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Veneza

 

 

HISTÓRIA DAS COMUNIDADES

O encanto de Veneza

De uma espantosa beleza, Veneza é uma cidade única, verdadeiro museu a céu aberto. Foi nessa cidade, construída sobre ilhas, que, durante o renascimento, floresceu uma comunidade judaica cosmopolita, das mais importantes da Europa. Apesar de entre Veneza e os judeus as relações sempre terem sido marcadas por relativa tolerância, foi lá que surgiu o primeiro gueto.

A história de Veneza, no nordeste da Itália, tem início com a decadência do Império Romano do Ocidente, quando, ao procurar abrigo das hordas bárbaras que invadiam a Península Itálica, os habitantes das redondezas se refugiaram nas ilhas da lagoa veneziana, banhada pelas águas do mar Adriático. Segundo a tradição, Veneza foi fundada em 421 desta Era, permanecendo, por séculos, sob tutela do Império Bizantino. No século IX, a cidade se livra dessa tutela, tornando-se um estado autônomo, dirigida por um "Doge" e por uma oligarquia. Até a Era Napoleônica, a "Sereníssima República de Veneza" manter-se-ia independente.

Já no século X, a cidade tornava-se uma potência marítima e comercial. Estrategicamente localizada à beira do Mar Adriático, vizinha ao Império Bizantino, possuía uma das maiores frotas navais da Europa - o que lhe permite o controle de inúmeras rotas comerciais entre Ocidente e Oriente. A partir de 1204, quando a 4ª.Cruzada toma Constantinopla, a "Sereníssima" torna-se o poder dominante na região, ponto de intercâmbio cultural e comercial entre Ásia e Europa. E, em meados de 1500, a cidade atingia seu apogeu.

Os primeiros judeus

A documentação historiográfica sobre os judeus de Veneza é escassa e grande parte das informações se baseiam na tradição oral. Sabe-se que havia judeus na região de Veneto nos primeiros séculos da EC, e, segundo a tradição, havia judeus em Veneza durante toda a Baixa Idade Média. Na época, o porto de Veneza era escala obrigatória para quem ia ao Oriente e, como se sabe, muitos viajantes eram judeus. Há historiadores que acreditam que a ilha Spinalonga, conhecida como "Giudecca", tenha recebido este nome porque, nos primeiros séculos após o ano 1000, lá residia um núcleo judaico. Esta suposição baseia-se, entre outros, no fato de que, em mapa de 1346, a ilha aparece como "Giudaica", além de lá terem existido duas sinagogas, destruídas no século XVI.

Durante a Idade Média, a lagoa não teve presença judaica significativa. Até o século XIV, os judeus eram obrigados a viver e trabalhar em "Terra Ferma", na cidade de Mestre, e uma série de decretos restringia o número de dias que podiam permanecer na cidade. Mas, se não tinham permissão para viver na lagoa, o mesmo não ocorria nos domínios da "Sereníssima" em terra firme, onde os judeus adquiriram importância numérica e econômica.

Ondas migratórias judaicas

No decorrer da história, os domínios da "Sereníssima" serviram de abrigo para sucessivas levas de judeus, vindos de toda a Europa. Pois, ao longo dos tempos, a atitude em relação a eles sempre foi de relativa tolerância, ditada principalmente por interesses comerciais.

Durante a Idade Média, em conseqüência da hostilidade acumulada através dos séculos e da histeria das massas cristãs durante as Cruzadas e a Peste Negra (1348-49), os judeus foram perseguidos e expulsos da maioria dos países da Europa Ocidental. Os primeiros a chegar à região foram os judeus "italianos" vindos do centro sul da Península Itálica, principalmente de Roma. No século XIV, quando intensas perseguições e massacres se abateram sobre eles, acusando-os de serem os causadores da Peste Negra, levas de judeus asquenazitas cruzaram os Alpes e se estabelecem no norte da Itália, muitos na região do Vêneto. Originários de países de língua alemã, esses judeus, chamados pelos venezianos de "Tedeschi" - trouxeram consigo seu idioma, suas tradições e grande experiência no comércio, como prestamistas. Quando, no século XIV, a política de expulsões atinge a França, a região recebe judeus também dessa origem.

O ano de 1385 foi de particular importância para a história da Veneza judaica, pois a cidade - em guerra e precisando de capital - autorizou banqueiros judeus asquenazitas a residir nas ilhas da lagoa, concedendo-lhes a primeira Condotta, a dizer, um "código de conduta". No ano seguinte, o Senado veneziano autoriza a instalação de um cemitério judaico em uma área pré-determinada, no Lido.

Em Veneza, as Condotte, assim como contratos similares em outros países, regiam o relacionamento entre judeus e o Estado. Este os autorizava a emprestar dinheiro a uma taxa pré-fixada, garantindo-lhes proteção e liberdade de culto e ter uma sinagoga em cada cidade. Em contrapartida, os judeus eram obrigados a colocar um mínimo de capital em circulação e pagar altos impostos. Veneza também lhes impôs o uso de um distintivo, no vestuário. Inicialmente um círculo amarelo e, posteriormente, um chapéu em cor amarela ou vermelha - o "chapéu de judeu". Como a Condotta não tinha caráter definitivo, requerendo renovação periódica, foi precária a presença judaica na cidade, durante o século XV.

Após sua expulsão da Espanha, em 1492, foi a vez dos judeus ibéricos se estabelecerem nos domínios da "Sereníssima". Entre eles, o famoso sábio espanhol Don Isaac Abravanel, que faleceu na cidade, em 1509.

Os judeus viam em Veneza - à época, o mercado financeiro mais lucrativo do mundo - a oportunidade de participar, ainda que de forma restrita, nessa euforia de prosperidade. Comunidades judaicas se formaram em Mestre e outras cidades em "terra firme", entre as quais Pádua, Treviso, Bassano, Conegliano. Gradativamente os judeus se haviam tornado um núcleo considerável, em número e em importância. Cada novo grupo a se instalar mantinha os hábitos, cerimônias e rituais de suas comunidades de origem. Isto marcaria, de forma acentuada, o futuro desenvolvimento da vida comunitária, no gueto.

Criação do gueto: uma solução veneziana

Os anos de 1508 e 1509 foram difíceis para a "Sereníssima", pois a derrota da República veneziana frente à Liga de Cambrai provocara a fuga para a lagoa dos habitantes da "terra firme". Entre estes, centenas de judeus. Os banqueiros de Mestre foram calorosamente acolhidos, pois Veneza precisava do aporte de seu capital. Mas, a derrota deixou marcas no ânimo dos habitantes. Frades franciscanos incitavam as massas, afirmando que a derrota era o "merecido castigo" para a cidade por seus pecados, dos quais o mais grave fora permitir aos judeus viverem livremente. O populacho passou a pedir a sua expulsão, mas o Senado não estava disposto a perder aquele patrimônio, tão importante para sua economia.

Em 1516, os senadores venezianos encontram a solução: não os expulsariam, mas os confinariam a uma área específica da cidade. Dessa maneira, continuavam a se beneficiar economicamente dos judeus enquanto conseguiam reduzir, ao mínimo, os contatos destes com o restante da população. Desde o início da Diáspora, os judeus sempre preferiram residir em bairros separados, chegando até a exigi-lo. Mas o decreto veneziano transformara uma "opção preferencial" em obrigação legal e patente desqualificação social. Porém, por pior que fosse a "solução veneziana", foi o que impediu que se aceitassem propostas subseqüentes para os expulsar. Segundo um historiador italiano, Roberto Bonfil, "o gueto era uma espécie de meio-termo entre o sonho dos judeus de serem aceitos incondicionalmente e o pesadelo de sua expulsão".

O local demarcado pelo Senado foi o Ghetto Nuovo, uma pequena ilha parcialmente habitada, onde, até 1390, existia uma fundição. Muitos filólogos acreditam que a palavra "ghetto" derive de "gettare", que no veneziano do século XIV significava "fundir metal".

Estima-se que 700 judeus tenham sido confinados na ilha, área insalubre que mais parecia uma fortaleza, com seus altos muros e acesso restrito a duas pontes levadiças. Por determinação do Senado, os portões deviam ser trancados à meia-noite, por quatro guardas cristãos - pagos, por força da lei, pelos próprios judeus - e eram reabertos pela manhã. Durante a noite, apenas os médicos podiam deixar o gueto e nenhum cristão lá podia entrar. Foram impostas severas regras sobre o uso do "chapéu de judeu". Como lhes era proibida a compra de imóveis, ficaram à mercê da ganância dos proprietários, que impõem um aumento de 33% sobre o valor dos aluguéis.

O Senado definiu também o status legal da "Nazione Tedesca", como passou a ser chamado esse grupo composto de ashquenazim, em sua maioria originários de países de língua alemã, mas que incluía italianos e franceses. Eram obrigados a pagar alto tributo anual aos cofres da República, além dos impostos costumeiros. Cabia à comunidade administrar casas de penhora e empréstimos, dentro do próprio gueto. Além disso, somente lhes era permitido atuar no comércio de roupas usadas ou praticar a medicina. Para alguns, foi dada a permissão de trabalhar em gráficas, na produção dos livros judaicos. Daniel Bomberg, cristão dedicado à impressão de textos hebraicos, foi o primeiro a imprimir o Talmud Bavli e o Talmud Ierushalmi, respectivamente o Babilônico e o de Jerusalém, em Veneza, entre 1520 e 1523.

Em 1529, treze anos após a criação do gueto, é inaugurada a primeira sinagoga, a Scuola Grande Tedesca, de rito asquenazita. Três anos mais tarde, acredita-se que um grupo de judeus da Provença, querendo seguir seu próprio rito litúrgico, se tenha separado dos asquenazitas alemães, fundando outra sinagoga, a Scuola Canton, a poucos metros da Tedesca. Ambas, ainda hoje, podem ser admiradas. (ver artigo nesta edição, "O brilho das sinagogas").

Judeus do Levante e do Poente

O estabelecimento dos judeus levantinos em Veneza se deu em condições diferentes das enfrentadas pelos que os antecederam. A República encontrava-se economicamente enfraquecida: o comércio com o Levante declinara e a guerra contra os turcos esvaziara seus cofres. Os judeus levantinos pareciam ser a salvação. Ao admiti-los, Veneza visava assegurar sua presença no comércio internacional, já que, sob domínio otomano, os judeus se haviam tornado poderosos comerciantes e financistas.

Num primeiro momento, a Sereníssima concede aos levantinos apenas a permissão de residir no gueto por curtos períodos de tempo. No entanto, cada vez mais, Veneza dependia de sua presença. Por fim, em 1541, querendo fomentar ainda mais o comércio, o Senado lhes concedeu uma área adjacente ao gueto, conhecida como "Ghetto Vecchio". As imposições eram um tanto diferentes das que regiam a vida dos judeus asquenazitas; sua estadia no gueto tinha que ser breve. Os levantinos trouxeram consigo costumes e tradições. Contrastando com os modestos hábitos da "Nazione Tedesca", esses comerciantes, acostumados à vida no Oriente, viviam em grande conforto.

Duas belas sinagogas de rito sefaradita são erguidas no gueto: Scuola Levantina e Scuola Grande Spagnola, para os de origem ponentina. Apesar de não se ter a data exata da construção, diz uma tradição oral que a Scuola Levantina foi erguida em 1538, três anos antes do ingresso oficial dos judeus dessa origem no Ghetto Vecchio.

Entre os levantinos havia muitos de origem sefaradi. Alguns descendiam de famílias que, após sua expulsão da Península Ibérica, em 1492 e 1497, se haviam estabelecido na Grécia e Turquia. Outros eram conversos, de várias partes da Europa, e o gueto de Veneza representava a oportunidade de voltar ao judaísmo. Para as autoridades venezianas, estes representavam um problema político, pois a Igreja os tinha como hereges. Apesar de católica, Veneza sempre prezou sua autonomia política, resistindo, por muito tempo, às pressões da Igreja para adotar atitudes severas contra os hereges e judeus que lá viviam. Mas, em 1547, acaba cedendo à insistência papal. Instala-se a Inquisição em Veneza, ainda que, aos olhos de Roma fosse uma Inquisição "morna", sem pulso, principalmente no tocante aos judaizantes.

A de conduta da Sereníssima face aos conversos sempre foi marcada por moderação e pragmatismo. Ignorava o passado dos que queriam viver no gueto como judeus, principalmente porque, entre os recém-chegados, contavam-se os elementos mais ricos e talentosos da época.

Mesmo assim, os judeus não podiam confiar apenas na moderação das autoridades.

Um dos mais famosos mercadores levantinos do século XVI, Daniel Rodrigo, empenhou-se durante anos em modificar o status da "Nação Levantina". Cônscio da necessidade de incluir, de forma explícita, os conversos na Condotta, valeu-se de um subterfúgio legal para contornar o problema. Em petição de 1583, requer direito de residência também para os "judeus do Poente", eufemismo para definir os conversos. Seu pedido foi indeferido; mas, seis anos mais tarde, seu estratagema daria certo. Em 1589, Rodrigo consegue obter do Senado uma Condotta em separado para a Nação Levantina e, nesta, a Sereníssima estende aos "judeus ponentinos" os mesmos direitos de residência concedidos aos levantinos.

Aquele mesmo ano marca a consolidação definitiva da estrutura do gueto. Veneza passa a ter duas comunidades judaicas legalmente reconhecidas, que conviviam lado a lado: a Nação Alemã, que incluía todos os judeus asquenazim, italianos e franceses; e a Nação Levantina, incluindo os judeus orientais, sefaraditas e conversos.

Nada mudaria nos próximos 200 anos, exceto o fato de, em 1633, ser incorporada ao gueto a área do "Ghetto Nuovíssimo", composta por 20 edifícios destinados à residência de mercadores levantinos e ponentinos. A peste de 1630 abalara a economia veneziana e o Senado visava dar novo ímpeto à economia, tentando atrair para seus domínios as riquezas dos judeus de origem sefaradi.

Idade de Ouro dos judeus de Veneza

O século XVII foi a Idade de Ouro dos judeus venezianos. Estima-se que em 1630, antes da peste que dizimaria a população da cidade, vivessem no gueto 5 mil pessoas. A comunidade conhecia seu apogeu. Muito próspera, era importante vetor na vida econômica local, sendo que a maior parte do comércio internacional era controlado pela Nação Levantina.

Culturalmente, também, a comunidade estava em seu auge. No gueto havia teatro, academia de música, salões literários. E lá viviam médicos famosos e respeitados nas cortes de toda a Europa. Grandes personalidades marcaram a vida judaica, no período. Entre estas, o rabino Leon da Modena, autor eclético entre cujas obras destacam-se a famosa Historia de'Riti Hebraici, e um tratado contra o jogo, escrito aos 13 anos de idade. Outra foi o Rabino Simone Luzzato, chefe da comunidade de Veneza por 50 anos, autor do trabalho "Discurso sobre a situação dos Judeus", que examinava sua condição sócio-política em ambiente não-judaico. Outra importante presença no gueto foi a da poetisa Sara Coppio Sullam. A Sereníssima foi, também, centro de difusão de conhecimentos para inúmeros judeus sefaraditas que, posteriormente, implantariam novas comunidades em Londres e em Amsterdã.

A economia veneziana entrou em declínio no séc. XVII. De um lado, as guerras contra os turcos tinham esvaziado os cofres públicos; de outro, as recentes descobertas territoriais tinham mudado o principal eixo do comércio internacional do Mediterrâneo para o Atlântico, transformando Veneza - de forma irreversível - num centro comercial e financeiro periférico.

Muito necessitada de recursos, a República exigia da comunidade judaica tributos cada vez mais elevados, enfraquecendo sua situação econômica. Esta se deterioraria ainda mais no século seguinte, provocando um êxodo do gueto em direção a centros mais prósperos, como Amsterdã. Em 1737, a comunidade declarava sua falência. Dos 4.800 judeus que viviam em Veneza em 1655, apenas 1.700 restavam em 1766.

O fim do gueto

Em 1797, as tropas de Napoleão, imbuídas dos ideais da Revolução Francesa, conquistam a República. Abrem-se os portões do gueto, pondo fim a mais de 250 anos de segregação. Todas as leis específicas aos judeus são revogadas. Após a derrota de Napoleão no ano de 1815, Veneza se torna parte do Império Habsburgo, que, apesar de cancelar determinações aprovadas durante o domínio francês, aprova uma lei que permitia aos judeus a aquisição de imóveis e o exercício de profissões liberais, assim como prestar o serviço militar e freqüentar as escolas públicas. O gueto jamais foi restabelecido, apesar de muitos judeus preferirem continuar entre as muralhas. Após a unificação do país, em 1866, conseguiram igualdade civil. Um dos venezianos judeus mais famosos foi Luigio Luzzati, membro do parlamento italiano durante 50 anos. Em 1910, foi eleito primeiro-ministro, sendo o primeiro judeu a exercer esse cargo.

A tensão crescente levou inúmeros membros da comunidade a deixar Veneza, após a 1ª Guerra Mundial. Durante os primeiros anos do governo de Benito Mussolini, não lhes foram impostas quaisquer restrições. A situação se modificou, no entanto, em 1930, quando o ditador italiano se aproxima de Hitler. Em 1933, eram 1841 os judeus de Veneza, tendo esse número caído para 1200, em 1938, quando o governo fascista promulga as leis raciais. Estas tiveram enorme impacto sobre os judeus da Itália.

Em julho de 1943, quase no final da II guerra Mundial, cai o governo fascista, aliado da Alemanha nazista. Mussolini é preso e o novo governo negocia a capitulação da Itália. Dois meses depois, as tropas alemãs desembarcam no norte da Itália. Ainda naquele setembro, Giuseppe Jona, presidente da comunidade judaica de Veneza, suicida-se após receber a exigência nazista de entregar uma lista com os nomes de todos os seus correligionários. Sua auto-imolação salva centenas deles, que ganham tempo para escapar. Duas semanas mais tarde, a guarda fascista reúne um contingente de judeus em Veneza, de onde são posteriormente deportados para a Alemanha. Os mais idosos foram arrancados do leito, no Asilo "Casa Israelitica di Riposa". O Rabino-Chefe da cidade, Rabi Adolfo Ottolenghi, também foi deportado e morre nos campos de extermínio nazistas. No total, 289 judeus foram deportados, dos quais apenas 7 retornam. Após a libertação, em 1945, restavam apenas 1.050 deles na outrora florescente comunidade.

Hoje, Veneza tem uma população judaica de cerca de 500 pessoas, das quais apenas 30 vivem no antigo bairro, o Ghetto Nuovo.A comunidade é oficialmente ortodoxa e se percebe um reviver na vida cultural dos judeus da cidade. Realizam-se anualmente seminários, que atraem grande público, fazendo renascer o passado junto ao presente. Veneza é a única cidade italiana onde se pode ver um gueto intacto, que, imutável desde a sua criação, atravessa impavidamente o tempo.

Bibliografia:

Roberta Curiel e Bernard Dov Cooperman, The Gueto of Venice, Photographs by Graziano Arici,Tauris Parke Books.
Alan M. Tigay, The Jewish Traveler, Hadassah Magazine.
Shaul Bassi , artigo , "The Venetian Ghetto and Modern Jewish Identity" publicado em 2002 na revista "Judaism: A Quarterly Journal of Jewish Life and Thought", 2002.

Fonte: www.morasha.com.br

Veneza

História de Veneza em Itália

Veneza foi fundada em 452 d. C. por habitantes de Aquileia, Pádua e de outras cidades do Norte da Itália que aqui se refugiaram das tribos germânicas que invadiram a Itália no século V. Aqui estabeleceram o seu governo, liderado por 12 tribunos representantes das ilhas. Apesar de fazerem parte do Império Romano Oriental tinham uma certa autonomia. Em 697 foi organizada a República, chefiada por um doge. Problemas internos dividiram a República e só foram sanados com a união que se formou para combater os invasores. Os Sarracenos foram expulsos em 836 e os Húngaros em 900. Em 991 Veneza assinou um acordo com os muçulmanos, iniciando um proveitoso comércio com a Ásia que fez de Veneza o maior centro comercial com o Oriente e, consequentemente, um dos maiores e mais ricos da época.

História da cidade de Veneza

A República beneficiou também com a partilha do Império Bizantino em 1204, tornando-se a força política dominante da Europa de então. No final do século XIII a República transformara-se numa oligarquia, e nos séculos XIII e XIV envolveu-se em guerras com Génova, o seu principal rival a nível comercial. A sua supremacia foi afirmada no conflito de 1378-1381. Estas guerras, contudo, impediram-na de conquistar territórios vizinhos. De qualquer modo, no final do século XV a cidade-estado era a mais forte potência marítima do mundo.

As invasões turcas, iniciadas em meados do século XV, foram um dos factores decisivos para que entrasse em declínio. Veneza via-se confrontada com ataques externos e de outros estados italianos, e com a perda de poder económico na sequência da descoberta da via marítima para as Índias através do cabo da Boa Esperança (pelo navegador português Vasco da Gama entre 1497-1498).

Em 1508, o Sacro Império Romano-Germânico, o Papa e a Espanha conjugaram esforços contra Veneza na Liga de Cambrai, e dividiram o território entre si. Veneza retomou os seus domínios italianos através de negociações. No entanto, nunca mais conseguiu retomar a sua pujança política, embora continuasse a ser um ponto de referência no panorama internacional.

Nos últimos anos do século XVIII (1797), a República foi conquistada pelos franceses, liderados por Napoleão Bonaparte, que a entregou à Áustria. Esta dominação continuou até 1805 quando a Áustria foi obrigada a entregar Veneza ao reino de Itália, controlado pelos franceses. Contudo, em 1814 a cidade voltou a integrar os domínios austríacos.

Em 1815 Veneza uniu-se à Lombardia, para formar o efémero reino Lombardo-Veneziano.

Os venezianos, sob o comando do estadista Daniele Manin, revoltaram-se contra o domínio dos austríacos, em 1848, fundando uma nova República. Em 1849 a Áustria restaurou o seu poder. Mais tarde, em 1866, depois da Guerra das Sete Semanas, Veneza passou a integrar o renovado reino de Itália.

A cidade de Veneza em Itália: turismo à Veneza

Veneza, a Rainha do Adriático, é uma cidade e um porto do Nordeste da Itália, situada na região do Veneto. Possui uma população de 265 500 habitantes (2004).

A cidade está assente em 120 ilhas e é servida por 177 canais na lagoa entre as bocas dos rios Pó e Piave, no extremo norte do mar Adriático. As ilhas sobre as quais foi construída a cidade de Veneza têm cerca de 400 pontes e a sua principal via de comunicação é o Grande Canal, com aproximadamente três quilómetros.

A Veneza dos nossos dias confronta-se com vários problemas: perda da população para outras áreas geográficas, perigo de inundações, agravado pela poluição da água e do ar, e a sua avançada idade. Após as devastadoras cheias de 1966, a comunidade internacional conjugou esforços, através da UNESCO (Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas), para preservar a cidade de Veneza, reconhecida como uma das mais belas cidades do Mundo, que inequivocamente constitui um valioso património da Humanidade.

Os monumentos de Veneza

Actualmente o turismo representa a base da sua economia, outrora dominada pelo comércio. Veneza oferece aos seus visitantes, para além da beleza da sua arquitectura e dos seus canais, um vasto conjunto de actividades culturais que incluem festivais de cinema e o Carnaval de Veneza, uma celebração que remonta ao período medieval; a visita às obras dos "três tês" de Veneza, os pintores Tintoretto, Ticiano e Tiepolo; e produtos artesanais de renome internacional como as máscaras de Carnaval inspiradas nas tragicomédias, bem como os famosos vidros provenientes da ilha de Murano. Os principais pontos de interesse turístico desta cidade são os seus palácios, igrejas, museus, e canais; edifícios representativos da arte veneziana patente nas construções e nos elementos decorativos, nomeadamente pictóricos e escultóricos, que vão desde o estilo bizantino ao renascentista.

Na parte central da cidade, a mais visitada, está a Praça de S. Marcos. A este desta Praça situam-se os dois principais edifícios: a catedral bizantina de S. Marcos e o Palácio Ducal, também conhecido pelo nome de Palácio dos Doges.

A catedral, iniciada no século IX (828), foi reconstruída após o incêndio de 976 e novamente entre 1047 e 1071. O início da construção do palácio data igualmente do século IX (814), mas foi destruído quatro vezes pelo fogo, conduzindo a quatro reconstruções, que acabaram por engrandecer esta construção gótico-renascentista. O lado norte da Praça é ocupado pela Procuratoria Vecchia (1469), e o lado sul pela Procuratoria Nuova (1548), dois exemplares da arquitectura da época renascentista, que, durante a República de Veneza, serviram de residência a nove procuradores ou magistrados, entre os quais normalmente era escolhido o doge (governante) de Veneza.

Ao longo destes palácios corre o Atrio ou Fabrica Nuova (1810), arcadas que abrigam os mais elegantes cafés da cidade. Junto do Palácio dos Doges encontram-se duas colunas erigidas em 1180, uma com o leão alado de S. Marcos e outra representando S. Teodoro num crocodilo. Outro edifício simbólico é o campanille de S. Marcos, de 91 metros, construído entre 874 e 1150, e reconstruído depois do colapso em 1902. Nas costas do Palácio dos Doges está situada a Ponte dos Suspiros, um lugar de lendas e histórias de amor, o local por onde passavam os prisioneiros de e para o julgamento.

A ponte mais famosa do grande canal é a do Rialto, erigida em 1588. Ao longo deste canal, que representa a principal artéria de Veneza, estão dispostos os edifícios pertencentes às grandes famílias da cidade. A norte, perto do lago, encontra-se a igreja quatrocentista de S. João em Bragora, uma construção gótica utilizada antigamente como igreja funerária dos doges.

Nas suas imediações está a estátua equestre do general Bartolomeo Colleoni, da autoria do artista florentino Andrea del Verrocchio, e junto desta o arsenal. As ilhas estendem-se para este na direcção do Lido, um reef fora da lagoa conhecido por ser uma estância de férias. Grandes museus como O Ca'd'Oro, instalado num palácio gótico no grande canal, e igrejas históricas espalham-se por toda a cidade. A Libreria Vecchia e a Universidade de Veneza, de 1868, são outros dos muitos motivos de interesse desta cidade.

Carnaval de Veneza em Itália

Hoje celebrado em várias partes do Mundo, o Carnaval ou Entrudo teve a sua origem na Europa, segundo uns nas festas em honra de Baco ou Saturno da Roma antiga, embora outros se inclinem mais para reconhecer a sua raiz nos rituais celtas pagãos que foram posteriormente regulamentados pela Igreja Católica. Do latim levare (retirar) e carne, o Carnaval marcava o fim dos prazeres carnais e era celebrado com grande liberdade de costumes, em que se podia comer e beber sem limite, nos três dias anteriores à Quaresma, período de abstinência em que só era permitido comer peixe. O Carnaval de Veneza pode ser considerado o mais importante e famoso de toda a Europa.

Carnaval

A sua origem, nos termos em que hoje é conhecido, remonta, segundo se pensa, ao ano de 1162, quando a então designada Repubblica Della Serenissima obteve uma importante vitória na guerra contra Ulrico, o patriarca de Aquileia, que invadiu a cidade enquanto esta estava ocupada a lutar com o Ducado de Pádua e Ferrara. Após a derrota, Ulrico teve de pagar à cidade um touro e doze porcos, que passaram, a partir de então, a fazer parte da tradição da festa da Sexta-feira Gorda, em que o mesmo número de animais era morto na Praça de S. Marcos, numa grande festa que incluía banquetes, danças, espectáculos de acrobacias, truques de magia e marionetas, entre outros.

A especificidade do Carnaval de Veneza nascia assim oficialmente das celebrações desta vitória e, como era hábito na Idade Média, mágicos, charlatães, acrobatas e saltimbancos juntavam-se ao povo, aos mercadores e à nobreza. Veneza, na época ainda uma pequena mas muito poderosa república, tinha uma acentuada característica multicultural, fruto da sua importância como centro mercantil e ponto obrigatório da passagem, tanto no actual território da Itália como nas rotas da China e do Próximo Oriente.

Esta festa continuou por muitos séculos até que no século XVII foi enriquecida em termos de música, cultura e vestuário rico e exótico. As belíssimas máscaras estiveram, durante centenas de anos, associadas à tradição e à fantasia do Carnaval e muitas delas tornaram-se famosas fazendo mesmo parte da "Commedia dell'Arte", um tipo de teatro cómico surgido na segunda metade do século XVI, que se contrapunha ao teatro clássico rígido e formal e que imortalizou personagens como o Arlequim, a Columbina, a Pulcinella, o Doutor ou o Pantalone.

Em Veneza o Carnaval começava oficialmente com o Liston delle Maschere, o caminho das máscaras, que era o passeio dado pelos habitantes que, elegantemente vestidos e usando as suas máscaras, expunham as suas riquezas em sedas e jóias. Primeiro pelo Campo de Santo Stefano e mais tarde pela Praça de S. Marcos, por este último local ser mais espaçoso, para trás e para a frente, desfilavam repetidamente até acabarem no restaurante ou no teatro.

A "Bauta", de cor branca, é considerada a máscara tradicional de Veneza, a qual permitia ao seu utente comer e beber sem a retirar, sendo usada também durante todo o ano para proteger a identidade e permitir os encontros românticos. A "Moretta", máscara exclusivamente feminina, foi uma das mais famosas, apesar de ser segura, através de um botão, pelos dentes da frente, o que impunha às mulheres um silêncio forçado muito do apreço dos homens.

As touradas ao estilo de Pamplona, introduzidas em Veneza no século XVII, foram muito populares até ao início do século XIX. Tinham lugar desde o primeiro dia até ao último domingo de Carnaval, excepto à sexta-feira, cada dia numa parte diferente da cidade, começando logo após o almoço. Outra prática interessante era o patinar no gelo dos canais de Veneza, o que demonstra bem o tipo de condições atmosféricas desses tempos. Os espectáculos de marionetas agradavam imenso à população e eram uma forma de vender bálsamos milagrosos e o elixir da longa vida.

O Carnaval era uma excelente oportunidade para conhecer novos amores e uma das formas de fazer a corte às mulheres; era a prática de atirar ovos perfumados, cheios de água de rosas, às casas das eleitas, mas também aos espectadores, às damas da sua preferência e aos maridos destas. "Mattaccino" era o nome dado às máscaras dos jovens atiradores de ovos, ficando a ser um dos personagens típicos do Carnaval de Veneza. Estes ovos perfumados, que existiam em grande variedade, chegaram a ser grande moda e eram vendidos nas ruas pelos mercadores.

Existem hoje em Veneza cerca de dois mil fabricantes de máscaras, verdadeiras obras de arte feitas de couro, papel mâché, alumínio ou seda. Requintadas, como a maschera noble, ou absurdas, como o taracco da Commedia Dell'Arte, são absolutamente imprescindíveis ao ambiente de ilusão feérica vivido no grande palco de personagens irreais em que Veneza se transforma durante o Carnaval. O entusiasmo e a folia continuam no Carnaval de hoje, grande atracção turística que chama à cidade um sem-número de estrangeiros que nem a inflação dos preços dos hotéis consegue desencorajar. Nas ruas, os trajes e as máscaras continuam exuberantes e magníficos e o auge da festa é atingido no fogo-de-artifício de terça-feira à noite, após o qual os ânimos desmaiam no rescaldo dos despojos do festim que ainda mantém o seu carácter sensual e pagão de celebração da Primavera.

A gondola de Veneza em Itália

Verdadeiro ex-líbris de Veneza, a gôndola sofreu um longo processo de evolução ao longo dos séculos, tanto na sua estrutura como nos seus acabamentos, acompanhando o desenvolvimento e as transformações da própria cidade. É mencionada pela primeira vez em 1094, num decreto do doge Vitale Falier como gondulam, nome, de origem incerta, que tanto pode ter resultado do termo latino para pequeno barco cymbula, como do diminutivo de concha, cuncula, como ainda das designações gregas para embarcações, como kundy ou kuntòhelas. No entanto, foi entre os fins do século XV e os princípios do século XVI que surgiram as primeiras representações visuais da gôndola pela mão de artistas como Gentile Bellini, Vittore Carpaccio ou Giovanni Mansueti. Neste período, a gôndola não se distinguia muito de outras embarcações a remos de estilo veneziano, mas, em meados do século XVI, a sua função é quase exclusivamente destinada ao transporte privado de pessoas de um certo nível social. O lugar destinado ao gondoleiro é muito reduzido e instável e os passageiros acomodam-se em dois simples bancos de madeira encostados ao "trasto" da popa.

Gondola

Os ferros reduzem-se ainda a duas lâminas muito subtis, mas algumas gôndolas apresentam já o felze, uma cobertura que lhes dá uma aparência de carruagem, ao mesmo tempo que protege o seu interior do mau tempo e dos olhares indiscretos. A sua característica cor negra resulta do alcatrão utilizado para uma melhor impermeabilização. Na segunda parte do século XVI, dá-se a primeira transformação significativa da gôndola: mais longa e mais estreita, os ferros da proa e da popa assumem um aspecto particular que confere uma linha nova ao perfil do barco e os pregos que seguram os ferros ao casco tomam a forma de lâminas, numa clara intenção estética.

No século XVII, o casco alonga-se, levantando a popa, e os ferros tornam-se verdadeiros pontos de referência, no ferro da proa a lâmina superior torna-se arredondada e de dimensão mais evidente. No século XVIII, o casco alonga-se ainda mais, deixando um maior espaço de manobra para o gondoleiro, enquanto o ferro da proa atinge a sua forma definitiva, com os típicos pregos decorativos, e a cobertura, ou felze, adquire uma estrutura mais sólida. A forcola onde encaixa o remo toma a forma de cotovelo, tão característica no final deste século.

A gôndola do século XIX está na transição entre a do século anterior e a actual, que é assimétrica e foi adaptada às necessidades práticas de navegação. Atingindo a gôndola nesta altura os onze metros de comprimento, a respectiva popa sobe em relação ao nível da água para um maior controlo e visibilidade do gondoleiro. A proa sobe também ligeiramente, começando a dar ao barco uma bela forma de lua crescente que só aparece como definitiva no século XX.

O resultado é a diminuição da superfície do casco imersa na água, o que lhe confere maior margem de manobra, imprescindível nos estreitos canais da cidade, permitindo facilmente à gôndola girar sobre si mesma. O facto de a gôndola se tornar progressivamente assimétrica a partir desta fase é uma das evoluções mais importantes, deslocando-lhe o centro de gravidade para o lado direito, o que lhe facilita a capacidade de navegabilidade e, ao mesmo tempo, compensa o peso do gondoleiro.

No século XX, a proa levanta-se ainda mais, reduzindo a parte do casco submersa na água, o que permite ao barco vencer com mais facilidade a ondulação causada pelas correntes e pelas restantes embarcações, muitas delas motorizadas. A assimetria atinge um ângulo de inclinação oito vezes superior ao do século anterior, cerca de 24 centímetros, enquanto que a cobertura desaparece completamente. A gôndola atingiu, ao longo da sua evolução, um compromisso interessante entre os objectivos estéticos e de navegabilidade que a tornam uma embarcação única em todo o Mundo.

Fonte: www.voyagesphotosmanu.com

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