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A Profissão de Jacques Pedreira

João do Rio

Capítulo V: O incidente fatal

O amor é uma felicidade transitória, mas irradiante. Só quem nunca amou pode imaginar o amor eterno. Só quem ignora as delícias dos primeiros tempos de uma paixão na agradável posição de amado, pode acreditar possível o segredo no amor. Não é preciso ser indiscreto, não é preciso dizer palavra. Cada gesto, cada olhar, cada inflexão do homem amado revela o deus que comeu ambrosia. Os outros homens ficam, sem saber por que, irritados, e mesmo muito amigos, procuram falar mal do feliz. As mulheres, todas as outras mulheres sentem de súbito uma incompreensível simpatia. E uma corrente misteriosa que põe o mundo exterior no segredo. De um lado aumenta a atração, de outro os homens se tornam ainda mais pólo negativo. A sabedoria do profissional é mudar imediatamente de amante para conservar a atmosfera. Jacques não era um profissional. Mas logo percebeu que entrava mais no mundo, muito mais do que quando se formara ou começara a vida prática. Certo não era nenhum ingênuo, nem caíra nos braços de Alice para aprender essa coisa difícil que no século XVII chamavam arte de amar e no século XX chamam sport do engano. O fato, porém, é que nem a criada iniciadora, nem as sestas passadas com a quase virgem Ada na casa do barão, nem a italiana oxigenada do desagradável incidente da sopa e da cautela, nem as pequenas de várias nacionalidades encontradas nos clubs e nos music hall, lhe tinham dado a satisfação pessoal, a plenitude, a segurança da sua vitória como o apetite, a violência amorosa de Alice. Nas ações menos importantes, Jacques sentia-se excepcional. Ao chamar o criado para a fricção de água-de-colônia, ao levar o garfo à boca, ao tomar um aperitivo, mesmo só, a caminhar no seu quarto, era como se conduzisse um objeto raro, alvo das atenções alheias. Está claro que não correspondia a tanto amor. Um rapaz de linha não se compromete assim. Gozava, entretanto, muitíssimo, assistia com aplausos ao ato de Alice, tanto mais quanto de um momento para outro aquelas senhoras que o tomavam por um menino de maus costumes, revelavam uma complacência curiosa. Curiosa e prometedora. As senhorinhas, como Laura Gomes, faziam alusões veladas.

— Já ninguém o vê, Jacques, a não ser com a política...

A Viuvinha Ada Pereira retivera-o numa das recepções de sua mãe a tarde inteira a conversar. Jacques não tinha uma palestra muito variada.

A viuvinha, ao contrário, gostava de conversar. Mas dava-lhe a deixa, trazia a baila assuntos possíveis. Não se conteve:

— Conte-me alguma coisa de novo.

— Não há nada, nada.

— Ora, conte-me a sua vida.

— E logo esse corte num ponto tão interessante do folhetim!

Gina Malperle, cada vez mais íntima amiga de Mme. Andrade, uma das três irmãs, que no momento disputavam o bastão da beleza, levou certa vez dois minutos com a sua mão presa, enquanto a admirável Andrade descia do seu papel de deusa e parecia requerer o voto daquele Páris último aeronave. Era a roda toda, indireta, mas visivelmente. E não só a roda. As mulheres livres olhavam-no de outro modo, tratavam-no de outra maneira.

— Tiens! voilà ]acques...

Era uma festa, nos salões de ceia dos clubs. Talvez Jacques exagerasse. Mas até nas ruas, nos tramways, rapariguitas pobres, senhoras desconhecidas, fixavam-no com a volúpia feminina que é a volúpia da serpente, a virtude de olhar e esperar. Com a sua educação, Jacques não cairia na vulgaridade de se julgar irresistível, como qualquer caçador de rua. Mas os fatos provavam, e ele, por um fenômeno reflexo, estava mais cheio, mais bonito, mais radiante.

— Este menino sua amor! - exclama a venerável Sra. Ataíde.

Todos os meninos suam amor, antes dos vinte anos, quando têm a amá-los uma criatura bela e ardente...

Alice dos Santos também não fazia por ocultar em público a sua conquista. As pessoas que a recebiam e a cumprimentavam ficaram hesitantes. Algumas damas invejaram-na. Outras encheram-se de ternura. A relíquia da monarquia, Sra. de Muripinim, deu para tratá-la de "minha filha", contando-lhe velhas histórias da Quinta, em carros do paço, os bailes dos mordomos, os flirts dos príncipes, a mania que o imperador tinha de trair a imperatriz só com atrizes.

— Era um sábio, minha filha, gostava muito de teatro.

A venerável mãe de Eleonora dissera:

— Se essa menina engana o marido, o caso é com o marido.

E D. Malvina teve um fraco de agradecimento maternal, satisfeita com a paixão inspirada pelo filho. Deu uma porção de conselhos graves e impertinentes a Alice, que aliás não os poderia seguir. No estado de espírito em que se encontrava a esposa do deputado vegetarista, só podia considerar o casamento a província do amor. Jacques era a capital, a capital mundana. Ela começava a realizar nele o que desejava realizar com a cidade. Tê-la sua, dominada, inteiramente sua. Depois da cena do automóvel surgiram as necessidades crescentes e a urgência dos primeiros encontros. Era impossível ser sempre no automóvel. Impossível e perigoso. Não pareciam convenientes os alvitres lembrados por Jacques, assaz sem dinheiro: um ou dois hotéis na Tijuca, em Santa Teresa.

— Não convém.

— Que há?

— E toda essa gente que te há de ver? Não, não.

Uma casa comum, casa do oficio, seria muito reles. Alice não iria, nem ele lembrou. No terceiro dia, porém, Jacques foi visitá-la a casa, às duas horas. Ela recebeu-o como uma criança. Assim que o criado voltou as costas, caiu-o de beijos, e ele já julgava o salão agradável, quando vieram anunciar as Soares, relações políticas do marido, gente das Alagoas, de passagem para a Europa. Não se podia estar naquela casa tranqüilo! Jacques então lembrou-se de Godofredo, do quarto de Godofredo. Era a solução. Godofredo seria discreto. Ao demais, nem precisava saber de que se tratava. Correu a procurar o cronista. Godofredo estava num dos dias de mau humor. Não se podia dizer que estivesse pálido. Era verde demasiado, eram grandes olheiras. De instante a instante torcia os dedos. Os negócios não lhe corriam bem decerto, as relações políticas divertiam-se contra o seu valor.

— Que tens?

— Nada, complicações morais.

— Os negócios?

— Ah! os negócios. Já vens tu com a seca dos outros também. Negócios! Que negócios! Não faço nenhum. Antes fizesse. Não é culpa minha. Mas ainda dou o tiro definitivo.

Invariavelmente, como sempre, nesse grave assunto, contradizia-se. Jacques aproveitou.

— Tens duas chaves de trinco?

— Eu?

— Sim, do teu quarto.

— Não tenho quarto.

— Como?

— Tenho a frente de uma casa.

— Vais emprestar-ma durante o dia.

— Emprestar, para quê?

— Segredo...

— Ah! bravo.

Mas explicou como era impossível: uma rua cheia de vizinhança sempre à janela; a casa com uma dúzia de crianças, que vinham para a porta, por não ter as janelas, e o seu quarto cheio de livros, papéis, uma trapalhada, uma barafunda! Jacques não se sentiria bem e a pessoa, que devia ser de sociedade, também não.

— Tenho uma grande biblioteca. Não imaginas. Na mesa, papéis, escovas, velas, frascos de essência (porque só escrevo cheirando heliotrópo e violeta), um inferno!

Havia, entretanto, a solução. O Barão Belfort era um dos quatro ou cinco homens da cidade possuidores de garçonnieres dignas de receber pessoas decentes. Ocupara-a, havia dois meses, com uma anedota sentimental de somenos importância. Podia cedê-la. Iria ele, pessoalmente, se Jacques achasse imprudente aparecer.

— Fico-te muito agradecido.

— Com que então já conquistador?

— Oh! Godofredo.

— Fazes muito bem. Conquistas de primeira plana colocam sempre bem.

— E vais hoje?

— Hoje, não posso. - E irritado: - Não posso, é impossível. Estou com azar. Tudo falha. O barão seria capaz de negar.

Jacques submeteu-se ao fetichismo do homem superior, e no outro dia, o criado de Belfort, um criado francês, foi pessoalmente entregar-lhe uma chave de prata, com esta palavra a lápis, em papel timbrado do barão: Excelsior!

A garçonniere era de um gosto apurado e fino. Ficava numa das ruas que desembocam no Flamengo. A casa era própria. Constava de cinco peças. No salão pequeno havia por mobília um caro tapete, um baú medievo, um contador espanhol, algumas telas de Corot, de Turner, uma vitrine com esmaltes e medalhas antigas, cortinas pesadas de seda. Logo depois, uma sala maior, à XVIII século, laca e tapeçaria gobelino moderno. As paredes eram forradas de seda rosa. As cortinas eram de seda quase branca. Em medalhões, Lancret, Watteau, Boucher, três telas em que o amor se repetia galante. O lustre, em bronze verde fantasiava a escalada dos amores. Havia uma bergere, um divan, um leito, e o ambiente estava impregnado de essência de rosas. A seguir, a sala de banho, feita de mármore colorido, alabastro verde, e cristais de tonalidades mortas. O conforto e a higiene tinham organizado aquela peça. Havia o leito de mármore forrado por um tapete persa para as massagens, havia a máquina elétrica do leito condensador, tabuleiro de cristal com frascos de todos os tamanhos, em que se encontravam desde as essências perfumadas até a terebentina. E a piscina de alabastro verde, enchia pelo fundo de água morna, água a ferver ou água gelada. Logo depois vinha a sala de jantar, mobiliada ao gosto inglês, aconchegada e agradável. Por fim a cozinha, com um fornecimento em latas e garrafas de tudo o que faz mal e sabe bem; vinhos da Hungria e da Borgonha, champagne, foie-gras, trufas...

— Homem esplêndido! - fez Jacques.

Era esplêndido, principalmente porque, à sua primeira necessidade frívola, presenteara-o com aquele luxo, com o uso daquele luxo. Jacques decerto não pensava em possuir o luxo. Bastava usá-lo. Sempre fora assim, e assim sempre seria. O efeito foi aliás fulminante na cabecita de Alice. O luxo, a elegância davam-lhe ao amor um supremo requinte. Ela sentia-se bem, sentia-se apreciada. Quando as mulheres amam, sentem coisas de que o bom-senso desconfiaria mesmo em estado de cometer imprudências. E foi no primeiro mês o grande duo fundamental nos dramas musicais de Wagner e em quase todas as existências. Ao acordar, Jacques tinha uma cartinha de Alice exigindo alguma futilidade ou a sua presença em qualquer lugar. Alice escrevia bem, abusava um pouco. Logo depois do almoço, o filho do Dr. Justino não se possuía. estava com Alice nas exposições, nos carros, nas conferências, nos teatros, em casa dos conhecidos. Até mais de meia-noite, às vezes nos bailes até pela madrugada, era do casal, conversando com o marido, valsando com a esposa, amado por ambos. Sim, porque Arcanjo amava-o com enternecimento, estava desvanecido com a companhia mundana de Jacques. À garçonnière nunca chegavam juntos. Ou vinha ela primeiro ou vinha ele. Quando ela chegava de automóvel ele chegava de carro, quando ele aparecia em auto, era ela que se fazia conduzir de trem. Alice transportara para o ninho um completo sortimento de dessous admiráveis, kimonos de levantar de seda leve, irlandas bordadas. Jacques nada levara.

— Meu amor! - dizia ela ao entrar, logo dependurando-se dos seus lábios.

— Linette! - dizia ele, deixando-se beijar.

Alice, se tinha uns caídos muito brasileiros, isto e, muito torráozinh0 de açúcar a derreter e as palavrinhas ternas, melosas, em que a brasileira vence o record mundial, distanciando mesmo a chinesa, Alice era inteligente. A inteligência dera-lhe uma ousadia ainda acrescida pelo desejo mundano de parecer bem, de parecer como nos romances. Depois era empolgante e enebriante. Não se poderia dizer que um ensinava ao outro. Ambos aprendiam com a ingenuidade cínica que o amor incute, o amor ou o desejo, e ambos queriam trazer novidades. Quando ambos estão nestas disposições, as coisas vão sempre longe. Não haveria o Kama-Sutra, o "El-Ktab" e outros volumes do ritual amoroso, prolixos em novidades, se os casais perfeitamente convencidos não se entregassem à aposta de trazer impressões novas. O desenvolvimento das ciências é devido ao estímulo da primazia na descoberta, dizia um venerando homem. Depois, Alice tinha um espírito satírico que agradava nos intervalos. Fazia troça feroz das senhoras conhecidas, arremedando-lhes os gestos, caluniando-as. Vingava-se assim. Jacques, a fumar um turco ponta de ouro, ria francamente, e contava coisas...

— Elas também gostam de ti.

— Quem te disse?

— Adivinhei.

— Falso. Não gostam...

Alice estava convencida de que arrebatara o jovem a um batalhão de amorosas. Jacques era bem homem para não desiludi-la. Sempre convém mentir.

— Jura que eu sou a primeira?

— Juro - fazia ele rindo de tal maneira, que se comprometia ainda mais.

Depois dava-lhe conselhos que Alice recebia com docilidade, incutia-lhe gostos delicados para as toilettes, as jóias e dava informações muito apreciadas sobre a maioria dos seus amigos: o Bruno Sá, o Dr. Suzel, o Belmiro Leão, que deixara abertamente de cumprimentar Mme. Arcanjo dos Santos.

— Ainda zangadinho?

— Não imaginas, filha...

Um mês depois, a chama, como dizem os poetas românticos, começou de diminuir. Conservavam-se uma preferência carnal, o desejo de não acabar, mas acrescido pelo vago instinto da curiosidade que, como se sabe, limitou o mundo e o ensinou a ler em caracteres cuneiformes, sem mestre. Nenhum dos dois deu, porém, claramente, pelo caso. Estavam em plena season e chegara para o hotel em que moravam Bruno Sá e Suzel uma grande atriz. Era o hotel das notabilidades de todo gênero: diplomatas, artistas, argentários, industriais, políticos, grandes artistas, "grandes cavadores", como não deixava de resumir Godofredo. A atriz parisiense trazia outras encantadoras atrizes. Jacques ia jantar sempre lá, em companhia de Bruno. Godofredo, cronista, que fazia crítica dramática e visitava com freqüência o jovem ministro, lustro e fulgor, reclamo luminoso do hotel, apresentou-os. Apresentou com satisfação, porque esses parisienses teriam uma idéia limpa e francesa da nossa sociedade.

Imediatamente, a grande atriz foi de uma simpatia desvanecedora. E à hora de jantar, como em geral ela não aparecia, comendo nos seus aposentos, tal qual Mme. Sarah Bernhardt e Mme. Réjane, divertiam-se com as outras. De resto, a ilustre artista já lhes oferecera um jantar de que fazia parte um grande psicólogo, pago pelos governos sul-americanos para fazer conferências sobre a alma feminina em Buenos Aires, Montevidéu, Rio e Rosário.

Além desse acontecimento mundano importante - Jacques não tivera nunca a intimidade dos renomes universais - um outro preocupava a atenção, não só dele, como de Alice, como de toda sociedade: a grande festa de caridade em favor do Dispensário da Irmã Adelaide. Mme. de Melo e Sousa e a Baronesa Parckett, mãe de Eleonora, dirigiam o acontecimento. A princípio pensaram no Casino. O Casino era pequeno. Depois estabeleceram definitivamente tomar conta de um jardim público.

Era preciso arranjar grátis o jardim, as obras necessárias para as transformações, uma tômbola formidável e um programa espantoso. O comércio, a indústria, a administração estendiam as mãos à alta sociedade para proteger os pobres. Estendiam e davam. A sua ação a isso se limitaria, como a ação do jornalismo seria a de fazer um reclamo permanente até o dia do espetáculo. A organização das comissões seria mundana. Os rapazes de gosto ociosos apareceram. Chagas fez uma planta do jardim com os lugares das barracas marcadas a bandeirinhas vermelhas. A importância das barracas variava, segundo o tamanho da bandeira. Dória, já expulso do seu meio, veio à cena como utilidade. O filho dos Viscondes de Pereira encarregou-se do capítulo sport, marcando regatas, corridas a pé, tobogã, gincana e algumas cousas irrealizáveis que lhe davam o pretexto para dizer:

— Qual! nesta terra tudo é impossível! Qual! estamos num país selvagem.

Godofredo ficava com a parte de teatros, muito contrariado aliás. A parte de teatro constava de uma comédia, naturalmente em francês, por amadores da nossa melhor sociedade, um intermédio em que figuravam por especial distinção o grande tenor Zenaro da companhia lírica, a notável atriz francesa e uma atriz portuguesa, que nenhuma das damas conhecia, por não freqüentar teatros, principalmente em português e finalmente, à noite, uma série de quadros vivos, com projeções elétricas, assunto religioso: "A Caridade". "A Samaritana". "Cristo e a Adúltera".

À escolha das diretorias das barracas, posto de sacrifício, presidia uma grande diplomacia. Só Mme. de Melo e Sousa poderia sair-se bem, pondo em relevo as personalidades dignas disso.

A primeira reunião do comíté organizador foi agitada.

Faltaram várias pessoas, censuradas aliás, e as comissões só foram nomeadas às onze da noite; comissão de angariar donativos, comissão de direção dos trabalhos, a de teatros, a de política, a das barracas.

— Falta alguma cousa - dizia Luísa Frias.

— Que falta?

— Não sei, mas falta.

— A parte infantil - rouquejou a Sra. Muripinim.

— É isso! é isso mesmo! - exclamavam de todos os lados.

— Quem se encarrega da parte infantil?

Ninguém queria. Era preciso pensar. Faltavam de resto mais cousas, para corser le programme.

— Tenho uma idéia - ganiu o Dória, que dava tudo para se conservar.

— Qual?

— Uma cartomante, que lerá a huena-dicha ao público.

— Estás louco? Todos quererão dar a mão.

— Descansem, é pago.

— Ainda assim.

— Lembro uma orquestra de fados portugueses.

— Mas isso, Dória, é impossível. Quem vai cantar fados?

— Esperem, explico-me, deixem-me explicar. Imagino uma orquestra de moças, tocando só bandolim.

— Ah! bem...

— Haverá uma jovem no Rio que não toque bandolim? Bem sei, Godofredo, que é desagradável. Mas tem um meio: não te aproximes, o jardim é grande. Escolhemos os últimos fados, os literários.

— Realmente - fez Etelvina Gomensoro, née d'Ataíde - conheço alguns; são lindíssimos...

— E depois muito distinto - decretou a ilustre Argemira.

— Mme. Gomensoro cantará os fados.

— Como quiserem.

Imediatamente a reunião inteira resolveu adotar o fado. Eram loucos pelos fados. Depois debateram a questão financeira.

— Deixem comigo o caso - liquidou Chagas, por alcunha "Ganhou o macaco". - Fiquem descansados...

Mas ao contrário do que imaginava, o oferecimento causou um discreto alarma. Chagas era um rapaz encantador, de muito bom gosto, que talvez por isso tinha a leviandade de não saber resistir nem às cocottes, nem ao baccara. O dispensário mudaria de nome.

— Não, não - disse a Sr.ª Pedreira - precisamos de nomes para impor aos negociantes, senhoras de posição.

Alice irradiava. Era da comissão que iria convidar o presidente da República, era chefe de uma barraca de flores, entrava nos quadros vivos, e como Belmiro Leão, por indicação de Argemira, fazia parte da comissão, teve o prazer de vê-lo vencido vir cumprimentá-la.

— Somos companheiros?

— Da santa cruzada do bem. Os pobres antes de tudo.

— Há várias espécies de pobres.

— Eu só não tolero os pobres de espírito.

— Pois admira. Os pobres de espírito são a melhor gente deste mundo.

Em compensação, Jacques sentado entre Luísa Frias e Laura Gomes, num flirt perfeitamente agradável, sentiu-se de repente nomeado para a comissão da política. As suas relações obrigavam-no a pertencer a essa comissão com Arcanjo dos Santos e a Viuvinha Amélia. Era aquele pretexto que o punha em contato com os detentores dos dinheiros públicos. Quem diria? A vida é uma surpresa.

No dia seguinte, a garçonnière ficou deserta. Alice dos Santos ia com o comite diretor ao jardim público, tomar disposições sur place, porque a planta do Chagas fora declarada inútil. Iam as Sr.as de Melo e Sousa, a Baronesa Parckett, a encantadora Gina Malperle, Mme. Gouveia, e como homens, só Bruno Sá, Suzel e Belmiro Leão. Era como eles gostavam os três - de andar, só os três, benditos entre as mulheres. Suzel tinha um apetite pueril pela Baronesa Parckett, Bruno dizia cousas sérias à Malpene, Leão, naturalmente, caminhava com Argemira e Alice. E como chovera na véspera e o dia estava sombrio, pelas aléias desertas errava uma vaga e úmida melancolia.

— Gosto tanto dos jardins. Um jardim assim faz pensar no amor.

— Se o amor foi revelado num jardim!

— Mas eu penso no amor de outrora e não no de agora. O amor num jardim.

As senhoras levantavam um pouco os vestidos escuros para dar volta nos lugares em que a água empoçara. Havia sorrisos que diziam mais do que as palavras, por serem imensamente vagos e tênues. Luísa estava com frio. E da festa foi impossível fixar qualquer cousa além da hora.

— Aqui ficava bem uma barraca...

— E aqui...

— Também...

— Onde ficará a vendedora de cartões postais?

Frases cansadas, sem ânimo, como se fosse uma fadiga superior às forças gerais, animar o velho parque melancólico com uma festa mundana. E cansados todos, estavam, entretanto, gostando. Deram uma longa volta, para fazer apetite para o almoço. Alice voltou só, no coupé-automóvel, abstrata.

Nessa ocasião, Jacques preparava-se para ir à Câmara, encontrar Arcanjo. Vestiu-se com um apuro inglês. Fincou na gravata escura a pérola com a qual Alice revelara desejá-lo logo. E foi, pausado. A festa de caridade ia introduzi-lo no meio que almejava entrar, mas de modo elegante, sem rebaixar-se. Munido do cartão dado por Godofredo (era o segundo de que se utilizara, porque até então só usara o do cinematógrafo) - entrou pelos corredores que ladeiam o recinto. Estavam num grande dia na Câmara. Os corredores tinham cento e vinte pulsações por segundo. Jacques passou a custo para uma cancela do deplorável recinto a descobrir Arcanjo. Afinal deu com ele, sentado, pálido. Arcanjo viu-o também, mas não se moveu. Nem o saudou. Jacques esperou meia hora, prestando atenção ao discurso.

O discurso era inverossímil de idiotice. Fazia-o um dos mais aplaudidos parlamentares. Jacques não gostava de discursos. Tinha razão de resto. Estava com a opinião de um estadista eminente, James Balfour, que já disse: "As criaturas que fazem ou ouvem discursos em vez de jogar o golf são incapazes de apreciar as possibilidades da existência".

Jacques apreciava as possibilidades da existência. E, depois, naquele movimento febril de homens a suar, a falar uma língua incompreensível, entre reporters, taquígrafos, redatores de debates, contínuos, parasitas, agentes de negócios, pedintes com ar triste e mesmo deputados, só deputados eleitos pelos presidentes dos Estados respectivos, não podia deixar de sentir-se superior. Superior, por quê?

Não o sabia, nem o era. Mas assim o fizera a educação e também a herança, desenvolvendo-se num meio propício. Os verdadeiros amigos de Jacques podiam jurar-lhe que qualquer daqueles contínuos era mais útil e mais inteligente. Não o acreditaria. Ele era importante, mais importante, apesar de não ter qualidade alguma superior para compensar as más disposições iguais às de todos os homens, mais ás dos da sua condição. E o seu meio, composto afinal de elementos desencontrados da sociedade, desde o jogador titular ao explorador sem escrúpulos, meio de que conhecia as histórias desagradáveis, era o único tolerável e o único possível. O resto não passava de poeira.

Não daria importância ao maior gênio, sem que a sua roda, em grande parte letrada, como ele, não dissesse que esse gênio era mesmo gênio. A roda nunca dizia, mas crismava alguns mortais felizes, o que era uma compensação. Assim, como em nenhum salão, em nenhuma "pensão de artistas", em nenhum dos clubs em que seu pai jogava, não ouvira falar do gênio de nenhum deputado, além do Arcanjo e do Inocêncio Guedes, o inexorável recitador do Smart-Ball, considerava aquele pessoal inferior. Ele, Jacques Pedreira, condescendia em ir vê-los.

Mas ninguém lhe ligava importância e o discurso era enorme, Jacques resolveu pedir a um continuo que lhe levasse o cartão a Arcanjo.

— Não está.

— Está! Está ali.

— É verdade, não tinha reparado. Mas não posso.

— Por quê?

— A. Ex.ª está tomando parte no debate.

— Por quem é, leva-me este cartão. O Dr. Arcanjo espera-me.

O contínuo tomou o cartão e deu uma porção de voltas pelo recinto, antes. Afinal decidiu-se, e Jacques viu que Arcanjo fazia um gesto de contrariedade, erguia-se. Quando Arcanjo se aproximou, notou que estava palidíssimo.

— Bom dia, há meia hora que o espero.

— Ah! Queres falar comigo?

— Venho para o negócio do Dispensário.

— Que Dispensário?

— Oh! Pareces que estás a brincar. O Dispensário da Irmã Adelaide.

— Desculpa. Temos uma sessão muito importante - fez o outro, dominando a alteração da voz. - Mas hoje é inteiramente impossível. Não temos tempo.

— Ah! bem - disse Jacques, seco.

— É uma pena aborrecer-te, mas tem paciência. Queres que te mande abrir uma das tribunas?

— Não, muito obrigado. Ouvir discursos...

— Às vezes são coisas sérias. Até logo.

E afastou-se. Jacques ficou rubro de cólera. Idiota! Tratara-o evidentemente mal. Por que estava na Câmara? Dava-se então à importância o Arcanjo! Com ele, porém, fiava mais fino. Não poria mais os pés naquele lugar. Contaria a Alice o procedimento do marido. Era inacreditável!

Tão incomodado ficou que voltou imediatamente a casa, imaginando várias vinganças. Entrou direito para os seus aposentos. Atirou o chapéu alto para cima da mesa. E arrancava o frack, quando o copeiro entrou com uma carta.

— Trouxeram minutos depois do senhor sair.

Vinha de Alice. Também essa senhora não passava um dia sem escrever. Abriu-a com raiva. E leu:

"Ele desconfia. Recebeu uma carta anônima, que conta tudo. Salva a situação no momento e deixa, por minha conta o resto. Até à morte..."

— Bolas! - fez Jacques, sentando-se na cama. - Que complicação!

Era como se tivesse recebido uma pranchada no alto da cabeça.

Capítulo VI: O mais feliz dos três...

Arcanjo dos Santos não contara com a hipótese de ser enganado quando casara. É uma hipótese que raramente azeda o gesto heróico dos que se decidem a manter as bases da sociedade. Ele trabalhara, esforçara-se, obtivera como prêmio duma vida brilhantemente nula uma linda e rica esposa. Para o seu espírito era a derradeira etapa, a da apoteose da mágica. De então para diante poderia viver bem, apenas com a preocupação do esperanto, do vegetarismo e de não desagradar ao Grande Chefe, que o fizera deputado. Nada mais simples. Com o esperanto era sócio propagandista, com o vegetarismo fartava-se de macédoines de legumes. Com o Grande Chefe mandava-lhe um presente semanal e votava à sua vontade. Era feliz, integralmente feliz. Mas a felicidade não dura. A carta anônima insultara-o, chamando-lhe de nomes feios, considerando-o um desbriado. Não há homem que se não exacerbe, quando o chamam de desbriado, mesmo tendo a certeza de que o é. Arcanjo não tinha essa certeza. Ficou agitadíssimo. Ia sair. Voltou, foi ao gabinete de trabalho, virgem de trabalho, deixou-se cair numa cadeira, tentou pensar, coordenar idéias sem resultado, ergueu-se, passeou agitado, quis escrever uma carta, apesar de no gabinete não poder deixar de ver quem entrava, chamou o criado algumas vezes.

— A senhora, já veio?

— Ainda não, excelência.

Pediu os jornais, onde encontrou (em todos) o nome da esposa e o nome dele, do outro na primeira página, amarrotou as gazetas, tornou a passear, mandou vir a criada de quarto.

— A senhora disse que voltava para almoçar?

— Sim, excelência. Ela foi ao jardim ver o local para a festa.

Fez um gesto de despedida, lembrou-se de que nunca tinha comprado um revólver. Passou assim duas longas horas. A espera exasperava-o. A carta tomara proporções enormes. Seria de fato? Ela de quem gostava tanto, ela, tão bonita! E tendo tudo, nada lhe faltando! No fundo a revelação irritava-o. Iria brigar, sair dos seus hábitos, arrostar com um enorme ridículo, perder a sua mulherzinha. Como? Tragédia? Sangue? Divórcio o divórcio num casal sem filhos, sendo ela rica?

Era preciso que Alice chegasse imediatamente para a explicação. A explicação! Que horror...

Alice chegou. Vinha abstrata no seu automóvel. Viu-a sentar, por trás da vidraça. Preparou-se como para uma cena tremenda, mas digna. Ao ouvir-lhe os passos na sala próxima, o coração batia-lhe.

— Estás à minha espera? - fez Alice entrando.

— Há duas horas.

— Por quê?

Aquela pergunta natural, feita naturalmente, desconcertou-o. Respondeu esquivo:

— Ora, por quê? Por nada...

— É curioso. Mas não falas a verdade.

— Julgas?

— Juro.

— Então queres saber?

— Pois claro, meu querido.

— Teu querido. Faze favor, deixa de ironias.

— Ironias?...

— Há frases que ofendem, quando não são verdadeiras.

Alice ficou pasma. Não ser verdadeira ela, uma criatura nature por excelência. Caminhou para o marido, ofendida sinceramente.

— Dizes que eu minto?

— Pois eu sou lá o teu querido?

— Que bicho te mordeu?

— Que bicho, hem? Um bicho que esmagarei, podes ficar certa.

— Mas falas por enigmas, homem de Deus, dize logo o que tens a dizer.

— Digo que vamos partir, que seja como for, ouviste? nunca me prestarei a um papel ridículo...

— Ridículo?

— Sim, ridículo. E não negues, não negues. Tenho a prova.

Os criminosos e as senhoras inteligentes têm um poderoso self control. Aquelas palavras noutro ambiente fariam a perturbação. Alice compreendeu, entretanto, que o perigo estava longe e afastá-lo de todo, imediatamente seria preciso.

— Queres ver que tens ciúme de mim? Provas, provas! Mas perdes. te a cabeça. Onde a prova? Prova de quê? Exijo a prova. É a primeira cena que temos. Será a última. Ah! Este Rio! Bem não queria vir. Mas ou me dás a prova ou não fico mais nem um minuto aqui.

Ela gritava. Arcanjo teve que dizer, indo fechar a porta:

— Fala baixo, olha que escutam.

— Que importa? Hei de falar como quiser! A prova! vamos ver a prova de um crime, que ainda não sei qual seja!

Ele tirou a carta do bolso, estendeu-lha, com uma penosa sensação de ridículo, a sensação de que tinha feito uma enorme tolice. Alice pegou-a febril, leu-a de um jato. Era numa meia dúzia de insultos com péssima ortografia, o seu caso, o nome de Jacques, o escândalo. Ficou um instante, olhando o papel imundo a ver o que devia fazer. Soltar uma gargalhada seria teatral. Achou melhor atirá-la com um gesto de nojo.

— Isto? Mas é vergonhoso o que acabas de fazer, vergonhoso!... Uma carta anônima! Todas as senhoras da sociedade, todos os homens de posição recebem cartas anônimas. Nós estamos na terra da carta anônima. Sabes o que é isto? Inveja. Inveja de ti, da tua felicidade. E deste importância a essa cousa asquerosa! Nem vale a pena defender-me. É idiota. Jacques então, o filho de D. Malvina, uma criança. Que diabo! Tu não és um imbecil. Jacques é tão teu amigo, está sempre conosco. Quando? Onde? Havias de descobrir um gesto ao menos que denotasse mais do que amizade... Pela mesma razão serei amanhã amante do Chagas, do Dória, do marido da Frias. Francamente, sempre fiz outro juízo de ti.

Falava alto, agitada.

— Mas, Alice...

— Cale-se, cale-se ao menos. O senhor dá-me inteira liberdade, sabe que eu gosto de ser admirada. O Jacques é, entretanto, como de casa. Nunca pensei, meu Deus, nunca! Pobre rapaz! De resto, o senhor naturalmente seguiu-me...

Ela disse a frase que desde o começo lhe apertava o coração com um esforço enorme. O marido ergueu-se.

— Oh! Alice, isso nunca!

— Tinha a carta no bolso, podia acompanhar-me.

— Recebi-a ao sair há pouco. Sou incapaz.

— Oh! oh! conheço-o bem. Guardou a infâmia, acompanhou-me dias e dias e não achando o que dizer, veio lançar-me uma injúria sem fundamentos.

— Mas não, Alice, não digas tolices...

— É triste, é muito triste, depois de tão pouco tempo de casada... Se papai soubesse!

Caiu numa poltrona. Arrancou o chapéu num gesto de desespero. O marido, lamentável, procurava palavras.

— Não, tudo, menos pensares que te segui.

— Mas se acreditaste nesta infâmia!

— Quem te disse que acreditei?

— Acreditou, acreditou...

E de repente prorrompeu em soluços. Os seus olhos vermelhos choravam. Era uma verdadeira artista. As mulheres são assim: nascem feitas. As que têm o temperamento de honestas, nunca aprendem a mentir. As que, embora boas, são mais lealmente filhas d'Eva, não precisam de curso, de aulas, de experiência. Revelam-se no campo de batalha de chofre, generalíssimas. Alice era encantadora, boa, gostava mesmo de Arcanjo, como em geral gostava dos homens, sentia que o pobre marido sofresse, talvez o enganasse mais pela cabeça do que pelo coração, mas mentia, mentia sempre e naquele momento gozava em se ver acreditada, queria vê-lo submetido. Arcanjo, nervosíssimo com as lágrimas, aproximou-se, afagou-lhe os cabelos.

— Não chores, não chores... que é isso?

Os soluços redobraram. Então curvou-se, falando baixo, comovido, com as palavras que se têm para as crianças, com o gesto que para com elas temos, quando as consolamos de males imaginários, beijando-a, animando-a.

— Meu bem... então, então... seu maridinho... não foi por mal. Enfim, compreendes, eu também fiquei fora de mim... Bom, acabou-se, acabou-se, dê um beijo no seu marido.

— Não... não, nunca mais!

— Louquinha, vamos, um beijo...

A vida na sua essência é feita de palavras que se não dizem. Nas cenas mais sérias de uma existência, há uma série de cousas que se sentem, outras que se esboçam, outras, cujas palavras erram nos lábios sem serem pronunciadas. O resto é o que se fala. Quase sempre o inútil. Há homens que morrem ignorantes do seu próprio eu, porque nunca tiveram a coragem de dizer alto o que talvez pudessem ter pensado. Arcanjo pensava muita cousa de modo vago. Era raiva, medo de escândalo, credulidade, desejo, exasperação, luxúria, pena, amor, vontade física de se afirmar. Viu-se de joelhos a acariciar a esposa, que soluçava baixinho; beijou-lhe as mãos, beijou-a no colo por cima do vestido, beijou-a na testa, beijou-a na boca, afogando-lhe o não de recusa. E aquele beijo, num caos de dúvida vaga, foi decerto o melhor beijo da sua vida de casado.

Ela talvez o tivesse sentido um pouco - que o amor é superior sempre. Depois ergueu-se como uma convalescente, macerada, pisada, triste. A cena de minutos antes passava a velha recordação de um pesadelo, tão afastada estava.

— Almoças?

— Não sei.

— Deixa arranjar-me. Estou sem apetite.

— Eu também.

— Vais à Câmara?

— Tenho de ir.

— Até já.

— Adeus, meu amor.

Como Alice estava macia e boa! Foi vagarosamente, com um gesto de saudade desolada até o seu toucador. E aí, ainda vestida, sentou-se, escreveu três ou quatro linhas a Jacques, mandou-as pela criada de quarto, vestiu-se só, pensando em Jacques, na boca de Jacques, no moreno rosa da sua face glabra, mais sua do que antes. A entrava da carta excitava-a. O amor é um sport.

Arcanjo foi à Câmara. Era preciso votar uma ordem do dia cheia de concessões e de pensões. As concessões passariam todas com pedidos de grandes influências políticas, que de algumas seriam mesmo futuros diretores. As pensões, só passariam duas para senhoras bem de fortuna mas também com esplêndidas relações entre os situacionistas. As outras, as das viúvas pobres e sem conhecimentos seriam cortadas. O país precisava fazer economias. Ele coitado, ia acabrunhado. Parecia-lhe, vagamente, que toda gente era autora da carta e por conseqüência, que toda gente sabia, desconfiava, caluniava-o, insultava-o. A frase mais vazia parecia-lhe uma alusão clara, definitiva. Meteu-se no recinto, evitando conversas, a fingir que ouvia o discurso de um célebre orador empolado e soporífico. Quando Jacques apareceu, viu-o logo. Mas fingiu não o ver. Um estado esquisito, como se lhe estivessem apertando o epigastro e torcendo a nuca, dava-lhe uma raiva surda contra o rapaz. Achou-o tolo com a sua elegância; achou-o idiota, fingindo-se importante no seu anonimato; analisou-lhe a insignificância de jovem pavão, com desprezo, com mordacidade, com ódio. E sabendo-se esperado, vingava-se, vingava-se, não sabia bem de quê, mas deliciosa, lenta, enebriantemente. Ao ouvir o contínuo, estava resolvido a não falar. O homem de sociedade, porém, dominou. Veio. Veio e foi pela primeira vez com aquele adolescente, o superior, o maior, o mais velho, o homem. Estava aliviado. Terminadas as votações, voltou a casa, reintegrado. Se alguém lhe dissesse alguma frase dúbia, reagiria a bofetada. Ninguém lha disse. Alice recebeu-o ainda mais convalescente. Passara a tarde inquieta e ao mesmo tempo desejosa de saber quem teria tido a lembrança infame da carta. Jacques não lhe mandara dizer nada e pela primeira vez, vendo o marido entrar da rua, sem uma comissão sua, indagou:

— Então?

Ele esquivou-se:

— Votações, um aborrecimento...

— E eu que nunca fui à Câmara!

— Fazes o que alguns colegas conseguem.

— Deve ser divertido.

— E cacete. Saíste?

— Oh! não. Fiquei para ai, lendo um romance. O dia está tão úmido! Mas vamos, à noite, à casa do Pedreira.

— Para quê? - fez ele brusco.

— Oh! filho, a festa de caridade! Já nem te lembras que sou de várias comissões. E tu também. Temos reunião do comitê hoje.

Ele não disse nada. Estavam sós, era um tête-a~tête. Pela primeira vez, depois de chegar ao Rio, tinham um tête-a~tête, sem nada para dizer, com Alice tão submissa.

— Por que não vais ao chá do Gouveia?

— Vai tu. Eu, não.

— Prefiro ficar.

— Ficaremos os dois. Um five-o'clock a sós. Queres?

Ele sorriu, vendo-a retornar à menina. Há quanto tempo não tomavam chá os dous sós! Desde o Rio Grande, chá com torradas à noite, enquanto o sogro estancieiro bebia erva... Ficou. Leram os jornais da tarde juntos. Um deles esquecera o nome de Alice na notícia da grande festa de caridade. Era oposicionista. Jantaram sós, como quem come depois de uma viagem. Não tinham comido o dia inteiro. Alice já estava vestida para ir aos Pedreira. À sobremesa pediu para dar antes um passeio pela praia, no automóvel.

— Faz uma noite tão úmida.

— Que tem? É fechado.

Foram. Eram oito horas da noite e a Beira-Mar estava deserta, angustiosamente deserta no banho de luz dos combustores e das lâmpadas elétricas. De quando em quando passava um automóvel rápido ou uma vagarosa tipóia com gente suspeita arrulhando no silêncio o amor que por ser a hora não deixa - nem mesmo esse! - de ser doloroso. Todo aquele deserto parecia crescer sob a chuva deslumbrante das luzes. Era como se do céu um turbilhão de estrelas se despegasse e levemente viesse pousar por aqueles postes, fazendo uma colossal apoteose de luz. A distância as luzes eram brancas, eram verdes, eram azuis, eram de um verde pálido, de um jalde apagado, e reunidos aos grupos de cinco e três, recamavam as largas avenidas de um dossel de pedrarias irradiantes, de um estranho desenho feito de raios de astros. Casas graves e fechadas, palácios que pareciam villas de Florença estragadas pelo arranjo de arquitetos bisonhos, aumentavam a tristeza fúnebre. Em algum banco esquecido, um labrego, um par, o vazio.

— É tão bonita a luz.

— Lindo.

Ela reclinara-se. Ele, naturalmente, pegara-lhe na mão quente. Era a primeira vez que naquele automóvel o marido tomara uma deliberação tão pouco na moda para os maridos. Na casa do Dr. Justino Pedreira, quando chegaram, já a sessão começara. Estavam todos, inclusive Godofredo de Alencar, que precisamente gabava um grill-room montado com estrondo na Avenida, por uma dama das melhores relações do meio - como proprietária de uma pensão em Petrópolis, onde se aboletavam diplomatas.

— Esplêndido. Parece o Ritz, o Rumpelmeyer - dizia o literato, que nunca estivera nem no Ritz, nem no Rumpel, repetindo frases da crônica do dia seguinte.

— E resistirá, meu caro?

— É verdade, neste país de selvagens...

— Somos nós, apenas.

— E nós não vamos todos os dias...

— Ah! Eu que estava com o Dr. Inocêncio Guedes, logo disse: não dura um mês!

O inexorável e incontinente recitador do Smart-Ball sorriu satisfeito.

— Com efeito. Eu também disse. Outro meio, a Argentina, Montevidéu...

— É, é uma vergonha.

Alice procurava descobrir Jacques. Jacques estava a uma das janelas, conversando alegremente com a Viuvinha Pereira e Belmiro Leão. O jovem conquistador avançou. Ele também, naturalmente. Se o casal viera, as suspeitas tinham declinado. Estava soberbo de indiferença. Ao receber o golpe da carta de Alice, ficara meio aturdido. Mas o adultério era das muitas coisas que julgava sem conseqüências. Apanhado em flagrante, fugiria. Interrogado, mentiria por mais provas que houvesse. Não escrevera, porque custava escrever e seria pouco prudente mesmo. Esperou. Sangue, tiros, palavrões, só na gente baixa. Não havia receio. Gente do seu meio vingava-se de outra maneira. Se Arcanjo tivesse acalmado, teria por ele um pouco mais de consideração e continuaria com a Alice, segundo as disposições do marido. Estava acostumado com o caso por vê-lo praticar; estudara-o como alguns estudam o inglês sem mestre. E o adultério sempre foi mais fácil do que o inglês. Só haveria uma dificuldade: largar Alice. Na sua roda ouvira muita vez a frase de Bruno Sá:

Quando tenho uma amante de cá, antes de começar já estou a ver como hei de acabar.

De resto, Arcanjo tinha responsabilidades e Alice era um pouco adida ao núcleo. Estendeu a mão e foi logo a dizer:

— Ainda há instante falávamos mal de vocês.

— De nós?

— Sim, mamãe indagava o que se tinha feito pela política.

— E então?

— Pergunte a seu marido. Arcanjo estava tão preocupado que quase me recebe mal.

— Não é possível.

— Ora! Queria até que eu assistisse a sessão!

As damas e os cavalheiros sorriam. Arcanjo estava meio acanhado. Seria verdade? Seria mentira? Mas não perdeu o seu ar de superior a Jacques.

— Estes meninos pensam que a vida é só brincar...

Dous dias antes não teria tido tanta coragem, Jacques nunca fora tratado assim, senão por seu pai. Mas tinha culpa e achava-se na obrigação de ser gentil, meio vencido. Com o seu temperamento, tratá-lo d'alto era exasperá-lo, mas dominá-lo. Às duas horas da tarde achava aquele sujeito um imbecil que precisava taponas. As quatro estava sem opinião. As nove já não fazia um mau juízo de Arcanjo. No dia seguinte entregar-se-ia sem sentir, como se entregara a Jorge de Araújo, a Godofredo, ao Barão Belfort. O pobre Arcanjo estava nas mesmas condições de fraqueza de vontade, como de resto a maioria dos presentes, mais ou menos os doentes de impotência psíquica generalizada. Apenas o decorrer dos fatos dera-lhe a superioridade. Foi levado a ela num tremor de desastre. O outro aceitou-o. Ficariam sempre assim; ele, a mulher e Jacques.

Quem ganhara de resto com o decorrer dos fatos fora ele. O marido, em noventa e nove vezes sobre cem, é o mais feliz dos três. A mulher, por mais indiferente, trata-o bem porque o marido é uma tabuleta. O amante ainda melhor, porque teme o futuro onde se anunciam em escala desagradável desde a violência, até a responsabilidade. Respeitado, descansado, o marido é a autoridade e o primeiro, e em lugar de ser um pobre escravo a satisfazer a sua dona, é o cavalheiro desveladamente conservado e prestigiado pela esposa e pelo seu maior amigo.

— Brincar? - fez Jacques. - Você faz muito pouco na minha capacidade. Verá quando começarmos. Esvazio a carteira dos seus companheiros.

Fê-lo sentar, ficou um instante ainda prestando atenção à discussão. Tratava-se de arranjar bandas de música e de forçar Godofredo a fazer uma conferência10 sobre a caridade. Era uma reunião animada. Estavam todos dispostos como Jacques a assaltar a bolsa alheia em proveito dos pobres. Até mesmo a gentil Viuvinha Pereira, sempre tão generosa para os ricos, até mesmo Mme. Zurich, Mme. Gouveia, as irmãs inimigas, ambas a disputar o bastão da beleza.

Godofredo ia sair. Aproveitou para partir também. Alice, em palestra com Belmiro Leão, deu-lhe menos importância do que de costume.

O marido prometeu que no dia seguinte apresentaria os deputados para a colheita. D. Argemira marcou a hora.

— Não, o Dr. Arcanjo está na Câmara, às duas.

— Às ordens, minha senhora.

— E você, Jacques, passa lá por casa antes, para as últimas instruções.

A ilustre dama queria apenas saber do que ocorrera. Jacques despediu-se, saiu. Ainda no portão Godofredo rebentou.

— Querem teatro, conferência, tudo grátis.

— É uma festa de caridade.

— Caridade! Eu já assisti a dez festas de caridade para a construção do altar-mor de Nossa Senhora da Conceição. Mas essas senhoras não repararão que é demais?

Depois no tramway:

— Estive hoje no escritório do velho.

— Está danado. Não me fala há uma semana.

— Também não vais mais lá.

— Para fazer o quê?

— Oh! filho, para aprender, para exercitar, por sport, como ias ao football, como vais aos Estrangeiros. Depois não é possível perderes o tempo de enriquecer.

— Enriquecer! Enriquecer! Oh! Godofredo, não fales nisso. Sempre que tratavam de persistir num ato sério, Jacques ficava nervoso. Porque de fato tinha uma grande vontade de fazer um bonito, ganhar dinheiro, ter nome, e só não se atirava, porque levava tempo. Então ficava querendo ouvir os conselhos e querendo ao mesmo tempo que não lhe falassem nisso.

— Queres então ser pobre?

— Qual. Há de se ver, depois.

— Mas se tens tudo para entrar desde já?

— Advocacia não. Abomino autos.

— Outras advocacias.

— Custa tanto.

— Ora, ainda agora...

— Há alguma coisa? - perguntou ansioso.

— Precisamente não há, isto é, depende. Coisa para ganhar uns contos.

— Como?

— Da melhor maneira. Sabes que... não, não sabes, mas é o mesmo... Cartas na mesa. Há uma concessão que deve passar quinta-feira na Câmara.

— Bem.

— Mas não passa porque o Grande Chefe não quer.

— Então?

— É preciso demovê-lo. Só um deputado está nas condições de o fazer, se pedir com insistência.

— Quem?

— O Arcanjo. É uma das maiores influências da Câmara: não faz discursos.

— Mas eu não posso pedir nada a Arcanjo.

— Como? Sempre pensei...

— Agora, mais do que nunca.

— Houve alguma desinteligência?

Jacques calou-se. O cronista sorriu:

— Diabo. Olha que não se deve perder a amizade de Arcanjo. Dentro em pouco será uma das mais prezadas figuras do nosso grande mundo. Perdeu anteontem dez contos no CIub da Avenida, de que já é sócio. É comensal do Grande Chefe, tem uma linda e distinta esposa.

— Ora...

— Não sei...

— Pede sempre.

— Não tenho a certeza.

— Mas repara, Jacques, que fui eu quem te arranjou a chave da casa do barão.

— Por isso mesmo. Está tudo acabado. Ele sabe tudo.

— Quando soube?

— Não imaginas como estou incomodado.

— Está-se vendo. Mas quando soube?

— Hoje.

— Oh! então é um homem superior, um homem que a todos nós dará lições. Nunca pensei! Que sangue-frio dá a alimentação vegetariana! Olha. Pedes amanhã, impõe-te a Alice. Para ser amado é preciso dominar. Impõe, ouviste? Ou ele é um tipo - o que não acredito - ou fará tudo para mostrar à mulher a sua influência neste momento. Aceitas?

— Tens umas idéias...

— Esplêndidas. Amanhã venho buscar-te, trazendo tudo escrito. Com certeza estás amanhã com ela? Bem. Amanhã. Mas que acontecimento! Vem a calhar. Está notável o nosso Arcanjo. Não sei se conheces um ditado que diz: o mais feliz dos três é o marido.

— Homem, parece-me...

— É, não há dúvida, quase sempre. No momento é ele. Mas todos nós podemos ser. Os pequenos acontecimentos são a causa de grandes coisas. O dia de hoje podia ter sido aziago. É um começo de vida. Ah! meu caro, estás te fazendo homem. Teu pai ainda não te compreendeu.

— Estou me fazendo, não; vocês é que estão fazendo.

— Uma obra admirável. Até logo. Salto aqui.

Jacques seguiu. Tinha a sensação física de quem se entrega sem vontade. Era como se fosse desaparecendo num lameiro e transformando em carne a melhor parte do limo. Reproduzia socialmente a criação do homem feita por Deus, omnisciente e potente. Aquelas infâmias rodas eram a vida. Saltou no Casino e foi ver o espetáculo, certo de que Alice obteria tudo de Arcanjo e que na quinta-feira próxima não estaria, de smoking e peitilho, apenas com alguns níqueis no bolso bem cortado do colete irrepreensível.

— Não achas? Uma linda esposa que é um instrumento político de primeira ordem. Deves acabar com as infantilidades. Depois não é preciso falar a Arcanjo. Basta pedir a Alice.

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