AIÊ – “O RECANTO DOS ORIXÁS”
Esse estudo combinado de desenhos e textos surge como um dos resultados das várias pesquisas de campo realizadas pela equipe do LEO (Laboratório de Estudos da Oralidade) junto às manifestações da religiosidade afro-brasileira, na cidade de João Pessoa – PB, com especialmente atenção para a umbanda. Desde 1996 estamos fazendo registros sistemáticos das várias festas que compõem o calendário religioso dessas manifestações religiosas, fazendo uso de fotografias, gravações em vídeo e em cassete, com o intuito de observarmos as particularidades relacionadas ao canto, música, poesia e danças, seguindo a trilha deixada pelos estudos dos cocos, realizados neste Laboratório.
As nossas pesquisas se centralizam principalmente no Templo Religioso de Umbanda Nossa Senhora do Carmo, situado no bairro da Torre, em João Pessoa; casa da Ialorixá Maria dos Prazeres. A ordem de louvação aos orixás normalmente é fixa nas festas realizadas neste templo: inicia-se com um ponto de defumação, depois canta-se para Exu e Pombagira; depois Ogum (orixá que abre os caminhos); Odé (outro nome para Oxóssi, deus da caça); Omulu (orixá que tanto traz, quanto cura as doenças); Nanã (a velha iabá); os "Beijinhos" (entidades infantis); Oxum (orixá da beleza, do amor, do ouro e dos rios); Xangô (senhor da pedreira e da justiça); Iansã (que domina os ventos e os eguns); Iemanjá (a mãe sempre farta, rainha do mar) e por fim Orixalá (o senhor da criação, "rei do mundo inteiro").
Os pontos cantados de umbanda pertencem a um conjunto de formas poéticas populares com função e sentido religioso: são poemas simples, sem marca de autoria, ligados intimamente ao canto e a dança e que guardam um universo simbólico onde se misturam tanto elementos herdados dos negros africanos quanto da tradição católico-popular brasileira
É através desses cantos sagrados que se invocam os deuses, os pedidos são feitos e se operam as mudanças na natureza dos espaços sagrados. Podemos atestar a força mágica da voz e das palavras que assumem o status de ponte de ligação entre os fiéis e o Aiê, terra encantada onde moram os orixás. Cantar o ponto é abrir caminho um caminho para a chegada do orixá. No entanto, os pontos são apenas uma parte de um todo simbólico específico de cada entidade, que compreende ainda os trajes que normalmente obedecem a um padrão cromático correspondente a cada orixá, os paramentos, os pontos riscados, as comidas e as lendas, que podem aparecer diluídas nas estruturas internas dos pontos cantados, pois alguns deles têm um caráter narrativo, dando assim continuidade ao ato de contar e recontar as vidas e façanhas dos orixás a cada vez que são trazidos à tona pela memória dos tiradores.
Os desenhos combinados com os pontos cantados de cada orixá, recontam as narrativas e trazem à tona o universo mítico-simbólico desse culto. Dessa forma, o nosso trabalho foi apenas o de juntar os pedaços desse quebra-cabeça que envolvia as várias imagens gravadas em vídeo e em cassete, as fotografias e principalmente, a fala de cada um dos filhos-de-santo que conhecemos, que contavam através dos seus cantos e corpos as lendas de cada entidade, dançando nas festas e abrindo caminhos para a chegada dos deuses.
EXU
É o responsável pela comunicação entre homens e deuses. Domina as porteiras e encruzilhadas. Quando há festa de orixá, Exu sempre recebe a primeira oferenda. É um orixá brincalhão, ousado, bom e ruim ao mesmo tempo. Suas cores são vermelho e preto. Fuma charuto, cachimbo e cigarro. Bebe cachaça, água e mel.
Come farofa de dendê, bode e frango. Seu elemento é o fogo.

Ele é capitão da encruzilhada
Ele é
Ele é mensageiro de Ogum
Sua coroa quem lhe deu foi Oxalá
Sua digina quem lhe deu foi Omulu
Ô salve o sol, as estrelas
Salve a lua
Saravá Seu Tranca-Rua
Ele é dono da gira
Ele é dono da rua
OGUM
É o orixá do ferro e da guerra. Abre e domina os caminhos com sua espada. Suas cores são verde e vermelho. Toma cerveja branca. Come farofa de dendê com feijão verde, bode, frango e feijoada. Suas frutas são manga espada e cana-de-açúcar. Seu dia é terça-feira. Seu elemento é o ferro.

Sustenta a gira Ogum
Não deixa a demanda entrar
É hora, é hora, é hora Ogum
É hora de trabalhar
É cavaleiro da Oxum
É remador de Iemanjá
Ele é soldado, ele é guerreiro
É ordenança de Oxalá
ODÉ
Domina as matas. Deus da caça, do verde. Suas cores são verde e branco. Come porco, bode e frango. Suas frutas são melão e sapoti. Seu dia é a quinta-feira. Seu elemento é a mata.

Cadê minha fera braba
Meu tigre devorador ?
Eu atirei ele caiu
Chegou Odé caçador