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A Mandinga

João Simão Lopes Neto

Capítulo XIII

Não se soube nunca que assunto de alta relevância ocupou, por espaço de mais de duas horas, a atenção de Nham Pombinha e do Elesbão.

Que resultado teriam dado as indispensáveis exumações das cenas em casa do Caboclo, aquela prisão tão fora de propósito dentro do caixão de milho, e por último a invasão avassaladora dos gorgulhos importunos e nojentos?

Que lhe diria Nham Pombinha da mandinga ministrada ao Cirilo, e que resultado tão fatal e imprevisto lhe trouxera?

Falar-lhe-ia, por seu turno, o Elesbão, nas suas contínuas consultas ao Caboclo, a quem ainda na véspera comprara por um bom preço uma droga destinada a aproximar o seu ardor juvenil de que, indiscutivelmente, deveria ter a Nham Pombinha, e outra destinada a ativar nela os efeitos do contágio, — na hipótese de um consórcio?

Nunca se averiguou com exatidão nada disso.

O que é verdade é que já tinham dado as nove horas da noite, Nham Pombinha terminava o chiló recostada indolentemente na chaise longue, em que, por vezes, vimos o Cirilo, e o Elesbão não dava sinais de quem tinha pressa de retirar-se.

Com grande escândalo, mesmo, da mucama, uma mulatona de 18 anos a quem por várias vezes o Hilário lançara olho cobiçoso e aceso.

— Nham Pombinha mandou servir o chá mais cedo que o costume, e o Elesbão lá ficara à mesa, beatificamente, sentado à cabeceira, dando-se já uns ares de quem estava em sua casa.

Já haveria namoro, quatro meses depois da morte do primeiro?

— Irra! que mulherzinha!

E a criadinha não se conteve que não fosse à cozinha dar a taramela e comentar aquele procedimento da ama em dar tão de pronto substituto ao Cirilo... tão bom que era... coitado.

Mas o tempo voa. Os acontecimentos precipitam-se sem respeitar nem as conveniências, nem os preconceitos, nem os cálculos.

Adormece-se hoje para despertar amanhã, e nesse meio tempo, ficamos ricos ou miseráveis, transformando-nos em Júlio Cesar ou Isganarelo... às vezes mesmo em Pedro Sem.

Estamos, pois, na casa do senhor José Pereira de Moraes, precisamente na noite em que se casa o grandalhão do Hilário com a franzina Doricélia.

Todos os compartimentos do prédio novo, que a menina comprara com o auxílio da mamã Claudina e os conselhos do tabelião Lima, muito entendido nessas cousas, — resplandeciam de convidados, luzes, flores, música e mil adornos custosos.

Havia uma hora que se esperava o aparecimento da noiva, de cuja toilete se contavam maravilhas.

Nas janelas, do lado exterior, apinhavam-se os curiosos, acotovelando-se trepando uns aos ombros dos outros. As mulheres tinham até mandado vir escadas e cadeiras para apreciarem melhor a cena.

Dentro, na sala principal, havia uma expectativa solene, como se tratasse de abertura das câmaras legislativas.

A porta que dava para a alcova nupcial estava ainda fechada. Fora uma esquisitisse de D. Claudina, que gostava muito de lances teatrais.

O juiz de casamento, respirando gravidade, muito teso, abotoado na casaca preta atravessada pela faixa verde e amarela, esperava, puxando o pigarro e conversando em reserva com o velho José Pereira, com uns acenozinhos de cabeça protetores. O escrivão sobraçando o livro passava em revista a boa roda, apreciando à socapa os namoriscos, e calculoando a que soma teriam atingido os defits de certos papás para exibirem ali as filhas cobertas de diamantes e a esmagar sedas...

Um sussurro discreto enchia a sala toda a trescalar perfumes fortes, que subiam à cabeça, naquela atmosfera cálida, já saturada dos eflúvios das flores e do suor humano.

O Juiz, consultado, achou prudente abrir um bocadinho das janelas.

E o José Pereira,muito obsequiso, limpando a testa, lá foi, cheio de cerimônias — com licença — com licença, abrir um bocadinho de cada folha, enquanto pudesse entrar um novo oxigênio.

Nesse momento, porém, abriam-se de par em par as portas do quarto nupcial e o cortejo feminino entrava na sala, motivo pela qual toda a onda que aguardava fora o melhor meio de bispar a cena, atirou-se como se a um arroio tivessem de repente tirado a represa. Uns treparam descaradamente para os peitoris, outros, como se estivessem pago entrada, arregaçavam as cortinas pendentes, chegando-lhes a ponta da bengala e guarda-chuva...

E tudo isso, numa algazarra indecente, por entre ditinhos com pretensão a espirituosos, analisando tudo, com uma ponta de malícia, de que até as senhoras gostavam muito, abafando no lenço o risinho maldoso...

Quando a Doricélia, toda de branco, rendas, contas e flores de laranja, apareceu na sala, seguida de mamã Claudina, radiante, num vestido verde e rendas pretas, muito solene, da madrinha, a respeitável D. Miquelina Cidade, de grenat e toda cheia de brilhantes, e de algumas conhecidas também de branco, foi um deslumbramento...

Pela porta do corredor entrava o Hilário, muito mais alto e espadoado ainda, por causa do traje de etiqueta que lhe cinzelava os contornos, pondo-os em relevo seguido de Nham Pombinha, majestosa, muito pálida, num vestido de gorgurão preto, sem o mínimo enfeite, e com uma estrela de pérola no alto do penteado, desdenhosa, olhando para toda aquela gente como para um mundo que não era o seu e não a entendera nunca.

— A madrinha mete a noiva num chinelo, casquinou a vozinha de uma rapariga assentada à janela.

— Mais carnes tem ela, observou um atrevido ao lado.

— Cale a boca, seu indecente.

E já ia saindo um desaguisado.

Depois, vinha o Elesbão, que devia casar dali a três meses, muito mesureiro, com ar de entendido, procurando sempre por o nariz a altura do degote de Nham Pombina...

Eram os padrinhos do Hilário, triunfante de força e de seiva, como Nham Pombinha, no meio daquela gente toda engelhada...

O José Pereira veio recebê-los e convergindo este para outro grupo, como ele fundiu-se, caminhando todos para a mesa onde o Juiz de Casamentos, esperava, mais teso, mais grave que ao começo.

Houve um silêncio geral. Depois começou a cerimônia civil, que concluiu sem incidentes para dar lugar à religiosa, no altar armado a um canto... tudo púrpura e dourados...

Vieram os abraços, as boquinhas, as lágrimas dissoradas ao canto do olho, as felicitações:

— Seja feliz...

— Muitos anos e bons.

Nham Pombinha abraçou Doricélia, voltando o rosto, enquanto chegou a vez do Hilário, apenas lhe pôs a mão no ombro.

D. Claudina abundava em muitas considerações sobre o casamento, atormentando o Elesbão com conselhos de velha entendedora.

— Aquilo é mulherzinha para encher uma casa, conclui ela, , apontando para Nham Pombinha.

A conversação tornou-se então mais generalizada, e pouco a pouco se foi acalorando, quando sairam o vigário e o juiz, com muitas desculpas, por não poderem aceitar nada. Estavam indispostos. Ia ficar tarde.

De repente, todos cairam numa moleza enervadora. Não tinham assunto. Que diabo! Se já estava terminada a cerimônia, por que não se despachava a gente?

Mas D. Claudina acudiu logo com a costumada exuberância palavrosa a reanimar a assembléia convidando-a passar à sala de jantar...

E foi então uma algazarra. Perdeu-se a cerimônia — Ria-se alto, de tropel, os que estavam mais perto da porta correram para o interior, os homens deram o braço às senhoras graciosas, abanando-se com os clacks, deitando flanância.

Esvaziou-se a sala, cujas janelas os criados, vieram, então cerrar por cautela.

Os espectadores é que não se conformaram com semelhante decisão, que tanto os contrariava no prosseguimento do seu exame.

E, então, zangaram-se, e vingaram-se cerzindo a pele dos noivos, dos papás e dos convidados.

Foi uma razzia.

— Muita farofa. Afinal, a noiva é um canhas.

— Mas tem dinheiro.

— Também é a única coisa que ela tem.

Felizmente não estava ali o Hilário.

A bancada feminina passava em revista a noiva, a sua toilete e o mau gosto de expor no quarto umas tantas coisas.

Aí acudiu uma velha solteirona, que a fealdade deixara na seção do refugo, mas a quem rancores não saciados insuflavam a cólera contra todos os noivos.

— Aquilo é uma imoralidade. Até os camisolões! o melhor é logo chamar um fotógrafo!

— E como se fez esse casamento? Parece coisa de bruxedo. Uma gente que nem podia se ver! Aí há coisa.

— E não viste como a espevitada da viúva do seu Cirilo estava tão enfunada? Parece que tem o rei na barriga!

— Sim. Na barriga do marido é que pôs algum rei...

— Que é que me contas, menina?

— Ao menos dizem. Foi por causa do enteado!

— Que horror! Olhe que sempre vivemos numa terra...!

E era talho de alto a baixo, sem misericórdia, como quem corta no que é seu.

Afinal, os grupos dissolveram-se.

Passamos por alto sobre o banquete... um jantar régio em que em casa de Luculo, para qual o Hilário limitara-se a olhar, por cautela, ao passo que a sua sogra cevava um apetite extraordinário.

Depois de muitos brindes, de novos cumprimentos e felicitações, veio o chá e após, começou a dispersão, aceleradamente, como quem tem pressa de sair dum lugar onde nada mais lhe resta a fazer.

Ficaram sós, a madrinha de Doricélia, os noivos e os papás.

Descei agora, oh fadas benfazejas protetoras do Amor, sobre o perfumado ninho do novo casal, e fazei-o feliz, enquanto o Elesbão vai muito nervosamente para a casa roendo as unhas, aguardando o seu dia, que não vem longe.

E Deus lhes de muito boa noite.

O famoso dente de jacaré não fora esquecido. Aquela poderosa arma do arsenal do Caboclo, a qual, ao pensar de Doricélia e de D. Claudina, tão bons resultados dela, lá fora colocado em baixo do travesseiro pela cautelosa mamã, ao passo que, por sua vez, (e para que a noite terminasse toda em mandigagens) o Elesbão ia imaginando de que meio se valeria para arranjar com que a mucama de Nham Pombinha pusesse no chá de sua ama, um pozinho branco e solúvel saído do suprádito Caboclo.

Capítulo XIV

Que insofridos arrancos dava o maltratado orgulho de Nham Pombinha!

Que a lanceada tristeza escondia aquela capa rígida de altivez, que manifestara na solenidade do casamento de Hilário!

Como era chato, pequenino, desprezado o Elesbão! Como ela fazia, de si para si, ressaltar, sob o fogo ardente da sua pupila, a desempenada figura do enteado, um latagão de rapaz, imponente, correto na sua toilete de rigor, à vontade e desembaraço, e o seu noivo — dela — aquela idiota, com uns pés colossais, uma bocarra profunda e uma carregação de frases relés, que lhe causavam tristeza — a ela — tão habituada a deitar fogo de artifício nas suas palestras, à custa da grande enfiada a romances, que lera, somente em expansão a um pouco da sua concentrada raiva, quando, depois dos cumprimentos, após a benção, fingindo abraçar Doricélia e perto do Hilário, entregou disfarçadamente àquela um chinelo, aquele célebre pé de chinelo, que a Doricélia, embatucada, recebeu dócil.

— Olhe: junte com o outro que talvez faça falta, segredou-lhe Nham Pombinha.

— Mas que vem a ser isto? perguntou o Hilário, deveras intrigado.

— Sua mulher que lhe explique, retrucou Nham Pombinha, afastando-se.

Deixava-lhes o primeiro espinho.

Quando — meses mais tarde — celebrava-se o casamento do Elesbão com Nham Pombinha, muito a capricho, como que envergonhado, Hilário já estava inteirado...

Farto até das gorduras da Doricélia, que dia a dia mais e mais engordava, da sua sonolência preguiçosa, da sua pretensão a elegante, quando tendo de alcochetar o vestido, os cordões do colete tinham de dar o máximo de sua resistência.

Fartíssimo da D. Claudina, com o seu inesgotável palavriado, ôco, vazio, procurando fazer dele um baby delicado e mimoso, atabafando-o em chales e panos quentes... fazendo-o engulir chazinhos caseiros, em que ele encontrou sabores estranhos...

E, além de tudo, muitíssimo fartíssimo do absurdo José Pereira de Moraes, que agora, e depois que o genro lhe encurtava as rédeas aos gastos, voltara à baila com a história das cacetadas dadas por Hilário no Quatro-olhos, um cachorro tanto da minha estima, dizia. Se bem que Nham Pombinha nunca se tivesse furtado às visitas do novo casal, contudo não as retribuia. Ao Hilário isso passava em branco, nem notava; mas Doricélia e D. Claudina e até o Moraes faziam disso um cavalo de batalha e azoinavam o rapaz.

E quando foi do casamento, que Nham Pombinha avisara, pedindo-lhes de comparecer e que o Elesbão muito prazenteiro insistira tanto, quando foi para se decidirem a ir ou não, é que estalou a tormenta.

D. Claudina abriu os diques à eloqüência e à hidrofobia e descarregou em Nham Pombinha, ausente, pancada de criar bicho.

— Aquela emproada! Não precisamos dos favores dela e nem daquela cara de bagre! Somos ricos, não precisamos das suas migalhas.Bem dizem por aí que o pobre do Cirilo, um homem tão bom, não morreu de moléstia cristã!...

— D. Claudina lembre-se que eu não posso ouvir o que a senhora está aí a vociferar... atalhou o Hilário abespinhado.

— É mesmo como a mamãe disse. Já te esqueceste do chinelo teu que ela me entregou na noite do nosso casamento? Aquela intrigante! Só para te fazer desconfiar! Como se nós fossemos como ela para andar com bruxarias! Estes, que a terra há de comer, viram, e estes tem ouvido bem boas coisas da tal prendinha...

— É, é, é, e é... esfuziou a vozinha esganiçada de D. Claudina. Pensa que não se sabe umas certas visitas que a tal recatada fazia a um mandingueiro da várzea chamado Caboclo?... Pensa? Pois bem que se sabe. Eu é que não sou dessas; até me metem medo essas coisas; nunca teria coragem de fazer feitiçaria a ninguém... Sou uma mulher séria, fique sabendo!

— Está bem, está bem. Não quero saber disso: quem vai ao casamento sou eu.

— Não há de ir. O que parece o marido andar saracoteando na pândega e a mulher...

— Que pândega, minha sogra! Pândega um ato tão sério...

— Que sério, que nada.

— Pois se ninguém quiser vir, vou eu. Pouco me importo, e é a minha obrigação.

Houve destampatório cabeludo da parte de D. Claudina. Parecia que vinha a casa abaixo com os guinchos e riso da mulherzinha.

Doricélia abriu as torneiras lacrimais e foi um deus nos acuda de suspiros capazes de abalar alicerses, e soluços como bacias num tacho de calda a ferver.

Mas o Hilário foi inabalável.

Havia de ir e ia.

— Que rosca! mastigava ele furioso.

Noite.

A casa de Nham Pombinha, iluminada, porém discretamente cerrada as janelas, nãomostravam nada de excepcional a quem passava, a não ser o notar alguns carros de praça postados juntos às calçadas, e os boleeiros, em pequenos grupos, conversando, e dando por vezes umas gargalhadas — sui generis — únicas, impregnadas de grossa brutalidade com que são provocadas.

Seriam dez horas.

Tinham-se voltado há pouco da igreja, onde por casualidade muito pouca gente havia, de modo que o casamento era quase ignorado até dos próprios antigos amigos de Cirilo, que não deixariam de estranhar aquela nova ligação da sua viúva com um quindam que não se sabia bem quem era.

Os poucos convidados estavam na sala fumando e conversando e rindo, não se atrevendo a falar mal de nada, porque o Hilário andava seguido de grupo em grupo.

O Elesbão dando largas ao seu contentamento falava como nunca e encarecia, cativado, os méritos de Nham Pombinha contra, até, certas pontinhas de malícia com que seus amigos se atreviam a bordar os cumprimentos.

Pouco se demoraram à mesa, porque Nham Pombinha mesmo dona da casa, viúva de Cirilo, mulher do Elesbão e ex-madrasta do Hilário, segundo os preceitos dos seus romances, não era também de comezinhas e glutonérias.

Tudo, realmente, muito fino, muito delicado e servido com parcimonha, não tanto por mesquinharia, como por elegância, com grave desgosto dos amigos e padrinhos do Elesbão, dispostos a forrar o estômago com sólidos lastros e abundantes regas de vinho.

A mucama de Nham Pombinha, já certa dos seus hábitos, servi-a habilmente e mais habilmente ao Elesbão, que, como sendo o festejado, atirava-se vorazmente às pratazadas e abundantes repetições.

Era o felizardo, o privilegiado!

O Hilário, a esquerda da Nham Pombinha, macambúzio e inquieto, não esquecia a cena que o esperava em casa, de chegada.

E, cruel desfeita ao seu sacrifício, Nham Pombinha não se dignava a dirigir-lhe uma, uma única palavra!

Se bem que o Elesbão se desfizesse em alegrias e palavras de agradecimento e isso até o aborrecia, dela, só dela, queria um olhar, uma palavra, um sorriso, por nada, por nada, mas só para o não esmagar diante dos argumentos da sogra e da nulher, a falta de uma amabilidade, que Nham Pombinha parecia ferozmente esquecer: para dar o gostinho àquelas duas senhoras, de encontrarem a consciência do Hilário, de acordo com as prevenções.

Ele, ele, vir ali, e sair, e ter de confessar que realmente não se fazia caso dele, que era dispensável, e que assim como ele compareceu, não se lhe falou, se não tivesse vindo, não teria sido lembrado.

E nesta disposição de espírito ainda mais triste ficou por ver, alí, naquela mesa uma chusma de caras desconhecidas e imbecis, e na cabeceira repaltreado, repleto, vermelho e indecoroso, no lugar do seu falecido pai, como dono, o Elesbão!

E insensivelmente descambara-lhe o pensamento para Nham Pombinha.

— Como? Pois era possível?

Como é que aquela mulher, até ali cercada de uma certa auréola de respeito, podendo satisfazer os seus caprichos, vivendo no meio do bem estar e de relativo luxo, relacionada como era, que encantos encontrava naquela grande casaca do Elesbão, para se lhe votar inteira, corpo, alma, liberdade, mocidade, sonhos, pretensões?... Pois na verdade a mulher será um tão estranho ser, que a aberração não a desgosta, ao contrário, atrai-a? Fazia-lhe a justiça de julgá-la infeliz por se casar com Cirilo, com seu pai, por já ser um velho, gasto na vida, enferrujado em todas as molas, gougoento. Mas. Adeus! Mesmo assim era infinitamente superior a Elesbão, que era uma sombra, um idiota, um bagagem! Aquele Elesbão, aquele Elesbão!...

E um esfuziar de olhos animou a fisionomia de Hilário.

— Acabando isto, vou-me embora e nunca mais apareço! É até ridículo!...

— Hilário, repare que vai virar esse copo, por cima do meu vestido! Não enxerga já? disse sorrindo, porém secamente, Nham Pombinha.

Realmente, Hilário, abstrato tinha o braço sobre a mesa, e, encostado a uma taça de champanha, qualquer movimento para o lado fazia virar o frágil cristal!

— Desculpe-me, não tinha reparado.

— O que tem você hoje? São saudades da sua Doricélia? Causticou Nham Pombinha.

— Oh! deixe. Não me aflija mais, pediu ele.

Estava-se no fim da ceia. Um descompassado e ruidoso arrastar de cadeiras, guardanapos atirados, abertos, enovelados sobre a mesa. Desordem inteira na arrumação do serviço. Pigarrear. Arrastar de pés. Rápido à luz de um fósforo, logo extinta. Pequenas pontas de fogo nos charutos. Dispersão para a sala da frente, Elesbão abrindo a marcha.

Nham Pombinha ficou-se um pouco, dando várias ordens aos criados.

O Hilário, vagaroso, foi-se afastando também do rosto baixo, correto no seu traje preto, de casaca, o peito da camisa muito branco.

Nham Pombinha acompanhou-o com o olhar, opressa, ansiada, o seio opulento, vibrante, enérgico, sobre o corpete do seu elegante vestido de surah preto.

Nham Pombinha depois de dar uma volta pela sala, conversando, sendo festejada, ao passar perto do Hilário, este adiantou-se e disse-lhe: — bem, boa noite, Nham Pombinha. Eu me retiro, desejando-lhe mil venturas.

— Ah! Já vai? Tão cedo... olhe, leve umas balas para a Doricélia...

E foi andando. Ele acompanhou-a, sentindo-se ridicularizado.

E ao passar pelo seu quarto, o seu grande quarto, catitamente arranjado, Nham Pombinha entrou, e, sentindo-se seguida, voltou-se e disse ao Hilário:

— Entre. Tem medo?...

Ele deu um passo à frente e ela, audaciosa, fremente, palpitante, atirou-se-lhe ao pescoço, enlaçou-lhe a cabeça com os seus belos braços, e atirou-lhe à boca, colado lábio contra lábio, um beijão, alucinado, longo, inexorável!... E ele, aquele fervido respeitador daquele belo pedestal, levado na fervida exaltação daquele minuto completo, esquecido de tudo, só sentindo aquele contato, aquele perfume. Aquela pressão, retribuiu-lhe a carícia.

O Elesbão, na porta, com os olhos desmedidamente abertos, a boca esfauceada de orelha a orelha, a mão no ar, a voz no mais alto ponto da interrogação, atirou esta frase piramidal:

— Homessa!

Capítulo XV

— Homessa, por quê? perguntou afoitamente Nham Pombinha, soberba, no seu gesto de despreocupação pelas conveniências sociais, e deixando Hilário de lado. Homessa, por quê? de que se admira? Por ventura não é muito natural que uma madrasta, quase uma segunda mãe, na noite em que desata o último vínculo que a trazia presa a um antigo casal, em que canta a última estrofe de um poema, por sinal bem pouco alegre, não é natural que ela desabafe as mágoas e as recordações de sua mocidade, no seio de um amigo íntimo, de um quase filho? O mundo está muito corrompido! Aposto que o Sr. Elesbão, seu marido, já me supunha capaz de traí-lo, justamente nas primeiras horas do nosso consórcio?

— Não. Mas é que...

— Sim, eu compreendo. O Sr. é como todo o mundo: julga pelas aparências. Julga de toda a fazenda pela dobra de cima. Oh! Como isso é mesquinho! Não se poder dar expansão às dores íntimas sem ter necessidade de demarcar a compasso os nossos gestos, de arranjar uma medida para as nossas interjeições de dor. Não, Elesbão, o Sr. não é capaz de pensar isso de mim. Bem dizia Semiramis...

— Mas menina, atalhou o Elesbão quase a chorar, e com o coração derretido como rapadura, não precisas de andar com essas coisas comigo, que eu n/ao sou de cerimônias. Eu respeito muito as tuas interjeições e até acho-as bonitas. Se tens saudade de Semiramis, mandamo-la convidar para almoçar conosco amanhã.

Vendo-te assim abraçada a um homem e a fazer-lhe meiguices, compreendes, hein, fiquei meio apatetado. Mas lá, agora, pensar coisas esquisitas... Deus nosso Senhor me salve que não.

Nham Pombinha compreendeu que estava tão senhora da situação, quanto Hilário estava atacado de uma imbecilidade visguenta incapaz de dar uma palavra.

Os homens são todos uns patetas para essas coisas de lances de apuro. Se não os resolvem brutalmente a bala, fazem de Sancho Pança.

Nham Pombinha com aquele dilúvio palavroso, apanhado no último romance que lera, atordoara o Elesbão, e deixara-o embasbacado a ouvir como a mulherzinha falava bem.

— É de muita força, calculava o Hilário...

— Não desconfiaste de mim,não é, Elesbão? Era a primeira vez que Pombinha o tratava na segunda pessoa, e o peor era que, com a presença do Hilário, as coisas não podiam tão depressa tomar o caminho desejado por um noivo.

Por fim, o Hilário compreendeu que tinha de dizer alguma coisa para sair daquele embaraço.

— Meu amigo Elesbão, Nham Pombinha, antes que eu me retirasse, quis despedir-se de mim sem testemunhas. Era natural. Eu represento para ela um passado mais ou menos tranqüilo e relativamente feliz. Ninguém se aparta de um teto velho sem lágrimas mas, ao mesmo tempo; nos olhos de uma noiva não se toleram lágrimas que não sejam as da emoção ou alegria. Então, eu, como seu enteado...

— Nâo há dúvida, menino, não há dúvida. Ora, para que hás de estar aí com esse latim todo. Eu sei o que são estas coisas.

E ia conduzindo o Hilário para fora do quarto, dando-lhe palmadinhas à espalda, chamando-o familiarmente o meu grandumba, seu felizardo, e outras coisas assim doces e amáveis.

À porta da rua, torcaram-se as últimas despedidas...

— Almooço ao meio-dia, em, querendo já sabes... é com franqueza.

E voltou à alcova.

Nham Pombinha estava em outro apartamento contíguo trocando as roupas, aborrecida, nervosa com aquela interrupção da sua conferência com Hilário, com aquele acabamento de idílio ridículo e desastrado.

E despia-se febriciante, atirando com tudo à cara da criada alemã, tomada pelo Elesbão na colônia, a qual não entendia nada e ia sofrendo tudo com uma pachorra toda tudesca.

Eram onze horas da noite.

— Então, minha mulherzinha, não acha que são horas de nos acomodarmos?

Nham Pombinha, por detrás do reposteiro, que dividia os apartamentos, respondeu em tom desabrido, nervoso, como quem está acostumada a fazer e a dizer que o que lhe vem à cabeça.

— Olhe: Sabe que mais? Está muito calor e, quando faz calor, eu gosto mais de dormir só. O meu primeiro já sabia.

Não era uma razão para que o Elesbão o soubesse, ele que ia apenas voltar a primeira página de um livro que não conhecia, e do qual só vira a capa.

— Mas Pombinha...

— Olhe: durma um sono quietinho. Lá pela madrugada, com a fresca, falaremos.

E o Elesbão penalizado, submisso, admirado de quanto lhe sucedia de extraordinário, exclamou, pela segunda vez, na noite de seu noivado:

— Homessa!

Conduzindo a vela e deixando tudo às escuras, passava a criada alemã, gorda, corada, rochochuda, bem junto ao grande leito do Elesbão, feito no Lopes, deixando após si um perfume de almíscar irritante.

Em casa do Hilário, ia tudo numa polvorosa.

Doricélia, ainda de pé, desperta, rasgando as rendas do penteador de cetim azul celeste do segundo dia do consórcio, e falando muito alto, atirava-se ao Hilário em invectivas, indignada com a desobediência do marido indo ao casamento da madrasta, e com sua longa ausência.

Pois o Hilário não tivera o descoco de entrar-lhe em casa meia hora depois da meia-noite?

— Isto é imoral, bradava ela, soprando as palavras ao nariz do Hilário. É imoral, um homem casado, há pouco tempo, entrar em casa estas horas!

Fora o caso que o Hilário, ao sair da casa do Elesbão, ficara como que entontecido.

As sensações fortes, que lhe tinham produzido os abraços de Nham Pombinha, magnífica, no seu traje de noiva, subitamente transformados em diálogo de comédia, pelo aparecimento inesperado e intempestivo do Elesbão, tinham-no deixado com a cabeça oca, sem saber o que fazer. E o pior era que ele tinha ainda de aturar a birra da Doricélia, quando voltasse para a casa.

Este pensamento, sobretudo, levara-o a, instintivamente, afastar-se da rua de sua casa, como quem quer demorar o mais possível o aparecimento de um perigo com o qual deve inevitavelmente, contar.

Para onde ir? Tudo estava fechado, aquela hora. Não havia um café, ao menos, onde a gente se distraísse, um quarto de hora, a fumar um charuto palestrando com um amigo.

E,como a noite estava calmae de luar, fora até o Santa Bárbara pela Ponte de Pedra... Depois dera mais uma dúzia de voltas, aborrecendo-se a valer, cabeceando algumas vezes de sono, ou fechando propositalmente os olhos para não ver o quadro que na sua imaginação pintava: Nham Pombinha nos braços do Elesbão.

Por fim, não teve remédio. Foi para casa...

Aí foi Tróia.

Doricélia não esteve com meias medidas.

O tema para palestra foi uma indiscreta pancada que o tímpano do relógio fez ressoar, indicando meia hora depois da meia-noite.

— Então agora é que você vem da casa daquela delambida? Pensei que ficasse a fazer companhia ao noivo ou estivesse ajudando nos arranjos!

E desandou a torrente:

Aquilo era uma pouca vergonha. Ir tirar uma moça donzela de casa de seus pais, onde vivia feliz, para dar-lhe maus tratos, deixá-la abandonada como uma trouxa. Ir ao casamento daquela mulher? Isso nunca. O mundo dizia muita coisa, e além disso, o marido não deve ir onde a esposa não vai. Todo mundo havia de ter reparado. Casados havia tão pouco tempo!

O senhor não responde? É que a sua consciência o condena. Se não fosse assim, havia de achar muito justo o que eu digo. Para que casou comigo? Por causa do meu dinheiro? Maridos desses andam aos centos, se eu quisesse. Não precisava que o senhor me aparecesse com essa cara de sonso. Olhe, fique sabendo que eu não aturo desaforos comigo. Se as cousas não entrarem nos eixos, não se queixe. Quem me avisa, meu amigo é.

— Hilário calado.

A Doricélia passou das exprobações aos insultos, e a tal ponto levou os ímpetos de sua cólera, que a velha Claudina acudiu assarapantada, em saia branca e bata, esfregando os olhos e com uma vela de carnaúba cor de rosa na mão.

— O que é isto? que destapatório é esse, meninos?

— Sua filha está doida, D. Claudina, não vê como ela está a se rasgar a roupa toda.

— Doida, doida? Doido está você, seu pilantra. A mamãe já me conhece. Eu sou uma pessoa decente, muito diversa da tal sua madrasta, que tem andado com todo o mundo.

D. Claudina (não fora ela sogra!) aplaudiu a filha, logo que esta a inteirou de tudo.

Aquilo não tinha jeito. Se sua mulher não queria que ele fosse ao casamento, ficasse em casa. A gente de bem faz assim. Se não para que se casou?

Olhe, concluiu a Claudina, a gente séria lava a roupa suja em casa. O senhor sabe que, quando uma pessoa toma compromissos, deve cumpri-los, ou passa por mau e por patife. Nham Pombinha não é melhor que a minha filha, pelo contrário até é muito pior. O senhor tem de acabar com essa amizade, se quiser viver em paz aqui.

Afinal, o Hilário, irritado, levantou-se da cadeira onde se tinha atirado desde o princípio da conversa, foi ao bico de gás e fechou.

— Sabe que mais, suas furias? — Boa noite.

E ia a caminho para o quarto de dormir, quando o ruído seco de um objeto que lhe caira do bolso posterior da casaca fê-lo voltar, abaixou-se e apanhou-o. Era o chinelo que lhe dera a Nham Pombinha, dizendo-lhe que perguntasse à mulher o que significava.

Foi uma inspioração... o que é raro, porque nada é menos próprio a inspirar-nos do que um chinelo.

Ergueu-se pronto e a luz tíbia da vela, mostrou o chinelo.

— As senhoras que são tão sabidas, tenham a bondade de dizer-me: Onde está o outro pé deste calçado?

Foi um golpe de teatro.

Mãe e filha lançaram-se olhares assustados e vesgos, gritando como possessas e fingindo um desmaio, sacudindo os membros, atiraram-se inteirissadas ao chão...

— A mandinga, a mandinga...

Apagou-se a vela.

O Hilário desapontado, fora de si, sem atinar com o que fazia, atirou com o chinelo a esmo, produzindo grande estrondo no vidro do aparador em que ele fora bater, e resolveu sair de casa naquele instante...

— Desmaiem por aí. Estão bem livres de que eu vá levantar, suas bruxas... Ah! temos mandinga? Pois quem com mandinga mata com mandinga morre... Espere e verão... Também vou a casa do tal Caboclo, conhecido de Nham Pombinha...

E saiu, mesmo de casaca e clack como estava, furioso, como um pé de vento, levando tudo por diante, derrubando cadeiras, batendo com as portas, com estrépito, mandando de presente ao diabo a hora em que tinha casado..., enquanto que o José Pereira de Moraes, em ceroulas e camiseta, barrete de dormir furado no tope, e com uma vela igual a de D. Claudina, aparecia na sala de jantar, com uma baioneta velha e enferrujada, embrulhada em papel pardo de venda, embaixo do braço, tropeçava no corpo da velha, e saía de novo direito à porta da rua, bradando:

— Ladrões, ladrões! Pega ladrão!

Capítulo XVI

Hilário, saindo de casa, naquele desespero cego, pusera-se a andar por aí além. Bem sabia ele onde ia, onde era a pocilga do Caboclo!...

Ignorando tudo, bradou que ia procurá-lo, só para meter medo e fazer-se temer.

Afinal, cansado de andar trocando as pernas, pela madrugada voltou à casa e acomodou-se no sofá da sala de visitas, muito caladinho, muito silencioso, ansioso até por não ser visto e nem sentido.

De manhã deu-se papética cena: — explosão de desculpas, explicações, carinhos e festinhas, de modo que serenou a tormenta, dando-se tudo por esquecido e acabando em boa paz... aparente, aliás.

D. Claudina, porém, previdente, sabida e traquejada no mundo entendeu, que não devia-se descuidar, e de combinação com a Doricélia propôs-se de seguir uma regra de tratamento ao Hilário, pela qual o rapaz se tornaria caseiro, amigo dos seus lenços e deslembrado de más tenções. Por isso, daí em diante eram pitadinhas de certo pó denegrido, no café de manhã e o chá da noite, com bolos de magnífico aspecto, mas preparados no miolo com raspas de unhas e o diabo a quatro...

O Hilário, ao cabo de certo tempo, sem desconfiar da medicina, sentia-se de qualquer sofrimento vago, indeterminado, vertigentes, dores atrozes e rápidas como punhaladas, no estômago, um contínuo salivar enjoado...

Nham Pombinha, pelo seu lado, em crescente aumento de asco pelo Elesbão, a quem não queria senão para dar-lhe o gracioso papel de editor responsável, Nham Pombinha não descansava.

Tendo achado meios de afastar o marido, uma noite, conseguiu falar ao Caboclo e explicar-lhe pelo miúdo a sua posição e os seus projetos.

O preto velho, se bem que calejado na prática dessas falcatruas, admirou — não se sabe se mais se o cinismo da ex-viúva, referindo-se cruamente, sem tintas e nuas palavras — os seus desejos, se mais a pouca mossa que lhe fizera o arrastamento da vida do Cirilo, sucesso — que diabo — ao menos um pouco de remorso havia de provocar!

Mas como a paga era boa, a freguesa crédula e constante, o mandingueiro deu-lhe fórmulas especiais para o caso do Elesbão e iguais as que já fornecera a D. Claudina, para o caso do Hilário, de modo que este é que era o mais sacrificado, porque ingeria tudo em dose dupla.

Desde que o Elesbão tinha começado a absorção das coisas aplicadas por Nham Pombinha, esta não andou mais com meias medidas. Convidou insistentemente o Hilário a visitá-la, e foi, de dia, apertando mais o cerco ao já tão desvairado rapaz.

Oh! furiosas contorsões de uma ligação medonha, que tinha de permeio a lembrança vivaz do ludibriado morto, pai de Hilário, pai deste filho, que esquecia tudo, o que quebrava aos pés daquela mulher ardente as homenagens do respeito, da veneração, do culto devido à sua memória! Monstruoso a reviravolta de sentimentos, monstruoso amor, medonha expansão da carne, da carne exigente e intransigente, sepulcro de bons e são raciocínios, assassina da pureza de coração!

Passava-se o tempo, crescia furiosa ânsia de saciar aquela voragem. E como o Hilário resistia àqueles embates capazes de acachapar outro qualquer!

— Não Realmente este Caboclo vale tudo! dizia contentem Nham Pombinha.

O Elesbão, por seu lado, atristado e sonolento, decrescia, mirrava-se, acabava-se. Afinal, num dia, caiu na rua, nas mesmas condições em que o Cirilo já tombara, e morreu da mesma morte inesperada, estúpida e não esclarecida. Este sucesso foi como se não se tivesse dado, em nada alterou as relações do ex-enteado com a madrinha. Ao contrário, incendiou-se-lhes a vontade, vontade absurda de quebrarem todas as leis do decoro social e viverem, sob o mesmo teto, desse no que desse. E assim fizeram, depois de atirarem o cadáver do mísero Elesbão para o cemitério, com um mal escondido do assanho de alegria e de liberdade.

Dias volvidos sobre este arrojado procedimento, foi o Hilário chamado instantemente à sua casa, visto que se tratava de uma coisa muito séria. Foi, era o José Pereira de Moraes, que tinha sido cruelmente mordido pelo Quatro-olhos que havia ficado hidrófobo na véspera. O homem estava assustadíssimo, queimou as feridas com ferro em brasa, até nem se podia com o cheiro de carne tostada, e como lhe tinham ensinado que azeite de potro era muito bom para expelir os humores, o bárbaro tinha lhe bebido como três garrafas e ansiava agora, arrastando no esvaecimento da mais atroz desinteria, triunfalmente resistente às libras de polvilho, caldos de marmelo e folhas de araçá e aos frascos de bismuto, com que lhe atulhavam o enfraquecido estômago. Por fim, já sem forças, cadavérico, asqueroso até no horror visível do seu esgotamento, morreu sem um gemido.

Morreu com um passarinho! dizia soluçante D. Claudina.

O Hilário, coitado, estonteado, sentindo cada vezmais forte a sua dor de estranhas, procurou manter-se firme, e lá como pode assumiu o seu cargo de chefe da casa, mandando enterrar decentemente o José Pereira, dizer-lhe as respectivas missas, o seu agradecimentozinho pelos jornais, e fazendo-se logo enforcar o danado Quatro-olhos, no fundo do quintal, procedendo-se as operações fúnebres com grande luxo de precauções e alaridos.

Doricélia, disfarçadamente, punha em prática a sua tática de seduções...e uma noite, quando o Hilário, cada vez mais alquebrado, foi insistentemente chamado por um perfumado bilhetezinho de Nham Pombinha, ganhou a parada, porque o Hilário aliás sem grandes reservas pelo pudor de sua sogra e da sua mulher — respondeu que não poderia ir, porque se achava muito incomodado.

E mais, se vitória houve, a Doricélia confirmou-a logo na manhã seguinte, porque levantou-se risonha, esperta, cantarolando, fazendo enfim, contraste vivo com as últimas manhãs.

D. Claudina também já fora da cama, deu logo pelo júbilo da filha e dava-se parabéns pelo bom sucesso da última dose ao genro na véspera.

Tomavam as duas senhoras o seu matutino café com leite.

Depois de beberem uma grande xícara, acompanhada de duas respeitáveis fatias de pão, a Doricélia como que lembrou-se, e vivaz, jubilosa, levantando-se, disse à mãe:

— Vou tomar um banho no tanque!

— Espere um pouco, menina; tomaste agora café tão quente... Vai te fazer mal. Deixa descer, primeiro...

— Qual! Não acontece nada.

— Se fosse eu, não ia. Pode te dar algum pasmo!

— Não dá nada. Histórias.

— Vou!...

E foi.

Foi, arrumou as suas roupas, correu os olhos pelas faces visíveis das suas abundâncias corporais, anediou a sua macia e rosada pele e... catapruz! meteu-se de jacto no grande tanque e afundou-se na água fria e clara.

Por efeito natural de fenômenos patológicos, o café quente de inda agora, com a água fria,certamente, não se acertaram amigavelmente e quase repentinamente a mísera sentiu-se tonta, sem ouvido, tomada de imobilidade, abafada, muda, caiu prostada, músculos flácidos, boiando as suas banhas, na água tranqüila.

Em vista já da larga demora, D. Claudina estranhou o caso e foi averiguá-lo.

Chegou-se a porta do quarto de banho, chamou, chamou, bateu e nada. Espiou pelo buraco da fechadura. Horror! Pulou como uma louca, gritou pelo cozinheiro, pelo Hilário, pela alemã, fez um sarilho enorme, obrigou arrombar-se a porta, e ficou apatetada, imóvel sem chorar e repetindo apenas:

— Encarangada! Morreu encarangada!

Repentinamente D. Claudina, agitando os braços no ar, sem apoio, caiu de costas; esfolando profundamente o nariz; e aí morreu, deitando pela boca porção de sangue escuro e espumoso.

Feliz! Ao menos morreu de morte morrida!

Rebentara-lhe um maduro aneurisma.

Hilário e o cozinheiro, ali ficaram, estupefactos.

O cozinheiro, crioulo, moço ainda, vagabundo chapado, já muito conhecedor das desavenças daquela gente,com quem vivia, sem arredar o pé para a rua, por medo ao recrutamento, estático, perante a nudez morta daquele corpo, branco, cujas curvas lambia com um olhar velhado, foi rudemente arrancado à sua curiosidade pela voz impiedosa e áspera do Hilário, que lhe gritou rápido:

— Já daqui prá fora! E mais calmo acrescentou depois: Chama um carro e vai buscar-me o Dr. Eloi. Passa por casa de Nham Pombinha e dize-lhe de vir cá, já, já.

— Mas podem me pegar...

— Toma um carro, já te disse. Safa-te!

Saiu o mensageiro.

Hilário ali ficou um momento, relanceou um rápido olhar pelo quarto e depois abriu a válvula do tanque por onde começou a jorrar forte a água, um tudo nada aquecido pela permanencia do corpo de Doricélia, nela. Depois, chamando a criada alemã, aterrorizada com aqueles sucessos, com regular trabalho e esforço, conseguiu envolver o corpo da mulher no largo e felpudo lenço de banho, conduzindo-a para o seu quarto de dormir.

Volveu pelo mesmo fim a D. Claudina, inteiriçada e conduziu ao seu aposento, ficando nos assoalhos um trilho de largas gotas de sangue.

A alemã, tranzida de medo, logo que viu-se livre de tal fardo, saiu porta a fora e foi bater língua pela vizinhança, pálida trocando as palavras e jurando que ia logo no dia seguinte para a colônia, para perto de seu pai, na carroça de seu tio!

De modo, que daí há pouco a casa era invadida pelo mulherio da vizinhança ávida de curiosidade, caras compungidas e olhos perscrutadores. Hilário, atônito, começou a notar aquilo e não poude mais conter a onda. Contou o caso reunindo-as duas ou três velhuscas mais cheias de oferecimentos, entregou-lhe os molhos de chaves, indicou-lhes as gavetas onde julgava estarem as roupas, e meteu-se na sala onde estava mais à vontade. Redobravam aí suas dolorosas cólicas.

Chegou Nham Pombinha. Perguntou pelo Hilário e foi entrando afoitamente até onde estava. Por demais notara aquele ar de novidades, aquele rebuliço, que enchia a casa, mas ignorava por completo o sucedido.

Deu com os olhos em Hilário, recostado no sofá e pálido, desfeito, abatido, gemendo, com as mãos contraídas, comprimindo o estômago.

— Ai! ai! que dor, que dor atroz! gemeu o mísero.

— Mas o que é? O que sentes? indagou, aflita, Nham Pombinha.

— Aqui, aqui! Aí! Que fogo! Que dor!...

— Espere um momento, já te passa isso, eu volto.

Foi dentro, rápida, correndo quase, trouxe um copo d'água, vasou-lhe dentro uma porção de mandinga milagrosa do Caboclo. Misturou a beberagem deu-a a Hilário que enguliu avidamente, sem querer abrir os olhos, confiando e dócil, esperando pronto alívio ao seu sofrimento.

Foi golpe de graça.

Aquele organismo minado, corroído pelo efeito nocivo de tanta droga perigosa, daquele envenenamento lento, porém asqueroso persistente, não pode resistir e cedeu, desfibrou-se sob a ação rápida da poção de Nham Pombinha. Sacudiu-se convulsivamente, ameaçou um arranco violento, de olhos vítreos e ferozes, a boca aberta, narinas dilatadas, as mãos em garrasm crispadas sobre o estômago, deu um prolongado e doloroso gemido, e ficou-se, ficou-se, descaindo lentamente, inerte, frouxo, do sofá para o chão, onde parou, a face no tapete, um braço preso em cima, a roupa repuxada, silencioso, imóvel, morto!

Nham Pombinha, atônita, sem ter nunca imaginado aquele desfecho, adivinhou-o e fugiu, alucinada e cortada de medo, de piedade, de remorso e de angústia.

O Dr. Eloi, de chegada, ouvido o relatório, abriu imensamente os olhos. Quê? Em vez de um, em vez de dois, três, três cadáveres? Mas aquilo era uma matança, um acaba tudo, era o fim do mundo? Não andaria aí gato encerrado?!...

Mas não houve que dizer Doricélia, uma apoplexia, legal. D. Claudina, ruptura de aneurisma, legal. Na véspera ainda a desinteria de azeite de potro. No Moraes, legal também. Aquilo com Hilário é que era o diabo. Mas, enfim, não assistira o doente, nada lhe prescrevera, parecia coisa de estragos do coração, legal também, sem assistência médica, nota de barbas de molhor por causa das dúvidas. E deu os atestados. E vieram os caixões fúnebres e os outros aprestos dos defuntos. Alguns vizinhos, maridos das vizinhas, vieram também lançar a sua vista d'olhos, e deram os passos precisos para os enterros e avisos aos parentes, o principal, enfim.

Nham Pombinha, embezerrada, mandou dizer que positivamente não queria saber de nada e que se arranjassem.

As línguas então, trabalharam a valer. Parecia no Boato!

Concentrada nas suas recordações e no seu mordente remorso, só, ré perante a consciência, sacudida pelo terror, batida na sua defesa de ignorância, Nham Pombinha, fechada no seu quarto, passou uma noite medonha.

Pesadelos ou visões?

Revia, perpassavam-lhe diante dos olhos esgazeados, imagens vagamente desenhadas, com clarões fosforecentes; na meia luz da lamparina, via, via a cara boçal e esquisita do mandingueiro, com os dentes pretos, o branco dos olhos muito brilhante; assistia, jurava que assistia a uma sessão de bonzos, as invocações ao Xererê milagroso, dançando, sob o altar grotesco o corpo alquebrado do Cirilo, e coisa mais horrorosa, o pescoço desse corpo, que saracoteava, sustentava três cabeas: a do Hilário, a do Elesbão e a do Cirilo, rindo as três bocas, ferozes os três pares de olhos!

Aumentava o quadro, pulava a Claudina, pulava a Doricélia, o José Pereira, o Quatro-olhos, o cão estimado!... De repente, todos esses fantasmas acercavam-se-lhe, enganavam-a, mordiam-na, puchavam-lhe os cabelos, vasavam-lhe os olhos.

Então, levantou-se sem resolução, porém como fascinada, tirou do bolso vestido o vidrinho da última droga que acabara o Hilário, e bebeu-a de um só trago, sem uma visagem, sem repugnância. Atirou o vidro contra o espelho que refletia o seu corpo gentil, e de repente, às gargalhadas, atirou-se a pular, fazendo roda, dando às mãso a imaginários companheiros. às furiosas gargalhadas, sucederam gritos roucos, ofegantes e ela caiu, em cheio no chão, sem alento. Ou tinha enlouquecido de verdade, ou então ia criar macaquinhos no sótão. Em todo o caso uma lástima.

E acabou-se a Mandinga.

Fonte: pt.wikisource.org

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