Precisamente, Jacques não foi muito pontual. A pontualidade é talvez um erro para quem almeja valorizar-se. É crime quando a obrigação não nos parece agradável. Os jovens que se revelam lúcidos ganhadores, chegam sempre antes da hora, no dia marcado. Prova de sofreguidão pueril. Às vezes nada se adianta com a pressa. Jacques apareceu no escritório, quatro ou cinco dias depois, - às três e meia de uma linda tarde. Como o escritório ficava na Rua do Rosário, nenhum dos seus transeuntes desconfiaria da beleza do céu. A estreita rua, atravancada com carroções, o calçamento desigual e engordurado, uma multidão de cocheiros seminus, de caixeiros, em mangas de camisa, e cidadãos apressados, a contar dinheiro, a discutir papéis estampilhados ou de pasta debaixo do braço - não dava tempo para pensar na beleza, mesmo na beleza de uma tarde linda. Era a rua dos armazéns de comestíveis por atacado e dos consultórios de advocacia. Jacques só aparecia lá para pedir dinheiro ao pai, que dava o nome ao consultório e trabalhava com outros colegas. O pai, nada agradado com tais visitas, aconselhara o continuo, um velho macróbio, cor de castanha, chamado André, a dizer a Jacques que não estava. O filho chegava e de cá de baixo:
— O pai?
André esticava o braço magro e fazia um gesto inexorável de negativa:
— Não, senhor; saiu.
— Há muito?
— Ainda há pouco.
Por último, com o hábito, ao ver assomar Jacques, fazia maquinalmente o gesto, quase com raiva, e gritava com a sua voz septuagenária:
— Não! não! já saiu.
Como em geral os cérberos de casas de negócio, embirrava com os que vinham pedir, mesmo sendo parentes. Uma das suas volúpias - uma das derradeiras, coitada! - era dizer não, era negar a quem lhe parecia precisar. Assim, quando viu Jacques a subir, o velho cor de castanha ergueu-se furioso, agitando o braço:
— Não está; não está!
Jacques parou, quase resolvido a voltar, mas para confundir o pobre homem, subiu. No consultório havia cinco advogados, contando com seu pai, que se reservava a sala da frente. Gente subia e descia as escadas. Cavalheiros conversavam junto das secretárias. Havia poucos livros na atmosfera sempre suja. O Dr. Justino, que conversava com dous clientes ao mesmo tempo, um provinciano interessado contra a oligarquia do seu Estado e um empresário teatral disposto a intentar ação contra a Prefeitura, apertou-lhe a mão, deu-lhe a face a beijar e apresentou-o logo aos dous clientes.
— Meu filho, formado há dias.
Jacques reparou na sua secretária, com um nobre feitio antigo, de carvalho. Sentou-se, abriu a pasta virgem e ficou ouvindo o inimigo da oligarquia, que de vez em quando voltava o busto e por deferência dizia:
— Não acha, doutor?
Depois foi ver os outros advogados, que estavam a tratar de negócios, nada interessantes. Que supremo aborrecimento! Nunca mais poria os pés naquele horror!
Mas, voltou. Voltou até todos os dias. É que a sua fraca vontade irritada contra um trabalho comum, descobrira que esse trabalho, mesmo comum, seria um titulo de elegância no meio por onde andava, um titulo superior. Chamarem-no de doutor, convencidamente, julgarem-no capaz de uma opinião decisiva, era para envaidecê-lo. Mas ter a certeza de que as senhoras e os seus amigos, e os simples conhecidos acreditavam em outro Jacques, era um prazer indizível. Estava duas mil léguas longe da vida prática. Entretanto, contentava-se. A entrada no escritório, deu-lhe uma individualidade definida. Pediu aos amigos que o fossem ver. Deu a mesma direção, com o número do telefone, na pensão da Lola Safo, na pensão da Isabela Corini, no seu alfaiate. Saia invariavelmente depois do almoço, só, com uma pasta cor de granada com fecho d'ouro, saltava do tramway apressado como um businessman, atravessava a Avenida a passo inglês. Ao chegar, indagava:
— Não veio ninguém procurar-me?
Invariavelmente, André cor de castanha respondia:
— Não, senhor.
Esperava um tempo e saía de novo com a pasta, ordenando:
— Se vier alguém, que espere.
Dava uma volta, reaparecia, no íntimo louco para que soassem quatro horas. Era a liberdade até o dia seguinte, em que de novo subia as escadas empoeiradas, contrariado e com a esperança de ter sido procurado. Uns quinze dias depois, quem lhe apareceu foi Jorge de Araújo, baixinho, magro, elegantíssimo.
— O Dr. Jacques? - perguntou a André.
— Não conheço.
Jacques, que ia sair, precipitou-se:
— Grande idiota, então não me conheces? Desculpa. É casmurro. Entra. Estou aí com uns negócios.
— Já? Parabéns. E ainda bem. Preciso muito dos teus serviços. Não se trata de advocacia. Tenho advogado.
— Então?
— Preciso de uma carta amiga para o ministro da Fazenda. Obras, reformas. O engenheiro abriu concorrência. Uma carta amiga era decisiva para o ministro. Se for aceita a minha, tens vinte contos.
— Vinte contos? Mas como arranjar a carta?
— Tens relações. Teu pai, por exemplo. Teu pai arranja.
— Vamos a ver.
— Espero até amanhã. Lembrei-me de ti. Fala ao Dr. Justino. Até logo.
— Só isso?
— Achas pouco? A minha hora de diversão ainda não chegou. Hoje, onde?
— Onde quiseres.
— Damos a volta da Tijuca.
E desapareceu. Jacques ficou num indizível estado de nervos. Compreendera logo que a proposta de Jorge fora uma distinção especial de amigo. Provas de tanta consideração só a pessoas de idade e de respeito. Arranjar um negócio, ganhar na primeira cartada vinte contos! Como? A quem pedir? A seu pai? Mas seu pai talvez recusasse, talvez não tivesse intimidade com o ministro. E Godofredo? Godofredo exigiria metade. Metade ou mais. Depois o favor de Jorge era a ele, a ele pessoalmente, Jacques... Ficou a passear na sala, febril, à espera do pai. Quando o Dr. Justino chegou, não teve coragem, procurou circunlóquios, arriscou uma opinião sobre a marinha americana, folheando revistas. Por fim, foi até dizer:
— Conheces o ministro da Fazenda?
— Muito. É um bicho de concha. Por quê?
Por quê? Com a pergunta compreendeu o seu estado d'alma. Faltava-lhe a coragem, não de falar francamente, mas de repartir. O seu divino egoísmo tinha a intuição cega do perigo. Antes de responder, sentiu que se falasse, o pai pediria para ver Jorge... Seria melhor conversar com a mãe, fazer intervir a influência da esposa.
— Por nada... - murmurou, afetando indiferença.
E saiu logo, deixou de ir ao chá das quatro horas, onde havia de encontrar Alice dos Santos e Mme. de Melo e Sousa, já inseparáveis. Foi diretamente para casa, com um cartucho de bonbons, o primeiro que comprava na vida para oferecer à mãe. D. Malvina não estava. Ficou na varanda, chegou a abrir um jornal, a ler uma notícia de pavoroso incêndio num gabinete da pensão de Lola Safo. Um toque de campainha fazia-o ter sobressaltos. Nunca na sua vida tivera um tão forte desejo de ver D. Malvina. E D. Malvina demorava, não vinha mais. Antes da esposa chegou o Dr. Justino no automóvel do Deputado Santos, que o seu continuava quebrado. Só, ás sete, apareceu a formidável dama. Vinha exausta. Fora ao Dispensário da Irmã Adelaide, assistir como dama de caridade ao aniversário da fundação. Estivera depois em casa da Baronesa de Muripinim, a encardida relíquia da monarquia, muito mal com um acesso de fígado. Lá soubera do divórcio iminente de Mme. Zurich. Era a quinta vez que anunciavam o escândalo, sempre, naturalmente, por causa do marido. E aquelas emoções violentas: a religião, a moléstia, a vida alheia - tinham arrasado a pobre senhora. Jacques foi buscá-la ao jardim, com carinho. Ao ver-se assim tratada, Mme. Pedreira exagerou. Era um hábito antigo.
— Mamã, preciso falar-lhe.
— Agora não, estou que não posso.
— Mas mamã, é a minha vida.
— Tens alguma ousa?
— Não, não é conta.
Na casa de jantar, ofereceu-lhe os bonbons. D. Malvina, apesar de gulosa, deixou-os sobre a mesa. Mas o filho teimava. Foi com ela até o toucador. E lá abriu-se. Precisava arranjar a carta. Um comendador que oferecia cinco contos. A carta devia ser apresentando Jorge de Araújo. A digna senhora não compreendia nada das infantilidades de Jacques. Apenas uma secreta admiração brilhava no seu olhar. O filho fazendo negócios, agindo, trabalhando, falando em ganhar...
— Não sei se teu pai...
— Pede-lhe, pede-lhe com calor.
— Vou ver. Amanhã dou-te a resposta.
— E pede também a Nossa Senhora, mamãe, para que o ministro da Fazenda atenda...
D. Malvina abriu mais os olhos. Jacques, o endemoninhado, voltava às tradições de família, e era católico como o seu ilustre pai e era crente como sua mãe!
— Peço sim, meu filho. Ainda hoje a Irmã Adelaide perguntou por ti, com muito interesse...
Jacques deixou o lar, logo após o jantar, em que foi de uma extraordinária gentileza para com o pai. Descobrira de chofre os efeitos da lisonja. Servindo aos progenitores com um interesse mesquinho, em que ainda por cima pretendia enganá-los, uma série de atenções desusadas, admirava secretamente o seu tato. Também ele sabia mentir com mestria. Era da família. Como no temperamento mais nascido para as transações hábeis há sempre uma grande dose de ingenuidade, se lhe viessem dizer que mostrava inteligência de advogado, acreditaria. Passava a um papel ativo na vida, com desenvoltura e esperteza. No dia seguinte entregaria a carta, e Jorge teria as obras, dando os vinte contos. O mundo era seu.
— Pai, o negócio do empresário?
— Queres aquilo? Ainda lembras? É um aborrecimento. Estamos há quatro meses.
— E quanto ganhas?
— A metade do dinheiro que obrigarei a Prefeitura a dar-nos. Uns dez contos.
Dez contos. O pai levava quatro meses para um negócio de dez contos! Ele, de um dia para outro, obtinha o dobro. Na rua, a vários conhecidos que cumprimentou, sorriu com o ar triunfante e superior. Era definitivo. No dia seguinte teria aquela soma, que aliás de pronto não sabia como utilizar. Depois outros negócios se sucederiam. De que gênero? Talvez de cartas de recomendação, de influências íntimas. Oh! ele agora compreendia aquela febre estranha que agitava a maioria dos seus contemporâneos: as faces machucadas, as neurastenias, a pressa, o ar de corrida por um tremedal em que quase toda a sua sociedade e ele também, pela força das circunstâncias, viviam. Agora já poderia dar uma explicação aos gastos de muitos conhecidos, a flexões de espinha inexplicáveis até o momento. Era o negócio, o jogo das influências, um tremendo jogo certo de consciências, que o vencedor devia ser o maior ganhador. No fundo devia ser muito aborrecido fazer como o Jorge, de assaltante diário, ou como Godofredo, e seu pai, de intermediários entre o assaltado que deixa assaltar, mediante condições e o assaltante que reparte. Ele faria com rapidez, uns duzentos contos...
Passava um tramway, tomou-o. Ao pôr o pé no estribo, tinha mentalmente duzentos contos, e foi como milionário que saudou o jovem Gomensoro e a linda Etelvina, sua esposa, née d'Ataíde. Os dous continuavam o flirt marital, divertindo-se, ou fingindo rir com a trepidação cinematográfica da sociedade. Etelvina fora educada em Paris, educação americana na filigrana parisiense. Fazia de grande dama e tinha o curso completo dos cabarets de Montmartre, que visitara, a princípio com sua mãe, ambas incógnitas, e depois com o próprio marido, sem incógnito.
Montmartre desenvolvera-lhe a ironia. Nas salas, aquele ar de Mme. Bady, os plongeons à Segundo Império, ocultavam uma observação mordaz e uma garotice de assobio. O marido acompanhava-a na troça e ambos pareciam perfeitos. Jacques admirou-se de vê-los.
— Oh! que prazer! Então, nenhuma festa?
— Relâche, hoje, meu caro. Desde que cheguei, não posso mais. Canto todas as noites e todos os dias. As nossas damas de caridade verdadeiramente abusam. E as elegantes também.
— É a grande atração dos salões.
— Mas esgoto o repertório. Que culpa tenho eu de saber cantar?
— E há cousas - interrompeu o Gomensoro. - Ontem, depois da matinée em favor do Orfanato das Irmãs do Monte Branco, em que Etelvina cantou cinco números, tínhamos a recepção do presidente da República. O secretário da presidência foi em carro de palácio lá ao hotel pedir, pelo menos, um número.
— E V. Exa. compareceu?
— Fui. Oh! oh! que cousa! Nem os bailes do Eliseu em que o Félix Faure aparecia de sapatos brancos. A coleção de casacas para uma crônica hilariante! A série de damas gordas, mal nuns vestidos crispantes! E havia programa. Cantava uma das damas gordas, cantava uma das casacas. Os amadores da administração pública! Os amadores governamentais!... Quase não canto.
— Mas havia o corpo diplomático estrangeiro, gente muito fina, e alguns colegas meus. Sabe que na minha posição, Etelvina prejudicar-me-ia se não cantasse. Depois o ministro da Fazenda...
— O ministro da Fazenda? - interrompeu Jacques.
— Conhece? Muito amigo de mamãe.
— O ministro da Fazenda pediu. É um desses republicanos históricos a que nada se pode negar. Pertencia ao partido conservador da monarquia.
— E cantei, meu caro, mais três vezes. Também afirmo que acabo morrendo de cantar.
Esperou uma frase amável, que o Jacques não tinha, passou a língua no lábio, concluiu na íntima necessidade de um louvor.
— Como os rouxinóis...
Jacques, entretanto, pensava. Talvez fosse possível pedir à mãe da Etelvina a carta. Ou outra carta. Cartas nunca são demais no caso de empenho. Mas seria tempo ainda?
— E hoje, que fazem?
— Passeamos de bond, costume nacional, vendo o mau gosto desta arquitetura. Foi o secretário de França que comparou a Avenida a um bazar de fenômenos arquitetônicos.
No Passeio, Jacques saltou para assistir a um ato de opereta italiana. Como os artistas eram detestáveis e as coristas bem redondas e bem dispostas a saírem acompanhadas, a companhia tinha sempre enchentes, mais de homens, representativos de várias classes sociais, principalmente a política. A primeira pessoa conhecida que avistou foi o Deputado Arcanjo. Estava numa frisa com a esposa e a ilustre Sra. de Melo e Sousa. Viesse vê-las. Que prazer! Jacques foi. Alice estava com um escandaloso vestido cor de vinho ardente. Mme. de Melo e Sousa sorria cheia de malícia. Evidentemente a ilustre dama sentia um certo prazer em aproximar corações.
— Não há mais ninguém que o veja.
— Que exagero!
— A Alice já perguntou duas vezes pela sua pessoa.
— Palavra?
— A primeira à sua mãe no Dispensário da Irmã Adelaide.
— Também é de lá?
— Grande protetora. Deu muitos contos.
— Oh! D. Argemira.
— Que tem, minha filha? A Irmã Adelaide vai até inaugurar-lhe o retrato no salão de honra.
— Não quero.
— Será, então, o de seu marido. A Irmã Adelaide é firme de convicções.
E com a autoridade do seu grande nome, ergueu-se:
— Só nestes maus lugares é que se encontra o Jacques, não acha Dr. Arcanjo?
Levado pela ilustre dama num fio de conversa, o Dr. Arcanjo, que aliás não era formado, acompanhou-a até à galeria dos camarotes. E Jacques percebeu que, pela terceira ou quarta vez, D. Argemira dava ocasião. Seria desejo de D. Alice? Estava num estado d'alma pouco disposto ao amor. Mas ao mesmo tempo com a convicção de que nada lhe seria difícil.
— Então, por que não aparece?
— Para não enlouquecer.
— Enlouquecer, o Jacques?
— A senhora bem sabe.
— Eu?
Voltou-se completamente. Olhou-o com os seus dous grandes olhos ardentes.
— Sabe que fui à Cavé hoje? Amanhã lá estou à mesma hora.
— Seu marido vai buscá-la?
— Vai, como sempre. Mas eu vou antes à casa da Argemira.
— Eu também. Preciso ir.
— Ah! bem. Tem gostado da opereta?
— Muito. Às duas horas.
E voltando-se para D. Argemira, que se encostara ao balaústre, disse alto:
— Bastou ver-me chegar para sair! É a guerra?
— Sabe bem que não.
A generosa senhora e o generoso marido aproximaram-se. Ia de resto começar o ato. Jacques assistiu no camarote de Arcanjo. No seu cérebro com a impressão nova da Alice, o negócio de vinte contos passava a uma questão liquidada. Já ganhara os vinte contos. Agora eram as mulheres, as mulheres casadas. Um homem só é realmente chic quando tem uma amante casada. Cresce na consideração alheia, apesar de ser cada vez mais comum uma amante casada. E ele que nunca se atrevera por preguiça, julgando ser preciso ou muito dinheiro ou muita sorte, via que era fácil, tão fácil como convidar uma cocotte para cear. Seria o primeiro de Alice? Observou-a como se observa uma cousa mais ou menos sua. Era bem interessante. Ao demais fazia por que o notassem. Durante o ato inteiro levou a encarar cavalheiros na platéia e a pôr o binóculo para certas damas das frisas, trocando impressões com D. Argemira, que parecia apreciá-la imenso. Jacques pensou que ela estivesse afetando indiferença por sua causa, para fazer de senhora fina, dessas capazes de enfrentar um batalhão de amantes passados sem dar a perceber que lhes deu a mínima confiança. Quando baixou o pano, porém, os seus olhos fixados na boca de Jacques diziam tão claramente o desejo que ele se prometeu um dia seguinte, melhor do que qualquer outro, da sua leve existência. Ao sair, encontrou Godofredo de Alencar, o aplaudido cronista. Godofredo estava doente. Ficava sempre doente para a noite. Vinha, entretanto, de jantar com o senador relator do orçamento da Fazenda.
— Da Fazenda?
— Sim, homem, que tem isso?
— Conheces o ministro?
— Faz-me o favor de ser meu amigo.
— Que tal?
— Que tal, como?...
— Ora...
— É um costume este esquisito que todos vocês têm de insinuar dúvidas sobre a honestidade dos homens colocados. Não sei, não, caro. Para mim todos os ministros são angustiosamente honestos enquanto são ministros. Olha, a questão é de habilidade.
— Vamos cear?
— Mas a que horas queres que eu escreva, se durante o dia tenho negócios?
— Então, não dormes?
— Sim, às vezes, para não perder o hábito.
— Vais escrever agora? E custa muito?
— Escrever custa. Agora, vende-se muito em conta. E, meu caro, um gênero na baixa.
— Acompanho-te.
— Com prazer.
Jacques seguiu-o porque não tinha o que fazer e estava muitíssimo nervoso para dormir. Godofredo aceitou a companhia sem vontade e começou a dar voltas vagarosas pelas avenidas que partem do Largo da Lapa. Nem Jacques tinha a coragem de contar o seu negócio, nem Godofredo desejava comunicar aquele filho de boa sociedade que morava numa pequena sala de uma ruela escura. Tudo é vaidade. Vaidade das vaidades, já dizia o Eclesiastes. Exatamente por isso, Jacques falou de Alice.
— A pequena atira-se - fez o escritor cínico.
— Não?
— Queres dizer que não só a ti como a toda gente. É uma febre caro Jacques, uma verdadeira febre. Estou que é caso de moléstia. E a nossa encantadora D. Argemira...
— Sim, mas discretamente.
— A levá-la a toda parte, a passeá-la. Sabes o valor social de D. Argemira. Pois nunca me convidou para a sua casa. O dinheiro, meu amigo, o dinheiro é a grande arma. Nem talento, nem sangue nesta califórnia. Dinheiro!
— A quem o dizes - fez Jacques como se fosse um ganhador exausto de operações dinheirosas. - E por falar em dinheiro, o Jorge...
— Oh! mil contos, mil contos só em imóveis.
— Imóveis?
— Sim, terrenos e casas, caro advogado. E honesto, generoso, mais generoso, essencialmente moderno, último aeroplano. Adeus, estou perto de casa. Não precisas vir.
— Moras por aqui?
— Ali embaixo - fez vagamente o escritor deambulando.
Jacques foi deitar-se. Foi de tílburi, apesar do tramway ser mais econômico, mais higiênico, mais cômodo e mais rápido. Ao deitar-se, tinha a certeza de que não poderia conciliar o sono. Era bonito passar a noite a passear de um lado para outro, pensando no marido da amante e na certa para o ministro. Entretanto, dormiu quase imediatamente e só acordou às onze da manhã. O sol ia alto. O copeiro que lhe trouxe o café,
Deu-lhe uma notícia desagradável:
— Madame foi à missa.
Atirou-se para o banheiro desesperado, obteve do copeiro que lhe desse uma fricção geral d'água-da-colônia, vestiu-se zangado. Ia perder o negócio, ia perder a Alice, ia perder tudo, por inépcia e indiferença dos seus parentes. Vá a gente fiar-se nos pais! Com a fisionomia de vítima resignada, ia sair, quando sua mãe apareceu da missa. Chamou-o logo ao pequeno salão.
— Então? - fez ele sôfrego. - Até pensei que tivesses esquecido.
— Falei com teu pai.
— Ah!
— Ele riu muito.
— Riu?
— Riu e disse que lhe estavas saindo de truz.
— E a carta?
— Não ma deu.
— Mas, mamãe, e só agora é que a senhora me diz isso!
— É que não há mais remédio. Justino tinha dado uma carta antes para outro construtor e esteve ontem com o Godofredo na casa do relator do orçamento para fazê-lo interceder. Chegaste tarde.
— Oh! mamãe, vinte contos!
— Tu disseste cinco.
— Cinco, sim, cinco. Mas ainda não está tudo perdido. Os parentes! Os parentes!
Saiu sem almoçar. Uma idéia atravessara-lhe a mente: ir falar com a mãe de Etelvina, com a Sra. d'Ataíde, que morava nas Laranjeiras. Era uma vergonha, logo no seu primeiro negócio, ser tratado assim. Que diria Jorge de Araújo? Riria da sua importância, mesmo junto ao pai. Era enorme aquela! No palacete de Mme. Ataíde, o criado disse que a senhora não estava. Lembrou-se que a mãe de Etelvina só estava, quando o sol descambava e podia mostrar, sem muito escândalo, a face de velha amorosa suficientemente esmaltada. Ninguém mais conhecia que conhecesse intimamente o ministro da Fazenda! Ministro pouco conhecido. Nem ele mesmo. Entretanto, já podia ter-lhe falado, graças aos convites dados pelo Godofredo, de que não se utilizara, senão para ir ao cinematógrafo. Qual! nunca teria jeito para os negócios, para ganhar dinheiro!
Consultou o relógio. Eram duas horas. Devia tantas gentilezas a Jorge, que era impossível deixar de dar-lhe uma satisfação. Precisava, além do mais, fingir, para não perder a importância. E tinha a entrevista de Alice em casa de Argemira, àquela hora. Heroicamente tomou o tramway e veio para o escritório.
— Ninguém perguntou por mim?
— Ninguém - respondeu o velho cor de castanha.
Acendeu um cigarro, acendeu-o à moda, não com fósforo, mas com um isqueiro. Para se saber a que sociedade pertence um homem, basta vê-lo fumar. Jacques, fumando era de primeira classe, com o cigarro grosso no meio do lábio carnudo, tragando vagarosamente, nunca, jamais quebrando a cinza com o dedo mínimo. Para as três horas, o telefone vibrou. André arrastou-se até ao aparelho.
— Hein? Jacques? Não conheço. Ah! o filho do Dr. Justino. Donde é que fala? Da casa da Sra. Melo? Bem.
Jacques fez-lhe sinal que não, furioso, o velho cor de castanha irradiou. Ia dizer não. E pegando outra vez no fone:
— Alô! É a senhora? Diz que não está!
Neste momento, radioso como nunca, apareceu Jorge de Araújo.
— Negócios muitos? Bons?
— Maus.
— Ah!
— Chegaste tarde, meu caro. Falei com o pai, falei com d'Ataíde, que se dá com o ministro, desde o tempo em que ele era do partido conservador. Não foi possível. Até o relator do orçamento deu cartas para o teu rival. Foi assinado hoje.
— Foi.
— Sabias?
— Pois claro. Lancei aquela proposta com outro nome, o de meu cunhado. Como houve outra mais em conta, tive que, à última hora, colocar uma em meu nome, mais reduzida. Se perdesse a grande não perdia tudo.
— Era tua, então?
— Era. Eram ambas.
E para Jacques, perfeitamente apatetado:
— Nada mais simples: negócios!... É preciso preparar as cousas. Deixa, porém, dar-te os parabéns. Fizeste muito num exercício preliminar. Não me esquecerei
"Conhece-te a ti mesmo", disse o sábio. Era um sábio antigo. O verdadeiro saber está em cada um ignorar-se a si mesmo. Que seria da vida, se todos, ou a maioria, ou mesmo uma pequena parte tivesse idéia justa do seu valor? Há calamidades em que se não pensa, nem mesmo quando se é sábio e antigo.
Jacques percebia nitidamente que outro momento não havia surgido igual para uma vida aventureira de negociatas. Mas uma indolência, por demais moral e por demais física parecia afastá-lo desse ambiente de ativa persistência. Dois dias acompanhou Jorge de Araújo a ver as obras. Jorge, porém, tratava-o como uma visita e ele não podia perder a mania de que era muito superior ao amigo rico.
— Meu caro, dentro de dous anos, realizo a independência - dizia-lhe Jorge.
— Como?
— Negócios...
Negócios! Palavra mágica, palavra que, cada vez mais vaga, toma no Brasil proporções enormes e ao mesmo tempo, sutis - negócios!
Sabedores de que Jorge, com capital, repartia, vários numerosos cavalheiros passavam o dia a correr ao seu escritório, oferecendo contratos, concessões., negócios. Jacques, com o seu hereditário cinismo ingênuo, estava espantado. Nunca, na sua vida, imaginara que se fizesse dinheiro sobre o dinheiro, tão rápida e tão fantasticamente.
Pelo escritório de Jorge viu passar o Carlos Chagas, viu passar o Dória e viu também passar outros construtores, o Eleutério Souto, o maior bluff à espera de casamento rico, tendo um escritório com arquitetos franceses, o belo Passos Vieira, sem o mínimo talento, mas quase milionário, outros. Quem tivesse uma amizade imediatamente tratava de empenhá-la, de pô-la no prego. Mas Jorge dizia:
— São intermediários demais. Já agora não precisamos.
— Como não?
— Vamos de cara. Os próprios detentores dos negócios dão à gente...
— Com condições?
— Com boa vontade - fazia o industrial, subitamente discreto. - Mas os intermediários! Imagina que há um mês para certas obras orçadas em dois mil contos, recebo propostas trazidas por diversos rapazes. Algumas tinham a letra do próprio diretor da repartição, que prometia abrir concorrência. Mas eu conheci o diretor sem níquel, num club de prontos.
— Quando?
— Quando eu também era "pronto". E vi bem que ele embrulhava os rapazes, estando feito com uma casa amiga de que é sócio secreto.
— Mas é um imoral.
— Qual de nós é moral, Jacques?
Para aquele meio tudo era dinheiro. Jorge trabalhava das seis da manhã às seis da tarde. Depois lavava-se, perfumava-se, vestia-se e aparecia para o vermouth, numa confeitaria da moda, no seu lindo automóvel de sessenta cavalos. Aí era o mundano. Fazia-se uma roda em que aparecia Godofredo, sempre doente e sempre inquieto, Otaviano Soares, um jovem ambíguo, vários industriais de diversas nacionalidades, inclusive um irlandês e um turco. De raro em raro, o Barão Belfort, esse curioso das emoções alheias, parava um pouco, ao vir do club, que ficava na Avenida, a dous passos.
Jacques sofria sem saber que sofria, com a promiscuidade daquele pessoal. Gostava muito mais da outra roda, da roda da Cavé, às quatro. ti estava no seu elemento, com gente conhecida, que já tinha chegado. E ficava calado, porque só sabia falar ingenuamente mal da honra dos seus conhecidos. Oh! A existência não era afinal apenas o seu reduzido grupo, as suas reduzidas pândegas e reduzidíssimas idéias. Bem sabia. Teimava desembaraçar-se de uma série de preconceitos, que o prendiam a uma casta sem dinheiro. E não podia, quando era preciso... Certo, o jovem encantador não refletia, com tanta clareza. Mas sentia. E sentir é tudo.
Os outros também sentiam que Jacques era melhor para divertir-se. conservava-o. Por simpatia? Por uma série de vagos interesses. Jacques era sempre decorativo. Quando pensava explorar o ousado Jorge, era de fato este que o aproveitava. Quanto a Godofredo, a verdade é que o a tratava, como uma criação mundana. Uma vez foi buscá-lo às seis horas, com o Jorge, à redação. Jorge falara por telefone. O telefone não se entendia. Deram então uns passos até lá. Jorge foi de mesa em mesa, a distribuir cumprimentos. A imprensa é uma grande força e o menor dos reporters podia prejudicá-lo, dando notícias dos desastres cometidos pelos seus automóveis, como podia fazer-lhe bem, levando qualquer negócio. Depois, conferenciou com Godofredo. Jacques não conhecia esses jornalistas, e, como todos da sua roda, não os tinha em grande conta - principalmente porque não tinham nem dinheiro nem nome. Só conhecia os donos dos jornais e três ou quatro cronistas, que como o Godofredo eram complexos: imprensa, aristocracia, política e chelpa. Quando terminou a conferência, Godofredo levou a conversa para um terreno mundano. Assim espantava os companheiros (as suas relações!), fazia espantar a Jorge e reduzia o pobre Jacques.
— Então é definitivo o divórcio da Zurich?
— Não sei, não; mamãe contou-me.
— Quem pede é ela.
— Como devem estar desgostosos os amigos do marido!
— Também o marido, recebida a herança da tia, batia-lhe.
— E não se pode dizer que não tenha bom coração.
— Apenas, agora é um coração que bate demais.
E falaram de Laura, que andava só com o Chagas, pela rua, à americana; e falaram de Mme. Gouveia, cuja paixão pelo hipismo levara-a a se fazer acompanhar por um jockey, o Gonzalez, argentino. Dilaceraram com dente afiado a honra de todo bando. Jacques tinha uma repulsão invencível por gente malvestida. De modo que, insensivelmente, o seu comentário agressivo ficava na roupa:
— O Gonzalez, com aqueles casaquinhos curtos e sujos.
— Um homem que foi lad da coudelaria do Espínola roleteiro.
Quando saíram, Jacques viu que se excedera servindo de trípode para o elegante cronista. Jorge tinha um riso amarelo, e ele ouviu, ainda a descer, o secretário indagar de Godofredo:
— Quem é esse idiotinha?
Para qualquer cousa na vida, é preciso antes de tudo persistência. Persistência e o esquecimento de sua classe. Jacques sentia que lhe faltava persistência e ou que espantava ou faziam por não lhe ligar importância, quando deixava os seus amigos. Aos poucos, foi deixando de ir ao escritório de Jorge, mas sendo cada vez mais o seu companheiro da noite. A vida é um prazer. Devemos gozá-la enquanto é tempo. O barão, que uma vez passava do club, tomou-o no seu carro.
— Levo-te até casa.
Jacques aceitou com vontade de pedir uns conselhos ao velho dandy. E o barão foi-lhe ao encontro.
— Então, como vai a linda criança na advocacia?
— Qual, barão, não tenho jeito.
— Não tem mesmo. Meu caro Jacques, o Rio de Janeiro é outro depois da Avenida Central. A mocidade de antes da Avenida era composta na sua maioria de estudantes alegres e despreocupados. Formado o estudante, ia tratar da vida, segundo as suas posses, depois de guardar os versos maus do tempo de menino, a recordação dos amores e a recordação das pândegas. Em regra geral, não havia senão ambições relativas. Com a abertura das avenidas, os apetites, as ambições, os vícios jorraram. Já não há mais rapazes. Há homens que querem furiosamente enriquecer e esses homens são ao mesmo tempo pais e filhos. Faz-se uma sociedade e constituem-se capitais com violência. E uma mistura convulsionada, em que uns vindo do nada trabalham, exploram, roubam para conquistar com o dinheiro o primeiro lugar ou para pelas posições conquistar o dinheiro...
— E os outros? - fez Jacques, que não se interessava demasiadamente pela tirada de psicologia social do barão.
— Os outros? Os outros são constituídos de pedaços heterogêneos da passada sociedade. Não se defendem. Têm família, os preconceitos da família no fundo, mas adaptam-se para ficar. E fazem a alta roda ao lado dos dinheirosos do momento, e tomam os seus processos, explorando de vários modos a sociedade. Tu...
— Eu?
— Tu nasceste para viver à custa da sociedade sem te incomodares.
— Isto é o que o senhor diz.
— É a melhor maneira. Não te canses. É impossível bateres a vida, como teu pai, como alguns dos meus companheiros de club, como Jorge ou Godofredo. A ti será preciso que venha o prato feito. E vem. Vem, porque seria uma pena se não viesse. Olha, diverte-te, ama. Estás na idade de amar. Não sei quem disse que primeiro o amor, depois a ambição...
Como são agradáveis os conselhos quando vêm ao encontro da nossa própria opinião! Jacques seguiu-os imediatamente. O consultório do pai foi apenas um ponto, onde passava alguns minutos, entre as três e as quatro, quando lá aparecia. O resto era a vida de prazer. Começava no chá da Cavé, às quatro horas, e lá ficava até às seis. O seu grupo era o Dr. Suzel, Bruno Sá e Belmiro Leão. O Dr. Suzel, inteligente e fino, fazia por esquecer o que sabia numa preocupação lambareira do mulherio de sociedade. Conhecia uma porção de anedotas, contava as ligações de cada uma, e estava permanentemente apaixonado por várias damas.
Bruno Sá, de dinheiro escasso, mas hábil, conseguia ser o homem mais amável do mundo. Era impossível haver outro mais gentil e mais sorridente. Ao aproximar-se de alguém, dizia logo:
— Sim, senhor!
Para mostrar que concordava. As vezes acabara, na mais estrita intimidade, de demolir o indivíduo. Mas as senhoras gostavam dele. Era uma figura obrigada de todos os bailes e de todos os salões. Belmiro Leão herdara do pai. Vestia bem, dizia mal dos outros e conquistava também, além de senhoras honestas, algumas cocottes. Era o passadiço, devido a esta qualidade extra, por onde Jacques passava para a roda de Jorge de Araújo, roda de confeitaria, de casinos, de clubs de roleta. e de pensões de raparigas loucas. Belmiro Leão, ao demais, usava um monóculo sempre entalado no olho direito.
Os quatro, com um chá modesto, tomavam conta do estabelecimento, sabiam o nome dos caixeiros e falavam com a caissière em francês. O Rio elegante passava diante deles. Suzel e Bruno cumprimentavam todas as senhoras do tom, e marcavam mesmo algumas entrevistas para o mesmo sitio, mais cedo, antes da afluência. Belmiro e Jacques também saudavam as cocottes, as melhores, afinal um pouco da família geral (o mundo é uma família) porque tinham sido, eram, ou tinham de ser amantes dos maridos das senhoras do tom, conhecendo-as muito bem, às vezes pelo apelido de casa, e sendo conhecidas também não pelo nome de casa que as próprias cocottes acabam por esquecer, mas pelo nome de guerra do momento.
Impreterivelmente, entre as cinco e as seis, aparecia Alice dos Santos. Quase sempre em companhia da ilustre Argemira de Melo e Sousa. O flirt, interrompido pela insolência da falta à entrevista, eternizava-se. Jacques nunca seria capaz de conquistar. Com as mulheres era sempre hipócrita. Queria, mas ficava quieto, sabendo que, quando são elas a desejarem, tudo fica mais agradável. A conquista de Alice satisfazia no momento as suas ambições adulterinas. Mas não dava um passo, não mostrava a menor animação, sempre na defensiva, excitando Alice com a frescura da sua mocidade ardente.
De resto, tinha de ser.
Alice dos Santos era um caso de frivolismo mundano e sensual comum. Passara até os vinte e três anos na província, com a atenção voltada para a vida elegante da capital. Fizera assim uma idéia exagerada de tudo: da moda, dos divertimentos, dos homens, da liberdade, dos costumes, acreditando em quanta fantasia lia nos jornais e em quanta invenção narram os provincianos de volta, para se darem ares. Os seus modos causavam impressão. Ela os tinha, entretanto, porque os considerava extremamente cariocas. Ao casar com Arcanjo, muito mais velho e pobre, posto que com posição política, casara com a mira de vir instalar-se no Rio, desejo a que se recusara sempre o velho estancieiro, seu pai; e não só para gozar os refinamentos da cidade como para dominar e ser a primeira entre as senhoras faladas pela beleza, pela fortuna e pela posição. O cuidado com que se comparava à fotografia das grandes damas nos jornais ilustrados para se achar melhor sempre! A pertinácia com que estudava nos magazines mundanos a tecnologia, a língua confusa da alta roda, aliás tão limitada! Quando chegou, não quis usar nenhum dos antigos vestidos, nenhum dos antigos chapéus, que, entretanto, já eram grandes. Esteve incógnita oito ou dez dias, à espera de toilettes estupendas.
O marido era uma figura doente e simpática, que lhe fazia sempre as vontades com uma resignação de intendente. Realmente Arcanjo era doente como Rockefeller, dadas as devidas proporções de riqueza. Incapaz de falar na Câmara, porque dele se apoderava um tremor, que Godofredo dizia ser o prévio remorso da asneira - além da mulher, só duas coisas o preocupavam: o esperanto e o vegetarismo. Ambas tinham com a língua, que não utilizava nos debates parlamentares. Vegetariano era-o por completo. Dedicara-se até a estudos especiais e nesses estudos vieram a causar-lhe inquietação as conclusões de um célebre médico num congresso de patologia geral sobre a influência dos legumes no caráter. Arcanjo sabia na ponta da língua que o espinafre desenvolve a ambição, a constância e a energia; a azedinha leva à melancolia; a cenoura é recomendada aos biliosos e aos maridos infelizes; a vagem incita à arte; o feijão branco convém aos intelectuais; o petit-pois é frívolo; a couve-flor agrada aos egoístas e a batata provoca o equilíbrio mental.
Para sentir-se possuidor de um caráter de primeira ordem, fora aos poucos misturando, tanto que acabou por almoçar e jantar panachée de legumes. Indicava aliás essa alimentação aos artríticos, concluindo sempre:
— É tão boa que o Dr. Zamenhoff continua vegetariano.
— Que Zamenhoff, Arcanjo?
— O pai do esperanto, a língua universal, a língua em que daqui a tempos poderei falar em qualquer país do mundo, quando esses países souberem o esperanto.
Era afinal um bom sujeito. Não há ninguém que não seja um pouco bom. A teoria do absoluto é impossível aplicada às qualidades.
Alice aceitava-o sem repugnância, pensando, aliás, noutra coisa. Esta outra coisa era a fixação na sociedade, "como devia ser". Era preciso montar casa, imediatamente. Arranjada a casa na Avenida do Entroncamento, uma nuvem de fornecedores caiu sobre eles, explorando-lhes a vaidade provinciana. Em toda parte é mais ou menos assim. Mas Arcanjo tinha a lutar com os empenhos dos políticos e as opiniões de algumas relações mundanas que valorizavam os fornecedores. Os colegas de política escreviam a pedido empenhando-se pelo fornecedor de tapetes ou pelo fornecedor de louça. Arcanjo recebeu até por intermédio de um agente de mobílias uma carta do seu Grande Chefe, dizendo textualmente: "precisamos ajudar os nossos amigos".
— Amigos dele! Nem o conheço! Com certeza reforma algum compartimento do seu paço!
Mas atendeu também a um mercador de tapetes orientais recomendado pela bancada do Pará, acabou com vontade de montar outra casa, para satisfazer a todas as bancadas.
— Como se metem na nossa vida!
— Oh! filho, são os próprios fornecedores que vão pedir. Não viste com os automóveis?
Com os automóveis, uma das casas trouxera até uma recomendação do cardeal. Com um pouco mais trá-la-ia do Papa em pessoa. Era uma casa que fornecera automóveis por preços altíssimos para todos os serviços prováveis do governo, e distribuíra alguns grátis. Arcanjo e Alice, porém, impressionaram-se com a opinião dos seus conhecimentos da alta sociedade. Eram os primeiros, alguns rapazes, das melhores famílias, mas desses que preferem a transação ao trabalho. Também são esses que constituem sempre o piquete de reconhecimento da sociedade que se preza, passando uma vidinha de perpétuo regalo e explorando os pretendentes ao escol com um cinismo acima da expectativa. O primeiro a aparecer fora Carlos Chagas. Era correto, delicado, tinha esplêndidas relações, e como não se empregava em nada de confessável, resolvera ter gosto. Ter gosto pode ser uma profissão, dada a raridade do gosto. Era de resto sempre uma apresentação.
— Ah! "seu" Arcanjo - dizia atirando piparotes no ventre doentio do deputado vegetarista - gosto tenho eu. Aqui neste pais não se tem a noção do chic. Ninguém como eu sabe pôr uma mesa, arranjar um menu, decorar uma sala. Gosto tenho eu. Falta o dinheiro. Também quem já pôs fora três fortunas...
Sempre que se referia à moeda, precedia-a daquele determinativo que a realçava. Nunca dizia: dinheiro. Dizia sempre: o dinheiro. E com tal autoridade que era da gente pedir-lhe desculpa por vê-lo sem o dinheiro. Em duas palhetadas dominou o casal com decretos de elegância.
— Vi hoje uma jóia chic, cousa boa, que lhe vai a calhar. É para uma pessoa distinta.
Os esposos terminaram as dificuldades das escolhas, fazendo-o árbitro.
— Como achas?
— Não, como gosto distinto fica melhor assim.
Tinha gosto até a escolher o trem de cozinha. Os fornecedores, vendo a sua decisiva importância, procuraram ter gosto também. Ficaram os que tinham mais. Arcanjo devia ter pago preços de fábula pelo mobiliário, pela galeria de quadros, pela prataria. A casa já estava pronta quando Chagas, o Dória (que se dizia descendente dos Dória de Itália), o Raul Pereira, filho dos Marqueses de Pereira e outros rapazes da mais fina roda sem vintém lhe descobriram, um faqueiro histórico, faqueiro de setecentas peças de prata lavrada, oferta de um amigo em delírio ao Generalíssimo Deodoro. A esposa do Generalíssimo desfizera-se aos poucos do faqueiro colossal. Um colecionador reunira, porém, todas as facas, em que o proclamador da República - (os vendedores diziam-se no fundo, por chic, monarquistas) - nunca pegara. O faqueiro vinha à mão de Arcanjo por nove contos fortes, porque o colecionador tinha residência em Lisboa.
A casa ficou vistosa. Parecia um cenário de Antoine, quando se propõe reproduzir, na montagem das peças salões de luxo. Havia tapetes, bronzes, quadros, escadarias forradas de veludo cor de vinho e cor de granada, palmeiras em vasos de variados feitios, um coupé, um automóvel.
Alice, inteligente, consultava os costureiros, as modistas, os joalheiros, e aparecia cada vez mais desejosa de vencer. Mas sentia nitidamente a hostilidade dos leaders, das leaders mundanas.
A mãe de Eleonora Parckett dissera:
— Não posso freqüentar essa rapariga, que não é da nossa sociedade.
A mãe de Eleonora, ao que diziam, começara dançarina. Mas era falso. Luísa Frias denominara-a de "ave exótica". Havia outras ironias agudas. Alice percebeu que, se os homens em tal meio vencem com o dinheiro e braço, as mulheres podem vencer aliciando para o seu partido os homens. Apenas exagerou. Quando num baile, numa festa, na rua, no chá das quatro, nos dias de Mme. Pedreira, às quintas de Argemira, percebia ter agradado mais a um cavalheiro, sentia como a ebriedade da vitória e ultrapassava o flirt para irritar as proprietárias legítimas ou ilegítimas desse cavalheiro. O resultado era inteiramente desastroso. Os homens contavam uns aos outros, com perfeita discrição, os avanços da bela Alice, e o grupo de admiradores aumentava à proporção que a tolerância familiar esfriava. Venceria? Era ainda a mais honesta, era apenas uma vítima do esnobismo dos equilibristas da alta vida. E no fundo, nos seus nervos, só sentia um certo interesse por Jacques: Jacques com as suas largas mãos, a sua tez cor de pêssego, aquela boca tão carnuda e rubra, os dois olhos molhados, o cabelo negro, repartido ao meio. Jacques era o que lhe mostrava maior indiferença... Outra qualquer desanimaria, Alice, porém, tinha a Sra. de Melo e Sousa a seu favor.
A Sra. de Melo e Sousa passava por ser das mais ilustres damas da sociedade, fidalga de verdade, nobre de fato, inteligente, culta, requintada. A sua ascendência era conhecida de quatro séculos, sendo no Brasil anterior à vinda de D. João VI. As pequenas crônicas privadas davam-lhe na linha direta três monjas, quarenta adúlteras, cinqüenta generais, cinco artistas, dez juristas, vários diplomatas. Argemira mostrava-se culta com simplicidade. No seu tempo de moça amara muito, independente do marido, a quem aliás sempre respeitara, nas constantes viagens pelo estrangeiro. Agora, não velha, que senhora tão cuidada e de tão formoso espírito não envelhecia, mas apenas "datava" como se fosse do XVIII século, assistia a sorrir à eclosão da nova sociedade, amando a mocidade e amando o amor. Por isso, talvez protegesse os jovens, e, como sabia a crônica geral, perdia-os com anedotas autênticas da vida real de cada um, francamente corrosivas. Além do mais, Argemira queria ver caminhar o seu caro Jacques. Foi ela quem os aproximou de novo, sem a menor alusão à falta do lindo mancebo, fazendo-se encontrada como por acaso...
— A Alice recebe agora os seus amigos.
— Ah! meus cumprimentos.
— Arcanjo ainda não o preveniu?
— Ainda não.
E a linda Alice:
— Pois temos muito gosto.
Depois, era o chá a três, com conversinhas mais ou menos picantes, em que Alice flambava como um ponche, eram perguntas, indiscrições. A jovem tinha a idéia de que Jacques devia ser disputado por todas as mulheres. As mulheres pensam sempre assim, quando desejam, para sustentar e manter o desejo. E perguntava nomes de cocottes no Lírico e na Cavé, sorria maliciosamente, sempre que Jacques cumprimentava alguma dama. D. Argemira sabia conservar a atmosfera, divertida com o flirt. Jacques parecia tão agradecido... Um mês depois, Belmiro Leão apareceu indignado no chá das quatro.
— Olha - disse a Jacques - estive ontem na festa de caridade da Irmã Adelaide com a Alice e D. Argemira. É de força a Alice...
— É, ela contou-me que lhe disseste inconveniências e passaste uma cartinha embrulhando uma flor. Lemos a carta.
Belmiro Leão ficou rubro e indignado. Aquele processo da Alice parecia-lhe de uma depravação inqualificável. Não a cumprimentaria mais! Há coisas que não se contam. Nunca fizera papel de tolo. Ah! ia perder aquela impertinente no conceito público...
Jacques ficou glacial e ergueu-se logo.
— Mas olha, não tenho nada contigo; é com ela. Tens sorte, és o amante.
— Quem te disse que eu era o amante?
— Ah! bom, não sabia que era paixão. Cavalheiro...
Jacques saiu contrariadíssimo e encontrou na Carioca, ao subir para o coupé-automóvel, Alice e Mme. de Melo e Sousa. Há acasos fatais. A vida é um grande acaso.
Argemira pasmou:
— Por aqui a esta hora? Aposto que adivinhou a nossa presença?
— Não. Vou para casa.
— Está aborrecido? - indagou Alice.
— Não; estive com o Belmiro Leão e ele está furioso com a senhora.
— Comigo?
— Porque contou-me a cena de ontem.
— A quem poderia contar então? - fez Alice.
— Ora deve ser divertido o Belmiro. Venha você narrar-nos a cena por miúdo.
— Onde?
— No auto, conosco - disse logo Argemira. - Alice ia levar-me a casa. Levam-me os dous.
— Mas não chego.
— Vais no meio, um pouco apertado.
Alice um tanto trêmula, lembrou-se entretanto que era uma elegância espantosa essa de irem num carro apertadas várias pessoas. Jacques também estava trêmulo. Mas concordaram. Subiu primeiro Alice, depois ele. Por fim Mme. de Melo e Sousa. Jacques ficou na ponta do assento, entre o vestido roxo da ilustre dama e o vestido de veludo castanho de Alice, um vestido em que o seu corpo cheiroso parecia num estojo...
— Laranjeiras! - disse Argemira. - Para minha casa. - E depois: - Conte lá, menino terrível.
— Ora...
Jacques contava. Contava e sentia que insensivelmente o seu corpo ia tomando mais assento e que de Alice vinha um perfume doce, agradável, macio. Ela ficara silenciosa, olhando-o.
— Que me olha tanto? - indagou Jacques.
— Admiro a pérola de sua gravata.
— Bonita? Foi a mamã que ma deu.
— Gosto muito de pérolas.
— Quando não são as da Luísa Frias - interrompeu Argemita - falsas como a onda...
— Esta é verdadeira.
— Quem duvida? Você tem cada idéia...
— Não, que a senhora é muito perversa.
— Eu?
— Mostra-me a pérola? - pediu Alice.
Jacques tirou o alfinete da gravata. O automóvel dava solavancos. Passou-o à Alice, apertando-lhe os dedos.
— Tenha modos. Deixe de brincadeiras.
— Está enganada.
Mas viu que Alice se recostava e, pegando o alfinete pela ponta, roçava a pérola na face, nos lábios, no pescoço, pelas pálpebras, vagarosamente, como afastada do mundo, as narinas palpitando. Passou a mão na almofada e encontrou uma outra mão gelada, que tremia. O silêncio caíra de chofre. D. Argemira sentia, sem ver. Alice ofertava-se à pérola, que é a pedra de Vênus. Ele estava numa impetuosa onda de sangue e de desejo. Era o momento. O automóvel parou, sem que dessem por isso. Argemira saltou.
— Não os convido para entrar. É tarde. Merci pelo obséquio. Até logo à noite, não?
Nenhum dos dous respondeu. Eram incapazes de dizer uma palavra com senso. Em roda, como dizem os romancistas, o mundo se alheara, vago e indeciso. Ela só queria ele, ele. A sua carne vibrava um suspiro de apelo. Qualquer palavra seria inútil. Jacques puxou num rápido gesto os stores, soprou, no tubo acústico: devagar! enlaçou-a na violência da sua adolescência vitoriosa. Ela ainda meneou a cabeça, fugindo ao beijo almejado. Mas ele prendeu-lhe a face com as duas mãos e sorveu na sua boca vermelha a boca saudável de Alice.
— Mau! - fez ela. - Como demoraste! - E, numa ânsia tropical, o seu lábio procurou o dele, sorveu-o também, enquanto os dous corpos se enlaçavam na harmonia indizível do desejo.
E o automóvel, devagar, buzinava pelas ruas, ameaçando os transeuntes. Eram seis e meia da tarde.