Conjunto de sagas - histórias épicas, folclóricas, de amor, mistério e aventura - universaliza o sertão, mistura o popular e o erudito.
Sagarana reúne nove contos nos quais estão presentes os temas básicos de João Guimarães Rosa: a aventura, a morte, os animais metaforizados em gente, as reflexões subjetivas e espiritualistas. Cinco deles - O burrinho pedrês, Duelo, São Marcos, A hora e a vez de Augusto Matraga e Corpo fechado - trazem para os sertões de Minas Gerais peripécias de antigas histórias épicas ou heróicas. O lirismo dos temas do amor e da solidão transparece em Sarapalha e Minha gente. Em A volta do marido pródigo há uma espécie de heroísmo gaiato, enquanto que as reflexões sobre o poder e a fraqueza centralizam-se em Conversa de bois.
A onisciência do narrador dos contos em terceira pessoa (O burrinho pedrês, A volta do marido pródigo, Sarapalha, Duelo, Conversa de bois e A hora e vez de Augusto Matraga)
Contos em primeira pessoa - São Marcos, Minha gente, Corpo fechado - evidencia-se o universo primitivo e fantástico de Guimarães Rosa.
Em Minha gente, um dos contos mais bem tramados do livro, a história principal é emendada, alterada, recontada por pequenos detalhes e elementos dados pouco a pouco ao leitor.
Repletos de histórias dentro de histórias, de digressões filosóficas e de monólogos interiores que desvendam o universo dos homens e dos bichos. O sertão é o mundo.
O burrinho pedrês - O velho burrinho Sete-de-Ouros, por falta de outras montarias, é engajado para levar uma boiada vendida pelo dono da fazenda, o major Saulo. Durante a viagem, ficamos sabendo que o vaqueiro Silvino quer matar o vaqueiro Badú, por causa de uma moça. Francolim, que é uma espécie de ajudante-de-ordens do major, denuncia a briga ao patrão, mas nada é feito para evitá-la.
Silvino chega a provocar um acidente, com o intuito de fazer os bois atropelarem Badú. Quando vê que não consegue matá-lo desta forma, planeja fazê-lo pessoalmente, na viagem de volta, depois de atravessarem o ribeirão cheio pelas chuvas. Nesse retorno, Badú está bêbado. Por isso, os demais vaqueiros deixam-no com o burrinho Sete-de-Ouros. Ao atravessarem o ribeirão, morrem na enchente oito vaqueiros, inclusive Silvino. Badú é salvo heroicamente pelo Sete-de-Ouros, que consegue chegar à outra margem e ao descanso merecido. Traz, vitorioso, o bêbado apaixonado na sela e Francolim agarrado no rabo...
A volta do marido pródigo - Lalino Salãthiel é um mulatinho descarado: simpático, malandro, enganador e esperto. Sua esposa, Maria Rita, abandonada por ele, passa a morar com o espanhol Ramiro. Quando volta das aventuras no Rio de Janeiro, Lalino consegue recuperá-la das mãos do espanhol, que afugenta para longe.
Sarapalha - Há uma narrativa principal, que é bem simples: dois primos (Argemiro e Ribeiro), atacados pela febre terçã, recusam-se a sair de onde estão, a fazenda de Ribeiro. Enquanto esperam chegar os acessos da febre, vão lamentando a doença e a partida da esposa de Ribeiro. Em certo momento, Argemiro revela que havia se apaixonado pela esposa do outro, mas sem ter faltado com o menor respeito a eles, já que nunca contara o fato a ninguém. Ao saber disso, Ribeiro o expulsa da fazenda, e Argemiro vê-se obrigado a enfrentar o mato, todo enfeitado, tremendo também com a sezão (febre).
A outra história que aparece no conto é a da partida da esposa de Ribeiro, que o abandonou por um vaqueiro. Ribeiro, entretanto, prefere ouvir uma história em que ela é raptada pelo diabo...
(Os protagonistas de Sarapalha representam o homem em desgraça, sem esperança nem horizonte).
Duelo - Turíbio Todo é um seleiro papudo, vagabundo, vingativo e mau, nas palavras do narrador. E sua esposa (Dona Silivana) não parece ter melhor caracterização, uma vez que trai o marido e depois finge aceitá-lo de volta, sem se desligar do amante. O militar Cassiano Gomes, um Don Juan, amante da esposa de Turíbio, é surpreendido (sem saber) em flagrante pelo marido traído. Para vingar o adultério, Turíbio pensa assassinar o rival, mas descobre que matara na verdade o irmão dele. Inicia-se aí uma segunda vingança: não mais um marido buscando o amante da esposa, mas um homem (Cassiano) buscando o assassino do irmão. Turíbio, então, passa de perseguidor a perseguido e, embora ao alvejar o homem errado tenha demonstrado incompetência, consegue escapar às perseguições de Cassiano, querendo cansá-lo. O militar sofria do coração e, com o esforço da perseguição, poderia encontrar a morte, por causa da doença. Até esse ponto, Turíbio acerta. O coração fraco de Cassiano leva-o à morte, mas o destino tece armadilhas totalmente inesperadas. A vingança de Cassiano se completa pelas mãos de um capiau, que, de acordo com o quer prometera ao militar, em seu leito de morte, encontra Turíbio e inesperadamente o mata.
Minha gente - Neste conto, o moço da cidade vai passar uma temporada no campo, onde ocorre a história. Acha que se apaixona pela prima, Maria Irma, mas acaba se casando com a amiga desta, Armanda, que de repente o encanta para sempre. A prima então se casa com Ramiro, o ex-noivo da amiga, também muito satisfeita. Este final feliz é claramente reconhecido pelo personagem-narrador no último parágrafo do conto: “E foi assim que fiquei noivo de Armanda, com quem me casei, no mês de maio, ainda antes do matrimônio da minha prima Maria Irma com o moço Ramiro Gouveia, dos Gouveias da fazenda Brejaúba, no Todo-Fim-É-Bom”.
O nome do local - Todo-Fim-É-Bom - coincide exatamente com o desenlace da narrativa.
São Marcos - Há duas histórias neste conto. Uma delas, bem menor, é inserida no meio da outra, que conta a desavença entre o narrador e um feiticeiro. Por ter ridicularizado o negro Mangalô. José, o protagonista, torna-se alvo de uma bruxaria. Mangolô constrói um boneco-miniatura do inimigo, e coloca uma venda em seus olhos, o que faz José ficar cego, perdendo-se no meio do mato. Para conseguir achar o caminho de volta, mesmo sem enxergar, ele reza a oração de São Marcos, sacrílega e perigosa.
-Em nome de São Marcos... Isso é reza brava...
Com o poder dado pela oração, mesmo cego José encontra a casa de Mangolô, ataca o negro e o obriga a desfazer a feitiçaria.
A outra história, dentro desta, constitui um pequeno episódio no qual José fala de um bambual onde ele e um desconhecido travam um duelo poético; o desconhecido fazendo quadrinhas populares, e ele colocando poemas como nomes de reis babilônicos.
(Em São Marcos, à feitiçaria que pode punir e também serve como reação à punição, enfatiza-se o dom e a magia da palavra cujo canto e cuja plumagem são celebrados no conto.)
Corpo fechado - Esta é uma história de valentões e de espertos, de violência e de mágica: Manuel Fulô (aliás, Manuel Véiga, ou Manuel Flor, ou Mané das Moças, ou Mané-minha-égua) era dono de uma bela mulinha, na qual se exibia todo orgulhoso. Por conviver algum tempo com os ciganos, aprendeu deles toda a sorte de truques possíveis, envolvendo animais de montaria. Quando decide casar, Targino, um dos valentões (aliás, um dos últimos) da cidade cisma em ter para si a noite de núpcias:
Para enfrentar o valentão, Manuel faz uma troca com uma espécie de curandeiro da vila: dá-lhe sua mulinha e em troca o outro faz um feitiço para lhe fechar o corpo. Então, Manuel sai à rua a fim de enfrentar Targino, com a reprovação de todos. Acontece que este erra todos os tiros e Manuel o mata com sua faquinha.
(Em Corpo fechado temos uma temática - O instrumento da vitória, um curandeiro, fecha o corpo e assim anula a fragilidade do protagonista que, imantado pela fé, vence o vilão, brutal e valente, mas sem o amparo do sagrado).
Conversa de bois - Os personagens desta história, além da irara, são onze: o carreiro Agenor Soronho, o menino-guia Tiãozinho, o defunto seu pai e os oito bois do carro.
O carreiro é o bandido: amante da mãe do guia, maltrata o menino, órfão de pai. Os maltratos de Agenor ao menino vão crescendo, até que os bois intervêm: começam a conversar entre si, contam histórias, comentam a vida e, enfim, percebem a maldade de Agenor e o sofrimento do menino. No final, os bois, humanizados, unem-se psiquicamente ao menino. Ele, então, consegue superar sua fraqueza com a força dos bois. Aproveitando que Agenor havia dormido perto da roda do carro, os bois e o menino dão um arranco forte e matam o carreiro, cuja cabeça é quase cortada.
(Conversa de bois é também uma história que conta a travessia, a superação da fraqueza convertida em força.)
A hora e vez de Augusto Matraga - Augusto Estêves, filho do Cel. Afonsão Estêves das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Augusto Matraga é um fazendeiro violento e beberrão, criador de casos e boêmio, que não respeita as pessoas nem a família. Sua esposa, Dionorá, suporta-o pelo medo que tem da reação do marido se tentar se separar. A filha, por sua vez, não consegue entender por que o pai age dessa maneira.
A mudança na vida de Matraga vem depois de uma emboscada que sofre. Dado como morto, a mulher e a filha vão embora com Ovídio Moura, que quer Dionorá por companheira. Augusto Matraga, moribundo, é socorrido por um casal de pretos, que consegue o milagre de fazê-lo sobreviver aos ferimentos.
Quando se recupera, Augusto vai para longe com o casal, tentando acertar o passo de sua vida, perdida e desregrada. Passa, então, um período de regeneração.
Depois de se dedicar durante muito tempo ao trabalho, sem conforto ou diversão, Matraga decide voltar ao saber que a mulher estava feliz com Ovídio, mas a filha havia se prostituído.
Na viagem, reencontra o chefe jagunço Joãozinho Bem-Bem, que havia hospedado em sua casa, e com quem fizera amizade.
Mas Augusto e o chefe jagunço se desentendem, pois este queria vingar a morte de um capanga e, na ausência do assassino, pretendia matar alguém de sua família. Matraga acha isso injusto e enfrenta o parente Joãozinho Bem-Bem.
No final do conto, ambos morrem, mas Augusto para ter consigo a sensação do dever cumprido.
(A hora e vez de Augusto Matraga, finalmente, é uma história de redenção e espiritualidade, uma história de conversão.)
Linguagem - Não é de estranhar que se compare ou se associe a linguagem de Guimarães Rosa ao estilo Barroco, pois em ambos encontramos os jogos de palavras, o prazer lúdico, quase infantil, dos trocadilhos, das associações inesperadas de imagens, do trabalho sonoro e poético com a prosa.
Guimarães Rosa é, em conclusão, o criador de uma obra em que elementos da cultura popular e elementos da cultura erudita se mesclam para reinventar a força da linguagem sertaneja e mineira.
Fonte: beatriz.zeringota.vilabol.com.br
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