A festa de caridade estava marcada para dali a quinze dias, e chovia torrencialmente aos domingos. As comissões trabalhavam com entusiasmo, principalmente a de tômbola. O presidente da República e os ministros prometiam comparecer. Todas as bandas militares existentes na capital tocariam no jardim. Era a ameaça de uma memorável festa. Jacques foi no dia seguinte à casa de Arcanjo e não encontrou Alice. Então partiu para a Câmara e encontrou o marido de uma complacência mais que simpática. A noite e a esposa tinham conseguido apagar as suspeitas. A noite é uma grande esponja. Arcanjo apresentou-o como o seu menino bonito a vários colegas - só os colegas que não posavam muito de republicanos positivistas ou de chefes de partido da roça. Jacques pedia com uma segurança absoluta. Um baiano milionário prometeu várias cousas.
— E agora?
— Agora, nada.
Em compensação alguns deputados de S. Paulo assinaram cheques com um ar americano-parisiense do melhor gosto, gabando o Dispensário, as obras de caridade.
— Excelente obra. Em S. Paulo...
Jacques fez imediatamente uma opinião superior de S. Paulo e dos paulistas tanto mais quanto algumas bancadas queixavam-se e nada davam. Um representante do Pará atacou mesmo a caridade mundana. Para o fim da sessão, encontraram o jovial Pimenta e o triste Olegário, os dous deputados. Vinham ambos de Paris, para onde voltariam dentro de três meses. O Brasil agoniava-os. Pimenta, o jovial, era um coureur de femmes, andava pelos clubs, pelas pensions d'artistes. Bradou:
— Olhem só o jeitão dele. Pois então não o conheço do Casino?
— Não ouças o Pimenta. É um perdid6.
— Qual! aqui? Não há mulheres. É uma miséria.
— Mulheres só em Paris - sentenciou o lúgubre Olegário.
— Mas, gasta-se muito...
— É um engano. Eu vivia lá com três mil francos. - Depois, refletindo: - Mesmo com dous mil e quinhentos... - E num suspiro: - Até com menos, sim, até com menos...
Ambos os representantes da pátria estavam bem vestidos. Jacques notou. O mesmo já tinham feito eles a Jacques. E coincidência da moda: os três tinham frack debruado, camisa de risca transversal, usavam isqueiro, fumavam tabaco turco e na gravata mostravam pérolas em forma de pêra. Para os três não era preciso mais para demonstrar que se podiam dar com intimidade. O Pimenta, em pouco propunha que se jantasse numa casa de damas italianas, no Flamengo.
— Mas eu? - fez Arcanjo.
— Tu vais.
— Queres ver que receias trair a esposa?
Jacques, que preferia o jantar à caridade, ajudou também a perder Arcanjo, que se debatia:
— Mas eu nunca fui a uma dessas casas!
— Tanto melhor, é uma impressão nova.
Era uma impressão nova, sim. Apenas, oito dias antes, Arcanjo não teria ousado experimentá-la. Mesmo na Câmara, entretanto, expediu um telegrama à esposa comunicando que à última hora fora chamado pelo Grande Chefe para um secreto-jantar político da coligação das bancadas. Ao mesmo tempo, Pimenta e Jacques corriam ao telefone a prevenir Zina Fanga, dona da pensão. O contínuo do salão presidencial estava junto ao aparelho. Jacques indagou receoso se não ficava mal falar assim do Parlamento para uma casa de geishas cosmopolitas.
— Qual! É o meu bicheiro... Toda a confiança! - fez Pimenta a rir.
E foi ele próprio quem pediu o número que a telefonista deu logo, aliás sem surpresa. Jacques começava a gostar da política. Na confeitaria, onde depois se abancaram a tomar um aperitivo, encontraram Godofredo de Alencar, como sempre impecável. Podia ser também da roda. De resto, Godofredo fazia-se dela, dando apertos de mão íntimos e pedindo logo a última mistura aperitiva da casa - mistura com a virtude imediata de fazer perder o apetite ao mais esfomeado. Ao saber do plano, Godofredo aprovou. E como chegava Jorge de Araújo, ocasionalmente sem o seu grupo, quis prestar um serviço geral apresentando os amigos. Jorge gabou a idéia e ofereceu o seu automóvel. Era insinuante e vestia muito bem. A repetir os aperitivos esses cavalheiros falaram de mulheres. Godofredo sempre mal, Jorge com a gula de quem ainda não está farto das boas, os deputados e Jacques, fingindo um ceticismo cínico, à francesa. Arcanjo perguntava. Os nomes das grandes cocottes surgiam com detalhes desagradáveis, principalmente para os amantes. Arcanjo soube que nem todos os seus pares desprezavam a casa de Zina Fanga e outras muitas congêneres. As sete da noite tomaram o automóvel que Jorge de Araújo guiava. Estava a noite de inverno deliciosa, dessas noites em que a brisa é como a carícia velutínea de céu numa estranha palpitação de estrelas. Zina Fanga instalara no Flamengo a sua pensão, entre árvores, com vista para o mar. Ao saltar, Godofredo indagou:
— Falaste?
— Não encontrei.
— Fala-lhe. Meus parabéns.
— De quê?
— Debochas o marido. É excelente a ocasião para pedir diretamente. Vais muito bem.
E subiram rindo ambos. Jacques sem saber muito bem por quê.
A casa de Zina Fanga era das melhores. Havia um salão para as visitas de cerimônia e uma agradável sala de jantar. Zina fora cantora de café-concerto. Quando veio ao Rio já não cantava. A rouquidão fê-la não ser ouvida nem mesmo como diseuse. Não se perdeu muito. Era uma diseuse atroz. Mas a galanteria passara por ela sem estragar muito uma carne de leite, aguçando febrilmente o apetite extravagante e a ânsia do lucro. Não lhe bastavam amantes. Queria explorar um pouco os das outras, montar uma grande casa de banco - non è vero, caro? Diziam dela cousas inverossímeis, que tinha agentes especiais com vinte por cento para levar a casa homens da província, ricos; que orçava as jóias em trezentos contos; que obrigava os freqüentadores a tê-la também. Calúnias. A sua pequena amiga, Josette d'Amboise, desmentia tão bons corações.
— C 'es' un ange, monsieur!
No inverno, a casa de Fanga redobrava de concorrência, porque além das cocottes cantoras de music hall, havia as atrizes das companhias de opereta italiana, zarzuela, opereta alemã e algumas damas de troupes exóticas: a domadora de leões, as três patinadoras do Niágara, a Orquestra Zambelli. Algumas vezes tinham tido pensionistas homens - em geral tenores. Mas por engano ou camaradagem. Nunca esses tenores pagavam as contas.
No momento em que Arcanjo entrou no salão de jantar com os homens divertidos, o jantar começava. Jacques estava no seu meio. Jorge e Pimenta também. Olegário e Godofredo fingiam estar e pelo menos já lá tinham ido. A confusão era tal que não deram por eles no primeiro momento. Um sujeito gordo, da melhor sociedade, pegara brutalmente pela cintura uma crioula da Argélia, sentara-a ao piano. A crioula, com gritinhos de gata assustada, caíra com as patinhas no instrumento batucando uns compassos malucos. E damas e cavalheiros, batendo com os talheres nos pratos, cantavam desabridamente:
O e o a
Do Quixadá
O e o u
De Caxambu
Boum!
Era uma cançoneta-método de português, inventada por um dos freqüentadores para ensinar às cocottes a língua de Camões. E irresistível. Todos riam. Uma alegria desvairada sacudia os assistentes, alguns com cara de sono. Quando deram por Arcanjo, que aliás já tinham visto alguns conhecidos, houve um súbito silêncio. Godofredo falava com a Fanga, autoritária e de apetite como uma camponesa da campanha romana. Esta voltou-se:
— Onorevole, grazie...
As mulheres na mesa olhavam. Apenas as que estavam sem companheiro. Porque as acompanhadas de uns rapazinhos pretensiosos, na maioria de profissão flutuante, ou de uns senhores de respeitável e desrespeitada idade, fingiam não se interessar. O brasileiro é ciumento. O resto do bando que estava alegre continuou. No piano, a crioula fora substituída pelo Chagas, o Chagas "Ganhou o macaco", que lá estava em companhia do Conselheiro Filgueiras, jantando por conta desse homem de gosto capaz de lhe pagar jantares entre mulheres. E o sujeito gordo, o Lalá, tomara da crioula e dançava com ela uma valsa turbilhonesca em que a pobre pretinha parecia desfazer-se.
Zina Fanga dava jantares a preços fixos e muito em conta. Apenas reservava-se para os vinhos. As pensionistas pediam vinhos bons e a tarifa do champagne seria inverossímil em qualquer ponto do universo - mesmo porque além de tudo era champagne marca sem cotação. Com cuidado dispôs no resto da mesa os lugares dos novos convivas. Jacques, que se sentia agradado de uma pequena corista italiana, deixou-a ficar entre ele e Arcanjo. Godofredo interessou-se vivamente por um tenor, que comia como um alarve. Godofredo odiava os tenores. O Pimenta e o triste Olegário ficaram com a Lianne d'Ortal, chanteuse gommeuse neurastênica, que os abandonava de quarto em quarto de hora para ver se ainda dormia o seu querido, doente de uma bebedeira colossal na noite anterior. Jorge de Araújo era o festejado de todos - porque entre as suas habilidades havia a de aparentar que gastava. Antes parecer do que ser. Tinham-no por um perdulário. Sabia dar o estritamente necessário. Mas no bom momento. É tudo. A roda dele e do italiano Buonavita, banqueiro atual e ex-engraxate, como os grandes milionários da América, as mulheres, os gigolos, os parasitas e mesmo alguns michés intimidados faziam o alarido da apoteose. Ele ria. Buonavita arreganhava os beiços mostrando uma dentuça de pantera. A gritaria continuava desordenada. De vez em quando as mulheres zangavam-se por ciúmes. Zangas rápidas, em que os palavrões estalavam o esmalte da educação muito mais rapidamente que o esmalte das respectivas faces. Só as mulheres, apesar disso, guardavam a agudez dos sentidos. Os homens estavam meio apalermados, mesmo os que pretendiam ser espirituosos, mesmo os grosseiros. Eles olhavam-se sem surpresa. Arcanjo ficou desconcertado por nem o Chagas nem o Filgueiras nem outros conhecidos mostrarem a menor admiração vendo-o entrar lá pela primeira vez.
Mas no fundo esses homens não eram só indiferentes, tinham uma certa raiva, embora tênue, uns dos outros, porque o egoísmo masculino idiota sempre, apesar da civilização, não fica esquecido quando um homem encontra com outros homens várias mulheres. Todo cavalheiro, por pretensão quase sempre, é, neste caso, irmão do galo. E o curioso é que nenhum havia a desconfiar que se não divertia...
Com desejo de dizer alguma cousa, Arcanjo voltou-se para a pequena italiana que conversava com Jacques:
— Que toma?
— Du champagne, monsieur.
— E tu?
— À americana. Desde o começo, champagne...
Do outro lado, uma espanhola, Concha Arantes, ganiu:
— Ché! Champagne, yo lo creo...
Arcanjo abominou a Concha e voltou-se para a italiana:
— Como se chama?
— Liana.
— Bonito nome.
Era idiota. Para se dar ares de habituado àquela espécie de vida, serviu o champagne, escorregou o braço, pegou-lhe na mão - que era muito bem tratada.
— Está aqui há muito tempo?
— Um mês.
— Sabe que é bela?
— Oh! monsieur, vous rigolez.
Ela era realmente tentadora, com o olhar das italianas, um olhar raro que se entrega como um lago ardente, e tinha vinte e cinco anos e amava a beleza e amava o interesse. Logo percebera a inexperiência de Arcanjo e a possibilidade de fazê-lo pagar. Mas, ao mesmo tempo sentia um calor, uma curiosa vontade de amar a Jacques. Resolvia, por conseqüência, ao responder a Arcanjo, o problema de se satisfazer. E resolveu. Ligou o seu pé ao do mancebo por baixo da mesa numa pressão apaixonada e apertou a mão de Arcanjo de modo visível, a rir. Jacques compreendeu, viu. Viu e teve uma esquisita sensação de orgulho e de humilhação. A verdade venceu e para pôr as cousas no seu lugar, debruçou-se sobre a mesa:
— Então, Arcanjo, já com uma conquista?
— Tu vois... - fez a pequena.
E o seu pé deixava-se esmagar ternamente pelos sapatos do adolescente.
Era uma fatalidade. Que se havia de fazer? Jacques tinha de ser a sota amorosa do amigo Arcanjo. Naquele ponto, como em nenhum outro, ficava mal. Num certo momento, afastou-se com ar discreto a ver um grupo que dançava o miudinho para as cocottes verem. Liana e Arcanjo tinham desaparecido sem dar por ele - o que acontecia a Arcanjo, do meio do jantar em diante, jantar que não comia aliás por ser vegetarista. Quando saíram da pensão da Fanga para o Club Incroyable a jogar, era uma hora da manhã. Liana ia vestida como se fosse para um grande baile, de luvas altas e decote, dissera a Jacques:
— Vieni domani...
Arcanjo fez parar o automóvel no meio do caminho, para voltar a casa. Iam numa alegria um pouco. ruidosa seis pessoas em quatro lugares. Jacques saltou também a um olhar imperioso e significativo de Godofredo. E os dous amigos caminharam a pé, pela Avenida deserta. Arcanjo ia fumando um havano.
— Felizardo!
— Eu?
— Com uma sorte destas.
Insensivelmente fez o elogio de Liana, que o outro pagaria e ele iria gozar. Era encantadora.
— Ora, já não estou no momento. Tu sim, menino...
— Eu? Sem dinheiro, preso por papai...
— Então a advocacia?
— Ora!
— Vens muito à casa da Zina?
— Algumas vezes. Olhe, você, Arcanjo, é que podia ajudar-me.
— Não fica mal aparecer por aqui algumas vezes?
— Creio que não. Era questão de você querer...
— Tinha um pedido a fazer-te.
— Qual? Também tenho o meu...
— Estás amanhã disponível?
— Pois claro.
Arcanjo hesitou um momento. Depois:
— Voltamos cá amanhã?
— Ah! seu maganão, gostou, hem? Pois sim, voltamos.
— E nada da Alice saber...
— Por quem me tomas tu?
Jacques estava digno. O marido aliviado indagou:
— E tu que queres?
— Imagina. Nem sei como diga. Recebi um pedido. Vocês votam sábado algumas pensões e algumas concessões. Há um projeto com prêmios para a exploração de fibras. Não me lembro bem.
— Sei. É um projeto feito de propósito para ser dado. Tem subvenção. É para desenvolver a indústria das fibras...
— O Grande Chefe é contra.
— Não sei, não. Eu voto com a bancada.
— Ora, se você quisesse, podia pedir para que a votação fosse favorável. Bastava ir ao Grande Chefe, que não negaria este obséquio de nada.
Arcanjo parou.
— Foi teu pai que te pediu isso?
— Não.
— Quem foi?
— Ninguém. Estávamos outro dia a conversar no chá. O Buonavita contou o caso, com outros. Lembrei-me de ti.
— E disseste o meu nome?
— Não. Por quem me tomas tu? Lembrei-me apenas. Creio que és meu amigo.
— Mas nisso ganha-se dinheiro.
Jacques ficou perturbado. Tirou a cigarreira, bateu o grosso cigarro sobre a cigarreira. A sua vontade era não ir adiante, não falar mais naquilo que o humilhava. Os dous homens continuaram calados algum tempo. Arcanjo sorria às recordações.
— Que espécie de gente, aqueles homens.
— É a vida de prazer - respondeu o rapaz bem-educado. E no seu elemento, podendo dar informações desagradáveis: - Não sei como eles podem viver gastando tanto! A vida custa cada vez mais cara! Também todos eles têm negócios, têm amigos. O Jorge está milionário. Não se sabe como, mas está...
— E a Fanga?...
— Hás de conhecê-la.
— Oh! não.
— Ora é da praxe e foi tu n'as pas froid aux yeux...
Arcanjo ficou satisfeito. À porta da casa, apertaram-se as mãos, fraternalmente.
— Então, que dizes ao meu pedido?
— Vamos a ver - fez o deputado esquivando-se, com a frase habitual de todos os políticos que se não querem comprometer.
Uma nova vida, entretanto, começava para ambos. Os homens mais sérios têm temporadas de vício. Arcanjo apanhara a sua febre. Era a primeira, a mais forte. Pela força das circunstâncias agarrou-se a Jacques. O lindo jovem foi o seu guia nesse inferno. Ambos assim enganavam Alice e Jacques ainda por cima fazia parte das partidas sem despender um real. Na quarta-feira, depois de se assegurar que Arcanjo estava no après-midi com a Liana foi a garçonnière do barão, mostrando-se preocupado. E contou a Alice os seus cuidados. Só Alice poderia vencer o marido, pedir mesmo ao Grande Chefe. Chegou a mentir, disse que D. Malvina estava interessada, era a principal interessada. Alice, que o beijava, prometeu. E nos dous dias que se seguiram, ele e Godofredo não largaram Arcanjo. O cronista não informara que, em seguida à assinatura presidencial, receberiam. Era pouco, porque havia espalhado muito dinheiro. Sempre servia, porém. No sábado fatal, não houve sessão, porque um deputado lembrou-se de morrer. A festa de caridade aproximava-se. E para Arcanjo a vida de prazer era estranha. Em vez de ir à Câmara, ia para a pensão de Fanga, onde almoçava com as cocottes e alguns íntimos. As cocottes desde o almoço bebiam, e já apareciam, posto que algumas em trajes leves, corretamente pintadas. No domingo, iniciaram as etapas clássicas da diversão: foram em dous automóveis cear à Mesa do Imperador, na Tijuca. Iam o Pimenta, Olegário, Jorge, o tenor, a Liana, a espanhola Concha e Marthe la Turque, dançarina da dança do ventre. Essas mulheres mais o tenor, logo depois da Muda, começaram a gritar, a fazer um barulho dos diabos. A ceia era oferecida por Jorge, que tinha gosto, hábito e mandara dous criados lá para cima, com um sortimento de frios, guloseimas, champagne e velas.
— Olá! olé! ché! - gania a Concha...
— É uma ceia neroniana - exclamava eruditamente Pimenta.
No deserto daquelas selvas embalsamadas, o luar estendia diluências argênteas. O contraste entre a paisagem e a exasperante corrida de homens de casaca e damas em grande toilette, incitava a cousas inéditas - dessas cousas inéditas que se praticam todos os dias. O homem de aço, que era Jorge de Araújo, comandava o pelotão. Arcanjo talvez não tivesse nenhum sentimento por Liana. A pequena, porém, tiranizava-o, aproveitando ocasiões para se deixar beijar e beijar Jacques. A ceia terminou às três da manhã na Gruta de Paulo e Virgínia, quando o tenor propôs que virassem todos faunos e ninfas.
No dia seguinte, Jacques, que não dormira, foi ao meio-dia buscar Arcanjo a casa. Arcanjo não estava. Nem Alice, que fora a uma reunião urgente das damas de caridade, ameaçadas de ficar sem o jardim, graças a uma reconsideração intempestiva do prefeito. E era o dia das votações, era o dia fatal...
— Talvez esteja na casa da Fanga...
Foi a pé, menos resolvido. Afinal, se tivesse que ser seu, era mesmo. Depois não adiantava nada correr. Para que correr? O que tem de ser, tem muita cousa. Na casa da Fanga, Arcanjo não estava. Com certeza, tinha ido votar. Ficou entretanto. Liana acabava de acordar e nos seus aposentos comprava objetos a uma velha francesa. Entrou, sentou-se numa vasta poltrona, deu conselhos, interessado com a velha, Mme. Monpalon.
— Uma senhora muito séria - disse a Liana, sentando-se na cama. Mme. Monpalon tinha setenta anos. Fora das primeiras no Rio e gastara loucamente, sem saber em quê. Uma noite, a eterizar-se, queimara-se com um fogareiro de espírito de vinho. Ficara, com o colo perdido, obrigada a não mostrá-lo. Viera a miséria e Mme. Monpalon foi dama de companhia de Huguette Lemaire, outra grande mulher. Huguette não amara nunca e sentia um prazer macabro em arruinar os contemporâneos. Mme. Monpalon, experiente, ia pondo de lado, na Caixa, pequenas quantias surripiadas ao estrago desenfreado. A Huguette nem olhava as outras mulheres. Desprezava-as. As outras vingavam-se com pragas.
Um belo dia, o mal terrível rebentou, deformando-a. Huguette estava imprestável e sem vintém. Então, Mme. Monpalon instalou a companheira num porão e foram gastando os dinheiros da Caixa, no porão. Os dinheiros acabaram. Ela fizera-se costureira nas pensions d'artistes, comerciando também em roupas, toilettes das mais de sorte às menos favorecidas, para sustentar-se a si e a Huguetre. Era uma doce velhinha. Vendia também remédios para conservar a cintura fina, a tez fresca e pomadas maravilhosas.
— A vida é dura, é muito dura...
Liana não comprou afinal nada. Ficou apenas com uma pomada que não pagou.
A velha fez a trouxa e retirou-se docemente. Vinha um cheiro de defumador horrível, do corredor. Era a Fanga que o defumava. Talvez por isso, do quarto pegado, uma tosse tremenda fez-se ouvir. Parecia que a criatura escarrava os pulmões. Liana ouviu a tosse com um vinco na testa.
— Quem é?
— É a Concha. Está a acordar mon p'tit. Sempre que se levanta tosse assim. Ninguém diz hem? Parece vender saúde. Pois usa flanelas e já aplicou óleo de cróton. Mas há quem goste. Um joalheiro milionário dá-lhe tudo o que ela pede
A Concha acabara de tossir. Ouvia-se distintamente que fazia a sua entrada Mme. Monpalon.
— Ché, vieja, espera un ratito.
Liana sorriu. Tinha esquecido a má impressão. Então saltou da cama, caiu nos braços de Jacques.
— Caro, carino.
— Espera, são três horas...
— Arcanjo viene alle quattro.
Jacques morria de sono. Ergueu-se a custo. Como fizera mal em não ter dormido! Depois uma cousa combinada... Estirou-se a fio comprido na cama, pensando nos acontecimentos. A rapariga olhava-o embevecida. E ele tinha os olhos cerrados.
— Sabes que te amo? - fez sacudindo-o.
— Sim, sim, como todas...
Na idade de Jacques os homens gostam das mulheres e não de uma mulher. Por isso, é o único momento em que os homens causam paixões. A pequena Liana estava junto dele, fremente. Não era desejo. Era um pouco de adoração pela graça estuante do efebo. Não lhe via nada de mal, nada de feio; via-lhe apenas a beleza, essa quente beleza, em que a fronte era lisa, sem preocupação e o sorriso garoto. Teria ele amado outra? Amaria naquele momento? Ela julgava ter lhe dado tudo quanto era possível - que era enganar outro homem seu amigo com ele, mas via bem que tal cometimento era aceito com indiferença.
A noite descabelada, o acordar mau, as histórias de Mme. Monpalon, a tosse de Concha, o defumador de Zina, reavivavam-lhe a própria e curta história da sua vida, em que estava sempre só no meio de uma porção de gente sem simpatia e de quem também não gostava. Tivera amantes sim, amara sim, e quantas vezes já, sempre contra a vontade! Mas no fundo do coração não guardava uma só recordação de ternura feliz, nem da mãe, nem do primeiro, nem dos outros. Com a maioria dos homens, sentia raiva, raiva que era um apetite de destruição, principalmente quando eles se mostravam seriamente apaixonados. Com Jacques, que nem lhe prestava atenção, media o horror do seu abismo.
— Querido!
Curvou-se, Jacques dormia vestido. Alisou-lhe a mão, grande e for-te, macia. Cheirou-a. Beijou-a. Alisou-lhe depois os cabelos. Beijou-o. O seu hálito! Parecia rosa, parecia o perfume de um ramo de rosas. Ela não o possuía aos vinte e cinco anos, senão depois de vários dentifrícios, de mastigar pastilhas, ela tão jovem e já dispéptica. E ninguém o tinha como Jacques... Tão lindo! Tão lindo... Aspirou longamente o seu hálito, insaciavelmente. Depois, ficou a olhá-lo. Dos negros cílios pendiam-lhe grossas lágrimas. Uma forte vontade de chorar sacudia-a. Nunca possuiria inteiramente seu, aquele ser delicioso. Nem outro de quem gostasse...
Mas, batiam à porta. Era de novo Mme. Monpalon.
— Minha filha, está lá embaixo l'onorevole...
— Já?
— Não acha conveniente?...
— Sim, sim, manda subir.
— Et monsieur? Mme. Concha poderia...
Liana acordou Jacques assoando-se. O jovem levantou-se de um pulo.
— Já. Ainda bem. Passo para onde? - fez habituado.
— Para o quarto da Concha. Ela é amiga.
Jacques desapareceu. Já Arcanjo dos Santos subia a escada. A curiosidade foi mais forte que a prudência. Jacques abriu a porta do quarto de Concha que fechara um instante antes, e bradou:
— Incorrigível!
— Tu aqui?
— Vim procurar-te.
— É boa.
— Palavra.
— Venho da Câmara.
— Votaram?
— Votamos - fez o outro rindo. E depois, batendo-lhe no ombro:
— Sempre conseguiu!
— Passou?
— Passou, passou. Agora é com o Senado. Também por que não me dizer logo que a mamã se interessava?
— Ah! soube? - indagou Jacques corando.
— Pois se ela falou, pessoalmente à Alice... Minha mulher já lhe foi dar a boa notícia. O Grande Chefe, de resto, não fazia questão. E agora nós - concluiu festeiro: - A Alice janta na tua casa e eu aproveito o pretexto da coligação para jantarmos no Leme. Serve?
— Apoiado.
— Então, até já...
Jacques fechou a porta, agarrou Concha, fê-la andar à roda, num contentamento louco.
— Bravo! Bravo! Bravo!
— Que tens tu?
— Consegui uma grande cousa.
— Aposto que foi o Arcanjo a arranjar - disse a espanhola filosófica.
— Foi, sim. Mas por que o dizes?
— Ché! Se tu o enganas pelos dous carrinhos!... É da vida.
E parou súbito, pondo uma toalha à boca. Vinha-lhe outra crise de tosse, e já não era hora de ter tosse
Era num jardim público, reservado a nobre exploração da caridade pública, em indeciso dia do mês de julho. Afinal, após quatro domingos de chuvas intempestivas, que tinham o mau gosto de começar sábado, a noite, para terminar ao anoitecer dos ditos domingos, realizava-se a grande festa em favor do Dispensário da Irmã Adelaide. O céu estava nublado. Um vento úmido soprava pelas árvores. Mas o longo reclamo dos jornais, a longa expectativa tinham de tal forma enervado a curiosidade, que um temporal desfeito não impediria uma grande venda de bilhetes sem resultado.
Pela manhã os portões do jardim não se abriram. Desde cedo começaram a estacionar em frente carroções trazendo o fornecimento para os botequins e os restaurants. Logo depois do portão havia uma armação de cetim vermelho, que dividia a entrada em dois, tapando a vista dos que passavam na rua. Ociosos, e gente do povo, os passageiros dos tramways paravam ou voltavam-se curiosamente. De cada lado do portão, por trás das grades, havia cubículos, onde eram vendidas entradas. Pregado a um venerável tamarinheiro irradiava um cartaz de três metros do mais brilhante caricaturista contemporâneo representando uma senhora elegante espalhando carinhos a pequenos famintos de pés grandes. E o cartaz, o tapume, os carroções, os carregadores que entravam, tudo indicava o inicio de um dia caritativamente mundano.
Mas que trabalho!
Os rapazes mais elegantes e mais dedicados tinham passado a noite no jardim, dirigindo os trabalhadores e numerando os presentes da grande tômbola, em número superior a dois mil. O Chagas com o seu bom gosto, o Dória e cinco ou seis do mesmo quilate encarregavam-se desse trabalho exaustivo. Havia no meio de tanta inutilidade dádivas de valor, até mesmo jóias. A ilustre Sra. Argemira de Melo e Sousa deixara o local às duas da madrugada. D. Malvina Pedreira tivera um começo de nevralgia, graças a um impertinente golpe de ar. As damas do comité, incansáveis, tinham saído pouco antes da Sr.ª Argemira. E para o fim da madrugada o programa fora definitivamente traçado; todas as bandas militares cedidas pelos comandantes dos corpos, barracas de doces, de buffet, de cartões postais, de flores, de chá, tenda de pitonisa croata, números infantis compostos de corridas a pé, corridas do copo d'água, corridas do ovo com prêmios, concurso de batéis enfeitados sobre os lagos, tômbola às cinco horas, baile ao ar livre no magnífico terraço, e a grande resistência: o teatro. O teatro era dividido em duas partes. Na primeira uma comédia de salão, escrita em francês pelo amador literário Gomensoro, e representada por três das mais distintas senhorinhas e o Belmiro Leão, cuja dicção parisiense era estupenda. A comédia intitulava-se discretamente Ohé! les petites! Depois: Etelvina Gomensoro, née d'Ataíde, em romances franceses; dois atores portugueses, comendadores de S. Tiago, que sabiam vestir casaca; versos de Musset, pela grande atriz francesa; a ária da Boêmia, pelo notável tenor Zenaro; as canções da Judic, pela atriz portuguesa. A noite, os fados portugueses, pela excepcional Etelvina Gomensoro e uma orquestra de bandolins de cem meninas (eram de fato oitenta e três), vestidas de branco, com uma fita azul a tiracolo. E, como fecho de ouro, os quadros vivos com projeções elétricas, em que figuravam Cristo e a Adúltera, A Samaritana e outros motivos santamente bíblicos.
Essa importante parte da festa era por inteiro obra de Godofredo de Alencar. Mas dera-lhe decerto menos trabalho diplomático que o arranjo das comissões das barracas à Sr.ª de Melo e Sousa. Nomeadas as chefes, com o desejo de não suscetibilizar ninguém quanto ao local, outra dificuldade surgiu, quanto às caixeiras, às vendedoras. Era preciso saber as relações das meninas, as zangas, as amizades. Uma das famílias - precisamente a família do médico milionário, que dera uma forte soma ao Dispensário - tinha tão má vontade das outras, que foi preciso juntá-la num lote a vender cartões postais autografados. Depois, se umas queriam vender doces e vinhos, outras achavam deprimente um tal mister, mesmo por brincadeira.
— São as que têm merceeiros na ascendência! - sentenciava a Muripinim, velha relíquia da monarquia, à velha Ataíde, esmaltada progenitora de Etelvina.
Uma palavra, de resto, bastava para desconcertar uma barraca, e muitas desistiram à última hora, retiradas pelos pais extremosos e pouco civilizados. Quando a Argemira viu a sua lista concluída ainda pensava que era mentira.
As barracas estavam, aliás, muito bem dispostas nas aléias, de emboscada as de flores e cartões; bem à vista as de doces e bebidas. Os números de teatro realizavam-se no próprio tablado junto ao botequim, cujo proprietário prometera, nos últimos momentos, fazer também funcionar o biógrafo nos intervalos da noite, - grátis. Aquelas damas arranjavam tudo grátis. Até o biógrafo.
D. Malvina apareceu no jardim, ás onze horas, julgando ser a primeira. Acompanhavam-na cinco criados. À porta já havia um esquadrão de polícia e uma turma de guardas-civis. No jardim, só uma barraca estava ocupada, a da esposa do médico com as suas respectivas filhas, moçoilas de uma fealdade esplêndida. D. Malvina concorrera com doces feitos em casa. Era a última abencerragem da nossa remota civilização patriarcal. Os grandes cestos que os criados traziam eram de bolos, balas e outras guloseimas familiares. Quando chegou ao buffet não havia nada arranjado. Apenas o Chagas e o filho dos Viscondes de Pereira tomavam vermouth, uma das garrafas oferecidas por conhecida casa comercial, que só oferecera por ser conhecida e solicitada e ter reclamos nos jornais - o que redundava em lucro para o seu negócio. Os dois mancebos estavam em mangas de camisa e desculparam-se vexados.
— Trabalhamos toda a noite!
— Estou que não posso! Mas venha ver, a senhora que tem gosto!
D. Malvina acompanhou-os ao lugar onde teria lugar a tômbola. Era uma azáfama. Meia dúzia de jovens trabalhava a gritar e havia brinquedos e coisinhas dependuradas em toda a volta.
— Vai ser um sucesso, D. Malvina.
— Se Deus quiser. Estou com medo da chuva. O povo tem medo. E até agora nem sombra de sol.
— Não chove, aposto - gritou o Dória. - Já intimei o sol a aparecer. A pouco e pouco, entretanto, iam chegando as senhoras encarregadas das barracas, fazendo os preparativos, "tomando conta", como aconselhava, D. Malvina. Ao meio-dia, já três bandas de música tinham aparecido, três só. Os rapazes que faziam parte da roda e tinham as famílias nas barracas, entravam naturalmente. Uma alegria ainda débil desabrochava com timidez nas aléias úmidas de chuva. As meninas riam na intimidade dos flirts, preparando-se. Era em tudo como nas caixas de teatro, antes do sinal de prevenção para o primeiro ato. A uma menos um quarto saltou de um coupé Godofredo de Alencar, acompanhando o tenor Zenaro. Fora o maior sacrifício da sua vida aproximar-se do tenor, conseguir a sua presença, ele, que odiava os tenores. Zenaro, quarentão com atitudes de efebo, as sobrancelhas avivadas a khol, hesitara, mostrara o seu enorme sacrifício, consentira na publicação do seu célebre nome nos programas, mas, como bom tenor, esperava a promessa de um cachet. Na véspera, desejara experimentar a voz no local, pedindo ao egrégio crítico a gentileza de acompanhá-lo. Godofredo fora buscá-lo. Zenaro queixara-se da umidade. Aceitou o coupé, depois de almoçar, e saltava com um ar de soberano de corte decadente.
— Não está ninguém.
— Estou eu...
— Digo que nenhuma das senhoras veio receber-me.
— Ainda é cedo.
Com a face fechada, o célebre tenor foi até ao botequim, fixou o tablado e exclamou:
— Mas é ali que eu vou cantar?
— Meu caro, você vai fazer uma obra de caridade. Ao seu lado comparecerão grandes artistas.
— Eles virão mesmo?
— Creio que vêm, mesmo porque está toda a sociedade metida na festa.
— Ah! Acho muito desabrigado. A voz perde-se.
— Qual! Experimente.
No momento em que Zenaro se dignava soltar uma nota de sua garganta-tesouro, um tramway passava na rua a toda a velocidade, guinchando as rodas na curva dos trilhos. Zenaro estacou.
— E os tramways param?
— Param - mentiu Godofredo.
— Bem. Então, se o tempo não me fizer mal, virei. Mandam-me buscar?
— Claro.
— É possível, é muito possível que venha. A questão é do tempo. E da minha saúde.
Depois pigarreou, olhou hostilmente aquele lamentável meio de café-cantante com cadeiras de folha e bandeirolas, estendeu a mão:
— A rivederci...
— Até logo.
Godofredo acompanhou-o até a porta, convencido de que o efebo quarentão não voltaria. Acompanhou com uma secreta vontade de sová-lo. A quantas humilhações descia inutilmente! Mas vingar-se-ia, anotaria pelos jornais a decadência daquele tenor de que com tempo perdido, se apaixonavam as mulheres.
Entretanto, na bilheteira o aplaudido cronista recebeu um embrulho e uma carta.
O embrulho eram os petits souvenirs para os artistas, carteirinhas vazias de cinco mil-réis. A carta era da grande atriz francesa, que se desculpava com uma terrível dor de cabeça, por não poder comparecer. A sua raiva secreta, aumentou. Que papel iria fazer? Talvez não viesse ninguém. Estavam os seus créditos de crítico a periclitar, a sua influência na perspectiva de se mostrar nula nos bastidores. Também com aquelas senhoras, que davam carteiras de tal ordem, e não vinham receber um tenor de fama mundial!
Era, porém, uma hora. Ouviu-se uma sineta que soava ao longe. Os portões abriram-se. Um magote de gente precipitou-se. No magote Argemira e Alice, apressadas, com o aspecto de quem falha a cena. Alice contrariada por não poder mostrar um estupendo vestido de rendas brancas, em virtude do tempo.
— Bom dia, diretor dos teatros.
— Então, choverá?
— Que chova a potes. Agora...
— Olha, noutra não me pegam.
Godofredo quis acompanhá-las. Mas o receio de fazer um fiasco, de outros artistas mandarem desculpas, fê-lo parar. Não teria uma festa, teria um dia de aborrecimento e preocupações. A banda de música rebentara a tocar. Ao magote curioso sucedera, entretanto, plena calmaria. Gente passava fora, olhando com desconfiança. Outros chegavam aos guichets da bilheteria e recuavam diante do preço. Os mais ousados, um, dois, de vez em quando, entravam meio acanhados. Eram na maioria gente domingueira, atraída pelos reclamos, mas prevenidos. Imediatamente partiam da feia barraca do médico cinco vendedoras de cartões postais, e da barraca de flores duas meninas armadas de cestinhas, com agonizantes espécies florais. Como não eram gente conhecida, essas meninas muito bem-educadas (quase todas em Sion, quando os pais tinham o alto posto, há tempo) tomavam uma atitude impertinentíssima, e ofereciam as flores ou os cartões, numa frieza de cartel de duelo. Os que entravam, ou esquivavam-se a balbuciar, ou aceitavam de vergonha. As meninas não davam troco e não diziam obrigado, amarrando a cara como se acabassem de receber uma ofensa. Uma delas correu a um sujeito gordo, cheio de brilhantes e malvestido.
— Qual, minha menina, não vou nisso - regougou ele. - Já comprei à porta...
A pequena ficou vermelha. A mãe chamou-a severa.
Godofredo mordia o castão da bengala, assistindo àquela lamentável cena de um bando de esnobinetas tolinhas. Contudo, acercou-se, concordou com elas, ouviu-as. Em ambas as barracas esperavam as boas relações, os conhecidos. As meninas tinham apostado a ver quem havia de fazer maior quantia e contavam com a generosidade dos amigos da família. Apenas. Podiam contar com os flirts. Os flirts, porém, eram grátis, e haviam de ter quantas flores desejassem sem despender vintém.
O dia continuava escuro. Mas, de repente, sem que ninguém esperasse, um raio de sol filtrou-se por entre as nuvens de chuva. Esse imprevisto fez as meninas das barracas soltarem exclamações de alegria, e a todos pareceu que era a vida vindo em auxílio da festa.
De novo recomeçou a entrada em massa. No elemento anônimo havia já personalidades conhecidas: três ou quatro deputados, dois membros do Supremo Tribunal, um grande construtor. Reporters novatos, armados de tiras e lápis, surgiam e iam perguntar a lista das diretoras das barracas. As senhoras gostavam muito de nome no jornal, mas não podiam dar a confiança de uma resposta amável. Eram muito delicadas para tal. Na barraca das feias, as meninas não responderam. Foi a mamã, seca de voz e gorda de corpo.
— Ponha: primeira barraca de cartões postais. Mme. Silva e suas filhas.
— Mesdemoiselles? - indagou o menino informador, esforçando-se por parecer elegante.
— Basta o que lhe disse - regougou Mme. Silva, como se falasse ao seu copeiro, ela que se dava com o dono do jornal de que o petiz era noticiarista.
— E tem vendido muito?
— O senhor não vê que começo agora?
— Desculpe V. Exa..
A feia dama dera delicadamente as costas ao pobre rapaz. Era imprensa! E que metediços! Ainda se fossem os donos do jornal...
Na outra barraca, na das flores, a mesma senhorinha a quem o homem abrilhantado respondera com grosseria, tomou um ar altivo e olhou a promessa jornalística como assombrada que um pequeno gazeteiro tivesse o topete de falar a pessoa da sua importância tão sem respeito. Foi preciso Godofredo prestar as informações. Um dos meninos dos jornais estava furioso.
— Que insolentes.
— É de família, filho.
— Como se chama aquela?
— Zuleika.
— Troco-lhe o nome.
— Fazes bem, porque ela adora o nome nas seções mundanas. É o único meio de seres cumprimentado amavelmente, e se o teu patrão não te puser no andar da rua a pedido do pai. Erra-lhe o nome sempre e passa por ela sem a saudar, encarando-a.