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João do Rio

Paulo Barreto (João P. Emílio Cristóvão dos Santos Coelho B.; pseudônimo literário: João do Rio), jornalista, cronista, contista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de agosto de 1881, e faleceu na mesma cidade em 23 de junho de 1921. Eleito em 7 de maio de 1910 para a Cadeira n. 26, na sucessão de Guimarães Passos, foi recebido em 12 de agosto de 1910, pelo acadêmico Coelho Neto.

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João do Rio

Era filho de educador Alfredo Coelho Barreto e de Florência Cristóvão dos Santos Barreto. Adepto do Positivismo, o pai fez batizar o filho na igreja positivista, esperando que o pequeno Paulo viesse a seguir os passos de Teixeira Mendes. Mas Paulo Barreto jamais levaria a sério a igreja comtista, nem qualquer outra, a não ser como tema de reportagem. Fez os estudos elementares e de humanidades com o pai. Aos 16 anos, ingressou na imprensa. Em 1918, estava no jornal Cidade do Rio, ao lado de José do Patrocínio e o seu grupo de colaboradores. Surgiu então o pseudônimo de João do Rio, com o qual se consagraria literariamente. Seguiram-se outras redações de jornais, e João do Rio se notabilizou como o primeiro homem da imprensa brasileira a ter o senso da reportagem moderna. Começou a publicar suas grandes reportagens, que tanto sucesso obtiveram no Rio e em todo o Brasil, entre as quais "As religiões no Rio" e inquérito "Momento literário", ambos reunidos depois em livros ainda hoje de leitura proveitosa, sobretudo o segundo, pois constitui excelente fonte de informações acerca do movimento literário do final do século XIX no Brasil.

Nos diversos jornais em que trabalhou, granjeou enorme popularidade, sagrando-se como o maior jornalista de seu tempo. Usou vários pseudônimos, além de João do Rio, destacando-se: Claude, Caran d’ache, Joe, José Antônio José. Como homem de letras, deixou obras de valor, sobretudo como cronista. Foi o criador da crônica social moderna. Como teatrólogo, teve grande êxito a sua peça A bela madame Vargas, representada pela primeira vez em 22 de outubro de 1912, no Teatro Municipal. Deixou obra vasta, mas efêmera, que de modo algum corresponde à imensa popularidade que desfrutou em vida. Ao falecer, era diretor do diário A Pátria, que fundara em 1920. No seu último "Bilhete" (seção diária que mantinha naquele jornal), escreveu: "Eu apostaria a minha vida (dois anos ainda, se houver muito cuidado, segundo o Rocha Vaz, o Austregésilo, o Guilherme Moura Costa e outras sumidades)..." Seu prognóstico ainda era otimista, pois não lhe restavam mais que alguns minutos quando escreveu aquelas palavras. Seu corpo ficou na redação de A Pátria, exposto à visitação pública. o enterro realizou-se com cortejo de cerca de cem mil pessoas. Na Academia, que então ficava no Silogeu Brasileiro, na praia da Lapa, disse-lhe o discurso de adeus Carlos de Laet.

Obras

Fonte: www.academia.org.br

João do Rio

"Uma noticia desoladoramente triste veiu surprehender, hontem, á noite, quantos trabalhavam nesta casa - o passamento de João Paulo Barreto, ou melhor "João do Rio", pseudonymo com que se fez na literatura nacional e que o levou, afinal á Academia de Letras.

A vida de Paulo Barreto na imprensa carioca pode servir modelo aos que se dedicam á rude profissão de escrever para o publico - ella foi uma serie longa de victorias, que grangearam para elle um justo renome.

Estreando na "Cidade do Rio", onde pontificava Patrocinio, foi ao lado desse grande mestre do jornalismo e de collegas como Guimarães Pessoa, Bilac e outros, que Paulo Barreto se revelou o jornalista, por excellencia, começando a organização das notas de reportagem, que foram compor o seu primeiro livro, "As Religiões no Rio", que appareceu sob os applausos da critica e fez sucesso de livraria.

A maneira por que o seu primeiro trabalho foi recebido estimulando-o, e dahi em deante, as obras de Paulo Barreto entraram de apparecer qual a mais bem recebida pela critica, ainda mais a dos mais severos commentadores.

E registraram-se mais a "Alma Encantadora das Ruas", "O Cinematographo", a "Mulher e o Espelho", e outros trabalhos que apresentaram o autor como um typo fino de observador. Além das obras de sua autoria, Paulo Barreto trouxe para o vernaculo a "Salomé", de Oscar Wilde.

João do Rio, que era um artista, tambem escreveu para o teatro, desde o genero brejeiro "Chique-chique", até á comedia como a "Bella Mme. Vargas", que foi recebida com applausos pelos amantes da arte. Póde-se dizer a "Bella Mme. Vargas" é a comedia pr excellencia escripta no Brazil por autor brazileiro.

Na litteratura propriamente dita, não foi só nos volumes que deixou, bem assignalados, traços indeleveis da sua passagem. Tambem nos jornais, notadamente n' "O Paiz", elle collaborou ora como literato, na columna de honra, ora como chronista, ora como jornalista propriamente dito, discutindo ou commentando os assumptos com elevação e grande illustração.

Ha pouco tempo, após uma viagem que fizera á Europa, aqui chegado emprehendeu o morto de hontem a fundação de um jornal, o que conseguiu, montando o nosso collega "A Patria", do qual era seu director. (...)" A Razão, 24 de junho de 1921.

"O passamento de Paulo Barreto, occorrido hontem á noite, foi uma surpreza que impressionou profundamente o meio espiritual, as camadas litteraria e jornalistica, prolongando-se essa impressão a todas as rodas sociaes, onde essa individualidade, que o era, tinha um realce de admiração e de estima. E esse destaque bem frisante surge evidenciado, precisamente pela unanimidade das revelações de pezar ante o desapparecimento do litterato, do jornalista e do homem, mórmente deste, que não podendo escapar á fragilidade da perfeição humana, se tinha defeitos, bem os recompensava com o seu nucleo de virtudes. (...)

Mas a sua feição saliente nas letras era o jornalismo, a sua espiritualidade pendia muito mais, e com relevo de valor, na columna do jornal, do que na pagina do livro; naquella elle era o jornalista completo, tudo fazendo com a mais cabal proficiencia, não lhe escapando a minima "ficelle" do mais simples facto tirando o preciso para o salientar, vibrar a pequena nota ou espiritualizar um "suelto", encher uma columna de chronica com actualidade de comentario e "verve" de narrativa.

A sua primeira prova de jornalista elle a deu, cabal, na celebre reportagem sobre as differentes religiões no Rio, que valeram á "Gazeta de Notícias" um bom renascimento de popularidade.

Paulo Barreto tinha pelo jornalismo uma affeição extrema, era a sua predilecção bem manifestada desde tenros annos, inclusive no seu "debute" num modesto semanario, o "O Coió" - ahi por voltas de 97.

Foi por essa época que elle começou a frequentar "A Cidade do Rio", levado por Emilio de Menezes e Henrique Cancio. Ahi se iniciou com uma chronica sobre as "grisetes no Rio", que José do Patrocinio classificou de "estupenda". (...)

Foi na "Cidade do Rio", que Paulo Barreto se iniciou e revelou predicados de espirito especiallissimo para a profissão que abraçou e em que incontestavelmente brilhou até a sua morte hontem.

Depois, na "Gazeta de Notícias", no "O Dia", na "A Noticia", no "O Paiz", no "Rio Jornal" e n' "A Patria", essas revelações de vinte e tantos annos de jornalismo intenso e por vezes fulgurantes, foram guindando-o á posição que mantinha actualmente no jornalismo, que lhe fica devendo um bom incremento, quasi diriamos uma moderna remodelação. (...)" Boa Noite, 24 de junho de 1921.

"Com o desapparecimento de Paulo Barreto perde o Brasil, sem duvida, uma das mais estranhas e por isso mesmo talvez, mais empolgantes, das suas organisações literarias. Delle poder-se-á dizer com justiça que era em tudo e antes de tudo, como escriptor, um estheta na mais perfeita accepção do vocabulo. O que Olavo Bilac realizou na poesia, João do Rio o foi em nossa prosa contemporanea: a emoção feita estylo para dominio dos sentidos.

Não seria decerto um pensador, mas um artista, impondo-se menos pelo peso dos conceitos do que pela graça e leveza dos proprios pensamentos, a que a phrase incisiva, nervosa e scintillante, communicava, todavia, grande movimentação e emprestava sempre intenso brilho. Dahi, dessa arte que, até certo ponto, constituia uma originalidade em nosso meio, tirava o privilegiado publicista patricio o melhor dos seus effeitos literarios. (...)

João do Rio não foi, em verdade, um commentador grave de homens e coisas, sendo muito embora um observador, por vezes agudo demais. Dir-se-ia que, a despeito da percuciencia da sua visão, elle se comprazia em deixar de lado, propositadamente, tudo o que não encontrasse de banal ou de grotesco no seu exame, para, assim, melhor dar expansão ás suas tendencias incontrastaveis de espirito entre leve e picaresco, e sempre bem humorado de mais para desdenhar das glorias de critico de futilidades. A esta conformação comsigo mesmo deveu, sem duvida, João do Rio os seus inexcediveis triumphos de chronista mundano e reporter... (...)

Onde a vibração da massa pedisse alguem para transmittil-a, ahi estava João do Rio. No seio do povo colhia elle as emoções da sua fonte; registrava-as todas, com o poder retentivo sorprehendente e sem esforços mnemonicos se as transmittia a si mesmo, para, depois de processal-as, apurando-as, em seu engenho, communical-as a nós outros, harmonicas, luminosas e trepidentes.

Nisto, os seus talentos não o trahiam nunca e elle o fazia com amor e convicção. A sua arte era, assim, não só bella, mas sincera. A fantasia, conquanto sua collaboradora, entrava ahi apenas como elemento de realce; não lhe sacrificava a obra, sentida e verdadeira, máo grado os paradoxos que iam por ella para confirmar- quem sabe? - no fundo, a individualidade do seu autor. (...)" Rio Jornal, 24 de junho de 1921.

"Ecoou dolorosamente, como era de esperar, em todo o pais a noticia da morte prematura do brilhante jornalista que foi Paulo Barreto.

Durante todo o dia de hontem foi grande a romaria, de pessoas de todas as classes sociaes que affluiram a redacção d' "A Patria", e que ali deixavam os seus nomes por não ter sido ainda permitida a visitação ao corpo, velado por seus companheiros de trabalho.

O dr. Josette procedeu ao embalsamento do corpo, trabalho que ontem não poude ser concluido e, motivo porque só hoje depois das 9 horas da manhã poderá Paulo Barreto ser exposto a visitas, em camara ardente, armada na sala da redacção.

Ficou deliberado que o enterro do mallogrado jornalista seja realizado amanhã, domingo, saindo o feretro ás 15 horas da redacção do jornal de que era director.

O Sr. A. Azeredo, vice-presidente em exercicio, na sessão do Senado de hontem, depois de communicar o fallecimento do Sr. Paulo Barreto, jornalista brasileiro e membro da Academia de Letras, de quem fez o elogio funebre, solicitou que o Senado permitisse que na acta dos seus trabalhos fosse inserido um voto de pesar pelo seu fallecimento. O requerimento foi approvado unanimemente. (...) O Jornal, 25 de junho de 1921.

"As tocantes homenagens que a cidade tem prestado ao illustre escriptor que a morte arrebatou em pleno trabalho e em plena maturidade do seu espirito valem como a mais sincera e a mais justa das cortezias aos meritos singulares de sua obra de jornalista e de artista.

É possivel que uma analyse fria e tranquilla de sua longa e tumultuosa actividade mental demonstre o caracter apressado e um pouco superficial dos numerosos livros em que procurou concretizar as impressões, mais ou menos vertiginosas, que os aspectos da vida urbana do Rio e dos paises estrangeiros que visitou, lhe produziram. Mas ninguém lhe contestará jamais o ouro puro da sua intelligencia e que elle tão descuidadosamente prodigalizou em vinte annos de jornalismo.

A sua lingua de impressionista, cheia de paradoxos, de imprevistos e de contrastes desconcertantes e de "trouvailles" de espirito, bastará para salvar na sua bagagem literaria o que, porventura, lhe falta de reflexão.

A sua memoria ficará também como de um grande coração cheio de bondade em que a ironia apparente mal dissimulava a sensibilidade extrema, muitas vezes infantil, e como a de um amigo sincero e apaixonado da sua terra que elle procurou ardentemente servir dentro da sua orientação das suas concepções. O instincto popular nào se illude; a romaria á redacção de seu jornal que, hoje, se repetirá, no seu enterro diz bem alto que com elle perderam o nosso jornalismo e os leitores um de seus elementos mais representativos. (...)" O Jornal, 26 de junho de 1921.

" (...) Paulo Barreto não hesitou um momento na sua grande obra. Felizmente ha uma força que anima os homens dominados pelos nobres messianismos. Paulo Barreto foi durante estes ultimos mezes de sua vida um condensador dessa força. Graças a ella, a sua intelligencia dos homens e das coisas, tornou-se quasi milagrosa, a sua coragem affrontou todos os ódios, a sua capacidade de trabalho multiplicou-se e a plasticidade de seu espirito fez prodigios nas columnas mais diversas deste jornal. Elle era para todos nós, os mais velhos como os mais novos companheiros, mais do que um director, um chefe. Era uma força communicativa, um estimulo a que ninguem podia resistir; porque, como se não bastasse o seu escrupulo no trabalho, Paulo Barreto soube conquistar da juventude enthusiasta desta casa uma admiração, um respeito, uma estima, um culto que só o conseguem os santos ou os genios. Isto, alías, era natural. Ninguem privaria com esse homem, singularmente dotado, sem ser attrahido pelo fulgor impressivo, pela palavra, pela viveza de sua intelligencia repentina, pela graça do seu estylo, pela sua bondade espontanea, pela meiguice do seu trato e por sua despretenciosa e luminosa superioridade mental.

Perdemos, pois, desde a sinistra noitada de ante-hontem, a maior intelligencia e a maior vontade que collaboraram para o exito excessivo que fez de "A Patria", em tão pouco tempo, uma columna stoica dos humildes contra os humilhadores, do idealismo politico contra a mediocridade saciada, do Brasil jovem, progressista, impellido pela consciencia nova de sua finalidade na America e no velho Brasil, de cuja persistencia na arena das grandes actividades uteis pouco lucraria o presente e, muito menos, o futuro. (...)" A Patria, 25 de junho de 1921.

AS MANCHETES

Paulo Barreto - A Morte Subita Do Director D' A Patria - Ligeiras Notas Sobre A Sua Vida Literaria e Jornalistica (A Razão)

Paulo Barreto - O Desapparecimento Da Figura mais Original Do Jornalismo Brasileiro (Boa Noite)

A Imprensa Enlutada - Como Repercutiu A Morte Repentina De Paulo Barreto (Rio Jornal)

A Morte De Paulo Barreto - Homenagens Da Imprensa, Do Parlamento E De Varias Associações - A Exposição Do Corpo E O Seu Enterramento Amanhã (O Jornal)

Paulo Barreto - O Rio Presta Á Memoria Do Nosso Director A Maior Homenagem Popular Que Fóra Da Politica Alguém Já Mereceu - A Romaria Á Nossa Redacção - As Homenagens Collectivas - O Que Serão Os Funeraes Do Morto Querido - O Dever Dos Que Ficam (A Patria)

Fonte: www.uol.com.br

João do Rio

João do Rio foi o pseudônimo mais constante de João Paulo Emílio Coelho Barreto, escritor e jornalista carioca, que também usou como disfarce os nomes de Godofredo de Alencar, José Antônio José, Joe, Claude, etc., nada ou quase nada escrevendo e publicando sob o seu próprio nome.

Foi redator de jornais importantes, como "O País" e "Gazeta de Notícias", fundando depois um diário que dirigiu até o dia de sua morte, "A Pátria". Contista romancista, autor teatral (condição em que exerceu a presidência da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, tradutor de Oscar Wilde, foi membro da Academia Brasileira de Letras, eleito na vaga de Guimarães Passos.

Entre outros livros deixou "Dentro da Noite", "A Mulher e os Espelhos", "Crônicas e Frases de Godofredo de Alencar", "A Alma Encantadora das Ruas", "Vida Vertiginosa", "Os Dias Passam", "As religiões no Rio" e "Rosário da Ilusão", que contém como primeiro conto a admirável sátira "O homem da cabeça de papelão". Nascido no Rio de Janeiro a 05 de agosto de 1881, faleceu repentinamente na mesma cidade a 23 de junho de 1921.

Fonte: www.releituras.com

João do Rio

João do Rio, pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, (Rio de Janeiro, 5 de agosto de 1881 — 23 de junho de 1921) foi um jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo brasileiro.

Histórico

Filho de Alfredo Coelho Barreto, professor de matemática e positivista, e da dona-de-casa Florência dos Santos Barreto, Paulo Barreto nasceu na rua do Hospício, 284 (atual rua Buenos Aires, no Centro do Rio). Estudou Português no Colégio São Bento, onde começou a exercer seus dotes literários, e aos 15 anos prestou concurso de admissão ao Ginásio Nacional (hoje, Colégio Pedro II).

Em 1 de junho de 1899, com 18 anos incompletos, teve seu primeiro texto publicado em A Tribuna, jornal de Alcindo Guanabara. Assinado com seu próprio nome, era uma crítica intitulada Lucília Simões sobre a peça Casa de Bonecas de Ibsen, então em cartaz no teatro Santana (atual Teatro Carlos Gomes).

Prolífico escritor, entre 1900 e 1903 colabora sob diversos pseudônimos com vários órgãos da imprensa carioca, como O Paiz, O Dia, Correio Mercantil, O Tagarela e O Coió. Em 1903, é indicado por Nilo Peçanha para a Gazeta de Notícias, onde permaneceria até 1913. Foi neste jornal que, em 26 de novembro de 1903 nasceu João do Rio, seu pseudônimo mais famoso, assinando o artigo "O Brasil Lê", uma enquete sobre as preferências literárias do leitor carioca. E, como indica Gomes (1996, p. 44), "daí por diante, o nome que fixa a identidade literária engole Paulo Barreto. Sob essa máscara publicará todos os seus livros e é como granjeia fama. Junto ao nome o nome da cidade".

Paulo Barreto, repórter

Segundo seus biógrafos, ao profissionalizar-se, Paulo Barreto representou o surgimento de um novo tipo de jornalista na imprensa brasileira do início do século XX. Até então, o exercício do jornalismo e da literatura por intelectuais era encarado como "bico", uma atividade menor para pessoas que possuíam muitas horas vagas à disposição (como funcionários públicos, por exemplo). Paulo Barreto move a criação literária para o primeiro plano e passa a viver disso, empregando seus pseudônimos (mais de dez) para atrair diversos públicos consumidores.

As Religiões no Rio

Entre fevereiro e março de 1904, realizou uma série de reportagens intituladas "As religiões do Rio", que além de seu caráter de "jornalismo investigativo", constituem-se em importantes análises de cunho antropológico e sociológico, cedo reconhecidas como tal, particularmente no tocante as quatro matérias pioneiras sobre os cultos africanos, que antecedem em mais de um quarto de século as publicações de Nina Rodrigues sobre o tema (além de que, a obra de Rodrigues ficou praticamente restrita aos círculos acadêmicos baianos).

Estudiosos apontaram semelhanças entre "As religiões do Rio" e o livro "Les petites réligions de Paris" (1898), do francês Jules Bois. Todavia, a semelhança parece estar muito mais na idéia geral (uma investigação sobre as manifestações religiosas minoritárias numa grande cidade) do que no plano da realização formal.

A série de reportagens despertou tamanha curiosidade que Paulo Barreto a publicou em livro, tendo vendido mais de oito mil exemplares em seis anos. A proeza é ainda mais impressionante levando-se em conta o restrito público leitor da época, num país com elevadas taxas de analfabetismo.

Alguns biógrafos criticam o cronista pelo fato de que, ao perceber o filão representado pela publicação de coletâneas (algo que se tornaria comum na segunda metade do século XX), Paulo Barreto tenha descoberto uma "fórmula" para inflacionar a própria bibliografia. Todavia, uma análise das coletâneas publicadas ao tempo de sua curta vida repele tal afirmação. Primeiro, ele fazia uma seleção dos textos que iriam ser publicados; e, segundo, os textos selecionados possuíam unidade entre si, concordante com o título geral da obra e previamente justificados por um parágrafo introdutório.

Paulo Barreto, imortal

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em sua terceira tentativa, em 1910, Paulo Barreto foi o primeiro a tomar posse usando o hoje famoso "fardão dos imortais". Anos depois, com a eleição de seu desafeto, o poeta Humberto de Campos, ele se afastou da instituição. Conta-se que, quando informada de sua morte, a mãe avisou expressamente que o velório não poderia ser feito lá, pois o filho não aprovaria a idéia.

Paulo Barreto, homossexual

As preferências sexuais de Paulo Barreto desde cedo constituíram-se em motivo de suspeita (e, posteriormente, de troça) entre seus contemporâneos. Solteiro, sem namorada ou amante conhecidas, muitos de seus textos deixam transparecer uma inclinação homoerótica bastante explícita. As suspeitas praticamente se confirmaram quando ele se arvorou em divulgador na terra brasileira, da obra do "maldito" Oscar Wilde, de quem traduziu várias obras.

Figura ímpar, que se vestia e se comportava como um "dândi de salão" (Rodrigues, 1996, p. 239), Paulo Barreto jamais ousou desafiar os estereótipos com os quais a sociedade rotula os homossexuais. Todavia, ao se propôr a defender novas idéias nos campos político e social, sua figura "volumosa, beiçuda, muito moreno, lisa de pêlo" (como registrou Gilberto Amado) tornou-se um alvo perfeito para toda sorte de racistas e homofóbicos reacionários, dentre eles, Humberto de Campos.

É nesse contexto que se insere seu suposto "flirt" com Isadora Duncan, que apresentou-se no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1916. Duncan e Barreto já haviam se conhecido anteriormente, em Portugal, mas foi somente durante a temporada no Rio que se tornaram íntimos. O grau dessa intimidade é um mistério. Especula-se que tudo poderia não ter passado de uma "jogada de marketing" para atrair a atenção da imprensa, embora outras fontes citem um suposto diálogo em que a bailarina teria interpelado Barreto sobre sua pederastia, ao que ele teria respondido: Je suis trés corrompu ("Sou completamente corrupto").

Paulo Barreto, paladino

Em 1920, Paulo Barreto fundou o jornal A Pátria (chamado ironicamente de A Mátria por seus detratores), no qual buscou defender os interesses dos "poveiros", pescadores lusos oriundos em sua maioria de Póvoa de Varzim, e que abasteciam de pescado a cidade do Rio de Janeiro. Ameaçados por uma lei de nacionalização do governo brasileiro, que exigia que a pesca fosse exercida apenas por nacionais, e os obrigava a naturalizar-se para poder continuar na profissão, os "poveiros" entraram em greve.

A atividade de Barreto em prol da colônia portuguesa granjeou-lhe grande quantidade de inimigos, um sem-número de ofensas morais ("manta de banha com dois olhos" foi uma das mais leves) e até mesmo um covarde episódio de agressão física, quando, surpreendido enquanto almoçava sozinho num restaurante, foi surrado por um grupo de nacionalistas.

A morte de João do Rio

Obeso, Paulo Barreto sentiu-se mal durante todo o dia 23 de junho de 1921. Ao pegar um táxi, o mal-estar aumentou e ele pediu ao motorista que parasse e lhe trouxesse um copo d'água. Antes que o socorro chegasse, no entanto, ele faleceu, vítima de um enfarte do miocárdio fulminante.

A notícia de que João do Rio havia morrido espalhou-se por toda a cidade rapidamente. Estima-se que cerca de 100 mil pessoas tenham comparecido para o último adeus ao escritor que certa feita, sob o pseudônimo de Godofredo de Alencar, havia registrado sua opção preferencial pela diversidade:

Nas sociedades organizadas interessam apenas: a gente de cima e a canalha. Porque são imprevistos e se parecem pela coragem dos recursos e a ausência de escrúpulos. (Gomes, 1996, p. 69).

Homenagens póstumas

O nome Paulo Barreto batiza uma rua inexpressiva no bairro aristocrático de Botafogo. Como apontou Graciliano Ramos, "a homenagem que lhe tributaram é modesta: ofereceram-lhe uma rua curta" (Gomes, 1996, p. 11). A Póvoa de Varzim, em Portugal, também deu o seu nome a uma pequena rua mesmo no centro da cidade, junto à Câmara Municipal.

João do Rio é patrono da cadeira número 1 da Academia Irajaense de Letras e Artes (AILA) ocupada pelo escritor e poeta acadêmico Agostinho Rodrigues, fundador da entidade, em 1993.

Cronologia

1881: nasce em 5 de agosto.
1896: presta concurso para o Ginásio Nacional (Colégio Pedro II).
1898: morre Bernardo Gutemberg, irmão caçula de Paulo Barreto.
1899: em 1 de junho publica seu primeiro texto.
1900: começa a escrever para vários órgãos da imprensa carioca.
1902: tenta entrar para o Itamarati, mas é "diplomaticamente" recusado pelo Barão do Rio Branco por ser "gordo, amulatado e homossexual" (Gomes, 1996, p. 114).
1903: indicado por Nilo Peçanha, começa a trabalhar na Gazeta de Notícias, onde permaneceria até 1913.
1904: entre fevereiro e março, realiza para a Gazeta a série de reportagens "As religiões do Rio", posteriormente transformadas em livro.
1905: em novembro, torna-se conferencista.
1906: estréia sua primeira peça teatral, a revista Chic-Chic (escrita em parceria com o jornalista J. Brito).
1907: o drama Clotilde, de sua autoria, é encenado no teatro Recreio Dramático. No mesmo ano, ele se candidata pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras.
1908: em dezembro, faz sua primeira viagem à Europa, tendo visitado Portugal, Londres e Paris.
1909: em março, morre o pai e Paulo e sua mãe mudam-se para a Lapa (em casa separadas, contudo). Em novembro, lança o livro de contos infantis Era uma vez..., em parceria com Viriato Correia.
1910: é eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em dezembro, faz sua segunda viagem à Europa e visita Lisboa, Porto, Madri, Barcelona, Paris, a Riviera e a Itália.
1911: com um empréstimo de 20 contos de réis fornecido por Paulo Barreto, Irineu Marinho deixa a Gazeta e lança em junho o jornal A Noite. Um ano depois, ele quitou totalmente o empréstimo.
1912: é lançado o livro Intenções, de Oscar Wilde, em tradução de Paulo Barreto.
1913: torna-se correspondente estrangeiro da Academia de Ciências de Lisboa. Em novembro, faz sua terceira viagem à Europa, tendo visitado Lisboa (onde sua peça A bela Madame Vargas é encenada com grande sucesso), Paris, Alemanha, Istambul, Rússia, Grécia, Jerusalém e Cairo.
1915: viaja à Argentina e se encanta com o país. Declara que "Buenos Aires é a Londres gaúcha" (Gomes, 1996, p, 120).
1916: torna-se amigo de Isadora Duncan, durante a temporada dela no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ao lado de Gilberto Amado, teria testemunhado a bailarina dançar nua na Cascatinha da Tijuca.
1917: em 22 de maio, escreve para O Paiz uma crônica intitulada "Praia Maravilhosa" onde exalta as maravilhas da praia de Ipanema. É presenteado com dois terrenos no futuro bairro, onde passa a residir neste ano. Funda e passa a dirigir a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais).
1918: viaja à Europa para cobrir a conferência do armistício em Versalhes, após a I Guerra Mundial.
1919: publica o livro de contos "A mulher e os espelhos".
1920: funda o jornal A Pátria, onde defende a colônia portuguesa. Por causa disso, é vítima de ofensas morais e agressão física.
1921: em 23 de junho, morre de enfarte fulminante. Seu enterro é acompanhado por mais de 100 mil pessoas.

Fonte: pt.wikipedia.org

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