesley aconselha-nos a união de todo o império espanhol contra a França. A meu lado Miranda sorri, tantas vezes lhe fora prometido apoio contra os espanhóis... Derrubei o chapéu do rei de Espanha. Mas José Bonaparte derrubou-lhe o trono. É a nossa grande oportunidade de independência. Os hispano-americanos não podem continuar a ser simples peões no tabuleiro dos interesses europeus.

Miranda é o militar experimentado que nos falta. Fizera várias das campanhas napoleónicas. Convido-o a regressar comigo. Aceita.

Em campo, troça dos meus galões de coronel. Dispo a farda e ofereço-me como seu soldado raso. Mais tarde, depois de eu entrar em luta e alcançar vitórias comandando homens, devolver-me-á a patente.

É um homem intolerante, perdeu as raízes crioulas. É de todo impossível disciplinar llaneros como Napoleão disciplinara soldados europeus. Não quer entender estas diferenças. Sem dar por isso, fomenta a rebeldia, o desvario das ambições, os crimes, as vinganças e o terror. Desabafa: motins, é só motins...

Somos um povo com classes estratificadas. Os brancos suportam o domínio espanhol porque, em contrapartida, dominam índios e negros. Estes só ambicionam matar a fome. Não temos um objectivo comum. Para os norte-americanos a liberdade da nação significa a liberdade de cada qual. Desde o início trabalharam a terra com as próprias mãos. A honra deles é o trabalho. A nossa, a dos crioulos, é o ócio. Que independência poderemos almejar?

A 5 de Julho de 1811 a Junta Patriótica proclama a independência. Durará um ano, apenas. Metade da Venezuela contra a outra metade. Do Orinoco e Nova Granada afluem espanhóis comandados pelo Gen. Monteverde. Surgem guerreiros sedentos de glória e galões dourados, seja qual for a causa. Em Puerto-Cabello sou traído pelos meus homens, entregam a fortaleza aos prisioneiros inimigos. Peço o auxílio de Miranda. Não acorre, está a assinar um armistício com Monteverde. Anseia ver estendidos à Venezuela os benefícios da Constituição recém-promulgada pelas Cortes de Cádis, quimeras. Avisam-me e corro, a mata-cavalos, para La Guaíra, porto de onde Miranda pretende largar para o estrangeiro. Dou-lhe ordem de prisão. Tropas realistas atacam. Tenho que retirar e Miranda acaba por cair nas mãos dos espanhóis. Morrerá num presídio, em Cádis.

O meu exílio em Curaçao, ilha inglesa nas Caraíbas. Dificuldades, até penúria. Mas não paro de pensar em Miranda. O pai da independência, o traidor final. Motins, é só motins... Bem entendo o seu desencanto.

A SUBIDA DOS ANDES, O LIBERTADOR

Um terramoto arrasara Caracas. Frades ainda pregam nas ruas: quiseram a independência? Este é o castigo de Deus! Venezuela, terror espanhol.

Dou o salto para Cartagena, Nova Granada. Aqui resiste um governo republicano. Do México à Terra do Fogo, essa é a minha pátria. Mas dividida, fragmentada. Aliás como a própria Hespanha, castelhanos, vascos, galegos, portugueses, catalães, cada povo ibérico a querer cuidar do seu destino contra o dos outros. Aprendemos a má lição, herança de fratricidas. Até Nova Granada está cindida em três repúblicas rivais. Só as une o ódio aos espanhóis. Aviso os granadinos: onda espanhola vai chegar à Venezuela, soldados e frades fogem dos exércitos de Bonaparte. E da Venezuela marcharão depois sobre Nova Granada. Libertar agora a Venezuela é garantir a liberdade futura de Nova Granada.

Só o Presidente de uma das três repúblicas me entende e apoia. Reuno 200 voluntários. Em Maio de 1813 tomo, a um destacamento espanhol, as armas que nos faltam. Engrossam as nossas fileiras e começo a subir os Andes, tal como Napoleão escalara os Alpes... Canhões transportados em lombo de mula, neves eternas, o estrondo das avalanches, a respiração cada vez mais difícil. Finalmente a meus pés a planura, os llanos, minha pátria a libertar. De vertente em vertente, somos avalanche contra os espanhóis que tentam barrar-nos. Em Agosto estamos às portas de Caracas, metade da Venezuela já libertada. A outra metade já fora libertada por Santiago Mariño. Nada combinara comigo. Com poucos homens desembarcara na costa de Paria e conquistara a zona oriental da Venezuela. Entro em Caracas, o delírio popular. Dão-me um título: Libertador!

Monteverde está refugiado em Puerto-Cabello. Não consigo tomar a fortaleza. Por duas vezes Puerto-Cabbelo cravado no meu destino... Governo central em Caracas. Mariño não me obedece. Proponho que assuma a Presidência da República. Recusa, primeira fractura. E logo outras, a esperança estilhaçada. Prendem alguns soldados sob a acusação de colaborar com os espanhóis. Sem julgamento prévio são passados pelas armas. Vinganças, contra-vinganças, famílias contra famílias, anarquia. Exércitos de salteadores dispostos a tudo. Intitulam-se realistas, os espanhóis pagam melhor. Mariño e eu somos obrigados a recuar. Já surgem deserções nas nossas fileiras. Agora cada soldado, aproveitando o caos, só pensa em fazer fortuna. Prensados entre o mar e o inimigo, no último instante um corsário italiano garante-nos a retirada. Perdida, pela segunda vez, a independência da Venezuela. Motins, é só motins...

A GRÃ COLÔMBIA

Curaçao e novamente Cartagena. Exerço o poder. Consigo reunir à minha volta a maioria dos granadinos. Logo as invejas, as dissensões, eu apontado como estrangeiro. Motins, é só motins. Desesperançado, abandono o Continente, sigo para a Jamaica. Quatro meses depois Cartagena rende-se ao invasor espanhol.

Bonaparte é derrotado e Fernando VII reconduzido ao trono. A Espanha deixa de ser a aliada natural da Inglaterra. Só esta nação é que nos poderá ajudar a reconquistar a independência. Escrevo uma carta a um inexistente «Cavaleiro da Jamaica». Conto a servidão a que estão sujeitos os hispano-americanos. Comovo a opinião pública. Peço ajuda financeira para a nossa luta pela independência. Os espanhóis entendem o perigo. Em Caracas contratam um escravo a quem eu dera alforria. Embarca, chega à Jamaica e tenta assassinar-me.

Procuro refúgio junto de um outro ex-escravo, Pétion, presidente do Haiti. Ampara-me, a ideia de libertação comove-o sempre. Conta-me histórias de Toussaint L'Ouverture, o Napoleão Negro que chefiara a luta dos escravos do Haiti até à independência.

Falho uma primeira tentativa de desembarque na Venezuela. Não falho a segunda. Em Janeiro de 1817, à frente de setecentos homens, novamente piso o solo pátrio. Não voltarei a abandonar o Continente.

Quatro anos de combates. Mariño e Piar tomaram Angostura. Pequenos ditadores locais, conspiram contra a minha autoridade centralizadora. Piar abotoa-se com avultada soma de impostos e retira-se de Angostura. É um herói combatente, por isso espera a impunidade. Mando perseguir, prender, julgar e fuzilar Piar. Desta vez não cedo, não há contemplações, não há cavalheirismos, é mão-de-ferro. Melhor entendo Napoleão. Releio Maquiavel.

Saindo da Argentina, o Gen. San Martin sobe o Continente em campanha vitoriosa contra os espanhóis. Remeto-lhe missiva entusiasta. Convido-o a forjar comigo a unidade da América meridional.

Mando um pequeno destacamento a Nova Granada. Os meus soldados anunciam vitórias que gostaríamos de ter mas não tivemos ainda. Entusiasmo, Nova Granada adere à ideia de libertação global.

Em 1818 fundo um jornal revolucionário. Na imprensa inglesa espalho a ficção das nossas vitórias decisivas sobre o exército de Morillo, o espanhol. Em breve reúnem-se a nós 300, depois 1000 e finalmente 6000 voluntários britânicos. Reinicio a leitura de Maquiavel. Cada vez estou mais sozinho.

Paez é meu lugar-tenente. Arregimentara contra o espanhóis os mesmos llaneros que tinham liquidado a nossa segunda República. Um coronel inglês propõe proclamá-lo Chefe Supremo da Revolução. Paez hesita, entusiasma-se, volta a hesitar. Lembra-se do que acontecera a Piar. Denuncia-me o plano. Desterro o inglês e nomeio Paez chefe da cavalaria. Fica satisfeito. Já posso dedicar-me a escrever a Constituição e a organizar o Congresso. Em Janeiro de 1819 reuno 29 deputados em Angostura. Durante o meu discurso vem-me à memória a coroação de Bonaparte em Roma. Proponho a eleição de um Senado hereditário (como a Câmara dos Lordes inglesa) e a eleição de um Presidente vitalício. Consigo apenas que o Senado passe a vitalício e o Presidente a elegível. Em contrapartida é aprovada a fusão da Venezuela e Nova Granada num único Estado ao qual é dado o nome simbólico de Grã-Colômbia. Há que defender esta unidade. Outra vez escalo os Andes, mas agora de leste para oeste. A surpresa é a nossa grande aliada. Derrotamos os espanhóis em Boyacá. O Vice-rei de Nova Granada, em fuga, abandona na capital meio milhão de pesos de prata.

Em Cartagena sou aplaudido. Mas em Angostura o Senado conspira contra mim. Ali surjo de repente. Não como acusado, mas como acusador. Não permito que outra vez estilhacem a independência, motins, é só motins... Assumo poderes ditatoriais. Lembro-me do banquete em Paris, eu a acusar o tirano Bonaparte...

A conquista de Nova Granada decide a guerra. Em 1820 o Gen. Morillo propõe um armistício e reconhece a nossa independência. Em consequência, renuncio aos meus poderes ditatoriais. A renúncia é aceite pelo Senado, precipitadamente... Melancolia, o pior irá acontecer.

MANUELA E SAN MARTIN

E acontece. O Senado retira direito de voto a índios e negros. Estúpidos! Os senadores passaram a ser elegíveis. Recomeça o conflito de interesses, a politicagem, o voto de cabresto. Estúpidos, estúpidos! Mas sou ainda o Chefe do Exército. Missão maior espera por mim. Missão? Ou Manuela? Ambas, sei hoje que ambas! Vou ao encontro de San Martin. Com O'Higgins libertara o Chile e agora avança pelo Peru. Marcho sobre Quito. Sucre, o meu fiel tenente, com um punhado de homens toma a antiquíssima capital dos Incas. Entro na cidade, aplausos ao Libertador, sinos e flores, Manuela Saenz numa varanda. Danço com ela até de madrugada, finalmente a paixão a chamuscar o solitário. Manuela monta, esgrime e dispara como o mais hábil dos meus oficiais. Chegará a comandar a repressão de sediciosos. Vestida com o uniforme de dragão, acompanhar-me-á em campanhas. Com sangue-frio, durante um atentado, salvar-me-á a vida em Bogotá. Também nas lides de amor luta comigo de igual para igual, ardemos. Escreve ao seu marido, um sombrio médico inglês: Meu caro, agradeço o seu perdão e declaro que, na pátria celestial, ambos poderemos levar uma vida angélica; mas a terrena pertence-me inteiramente, só para poder ser a amante do Gen. Bolívar. Graceja com o povo nos mercados, brinca com as sentinelas do palácio, sabe Tasso e Plutarco de cor, domina qualquer reunião. Os meus oficiais são como seus escravos.

Escrevo ao taciturno San Martin. Convido-o para uma conferência em Guayaquil e logo avanço sobre a cidade. Hasteio o pavilhão da Grã-Colômbia, fica evidente o meu programa. A população recebe-me com desconfiança. Espero 14 dias por San Martin. Aproveito-os para me desdobrar em discursos inflamados, comícios, festas, bailes, ditos de espírito, gentilezas. Preparo uma recepção triunfal ao Libertador do sul, mas já sou eu o vencedor. Não tem uma visão alargada, é tacanho, é hesitante. À sua volta há conspiradores activos e ele hesita em cortar as suas garras. Não nos entendemos politicamente. O primeiro ponto de fricção é Guayaquil. Vamos a votos! proponho. Não pode recusar e a população vota por mim. San Martin receia a liberdade, a democracia, a confederação das repúblicas sul-americanas e acaba por renunciar à vida política. Gen. Bolívar, o tempo e os acontecimentos futuros dirão qual de nós viu o futuro com maior clarividência. Retira-se para o estrangeiro. Era um homem íntegro, um patriota, um mau político. E o que serei eu? O que dirá de mim, o futuro?

ESTILHAÇOS

Em 1 de Setembro de 1823 entro em Callao, Peru. Acabo com o banditismo, drasticamente. Requisito o ouro das igrejas, organizo escolas. Pesadelos, só vejo sombras. Manuela tenta apaziguar-me mas da Grã-Colômbia chegam notícias da iminência de uma guerra civil. Última resistência dos espanhóis. Vencemo-los na batalha de Junin, em 6 de Agosto de 1824. Venezuelanos, granadinos e peruanos, lado a lado. Será, por fim, a unidade? Sempre aclamado como Libertador, marcho para o sul até à montanha de prata do Potosi. O Alto Peru proclama-se República independente. Em minha homenagem dão-lhe o nome de República de Bolívar. Querem-me para presidente, indico-lhes Sucre. Para não ter que fuzilar oficiais conspiradores, antigos companheiros de luta, demitir-se-á pouco depois. Motins, é só motins...

Pormenor de um quadro que mostra Simón Bolívar no seu leito de morte (17 de Dezembro de 1830).
Pormenor de um quadro que mostra Simón Bolívar
no seu leito de morte (17 de Dezembro de 1830).

Em 1826 convoco o Congresso do Panamá. Entre o Atlântico e o Pacífico, canal que ali seja aberto pode encurtar as distâncias do mundo. Possa o istmo do Panamá ser para nós o que foi para os gregos o istmo de Corinto! Talvez o Panamá seja um dia a capital da Terra. Por agora, quero a América para os americanos, como bem o disse Monroe. Quero a sua neutralidade ante as guerras europeias, não somos peões de mais ninguém. Quero as nossas legislações nacionais subordinadas ao Direito Internacional. Quero a abolição da escravatura. Quero a organização democrática dos Estados americanos. Quero que sejam federais os exércitos e as frotas do nosso Continente. Quero, quero... Queria, mas desastre! O Brasil recusa-se a comparecer. Ausência da Argentina porque não a ajudámos na guerra contra o Brasil. O Chile inventa desculpas. Presentes apenas os delegados da Grã-Colômbia, do Peru, da Guatemala, do México e dos Estados Unidos. Os norte-americanos fingem preocupar-se apenas com o direito marítimo, o principal é iludido. Bem sei o que eles desejam: não querem uma América Latina fora da hegemonia de Washington ou de Londres. E os hispano-americanos, por desleixo ou ingenuidade, não conseguem ver que já está a ser sabotada a nossa independência nascida ontem. Desastres, é só desastres...

Agitação, tentativas de separatismo na Grã-Colômbia. Sucre, o meu fiel Sucre, assassinado em Quito. Um general peruano invade Guayaquil e declara guerra à Grã-Colômbia. Paez quer autonomizar a Venezuela. Tenho que impor outra vez a ditadura para tentar salvar a liberdade. Cansado estou. Lavrei o mar, apenas me limitei a lavrar o mar. Aprendemos a má lição, herança de fratricidas.

Vou morrer com a Grã-Colômbia. A tísica devora os meus pulmões. O nosso palacete de Caracas, Simoncito não sejas tão rebelde, vais sofrer muito na vida. Robinson amarinhado num ipê, nem escravos nem senhores, todos livres como pássaros! Maria Tereza del Toro, a meiguice a morrer nos meus braços. Onde está Juan Vicente? Napoleão, o amado, o odiado, mas depois Maquiavel. Miranda, o desencanto, motins, é só motins. Nós a descer os Andes como avalanche. San Martin a partir para o estrangeiro e amanhece sobre Cartagena. No Congresso do Panamá fui como aquele grego que pensava poder dirigir uma batalha naval plantado no alto de um rochedo... Também eu já deveria ter partido para o estrangeiro. Mas não tenho dinheiro para a viagem, gastei-o todo atrás de um sonho. Por que tarda tanto Manuela?

Fim das memórias apócrifas de Simón Bolívar

PROCLAMAÇÃO

Simón Bolívar falece em Santa Marta a 17 de Dezembro de 1830. Deixa uma última proclamação que remata assim:

Colombianos! A minha última vontade é a felicidade da pátria. Se a minha morte contribuir para o fim do partidarismo e para a consolidação da União, baixarei em paz à sepultura.

Fonte: www.vidaslusofonas.pt

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