Desastre chama desastre, diz a sabedoria popular; como todas as outras coisas populares, foi a sua origem um austero filósofo, uma individualidade superior. Quando pela primeira vez essa individualidade emitiu a frase lapidar, os que o cercavam deviam ter ficado pasmos com a revelação. Depois repetiram, e repetiram tanto através das épocas que verdade tão poderosa chega a parecer mentira, e que a própria natureza faz o possível para contradizê-la. Assim no tempo da tragédia grega os desastres sucediam-se aos desastres. Era preciso que as famílias fossem até muito infelizes para dar tantos desastres aos poetas. Já no tempo do romantismo, o desastre é o desastre sem conseqüências, e finalmente o desastre, nos últimos tempos literários acabou tendo um epilogo, tendo a obrigação quase de um epílogo alegre. É que não há mais como no passado, grandes desgraçados. Ninguém mais acredita senão na felicidade e a felicidade é pelo menos um pouco de quem nela acredita.
Jacques era fatalista. Toda gente é fatalista à falta de ser outra coisa. O desastre do automóvel pareceu-lhe uma continuação do desastre moral com Godofredo, e uma espécie de aviso da Providência.
— Pára! Vê por onde vais! A morte espera-te de emboscada no prazer desenfreado! - dizia com fatos a Providência traduzindo a linguagem simples de D. Malvina Pedreira, digna progenitora de Jacques.
E o jovem acordara cedo, depois de ter dormido poucas horas, num estado de excessiva excitação nervosa. Quantas sensações e quantos horrores na noite anterior! O corpo de Antônio, o sangue, o trabalho para evitar que a policia tomasse o nome das senhoras, o ataque de nervos de Ada Pereira, a recondução das senhoras de carro, porque não queriam mais automóveis - tudo era como o pesadelo hórrido a lhe dizer: previne-te! Como alguns meses antes, deitado naquela mesma cama, após uma recepção de D. Malvina, Jacques sentia o caminho andado. Caminhara, alheara-se de todo da família, largara as amarras, e por pouco que pensasse, via quanto ocultamente, como a maioria dos mortais, apenas para os seus botões, se enxovalhara. Que diriam os jornais? Pela primeira vez. sentiu a necessidade de opinião da imprensa. Pediu ao criado os jornais. A opinião era péssima. Os reporters, os jornalistas, os trabalhadores anônimos daquelas folhas, obrigados indiretamente a servir a casta, a que ele pertencia e que os desprezava, vingavam-se quando havia ocasião, sempre. Jacques engoliu notícias melodramáticas cheias de perversidades, de ódios, de insinuações, de insolências. Eles eram os "indolentes", "aqueles que acreditam a vida dos outros nada", uns pândegos sem alma", "refinados ignorantes do grand-ton", "criminosos vulgares que graças a uma situação ocasional abusavam". Todos os diários começavam por um verdadeiro artigo sobre a continuidade dos desastres e era nesse assunto geral, um apelo à policia, que se incrustavam tão agradáveis epítetos. A narrativa do desastre cada gazeta contava-a de modo inteiramente diverso, mas em todos era de fazer chorar, porque os jornais vinham transbordantes de uma piedade imensa pelo motorista, o humilde, o do povo, sacrificado. Jacques leu que Antônio seguira em estado desesperador para a Santa Casa, e que lá, ao recobrar os sentidos segundos antes de morrer, só tivera para Jorge de Araújo que o acompanhava esta frase extraordinária:
— Perdão, patrão...
O próprio Jacques ficou comovido. E ficaria mais se não constatasse que todos os diários davam os nomes dele e dos seus amigos por extenso, só errando decerto propositalmente, no de Sfrapini que passava a Stradini. Mas, se eles apareciam, as senhoras salvavam-se. E os jornais asseguravam-nas três cocottes das mais estadas nesse mundo de vício e perdição...
— Safa! - exclamou o jovem pondo-se de pé.
Deixou os jornais, foi tomar um banho frio, voltou ao quarto resolvido a sair sem ver os progenitores. Se ficasse era fatal uma grande cena, e depois da cena as visitas que viriam ver os efeitos dos jornais. Vestia-se nervoso quando o criado lhe trouxe duas cartas: uma do deputado vegetarista felicitando-o por ter escapado, outra de Alice. Esta era louca. A encantadora senhora culpava-se de ser a causa de tudo, tinha expressões tais de dor que um momento Jacques teve a ilusão de que também estava ferido, e terminava exigindo que ele fosse vê-la só, só, pelo menos um instante, no ninho na casa do barão. Estaria às duas horas. Queria vê-lo. Fizesse a vontade.
Jacques precisava desabafar e não queria ouvir o pai ou a mãe ao almoço. Acabou de vestir-se com o mesmo cuidado de sempre e saiu pela porta dos fundos, diante dos criados que sabedores do desastre, sorriam com simpatia e cumplicidade. Já não era cedo. Passava muito de uma hora. Perdera tempo com os gazeteiros. À porta teve tempo de receber da Malperle um cartão: "Que horror e que prazer sabê-lo salvo!". Então despachou o chacareiro com um agradecimento e outro bilhete para Lina Monteiro e seguiu.
Entretanto Maria, a pequena corista portuguesa, que entrava para o ensaio no seu teatro ouviu o comentário feito ao desastre. Os jornais tinham-lhe dado tais proporções que até no teatro o caso se lera. Entre algumas prendas de que não fazia uso Maria colocava a leitura. Como ouvisse o nome de Jacques ficou perturbada.
— Jacques? Estava no desastre?
— Sim! É o amigo do Sr. Jorge.
— Ferido?
— Não se sabe!
Ela perdeu inteiramente a cabeça. Era preciso saber. Correu ao ensaiador, pediu que lhe desse uma licença e sem esperar resposta, saiu, meteu-se num trem de praça, mandou tocar para casa de Jacques. Não sabia o que havia de fazer. Apenas sentia uma grande aflição, um grande desejo de ver são, sem ferimentos, o seu homenzinho. E se estivesse ferido iria ao quarto, seria enfermeira, a mãe de Jacques perdoaria... Depois de tamanho desastre só em casa é que poderia estar o rapaz... E no carro, ao trote dos magros cavalos, Maria chorava. Quando o cocheiro parou, não se moveu. Chegando à porta, vinha-lhe o medo de bater na casa honrada, de pôr o seu desejo ao lado do amor de mãe.
— Como deve estar aflita a senhora mãe dele...
E ficou dentro da carruagem ansiada, à espreita, de ver sair alguém, para pedir informações. Que fazer, Senhor dos Passos? Viu que chegavam de instante a instante criados, que chegavam mesmo senhoras e cavalheiros. A sua aflição aumentou. Afinal descobriu o jardineiro, que também entrava.
— O homem, é daí?
— Sim, menina.
— Como está o Sr. Jacques?
— Ele vai bem; saiu há de haver quase uma hora.
— Saiu?
— Palavrinha. Por esta luz...
Maria ficou meio aliviada. Onde estaria o rapaz no dia seguinte a um desastre? Fez o carro voltar. E não tinha nada! Ah! Pequeno de sorte! Como antes chorara, ela agora ria só dentro do carro, e o carro descia a Beira-Mar precisamente no ponto em que outrora chamavam o Flamengo. Maria viu a garçonnière. E de repente veio-lhe um desejo. Quem sabe? Fez parar o cocheiro, saltou, bateu. A princípio devagar. Depois com força. A vizinhança, que tinha em péssima conta o prédio, começou a aparecer vagamente, por trás das janelas, aqui e ali. Um rapaz no segundo andar de certo prédio que parecia destinado a jovens estudantes, sorria, com o pijama por cima da pele. Maria, a pobre mulherzinha, achou que devia continuar a bater. Noutra ocasião ela bateria o dia inteiro em vão. Naquela, porém, infelizmente, as duas almas que lá estavam, estavam muito sobressaltadas para não responder. Jacques não podia ver de cima, estando as janelas hermeticamente fechadas. Desceu à porta, receando qualquer coisa de horrível. Já não tinha segurança, e contava com tudo como se assistisse a seu drama de Shakespeare. Ia espiar pela fresta, enquanto Alice no alto da escada já imagina Arcanjo, a polícia, o fim; quando Maria, agindo apenas para se dar ares, sem certeza alguma, disse de fora:
— Abre, sou eu!
E só quando falou-se é que distintamente ouviu haver alguém por trás da porta. Disse então mais alto:
— Abre!
Jacques temia o escândalo. Voltou ao alto da escada, branco, a ver se encontrava um meio de salvação. Alice, à voz da mulher, compreendera tudo. Veio-lhe, com a certeza, de que não era Arcanjo, uma grande calma. E ao mesmo tempo um desprezo subitâneo por Jacques.
— Até aqui! Não respeitaste nem este lugar!
Jacques estava irritadíssimo - principalmente porque vindo-lhe a extensão da responsabilidade não sabia como resolver os casos melindrosos. Assim, rouquejou:
— Alice, deixa-te de cenas! É uma criatura que me persegue. Há muito tempo.
— E sabe a nossa casa!
— Depois conto, depois explico. Por enquanto, é preciso escapar.
— Não lhe abras a porta, então.
— Ela grita; é ordinária.
— Oh! Jacques. Jacques! Tu...
Olharam-se, ambos sentindo-se culpados, arrependendo-se de várias e muitas coisas que não deviam ter feito, com que já agora era impossível modificar. A voz de Alice tinha uma tal dose de horror que no seu estado de superexcitação, ele, pela primeira vez julgou que devia defender alguém. E com exagero. Seria como se fosse ele próprio.
— Não, Alice. Não há perigo. Estou com o azar mas por mim não sofres nada... Esconde-te. É preciso. Esconde-te. Quando ela subir, sais...
— Que vergonha!
— Ninguém sabe...
— E a vizinhança?
— Não! Não...
À porta, Maria começava a bater freneticamente. Jacques fez um gesto decidido a tomar uma desforra, desceu, descerrou a porta. Maria, que esquecera completamente a causa primeira da sua intempestiva visita, entrou pela abertura exígua como um foguete de bomba.
— Tens cá uma mulher, cão!
Não teve tempo de continuar. Ele lançava-lhe um murro aos queixos. Era para lhe cortar a palavra e para irritá-la. Trepou pois os degraus berrando:
— Covarde! Rufião! Tens sim! Essa desavergonhada vai ver o que é bom.
Jacques, louco de raiva, seguiu-a agarrando-lhe as saias, largando estas para procurar-lhe os pulsos. Ambos subiam aos trancos, erguendo-se, escorregando, loucos de raiva. Como uma ventania, vieram ao salão.
— Quem te autorizou a vir aqui, animal?
— Fomente-se! Vim porque quis. Onde está a perdida?...
— Mulher, não há ninguém! Não me desesperes...
— Veremos.
Ela debatia-se, ele não a podia conter. Continuavam aos safanões, de roldão, ela à frente, ele no seu rastro. No quarto de dormir, onde o barão fizera uma orgia de bons amores cépticos, quase rolaram. Ele puxava-a. Ela desvencilhava-se. Foram de tal forma até ao quarto de banho. Então Jacques que julgava Alice aí escondida e presa do imenso receio de uma catástrofe, agarrou-a pelo braço. Ela ferrou-lhe uma enorme dentada na mão. Deu-lhe com o braço livre. Ela tombou.
— Parto-lhe a cara à fúfia! - berrou.
E como movida por uma mola pôs-se de pé. Então ele atirou-se, e enquanto a mantinha apertando-lhe o pescoço, com a outra mão livre começou a esmurrá-la. Era uma fúria de extraconsciência. Esmurrava escolhendo os lugares onde não se vissem sinais, esmurrava a cabeça e esmurrando a pequena amorosa que soltava uns surdos gritos estrangulados esmurrava Godofredo e os seus insultos, esmurrava a má vontade do pai, esmurrava os deuses culpados do desastre do automóvel, esmurrava a fatalidade menos boa. Via roxo, via tudo lívido, e dava, e continuava a bater a pobre mulherzinha amorosa, como um desafogo.
Mas de repente parou, distendeu os dedos, e o corpo de Maria caiu no soalho, onde as cadeiras haviam rolado. Diante dele, Alice dos Santos, lívida, com um olhar de pavor sem limite, assistia a cena que jamais poderia imaginar, assistia como uma lição. Quando viu o corpo da pobre rapariga por terra, pendeu para ela com infinita piedade.
— Quase a matas! Pobre! É preciso chamar o médico. Que vergonha, Jacques! Bater uma mulher...
— Foi por tua causa...
— Toma o vidro de sais. Dá-lhe a cheirar. Oh! Jacques! Jacques! Nunca pensei...
Depois envolveu-se no espesso véu e desceu. Estava séria. Tremia. Esquecera despedir-se do jovem amante. Os seus dois grandes olhos pareciam ansiosos por ver para além do quadro horrível. Entreabriu a porta. Estava lá à espera o carro de Maria. Meteu-se nele rápida, e antes de chegar a casa, tão perto, pagou ao cocheiro todas as horas em que a outra lá estivera sofrendo por Jacques. Um pouco revoltada contra o destino, a linda Alice via um reverso da vida inteiramente desagradável, e sentia, o mal de ter ido ao lugar d'amor com tal ânsia que recebeu o bom marido com um abraço e chorando...
Jacques, entretanto, mais apalermado, ficara a fazer cheirar o vidro de sais a pequena corista. Ao cabo de certo tempo viu que era preciso alargar os vestidos da pobre rapariga. Então levou-a para a cama, desapertou-lhe a saia, o corpete, soprou-lhe um bochecho d'água no rosto. Depois, como visse, que ela respirava, ajoelhou-se à borda da cama, animou-a. Ela abria os olhos.
— Desculpa, foi sem querer... Estou meio louco. Desde ontem! Muito assustado, muito... Deu-me uma raiva de repente... Não havia ninguém... Hoje, nem vi a mamã... Foi de nervos que aqui entrei...
A rapariga soluçava baixo ao som da voz querida. Jacques tinha uma larga voz de barítono um pouco velada, e que lhe dava qualquer coisa acariciador.
— Que dores na cabeça meu filho! que dores... Olha que foi só por ti, só para te ver que vim... Meu Senhor dos Passos como vai ser agora!
E a custo, malaxada, contundida, mas desgraçadamente feliz, Maria segurava aquela larga mão que a batera e beijava-a devagar, chorando. Jacques para desculpar-se, beijou-a na boca, e como das outras vezes, mais que nas outras vezes, como nunca, eles caíram em pleno gozo, gozando profundamente...
A Jacques, porém, aquela conclusão das pancadas - tal era o estado seu de nervos - não conseguiu acalmar. Ficou tendido como um arco, e largando a pequena mulher falou-lhe com intimidade, pedindo conselho:
— Que achas, Maria? Devo continuar? Devo voltar a casa? Tu sabes toda minha vida. Acabaste sabendo...
Ela era bem portuguesa. Respeitava os pais. Tinha o sagrado respeito da família. Disse que era muito feio não ouvir os pais. E que ele deveria ir logo beijar a mão à mãe, por ter escapado do desastre. Fosse logo. Ela ficaria ainda um pouco deitada. E quando fosse noite, iria só, batendo a porta... Dizia essas coisas rindo tão docemente que no riso se via a lágrima. Era como um fim, uma despedida. Eles sentiam que estava acabado, e ela ia satisfeita, tendo levado a parte do sacrifício, mulher, mulher como Jacques não tivera outra.
O mancebo concertou o desalinho. Estava ainda mais triste. A excitação de dois dias afrouxava num imenso e vago pavor de tudo, da vida, da alegria, do amor. Disse-lhe beijando-a:
— Até logo.
Ela olhou-o longamente.
— Adeus.
E ficou só, chorando. Ele saiu devagar, tomou uma das ruas transversais que vão dar ao Largo do Machado. A tarde morria meio escura. Quando chegou à esquina, viu que o trânsito era interrompido por um grande enterro. Já ia um pouco longe o coche carregado de grinaldas e mais três carros cheios de flores. Mas o acompanhamento era enorme - um acompanhamento interminável, de automóveis com as capotas arriadas, as lanternas acesas e os motoristas de cabeça descoberta. Poucos automóveis deviam ter ficado na praça. Era - Jacques não teve um instante de dúvida - o enterro do Antônio. O rapaz era querido, os jornais haviam exagerado de tal modo o lado sentimental que aquela sociedade fazia a sua apoteose na apoteose do morto humilde. Jacques nervosíssimo parecia ver o motorista com os seus vinte anos, o seu riso, o corpo forte na farda cor de lontra. Ficou à espera que o cortejo passasse. Quase no fim viu num carro, vestido de preto Jorge de Araújo, e a seu lado, também de preto o grande cronista Godofredo de Alencar. Como o carro parasse um instante, Jacques foi até lá, irresistivelmente.
— O pobre Antônio! Que desgraça!
— É - fez Jorge. - Morreu duas horas depois. O Godofredo arranjou para que se não fizesse a autópsia. Era melhor acabar logo. Depois para que deformar mais o pobre rapaz?
E de repente, esse homem frio, esse homem de aço, enquanto Godofredo olhava para outro lado fingindo não ver Jacques, esse homem acostou-se soluçando.
O carro pusera-se em marcha. O mancebo, humilhado e crispado de desagrados ficou até o fim. Aquilo era tão solene que parecia culpá-lo Sentia sobre si uma imensa e vaga culpa, a que sentem quantos não expiam pequenas faltas talvez. Quando não havia mais um só carro e os tramways retomavam o trânsito meteu-se num, recolheu a casa, e como, ao entrar na casa de jantar, na semi-escuridão da tarde a morrer, visse D. Malvina só, teve um arranco. Caiu-lhe nos braços, sujo de uma porção de misérias, soluçando.
— Mamã! Mamã!
A anafada senhora esperara-o o dia inteiro para dizer ao menino coisas tremendas. Mas ao seu soluçante, abraço logo começou de chorar procurando beijá-lo como se ele fosse um petiz. Porque dá-se o caso que as mulheres também são mães.
— Não! Já disse. Não saio! Não estou em casa!
O desastre do automóvel com a repercussão que no primeiro momento lhe haviam dado os jornais, fizera a partida quase imediata de Jorge de Araújo e de Teotônio Filho para a Europa. Jacques, que ficara em casa como um convalescente recebera de Jorge um curto bilhete de despedida e nem fora ao embarque. Soube que no mesmo vapor seguia a Liana, a quem Arcanjo presenteara como um deputado vegetariano e rico pode presentear quando está farto de uma dama. Não respondeu a um só bilhete de Liana. Passava os dias a dormir, aborrecido, com medo de sair e chegara ao extremo de conversar longamente com D. Argemira.
Aquele desagradável acidente chocara-o muito. Para temperamentos como o seu, fetiches, de uma incultura completa e universal, o desastre primeiro de catástrofes é que assombra. Todo homem amado pelas mulheres tem um pouco de mulher na alma. Jacques sofrera mais com aquela desorganização da sua vida do que sofreria talvez com a morte de uma pessoa da família. É que de fato ela saltara a grande vala, no sport, no negócio, no amor. Recomeçar a mesma existência seria perigosíssimo e para tal faltava-lhe a coragem. Enquanto as coisas corriam bem era capaz de todas as audácias e conseqüentemente de todas as inconveniências. Desde que os horizontes se fechavam, voltava a criança, precisava de proteção, tinha um medo vago.
Precisamente dez dias depois da catástrofe é que no seu quarto, de pijama, Jacques dava aquela resposta ao criado que trouxera um bilhete de Lina Monteiro. Oh! Era preciso acabar todas as antigas. Essa rapariga era mesmo a caipora. Depois de a ela mostrar afeto é que seu pai brigara, que fizera aquilo com o dinheiro, que tivera o desastre... No fundo via que só reaveria a boa vontade do Gomes Pedreira se largasse de todo Lina. E começava por julgá-la o azar. De resto não mantinha com as outras senão a mesma recusa insolente. Deixava de responder. Talvez porque não se sentisse bem com a pena na mão. Mas as outras criaturas que lhe tinham prestado atenção vinham a sua casa; e só Lina não vinha...
Quinze dias depois dos acontecimentos, saiu à noite. Vira nos jornais que a companhia portuguesa despedia-se. Maria deixara a garçonnière em ordem e nunca mais dera sinal de vida. Foi por isso vê-la, foi mesmo à caixa. Era um espetáculo entre palmas. Ninguém o conhecia. Como a peça era revista, as coristas mudavam a cada passo de fato. Entretanto a Maria logo que o avistou veio a ele, puxou-o, deu-lhe um longo beijo.
— Foi por mim que vieste?
— Foi.
— Meu bom... Partimos amanhã cedo. Hoje dorme na pensão o velho. Sabes que ainda me dói a cabeça. Mau...
— Então... - fez ele humilhado porque nunca pedira.
— Chegaste tarde. Quando voltar...
Tristemente Jacques voltou a casa. No dia seguinte não saiu. Como não tinha o que fazer pegou num volume de literatura que rolava na copa. Era a história das aventuras de um polícia chamado Nick Carter. O estilo e a imaginação do autor encantaram o cérebro difícil do jovem elegante. Conseguiu com o copeiro os outros inumeráveis volumes. E então regalou-se. Como contasse a Arcanjo amigo da casa as suas impressões, Arcanjo prometeu-lhe outros agentes e ladrões célebres cujas falcatruas também a ele divertiam. Trouxe. D. Malvina estava assombrada. Via seu filho ler e disso "deu parte a Justino, esposo e pai".
De resto, ao passo que com a leitura policial Jacques começava a ficar inquieto com as prováveis conseqüências do seu recibo ao Gomide, era evidente que D. Malvina recorrera a Mme. de Melo e Sousa e a Alice e que as três, mãe, amiga e já não amante conspiravam a seu favor.
Como? Que arranjariam essas três senhoras? Nunca o papel com o qual o Gomide podia na melhor ocasião desfazer todas as suas esperanças. Desde que cometera uma incorreção temia e respeitava a opinião pública. Assim, uma noite na sua casa, chamou Arcanjo.
— Então, depois de Liana, nenhuma outra? - indagou baixo do parlamentar.
— Não. Nem sei como foi aquilo. Ela não era tão boa.
— Oh! Arcanjo.
— Também não quero dizer que me arrependa. Afinal sempre tive um lucro.
— Qual?
— Verificar que a carne e o champagne não me fazem mal. De resto o Godofredo diz que tive outro: saber que o esperanto já era falado na casa de Fanga.
E ria. Jacques não se conteve.
— E o Godofredo, como vai?
— Parece que maravilhosamente. O ministro da Agricultura presenteou-o com uma pérola rosa que pertenceu ao Grão-Duque Miguel, no dia do seu aniversário. E comprou uma casa, ao que consta, nas Laranjeiras. Você também não sai? Que história é essa? Creio que não vai passar a vida inteira em casa.
— Não. Espero as fibras...
— Que fibras? Ah! sim... Ainda não resolveste isso? Sempre me parecia.
— É com o presidente agora...
— Então tens que esperar...
Ele ficou frio. O presidente frio não assinaria. E o recibo do Gomide? Na mesma noite, D. Malvina disse-lhe:
— Sabes que esteve cá a Argemira? Falamos de ti. Precisas ir amanhã almoçar com ela.
Jacques sorriu e foi dormir. Estava mais gordo. Dormia muito.
Com efeito Jacques ao acordar recebeu de Argemira um daqueles irresistíveis bilhetes, que para esse adolescente guloso da vida e de fraco refletir produziam sempre efeito decisivo. Jacques que acabava da ducha e de se fazer friccionar pelo copeiro, para fazer a reação da noite espessa, sentiu-se logo desejado ao receber o bilhete, em papel malva, caracteres finos e sutis. Decerto, a sua Egéria, a sua querida Egéria ia aconselhar-lhe um novo bem. Vestiu-se com apuro. Perfumou-se. Um instante hesitou: devia levar a gravata da cor da camisa ou em destaque como alguns dandies? Essas preocupações assaltavam-lhe a mente, sempre que ia ver a deliciosa Argemira, curiosa como, segundo o barão, uma pequena marquesa do século XVIII. Atribuiu o caso apenas à possibilidade de lá encontrar corações apaixonados. Mas, com o tempo via que aquela senhora, mãe de um rapaz mais velho do que ele, positivamente não lhe desagradava. Era como uma tapeçaria antiga que atrai. Era como não podia dizer- qualquer coisa de instintivo, que a travessura da sua luxúria criança desejava experimentar, sem conseqüências. Por que não? Jacques contava com a visita, imaginando a surpresa. Partiu sem um fim seguro. Partia sempre assim. A premeditação nunca seria uma causa a mais para a condenação dos seus crimes. Mas verificou que conservava aquela boca de morango úmido no lábio glabro, o peito forte, o cabelo repartido em risca, um perfume de água-da-colônia e de sabonete d'alface, à inglesa.
Mme. de Melo e Sousa estava no seu pequeno salão de atmosfera leitosa, vestida de branco, ensaiando a meia voz uma romanza inglesa, gosto que trouxera de Londres - versos ocos e música de Tosti.
— Oh! o desaparecido!
Estendeu-lhe as duas mãos com as suas duas pérolas uma cor de oiro, outra cor-de-rosa, e ficou assim, um tempo sentada, tendo-o de pé.
— Então agora é preciso um bilhete? Não há meio de o ver. Sabe que recebi carta de Gladys. Manda-lhe da Suíça uma edelweiss.
Jacques teve vontade de perguntar o que vinha a ser uma edelweiss, mas conteve a pergunta noutra pergunta:
— E a senhora?
— Eu, meu filho, por aqui...
As mãos despegaram-se, ficaram a olhar-se. Nos olhos de Argemira havia aquele favilar d'oiro dos momentos em que a sua malícia surgia.
— Que belo rapaz, hem? Forte, belo! E sedutor.
— Por quem é, minha conselheira...
— Não diga isso alto. Não diga nada alto.
— Por quê?
— Porque só as mentiras se dizem alto.
E imediatamente começou a falar alto do automobilismo de Jorge que acabara mal, do Arcanjo, que já não era vegetarista - por quê? - dos rapazes da roda que enveredavam no sport.
— O Suzel tem uma amante bonita.
— E insuportável. Está apaixonada por ele.
— E Bruno Sá?
— Outra também insuportável pelo mesmo motivo.
— É então do exercício? Só você...
— Eu agora ninguém...
— Sério?
— Sem a senhora não me atiro a essas coisas.
Evidentemente era um bom rapaz. Com os seus cinqüenta anos em flor, conservados em perfumes, aquela mulher de espírito, sentia uma complacência agradável em estar ali com ele, em satisfazê-lo, bem desejo vago de dar-lhe biscoutos e dar-lhe com beijo a deixar-se beijar e ralhar depois. Que garoto e que querubim!
— Criança!
— A senhora nem sabe como manda em mim. É mais forte do que eu.
— E se eu pedisse que você subisse para Petrópolis?
— Já?
— Parto amanhã. Tenho uma coisa muito agradável.
— Quem é?
— Não digo senão lá.
— É a... Ada Pereira.
— Ora a Ada.
— Diga quem é.
— O menino sabe que tem vinte e três anos, que precisa ser homem, perder essas curiosidades malsãs.
— É discurso?
Ela riu.
— Vai?
— Pois vou. Há muito tempo que não me aborreço.
— Obrigada...
— Não, não é pela senhora, a senhora, D. Argemira, tão boa, tão agradável...
Tomou-lhe a mão, beijou-lhe a pele fina. A mão conservou-se no seu lábio quase apagado a roçar, o que o fez molhar os lábios, ao apertá-los naquele beijo sentiu, sem querer aspirar o perfume, estender o braço, envolver uma cintura. Mas, a ilustre dama que um momento, pendera, recusou, sempre a sorrir, sem demonstrar perceber até onde tinham ido as cousas. Só o seu semblante resplandecia como se tivesse cheirado uma essência de vida. Jacques pôs-se de pé.
— Então o que é?
— É a sua carreira.
— A minha?...
— Sim, meu querido. Arranjamos as coisas. A Alice trabalhou muito junto ao general, o presidente prometeu a seu pai, e fez o possível junto do meu velho amigo o chanceler.
— Então é?
— A diplomacia - fez a ilustre dama erguendo-se. - Preciso ir ver a minha casa lá de cima. Estarei pois em Petrópolis. Tudo depende de tino, da maneira por que te hás de apresentar ao grande ministro. Ele é muito pela mocidade - hélas! - no que eu acho que faz bem. Mas é também muito das primeiras impressões. Tens uma bela figura e sabes ser amável.
— Oh! D. Argemira.
— Com oito dias de trabalho estás nomeado.
Depois, séria:
— Precisas sair daqui, por várias razões e principalmente porque a boa educação não se pode completar num meio tão estreito. Depois que profissão melhor para um rapaz fino, não achas?
— Nunca pensara.
— O que quero, é que venhas a dar um grande diplomata.
Almoçaram finamente, como só na casa de D. Argemira era possível almoçar. Jacques beijou-lhe a mão agradecidíssimo, e de lá saiu depois das duas horas.
Ainda na dúvida, porém, viu que precisava consultar alguém, além das mulheres. Godofredo era um inimigo ainda. Jorge estava fora. Só o barão, aquele curioso tipo que assistia a vida e que decerto devia ter sofrido muito para estar assim sempre só. Jacques consultou o relógio e tomou um automóvel. O barão devia estar na sua partida no CIub da Avenida. Foi lá buscá-lo. E, o encontrou à porta na ocasião em que entrava. O barão teve uma larga exclamação e fê-lo subir.
— Então, que há?
— Venho pedir-lhe um conselho.
— Coisa terrível. Os conselhos servem apenas para não serem seguidos.
— Trata-se da minha carreira.
O barão deixou a sala de jogo e levou-o para uma outra sala escura em que ao fundo se via um bilhar deserto. Era nesse apropriadíssimo local que o club fazia as suas anuais exposições, de pintura. Os raros visitantes que se atrevessem poderiam levar uma opinião preconcebida. Era possível ver o bilhar e talvez algumas poltronas. Quadros é que não. Precisamente havia uma exposição. Os dois homens em atmosfera tão superior, não se aperceberam disso. O barão sentou-se.
— Então? Reaparece...
— Ao contrário.
— É paixão então.
— É enfado, barão, estou farto de mulheres...
O barão estirou as pernas, sorriu com melancolia.
— Não digas mais tais coisas, meu pequeno Jacques. As mulheres são ainda o que conservamos de melhor. Já viste alguém que não fosse feito por uma mulher? Já não digo fisicamente. Falo da formação moral, social. Já viste um homem que não devesse o que é a uma ou a várias mulheres?... Ingênua criança! Mas também todos esses enfados vão-te bem. És belo e és jovem. As que primeiro te perderão serão as próprias mulheres. E assim tal qual és, feito para o amor das mulheres, quando tiveres a minha idade e estas barbas brancas, serás tão feito de amor das mulheres, de tantas lágrimas, de tantos desgostos, de tantos enganos que serás um aborto de felicidade.
— Mas barão...
— Exagero? É para que não tenhas dúvidas.
— E eu tenho, barão. A mãe e D. Argemira parece que me fazem diplomata.
— Só?
— Como só?
— É que podiam fazer-te logo embaixador.
— Então devo aceitar?
— Mas claro. A apostar que não são apenas as duas a interessarem-se? Parte quanto antes. É uma profissão, é a única profissão que te serve. Teu pai começava a estar seriamente incomodado. Depois um homem não é homem senão depois de conhecer a civilização.
Jacques ficou contentíssimo quando via um empenho unânime pela sua felicidade. Deixou o caro barão só à tarde, e ao chegar a casa comunicou a D. Malvina, com alvoroço.
— Sigo para Petrópolis, amanhã, de manhã.
— Então aceitas?
— Era o que eu queria, mãezinha.
Como a partida era no dia seguinte pela manhã, D. Malvina deixou de ir à recepção da Muripinim, encardida relíquia da monarquia, para presidir a arrumação das malas. No outro dia cedo levou-o até a Estação da Gamboa. Jacques subia para Petrópolis como se nunca lá tivesse estado. D. Malvina abraçou-o.
— Pedi por ti, a Nossa Senhora.
E agitou o lenço quando o comboio partiu. Jacques estava comovido. No wagon, apenas ia o viajado marido de Luísa Frias, que tinha casa no alto da Serra. O homem cumprimentara Mme. Gomes Pedreira com respeito. Teve a delicadeza de não perguntar por que Jacques subia ainda no inverno. Era uma conversa fascinadora. Palrava de viagem, de sport, contava anedotas.
Quantas vezes tinha estado em Paris? Viajara toda a Europa, estivera em Carlsbad com Eduardo VII, viajara com algumas senhoras do tom, falara com a Princesa Clementina da Bélgica, conhecia os vícios das duquesas, fora a uma reunião literária da Princesa de Rohan, apertara a mão de Orville Wright, freqüentara o appartment de Santos Dumont, esbanjara dinheiro nas estações da Riviera onde, as paisagens são quase tão bonitas como os cromos que as reproduzem; Lord Asquith interrogara-o em pessoa sobre o país do café, e a Cleo de Merode conversara com ele sobre as pérolas da falecida Wanda de Boneza. Era um homem internacional.
— Linda paisagem!
— A Suíça, já viajou à Suíça?
— Não.
— E nunca atravessou os países balcânicos?
— Francamente...
— Pois tem perdido.
Apesar dessa superioridade de viajante, a sua conversa encantava. Oh! as anedotas sobre a Réjane, o Anatole e de Max, os vícios do de Max.
— Cousas! Cousas civilizadas!...
— E quando volta?
— Pois não sabe? Tenho uma comissão, devo ir, estou até de passagem comprada.
— E por que não parte?
— Ora por quê! A senhora minha mãe que adoeceu gravemente.
— Ah! sim... meus sentimentos.
— Está desenganada.
— Oh!
— Não há mesmo esperança alguma, de salvá-la. Na derradeira conferência, tive que à última hora pedir à companhia o favor de me adiar a passagem. Eu ia no Araguaia...
Deu um profundo suspiro entre raivoso e triste. Depois, desabafando:
— Está para morrer. Morre mesmo. Mas a agonia não acaba, e eu afinal perco, não acha? Porque é impossível embarcar com uma pessoa da família assim. Que diria a boca do mundo?
Jacques sorria admirado desse homem. E saltou em Petrópolis com uma infinita vontade de partir, de também seguir para a Europa.
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