False Sphinx! False Sphinx! by reedy Styx
Old Charon, learning on his oar
Waits for my coin. Go thou before...
Ao chegar à praça Onze, tomamos por uma das ruas transversais, escura e lôbrega. Ventava.
- É aqui - murmurou cansado o nosso amigo, parando à porta de um sobrado de aparência duvidosa.
Havia oito dias já andávamos nós em peregrinação pelo baixo espiritismo. Ele, inteligente e esclarecido, dissera:
- Há pelo menos cem mil espíritas no Rio. É preciso, porém, não confundir o espiritismo verdadeiro com a exploração, com a falsidade, com a crendice ignorante. O espiritismo data de 1873 entre nós, da criação da Sociedade de Confúcio. Talvez de antes; data de umas curiosas sessões da casa do Dr. Melo Morais Pai, a bondade personificada, um homem que andava de calções e sapatos com fivelas de prata. Mas, desde esse tempo, a religião sofre da incompreensão de quase todos, substitui a feitiçaria e a magia.
Foi então que começamos ambos a percorrer os centros, os focos dessa tristeza.
O Rio está minado de casas espíritas, de pequenas salas misteriosas onde se exploram a morte e o desconhecido. Esta pacata cidade, que há 50 anos festejava apenas a corte celeste e tinha como supremo mistério a mandinga, o preto escravo, é hoje como Bizâncio, a cidade das cem religiões, lembra a Roma de Heliogábalo, onde todas as seitas e todas as crenças existiam. O espiritismo difundiu-se na populaça, enraizou-se, substituindo o bruxedo e a feitiçaria. Além dos raros grupos onde se procede com relativa honestidade, os desbriados e os velhacos são os seus agentes. Os médiuns exploram a credulidade, as sessões mascaram coisas torpes e de cada um desses viveiros de fetichismo a loucura brota e a histeria surge. Os ingênuos e os sinceros, que se julgam com qualidades de mediunidade, acabam presas de patifes com armazéns de cura para a exploração dos crédulos; e a velhacaria e a sem-vergonhice encobrem as chagas vivas com a capa santa do espiritualismo. Quando se começa a estudar esse mundo de desequilibrados, é como se vagarosamente se descesse um abismo torturante sem fundo.
A polícia sabe mais ou menos as casas dessa gente suspeita, mas não as observa, não as ataca, porque a maioria das autoridades têm medo e fé. Ainda há tempos, um delegado moço freqüentava a casa de um espírita da praia Formosa para se curar da sífilis. Se os delegados são assim apavorados do futuro, reduzindo a mentalidade à crença numa panacéia misteriosa, o pessoal subalterno delira.
- Veja você - disse-nos o amigo espírita -, toda a nossa religião resume-se nas palavras de Cristo à Samaritana: "Deus é espírito e em espírito quer ser adorado". Essa gente não compreende nada disso, maravilha-se apenas com a parte fenomenal, com a canalhice e a magia. É horrível. Os proprietários dos estabelecimentos de cura anímica a preço reduzido exploram; o povaréu vai todo, aliando as crendices do novo às bagagens antigas. São católicos ou perdidos a servirem-se dos espíritos como de um baralho de cartomante.
Com efeito, todas as casas em que entramos, estavam sempre cheias. Na maioria freqüentam-nas pessoas de baixa classe, mas se pudéssemos citar as senhoras, as damas do high-lífe que se arriscam até lá, a lista abrangeria talvez metade das criaturas radiosas que freqüentam as récitas do Lírico. Alguns desses lugares equívocos não são só engodos da credulidade, servem de máscaras a outras conveniências. A sessão fica na sala da frente, mas o resto da casa, com camas largas, é alugado por hora a alguns pares de irmãos. O médium, nesses momentos, deixa o estado sonambúlico para servir o freguês, e um centro espírita revestido de mistério, com o aparato das portas fechadas, dos passes e das velas acesas, transforma a crença, cuja oblata é a virtude máxima, numa nódoa de descaro sem nome.
Nós visitamos uns cinqüenta desses milhares de centros. A cidade está coalhada deles. Há em algumas ruas dois e três. Estivemos no Andaraí Grande, na rua Formosa, na estação do Rocha, na rua da Imperatriz, no morro do Pinto, na praia Formosa, no Engenho de Dentro, na rua Frei Caneca, na rua Francisco Eugênio, assistindo às sessões e ouvindo a vizinhança, que é sempre o termômetro da moralidade de qualquer casa.
Um pouco de ceticismo ou de simples crença basta para compreender a pulhice dessas pantomimas lúgubres.
Assim, há uma tropa de mulheres, a Galdina da rua da Alfândega, a negra Rosalina da rua da América, a Aquilina da rua do Cunha, a Amélia do Aragão, a Zizinha Viúva da rua Senhor de Matozinhos, a Augusta da rua Presidente Barroso, a Tomásia da rua Torres Homem, n.0 14, que estabelecem o comércio com consultas de 500 réis para cima e praticam coisas horrendas, abortos, violações a preço fixo e têm trabalhos em que são acompanhadas de secretárias; há espíritas ambulantes, como o negro Samuel, que já foi cozinheiro, mora na rua Senador Pompeu, n.0 157, e vai de casa em casa fazer passes; há mulatos pernósticos, o Zizinho da rua de S. Januário, o Claudino da rua de Santana, o Joãozinho da rua Sorocaba, com consultas noturnas; há portugueses como um tal Sr. Carneiro, da Praia Formosa, e o Simões, da rua Visconde de Itaúna, que exigem 20$000 por consulta e mandam os doentes comprar uma vela de cera e tomar um banho de cevada. Há de tudo, até sinetas, rapazes de passinho rebolado, que quando não prestam mais para o comércio público estabelecem-se nas ruas do meretrício com adivinhações espíritas!
E nesse complexo notam-se os centros familiares, uma porção de centros, alguns dos quais dão bailes mensais e, quando não são casas de fabricação de loucuras levando à histeria senhoras indefesas, servem para a mais desfaçada imoralidade e a mais ousada exploração.
No morro do Pinto a feitiçaria impera. Numa sala baixa, iluminada a querosene, assentam-se os fiéis, mulheres desgrenhadas, mulatinhas bamboleantes, negras de lenço na cabeça com o olhar alcoólico, homens de calças abombachadas, valentes com medo das almas do outro mundo, que ao sair dali ou ali mesmo não trepidariam em enfiar a faca nas entranhas do próximo. As luzes deixam sombras nos cantos sujos. No momento em que entramos, o médium, em chinelas, é presa de um tremor convulso. Diante do estrado, uma portuguesa, com o olhar de gazela assustada na face velutínea, espera. A pobre casou, o marido deu para beber e, desgraça da vida! bate-lhe de manhã, à noite, deixa-a derreada.
É a mãe dessa mulher que está dentro do médium. Todos tremem, de olhos arregalados.
De repente, o médium estarrece e por trás dos seus dentes, ouve-se uma voz de palhaço:
- Como estás, minha filha, vais bem?
- A mãe! A mãe! - murmura a portuguesita infeliz, aterrada, em meio o palpitante silêncio.
- Que deve fazer sua filha? - pergunta o evocador.
- Ter confiança em Deus. Eu devia estar no inferno. A misordia perdoou a mãe dela. Toda a desgraça vem de um bruxedo que puseram na soleira da porta.
- Quem foi? - faz a portuguesa, numa voz de medo.
- Uma mulata escura que gosta do seu homem. Ele vai ficar bom. Dê-lhe o remédio que eu receitar e crave um punhal no travesseiro três noites a fio.
Um homem magro, parecido com o general Quintino, faz uns passes; o médium volta a si num sorriso imbecil.
- Está satisfeita? - pergunta o espertalhão dos passes.
- A mãe! a pobre da mãe tão boa! A portuguesa rebenta num choro convulso; uma negra epilética, velha, esquálida, começa a gritar numa crise tremenda, enquanto o homem magro brada:
- Está com o espírito mau! Está mesmo!
Essas cenas sinistras são compensadas por outras mais alegres. Num dos nossos bairros, o médium dá sessões de manhã, evoca os espíritos para saber qual é o bicho que ganha e, como é vidente, vê os espíritos com formas de animais.
- É o burro, é o burro! - grita em estado sonambúlico, e a rodinha toda joga no burro.
No Andaraí Grande o curandeiro é divertido e bailarino. Em vésperas de S. João dá um bródio de estalo com ceia copiosa e vinhaça de primeira. Este tem a especialidade das mulheres baratas. A rua de S. Jorge, a da Conceição, a do Senhor dos Passos, a do Visconde de Itaúna lá extravasam a alma sentimental das meretrizes, dos soldados e dos rufiões. O nosso homem cura tudo: dartros, feridas más, constipações, amores mal retribuídos, ódios. É fantástico! As mulheres têm-lhe uma fé doida. O espiritismo para elas é o milagre, a intervenção dos espíritos junto de um poder superior. Antes de ir à consulta, ajoelham no oratório e vão com todos os seus bentinhos, as figas de Guiné, o espanta mau-olhado das negras minas. Mas o cavalheiro do Andaraí é sagrado. Toda essa fé emana, dizem, de uma sua predição feliz. Uma mulher que voltava da Misericórdia recebeu por seu intermédio comunicação de que seria honesta; e três meses depois um homem sério levou-a. A suburra do Rio venera-o, freqüenta-lhe as festas e sustenta-o.
- São infames. O lema do espírita é: sem caridade não há salvação. Seja a caridade deles. Quando não são isso, fazem das sessões, como o Torterolli, sessões de orgia pública... Não posso mais!
Afinal, naquela noite tínhamos resolvido acabar a travessia pelos bas-fonds da crença, com a alma entristecida pela visão de salas idênticas, onde o espiritismo substituía a bisca, os espíritos servem de feiticeiros e dão remédios para pescar amantes; das salas que, como na rua de S. Diogo, mascaram as casas de quartos por hora. A casa da rua transversal à praça Onze seria a última a visitar.
- Entre - disse o meu amigo.
Enfiamos por um corredor escuro, subimos. No patamar um bico de gás silvava, batido pelo vento da rua.
- Papai, dois homens - bradou uma voz de criança.
Logo apareceu, em mangas de camisa, um mulato de bigodes compridos, que se desmanchou em riso e amabilidades para o meu companheiro.
- A que devo as honras? - disse sibilando os ss.
- As honras - como diz - deve-as ali ao irmão. É um simpático que quer crer e anda, na dúvida, à procura da verdade. Que diz você da verdade?
- Verdade? Ora esta! Verdade é o espírito!
- Bravo!
Fomos entrando para a sala de jantar, com móveis de vinhático e garrafas por todos os aparadores.
- Nem de prepósito - fez o cabra. - O médium está ali proseando com a gente.
O médium é um tipo de hébèté, de quase cretino. Lourinho, de um louro de estopa, com a face cor de oca e as gengivas sem dentes, é carteiro de 2.ª classe dos Correios. Tem a farda suja e a gravata de lado. Durante todo o tempo em que o mulato nos conta as suas curas, ele sopra monossílabos e remexe a cabeça, dolorosamente, como se lhe estivessem enterrando alfinetes na nuca.
Um mal-estar nos invade, como o anúncio de uma grande desgraça.
- Há tipos que usam ervas para fingir que é espírito - diz o curandeiro. - Eu não; cá comigo é a verdade. Um desses oraras põe noz-vômica na água para os doentes lançarem e diz que é o espírito limpando lá dentro. Pecado! Apre! Eu agora tenho um doentinho. Veio-lhe uma febre de queimar. A mãe não tem quase dinheiro, mas não o gasta na farmácia. Eu o curo logo...
De repente parou. Pela escada subia um tropel, e uma mulher magra, lívida, aos soluços, entrou na sala.
- Então que há?
- O pequeno está mal, muito mal, revirando os olhos. Salve-mo! Salve-mo!
- É o tal que eu lhes dizia. Não se assuste, D. Aninha. Eu já lhe disse que o pequeno ficava bom; os espíritos querem. E para nós: venham ver.
Levou-nos ao terraço, ao fundo, mergulhou um litro vazio numa tina de água, encheu-o, colocou-o em cima da mesa.
- Durma, Zezé, durma!
E esfregou as mãos na cara do carteiro, subitamente em pranto. O homem revirava os olhos, sacudia a cabeça.
- É o espírito; veio, quer que seu filho fique bom... E de repente o diabólico começou a estender as mãos do carteiro choroso ao gargalo do litro.
- Não está vendo o espírito entrar? Olhe... No litro cheio bolhas de oxigênio subiam vagarosamente e a pobre mulher, agarrando a mesa, com os olhos já enxutos, seguia ansiada o milagre que lhe ia salvar o filho.
De repente, porém, uma voz estalou embaixo, na ventania:
- Mamãe! Mamãe! Depressa! Joãozinho está morrendo, Joãozinho morre!
Essas palavras produziram um tal choque que nós saímos desvairados, de roldão, com o mulato e a mulher, sentindo um travor de morte nos lábios, angustiados, lembrando-nos dessa criança que a inconsciência deixara morrer. E na ventania cortada de chuva, entre as variadas recordações dessa vida de oito dias horrendos pelos antros escuros onde viceja o espiritismo falso, a visão dessa criança perseguia-nos cruciantemente, como o remorso de um grande e infinito mal.
Ontem, 14 de Hadar de 1664, eu assisti às cerimônias do carnaval nas sinagogas da Sion fluminense. O esperto Mardocheu, que tudo conseguira com a perfumada beleza de Ester, ao comunicar de Suza a sua luminosa vitória, ordenara para todo o sempre diversões e alegria nesse dia. Os filhos de Israel obedecem e, como a pátria de Israel é o mundo, nenhuma cidade ainda sofreu por não festejar data tão preciosa. No Rio, também ontem, cerca de quatro mil famílias divertiram, riram e beberam. Divertiram com discrição, é certo, beberam sem violência, riram com calma, exatamente porque a gente do país de Judá tem a tristeza nalma e a tenacidade na vida.
As festas do peisan foram copiadas dos persas pelos romanos. Os povos modernos copiaram dos romanos, aumentando os dias de prazer e destruindo a intenção cultual da cerimônia. Quem assistiu à orgia continua dos batuques carnavalescos, talvez não possa compreender como cerca de dez mil judeus comemoram o 14 de Hadar, com tanta modéstia e tanta correção.
Esses dez mil judeus divertiram-se, trocaram presentes, cantaram, ouviram mais uma vez a história da linda Ester, lida pela hhasàn nos sagrados livros, e cada um recolheu um momento o espírito para pensar em Mardocheu, no rei Assuéro e na maneira por que 60 milhões de antepassados foram salvos da morte e do patíbulo.
Entretanto, pela vasta cidade, ninguém desconfiou que tanta gente tivesse a alegria nalma.
É que os olhos de Israel são receosos, sempre curvados ao sopro das perseguições, sempre sábios. Festejaram sem que ninguém desse por tal...
O Rio tem uma vasta colônia semita ligada à nossa vida econômica, presa ao alto comércio, com diferentes classes sem relações entre elas e diferentes ritos.
Há os judeus ricos, a colônia densa dos judeus armênios e a parte exótica; a gente ambígua, os centros onde o lenocínio, mulheres da vida airada e caftens, cresce e aumenta; há israelitas franceses, quase todos da Alsácia Lorena; marroquinos, russos, ingleses, turcos, árabes, que se dividem em seitas diversas, e há os Asknenazi comuns na Rússia, na Alemanha, na Áustria, os falachas da África, os rabbanitas, os Karaitas, que só admitem o Antigo Testamento, os argônicos e muitos outros.
Os semitas ricos não têm no Rio ligação com os humildes nem os protegem como em Paris e Londres os grandes banqueiros da força de Hirsch e dos Rottchilds. São todos negociantes, jogam na Bolsa, veraneiam em Petrópolis, vestem-se bem.
Muitos são joalheiros, com a arte de fazer brilhar mais as jóias e de serem amáveis. Franceses, ingleses, alemães, o culto desses cavalheiros apresentáveis e mundanos reveste-se de uma discrição absoluta. Uns praticam o culto íntimo, outros não precisam do hhasan e fazem juntos apenas as duas grandes cerimônias: a Ion-Kipur ou dia das lamentações e do perdão, e o ano novo ou Rasch-Haschana.
Algumas sinagogas já têm sido estabelecidas nas salas de prédios centrais para receber esses senhores. Atualmente não há nenhuma, estando na Europa quem mais se preocupava com isso.
As riquezas das nações estão nas mãos dos judeus, brada o anti-semita Drumont, ao vociferar os seus artigos. A nossa também está, não porém nas dos judeus daqui, que são apenas homens ricos bem instalados nos bancos e na vida.
O outro meio, extraordinariamente numeroso, é onde vicejam o vício e a inconsciência, os rufiões e as simples mulheres que fazem profissão do meretrício. Essa gente vem em grandes levas da Áustria, da Rússia, de Marselha, de Buenos Aires, e habita na maior parte na praça Tiradentes, nas ruas Luís de Camões, Tobias Barreto, Sete de Setembro, Espírito Santo, Senhor dos Passos e nas ruelas transversais à rua da Constituição. Comem quase todas numas pensões especiais dessas ruas equivocas, pensões sujas em que se reúnem homens e mulheres discutindo, bradando, gritando. O alarido é às vezes infernal, porque, quase sempre numa briga de casal, ela explorada por ele, todos intervêm, dão razão, estabelecem contendas. Nestas casas guardam não raro uma sala para costura e outra destinada à sinagoga.
Há mais mulheres do que homens. Os homens são inteligentes, espertos, sabem e explicam com clareza, as mulheres são profundamente ignorantes da própria crença. Quase nenhuma sabe a data exata das festas, a sua duração, a sua razão de ser. É interessante interrogá-las, gastar algumas horas visitando as alfurjas apartadas desta babel americana.
- Então vai à sinagoga?
- Oh! aqui não há nada direito; em Buenos Aires sim.
- Mas você vai sempre a estas reuniões?
- Vou. Então podia deixar de ir?
- Por que vai?
- Porque tenho que ir. Quando saio de casa, deixo uma vela acesa.
- Por quê?
- É costume.
- A festa do ano novo quantos dias dura?
Uma nos diz três dias, outra oito, outras respondem vagamente. Entretanto, russas, inglesas, francesas fazem questão de se dizer judias e obedecem á fé. No dia do Kipur, ou dia do perdão, do arrependimento e das lamentações, fecham-se os prostíbulos, todas elas vão às sinagogas improvisadas soluçar os pecados do ano inteiro, os pecados sem conta. Às 4 da tarde fazem uma refeição sem pão, sem carne e desde que no céu palpita a primeira estrela, até ao outro dia, quando de novo Lúcifer brilha, não se alimentam mais, limpas de todos os desejos e de todas as necessidades humanas.
Estes judeus reúnem-se em qualquer parte, o mais letrado lê a história no tópico necessário, e choram e riem ou cantam, conforme é necessário, crentes ignorantes. As sinagogas ambulantes estão cada ano numa rua. As últimas reuniões deram-se na rua do Espírito Santo, na rua da Constituição, e na rua do Hospício. É chefe do culto, dirigindo os convites e organizando as festas, uma meretriz, a Norma, que ultimamente introduziu no Rio o entôlage, o roubo aos fregueses.
A outra sociedade, a mais densa, é a dos armênios e dos marroquinos. Essa fez-se de grandes levas de imigração para o amanho de terra, em que o Brasil gastou muito dinheiro. Os agentes em Gibraltar aceitavam não só famílias como homens solteiros. As colônias não deram resultados; no Iguaçu os colonos fugiam aos poucos, e em outros lugares foi impossível estabelecê-los, porque o povo até os julgava com chifres de luz como Moisés.
Os judeus árabes apareceram por aqui na miséria, mas aos poucos, pela própria energia, tomaram o comércio ambulante, viraram camelots, montaram armarinhos e acabaram prosperando. Há ruas inteiras ocupadas por eles, naturalmente ligados aos turcos maometanos, aos gregos cismáticos e a outras religiões e ritos degenerados, que pululam nos quarteirões centrais.
Nas levas de imigrantes vieram homens inteligentes e cultos. O hhasan David Hornstein é um exemplo. Esse homem cursou doze anos a Universidade Talmúdica, é poliglota, professor, correspondente de vários jornais escritos em hebreu e rabino diplomado da religião judaica. David estava na Palestina, na colônia Rishon l'Sion, uma espécie de companhia que o falecido barão B. Rothschild instalara em terrenos comprados ao sultão, com grande ódio dos beduínos. Nessa colônia havia médicos, advogados, russos niilistas. O resultado foi a sublevação, que o amável barão, depois da morte do administrador, acabou, dispersando-os amotinados. Vinte e dois desses homens, entre os quais David e o erudito Kulekóf, que acabou rico em São Paulo, partiram para Beirute, depois para Paris. Hirsch deu-lhe 500 francos, fazendo um discurso camarário.
Os judeus revolucionários foram para Gibraltar e aí embarcaram para o Brasil. Todos acabaram com fortuna, menos o rabino, que ficou ensinando línguas, porque o sacerdote judeu não vive do seu culto.
E esta parte densa da colônia judaica que tem duas sinagogas estáveis, uma na rua Luís de Camões, 59 e outra na rua da Alfândega, 369.
A sinagoga da rua Luis de Camões é do rito argônico. Entra-se num corredor sujo, onde crianças brincam. Aos fundos fica a residência da família. Na sala da frente está o templo, que quase sempre tem camas e redes por todos os lados.
As tábuas de Moisés negrejam na parede; a um canto está o altar, e na extremidade oposta fica a arca onde se guarda a sagrada história, resumo de toda a ciência universal, escrita em pele de carneiro e enrolada em formidáveis rolos de carvalho. Só nos dias solenes se transforma o templo. David Hornstein faz as cerimônias no meio da sala, no altar, envolto na sua túnica branca riscada nas extremidades de vivos negros, com um gorro de veludo enterrado na cabeça. Muito míope, o hhasan é acompanhado por três pequenos que entoam o coro.
No altar David retira a capa de veludo roxo dos rolos, abre-os da esquerda para a direita. Ao lado guiam-lhe a leitura com uma mão de prata. Aí, imóvel, sem se mexer, faz a oração secreta para que Deus o atenda e o perdoe de ser enviado e ousar rogar pelo seu povo.
Jeová naturalmente atende e perdoa. O hhasan infatigável já tem desenhado cento e cinqüenta sepulturas, já praticou a circuncisão em cerca de setecentos pequenos, já batizou, mergulhando em três banhos consecutivos, muitas meninas, já casou muitos judeus e prospera falando dos nossos políticos e citando os deputados com familiaridade.
A sinagoga da rua da Alfândega é muito mais interessante. Ocupa todo o sobrado do prédio 363, que é vulgar e acanhado, como em geral os do fim daquela rua. Sobe-se uma escada íngreme, dá-se num corredor que tem na parede as tábuas de Moisés.
Aí vive outro Moisés, o hhasan, com uma face espanhola e um ar bondoso. Na sala de jantar estão as paredes ornadas de símbolos, representando as doze tribos de Judá, e aí passam Moisés, ela de lenço na cabeça, ele com um chapéu de palha velho.
A sala da frente é destinada às cerimônias. Quase não se pode a gente mover, tão cheia está de bancos. No meio colocam o altar de vinhático envernizado, em que o hhasan fica de pé lendo ou cantando.
Nas paredes apenas as tábuas, ao fundo a arca com cortinas de seda, onde se guarda o sagrado livro. Do teto pendem presos de correntes brancas vasos de vidros, cheios de água onde 1amparinas colossais queimam crepitando. Sobre o altar desce o lustre de cristal, chispando luzes nos seus múltiplos pingentes. Além de Moisés, há outro sacerdote, Salomão, tão devoto, que é o hhassidim...
Foi nesta sinagoga, indicada por um negro falacha, cuja origem vem dos tempos de Salomão e da rainha de Sabá, que eu assisti ao peisan.
- Oh! eles são bons e se protegem uns aos outros - dizia o negro assombroso. - A vida do judeu pobre é a do pouco comer, do pouco gozar, do muito sofrer. Agora, fizeram a Irmandade de Proteção Israelita.
Eu olhava a turba colorida, a série de perfis exóticos, de caras espanholas e árabes, de olhos luminosos brilhando à luz dos lampadários. Havia gente morena, gente clara; mulheres vestidas à moda hebraica de túnica e alpercata, mostrando os pés, homens de chapéus enterrados na cabeça, caras femininas de lenço amarrado na testa e crianças lindas. O hhasan, paramentado, lia solenemente e toda aquela esquisita iluminação de baldes de vidro, fazendo halos de luz e mergulhando na água translúcida as mechas das lamparinas, aquele lustre, onde as luzes ardiam, eram como uma visão de sonho estranho.
Enquanto o hhasan lia, com os pés juntos, sem mover sequer os olhos, com uma voz ácida tremendo no ar, todos tinham nas faces sorrisos de satisfação.
As cidades serão destruídas a ferro e fogo se não festejarem este dia no mês de Hadar. Nós festejamos. E diante das lâmpadas, para aquele punhado de judeus, a história desenrolava a maravilha de Assuero, que reinou desde a Índia até à Etiópia sobre cento e vinte cidades. Era Suza, a capital maravilhosa, Ester suave e cândida, substituindo a rainha Vashi, Mardocheu sentado à porta do templo sem adorar Aman, a quem Assuero tudo dava, Aman forçado a levar Mardocheu em triunfo, tudo por causa de uma mulher trêmula e tímida, que desmaiava, salvando 60 milhões de judeus e mandava matar quinhentos inimigos, pedindo concessões idênticas para as províncias.
Era a data dessa matança; festejava-se o dia em que Aman foi para o patíbulo que preparara para Mardocheu, e o momento em que se espatifara Arisai Frasandata, Delfon, Ebata, Forata, Adalia, Aridata, Fermesta, Aridai e Jerata.
Mas daquele livro sagrado, entre aquelas iluminações, a fé destilava a suprema delícia. Era como se cada palavra recordasse os banquetes dados aos príncipes nos átrios do palácio ornado de pavilhões da cor do céu da cor do jacinto e da cor da açucena; era como se cada período abrisse a visão das colunas de mármore, dos leitos de prata e ouro e dos pavimentos embutidos, onde esmeraldas rolavam...
Nós estávamos apenas numa sala estreita que fingia de sinagoga, no fim da rua da Alfândega.
Fonte: www.dominiopublico.gov.br