O plano das relações internacionais tem sido objeto de análise e acalorados debates, principalmente depois da década de 1970, com o chamado fenômeno da ‘globalização’. Desde o surgimento dos primeiros estados-nações até o atual fortalecimento de mercados financeiros transnacionais, questões como a da identidade de um povo e questões sobre a dominação cultural, econômica e política de um povo sobre outro estarão sempre nos exigindo respostas, mesmo que provisórias.
Os movimentos de descolonização, da América (séc. XVIII) e da África e Ásia (séc. XX), nos deixaram lições de erros e acertos que muitas vezes nos esquecemos. Lutas sangrentas e manobras políticas predominaram na história de vários destes movimentos de independência. Mas, as formas de resistência foram muitas e os súditos daqueles impérios não aceitavam mais a condição de súditos leais e lutaram para, enfim, conquistar a condição de membros de uma nação.
Queremos destacar a ação política de um homem que, se tivesse vivido em outra época, em que não existisse fotografia, cinema e gravações, não o trataríamos senão como uma lenda. Queremos contrapor à obsessão da sociedade moderna pela "verdade" histórica ditada pelos meios de comunicação, em grande parte das vezes controlada por grupos dominantes, a busca de uma ressonância com a verdade interior - busca da verdade.
Não é nosso objetivo, nos limites destes trabalho, fazer uma análise da vida de Gandhi e da luta pela independência do povo indiano, mas, antes, lembrar-mo-nos de valores e estratégias para lidarmos com a violência e sua cotidiana ameaça e, também, com suas formas mais sutis e eficazes. Para isso escolhemos usar como exemplo alguns eventos que marcam a trajetória de Gandhi.
Dentre os inúmeros movimentos de descolonização, a independência da Índia se destaca pela liderança de Gandhi, sua filosofia e método de ação. Quando Gandhi desenvolveu sua filosofia de não-violência, ele não encontrava uma palavra para defini-la em inglês e então decidiu usar a palavra sânscrita satyagraha. Satya pode ser traduzida como verdade e agraha como busca, assim podemos entender satyagraha como a busca da verdade.
"‘Satyagraha’, escreveu Gandhi, ‘é a reivindicação da verdade não pela inflição do sofrimento ao opositor, e sim ao próprio eu.’ O opositor deve ser apartado do erro pela paciência e pela simpatia. Apartado, não esmagado. A satyagraha assume uma interação benéfica e constante entre os interlocutores, tendo em vista a sua reconciliação final. A violência, os insultos e a propaganda superacalorada obstruem o caminho para essa finalidade." (Fischer, 1984)
A busca de Ganhi pela verdade durou toda sua vida. Sua autobiografia tem o subtítulo "meus experimentos com a verdade". Ele equacionava verdade com Deus, Deus era a verdade. Esta busca pela verdade não deveria ser isolada, mas social. Ele dizia: "Eu quero encontrar Deus, e para isso, devo procurá-lo junto a outras pessoas. Não acredito que eu possa encontrar Deus sozinho. Se eu pudesse, correria para alguma caverna dos Himalaias". A verdade não era algo que Gandhi possuia, mas algo que ele buscava.
A filosofia de Satyagraha não é simples de ser compreendida num sistema de valores ocidentais. A inflição de sofrimento ao eu não deve ser confundida com masoquismo, mas compreendida como coerente com o princípio de não infringir dor ao Outro.
"O que quer que façam conosco, não iremos atacar ninguém nem matar ninguém; estou pedindo que vocês lutem, que lutem contra o ódio deles, não para provocá-lo. Nós não vamos desferir socos, mas tolerá-los, e através do nosso sofrimento faremos com que vejam suas próprias injustiças e isso irá ferí-los, como todas as lutas ferem, mas não podemos perder, não podemos... Eles poderão torturar meu corpo, quebrar meus ossos, até me matar, então terão meu corpo inerte, mas não a minha obediência" (Gandhi)
Iremos apresentar algumas situações concretas onde estão explícitas as relações de poder existentes, do governo inglês sobre o povo indiano, e a forma de resistência escolhida por Gandhi.
Satyagraha começou a ser utilizada por Gandhi na África do Sul. Ele havia passado pelo curso de Direito na Inglaterra e trabalhava para uma empresa indiana neste país africano. Um momento significativo para o desenvolvimento da satyagraha foi quando ele viajava para Pretória, capital do Transvaal, para uma demanda judiciária. Ele viajava a noite, num compartimento de 1a classe, quando um homem branco entrou no compartimento e exigiu que os funcionários da estrada de ferro ordenassem que Gandhi fosse para um vagão de bagagens. Ele protestou, mostrando sua passagem de 1a classe. Apesar disso, ele foi expulso e jogado fora do trem na estação seguinte.
Gandhi tinha ido para a África do Sul para trabalhar por um ano. Depois deste episódio no trem, ele permaneceu na África do Sul por 21 anos. Esse evento se tornou, para Gandhi, um símbolo da injustiça que ele sofria e, principalmente, da injustiça sofrida pelo povo indiano. E ele não podia aceitar isso passivamente. Sua resistência, e do povo indiano, devia ser ativa.
Logo após esse evento, Gandhi iniciou sua campanha de desobediência civil não-violenta na África do Sul, conseguindo mudar a legislação discriminatória contra o povo indiano e conquistando até mesmo o representante da autoridade britânica naquele país, o General Smuts, que por ocasião do 70o aniversário de Gandhi, 25 anos depois, escreveu que homens como Gandhi
"‘(...) nos redimem de uma sensação de lugar-comum e de futilidade, e constituem uma inspiração para nós, a fim de não nos cansarmos de fazer o bem... Foi meu destino ser o antagonista de um homem pelo qual, mesmo naquela época, eu nutria o mais elevado respeito (...) Para mim - defensor da lei e da ordem - o que houve foi a costumeira situação difícil, o ódio de aplicar uma lei que não gozava de forte apoio popular, e, finalmente, a derrota, quando a lei foi revogada’". (Gal. Smuts apud Fischer, 1984)
Depois de sua vitória na África do Sul, Gandhi retornou a sua terra natal. Ele já não podia viver uma vida comum de advogado num país estrangeiro enquanto a Índia muito sofria com as imposições inglesas.
Uma das mais impressionantes manifestações que Gandhi liderou na campanha pela autonomia da Índia é conhecida como a Marcha do Sal. Em 1930, Gandhi e outros líderes indianos declararam total independência da Inglaterra. Para reforçar essa declaração junto ao povo indiano e às autoridades britânicas, Gandhi deveria liderar uma grande campanha de desobediência civil. Ele escreveu uma carta para o Vice-rei Lorde Irwin informando que iria quebrar a lei do sal, um gesto que poderia parecer, no mínimo, bizarro para o Lorde Irwin. Mas, a lei britânica declarava ser crime passível de punição a posse de sal não adquirido do monopólio governamental desse produto. As taxas devidas ao governo pelo sal pesavam muito mais sobre o indiano pobre que sobre o rico e era principalmente por esse homem pobre que Gandhi lutava pela independência da Índia, desafiando a lei do sal.
E Gandhi não fez simplesmente isso. Ele, que a esta época tinha setenta e um anos de idade, percorreu a distância de mais de trezentos e setenta quilometros em vinte e quatro dias, concentrando todo o país em seus movimentos dizendo "Prestem atenção! Eu darei um sinal à nação" (Gandhi apud Fischer, 1984). Por todo o caminho, em cada aldeia que passava, os camponeses acompanhavam a comitiva e participavam de reuniões populares nas quais Gandhi e outros exortavam a população a fazer e usar tecidos de fabricação doméstica (e não tecidos importados da Inglaterra) e a abandonar o álcool e o ópio (fontes de impostos britânicos).
Todo esse movimento foi importante para a construção do sentimento de identidade da nação indiana e a mobilização para as ações populares que se sucederam. A Índia fervilhava em revolta, furiosa porém pacífica e nada menos que sessenta mil pessoas foram presas. E a despeito dos espancamentoe e das prisões, o povo continuou em estado de não-violência, pois sabiam que Gandhi renunciaria a ele se assim não fosse.
"‘Nada, a não ser a não-violência organizada pode conter a violência organizada do governo britânico... Essa não-violência será concretizada na desobediência civil... Minha ambição é, nada menos, a de converter o povo britânico por meio da não-violência e assim induzi-lo a ver o dano que tem causado à Índia’". (Gandhi apud Fischer, 1984)
A estratégia da Inglaterra para manter seu jugo sobre a Índia não diferia muito da estratégia para outras colônias. Para evitar que a colônia se revoltasse contra a metrópole, esta deveria dividir a população local e fazer com que continuassem sempre em luta entre si. Gandhi sabia disso e desde sua volta a Índia ele trabalhou para o desenvolvimento de uma nova subjetividade indiana. Para ele, a verdadeira liberdade da Índia significava o surgimento de um indivíduo indiano livre e novo, um indivíduo que abolisse as diferenças entre as castas, principalmente a que separava os intocáveis (párias na sociedade indiana) e um indivíduo que fosse tolerante à diversidade religiosa existente na Índia.
Ao longo de toda a luta pela independência da Índia, Gandhi agia com a atenção voltada para o povo indiano com o objetivo de diminuir estas distâncias. Jejuou muitas vezes contra a violência entre hindus e mulçumanos. Jejuou outras tantas e liderou campanhas de arrecadação em favor dos intocáveis. Mesmo com a concretização da independência e a divisão da Índia, Gandhi continuou trabalhando para que essa injustiça e intolerância deixassem de existir.
O sucesso de Gandhi na luta não-violenta contra o colonialismo britânico é visto como uma anomalia em um mundo que considera a violência e as relações de poder hard como as principais forças motrizes da história. Apesar de Gandhi ser admirado por muitos, seus métodos não são considerados importantes pelos cientistas políticos de nossos centros acadêmicos ocidentais. Acredita-se que o que Gandhi conseguiu foi único, restrito a sua época, lugar e pessoa.
Por outro lado, percebe-se que vários movimentos que tiveram lugar na segunda metade do século XX tiveram suas idéias baseadas no modelo lançado pelo movimento social liderado por Gandhi. O movimento pelos direitos civis liderado pelo Reverendo Martin Luther King, Jr. nos Estados Unidos da América é um claro exemplo disso. Luther King, Jr. era um admirador da filosofia de não-violência de Gandhi e conheceu seus seguidores em uma viagem a Índia, acabando por se convencer que a resistência não-violenta era a arma mais poderosa nas mãos das pessoas oprimidas em sua luta pela liberdade.
Vários outros movimentos políticos endossaram e praticaram em algum grau a estratégia da não-violência. Mesmo que esses movimentos não tivessem a consciência de estarem seguindo o modelo colocado por Gandhi, características de suas ações políticas em alguns momentos apontam para a teoria e prática desenvolvida por ele. Podemos citar alguns exemplos desses movimentos, como a Revolução Iraniana (década de 1970), o Poder do Povo nas Filipinas (1986), o Solidariedade na Polônia e o Charter 77 na Tchecoslováquia, a primeira Intifada na Palestina (final dos anos 1980) e os movimentos pró-democracia na China (final dos anos 1980). Não vamos discorrer sobre esses movimentos e apenas indicaremos o artigo do professor Richard Falk, da Universidade de Princenton, citado na bibliografia do presente trabalho.
Mas, o que distingue o movimento de Gandhi era sua total confiança na não-violência para desafiar, desmantelar e transformar uma inteira estrutura de poder e autoridade, e para cumprir esse objetivo, tinha sua base em uma massiva mobilização de um povo desarmado, muitos dos quais treinados para suportar violência sem revidar.
Com toda a violência presente no mundo em escala global e local, poderíamos pensar que a aplicabilidade do pensamento de Gandhi em nosso tempo é utópica. Mas, cada vez mais pessoas têm percebido que a guerra é ineficaz como instrumento político e mais ainda, que a violência raramente obtem sucesso nem como estratégia para transformação, nem para manter controle social.
A ação política de Gandhi estava firmemente baseada em valores éticos e humanos que transcendiam sua época e grupo social. Ele dizia: "‘Os homens dizem que eu sou um santo, perdendo-me a mim mesmo em política. O fato é que eu sou um político fazendo o máximo possível para ser um santo’" (Gandhi apud Fischer, 1984). Sua religião se caracterizava pela tolerância, pelo respeito às outras pessoas. Ele incentivava os cristãos a serem bons cristãos, muçulmanos, hindus e judeus a serem verdadeiros religiosos. E dizia a respeito de sua própria fé: "‘A não-violência é o artigo número um de minha fé - e é também o último artigo de meu credo’" (Gandhi apud Fischer, 1984).
Fonte: www.geocities.com