Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Alma Encantadora Das Ruas João Do Rio - Página 8  Voltar

Alma Encantadora das Ruas

João do Rio

O Dia das Visitas

A força de policia é aumentada. Quatro ou cinco guardas contêm a multidão ao lado do porteiro, que distribui os cartões. A onda dos visitantes cresce a cada momento, impaciente e tumultuosa. São 11 horas da manhã. O sol queima. Há no ar uma poeira sufocadora. O saguão está cheio, a calçada está cheia. Do outro lado da rua, doceiros, homens de refrescos, vendedores de frutas estabeleceram as caixas e as latas e mercadejam em alta voz.

Nas soleiras das portas, mulheres gordas à espera, criancinhas choramingas têm o semblante desolado e triste, mas há também sujeitos alegres, peralvilhos de calça balão mastigando tangerinas e rindo; há curiosos olhando a cena, como no espetáculo, e soldados, soldados da brigada, que passeiam gingando, com os tacões altos e o quepe do lado, por cima da pastinha; dois turcos vendem imagens de santos, botões, canivetes e fósforos; um italiano, que finge de cego, instala o realejo, e o filho começa a remoer velhos trechos de ópera, dolorosamente angustiosos. De vez em quando passa uma carroça ou um enterro, alastrando a rua de poeira. Mais ao longe, trabalham os condenados da correção na nova fachada, e cada passo que algum deles dá é logo acompanhado por dois policiais de carabinas embaladas.

O sol é esmagador, pesa como chumbo. Todos esses semblantes têm qualquer coisa de revoltado e de tímido, de desafio e medo. Percebe-se o terror das pessoas importantes e o desejo secreto de apedrejá-las, essa mistura antagônica que faz o respeito da ralé.

À porta da detenção, o movimento torna-se cada vez mais difícil e o rumor cresce. Vista de fora, na semi-sombra, a multidão tem um aspecto estranho e uniforme, parece um quadro violentamente espatulado pela mesma mão delirante. Os olhos raiados de sangue, alegres ou chorosos, têm um mesmo desejo – entrar; os corpos, corpos de mulheres, frágeis corpos de crianças, corpos musculosos de homens, uma só vontade – forçar a entrada; e todos os gestos, lentos, dificultosos, presos em encontrões de rancor, exprimem o mesmo anelo, que é o de entrar.

Há pragas, frases violentas, mãos que se agarram às roupas de outros, interjeições furiosas; e de dentro, do mistério do pátio da prisão, vem um clamor formidável e indistinto, que aquece e fustiga ainda mais o desejo de entrar e de ver. O porteiro, um senhor velho de cavaignac branco, distribui os cartões irritado e a suar.

– Não deixem passar sem cartão! Não entra ninguém sem cartão!

E os cartões, sebentos, passam das mãos dos guardas para mãos sôfregas dos visitantes, enquanto na porta de ferro, desesperadamente os que os obtiveram antes procuram entrar todos a um tempo. Um cheiro especial, misto de fartum de negros e de perfumes baratos, de suores de mulheres e de roupa suja, enerva, dá-nos visões de pesadelo, crispações de raiva.

Dentro, o pátio está limpo de serventes. Das janelas da secretaria, alguns funcionários deitam olhares distraídos. Duas filas de criaturas parece ligarem a porta de ferro aos dois portões das galerias. E nessas galerias o espetáculo é medonho. Dias antes, os presos contam as horas, à espera desse instante. Uns querem matar saudades, outros contam com os amigos para mandar vender as suas obras – flores de pão, couraçados de pau; outros escreveram toda a noite cartas anônimas ao chefe de polícia, denunciando companheiros ou inimigos, e anseiam por alguém para as pôr no correio; e todos, absolutamente todos, acicateados pelo egoísmo, esperam os presentes, o fumo, o dinheiro, as prendas, como uma obrigação dos que os vão ver. Os dois portões fecham-se antes de se abrirem os cubículos, e no corredor da grande galeria é um alarido, um desespero de jaula, com gritos, imprecações gargalhadas, perguntas, risos, o pandemônio das vozes, enquanto, como uma matilha de lobos, acuada, agarrando-se aos grossos varões, uns por cima outros, os assassinos, os incendiários, os estupradores, os desordeiros e os inocentes obrigados à infâmia numa confusão, arquejam na ânsia da liberdade. De fora, os visitantes não chegam às vezes a se fazer compreender, esmagados uns nos outros, irritados, sem poder apertar a mão dos amigos. São em geral homens de lenço de seda preta e chapéu mole, adolescentes arrastando as chinelas, mulheres perdidas, velhos trêmulos. No alarido, ouvem-se frases breves – Ó Juca, trouxeste os cigarros? – Ai, meu filho, que saudades do nosso tempo de cubículo! – Sabes quem foi preso ontem? – Vê se me arranjas um habeas com o Benjamim! – Estou aqui já há um mês e três dias! Fala por mim a seu Irineu! Algumas dessas palavras são vociferadas de longe. Os que tiveram a felicidade de chegar primeiro unem as mãos entre os ferros, falam devagar. Há amantes trêmulas, vendo o ciúme nos olhos dos detentos, há pobres esposas, há crianças e há velhos respeitáveis com a face triste, todos os sentimentos escachoando, borbulhando, barulhando naquele vórtice de desgraça.

Na outra galeria estão as mulheres. Essas só são visitadas por homens, os mesmos sujeitos de lencinho preto e calça balão, que às vezes visitam num só dia quatro e cinco amigos na detenção. As conversas são mais calmas. Algumas estão lá por causa dos que as visitam, por ciúme e pancadas. Têm quase todas esse sorriso estereotipado de resignação e amargura, dos infelizes que ainda não mediram a extensão da própria infâmia. Do outro lado, os homens parece estarem ali por obrigação. Só um eu vi, menino ainda, magro, tísico, com um olho afundado em pus, que segurava, como para se aquecer, a mão de uma pequena mulatinha. Ela conversava com outro, sem lhe dar atenção. Afinal, teve um sorriso de piedade.

– E tu, João?

– As voltas com o Zé-Maria. Nem você imagina como eu ando. Estou só esperando que você saia, para tirar um pensamento da cabeça...

E as suas mãos agarravam a mão da outra, num gesto de medo e de paixão.

O clamor continuava, fragorava como um oceano que se debatesse contra os altos muros brancos. O administrador já mandara ordem para dar fim à visita. Ainda havia os serventes e os abastados. De vez em quando, destoando dos casacos-sacos dos malandros, entrava uma sobrecasaca, algum advogado de porta de xadrez, a farejar a diária de petições de habeas-corpus, lambiscando delicadezas aos guardas.

– Há alguns desses sujeitos, dizem-me, que até já estiveram presos. E conheço um que, tendo contratado um habeas-corpus por trinta mil réis, não queria que o administrador soltasse o preso enquanto não o tivesse pago dessa importância.

A nossa atenção voltou-se, porém, para uma austera senhora que descia da secretaria gravemente, com um embrulho debaixo do braço.

– Não conhece? perguntou-me um dos guardas. É missionária protestante. Vem, naturalmente, pedir ao sr. capitão Meira Lima para falar aos presos. Antigamente vinha mais vezes. Ah! o senhor nem imagina o que os detentos faziam com ela. Eram troças, pilhérias, arremedavam-na na bochecha, diziam-lhe desaforos. Por último, sopravam-lhe nos olhos pimenta em pó, através das grades do cubículo. Ela continuou, impassível, a distribuir folhetos da religião, que o pessoal transforma em baralhos.

Tenho aqui um para o senhor. Venha cá. É preciso que ela não veja.

Vamos para o saguão. O guarda desdobra por trás da jarra Tiradentes, de Benedito Machado, um embrulho, e eu vejo valetes, ases e damas admiravelmente pintados em pedaços dos livros de edificação moral. Há mesmo um rei de paus que tem nas costas S. Paulo. E no pátio, a inglesa, na sua obra regeneradora, espera com calma que o administrador consinta em mais uma distribuição de folhetos, para o fabrico de futuros baralhos!

O clamor das galerias parecia diminuir, enquanto à porta do pátio havia o mesmo atropelo de pessoas, agora querendo sair. Os protestos prorrompiam entre frases de cólera surda e frases de deboche. Uma rapariga com o filhinho nos braços bradava: – Não volto mais! Não falei ao José. É impossível chegar perto da grade! – Contente-se comigo, dona! – A mulherzinha vinha com sede! – Ó Antônio, vamos tomar uma lambada! – Ih! menino, já quebrei água hoje como quê! E as vozes alçavam-se, cruzavam-se; faziam naquela porta, como a ornamentação da raiva e da sem-vergonhice um baixo-relevo vivo de entrada de penitenciária, enquanto, suando, bufando, com os cartões na mão, aquela gente – mulatos, pretos, italianos, portugueses, fúfias e rufiões, tristes mulheres e trabalhadores de fato endomingado – dava cotoveladas e empurrões, no desejo cada qual de sair em primeiro lugar.

Um sino pôs-se a tocar. Era o fim da visita. Os sons vibravam, duros, como uma ordem. Há sinos que choram, sinos que cantam, sinos que são tristes; há sinos feitos para dobrar a finados, como os há para cantar missas em ações de graça. Aquele sino era um aguilhão. O pátio esvaziava. A tropa partia, tropa desoladora, amiga do vício e do crime.

Foi então que eu vi aparecer, carregada de embrulhos, com a coifa branca a ondular as duas grandes asas, a figura de bondade da irmã Paula. O guarda tirara o boné, cheio de um carinhoso respeito. Os malandros e os desgraçados, ainda à porta, tinham nos olhos uma expressão de timidez e de alegria.

– Bonjour, meu filho, fez a irmã com um gesto cansado. O Sr. administrador? O guarda disse qualquer coisa, comovido. Ela arrumou embrulhos, enxugou as mãos, subiu as escadas da secretaria. A sua coifa alva parecia uma grande borboleta branca.

– É a única visita que consola os presos, é a única que eles respeitam, murmurava o guarda. Quando ela fala, tão simples e tão meiga, até as pedras parece quererem-lhe bem. Quando Jesus passou por este mundo, devia ter sido assim bom para todos os desgraçados.

De novo a coifa apareceu, borboleta de esperança adejando as grandes asas brancas e, como se fizesse a obra mais natural deste mundo, a irmã Paula disse:

– Vamos ver os desgraçadinhos. Trago-lhes hoje umas coisas. O Sr. administrador é muito bom, permite.

E assim, tocado pela sua presença, a mim me pareceu que o doloroso canto do jardim do crime se transformava no horto das rosas de que fala S. Tomás de Kempis...

Versos de Presos

O criminoso é um homem como outro qualquer. No primeiro momento, sob o pavor dos grandes muros de pedra, com um guarda que nos mostra os indivíduos como se mostrasse as feras de um domador, a impressão é esmagadora. Vê-se o crime, a ação tremenda ou infame; não se vê o homem sem o movimento anormal, que pôs à margem da vida. Quando a gente se habitua a vê-los e a falar-lhes todo o dia, o terror desaparece. Há sempre dois homens em cada detento – o que cometeu o crime e o atual, o preso. Os atuais são perfeitamente humanos, Só uma variedade da espécie causa sempre náuseas; os ladrões, os "punguistas", os "escrunchantes", porque dissimulam, mentem e têm, constante no riso e na palavra, um travo de cinismo. Os outros não. Conversam, contam fatos e pilhérias, arranjam o pretexto de ir lavar a roupa para apanhar um pouco de sol no lavadouro, são homens capazes até de sentimentos amáveis.

Ora, este país é essencialmente poético. Não há cidadão, mesmo maluco, que não tenha feito versos. Fazer versos é ter uma qualidade amável. Na detenção, abundam os bardos, os trovadores, os repentistas e os inspirados. São quase todos brasileiros ou portugueses, criados na malandragem da Saúde. A média poética é forte. Desordeiros perigosos, assassinos vulgares compõem quadras ardentes, e há poetas de todos os gêneros, desde os plagiários até os incompreensíveis. Não sei se a timidez ou outra razão mais obscura os faz assinar as composições poéticas apenas com as iniciais e quando muito com as iniciais precedidas do nome de batismo.

– Assine você o seu nome por extenso! dizia o guarda.

O poeta detento hesitava, punha as iniciais e, por baixo, entre parêntesis, escrevia o nome. As iniciais têm que vir fatalmente, são o complemento necessário ao fim da obra, Por quê? E misterioso, mas verdadeiro.

Os assuntos escolhidos pelas iniciais superiores da detenção abrangem todas as modalidades do sentir. Como há plagiários – o Antônio, crime de ferimentos, que se intitula autor da modinha Nasci para te Amar, – há simbolistas que escrevem coisas destas:

Pobre flor que mal nasceste, fatal
Foi a tua sorte, que o primeiro
Passo que deste com a morte deste.
Deixar-te é coisa triste. Cortar-te?
É coisa forte, pois deixar-te com vida
É deixar-te com a morte.

Há também poetas eróticos, o Chico Bentevi, autor do poema Os Amores de Carlos:

Chiquinha abriu sorrindo
A porta da sua alcova
E Carlos foi logo indo
Com a sede...

Uma sede excessiva! Há poetas descritivos, trovadores simples, cançonetístas ocasionais, todos com um sentimento insistente: são patriotas e sofrem injustiça porque nasceram brasileiros.

O preso Carlos, por exemplo, que se assina Carlos F. P. Nas suas trovas é insistente a preocupação de que está preso porque é brasileiro. Escolho na sua considerável obra poética uma modinha cheia de mágoas:

Meus senhores, venham ouvir
Do meu peito uma canção
Tirada por um condenado
Na casa de detenção.

Às mágoas segue-se o estribilho.

São martírios que se passam
Sofrendo profunda dor
Ser preso e condenado
Por vingança é um horror.

Se os martírios fossem enormes, era natural que o Petrarca novo não compusesse quadras; mas Carlos F. P. é feroz e continua:

Fui preso sem nenhum crime
Remetido para a detenção
Fui condenado a trinta anos
Oh! que dor de coração.

E surge afinal a preocupação, a idéia fixa:

Sou um triste brasileiro
Vítima de perseguição
Sou preso, sou condenado
Por ser filho da nação.

Há uma porção de modinhas neste gênero. A idéia constante aparece sempre, ou na primeira ou na última quadra.

Outro poeta, José Domingos Cidade, é descritivo. Como toda a gente sabe, o poema épico passou literalmente à cançoneta. Virgílio, Lucano, Voltaire e Luís de Camões, se vivessem hoje, decerto comporiam os trabalhos de Enéias, a Farsala, a Henriade e os feitios de Vasco da Gama com refrains ao fim dos versos de mais efeito.

Não há mais ninguém com coragem para ler um poema heróico, apesar de haver ainda neste mundo de contradições – heróis guerreiros. Só o povo, a massa ignara, ainda acha prazer em ver, em rimas, batalhas ou arruaças. José Domingos, no cubículo que o veda à admiração dos contemporâneos, escreveu Os Sucessos, cançoneta repinicada, para violão e cavaquinho.

Vejam o poder de descritiva de Domingos:

Dia quinze de novembro.
Antes de nascer o sol
Vi toda a cavalaria
De clavinote a tiracol.

Isso é incontestavelmente mais belo que o antigo e clássico começo épico: "Eu canto os feitos, ou as armas, ou as guerras civis", de todos os vates e de Lucano, que por sinal começa dizendo: "Eu canto as nossas guerras mais que civis nos campos de Ematia. . ." Cidade foi mais urbano, mais imediato: cantou a refrega civil da Rua da Passagem com exagero apenas. Na segunda quadra, a descrição é soluçante:

As pobres mães choravam
E gritavam por Jesus;
O culpado disso tudo
É o Dr. Osvaldo Cruz!

Quando o homem predestinado que se chama Osvaldo Cruz pensou que José Domingos o amarrasse ao papel de carrasco em plena detenção?

Para o fim, mesmo em verso, o autor é modesto e patriota:

O autor desta modinha
É um pobre sem dinheiro
Já não declaro-lhe o nome,
Sou patriota brasileiro.

Os companheiros do Prata Preta, pessoal da Saúde, são naturalmente repentistas, tocadores de violão, cabras de serestas e, antes de tudo, garotos, mesmo aos quarenta anos. O malandro brasileiro é o animal mais curioso do universo, pelas qualidades de indolência, de sensualidade, de riso, de vivacidade de espírito. As quadras pornográficas são em número extraordinário; as que exprimem paixão são constantes, posto que o malandro não as faça senão para ser admirado pelos outros e independente de amar quer senhora das suas relações. Um gatuno afirmou-me que a modinha A Cor Morena era de seu amigo. Na Cor Morena há este pensamento de um perfume oriental:

Fui condenado
Pela açucena
Por exaltar
A cor morena...

Onde se vê o bom humour dos presos é principalmente nas quadras sobre acontecimentos políticos. O guarda Antônio Barros, que se dava ao trabalho de acompanhar as minhas horas de penitenciária voluntária, forneceu-me as seguintes remetidas por um dos detentos:

Meus amigos e camaradas
As coisas não andam boas
Tomaram Porto-Artur
Na conhecida Gamboa

Logo o Cardoso de Castro
Ao seu Seabra foi falar
Para deportar desordeiros
Para o alto Juruá

Mas eu que não sou de ferro
Meu corpo colei com lacre
Que não gosto de chalaças
Lá nos borrachas do Acre.

O exibicionismo, o reclamo, a vaidade, estas coisas que enlouquecem Sarah Bernhardt e talvez a todos nós, enlouquecem também presos. Há a princípio uma hesitação. Depois, os documentos são abundantes. Ser poeta é ser alguma coisa mais do que preso, e um negralhão capoeira, um assassino como o Bueno ou o José do Senado, após o testemunho da rima, falam mais livremente e com maior franqueza. Em duas semanas de detenção colecionei versos para publicar um copioso cancioneiro da cadeia. Há poesias de todos os gêneros, desde o lundu sensual até à nênia chorosa.

Este lundu do famoso Carlos F. P. chega a ser comovente:

Céus...meus! por piedade
Tirai-me desta aflição!
Vós!... socorrei os meus filhos
Das garras da maldição!

E o estribilho mais amargo ainda:

São horas, são horas
São horas de teu embarque
Sinto não ver a partida
Dos desterrados do Acre.

O Dr. Melo Morais, que conhece os segredos do violão, deve decerto imaginar o efeito destas palavras, à noite, na escuridão com os bordões a vibrar até às estrelas do céu...

O Amor, de resto, inunda o verso detento. Há por todos os lados choros, soluços, lábios de coral, saudades, recordações, desesperos, rogos:

Não sejas tão inclemente,
Atende aos gemidos meus.

E um encontrei eu que me repetiu, com os olhos fechados, o seu último repente:

Se eu pudesse desfazer
Tudo aquilo que está feito,
Só assim teu coração
Não veria contrafeito.

Era um rapaz pálido, como os rapazes fatais nos romances de 1850, mas com uns biceps de lutador.

Quantos poetas perdidos para sempre, quanta rima destinada ao olvido da humanidade! Cheio de interesse, um papel que me caia nas mãos, com erros de ortografia, era para mim precioso. Mas afinal, um dia, ao sair da detenção com os bolsos cheios de quadras penitenciárias, remoendo frases de psicologia triste, encontrei no bonde um poeta dos novos, que, há vinte e cinco anos, ataca as escolas velhas.

– São uns animais! bradou ele, logo após um aperto de mão imperativo. Este país está todo errado. Há mais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos, ali, com castigos corporais uma vez por mês!

Mal sabia ele que a detenção já está cheia.

As Quatro Idéias Capitais dos Presos

Às vezes, numa volta pelo pátio, a conversar com Obed Cardoso, eu via o elegante Dr. Saturnino de Matos passar, como se fosse dar milho às pombas. E, se depois de admirar o Dr. Saturníno apontavam-me, enfiado no zuarte do estabelecimento, com o número de metal à cinta, um modesto gatuno ou um simples assassino cujo comportamento exemplar os transformava em serventes, eu deixava o gentil Obed e gozava o calão dessas interessantes flores de patifaria.

Há na detenção reincidentes exemplares e casos de psicologia curiosíssimos. O Sargento da Meia-Noite, ladrão temível, uma espécie de transformista da infâmia, é passar os umbrais do jardim onde descansa o crime, para se tornar um cordeiro artista, uma espécie de frade medievo. Recolhido ao cubículo, inaugura logo a sua arte de miolo de pão. Faz flores, bonecos, santos, animais; pinta-os, remira-os, manda-os vender. Parece regenerado. Todos sabem, entretanto, que, uma vez livre, o Sargento não resistira à tentação de invadir a casa alheia. Os "punguistas", inofensivos lá dentro, tão certos estão de continuar a roubar que o Braga Bexiga me dizia:

– No dia em que sair, tomo logo um bonde e limpo a primeira carteira.

– Mas é difícil.

– Para quem conhece a arte não há dificuldades. Eu trabalho desde criança e tive como professor o Zezinho.

– Vamos a ver esse trabalho.

– Se V. Sa me dá licença, eu vou tirar duas notas de duzentos que o sr. Obed pôs agora no bolso da calça.

Na outra extremidade da sala, Obed, sem que ninguém desse por isso, acabara de contar o seu dinheiro e de metê-lo no bolso da calça. Bexiga, trêmulo, com os olhinhos piscos, continuava ali a exercitar as suas criminosas observações. Capoeiras, assassinos, como Carlito e outros, reincidentes, condenados a trinta anos, exprimem a certeza de que continuarão lá fora a vida anterior. Carlito, mesmo, disse-me um dia:

– Deus aperta, mas não enforca!

Máxima muito mais profunda que quantas escritas pelo desfastio erudito do defunto Marquês de Maricá.

Os cientistas da penitenciária veriam nisso um problema a resolver, o problema de emendar o criminoso. Um, a quem eu contava o desplante dos recidivos, assegurou-me:

– É preciso aplicar o método inglês, as sentenças cumulativas, sistema de penas progressivas cuja duração é calculada pelo quociente das reincidências. Um preso condenado por ladroeira, se entrar outra vez pelo mesmo crime, tem a pena duplicada; se entrar terceira, triplicada, e assim por diante. Isto acabaria com a falha do código, o broquel de defesa dos gatunos, que nos seus artigos admiráveis tem a generalidade da pena para toda a sorte de escapatórias. Leia o dr. Monat, antigo diretor geral prisões na Índia; leia Baker, juiz de paz em Gloucester; leia Browne. As reincidências, eles o provam, diminuíram em toda a Inglaterra.

Outros perdiam-se em frases confusas, falando da necessidade urgente de reformar o nosso sistema de detenção, de pôr em ação os dois meios definitivos de corrigir: moralizar e intimidar. Eu achei mais interessante estudar as idéias e os estados da alma dos detentos.

A detenção tem idéias gerais. A primeira, a fundamental, definitiva, é a idéia monárquica. Com raríssimas exceções, que talvez não existam, todos os presos são radicalmente monarquistas. Passadores moeda falsa, incendiários, assassinos, gatunos, capoeiras, mulheres abjetas, são ferventes apóstolos da restauração. Não falam, não fazem meetings, não escrevem artigos como o Dr. Cândido de Oliveira ou o conselheiro Andrade Figueira – sentem intensamente, sem saber explicar a razão desse amor.

– É verdade; qual o governo que prefere? Eles riem, meio tímidos.

– Eu prefiro a monarquia.

– Por quê?

Sim! Por que malandros da Saúde, menores vagabundos, raparigas de vinte anos que não podem se recordar do passado regime, são monarquistas? Por que gatunos amestrados preferiam sua majestade ao dr. Rodrigues Alves? É um mistério que só poderá ter explicação no próprio sangue da raça, sangue cheio de revoltas e ao mesmo tempo servil; sangue ávido por gritar não pode! mas desejoso de ter a certeza de um senhor perpétuo.

O fato curioso é que para esta gente, de outro lado da sociedade, não basta pensar, é preciso trazer a marca das próprias opiniões no lombo. Raríssimos são os presos que na detenção não são tatuados; raros são aqueles que entre as tatuagens – lagartos, corações, sereias, estrelas – não têm no braço ou no peito a coroa imperial.

A outra idéia é a crença de Deus – uma verdadeira crise religiosa. Rezar, pedir a Deus a sua salvação, trazer bentinhos ao pescoço, ter entre os seus papéis imagens sagradas, não significa, de resto, regeneração.

Homens da espécie do Carlito ou do Cardosinho fazem o sinal da cruz ao levantar da cama para matar um homem horas depois; Serafim Bueno, um criminoso repugnante, tem uma fé surda no milagre e em Nosso Senhor; o Carrasco, gatuno torpe, treme quando se fala no castigo do céu – mas nenhum deles se regenera. Deus é apenas a salvação das suas patifarias na terra, e tanto é assim que não há desordeiro assassino em cuja mão direita não apontem, tatuadas, as cinco chagas de Cristo. Sabem a interpretação dada a este sinal?

A piedosa interpretação de que com a mão, ajudada por tão grande símbolo, não se atira à cara de um sujeito uma tapona sem que o contendor não caia ao chão!

Esses pobres entes são o normal. Há, entretanto, verdadeiras crises místicas como a desse convulsivo tratante Afonso Coelho. Afonso escreve diariamente cartas fervorosas de regeneração; reza, manda epístolas insultuosas a outros detentos, verberando-os porque a sua fé não é forte. Em todas as cartas há erros de ortografia lamentáveis e um sopro de milagre. Ao mesmo tempo, porém, Afonso Coelho esgaravata no pobre cérebro o meio de fugir. Arranja limas e corta varões de ferro. O administrador, atento, quando o trabalho está pronto, muda-o de cubículo. Vai ao tribunal e, em caminho, ainda na detenção, atira-se como um tigre, tentando escalar um portão. Os guardas têm que o puxar pelas pernas e lutar com ele, braço a braço. Traça planos de fuga, escreve indicações a amigos para abrirem portas num muro, combina fugas estranhas. O administrador guarda uma porção destas cartas, interceptadas por sua ordem. Ultimamente, visitado por um jornalista a quem dá a honra de falar, depois de discutir direitos, de meter os pés pelas mãos com a sua vaidosa mania de querer ser inteligente, acabou dizendo:

– Qual, meu amigo, já estou muito conhecido aqui. Se sair, embarco para a Europa. Lá o meio é maior.

E, cheio de doçura, enquanto desesperadamente a sua esperteza se arremete contra as grades preventivas, esse mesmo homem sonha com a Virgem, bate nos peitos e faz crer aos ingênuos ou aos interessados reformadores que é um santo no caminho de Damasco.

A terceira idéia quase obsessiva é a imprensa. Há os que têm medo de desprezá-la, há os que fingem desprezá-la, há os que a esperam aflitos. O jornal é a história diária da outra vida, cheia de sol e de liberdade; é o meio pelo qual sabem da prisão dos inimigos, do que pensa o mundo a seu respeito. Não há cubículo sem jornais. Um reporter é para essa gente inferior o poder independente, uma necessidade como a monarquia e o céu. Anunciar um reporter nas galerias é agitar loucamente os presos. Uns esticam papéis, provando inocência; outros bradam que as locais de jornais estavam erradas, outros escondem-se, receando ser conhecidos, e é um alarido de ronda infernal, uma ânsia de olhos, de clamores, de miséria... Os desordeiros acusados de ferimentos graves, com muitas mortes na consciência são, por sua natureza, vingativos e conhecem bem os reporters. E, entretanto, apesar das notícias cruéis, nunca nenhum se atreveu a tentar uma agressão. José do Senado pede:

– É com a imprensa que eu conto. O senhor foi cruel, porque não sabia...

Carlito teve, nesse dia, uma frase completa:

– Eu sei que foi o senhor o autor daquela descompostura contra mim, no jornal. Mas também estou vingado. Se não fosse eu, o sr. não escrevia tanto.

Os outros rojam, como as beatas nos altares dos santos impassíveis.

– Não fale de mim, seu reporter; deixe o meu nome sossegado, não fale!

E no dia seguinte percorrem, loucos, a folha para ver negrejar no papel poderoso a sua celebridade.

Há mesmo um preso, Antônio F., que me entregou um artigo de psicologia da imprensa. Antônio acha que, sendo o papel da imprensa educar os povos, ensinar os homens a serem até bons esposos, o nosso jornalismo é tudo quanto há de errado, de imbecil e de vazio. "Nada!" brada ele; "que aproveitam à nobreza, ou à plebe, estas banalidades! Nada! Que valem, portanto? Nada!... E nada, nada e nada milhões de vezes nada repercutia o eco do Prata ao Pará, se não corrigirem a grande força."

A quarta idéia, a última, é a idéia fixa, a idéia constante de todos os detentos – escapar, ficar livre, burlar a prisão, apanhar novamente a liberdade. Os reincidentes conhecem as coisas do foro tanto quanto com os advogados de porta de xadrez: sabem chicanas, artigos do código, contam os dias de prisão, fazem petições de habeas-corpus, assinam declarações de inocência de outros, para que outros assinem declarações idênticas, vivem numa tensão nervosa extraordinária. A religião, que lhes dá a esperança, o jornal, que lhes lembra a rua, acendem a labareda desse desejo, e é principalmente a idéia da liberdade que modifica o humor dos presos, que faz freqüentadas as solitárias, que os torna ora alegres, de uma extrema bondade, ora agitados e terrivelmente maus.

Esses quatro ideais da generalidade dos presos fizeram-me pensar num país dirigido por eles. Um rei perpétuo governaria os vassalos, por vontade de Deus. Os vassalos teriam a liberdade de cometer todos os desatinos, confiantes na proteção divina, e a imprensa continuaria impassível no seu louvável papel de fazer celebridades. Seria muito interessante? Seria quase a mesma coisa que os governos normais – apenas com diferença da polícia na cadeia, como medida de precaução. Tanto as idéias do povo são idênticas, quer seja ele criminoso quer seja honesto!

Mulheres Detentas

Quando entramos, algumas detentas lavavam a primeira sala, sob o olhar severo de um guarda.

– Tudo limpo?

– Saiba V. Sa que ainda não.

– Pois apresse, apresse estas mulheres.

O chão de pedra estava cheio de lama. A água suja escorria da soleira da sala em dois grossos fios e as mulheres, de saia arregaçada, com pulos estranhos, davam gritinhos estridentes. Um cheiro especial, esquisito, pairava naquela galeria batida de sol, em que os metais reluziam. Os guardas tinham a fisionomia fechada.

– Quantas presas?

Há atualmente cinqüenta e oito, divididas por três salas, uma das quais é enfermaria. À falta de lugares, a promiscuidade é ignóbil nesses compartimentos transformados em cubículos. A maioria das detentas, mulatas ou negras, fúfias da última classe, são reincidentes, alcoólicas e desordeiras. Olho as duas salas com as portas de par em par abertas e fico aterrado. Há caras vivas de mulatinhas com olhos libidinosos dos macacos, há olhos amortecidos de bode em faces balofas de aguardente, há perfis esqueléticos de antigas belezas de calçada, sorrisos estúpidos navalhando bocas desdentadas, rostos brancos de medo, beiços trêmulos, e no meio dessa caricatura do abismo as cabeças oleosas das negras, os narizes chatos, as carapinhas imundas das negras alcoólicas. Alguns desses entes, lembra-me tê-los visto noutra prisão, no pátio dos delírios, no hospício. É possível? Haverá loucas na detenção como há agitados e imbecis? O Dr. Afrânio Peixoto, o psiquiatra eminente, dissera-me uma vez, apontando o pátio do hospício, onde, presas de agitação, as negras corriam clamando horrores aos céus: – Há algumas que têm quatro e cinco entradas aqui. Saem, tornam a beber e voltam fatalmente.

As mulheres tinham corrido todas para os fundos das salas, casquinando risinhos de medo. Naquela tropa, as alcóolicas andavam trôpegas, erguendo as saias com um ar palerma. Indiquei ao guarda uma delas.

– Venha cá, gritou ele.

As mulheres agitaram-se. Eu? Sou eu? Seu guarda, posso ir? O guarda tornou a chamar a massa abjeta e foi quase empurrada pelas outras que ela veio, meio envergonhada.

– Quantas vezes esteve no hospício?

A negra olhou para nós. Os seus olhos amarelos, raiados de sangue, abriram-se num esforço e ela balbuciou.

– Duas, sim senhor.

O álcool ou a preparava para a tísica rápida ou, dias depois, atiraria írremissívelmente para o manicômio.

As outras criaturas, dotadas de curiosidade irresistível, tinham-se aproximado das portas entre risadinhas e cochichos depravados, e eu pude assim, com calma e tranqüilidade, apreciar e interrogar todas as flores de enxurrada, todas essas venenosas parasitas do amor torpe num campo perdido do jardim do crime. Essas mulheres estão na detenção por coisas fúteis, coisas que cometem diariamente até à cólera final dos inspetores tolerantes ou a vingança de algum soldadinho apaixonado.

São moradoras do morro da Favela, das ruelas próximas ao quartel general, dos becos que deságuam no Largo da Lapa, das Ruas da Conceição, S. Jorge e Núncio. Quase sempre brigavam por causa de uma "tentação" que tentava e pretendia satisfazer as duas. Outras atiraram-se à cara dos apaixonados num desespero de bebedeira.

– Saiba V. Sa que da outra vez que estive aqui foi por causa do inspetor. Eu tinha o meu bajoujo; o bobo cheio de "fobó" estava-se endireitando. Mas veio de carrinho. O diabo vingou-se!

E logo outra, apoplética:

– Cá comigo é nove. Não gosto de presepadas. Ele era um rodelista. Quando a gente gosta de um homem, gosta mesmo, nem que bata o trinta e um.

Falavam uma língua imprevista e curiosa, cuspinhando; e olhando as pobres coitadas, não sabia eu bem se falava a mulheres velhas ou a mulheres novas, de tal forma aquelas faces e aqueles corpos estavam arruinados. Perguntei a uma pardinha cujos dentes eram brancos e que devia Ter sido bonita:

– Como se chama?

– Quantos anos tem?

– Francisca Maria.

– Tenho vinte.

E estava havia cinco naquela vida de horror. E assim a Carmem da Rua Morais e Vale, e assim a Carmelina com uma navalhada na face, vibrada pela rival enquanto dormia, e assim a velha Rosa Maria à espera da liberdade apenas para continuar o seu fadário e voltar à detenção. Todas estão tatuadas, tatuadas nos seios, ombros, tatuadas nos braços, nas pernas, no ventre, tatuadas nas mãos, algumas até tatuadas na testa. Esses riscos azuis e essas manchas negras dão-lhes um aspecto bárbaro, um ar selvagem. Nenhuma decerto tem mais família ou amizades duradouras. A tatuagem para os seus pobres corações apodrecidos é como a exteriorização da saudade. Muitas têm, entre espadas, cristos, sereias, peixes, coroas imperiais, o nome dos que lhes deram o ser, o nome dos irmãos, o dos filhos perdidos e dos amantes que se foram: muitas, nas horas de solidão, têm na própria pele a recordação da eterna dor.

Cavalhada da luxúria, correndo nos recantos da cidade ao lado da morte e do assassinato, destinada aos fins trágicos da miséria, da sífilis ou do ciúme feroz, os seus próprios corpos são como o perpétuo símbolo das suas adorações, os altares onde se confundem todos os sentimentos. A cabocla Carmelina, uma das mais tatuadas, tem de tudo no corpo e até as falanges formam com iniciais o nome do irmão. Os braços, ela os dedicou ao amor. Há nomes e nomes, uns por cima dos outros, alguns apenas em iniciais, outros por extenso. Examinando esses dois braços de Vênus asquerosa, que com o mesmo delírio e a mesma alma apertaram na chama da paixão apaixonados diversos, o guarda perguntou, como quem quer decifrar um enigma:

– E qual destes é querido agora?

Carmelina esticou o braço esquerdo, e todos nós lemos, enquanto ela sorria, o nome de Narciso, com uma cedilha de mais por baixo do c. A criatura amava um Narciso, e decerto naquele momento aos seus olhos surgia a imagem desse seu deus temporário.

Eu porém já me nauseara, e Antônio Barros, chefe dos guardas, sempre solícito, levou-me à enfermaria, onde havia apenas três doentes –a Herculana assassina, a negrinha Gabriela do Pontes e uma pequena, feia, magra, olheirenta, espapaçada na cama como uma das múmias americanas que o museu guarda na sua seção de etnografia. Essa criaturinha tem quinze anos e parece ter mil. É dolorosamente irreal. Está condenada por crime de infanticídio. Matou o próprio filho ao nascer, mas antes devia ter matado outros, como matará os futuros com o seu olhar de círio perpetuamente ardendo na negridão das olheiras. Ao vê-la, lembra-se a gente das teorias dos criminalistas passados e principalmente das idéias de Maudsley sobre o crime e a loucura.

– Como te chamas?

– Olívia.

– Você não gosta das crianças?

Um gesto negativo de cabeça.

– Antes já procurara tomar remédios para abortar, não?

É uma pergunta sem razão de ser. A menina curva a cabeça e desata a chorar. Tudo quanto se lhe perguntar sobre o seu horror à maternidade, Olívia é incapaz de negar. Não deve estar nessa enfermaria de detenção, mas num dos pátios do hospício. E, encolhida, com os cabelos esparsos nos travesseiros, a pele ressequida como um pergaminho muito tempo esfregado por óleos bárbaros, essa infanticida de quinze anos arreganha a face num ricto de angústia como um cadáver de asteca ao ressurgir à face da terra.

Neste momento, porém, houve um rebuliço. Chegavam os presos da colônia de Dois Rios à disposição do chefe. Fora ouviam-se os rugidos de um negro abjeto, o Bronze, enleado numa camisola-de-força, esperneando, espumando. Dois outros adolescentes bem dispostos, de chinelos novos que sorriam perfeitamente contentes com a sorte, perfilavam-se ao longe entre os guardas.

Não tivemos tempo de chegar à janela. Pelo corredor vinham vindo três mulheres. Traziam toda a roupa de zuarte e um lenço cobrindo o crânio pelado. A primeira era magra, magríssima, tossindo a cada instante, com as mãos em cruz sobre o peito. De vez em quando parava e a sua face exprimia a horrenda e inexprimível dor de uma agonia sem fim. A segunda, apagada, com os braços abertos, parecia não sentir mais as pernas. A última, com uma face de burguesa honesta na miséria, tinha um ventre enorme, um ventre hidrópico, um ventre colossal. Os guardas iam-nas tocando.

– Eia! pra diante! eia!

As duas primeiras passaram sem ver, com o olhar insensível. A última parou.

– Não posso mais. Vim para fazer operação. Oh! o meu martírio! De qualquer forma, sr. guarda, eu morro, mas deixe-me ao menos morrer quando chegar a hora definitiva.

– Mas esta mulher é inteligente!

– Pois se até ensina a ler.

Aproximei-me:

– Ah! meu caro senhor, por piedade, peça ao ministro o meu perdão. Há três anos que sofro. O ódio de um inspetor, a falta de amigos e de proteção reduziram-me a este lamentável estado. Venho da colônia. Não me trataram como uma presa, trataram-me como uma pessoa digna de piedade. E apesar disso eu estou assim. Perdão para mim!

– E a senhora chama-se?

– Maria José Correia. Fui professora pública. .

Deus misericordioso! Que fatalidade sinistra arremessara aquele pobre ente inteligente, descendente de uma família honesta, à tropilha de uma colônia correcional? Que destino inclemente impele na sombra o homem, forma os vagalhões da popularidade, afoga uns, atira outros às estrelas e emaranha no dissabor e na tristeza a marcha do maior número? A essa mulher bastara perder o apoio da sociedade, para acabar no horizonte fechado de correcional todos os sonhos de ambição, todas as idéias felizes que os pais depositaram no seu espírito. Que lhe servia a visão superior do mundo na cloaca do crime e da luxúria? Que lhe servia ter ensinado às crianças o amor das coisas dignas, se o seu fim era acabar no eito da colônia, cavando a terra entre as desordeiras e as perdidas varridas da cidade?

Tomou-se uma espécie de medo, de fobia neurastênica. Recuei.

O guarda dizia:

– Deixa de lambança, Maria. Todos te conhecem. Saiba V. Sa que é popular nos quiosques da Estrada de Ferro Central. Vai às cinco da manhã, e só deixa de beber quando os quiosques fecham. Antigamente servia-se da barriga para dizer que estava grávida e ser bem tratada na delegacia. Agora não há mais disso. É uma alcoólica mais malcriada que qualquer outra.

A mulher calou-se. As outras tinham parado e de repente a tísica, a que tinha na face a expressão horrenda de uma agonia sem fim, caiu de joelhos soluçando.

– Se eu tivesse o meu perdão. Nossa Senhora! não morreria aqui! Se eu tivesse o meu perdão, eu ia morrer sossegada.

Fora o sol enchia todo o pátio de um esplendor de puro líquido

voltar123456789avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal