Júlio Afrânio é o autor da Rosa Mística, poema impresso em Leipzig com as cores do íris; Júlio Afrânio é também, além de escritor de raro talento, um dos nossos mais ilustres psiquiatras.
É dele esta carta: Querido João do Rio. — Sua indulgência, desejando resposta a um inquérito literário, obriga-me talvez a merecer a pecha de presumido. Valha-me o não poder furtar-me à sua benignidade, sem descortesia.
1º. — Sobre a minha "formação"... Não lhe parece enfático? Não sei de muitos em nossa terra que, como o Sr. Nabuco, possam falar, com interesse para outrem de sua "formação". Muito mais os amorfos.
Se posso transmudar em preferências literárias o conteúdo de sua pergunta dir-lhe-ei que Nietzsche, d'Annuzio e Maeterlinck, para os dias festivos do espírito; e Anatole France, Eça de Queirós e Machado de Assis, para a intimidade de todas as horas, são os meus autores prediletos... Os velhos, sobremodo os recuados, faço como toda a gente, respeito-os e penso que lhes não faz falta o meu trato. Prefiro os contemporâneos no momento mesmo, a guardá-los para o aplauso de meus vindouros. Sei que não é esse o uso literário. A literatura oficial, como o vinho e o café, deve ser velha, para ser louvada.
Os autores infelizes, que não tiveram louvores nem editores, que se consolem com a possibilidade de uma estátua, no futuro, ou a probabilidade de enriquecerem daí a trinta ou cinqüenta anos os que os explorarem. Eu, de mim, suponho que os literatos, como os criados, devem ser pagos em dia: com a remuneração, o louvor, a consideração que merecem. É uma determinante de minha preferência pelos presentes. A outra, de ordem psicológica, e esta egoística, é que eu sinto melhor o que observa, imagina, representa ou deduz um autor de meu tempo, de meu meio, de minha civilização, que um sujeito de uma era, um país, uma sociedade que não conheço.
O mais é prazer do exótico e do anacrônico, quando não veleidade de erudito: e aqueles são os dispépticos da literatura: estes, indivíduos que têm como profissão se aborrecerem e; às vezes, aborrecerem os outros.
Não vale isto dizer que desrespeito os velhos consagrados; não. Venero-os, e possivelmente os leio com acatamento e fastio.
2º. — Qual prefiro de minhas obras? ... Quem não aspirou ainda ser autor de uma obra ou de muitas obras? Eu, como todo o mundo. Das minhas, prefiro certamente as que não escrevi, e, se um dia isso for passado ou presente, a que não escreverei. Realizar o ideal é degradá-lo. Isso pode ser acaciano, mas explica a razão de minha preferência.
3º. — Não, não me parece que no momento atual haja estagnação literária no Brasil. Ao invés, lembro que, à parte Alencar e Castro Alves, quase todos os nossos grandes engenhos literários vivem, e fecundos ainda. Se são precisos nomes, os de Machado de Assis e Aluísio Azevedo, Olavo Bilac e Raimundo Correia, José Veríssimo e Araripe Júnior, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, João Ribeiro e Medeiros e Albuquerque, Coelho Neto e Júlia Lopes, Graça Aranha e Domingos Olímpio, Afonso Arinos e Euclides da Cunha... e tantíssimos outros, romancistas, poetas, críticos, panfletários, polígrafos... deporiam favoravelmente.
Respeito a luta entre novos e definitivos, nada há a dizer de novo, porque isso é já definitivo: os que chegaram e venceram estão senhores da situação; os que chegam e os agridem desejam aquela vitória e esta situação. Isto se faz as vezes com talento, mas, entretanto, com pouco espírito e muito insulto.
As coteries tem apenas o mérito de, sobre o adubo da mediocridade conglomerada, fazer nascer o destaque de um talento que por ventura aí se encontre. Para a geração seguinte este já definitivo amargará com o insulto tal consagração.
Predominará, porém, certamente, quem tiver talento e souber usa-lo: são as maquinas que impulsionam os navios, e não as cores de que são pintados ou o nome que trazem na proa. É rudimentar, mas a aplicação não parece.
4º. — Não creio que o desenvolvimento dos centros literários dos Estados possam criar literaturas a parte: a identidade de língua, a uniformidade de costumes e a mesma tendência imitadora dos defeitos franceses bastam para assegurar a unidade literária do Brasil.
5º. — Sim, o jornalismo, em toda a parte, tem sido um fator de arte literária, e isto é razoável, quando o jornal tende a substituir o livro cada vez mais. Se é apressada, as vezes, tal literatura, lucra, por outro lado com a difusão.
No Brasil... diga-me, à puridade, não é imprudente conversarmos este assunto?... Demos que influência, e muito favoravelmente.
O Sr. Augusto Franco, de Minas, manda-me dizer que não pode responder aos dois primeiros quesitos, porque, além de complexos, seriam uma autobiografia quase pretensiosa. Quanto aos dois últimos, o ilustrado crítico transcreve na resposta um trecho do seu livro Fragmentos literários, sobre a idéia de estreitamento de relações literárias entre as nações, e continua: Muitos eram os adeptos dessa e de outras idéias, quase idênticas em relação à necessidade de um estreitamento de convivência literária e mesmo científica entre as nações. Deles avultavam os nomes de Henrich Laub, Paulo Heyse, Geibel, Gneist, Werder, Czermk, Rosenthal e outros célebres literatos e doutores, também desmiolados e asneirões.
Na França, na Holanda, na Rússia, na Inglaterra , na Itália e até na Espanha, essas idéias já iam tomando corpo, por isso que nesses diferentes países já se haviam mesmo criado seções filiadas ao centro tedesco. Pois é na persuasão de que não me saia pela frente algum carvoeiro malcriado e atrevido, que ouso divulgar a idéia de se porem em ação convergente os meios necessários à comunicação e congregação íntima dos variados elementos literários esparsos pelos diversos Estados do Brasil.
E é, indubitavelmente, a crítica literária brasileira que cabe tal mister. É a ela, com efeito, que cumpre, por meio da análise conscienciosa e justiceira dos trabalhos dos diferentes escritores nacionais, tornar destes conhecidas as obras de valor, pondo-os em contato espiritual, aguçando entre eles a curiosidade e o interesse pela procura e conhecimento dos trabalhos de mérito, afiando-lhes, por fim, a vontade de conchegar as relações literárias de mais em mais, cada vez com redobrado afinco e avidez.
Já que a nossa Academia do Letras não se interessa por essas cousas, tentemos consegui-lo por meio da análise crítica no livro e no jornal, pois impossível é quase a fundação de centros literários nos Estados, subordinados a um centro-diretor, que, na hipótese, poderia ser a própria Academia, se, acaso, cogitasse ela de semelhantes nonadas...
Entre os fins mais nobres, destinados à missão da crítica brasileira, está, pois, o de fazer conhecidos entre si os nossos escritores, acabando com essa crassa ignorância que oculta aos talentos aprimorados do norte as mais belas inteligências do sul, e vice-versa.
Sociológica, estética, psicológica, determinista, ou o que mais seja, a crítica literária deve também ser um instrumento prático e honesto de vulgarização dos bons trabalhos e um veículo justiceiro para a coesão das capacidades intelectuais.
Que todo o Brasil, de norte a sul e de leste a oeste, se conheça e se confraternize literariamente, por meio de uma crítica imparcialmente disseminadora e difusiva, que terá como resultante a criação de uma literatura interestadual, ou formação integral da literatura brasileira, forte, robusta, vigorosa, inteiriça.
Era este o meu pensamento em 1901. Hoje, não está absolutamente abalado. Hoje, como então, ponho em dúvida a existência de centros literários estaduais, e chego mesmo a negar a integração definitiva da literatura pátria.
Nos Estados há grandes talentos, brilhantes ilustrações, homens de rara e notável capacidade mental, escritores e pensadores de fina têmpera, que se não trocam por certos nulos empavesados da Rua do Ouvidor — cloróticos representantes de uma literatice mórbida, doentia, aquosa, anemizada pelo elogio de confraria ridícula e pulha.
Entretanto, por múltiplas circunstâncias, a capital da República será ainda por longo tempo o foco principal de convergência das aspirações à consagração literária.
Podem nos Estados refulgir, luminosos e rútilos, talentos vigorosamente cultivados; podem sobressair aureolados por uma fotosfera intensa, nas ciências, nas letras, nas artes, no jornalismo, no ensino; mas, se o Rio de Janeiro os não consagra (felizmente há muita gente aí que não faz coro com o empurro mútuo), jamais romperão a penumbra provinciana.
No seu escrito La Nationalité et l'Etat, o sociólogo Novicov observa que as capitais das nações são geralmente centros intelectuais mais poderosos. É nelas que se centraliza a elaboração das idéias e dos sentimentos. É aí que a literatura brilha com um fulgor mais vivo. É aí que se encontra a élite social, na expressão de Comte.
Tudo isso é verdade, não há negar. Mas como bem acrescenta o mesmo publicista noutro trabalho intitulado L'évolution de l'organisme social, há diferença entre aquela e a élite intelectual.
Se a primeira, de fato, se concentra nas capitais, a segunda "est répandue, dans une certaine mesure, sur toute la surface du territoire d'une nation".
Donde se conclui que as capacidades mentais de plano superior não constituem privilégio das sedes políticas dos países.
E é necessário ajuntar que o Rio está cheio de escritores provincianos, que lá não foram adquirir nem mais talento nem mais aptidão, mas apenas tornar-se mais conhecidos, lidos e apreciados.
Duas linhas agora acerca do último quesito.
O jornalismo, em qualquer parte do mundo, e sobretudo no Brasil, e particularmente aí no Rio, pode ser um fator ótimo ou um fator péssimo da arte literária.
É péssimo, quando os seus diretores não têm critério na escolha das produções que a colaboração irresponsável e duvidosa de rabiscadores medíocres lhes oferece; quando permitem que os próprios autores elogiem ou mandem elogiar os seus livros com fins essencialmente mercantis; quando afastam os escritores de real valor, de merecimento comprovado, e protegem as nulidades apavonadas.
É igualmente péssimo e, mais do que isso, profundamente pernicioso, quando dirigido por tipos ignóbeis como aquele finamente caracterizado por Villiers de I'Isle-Adam nos seus belíssimos Contes Cruels (págs. 34-51).
Mas quando o jornalismo conta entre os seus mentores um vulto da estatura moral do pranteado e meigo Ferreira de Araújo, então ele é bom, ele é fecundo, ele é ótimo, não simplesmente como vigoroso fator literário senão também como um nobre impulsor da civilização de um povo.
Tocando o nome augusto do grande e saudoso mestre da imprensa brasileira, não parece fora de propósito recordar um fato que deve ser aqui narrado por ter estreita conexão com o assunto deste artigo.
Um moço de mérito, mas desconhecido, um moço, que muito prometia, escreveu um dia um esplêndido conto. Onde publicá-lo? Sem apresentação, sem proteção literária (até nas letras é preciso ter proteção no Rio!...), entendeu, contudo, de ir procurar o querido diretor da Gazeta de Notícias para que lhe publicasse o conto.
Foi por uma bela tarde, após o jantar, que Ferreira de Araújo, obeso, risonho, no jardim, a palitar os dentes, recebeu o jovem estreante. Depois de, naturalmente, lhe ter dito alguma frase corriqueira, igual àquela que Th. Gautier, no seu livro Portraits Contemporains (pág. 47), conta haver dirigido ao estupendo Balzac, quando o visitou pela primeira vez, o tímido candidato à sagração fluminense entregou ao preclaro jornalista as tiras caprichadas do seu burilado conto, implorando-lhe a publicação dele na Gazeta, Ferreira de Araújo passou ligeiramente os olhos pelo manuscrito, dobrou-o, pô-lo no bolso, dizendo languidamente ao rapaz: — "Agora, não posso ler." Estas quatro palavras simplíssimas bastaram para afastar dali, desacoroçoado e triste, o pobre escritor de contos.
Grande, porém, foi a sua surpresa quando no dia seguinte, ao abrir a Gazeta, deparou estampado, na coluna de honra, o seu amado trabalho.
E maior foi ainda o seu espanto quando, passeando à Rua do Ouvidor e parando em frente da redação da Gazeta, Ferreira de Araújo o chamou e disse-lhe: — "Vá entender-se com o caixa; traga-me sempre contos como aquele e terá de cada um trinta mil réis." Hoje, o medroso contista de outrora é uma das figuras mais salientes, de mais nítido e claro destaque, da literatura nacional.
O Sr. Alberto Ramos é um poeta fortemente original na métrica dos versos, nas idéias e no sentimento com que os anima. A Ode do Campeonato tem qualquer coisa de pindárico, lembra a olímpica a Théron d'Agrigento e as grandes frases sonoras do conviva dos reis de Siracusa.
Essa poesia obedece a um sistema filosófico. O Sr. Alberto Ramos, com a sua elegância brummeliana e o seu nervosismo, cultiva o eu, pratica o super-humanismo de Nietzsche.
Que diz o sábio da floresta no Zaratustra? "Direi que acreditais em Zaratustra? mas que importa Zaratustra! Sois meus crentes? Mas que importam os crentes. Ainda não vos tínheis procurado a vós mesmos quando me achastes. É assim que fazem todos os crentes: eis porque é a fé tão pouco.
Ordeno-vos agora que me percais para vos achardes, e só depois de todos vós me terdes renegado é que para a vossa companhia voltarei." O Sr. Alberto Ramos já se achou. Zaratustra acompanha-o. É talvez o único homem no Brasil a quem Zaratustra dá essa honra. Daí o Sr. Alberto Ramos não acreditar senão nele mesmo, adorar a força, o domínio, e praticar, no limitado círculo dos humanos a que permite a honra da sua palavra, a filosofia do super-homem.
Que vem a ser um super-homem? Um super-homem, na nossa sociedade, é o cavalheiro irresistível, de cujas palavras todos pendem e de cujos braços depende o mundozinho em que vive e que, com tudo isso, é frio, brilhante e duro como o diamante.
Mando, cheio de humildade, ao Sr. Alberto Ramos o meu questionário, e fico à espera.
Dias depois recebo estas imprevistas considerações filosóficas, em que o poeta da Ode do Campeonato se revela o idólatra da força e do paradoxo: "As grandes épocas de civilização dos povos caracterizam-se pela elevação integral e harmônica da cultura física. Antes que o dogma cristão tivesse pervertido a noção da vida, erigido o pessimismo em moral e subvertido o sentido da terra, a saúde do corpo corria parelhas com a saúde do espírito. A base da cronologia grega foi a olimpíada, isto é, a glorificação da força e da inteligência. Os mais puros monumentos do gênero humano são a apoteose da força e da saúde.
Os períodos de decadência, ao contrário, caracterizam-se pela depressão física do indivíduo. A literatura dos anêmicos, dos alcoólicos, dos escrofulosos e dos dispépticos será paralelamente anêmica, desequilibrada, mórbida e indigesta. (Corra-se a galeria dos nossos autores da atualidade.) As sociedades decadentes, fisicamente atrofiadas, como a nossa, são incapazes de produzir o tipo superior da espécie, o criador, o artista. Expiam assim obscuramente o crime da sua pusilanimidade. No domínio literário, como na esfera política, estão condenadas a uma subserviência opressiva e humilhante, quando não à esterilidade e à morte.
Mas em arte, como no mundo orgânico, o que importa sobretudo é a vida. É a força e a plenitude; é o gesto intenso e o coração à larga; é o vigor do músculo e o belo equilíbrio das funções vitais; são as aspirações livres para os cumes ásperos e solitários; é o ar puro da montanha no cérebro e nos pulmões, a afirmação imensa e transbordante perante a existência.
Fora disso, toda criação de arte não passará de um arremedo grosseiro e pueril, perigoso excitante de imaginações doentias, qualquer cousa, que será talvez polução da arte, não a arte mesma, de sua natureza fecunda, libérrima e dadivosa até a prodigalidade.
Os que pretendem que há no Brasil, hoje em dia, uma arte nacional, artes e artistas nacionais, ou ignoram as condições essenciais geradoras do fenômeno estético — ou conscientemente praticam uma fraude impudente, que repugna aos espíritos animosos, capazes de encarar a vida no que ela tem de austero e de elevado, e para quem a probidade mental constitui simplesmente um hábito de decência.
Mas a decadência é ainda uma das formas da vida. É também um desejo de primavera. Tal é a minha fé, o que eu considero o meu heroísmo na vulgaridade do presente. É a guirlanda radiosa e terrível que eu atiro ao futuro, por cima de cada berço, como uma promessa de vitória.
Eis o que julguei de meu dever declarar em resposta aos seus quesitos. Hoje, como ontem, eu proclamo a necessidade de uma reação implacável pela cultura física. É preciso que restauremos como fórmula irredutível o "mens sana in corpore sano"; ainda mais: é preciso que se lhe dê uma aplicação prática pela criação de medidas sanitárias rigorosíssimas (p. ex. o isolamento dos atacados de moléstias contagiosas; a proibição de casamento para os anêmicos, os tísicos, para os indivíduos achacados de moléstias crônicas, para os degenerados de toda espécie; a repressão do alcoolismo; a regulamentação da prostituição, etc.). Dia virá em que um espírito clarividente, apreensivo pelo futuro, ousará abordar em nossa terra a questão da redução das escolas superiores — a maior das calamidades públicas que têm assolado este país.
Então, subitamente esclarecidos, animados de fé tenacíssima, de paciente e valorosa energia, trataremos seriamente da grande reforma do ensino primário, cuidaremos da criação de escolas especiais de agricultura, de horticultura, de indústria e comércio, de artes e ofícios, etc. — Essa hora — ai de nós, longínqua! assinalará o primeiro passo no caminho das reações salutares, que nos conduzirão à posse efetiva dos bens supremos, honra e privilégio das nações fortes, que os não tiveram por obra e graça do Espírito Santo, mas que os disputaram, que os conquistaram, que os defenderam em lutas as mais nobres, as mais heróicas, as mais cheias de sacrifícios admiráveis, que constituem a história da mentalidade humana, através dos séculos.
Em suma, eu entendo que o orgulho da nossa sociedade atual — a admitir que ela fosse ainda capaz de um gesto fecundo de energia e saúde — devia proceder da consciência austera e formidável de ser a depositária de um germe sacratíssimo, a augusta portadora do fruto aspérrimo e luminoso que, em momento mais ou menos remoto, supremo, de reivindicações salutares para as nações fortes e de conseqüências irreparáveis para as nações pusilânimes, será chamado a testemunhar da nossa vontade vitoriosa, da nossa colaboração ativa e pertinente na obra de civilização e de progresso, do nosso direito de existência como povo livre, isto é, uma geração, robusta e sadia, muito diferente da nossa, melhor que a nossa, que saiba querer e saiba vencer, apta para conquistar os bens que não nos foram consentidos e, sobretudo, capaz de realizar pelo braço o que tiver sonhado com a mente.
Grávida do futuro! Que imensa perspectiva para esta raça de avariados, sombria, morna, vencida, sem paixões viris, sem entusiasmos frementes, nem alegrias tonificantes, e que ameaça extinguir-se pela impotência de uma senilidade precoce! Mas não haverá por aí quem invente a fecundação artificial? Magnífico assunto para o seu próximo questionário, caro Sr. João do Rio, mais útil, mais atual e positivamente mais produtivo..."
A última ironia zaratustreana, aquela exclamação extática pela perspectiva da nossa raça grávida do futuro, não me tira do assombro de todo esse sistema reformador e forte. Talvez o Sr. Alberto Ramos tenha muita razão.
Felizmente já vamos subindo a montanha. Os clubes de regatas começam a transformação...
O grande poeta, ao receber o meu pedido, passeia nervosamente afinando o nariz com o índice e o polegar num gesto breve, rápido, curto.
— A minha opinião? É grave. Eu estou muito afastado agora.
Torna a passear, fica ainda mais nervoso diante da nossa insistência.
— Mas eu não tenho nada de interessante para dizer! — E' o que parece...
Há gênios de que a gente não se aproxima sem aborrecê-los logo; há homens de talento que quanto mais nos mostram a sua intimidade, mais se fazem amar e respeitar. Raimundo Correia é dos últimos. Todo ele é bondade. Os seus nervos vibram como as cordas de uma lira, e essa espírito superior interessa-se por tudo quanto é novo, auxilia, elogia, ajuda. Era impossível que Raimundo Correia se negasse a responder.
— Pois está bem; eu mando...
Passou-se um mês, passaram-se, dois, três, quatro meses...
— A resposta? — Já comecei...
Mas afinal, um dia, entre outras cartas, encontrei uma carta simples e sem espalhafatos denunciadores de que trazia a resposta à enquête. Abri-a. Era de Raimundo Correia: Não respondo ao seu 1º quesito, sem remexer em cinzas frias, esquecidas a um canto da minha memória. É talvez uma indiscrição que certas dificuldades de sentimento me tornam muito penosa agora. Na velha Livraria Clássica Portuguesa dos irmãos Antônio e José Castilhos achará v. os dois escritores de minha predileção na meninez: o prosador Manuel Bernardes e o poeta Bocage. Mas a verdade é que naquele apanhei um tremendo pavor do inferno, que me fez sonhar muitas noites com o diabo, e que, no segundo, só me deleitaram os ligeiros epigramas aos médicos e as redondilhas satíricas à estanqueira do Loreto. Ainda me lembra esta fácil quadrinha:
Domingo, dois do corrente, Faz-se pela vez primeira O brinco dos cavalinhos Na testa da estanqueira.
Também, para mim, o fazer versos não passava então de uma brincadeira, de um meio cômodo e inofensivo de gracejar com os camaradas da mesma idade. Só depois é que os outros me levaram a tomar isto mais a sério.
Em Cabo Frio, onde passei, além de uns restos da infância, todo a minha adolescência, foi que li pela primeira vez, à beira-mar, a epopéia marítima de Camões. Da direção que o autor dOs Lusíadas e outros clássicos portugueses teriam dado talvez ao meu espírito, foi este desviado mais tarde pela leitura dos autores nacionais contemporâneos e, sobretudo, de alguns poetas franceses de grande voga, — Hugo e Gautier, por exemplo. Por muito tempo oscilei entre estes dois. Se um parecia desobrigar-me de ter maior fôlego, o outro parecia desculpar-me de não ser menos imperfeito. Não me pude gabar nunca de lhes conhecer a obra inteira; mas do pouco que fiz, muito lhes devo. E não vou além, neste assunto, porque os escritores, por mais pequenos que sejam, incorrem sempre na pecha de grandes mentirosos, quando falam de si.
— Qual a que prefiro dentre as minhas obras? Haveria motivos intelectuais, senão puras razões de sentimento, para eu preferir alguma, dentre as mais modernas. Mas, dispense-me de descer a especificações.
Nestas coisas, o mais seguro para a gente é se deixar levar pela cabeça dos outros.
— Se me parece que atravessamos um período estacionário? De modo algum, pois nada há, entre nós, desse definitivo que caracteriza os períodos estacionários. O período atual é, ao contrário, de transição.
Transição em tudo; na política, nos costumes, na língua, na raça e, portanto, na literatura também, que é onde melhor se refletem o espírito e o sentimento das nações. Quem se puser um pouco ao lado desse movimento, dessa ebulição geral, assistirá ao espetáculo miraculoso de uma sociedade, de um povo inteiro em vias de formação. Tudo se mescla, se mistura, se confunde de tal modo que só de hoje a 90 anos é que lhe poderei dizer ao certo o resultado disto.
— O jornalismo, para a arte literária, não é um fator, é um subtraendo.
Dentre todos os males necessários e inevitáveis da nossa época, nenhum há mais infenso, do que ele, à cultura sã e tranqüila da verdadeira arte.
Aí tem v., meu caro, as respostas que aos seus quesitos eu posso dar. Se não prestam, acabou-se.
Estou salvo ao menos pela boa intenção que tive de lhe ser agradável. Vivo muito ocupado agora e as minhas ocupações não me dão lugar para mais e melhor.
MACHADO DE ASSIS. — GRAÇA ARANHA. — ALUÍSIO AZEVEDO. — ARTUR AZEVEDO, ALBERTO DE OLIVEIRA. — GONZAGA DUQUE, EMÍLIO DE MENEZES E JOSÉ VERÍSSIMO.
Naturalmente, a ausência de certos nomes notáveis num inquérito, que procurava as respostas dos corifeus dos espíritos brasileiros, poderá parecer estranha. Talvez o seja, mas, como todas as coisas verdadeiramente estranhas, é perfeitamente explicável. Há nomes que deviam aqui estar, mas que não estão porque a isso se opuseram uma sensibilidade grande, a vaidade doentia, a noção de responsabilidades graves e principalmente talvez a balbúrdia das idéias. A sensibilidade grande é a do ilustre mestre Machado de Assis.
Quando fui pessoalmente levar-lhe o inquérito, o admirável escritor recebeu-me com um acesso de gentilezas, que nele escondem sempre uma pequena perturbação.
— Um inquérito? Pois não: às suas ordens, com todo o gosto.
Passaram-se os dias. Voltei à carga.
— Francamente, disse-me o autor do Brás Cubas, o assunto é grave, é muito grave. Mas eu respondo, respondo quando tiver ânimo para escrever.
Logo os amigos e admiradores do mestre disseram-me: — Perdes o tempo, o Machado não responde...
Resolvi então cultivar a relação preciosa em bocados de palestra, ouvidos nos balcões do Garnier, por onde todos os dias passa o glorioso escritor. Soube assim que o Brás Cubas fora ditado, durante uma moléstia de olhos de Machado, à sua cara esposa; que o humorista incomparável da "Teoria do Medalhão" tem uma vida de uma regularidade cronométrica, que as suas noites passa-as a tentar o sono...
Espírito de tamanho fulgor tem, entretanto, a nevrose de se incomodar e sofrer com os pequenos nadas da existência. Se por esquecimento deixa de cumprimentar um homem, perde-se em conjecturas. Que irá pensar o homem? Que dirá dele? Nesse período, uma vez, o grande mestre chegou à livraria nervosíssimo. E contou por quê. Fora à secretaria um cavalheiro pedir-lhe qualquer coisa. Não o satisfizera e estava incomodado com isso quando passou o contínuo com a bandeja do café. Aceita uma xícara? Se me fizer companhia! — Ora eu não tomo café; mas já tinha recusado ao homem uma coisa e achei que seria demais não o acompanhar. Tomei a xícara e estou com dores de cabeça...
Do inquérito cheguei a saber que Machado de Assis tem como livros de cabeceira o Hamlet e o Prometeu, que acha as predileções passageiras como o próprio homem, e respeita a mocidade olhando-lhe as extravagâncias com um pasmo sincero.
Mas, por fim, o mestre incontestável percebeu que eu o acompanhava para lhe arrancar frases e tornou seco um pedaço de intimidade nascente entre o meu louvor e a sua bonomia.
Outro escritor de monta a interrogar seria o Sr. Graça Aranha. S. Ex.ª começou por não responder absolutamente nada. Pessoalmente, depois, deu-me, com a sua alma de heleno, alguns conselhos. O ilustre autor da Canaã é de opinião que se deve escrever pouco. Plutarco, Luciano e Zola poriam as mãos na cabeça se o ouvissem; todos os trágicos gregos abririam a boca de pasmo. Felizmente estava eu só, que concordei com o superior espírito.
Aluísio Azevedo mandou-me de Cardiff uma carta. Tenho diante de mim uma torre de papéis a despachar! O cônsul inibe o escritor de responder! Artur Azevedo não disse nada.
Gonzaga Duque esqueceu.
José Veríssimo, o conhecido crítico, não gostou do inquérito, e numa roda chegou mesmo a dizer que era esse um processo de fazer livros à custa dos outros.
Tamanha amabilidade impediu-me de insistir, e obrigou-me a pedir a Deus que a produção da literatura nacional aumente. Só assim o sr. José Veríssimo não insistirá na pesca na Amazônia para continuar a sua série de Escritos e Escritores.
Os poetas Alberto de Oliveira e Emílio de Menezes adiaram infinitamente as respostas.
Mas, ainda assim, apesar de não ter essas curiosas opiniões e as luzes de conceitos superiores, catalogando as pessoas que não tinham recusado a formação de um livro — idêntico a muitos outros — do estrangeiro, eu tive a certeza de que ia assinar um livro feito à custa do escol literário brasileiro.
E só não tive a vertigem porque, obrando assim, estava de acordo com o mestre Machado de Assis, pois não dava opinião minha e definitiva; estava de acordo com o Sr. Graça Aranha, pois escrevia pouco; e ainda estava de acordo com o venerável Sr. José Veríssimo, porque realizava, embora sem as suas letras, a sua mais exata previsão interna nestes últimos três lustros...
Quando dei por findo o meu trabalho voltei ao amigo que mo indicara como necessidade do público e provento literário. Sentei-me desoladamente num vasto divã de Mapple; e, como fazia Aulo-Gellius nas suas noites áticas, pedi-lhe, cheio de humildade e temor, a sua opinião.
— Francamente, acha alguma utilidade social em saber que o sr. Alberto de Oliveira não responde a um inquérito e que o Sr. Alberto Ramos prega a força do super-homem? — Meu amigo, eu acho que a crítica está absolutamente acabada. As reflexões de Sainte-Beuve, as tiradas do Arnold, os ensaios científicos ou metafísicos para explicar a composição da Comédia do Dante ou o Testamento do Gallo desapareceram por completo. Hoje, sejamos francos, a literatura é uma profissão que carece do reclamo e que tem como único crítico o afrancesado Sucesso. Não sei se conhece o livro de Gastão Ragot a respeito. O êxito, resultante ou acidental, é uma força. Esta força não é cega e não é inexplicável: vem de uma corrente que o vulgo acompanha, mas que o filósofo analisa, corrente que obedece a leis fáceis de determinar. O autor, seja ele qual for, de uma notoriedade lucrativa, de valor no mercado — porque a venda é uma força — deve o seu sucesso ao favor público. O público não simpatiza senão com os que o sabem tocar e lisonjear. A marca de um autor cotado é uma boa marca. Ele a princípio é quem a recomenda; ela depois é que o faz valer. Por isso o autor que vence é uma espécie de jogador feliz.
— Oh! Que teoria discutível! — Eu chego aos exemplos. A Sra. D. Júlia Lopes de Almeida é o tipo ideal da mãe de família; acha infantil o feminismo, o nefelibatismo e outros maluquismos da civilização. As suas idéias modestas e sem espalhafato, a sua sensibilidade sem extravagâncias souberam tocar o público. A colaboração da Sra. D. Júlia nos jornais aumenta a edição dos mesmos. Que importa à D. Júlia um crítico, dois críticos, três, uma dúzia mesmo contra ela? A sua marca é boa, é vendável; e como acontece a outros produtos, os próprios críticos, forçados pela corrente, fazem-lhes o reclamo com o instinto, aliás muito humano, que tem toda a gente de aclamar os que a multidão aclama. Quando o público adota um escritor — D. Júlia, Bilac, Medeiros e Albuquerque — é que se percebe bem a inanidade da crítica, o fim desse gênero de vagabundagem criadora, porque a pobre coitada que não lhes tece artigos todos os dias, esfalfa-se inutilmente em louvores para certos senhores, sempre ignorados, sempre esquecidos, sempre invendáveis e envenenados pela intoxicação do próprio ineditismo.
— O amigo é brutal. Isto não é filosofia, é balanço de livraria.
— Muito bonita frase no tempo em que os poetas morriam dipsômanos e só escreviam por chic em estado de embriaguez. Mas o Brasil transforma-se, civiliza-se. Hoje o jornalismo é uma profissão, quando antigamente era um meio político de trepar; hoje o escritor trabalha para o editor e não manda vender como José de Alencar e o Manuel de Macedo por um preto de balaio no braço, as suas obras de porta em porta, como melancias ou tangerinas. Uma nova necessidade infiltrou-se nos nossos hábitos: a necessidade da higiene e do confortável. O escritor precisa de higiene, de cuidados, de luxo. Eu acredito que o gênio profundo e fecundo de Coelho Neto não se expandiria de maneira tão maravilhosa se não tivesse o ambiente de luxo e de conforto da sua sala de trabalho; e Medeiros e Albuquerque não possuiria aquela regularidade, aquela precisão, aquela clareza de argumentos e de estilo se não adquirisse na vida todas as comodidades do corpo e do espírito. Os tempos mudaram, meu caro. Há vinte anos um sujeito para fingir de pensador começava por ter a barba por fazer e o fato cheio de nódoas. Hoje, um tipo nessas condições seria posto fora até mesmo das confeitarias, que são e sempre foram as colmeias dos ociosos. Depois, há a concorrência, a tremenda concorrência de trabalho que proíbe os romantismos, o sentimentalismo, as noites passadas em claro e essa coisa abjeta que os imbecis divinizam chamada boêmia, isto é, a falta de dinheiro, o saque eventual das algibeiras alheias e a gargalhada de troça aos outros com a camisa por lavar e o estômago vazio...
— Há de permitir que eu o considere feroz.
— Bato um corpo morto, bato no passado... Se hoje o escritor não trabalha em vinte e quatro horas mais do que um seu colega trabalhava em dois meses há vinte anos, vê os seus assuntos aproveitados, as suas idéias escritas, o seu pão comido pelos outros e talvez com maior originalidade. E a concorrência não é só de homens, é também das mulheres, algumas das quais, como a cintilante e espiritual Carmem Dolores, ultrapassam a maioria dos homens em encanto, modernismo e elegância, conquistando de súbito o favor público. Depois, quais são as resultantes do seu gravíssimo inquérito? — Isso, pergunto eu.
— Em primeiro lugar a demonstração de que a vaidade não é mais uma qualidade má, mas ao contrário, a satisfação natural de todo o homem, uma deliciosa coquetterie cerebral, que o arrivismo prático transforma em reclamo. Os escritores consultados, quase na sua totalidade, contaram com especial prazer a própria vida. Tem v. para sempre um livro de consulta biográfica dos escritores nacionais. Em segundo, a idéia clara de que o homem de letras só tem um desejo, mesmo quando está na torre de marfim: conquistar o favor público, ser lido e ser notado. O seu inquérito é um exemplo das idéias que v. acha brutal.
As opiniões que se emaranham nessas páginas são conseqüências desse princípio. Vemos em primeiro lugar a anarquia mental, a anarquia do século. Uns acham que estamos em decadência; outros que progredimos. Aqui brada um que estamos no momento da luta; ali brada outro que não temos escolas literárias; acolá mais outro insurge-se contra a luta e a decadência. A verdade é que cada um cuida de si. A época é de um individualismo hiperestésico. Há a estagnação dos corrilhos literários, mas a fúria de aparecer só — é prodigiosa. Os vencedores acham todos o jornalismo animador, o jornalismo necessário; os que por inaptidão, trabalho lento ou hostilidade dos plumitivos, ainda não se apossaram das folhas diárias, atacam o jornalismo, achando essa idéia uma elegância de primeira ordem. São geralmente os poetas, os poetas que fatalmente tendem a ver o seu mercado diminuído — porque o momento não é de devaneios, mas de curiosidade, de informação, fazendo da literatura no romance, na crônica, no conto, nas descrições de viagens, uma única e colossal reportagem.
— A literatura, uma reportagem? — Desde o romantismo, desde Vítor Hugo tende a ser, simplesmente, reportagem impressionista e documentada. É a sua força. A poesia conservou-se no ideal, e por isso, como bem disse Clóvis, tem os seus moldes gastos. — Ainda outro dia um homem, para fazer sucesso em verso na França, teve que fazer uma reportagem poética sobre a vida dos galinheiros...
— O meu amigo é paradoxal e insolente.
— É o que quase sempre não são os seus entrevistados. Foi-se o tempo das ganas, das raivas, das descomposturas. Agora não se ataca mais. Não há tempo. A delicadeza é um resultado da falta de tempo. Já Avianus, um fabulista latino que La Fontaine copiou com descaro, dizia: nullus proemissis vincere posse minis...
— Mas em suma? fiz eu enfadado com aquele excesso de palavras.
— Em suma? — Sim, sem circunlóquios, francamente...
— O inquérito mostra que não há escolas no Brasil, que é uma fantasia a idéia de literatura do norte e literatura do sul, que já não há romancistas, que os grandes poetas e os grandes escritores são os que estão na Academia, e que não há uma só das nossas idéias que não seja bebida no estrangeiro, nos livros do Félix Alcan, ou nas extravagâncias publicáveis do Mercure de France; que o naturalismo morreu, que o nefelibatismo agoniza, que a poesia estrebucha...
— Tudo para pior.
— Há também o lado bom, e esse é que a alma e o cérebro do Brasil tomam as feições modernas, que as idéias do mundo são absorvidas agora com uma rapidez que pasmaria os nossos avós; que o jornalismo inconscientemente faz a grande obra de transformação, ensinando a ler, ensinando a escrever, fazendo compreender e fazendo ver; que o individualismo e o arrivismo criam a seleção, o maior esforço, a atividade prodigiosa, e um homem de letras novo, absolutamente novo, capaz de sair dessa forja de lutas, de cóleras, de vontade, muito mais habilitado, muito mais útil e muito mais fecundo que os contemporâneos.
— E esse homem, o literato do futuro...? — É o homem que vê, que aprendeu a ver, que sente, que aprendeu a sentir, que sabe porque aprendeu a saber, cuja fantasia é um desdobramento moral da verdade, misto de impassibilidade e de sensibilidade, eco da alegria, da ironia, da curiosidade, da dor do público — o repórter. E aos livros desse — sem ódios, sem corrilhos, sem extravagâncias — não faltarão nunca o imprevisto da vida e o sucesso que é o critério mais exato da aclamação pública.
Levantei-me, e deixei a causa moral do meu inquérito. Mas deixei-o com uma convicção: é que positivamente elevara ao auge a confusão de idéias, de biografias, de opiniões, de raivas, de satisfação, com tanto esforço colecionadas. Felizmente já um filósofo disse que as verdades do homem são em última análise os seus erros irrefutáveis...