O RESGATE DA PROFISSÃO FARMACÊUTICA: ELO ENTRE A SAÚDE E O PACIENTE
INTRODUÇÃO
Falar da profissão farmacêutica significa ir além de diversas culturas, costumes e lendas. É voltar ao passado e reviver a nossa colonização, nossas lutas, batalhas, dores e alegrias. É lembrar do surgimento da Farmácia com os primeiros aventureiros e colonos deixados por Martim Afonso, governador das Índias Ocidentais do Brasil, que tiveram de valer-se de recursos da natureza para combater as doenças, curar ferimentos e neutralizar picadas de insetos.
É lembrar dos boticários do século XIII, que, muitas vezes, tiveram de aprender com os pajés a preparar os remédios da terra para tratar seus próprios males, uma vez que, o medicamento da civilização, como era chamado, só aparecia quando expedições portuguesas, francesas ou espanholas chegavam com suas esquadras, onde sempre havia um cirurgião-barbeiro ou algum tripulante com uma botica portátil cheia de drogas e medicamentos. É lembrar das boticas que iniciaram suas atividades como comércio em 1640, e, a partir daí, se multiplicaram, sendo dirigidas por boticários aprovados em Coimbra pelo físico-mor, ou por seu delegado comissário na capital do Brasil, Salvador.
Falar da profissão farmacêutica é lembrar de poetas como Monteiro Lobato que nos homenageou com o seguinte poema abaixo:
O Papel do Farmacêutico
O papel do Farmacêutico no mundo é tão nobre quão
vital. O Farmacêutico representa o órgão de ligação
entre a medicina e a humanidade sofredora. É o atento guardião
do arsenal de armas com que o Médico dá combate às doenças.
É quem atende às requisições a qualquer hora do
dia ou da noite. O lema do Farmacêutico é o mesmo do
soldado: servir.
Um serve à pátria; outro serve à humanidade, sem nenhuma discriminação de cor ou raça. O Farmacêutico é um verdadeiro cidadão do mundo. Porque por maiores que sejam a vaidade e o orgulho dos homens, a doença os abate - e é então que o Farmacêutico os vê. O orgulho humano pode enganar todas as criaturas: não engana ao Farmacêutico.
O Farmacêutico sorri filosoficamente no fundo do seu laboratório, ao aviar uma receita, porque diante das drogas que manipula não há distinção nenhuma entre o fígado de um Rothschild e o do pobre negro da roça que vem comprar 50 centavos de maná e sene.
Infelizmente em nossa profissão nem tudo é belo, o passado foi promissor, o presente é preocupante e o futuro depende de cada profissional. Em meados do século XIX, os farmacêuticos dominavam o processo de produção dos medicamentos em sua totalidade.
Com o advento da industrialização dos medicamentos, soros e vacinas, a farmácia passou a abrigar, além da prática da manipulação de produtos magistrais, a venda das especialidades farmacêuticas.
Aos poucos, as características principais da farmácia modificaram-se, afetando diretamente o perfil do farmacêutico. Na visão da categoria, o campo profissional de maior interesse, não só pela remuneração, mas também pela aplicação de conhecimento técnico, passou a ser a indústria.
O afastamento da profissão farmacêutica do lugar original de trabalho (a farmácia) associado às transformações tecnológicas e funcionais caracteriza, segundo Santos,1 um processo de "desprofissionalização", entendido como a perda de suas qualidades específicas, em especial o monopólio do conhecimento, a confiança pública e a perspectiva da autonomia do trabalho.
Seu afastamento criou espaço para que leigos e comerciantes, sem qualquer conhecimento técnico, assumissem o seu "lugar", estimulando o consumo irracional de medicamentos e colocando em risco a saúde da população.
Para Perini,2 um processo conseqüente da evolução tecnológica transformou as ações do farmacêutico, que o aproximam do médico e de seu cliente, em atos vazios de um sentido transcendente às relações comerciais. Sua "casa de saúde" transformou-se em "entreposto comercial", um empório.
É preciso que essa profissão volte a ter seu reconhecimento no Brasil, pois suas bases estão ligadas à pesquisa, à manipulação, à produção, à atenção farmacêutica, à farmacologia clínica e à dispensação dos medicamentos essenciais às ações de saúde.
Deve ser considerada como um exercício profissional de forma semelhante
a qualquer outra profissão da área da saúde, onde o profissional
é responsável por satisfazer as necessidades de cuidado específico
de cada paciente, indo ao encontro de uma necessidade social única,
feita por meio da aplicação de conhecimento e habilidades especificas,
proporcionando ao paciente, as necessidades relacionadas ao bem-estar geral.
Para atender de forma eficaz a essa necessidade social, é necessário
que o profissional farmacêutico veja o paciente como um indivíduo
com direitos,
conhecimentos e experiência, que trate o paciente como parceiro no planejamento
do cuidado, sendo sempre esse responsável pela tomada da decisão
final.
Para que possa reviver sua profissão, é importante que o farmacêutico atue junto à população de diversas maneiras, dentre elas:
Orientando preventivamente;
Profissional dotado de conhecimentos dentro da farmácia;
Potencial na atenção primária como prestadores de serviços à população;
O farmacêutico não como um tecnicista, mas um educador em saúde;
Profissional atualizado técnico-cientificamente;
Vínculo com o paciente a partir do momento em que o paciente recebe atenção especial do profissional, começa desenvolver-se uma relação de confiança com o farmacêutico e, certamente, esse paciente voltará a procurar aquele estabelecimento, pois ele perceberá que ali não apenas são dispensados medicamentos, como também são oferecidos serviços farmacêuticos;
O farmacêutico tem de ser um praticante da saúde, de forma que ele seja ouvido, respeitado e possa aperfeiçoar a segurança, a eficácia, a melhoria da qualidade dos medicamentos do atendimento à população.
Nos cursos de farmácia, o objetivo maior é formar profissionais competentes e comprometidos, agindo de maneira ética e voltados para a Atenção Farmacêutica, que é o resgate da profissão. Esse conceito é considerado novo, apesar de evocar o princípio do ofício, que é o da convivência e do diálogo com o paciente.
Quando falamos no farmacêutico, pensamos sempre no profissional dentro do laboratório ou de difícil acesso na farmácia, que nunca conversa com o paciente. A Atenção Farmacêutica defende justamente o contrário: o acompanhamento da evolução da saúde do paciente.
A Atenção Farmacêutica vem preencher uma lacuna de uma profissão há muito deficiente de uma identidade profissional e, por isso, foi considerada por muitos a nova razão de ser ou missão da profissão de Farmácia. Porém, vista talvez em uma perspectiva mais pragmática, essa nova prática também representa uma forma negativa de cultura, que vem para combater os valores culturais vigentes na profissão: uma contracultura.
Dessa forma, a atenção farmacêutica apareceria no cenário
da Farmácia mundial para contrapor os valores atuais, por considerá-los
ultrapassados. É importante salientar que isso pode ainda representar
uma revolução profissional silenciosa,
posicionando os grupos atualmente privilegiados da profissão em uma
situação de maior vulnerabilidade.
Realizando suas funções com qualificação perante a sociedade, o farmacêutico poderá usufruir as mais de 60 atividades em sua área, pois possui uma cultura forte o suficiente para influenciar o pensar e o fazer profissional de seus integrantes, obtendo o respeito e confiança do paciente e dos outros profissionais de saúde.
Somente o farmacêutico poderá evitar que um medicamento vire um veneno letal, mas para adquirir cada vez mais habilidades, é preciso que tenha um pensamento voltado ao conhecimento dos fármacos, inclusive da legislação sanitária, para que, no futuro, possam exercer plenamente a profissão, sem ameaças penais ou prejuízos à população. Os treinamentos e reciclagens na área de dispensação de medicamentos, acompanhados pela supervisão direta e educação continuada, devem fazer parte do dia-a- dia do farmacêutico para, assim, buscar seu papel social perante a sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Santos MR. Do boticário ao bioquímico: as
transformações ocorridas com a profissão farmacêutica
no Brasil [dissertação de mestrado]. Rio de Janeiro: Escola
Nacional de Saúde Pública/ Fundação Oswaldo Cruz;
1993.
2. Perini E. A questão do farmacêutico:
remédio ou discurso? In: Bonfim JRA, Mercucci VL, organizadores. A
construção da política de medicamentos. São Paulo:
Hucitec-Sobravime; 1997. p. 323-34.
3. Silva, L. R e Vieira, E. M; Conhecimento dos farmacêuticos
sobre legislação sanitária e regulamentação
da profissão. Rev. Saúde Pública v.38 n.3 - São
Paulo jun. 2004.
4. Barbério, J.C; Evolução da profissão
farmacêutica nos últimos 40 anos. Rev. Brasileira de Ciências
Farmacêuticas v.41 n.3 - São Paulo jul./set. 2005.
5. CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO PIAUI, disponível
no endereço www.crf-pi.org.br. Acessado em março de 2007.
6. www.portalfarmacia.com.br/farmacia. Acessado em março
de 2007.
7. CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DE MINAS GERAIS,
disponível no endereço www.crfmg.org. Acessado em março
de 2007.
8. Cipolle, Robert J, Strand, Linda M e Morley Peter
C; O Exercício do Cuidado Farmacêutico. New York: Mc Graw-Hill.
1998.
Fonte: www.unieuro.edu.br
História
As primeiras boticas ou apotecas surgiram no século X e são consideradas as precursoras das farmácias modernas.
A figura do apotecário ou boticário aparece nos conventos da França e Espanha, desempenhando o papel de médico e farmacêutico. Para exercer as profissões, deveria pertencer a uma família honrada, com boa situação econômica, conhecer o latim, ter boa redação e apresentar certidão de cristianismo e moralidade. Tinha ainda que cultivar as plantas utilizadas na preparação dos medicamentos e trabalhar sob a vista do público.
No entanto, há milênios, a atividade do farmacêutico já era exercida e de grande importância para a saúde.
Há mais de 2.600 anos, os chineses, por exemplo, já desenvolviam seus remédios, extraindo drogas de milhares de plantas para curar doenças. Os egípcios também preparavam seus medicamentos a partir de vegetais, sais de chumbos, cobre e ungüentos de banha de leão, hipopótamo, crocodilo e cobra há mais de 1.500 anos.
Na Índia, os brâmanes desenvolveram remédios a partir de 600 tipos diferentes de plantas medicinais. E na Grécia, os processos de cura aconteciam no interior dos templos, onde eram pendurados os ex-votos dos doentes quando alcançavam a cura. Eram utilizadas para a cura as chamadas fórmulas mágicas e conjuros, procedimentos que hoje não fazem parte da rotina do farmacêutico.
O grego Hipócrates, considerado o pai da medicina, também marcou uma nova era para a cura, quando sistematiza os grupos de medicamentos, dividindo-os em narcóticos, febrífugos e purgantes.
E a evolução e o desenvolvimento da farmácia, como atividade diferenciada, só aconteceria na Alexandria, após um período de instabilidade marcado por guerras, epidemias e envenenamentos. A farmacologia ganhou grande impulso, principalmente no tratamento de soldados abatidos nos campos de batalha.
Os farmacopistas, no início do século II, incrementaram as diversas fórmulas existentes para melhor atender às necessidades da época. E em Bagdá, Arábia Saudita, os árabes fundaram a primeira escola de farmácia.
Fonte: www.ufg.br