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Índia Antiga

 

Origens históricas da Índia

Quando Alexander Cunningham chegou pela segunda vez a Harappa, durante o inverno de 1873, as pesquisas arqueológicas sobre a Índia ainda engatinhavam. Vinte anos antes, ele fora nomeado diretor da recém-fundada Sociedade Indiana de Arqueologia e visitara aquele sítio arqueológico, conjunto de construções de tijolos cozidos em vias de desintegração, que se estende ao longo de quatro quilômetros às margens do rio Ravi, um dos cinco afluentes do Indo na região do Pendjab.

Ele ficara sabendo da existência da antiga cidade de Harappa por meio do diário de um desertor do exército britânico, que adotara o codinome Charles Masson. Esse homem havia descoberto o lugar em 1826, durante suas peregrinações através do Pendjab, região coberta de florestas e pântanos, situada a noroeste do Paquistão.

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Se a descrição de Harappa feita por Masson correspondia ao que Alexander Cunningham encontrou em 1853, já não seria a mesma vinte anos depois. Em 1873, com efeito, já não havia nenhum sinal da cidadela, pois os operários que tinham trabalhado na construção da estrada de ferro entre Lahore e Multan haviam utilizado os tijolos de barro cozido como lastro para assentar os dormentes.

Um levantamento da via férrea permitiu concluir que foram retirados de Harappa e de outras ruínas antigas adjacentes tijolos em quantidade suficiente para proporcionar lastro para 160 quilômetros de linha. Cunningham empreendeu algumas escavações, na tentativa de salvar o que restava da cidade de Harappa. Mas, infelizmente, devido ao estado lamentável em que se encontrava o lugar, as pesquisas logo tiveram de ser interrompidas.

Os arqueólogos fizeram uma única descoberta digna de interesse: um sinete quadrado de esteatita, do tipo usado pelos antigos habitantes de Harappa para imprimir sua "assinatura" na argila úmida. O objeto apresentava a imagem entalhada de um touro, emoldurada por seis sinais gráficos pertencentes a um sistema de escrita desconhecido.

Considerando a figura bem particular do animal, sem a corcova característica do zebu indiano, e a singularidade dos sinais gráficos, tão diferentes do sânscrito, Cunningham chegou à conclusão de que o sinete era de origem estrangeira. Foi necessário esperar pelo ano de 1914 para que outro especialista em arqueologia, o humanista John Marshall, organizasse novas pesquisas.

Infelizmente a Primeira Guerra Mundial eclodiu logo depois, e somente em 1920 é que um membro da Sociedade Indiana de Arqueologia, Rai Bahadur Ram Sahni, retomou as escavações no ponto em que Cunningham as havia deixado. Como ocorrera da primeira vez, os resultados foram novamente decepcionantes, já que ele não encontrou senão mais dois sinetes.

John Marshall teria se desinteressado do assunto se R. D. Banerji, um dos membros de sua equipe, não tivesse feito, no ano anterior, uma descoberta de grande importância. Em 1919, durante uma missão de reconhecimento nas terras áridas que margeiam a área à esquerda do rio Indo, Banerji localizou uma estupa budista 560 quilômetros ao sul de Harappa, em Mohenjo-Daro. Em volta do monumento, até onde a vista podia alcançar, viam-se montículos de tijolos em ruínas, provavelmente marcando o lugar de uma imensa metrópole outrora muito próspera.

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Os primeiros objetos desenterrados de Harappa e Mohenjo-Daro foram selos
de pedra pequena. Esses selos foram inscritos com retratos elegantes de animais
reais e imaginários e foram marcados com o roteiro Indus

Uma escavação preliminar abaixo da estupa revelou cinco níveis de ocupação. Graças a moedas encontradas na camada superior, foi possível determinar que esta remontava ao século II da era cristã.

Quanto às camadas inferiores, embora não apresentassem nenhum elemento capaz de facilitar a datação, ofereceram em contrapartida várias peças importantes, como objetos de cobre gravados e três sinetes de esteatita recobertos de uma camada de álcali cozido, que lhes conferia um aspecto branco e lustroso. Os três sinetes, um dos quais representando um unicórnio, estavam também emoldurados por símbolos pictográficos indecifráveis.

Banerji lembrou-se do sinete exumado por Cunningham nas ruínas de Harappa a centenas de quilômetros ao norte de Mohenjo-Daro. Haveria alguma ligação entre as duas cidades? John Marshall solicitou o envio dos três sinetes, de modo que pudesse compará-los com os encontrados em Harappa.

O exame foi conclusivo. "Não resta dúvida de que os objetos encontrados nos dois sítios datam aproximadamente do mesmo período e pertencem a culturas com graus semelhantes de evolução" - escreveria ele mais tarde - "e não se parecem com nada até hoje encontrado na Índia". Entretanto, continuava a ser um mistério a idade daqueles sinetes.

Em 1924, John Marshall decidiu publicar fotos dos sinetes na revista The Illustrated London News, na qual os arqueólogos britânicos da época gostavam de discutir seus problemas técnicos. Ele esperava que seus confrades ingleses e estrangeiros pudessem trazer-lhe algum esclarecimento sobre a antiguidade e a origem desses objetos misteriosos. As fotos ilustravam um artigo no qual Marshall insistia na importância que a Sociedade Indiana de Arqueologia conferia aos achados.

Marshall obteve uma resposta na edição seguinte. The Illustrated London News publicou uma carta de A. H. Sayce, professor da Universidade de Oxford e especialista em história da Assíria, em que este apresentava semelhanças entre os sinetes do Indo e outros sinetes encontrados no Iraque, nos sítios mesopotâmicos.

Essa primeira reação foi seguida de outra ainda mais surpreendente, provinda do Dr. Ernest Mackay, diretor da expedição arqueológica americana ao antigo reino mesopotâmico de Kisch: eles haviam encontrado um sinete absolutamente idêntico aos de Harappa e de Mohenjo-Daro sob um templo dedicado ao deus da guerra, Ilbaba, que devia remontar aproximadamente ao ano 2.300 a. C.

Ao que parecia, Harappa e Mohenjo-Daro não apenas eram do terceiro milênio a.C. mas também haviam mantido relações de troca com a Mesopotâmia.

Entretanto, ignorava-se praticamente tudo sobre qualquer civilização urbana do noroeste da Índia, sua escrita, modo de vida, organização social e política, crenças e religião. O segredo desses enigmas deveria encontrar-se em algum lugar da planície do Indo.

Por essa razão, a Sociedade Indiana de Arqueologia lançou em 1925 um vasto programa de escavações. No sítio de Harappa, as buscas foram limitadas, devido aos danos causados pela implantação da estrada de ferro.

Felizmente, a cidade de Mohenjo-Daro foi preservada, pois o vento depusera sobre ela camadas de areia e limo, que a protegeram dos danos causados pelo tempo e pelo homem. John Marshall consagrou-se então ao estudo da cidade mais bem preservada, uma das duas grandes metrópoles da civilização de Harappa.

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Vista de Mohenjo-Daro

Mohenjo-Daro era dividida em várias partes, entre elas uma plataforma artificial de treze metros de altura, chamada "cidadela", protegida por uma muralha dotada de ameias e dominando a cidade. Grandes artérias, orientadas na direção norte-sul, com cerca de dez metros de largura, cruzavam em ângulo reto, a cada 200 metros, com ruas que seguiam a direção leste-oeste.

Esse traçado dividia a metrópole em quadriláteros, no interior dos quais havia um emaranhado de ruelas sem plano preciso, com larguras variando entre um metro e meio e três metros. Harappa, que também ostentava uma planificação igualmente avançada, foi construída com um conjunto de pequenas elevações, dominado por uma cidadela, e um quadrilátero de avenidas orientadas na direção norte-sul, delimitando amplos bairros.

As casas de moradia e os edifícios públicos localizados sobre as elevações eram construídos com tijolos de barro do mesmo formato, cozidos ou secos ao sol, assentados "com tal precisão que dificilmente se poderia fazer melhor com as técnicas modernas", relata Marshall. Estavam edificados sobre fundações sólidas e em geral comportavam dois níveis.

A maior parte apresentava fachadas cegas, característica da arquitetura urbana observada no Oriente Próximo e que tem a vantagem de proteger a casa dos rigores do clima, do barulho, dos odores, dos vizinhos curiosos e dos ladrões.

A entrada principal, à qual tinha-se acesso por uma ruela situada na parte de trás das casas, abria-se para um grande vestíbulo e para um pátio - certamente ornado por uma sacada de madeira - que levava aos diferentes cômodos da moradia; uma escada de tijolo conduzia ao andar superior e ao telhado.

A luz e o ar entravam por janelas dotadas de grades de madeira, terracota ou alabastro. Muitas casas dispunham de seus próprios poços, e as que não tinham valiam-se dos poços públicos localizados nas ruas largas, que formavam uma grande rede de canalizações de água potável e de esgotos sem equivalente na Antiguidade.

Os arqueólogos viram surgir pouco a pouco diante de seus olhos painéis inteiros de uma brilhante civilização, notável tanto por seu nível técnico quanto por sua uniformidade. A julgar pelos objetos encontrados nas casas e nas sepulturas de Mohenjo-Daro e de Harappa, acredita -se que os habitantes das duas grandes metrópoles utilizavam os mesmos tipos de utensílios e ferramentas de cobre, de bronze e de sílex, e fabricavam os mesmos ornamentos sofisticados de ouro, pérola, cornalina, madrepérola, terracota, lápis-lazúli e turquesa.

Entretanto, estavam ainda longe de haver esclarecido todas as questões levantadas pelas civilizações do Indo. Não conseguiram encontrar sequer uma prova irrefutável da existência de uma elite dirigente, embora tudo levasse a crer que existisse uma forma de planificação central e de controle político.

As construções de Harappa dão poucas informações aos arqueólogos, pelo fato de se encontrarem muito danificadas pela sanha dos construtores da estrada de ferro, mas em contrapartida uma grande parte das construções de Mohenjo-Daro oferece dados bem eloquentes.

Algumas parecem muito amplas para residência, e podem ter servido como palácio governamental ou monumento religioso. Além do mais, nem sempre se conseguiram decifrar os sinetes harappianos, de que sempre se encontravam exemplares. De onde procederia esse povo tão engenhoso, dispondo de tal sistema de escrita pictográfica e de tão apurado senso de urbanismo, e parecendo surgir do nada?

Em sua grande maioria, os primeiros pesquisadores a se interessar pela civilização urbana do Indo explicaram o enigma de sua aparição pela súbita difusão de "ideias civilizadoras" no vale do Indo. Do ponto de vista histórico, essa ideia pareceu-lhes lógica, de vez que o terceiro milênio anterior à era presente fora particularmente favorável ao florescimento de civilizações; na China, no Egito, às margens do Golfo Pérsico e na Mesopotâmia, as comunidades agrícolas propiciaram o surgimento de culturas de vigor e refinamento sem precedentes.

Os especialistas procuraram então identificar o curso progressivo das influências civilizadoras que chegaram até as populações estabelecidas nas planícies do Indo. Entretanto, John Marshall, que inicialmente falara de um "estreito liame cultural" com a Suméria, passou a defender a ideia de que a civilização urbana do Indo era de fato exclusivamente indiana - fundada, segundo ele, no próprio solo do subcontinente indiano.

A julgar pelos machados e achas de sílex da idade da pedra encontrados em todo o subcontinente indiano, o homem apareceu bem cedo na vasta península que hoje corresponde aos territórios da Índia, Paquistão e Bangladesh. Mesmo assim, fica a pergunta: como os seres humanos conseguiram penetrar através da formidável barreira formada pelas montanhas do Himalaia e do Hindu Kush, com 240 quilômetros de largura, 3.200 quilômetros de comprimento e quase oito mil metros de altura, postada na fronteira norte do subcontinente? Com certeza foi através dos desfiladeiros, escavados pelos cursos d'água, que os caçadores-coletores se infiltraram no sul.

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Desfiladeiro de Khaibar, passagem para a Índia

Na região noroeste, os primeiros a chegar atravessaram o desfiladeiro de Khaibar e dezenas de outras passagens que lhes deram acesso ao vale do Indo e à região montanhosa do Pendjab.

Adiante, eles encontraram a planície do Ganges, vasta floresta formando um arco de 3.200 quilômetros de comprimento, cobrindo a península de leste a oeste. No vale do Indo, que mudou várias vezes de leito, corria um outro rio, o Saraswati ou Ghaggar Hakra, este também descendo do Himalaia na direção sul, para desaguar no mar de Omã.

A leste, o Ganges, nascido nos confins do Tibete, seguia seu curso até o golfo de Bengala, onde formava um imenso delta. A densidade da vegetação e os pântanos não encorajavam os migrantes a instalar-se na região.

Os que seguiram o curso inferior do Indo até sua embocadura acabaram por chegar ao Sind, uma região árida coberta por amplas marinhas de sal e bosques de tamargueiras, formando uma moldura para o desolado deserto de Thar.

Ao sul do rio Narmada, estende-se o vasto maciço continental do Decã, limitado ao norte pela cadeia de montanhas Vindhya, e que se alteia a leste e a oeste para formar os contrafortes basálticos do Gates.

Compõe-se de uma impressionante variedade de solos, desde a floresta fechada até as terras incultas, cobertas de savanas, e planícies de vegetação rala. Mais do que qualquer outra região da Índia, ali predomina o regime das monções, com invernos frios e secos e verões sufocantes e úmidos.

Os povos que arriscaram ir até mais longe, na direção sul, até as planícies litorâneas da costa do oceano Indico, descobriram uma região de clima mais sadio, apesar dos verões tórridos, coberta de florestas de tecas e sândalos habitadas por elefantes, e rios cheios de peixes, sombreados por palmeiras.

Até data bem recente, ignorava-se praticamente tudo sobre as origens e o modo de vida dos primeiros habitantes do subcontinente indiano, cujos descendentes deram origem a religiões e culturas bastante elaboradas. Mas a partir das escavações realizadas em Mohenjo-Daro e Harappa, na década de 1920, os arqueólogos descobriram na Índia e no Paquistão mais de mil sítios arqueológicos pertencentes ao que hoje chamamos de civilização do Indo, ou de Harappa.

Foram encontrados nesses sítios muitas evidências que confirmam a existência de liames estreitos entre essas diversas comunidades, como as cidades de tijolos construídas a partir de planos urbanísticos análogos, as cerâmicas de estilo semelhante e os mesmos sinetes gravados.

Durante seu apogeu, por volta do final do terceiro milênio antes de nossa era, as cidades harappianas estavam dispostas em forma de um imenso crescente, que se alongava na direção de oeste para leste, a partir do rio Narmada e do planalto do Decã até Delhi, na planície gangética, passando ao norte pelas regiões paquistanesas do Sind e do Pendjab ocidental.

Descobriram-se também cidades às margens dos rios que desembocam no mar de Omã, para além do delta do Indo em direção ao Irã, e alguns povoados isolados que se desenvolveram no Meganistão e no Beluchistão.

Os especialistas que deram sequência às pesquisas de John Marshall procuraram com afinco não apenas determinar a abrangência da civilização do Indo, mas também realizar a tarefa, ainda mais difícil, de remontar a suas origens e avaliar seu possível impacto sobre a cultura da Índia. Sabe-se atualmente que o alvorecer da civilização indiana remonta pelo menos ao neolítico, ou seja, a sete mil anos antes de nossa era.

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Sânscrito védico

Foram registrados 419 signos, número muito extenso para um sistema alfabético como o sânscrito, e muito restrito para uma escrita do tipo logográfico, como o chinês, no qual cada sinal corresponde a uma sílaba com sentido próprio.

O sistema gráfico da civilização do Indo seria logossilábico: associaria pictogramas correspondentes às palavras com sinais empregados com função fonética. Um único sinal pode designar um objeto concreto, tal como um balde, e ao mesmo tempo transcrever um homófono de sentido completamente diferente. Por exemplo, um pictograma em forma de dois laços apertados por um barbante pode, conforme o caso, estar fazendo referência ao plural da palavra “nó” ou ao pronome pessoal "nós".

A natureza e a importância das relações comerciais e da civilização de Harappa são invocados nos textos de caracteres cuneiformes desencavados na Mesopotâmia. Uma tabuleta de argila que remonta a uma data em torno do ano 2.350 a.C. relata que grandes embarcações provenientes das longínquas regiões de Dilmun, de Magã e de Meluhha fizeram escala no porto mesopotâmico de Agade, e que seus porões estavam abarrotados de tesouros.

Os especialistas, após um estudo minucioso dos lugares geográficos e dos mercados citados nos documentos da época, conseguiram localizar os países misteriosos de onde provinham as embarcações.

Dilmun, situada à margem do "mar Inferior" sendo o texto da tabuleta, correspondia à ilha de Bahrein, no Golfo Pérsico, enquanto Magã seria justamente o território de Omã e as terras situadas nas margens norte e sul do golfo. Quanto à Meluhha, a mais longínqua dessas regiões, ocultava o litoral oriental do mar de Omã - ou seja, os confins do Irã e da Índia - e o vale do Indo.

Meluhha abastecia a elite, restrita mas poderosa, da Suméria gêneros de luxo ou exóticos e de matérias-primas de grande procura como as madeiras de lei, as mesas marchetadas, macacos amestrados, pentes de marfim, peles e também pérolas e pedras de cornalina e de lápis-lazúli para a fabricação de ornamentos luxuosos. Todos esses produtos, com exceção do último - cuja exata procedência por muito tempo se ignorou -, provinham do reino de Harappa.

A partir de 1975, com descoberta de um posto avançado da civilização do Indo nas montanhas afegãs, ficamos sabendo onde os harappianos compravam lápis-lazúli. Em Shortugai, situada às margens de um afluente do rio Oxus, cerca de 800 quilômetros ao norte do vale do Indo, uma equipe de arqueólogos franceses dirigida por Remi-Paul Francfort descobriu uma aldeia mineira que cobria uma superfície de quase dois hectares e meio e estava cheia de objetos harappianos.

Em meio a fragmentos de tijolos fabricados à maneira da cultura do Indo, havia um sinete decorado com um rinoceronte, louças do tipo harappiano e sobretudo um conjunto de instrumentos e utensílios que denunciava as atividades de seus moradores: cadinhos de argila, lâminas e verrumas de sílex para perfurar as pérolas, pedaços de ouro e de chumbo e grandes quantidades de lápis-lazúli, cornalina e ágata. Animais de carga e carros de boi carregados de pedras brutas e de objetos acabados deviam partir em direção ao sul e pelas rotas das caravanas ao longo do vale do Indo. Posteriormente encontrou-se no Beluchistâo outra mina de lápis-lazúli explorada pelos harappianos.

A civilização do Indo mantinha relações comerciais também com a região de Omã, na margem oposta do mar de Omã, a julgar pelas numerosas pérolas de cornalina gravadas, pelas armas de bronze típicas da civilização do Indo e por outras cerâmicas harappianas ali encontradas.

Com seus navios abarrotados de mercadorias, os mercadores navegavam pelo Golfo Pérsico até Dilmun. Essa cidade fortificada da ilha de Bahrein, onde predominavam a limpeza e a moralidade e cujos habitantes gozavam de impressionante longevidade, era um poderoso centro comercial, por onde transitavam os produtos oriundos do vale do Indo.

Em 1957, uma equipe de arqueólogos dinamarqueses dirigida por T. G. Bibby descobriu em Dilmun uma série de pesos idênticos a outra, anteriormente escavada em Mohenjo-Daro. Esses pesos, de vários tamanhos, eram esculpidos em calcário, ardósia, esteatita, sílex negro e gnaisse. O que revela que os harappianos efetuavam transações comerciais com diversos gêneros de mercadorias.

De fato, uma série de pesos de que dispunham ia desde minúsculos cubos destinados a pesar especiarias até enormes blocos com que avaliavam o peso de rochas de minérios. Os especialistas que realizaram as escavações em Dilmun descobriram ainda doze sinetes de forma bastante estranha, não quadrados, mas redondos, cobertos de signos e de imagens características da cultura de Harappa. Esses sinetes deviam pertencer aos mercadores que viviam na região do golfo Pérsico e serviam de intermediários nas trocas entre o vale do Indo, do golfo e a Mesopotâmia.

A partir da década de 1950, quando o arqueólogo indiano Shikarpur Ranganath Rao descobriu um desses sinetes do Golfo Pérsico no porto de Lothal, na entrada do Golfo de Cambay, a sudoeste do reino de Harappa, alguns especialistas passaram a afirmar que as trocas comerciais funcionavam nos dois sentidos.

Até então, na verdade, ninguém tinha conseguido provar a ocorrência de importações da região do golfo Pérsico para o vale do Indo, apesar de se terem encontrado textos em caracteres cuneiformes da cidade de Ur documentando embarques de lã, tecidos, roupas, couro, azeite e cedro, destinados a Meluhha.

Mesmo assim, até hoje a hipótese de que tenha havido comércio marítimo entre a Mesopotâmia e a civilização do Indo não obteve reconhecimento unânime.

Seja como for, Shikarpur Ranganath Rao também encontrou no sítio de Lothal vestígios de um mercado organizado, o que pode significar que a cidade serviu de entreposto para um sistema de trocas comerciais entre diferentes regiões de cultura harappiana.

Ele escavou em um local desse sítio arqueológico as fundações de um grande edifício, certamente um armazém para estocagem de gêneros destinados ao varejo. No piso, Rao encontrou 77 impressões de sinetes que ainda traziam vestígios das embalagens sobre as quais estavam fixadas as plaquetas de argila indicando sua origem.

Rao descobriu também várias dependências destinadas ao artesanato, nas quais se encontravam bigornas de pedra, cadinhos, lingotes de cobre, verrumas de bronze, fragmentos de conchas e de presas de elefante.

Ao encontrar em um salão central uma plataforma de trabalho com verrumas e ao lado várias salas menores com ferramentas especializadas e centenas de pequenas contas de cornalina, cristal, jaspe, opala e esteatita, em diversas fases de acabamento, Rao compreendeu que ali estavam vestígios de uma oficina para fabricação de adereços.

Como nenhuma das matérias-primas dos artigos fabricados em Lothal provinha dos arredores, o arqueólogo Gregory Possehl, do museu da Universidade da Pensilvânia, levantou a hipótese de que a cidade deveria dispor de uma rede de fornecedores que a abasteciam dos produtos de que tinha necessidade.

Dessa forma, a cidade era uma zona de abastecimento e um centro distribuidor de grande variedade de gêneros exóticos, dos quais muitos eram transformados em objetos de luxo, destinados aos florescentes mercados das outras cidades harappianas, aos portos de Dilmun e talvez até mesmo à longínqua região da Suméria.

Durante muitas décadas, a questão das possíveis influências que as trocas comerciais exerceram sobre o desenvolvimento da cultura de Harappa provocou acaloradas discussões entre os arqueólogos especialistas na civilização do vale do Indo. Para Mortimer Wheeler, o comércio estaria na própria origem da civilização harappiana.

Algumas ideias civilizadoras provenientes da Mesopotâmia teriam vindo junto com as mercadorias e teriam sido adaptadas ao contexto local por um pequeno grupo de habitantes do vale do Indo, entusiasmados pelos relatos fabulosos contados pelos mercadores a respeito de Kish e Ur.

A tese de Wheeler parece confirmada, ao menos parcialmente, por suas pesquisas em Harappa e em Mohenjo-Daro em 1946 e 1947. Durante as escavações efetuadas nas muralhas que cercavam Harappa, descobriram-se cacos de louça de barro vidrado e objetos que Wheeler acreditou pertencerem "a uma cultura diferente, talvez até mesmo estrangeira".

Em Mohenjo-Daro, onde as camadas mais antigas de ocupação haviam sido submersas pela elevação dos lençóis freáticos, o arqueólogo cavou até uma profundidade de cerca de cinco metros abaixo do nível da água e foi obrigado a recorrer a bombas elétricas para manter seco o local por pesquisar. Sob os vestígios do período de franca expansão da cultura de Harappa, ele descobriu fragmentos de uma cerâmica que Leslie Alcock, um de seus colegas, qualificou de "rudimentar, vigorosa e insólita".

Em 1955, Fazal Ahmed Khan, responsável pelo Instituto de Arqueologia do Paquistão, iniciou as escavações de Kot Diji, uma cidade da cultura de Harappa situada margem esquerda do Indo, cerca de quarenta quilômetros a leste de Mohenjo-Daro. As escavações desse sítio, que cobre uma superfície de pouco mais de dez hectares, revelaram 16 níveis de ocupação. Os estratos 1 a 3 continham objetos e construções que datam do apogeu da civilização do Indo.

Mas a partir do nível 4, que remonta a um período por volta do ano 2.590 a. C., os arqueólogos encontraram vestígios de cerâmica e de outros objetos idênticos àqueles descobertos dez anos antes nos estratos ditos "pré-harappianos" de Mohenjo-Daro e de Harappa, e. que, segundo Wheeler, não podiam provir senão de uma "cultura diferente, talvez mesmo estrangeira".

Essa descoberta nada tinha em si mesma de propriamente surpreendente.

Mas o que se mostrou bem mais significativo foi que grande parte da louça de barro vidrado de Kot Diji apresentava, além das bordas largas, características das formas adotadas pela cultura do Indo, traços próprios indicativos do período mais florescente da cultura harappiana: divindades corníferas, antílopes estilizados, pavões e escamas de peixe.

Além disso, os vestígios dessas construções pareciam apresentar muitos outros pontos em comum com as grandes cidades do Indo. A cidade era cercada por uma grande muralha de pedra. Fora dela, havia um bairro residencial rujas casas se dispunham segundo um plano bem definido.

As casas de pedra e tijolo assentavam-se sobre alicerces de calcário bruto; em uma delas havia mesmo um amplo banheiro. O piso das moradias estava juncado de objetos em estilo harappiano, sobretudo estatuetas da deusa- mãe, miniaturas de carros de boi que serviam de brinquedo, braceletes de quartzo, pontas de flecha de bronze e ornamentos de cobre.

Mais tarde, os arqueólogos descobriram vários outros sítios que apresentavam as mesmas características de Kot Diji, principalmente em Amri, Kalibangan e Rehmandheri, bem como nos vales da planície do Indo. Na verdade, as cidades do início da cultura de Harappa eram quase tão numerosas quanto as do seu apogeu.

As teses que até então prevaleceram começaram a ser postas em questão. Em 1970, um paquistanês, Mohammad Rafique Mughal, propôs uma nova teoria para explicar o desabrochar da civilização do Indo, por volta do ano 2.500 a.C. Com toda a certeza, e contrariamente à tese de Wheeler, essa cultura nada devia ao Oriente Próximo e constituía o clímax de um processo iniciado séculos antes no vale do Indo.

Os arqueólogos empenharam-se então em pesquisas para determinar a que época remonta o alvorecer da cultura harappiana. Walter A. Fairservis, do Vassar College de Nova York, e Beatrice de Cardi, do Instituto de Arqueologia da Universidade de Londres, executaram de forma independente uma série de escavações em diversos sítios do vale do Indo e do Beluchistão, região de altiplanos batidos pelo vento e de vales áridos situados em volta do mar de Omã.

Suas pesquisas chegaram a resultados no mínimo surpreendentes: nem mesmo os sofisticados recursos proporcionados pela datação por carbono 14 conseguiram situar nenhuma dessas povoações em data anterior ao ano 4000 a.C., ficando a maior parte entre os anos 3000 e 2500 a.C. Alguns historiadores basearam-se nessas conclusões para reacender a tese da procedência ocidental.

Os ancestrais diretos dos harappianos teriam deixado a altiplano iraniano e o sul da Ásia central, por volta do final do quinto milênio; teriam então penetrado nos vales elevados do Meganistão, depois do Beluchistão, e em seguida prosseguido lentamente para norte e para leste até as férteis planícies do Indo, onde se fixaram. Mas essa interpretação, embora plausível, não tardou a ser questionada, como de resto ocorreu com todas as que as teorias que a precederam.

Em 1973, os arqueólogos da missão francesa ao Paquistão e do Instituto de Arqueologia do Paquistão exploraram a zona de Mehrgarh, na planície aluvial de Kachhi, no Beluchistão, cerca de 200 quilômetros a noroeste do Indo. A partir da descoberta de um oiteiro com vestígios que remontavam no mínimo ao quarto milênio, os pesquisadores realizaram escavações mais completas no local.

Sob a direção de Jean-François Jarrige, eles descobriram, em dezembro de 1974, uma zona com área de cerca de dois hectares, na qual localizaram diversos sítios que haviam sido ocupa- dos em diferentes épocas. Ficou a impressão de que, ao longo dos milênios, os habitantes de Mehrgarh tinham ido aos poucos se deslocando para o sul, abandonando cada vez sua cidade antiga para construir outra nova.

A povoação mais antiga dataria do sétimo milênio a.C., e a mais recente teria sido habitada por volta do ano 2500 a.C., ou seja, nos primórdios do que chamamos a civilização de Harappa propriamente dita.

Índia Antiga
Mehrgarh, um dos mais importantes sítio arqueológico do Neolítico
(7.000 a.C. a 3.200 a.C.), encontra-se na planície Kachi do
Baluquistão, no Paquistão, e é um dos primeiros sites com evidência
de agricultura (trigo e cevada) e de pastoreio (gado, ovinos e
caprinos) no sul da Ásia

Para os especialistas, o sítio mais interessante de Mehrgarh encontrava-se pouco mais de oitocentos metros a norte do oiteiro que havia inicialmente atraído sua atenção. Durante o século XX, o rio Bolan, que corre próximo dali, mudou de leito e desnudou os diferentes estratos de um talude. A análise pelo carbono 14 revelou que um fragmento de carvão de madeira conservado em um dos níveis mais antigos - um povoado de cabanas feitas de tijolos de barro cobertos de cascalhos e de pequeninas lâminas de sílex - remontava ao sexto milênio.

E sob essa camada, de mais de oitenta séculos, havia ainda uma camada de mais de nove metros de sedimentos. Jean-François Jarrige calculou que os primórdios desse sítio neolítico remontavam a uma data por volta do ano 7.000 a.C., ou seja, três milênios antes do aparecimento de outros sítios conhecidos da região do Indo.

Nos detritos da parte mais antiga do sítio, Lorenzo Costantini, do Museu Nacional de Arte Oriental de Roma, recuperou impressões de grãos de cereais que identificou como de cevada descascada em duas fileiras, trigo candeal, cevada de seis fileiras e trigo destinado à fabricação de pão. Mehrgarh figura entre as primeiras regiões do mundo onde se cultivaram cereais.

No começo de sua história, os habitantes da região completavam sua dieta alimentar com a carne de animais da planície de Kachhi. Na década de 1980, Richard Meadow, especialista em zooarqueologia da Universidade de Harvard encontrou, nas camadas mais antigas do sítio, ossadas de doze espécies de animais de caça de grande porte, entre outros o cervo axis, o antílope negro, o búfalo da Índia, a cabra selvagem e o porco montês.

O sábio americano registrou igualmente que a partir de meados do ano 6.000 a.C. houve uma grande mudança, pois não encontrou praticamente senão ossos de animais domésticos - carneiros, cabras e bois -, indicando uma passagem do estágio da caça para o da criação. Por volta do ano 5.500 a.C o gado tornou-se um elemento essencial para a economia da região, tal como foi mais tarde para a civilização de Harappa.

Os habitantes de Mehrgarh viviam em casas estreitas de tijolos, entre as quais se encontravam túmulos cobertos também de tijolos. Gonzague Quivron, da missão arqueológica francesa, escavou mais de trinta dessas sepulturas, nas quais descobriu um verdadeiro tesouro composto de pequenas lâminas de sílex, de machados de pedra polida, pães de ocre vermelho e recipientes de pedra. Além disso, ao lado das ossadas havia cestas calafetadas com betume de forma a proteger e conservar seu conteúdo, sem dúvida jujubas e tâmaras.

No fundo dos túmulos estavam espalhadas contas de pérola, de lápis-lazúli e de turquesa. Sobre a tíbia de um esqueleto de criança encontrou-se uma conta cilíndrica de cobre. Para o arqueólogo Jean-François Jarrige, a presença desses materiais raros significa que no neolítico havia uma rede de trocas ligando Mehrgard ao mar de Omã, ao Meganistão e à Ásia central.

Ao sul do oiteiro mais antigo, em uma zona que data do quinto milênio a.C., os arqueólogos descobriram vestígios de vários edifícios espaçosos de forma retangular. Cada uma dessas construções de tijolo se subdividia em dez compartimentos desprovidos de portas, dos quais um mostrava marcas de grãos de cevada e trigo. Jarrige deduziu que esses edifícios serviam de entrepostos de grãos e que podiam ter servido de protótipo para os silos de Harappa e de Mohenjo-Daro.

Por volta do fim do quarto milênio, as habitações evoluíram e as casas passaram a contar com dois níveis, com um espaço exíguo embaixo para guardar utensílios de terracota. A cerâmica de Mehrgard, quase sempre muito bonita, compreendia taças, tigelas e jarros decorados com figuras de animais e desenhos geométricos, sobretudo peixes estilizados. A julgar pelas grandes quantidades de cacos de louça encontrados no sítio, parecia ter havido mesmo uma produção em massa.

A descoberta por Françoise Audouze e Catherine Jarrige, duas pesquisadoras do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, de uma zona em que abundavam fornos veio confirmar essa hipótese. Um desses fornos continha mais de duzentos recipientes, que evidentemente foram abandonados no lugar após algum incidente que determinara a paralisação do processo de cozimento.

Durante os dez últimos séculos da história de Mehrgard, ou seja, de 3500 a 2500 a.C., vemos aparecer sinetes de terracota e osso, bem como figuras de deusas-mães de seios pendentes e fantástico penteado. Data também desse período uma gigantesca plataforma que devia fazer parte de um complexo monumental e que prefigura as cidadelas construídas sobre elevações artificiais da época de Kot Diji e de Harappa.

Mehrgard foi misteriosamente abandonada por volta do ano 2500 antes de nossa era; entretanto, uma nova povoação, conhecida pelo nome de Nausharo, formou-se em seguida cerca de cinco quilômetros ao sul. O estudo dos diferentes níveis de ocupação desse sítio mostrou que ele conhecera um período do tipo merhgariano, depois um estádio intermediário, antes de tornar-se uma florescente cidade harappiana.

Com as escavações de Fazal Ahrned Khan em Kot Diji e a descoberta de Mehgard e de Nausharo por Jean-François Jarrige, os arqueólogos puderam finalmente reencontrar a pista das origens da civilização que se desenvolveu no subcontinente indiano. Ao contrário do que vários especialistas afirmaram por muito tempo, a brilhante cultura de Harappa não surgiu após uma invasão ou por influência de ideias civilizadoras. Ela é resultado de um longo esforço, da soma de talentos especiais e das elaboradas crenças das populações nativas.

A civilização do Indo levou cerca de cinco mil anos para formar-se. As pesquisas do arqueólogo britânico Raymond Allchin, da Universidade de Cambridge, revelaram que a partir do ano 3000 a.C. elementos característicos da cultura harappiana apareceram em todo o vale do Indo.

Quanto à idade de ouro desse período da história do Índia, do qual as grandes cidades de Harappa e de Mohenjo-Daro constituem a mais perfeita expressão, numerosos especialistas concordam em reconhecer que deve ter durado de 2600 a 2500 a. C., ou seja, pouco mais de um século apenas.

Entretanto, estudos recentes tendem a provar que nem todas as regiões do vale do Indo tiveram seu apogeu ao mesmo tempo nem da mesma maneira. Assim é que escavações realizadas no final da década de 1980 por George F. Dale Jr., da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e Jonathan Mark Kenoyer, da Universidade de Madison, em Wisconsin, revelaram que de 3300 a 2600 a.C. a grande metrópole de Harappa passou por uma longa fase de transição, durante a qual evoluiu de uma povoação semelhante a Kot Diji para uma cidade do porte da harappiana.

Por outro lado, algumas cidades da época koti-dijiana, longe de conhecerem a grande mutação que transformou muitas dessas povoações em cidades, conservaram as características culturais até o segundo milênio. Em outros sítios, parte dos objetos e das cerâmicas datava dos precursores da cultura de Harappa, e outra parte do período da plena expansão da civilização do Indo, o que dá a entender que um mesmo lugar conheceu simultaneamente dois estádios.

Dois antropólogos, Jim Shaffer, da Universidade de Case Western Reserve, e Diane Lichtenstein, da Universidade Baldwin-Wallace, tentaram explicar como a civilização harappiana pôde florescer sem fazer desaparecer certos elementos do período de Kot Diji.

A presença simultânea desses dois níveis de cultura dever-se-ia ao fato de que populações nativas do vale do Indo compreendiam diversos grupos étnicos, embora muito próximos uns dos outros e compartilhando a mesma tradição cultural. Além de terem em comum o costume de construir seus prédios de tijolos e moldar figuras em terracota, essas etnias faziam parte de um mesmo sistema econômico baseado essencialmente na agricultura, e no qual as fortunas eram avaliadas sobretudo pelo número de cabeças de gado que um indivíduo possuía.

Tendo-se por base a tese de Shaffer e Lichtenstein, durante o século XXVI a.C. os harappianos se tornaram o grupo étnico mais forte do vale do Indo. Teriam então assimilado várias etnias de menor importância, e também acumulado grandes riquezas em forma de rebanhos bovinos. A necessidade imperiosa de encontrar pastagens suficientemente amplas para esses rebanhos poderia explicar em parte a formidável expansão da cultura de Harappa pelas planícies do Indo.

Essa brilhante civilização extinguiu-se de forma quase tão súbita e bruta quanto a do seu aparecimento. A notável cultura que está na origem das soberbas metrópoles de Harappa e de Mohenjo-Daro parece ter pura e simplesmente desaparecido entre 1800 e 1500 a.C., e dela nada ou quase nada sobreviveu.

Diversas hipóteses, todas não muito satisfatórias, procuram explicar as causas desse brusco declínio. Que teria acontecido aos habitantes das cidades do Indo? Que influência exerceu a cultura de Harappa sobre as civilizações que a sucederam no subcontinente indiano? Eis outras questões polêmicas a que os arqueólogos e sábios deverão dedicar-se a fim de achar resposta em futuro próximo.

André Bueno

Fonte: www.passeiweb.com

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