Em 1665, a Inglaterra foi assolada pela peste. Várias cidades foram evacuadas e muitos estabelecimentos foram fechados, inclusive a Universidade de Cambridge, em junho de 1665. Newton volta para Woolsthorpe antes de 7 de agosto de 1665, parando algum tempo onde vivia Humphrey Babington. Esse período de 1665 e 1666, quando ele fica isolado na fazenda, é conhecido como anni mirabiles, os anos das maravilhas, pois ele produz manuscritos com descobertas incríveis na matemática, na óptica, na mecânica e na teoria da gravitação.
É nesse período que as pessoas costumam contar a lenda da maçã, mas não se sabe se é apenas algo mais da mitologia newtoniana ou se de fato ocorreu. O importante é perceber que as descobertas realizadas nesse período não foram produto de inspiração súbita e miraculosa, mas lembrar que essas questões já estavam problematizadas no conteúdo das quaestiones. Newton havia lido algumas obras que tratavam desses temas, e o período de isolamento ofereceu oportunidade para ele mergulhar ainda mais profundamente neles, e com os pré-requisitos necessários, trazer novas contribuições. Claro que esses resultados são muito importantes na história da ciência.
Na área da matemática, ele desenvolveu o método das séries
infinitas, o binômio “de Newton”, como hoje o conhecemos,
e o método das fluxões, que se tornaria o atual cálculo
diferencial e integral, e posteriormente motivo da disputa com Liebniz pela
prioridade de sua descoberta.
No campo da óptica, suas experiências com o prisma conduziram a elaboração da teoria das cores. Tais experimentos eram de tamanho rigor aos olhos do século XVII, e acompanhados pela análise matemática, que se tornariam modelo de experimentação. As habilidades manuais de Newton permitiam que ele próprio construísse suas ferramentas e equipamentos. Na época havia os telescópios de refração, que apresentavam o problema da aberração cromática, e ele desenvolveu o telescópio de reflexão que eliminava o problema.
Embora alguns autores considerem que a idéia não era totalmente nova, parece que Newton foi o primeiro a construí-lo em 1669, e também o primeiro a explicar a aberração cromática. Ele enviou um exemplar do telescópio à Royal Society em 1671 e, graças a isso, foi eleito membro dessa sociedade em 1672.

Nessa época, Newton começa as primeiras reflexões sobre o que viria a ser o princípio da inércia como o conhecemos. Faz descobertas sobre choques ou colisões e as forças envolvidas no movimento circular. Tais descobertas, conceitualmente diferentes do que lera em Descartes e Galileu, remeteram ao problema do quê mantém a Lua em órbita.
A partir dessas análises e utilizando a terceira Lei de Kepler, Newton constata que o “esforço que um planeta faz em sua órbita para se afastar do Sol” é proporcional ao inverso do quadrado da distancia entre o planeta e o Sol. Alguns historiadores afirmam que tal relação com o inverso do quadrado da distância já aparecia nos manuscritos de outros filósofos, mas Newton conciliou todas essas informações, dando origem ao que se tornaria, futuramente, a Lei da Gravitação Universal.
Na verdade, ele próprio insinua isso, em alguns manuscritos do período em que se dedicou a estudar a filosofia dos antigos. Ele relata que os sacerdotes egípcios e alguns outros filósofos antigos já conheciam a lei do inverso do quadrado da distância, o heliocentrismo, o fato de a matéria ser composta por átomos e se mover pela ação da gravidade. Os historiadores da ciência contemporâneos acreditam que considerações alquímicas, teológicas e muitas informações presentes no pensamento dos primeiros povos da Terra influenciaram o que ficou conhecido como resultado de suas investigações: a doutrina newtoniana.
Sendo inspirado pela maçã ou não, o fato é que todas essas descobertas permaneceram guardadas por anos. No final de 1666, elas ainda não estavam na forma como seriam apresentadas ao mundo futuramente, e que o transformaria no mais prestigiado matemático de seu tempo. Mais tarde, a realização no campo da mecânica tomaria a conhecida forma que seria publicada na primeira edição dos Principia, em julho de 1687.
Em Abril de 1667, Newton volta para Cambridge, e em outubro do mesmo ano participa do concurso para Fellow (professor). Mais uma vez suas chances eram mínimas. Apesar de suas conquistas ainda desconhecidas, Newton havia negligenciado o currículo oficial. Mais uma vez ele foi aprovado. Teria alguma relação com o fato de Babington ser um dos membros do conselho? Não se sabe. O fato é que em 2 de outubro de 1667, Newton torna-se professor do Trinity College (Colégio da Santíssima e Indivisa Trindade), e nove meses depois, mestre em humanidades.
A alquimia começa a ser objeto de estudo de Newton em 1669, e em agosto ele compra uma coletânea de tratados de alquimia, bem como um equipamento de laboratório de química. Esse interesse não foi exclusivo, pois nesse mesmo ano ele envia a John Collins, a pedido de Isaac Barrow, o artigo “Sobre a análise das séries infinitas”. Collins, empolgado pela qualidade do trabalho, insiste em publicá-lo, mas Newton reluta.
Esse episódio foi o primeiro de muitos em que Newton hesitou pela publicação de um artigo, seja pelo receio das críticas, ou apreensão sobre os desdobramentos de tornar públicas importantes descobertas. Esse contato mais próximo com Barrow, no entanto, rendeu frutos a Newton. Barrow pretendia renunciar à cátedra lucasiana, talvez de olho em cargos mais elevados, e indicou Newton para substituí-lo. Deste modo, em 29 de outubro de 1669, ele torna-se professor lucasiano de matemática. Newton escolheu como conteúdo das aulas seus estudos em óptica. Conta-se que as aulas eram tão monótonas que muitas vezes ninguém aparecia e ele falava para as paredes.
Conforme os trabalhos de Newton circulavam entre alguns matemáticos pelas mãos de Collins, ele ia tornando-se mais admirado. Seu temperamento difícil e sua atitude arredia, no entanto, aumentavam e ele ansiava pelo anonimato, recusando-se a publicar seus artigos. Essa situação mudou quando seu telescópio de reflexão fez tamanho sucesso na Royal Society, promovendo sua eleição em 11 de janeiro de1672, que motivou Newton a enviar-lhes sua teoria das cores. O trabalho recebeu pesadas críticas de Robert Hooke e outros filósofos naturais. Ele respondeu às críticas e a desgastante controvérsia se estendeu de 1672 até 1676. Depois disso, Newton se retrai ainda mais, e só volta a publicar seus trabalhos de óptica no Opticks em 1704, depois da morte de Hooke. Durante essa década, ele trocou correspondência também com outras pessoas, sobre questões matemáticas e filosóficas. O desgaste provocado pelas polêmicas e controvérsias fez com que ele se isolasse ainda mais. Além disso, ele dizia com freqüência que estava bastante envolvido com outros estudos.
Que estudos seriam esses? Durante a década de 1670 e até 1684
Newton mergulha em seus estudos de alquimia. Para ele, a natureza era um livro
de revelação divina e com as experiências alquímicas
ele poderia penetrar na essência da matéria, buscar a ação
de Deus e entender como Ele havia projetado a natureza.
Paralelamente, ele começa a estudar intensivamente teologia e as profecias bíblicas. Newton torna-se ariano, ou seja, seguidor de uma doutrina que não acredita na santíssima trindade. Para ele, Cristo era um profeta superior a todos os outros, enviado à Terra por Deus, para resgatar a verdadeira religião, que havia sido corrompida por homens de má fé. Tanto a alquimia como a teologia eram caminhos pertencentes à filosofia natural, que conduziriam à Verdadeira Religião e à contemplação da ação divina nos fenômenos naturais.
A grande questão com que se defrontavam alguns filósofos, no início da década de 1680, traria Newton de volta à filosofia mecânica. Motivado por uma visita de Edmond Halley, em agosto de 1684, com a finalidade de perguntar-lhe sobre a lei da atração que varia com o inverso do quadrado da distância, ele retoma seus manuscritos. A resposta enviada a Halley, alguns meses depois, trazia uma revolução na mecânica celeste. Durante dois anos e meio, Newton trabalhou obstinadamente nesse artigo, a pedido de Halley, e ia ampliando suas conseqüências. Ele estava generalizando a aplicação de sua dinâmica a uma demonstração sistemática da gravitação universal, que propunha um novo ideal de ciência. Estava nascendo o Principia (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural), a obra que seria um marco na história da ciência.

A visita de Halley motivou as investigações e ele era o editor
encarregado pela Royal Society para publicar a obra. Ele leu e fez correções
em alguns cálculos. Halley administrava também o temperamento
instável de Newton, o que não era tarefa fácil, e graças
a seu empenho, os Principia foram publicados em 5 de julho de 1687. Um livro
dificílimo, que poucos tinham condições de entender.
Newton torna-se admirado rapidamente pelos matemáticos e filósofos
mais importantes da Inglaterra. No continente europeu, seus méritos
vão sendo propagados mais vagarosamente.
Newton era agora uma figura de prestígio e, em 15 de janeiro de 1689, foi eleito pela Universidade de Cambridge como seu representante no Parlamento Constituinte. No mesmo ano, teve seu retrato pintado pelo principal artista da época, Sir Godfrey Kneller. Newton estava, então, com 46 anos. Nesse ano que morou em Londres não foi o parlamento, mas sua vida pessoal a deixar marcas. Newton fez alguns amigos. Ele, que crescera solitário e havia convivido com poucas pessoas em Cambridge (Barrow, Wickins seu colega de quarto por 20 anos e Humphrey Newton, que contratou como secretário para ocupar o lugar de Wickins), agora se relacionava socialmente com algumas pessoas. Charles Montague, John Locke, Nicolas Fatio de Duillier, David Gregory, William Whiston e Samuel Pepys figuravam entre o seu grupo de amigos.
A universidade de Cambridge e o Trinity College atravessavam uma crise financeira, e nos anos de 1688, 1689 e 1690 não pagaram os salários. Newton começou a buscar um cargo em Londres. Apesar das dificuldades, ele não abandonou seus estudos e, em 1693, escreveu o seu tratado mais importante de Alquimia: Praxis. Não foi um período fácil. Continuava em vão buscando um cargo, e algumas outras contrariedades pessoais foram deixando-o emocionalmente instável. Ele tinha dificuldades para dormir, indispôs-se com os amigos, e no final do verão de 1693 sofreu um colapso nervoso.
Depois de recuperado, ele retoma a teoria lunar, um dos problemas mais difíceis abordado no Principia. Newton não resolve o problema a contento e já não tinha a mesma paixão pela filosofia natural. A partir daí até o final de sua vida, ele dedicou-se mais intensamente à teologia e a inventar alguns instrumentos, enquanto desempenhava funções administrativas. No entanto, ele era um homem admirado e famoso, e nunca deixou de ser consultado por matemáticos e filósofos naturais voltando, vez por outra, aos temas que o tornaram respeitado.
No início de 1696, sua antiga amizade com Charles Montague, ou Lord Halifax, revelou-se bastante útil. Halifax era agora encarregado pelas finanças do reino e nomeou-o como superintendente da Casa da Moeda, em março de 1696. Diziam as más línguas que Halifax estava de olho em Catherine, a linda sobrinha de Newton, que vivia com ele em Londres. Porém, não podemos subestimar a capacidade de Newton. Sua mente aguçada, a obstinação pelo trabalho e as antigas experiências alquímicas com o refino de ouro e prata foram úteis nesse período em que ocorria a cunhagem das moedas.
A instituição estava enfrentando vários problemas, entre eles a existência de muitos falsários. Sua astúcia foi importante nesse período. Quase quatro anos depois, em 25 de dezembro de 1699, Newton é nomeado diretor da Casa da Moeda e renuncia à cátedra lucasiana e ao cargo de professor do Trinity College.
Com a morte de Robert Hooke, em março de 1703, Newton começa a articular sua eleição para a presidência da Royal Society e, nas eleições que ocorreram em 30 de novembro, conseguiu seu intento. Ele acumulava a função de diretor da casa da moeda e presidente da Royal Society, quando, em 16 de abril de 1705, foi sagrado cavaleiro pela rainha Ana. Sir Isaac Newton mostrou, na presidência da Royal Society, a mesma liderança forte e competência administrativa com que conduzia a Casa da Moeda.
Embora não possamos afirmar que sua conduta tenha sido das mais justas. Parece que em algumas ocasiões ele teria se valido de sua posição para defender interesses próprios, mesmo que isso prejudicasse outras pessoas. Ele era um homem poderoso agora, e seu comportamento não era diferente daquele da maioria dos mortais que se tornam poderosos.
Parece que a morte de Hooke não apenas abriu caminho para a presidência da Royal Society, como também para que Newton publicasse Opticks, em 1704. A controvérsia com Hooke, na época em que apresentou sua teoria das cores, fez Newton manter seus experimentos e descobertas ópticas escondidos por quase 30 anos.
Esse texto teve um grande impacto na época, pois estava escrito em uma linguagem mais acessível que os Principia, alcançando um público ainda maior. Além disso, trazia a descrição minuciosa de experimentos acompanhados por cálculos matemáticos. Tal metodologia tornar-se-ia modelo de como fazer ciência, algo que todos procurariam imitar.

Na mesma obra, Newton publica dois trabalhos matemáticos. Um deles era seu método das fluxões de 30 anos atrás, o que fatalmente provocaria a disputa pública com Liebniz. Nos bastidores, tal disputa vinha ocorrendo há 20 anos. Tudo começou em 1684, quando Liebniz publicou seu cálculo e não mencionou os trabalhos de Newton. Embora o método de ambos tivesse notações diferentes, eles resolviam os mesmos problemas. Para Newton, Liebiniz tinha conhecimento de seu método, e deveria tê-lo citado em seu trabalho.
Na primavera de 1711, Liebniz envia uma carta a Royal Society reivindicando a prioridade na invenção do cálculo. Havia alguns matemáticos que acreditavam que Liebniz tinha inventado o cálculo, e outros que achavam o contrário: Liebniz teria sabido do método de Newton ainda na década de 1670, quando conversaram ou quando Collins mostrou o manuscrito de Newton a alguns matemáticos. Além disso, havia cartas trocadas com várias pessoas durante aquela década, nas quais Newton falava do seu método das fluxões.
Atualmente, através da análise de documentos que ambos deixaram, considera-se que Newton inventou o método das fluxões em 1665 e 1666. Liebniz desenvolveu independentemente o cálculo diferencial e integral cerca de 10 anos depois, porém antes de saber do método das fluxões. No entanto, a disputa pública requeria um parecer da Royal Society e é difícil não admitir que ele tenha se valido da condição de presidente para obter a prioridade para si.
Newton produziu poucos trabalhos inéditos depois disso. Trabalhou na reedição de algumas obras, mas seu grande interesse e maior empenho foi dedicado à teologia, especialmente às profecias bíblicas. Para ele, a realização da profecia era a prova histórica da existência de Deus. Embora alguns considerem que seus inúmeros manuscritos das últimas duas décadas de vida sejam especulações da velhice, poderíamos encará-los como a síntese de seus estudos teológicos. Se ele passou a maior parte de sua vida numa busca obsessiva da verdade, os trabalhos dessa época trariam as conclusões de suas investigações. A obra sobre as profecias de Daniel e o Apocalipse de São João, publicada após sua morte, em 1733, revelaria ao mundo sua versão para o significado verdadeiro das profecias. Sua postura anti-trinitarista, sua revolta com as distorções e corrupções na verdadeira religião, não precisavam mais permanecer ocultas. Newton morreu em 27 de março de 1727.
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Fonte: www.ifi.unicamp.br