Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Cancioneiro Guasca João Simões Lopes Neto - Página 2  Voltar

Cancioneiro guasca

João Simão Lopes Neto

Amigo Manduca

Recebi
A carta que me mandaste
E - por Deus! - te digo, amigo,
Que me ri do que contaste.

Tive lástima de ti
Quando soube que rodaste,
Varando os balões por cima...
Que vergonha não passaste!...

Mas não me espantou, amigo,
O que aí te sucedeu,
Porque um caso igual a esse
Também ja me aconteceu.

Andava lá na cidade
Num matungo caborteiro.
Ia ao tranquito no mas...
Monarqueando folheiro,

Quando, ao varar uma rua
Ia o pingo escarceando
Me saem de um boqueirão
Dois balões corcoveando!

Ah! pingo! amigo Manduca!
Sentou de golpe e bufou;
E eu encostei-lhe as chilenas
E aí, no mais, velhaqueou!

Por esses ares berrando
Se atirou o mancarrão,
mas perdeu-se num corcovo
E veio de lombo no chão!

De rédea na mão, saí
Mas pechei-me co'o balão,
Que vinha erguido na frente
À maneira de alçapão...

Planchei-me nessa pechada
E o balão enveredou
Fiquei em debaixo dele
E o pingo também ficou.

Quando se ergueu, o bagual
Alçou a cola e disparou,
Mas entao a sorte foi
Que o balão o encurralou.

Correu como quatro quadras
Em volta da tal mangueira
Mas a menina foi viva
Que lhe trancou a porteira.

Saquei da cintura as bolas
E na volta escorreguei
Mas sacudi meio a rumo,
E nos garrões lhe cruzei.

Deste sucesso, esquentado
E mascando a polvadeira
Lá do fundo já gritei:
- Oh! sia dona, abra a porteira! -

E desde esse dia, amigo,
Nunca mais voltei ao povo,
Pois desta feita fiquei
Com cara de laço novo.

Por isso creio o que dizes
A respeito dos balões,
São muito feios nas mulheres
Porém são bons curralões.

Saudades manda a Maruca
Que está linda e mui morruda,
Alentada e sã de lombo
E cada vez mais cogotuda.

memórias da tia Rosa,
Que a respeito de picanha
Andará batendo orelha
Se a Maruca não lhe ganha.

E te convidam, Manduca,
P'ra de volta te apeares,
Tomarás um chimarrão
Enquanto aqui panteares.

Com o teu amigo velho
E verdadeiro rapaz
Que se assina por costume
Juca Torena, no mas!

Lá...

Na minha terra,lá... quando
O luar banha o potreiro,
Passa cantando o tropeiro,
Cantando... sempre cantando...
Depois, descobre-se o bando
Do gado que muge adiante
E um cão ladra bem distante...
Lá... bem distante, na serra!
- Nunca foste à minha terra?

Enfrena, pois, teu cavalo,
Ferra espora, alça o chicote,
E caminha a trote... a trote
Se não quiseres cansá-lo.
Ainda não canta o galo:
É tempo de viajares;
Deixarás estes lugares,
Irás vendo novas cenas,
Sempre amenas... muito amenas!

O laranjal enrubesce
Ao disco argênteo da lua,
E a estrada deserta e nua
Logo aos olhos te aparece;
Uma restinga ali cresce
Beijando a fralda ao regato:
E lá... no fundo do mato
Arde o roçado e fumega
O nenúfar - macega.

Se um grito de fero açoite
Estruge no ar austero,
Não tremas, é o quero-quero
Que vem dar-te a boa-noite!
Um conselho porém dou-te:
Um pouso tens a teu lado,
Mas não lhe batas... cuidado!
Antes procura outros meios
Dormindo sobre os arreios.

Não que se negue a tal hora
Agasalho ao forasteiro,
Mas porque foras primeiro
Assustado sem demora:
- Ó Juca! põe-te p'ra fora...
Solta o cão... traz o trabuco!
Matemos este maluco!...
Para depois do rebate,
Ir contigo tomar mate!

Logo ao romper da alvorada
Põe à soga o teu cavalo:
Podes passar-lhe um pealo,
Uma maneia trançada;
Depois vai pedir pousada;
De dia nada receias:
Verás meninas sem meias...
Eh pucha! que lindas moças!
De pernas grossas... bem grossas!

Hão de fazer-te mil festas,
Dar-te atenção e carícias,
Por quanto as minhas patrícias
São modestas, bem modestas!
Mil vezes os mimos destas,
Porque são filhos da estima;
Aceita-os, pois, e por cima
Come um churrasco insosso,
Que elas dirão que és bom moço.

À noite escuso avisar-te,
Dança-se a parca tirana
Tira a primeira serrana
Que não há de recusar-te...
Ali a um canto, de parte,
O velho fuma um cigarro,
De quando em quando um escarro,
Ao passo que um mariola
Arranha numa viola.

Não te espantem os cavalheiros:
Muitos verás de tamancos.
Outros de sapatos brancos,
Ou de botas de terneiros;
Esses serão os primeiros
Na competência dos pares...
Nem te importes se escutares:
- Eu danço co'a sia Maruca,
A Chica dança co'Juca!

Ouvirás após cantinga
De versos de pés quebrados,
Coisas de tempos passados,
Que talvez a rir te obriga,
Se queres porém que o diga,
Acho mais graça e beleza,
Naquela simples rudeza,
Que nos folguedos sem lei
De certa gente que eu sei!

Ali verás como incita
O viver da solidão.
Tomando o teu chimarrão
Feito por moça bonita.
Verás vestido de chita...
Muita vida em cada rosto...
Mas se duvidas do exposto,
É fácil; vai até ali,
E diras se te menti!

A roceira

Minha mãe nasceu na roça,
E eu criei-me na palhoça,
Eu sou filha do sertão;
Sou delgada e sou faceira,
Como o leque da palmeira,
Como o ramo do chorão.

Minha irmã é mais morena...
Tem os seios de açucena,
Tem os lábios de carmim...
Minha irmã é tão mimosa!
Minha irmã chama-se Rosa...
Porém gostam mais de mim!

Eu vagueio pelos campos,
Semelhante aos pirilampos,
As mariposas azuis...
Sei cantar... e canto e choro...
Sei bordar com fios d'ouro
Sei rezar na minha cruz.

Eu sei tudo quanto quero!
Sou esbelta, sou faceira,
Como a rama do chorão...
Minha mãe nasceu na roça,
Eu criei-me na palhoça,
Eu sou filha do sertão!

A quem amo? Não o digo;
Fique o segredo comigo,
Guardado no coração!
Amo os valos... amo a roça...
Eu criei-me na palhoça
Eu sou filha do sertão!...

"Flores do pampa"

CANTO DO MONARCA

Eu sou o moço gaúcho,
Valente como os mais guapos;
Filho e neto de farrapos,
Republicano no mais!

Com o meu poncho de pala,
E laço e bolas nos tentos,
Vou mais ligeiro que os ventos
Por sangas e bamburrais...

O rei, montado no trono,
Tendo os ministros consigo,
Não se compara comigo,
No dorso do meu bagual;
Se ele é rei, eu sou monarca!
Se ele tem cetro dourado,
Tenho relho prateado
E a cancha do meu punhal!

Por Deus e por minha vida!
Tenho uma vontade ardente
Que ainda outra vez rebente
Aqui - a revolução!...
Mostraria à baianada
Que treme, a morder cartucho,
P'ra quanto presta o gaúcho,
Num pingo de opinião!...
De vez em quando - aparece
Um orador que se arrisca:
E n'assembléia se prisca
Para a banda popular...
Mas sempre encontra quem logo
Comece a pelegueá-lo,
Arme-lhe certo o pealo
E faça o bagual sentar!...

Eh puxa, mano! Parece
Que os sentimentos rodaram!...
As crenças s'encurralaram...
E o povo - marcha o garrão!

Estropeado e maceta,
Empaca o patriostismo
E anda no passo o cinismo
Por toda a povoação.

Eu que sou moço largado,
Valente como os mais guapos,
Filho e neto de farrapos,
Republicano no mais!
Hei de correr a rebenque
Os reiúnos sem valia,
Que, para mais picardia,
São filhos dos nossos pais!...

Vem chegando Gumercindo

No querido céu da Pátria
Doce aurora vem surgindo,
Às campinas rio-grandenses
- Vem chegadno Gumercindo -

O anjo louro da Vitória
Para nós já vem sorrindo,
Nas campinas rio-grandenses
- Vem chegando Gumercindo -

Doces gozos da igualdade
Minha terra vai fluindo,
Na terra dos gaúchos livres
- Vem chegando Gumercindo -

Doces frutos da Vitória
Os federais vão sentindo,
às coxilhas rio-grandenses
- Vem chegando Gumercindo -

Os heróis de trinta e cinco,
Que da tumba vão surgindo,
Vão repetindo orgulhosos
- Vem chegando Gumercindo -

Da tirania o castelo
Pelo chão já vai caindo,
Nas campinas rio-grandenses
- Vem chegando Gumercindo -

Décima

MOTE

Não há gosto sem desgosto,
Nem há perfeição no mundo,
A ausência de uma querida
É um golpe bem profundo.

GLOSA

Preparou-se contra mim
A sorte, a fortuna, o fado...
Eu posso dizer assim
Do que hei presenciado
Depois de haver empregado
Meu amor tão a meu gosto,
A cor me foge do rosto,
Fico quase desmaiado
Enfim, está declarado
- Não há gosto sem desgosto. -

Adeus, querida saudade,
Deste teu querido amante,
Nem vás para distante
Se acaba minha amizade...
Oh! tem de mim a caridade
Do meu silêncio profundo
Que nem sequer um segundo
Se passa sem me lembrar
- Com a minha lealdade -
- Não há perfeição no mundo -

E quanto custa a sofrer
Uma tal separação
Nem há com que comparar,
Nem assim posso dizer
Talvez a dor de morrer
Fora antes prometida,
Porque a uma ausência movida
Ninguém pode resistir.
Toda a vida hei de sentir
- A ausência de uma querida -

Vão, minhas letras, enfim,
Visitar a quem estimo
A minha amada querida
Que saiba que persisti
Que a mesquinha ingratidão
- É um golpe bem profundo. -

Musa gaúcha

Bonitaça no mais a Maricota.
Guapetona chinoca requeimada,
Braba como potranca malmarcada
Quando, de cola alçada, se alvorota.

Um defeito qualquer ninguém lhe nota:
Mãos pequenas, a face colorada,
E uma graça dengosa, malcriada,
Se requebra o fandango, a perdigota.

Não quer casar; e quando algum pealo
De sobre-lombo atiram-lhe, no calo
Ofendida se sente e faz negaça,

Pega o freio nos dentes, e adeusito!...
Que então, como bagual que sai no jeito,
Nem à bola se pega a matreiraça!...

O meu bagual

Fiz ontem repontar o meu bagual,
O meu bagual sebruno rabicano,
E fui ver, no rincão do Faxinal,
A china, que não via há mais de um ano.

Sestroso sempre, o puava do bichano,
Mal sente pelas ventas o buçal,
Bufa, como um feroz republicano
Se lhe falam no trono imperial.

Atiro-lhe lombilho. A barrigueira
Fá-lo gemer. O pingo o solo cheira
E faz partes de guapo redomão.

Monto. Debalde o bruto corcoveia,
E quando a todo o lombo se plancheia,
Saio folheiro - a rédea pela mão.

Gauchadas

Fui tomar ares fora, há quatro ou cinco meses,
Na estância de um amigo; e repetidas vezes
Toquei-me campo fora e fui parar rodeio,
Montado em pingos tais que nunca viram freio!

Eu ia, a toda a brida, à toa, pelos Pampas,
Os touros apanhando a laço pelas guampas,
Repontar os baguais, as éguas, os potrancos,
Rodando nos cupins, saltando nos barrancos.

Era um guasca largado! Às minhas gauchadas
Diziam os peões: - Não é de caçoadas
Aquele doutorzito, a meio abaianado;
Por Deus que é ginetaço e moço abarbarado! -

Quer fosse na atafona ou fosse na senzala,
Por sobre os ombros meus caía em regra o pala,
Prendia o meu cigarro à fita do sombreiro;
E arrastava por gosto a espora no terreiro!

Nos fandangos, à noite, a china mais bonita
Olhava para mim - cantando a Chimarrita...
E se eu ia p'ra... roda então... barbaridade!
Por Deus e um patacão! não era da cidade!...

Duma feita, eu já tinha atravessado o passo,
E estava retouvando as bolas junto ao laço,
Quando vi, a banhar-se, uma chinoca airosa,
Lindaça como o sol, fresca como uma rosa.

Não sei o que senti; parece-me somente
Que eu quis abrir de raia e me tocar p'ra frente...
Mas - se os olhos gentis daquela tentação
Manearam-me logo o triste coração!...

Prisquei-me para trás e refuguei p'ra um lado,
Mas, como trotear se eu 'tava pealado?...
A china apresilhou-me uma olhadura terna...
Assim como quem diz - já te passei a perna! -

Embuçalou-me, a rir, e em tom de voz tirano
Perguntou-me depois: - Perdeu-se, o vaqueano?... -
Caramba! eu via bem que aquilo era um desfrute...
Mas a gente, patrício, às vezes não discute!...

O canto do gaúcho

Eu não nasci para o mundo,
Para este mundo cruel.
Só quero cortar os Pampas,
No dorso do meu corcel,
Este meu pingo galhardo,
Este meu pingo fiel.

Eu sou como a tempestade,
Sou como o rijo tufão,
Que esmaga os vermes na terra,
E sobe para a amplidão.
Eu sou o senhor dos desertos,
Monarca da solidão!

Quando eu, de lança enristada,
Esbarro no meu bagual,
Não temo a fúria sanhuda
Dessa canalha real,
Os reis são nuve' de poeira,
Eu quero ser vendaval.

Eu sei que os reis, sobre os tronos,
Zombam de mim, eu bem sei;
Mas eu não troco o meu pingo,
Pela cabeça de um rei,
Esses palhaços c'roados
Que toda a vida eu odiei.

Qu'importa pois, que eles zombam,
Que ele riam-se de mim?
Eu nunca fui um lacaio,
Eu nunca serei mastim,
Quero viver sempre livre Quem me quiser - é assim!

Oh! como é belo - essa vida
Assim tãolivre levar!
Beber a luz d'alvorada
Quando ela vai rebentar!
Correr o Pampa deserto,
Correr... correr... não parar!

Eu tenho a crença no peito,
Guardada no corção;
Quero surgir na batalha,
À voz da revolução;
Amortalhar-me nas dobras
Do tricolor pavilhão.

O canto do farrapo

I

Ando só nestas verdes coxilhas,
Nestes pagos eu piso atrevido.
Sou gaúcho, sou guasca largado,
Sou, por quebra, de todos temido!

Cá não temo, no rancho de palha,
Galeguinhos que vêm da cidade
Sei valente suster nas batalhas
O fulgor da feliz liberdade.

Quero ver essa tal Majestade;
Que apareça esse rei tão falado;
Quero ver se me pisa no poncho,
Sem sair ele mesmo pisado.

Que apareça esse testa c'roada,
Esse bicho escondido no trono:
Que se chegue, sequer para sempre
Nos infernos dormir tredo sono.

II

P'ra que quero mais glórias na vida,
Se de glórias transborda meu carro?
Já peleei junto ao Neto valente,
Militei com David Canabarro.

Fui soldado de Bento Gonçalves,
João Antônio me viu a seu lado;
Na peleia fui sempre valente,
Sempre guapo no pingo montado.

Esse grande imortal Garibaldi,
Que da Itália veio por guapo,
Teve em mim um fiel companheiro,
Destemido, valente Farrapo.

Andei junto na guerra a Portinho,
Das façanhas eternas, virentes;
Combati com Frutuoso, com Guedes,
Trabuzanas famosos, valentes.

III

De Rio Pardo me achei na batalha;
Que vertesse meu sangue, Deus quis,
No recontro imortal, legendário,
Que - porongos - na história se diz.

Ponche Verde foi outra peleia
Onde a vida arrisquei pelos meus,
E se lá não tombei retalhado,
É que a vida é guardada por Deus.

Nas peleias mais rijas, cruentas,
Sempre firme na frente me achei;
Que na frente é o lugar dos Farrapos
Que combatem com crença na lei.

Carta

Amigo Alano

Aqui atado ao palanque, não me é possível retouçar um pouco por essas coxilhas; e assim me vejo apartado dos companheiros, crioulos lá dos meus pagos; vou portanto arrolhar estas letras na canhada desta folha de papel, e depois as farei repontar para esse acampamento, estimando que elas o vão achar alentado e de saúde.

O tempo corre mais que nem um bagual com um couro cru na cola, e nem a tiros de bolas se pode apanhar o que já passou; e nós, desgarrados por estes campos, vamos gastando carnes e ficando rosilhos-mouros, longe da querência, passando sempre uma vida de cachorro chimarrão; ainda hoje me lembrei do tempo em que era meio rufião; que via uma moça linda, já me endireitava todo e trocando a orelha, logo, sem me parar na estaca, lhe ia discorrendo pelo teor seguinte:

Os olhos de minha amada
Ardem mais do que um tição
E as faíscas que lançam
Salpicam meu coração.
E se ela se parava um tanto mesquinha, já lhe largava este outro:

Não sejas arisca, bela;
Basta para o meu castigo,
Que seguro já me tenhas
Com maneia e pé-de-amigo.
João Alano da Silva, Tte. de Guardas-Nacionais - 1851.

Não quero, porém, me recordar destas coisas que me fazem ficar aguando, e de golpe; mudando de rumo, trataremos de outro assunto.

O que diz, amigo Alano,
Do que toca ao nosso pleito?
Viver assim deste jeito,
Não me agrada.

Decerto é vida arrastada
A nossa, por este lado,
Dormindo como veado
Na coxilha...

Rosas, com sua quadrilha
De blancoss em Buenos Aires,
Dizem que já armou os frailes
Contra nós.

Há de, esse monstro feroz,
Exp'rimentar desta feita,
Aquilo que o diabo enjeita
No inferno.

Deus queira que neste inverno
O caudilho, degolado,
Não vá, de presente, enviado
A Satanás!

E como joga sem ás
E sem manilha de espada,
Há de arriscar na parada
O ás de copas...

E depois, mandará as tropas
A generala Manoelita*
Essa guapa señorita.
Mui afamada.

Carga seca e denodada,
Por Deus! que lhe hei de fazer!
E se o pai aparecer...
Passo de largo!

O seu trato é bem amargo;
E somente p'ra brincar,
Gosta de fazer tocar
A Resvalosa**

Dessa fera tão danosa
Deus nos livre, amigo Alano!
Eu quero gozar este ano
Da nossa terra.

Este país sempre em guerra,
Tudo traz em calções pardos.
Os campos só criam cardos
E gafanhoto.

Ao feijão chamam poroto,
À batata, cacaraxa;
E o que chamamos cachaça,
Eles dizem - caña.

E por aqui tudo é manha
Tudo é burla e tudo é peta;
Todo cavalo é maceta
E rodilhudo.

Todo gaúcho é peludo,
Todo o matungo é matreiro;
Em cima disso, o pampeiro
Nos assola!

Ora sebo! isso me amola,
E me faz desesperar;
Tomara já me pilhar
Nos meus pagos!
Mas, caramba! amigo João!... Agora mesmo ouvi dizer que você ia cortar, que nem tento, e que desta feita se atirava a nossos pagos, e eu aqui fico relinchando, como potro corrido da manada. Ah! saudade!... que não possa eu fazer o mesmo, e sair-lhe grudado, como carrapato na costela de animal peludo! Enfim, Deus o leve a salvamento, e quando lá chegar diga aos nossos patrícios que

Eu cá fico penando,
Mais triste qu'a saracura,
Que, quando adivinha chuva,
Seu canto mais apura.
Mas que estou fazendo, amigo Alano? O meu engenho, bastante estropeado, não se pode agüentar no pedregal da poesia, o sentimento que me causa a sua partida me põe de uma vez bichoco, de forma que lacerado pela saudade,

Vou dar-lhe a despedida,
Como deu o gaturama,
Que se despediu, dizendo,
- Muito padece quem ama. -
* - A filha do ditador Rosas.
** - Mazurca, ao som da qual o ditador fazia degolar os prisioneiros.

O gaúcho

Eu sou um quebra largado,
- Por Deus e um patacão! -
E se duvidam, perguntem
À moçada do rincão!

Sou valente como as armas,
Sou guapo como um leão!
Índio velho sem governo,
Minha lei é o coração!

Quando ato a cola do pingo,
E ponho o chapéu do lado,
E boto o laço nos tentos!...
Por Deus, que sou respeitado!

Ser monarca da coxilha,
Foi sempre o meu galardão
E quando alguém me duvida,
Descasco logo o facão!

Não tenho mancha nem medo,
Não temo inverno ou verão;
Meu culto é o das raparigas
E do mate-chimarrão.

Quando me ausento dos pagos,
- Isto por curto intervalo -
Reconhecem minha volta
Pelo tranco do cavalo.

Ninguém me pise no poncho!...
Pardo velho abarbarado,
Tenho chilenas de prata
E pala branco, bordado.

Gosto da vida do campo,
Governo com honra e brio;
Co'um par de bolas no cinto
Não tenho medo nem frio.

Sou livre como a seriema,
E nem reconheço tirano:
Criei-me nas esc'ramuças,
Ao sopro do minuano!

Sou valente como as armas,
Sou guapo como um leão!
E se duvidam, perguntem
À moçada do rincão!...

Saudades da província

Que saudades eu não tenho
Daqueles tempos passados,
Em qu'eu montava o tordilho
Com arreios prateados,
E riscava campo fora,
Entre os monarcas largados!...

Eu namorava uma dama,
Eh puxa!... moça bonita!
Me trazia pelo freio,
Como ninguém acredita!...
Mas, por Deus, qu'ela era linda,
Com seu vestido de chita!

E tinha uns olhos tão guapos...
Para dizer a verdade:
S'eles olhavam p'ra mim,
Não me sentia à vontade;
Perdia logo os estribos!...
Que moça! barbaridade!...

Ah! se eu fora tão ditoso
Que ela me desse um abraço,
Por Deus, que até deixaria
Cupido passar-me o laço:
Em troco, a ela daria
O meu cavalo picaço!

A cruel deixou-me à soga...
- Bem mostrou alma pequena! -
Mas, se ainda me recordo
Dos olhos dessa morena,
Qualquer prazer me diverte,
Qualquer gosto me dá pena!...

Quando me lembro dos pagos
Fico triste e aperreado;
Lá deixei o mano Juca,
Monarca quebra e largado;
Ninguém lhe pisou no poncho
Que não ficasse pisado!

A sorte atirou-me o laço,
E me cinchou para aqui;
Maneou-me nestes campos
Que chamam de - Tuiuti -
Por Deus! que tenho saudade
Dos pagos onde nasci!...

Tenho saudades dos campos,
Saudades do meu rincão,
Onde eu era conhecido
Por homem de opinião;
Saudades do bom churrasco
E do mate-chimarrão...

Mas vocês ainda não sabem
Quanto me vale esta espada:
Pode lá vir quem vier,
Hei de dar-lhe uma pechada!
Caramba! se viesse o Lopez,
Estava a guerra acabada!...

Mandei plantar os desgostos
No tronco do tarumã,
E da raiz na romã
Vou mil palitos fazer,
Para todos oferecer
À ingrata de Camaquã!...

Os vizinhos

- Ó! de casa! se ouviu lá no terreiro
E a voz se conheceu do Zacarias,
E um negrinho foi presto recebê-lo
Por mandado do vcelho Malaquias.

Malaquias puxou do fumo em rama
E mui destro picou com o facão
E na boca cruzando imensa palha
Ao negrinho gritou por um tição.

E saindo da varanda para a sala
Veio vindo, chupando um chimarrão,
Depois, tirando a bomba dentre os dentes
Ao Zacarias deu a forte mão.

- Boa tarde, compadre Zacarias!
Caramba! há tempo que não o vejo!
A comadre Anacleta como vai?
Disseram-me que anda com desejo?...

- Qual desejo!... A mulher anda doente...
Inda mais, acontece-me esta espiga:
Pois botando os terneiros no chiqueiro,
Levou uma cabeçada na barriga!

- Deve dar-lhe os sucos de urtiga,
É remédio mui bom, e logo sara.
Ou senão um chá de erva-de-bicho.
É o mesmo que água fria na fervura.

Ou ainda o compadre dê seguido
Raiz de vassourinha feito mate;
É receita que deu-me um gringo velho,
Um pouco meio ladrão, meio mascate.

Me dizia esse gringo que te falo
Em linguagem virada, p'ra explicar:
Piliate due o tre raice vassurin,
I botate a lo mate, p'ra tumar! -

- Vou mandar a Chinoca fazer isso
Para ver se lhe tira mais as dores.
E então, Malaquias: e as carreiras?
Quem ganhou? O velho Chico Flores?

- Não Sr., foi o Lopes do Cerrito,
O dono do cavalo marchador,
Pois o zaino do Flores sempre foi,
Na minha opinião, um estupor. -

- Compadre, não diga tal asneira!
Não é por eu nele ter jogado...
Agradeçam mais bem ao corredor
Por correr o cavalo em mau estado!...

- O que sei dizer - é que perdeu!
De paleta... fiador... eu nem sei bem...
E perdi na carreira cem mil réis
Mas noutra não me pega mais ninguém.

--------------------------------------------------------------------------------

- Conversando um bocado em cada coisa:
Então, que tal vais de plantação?
Aqui me disseram que a lagarta
Te fez um grande estrago no feijão?...

- Qual lagarta, compadre, ou lagartixa!
Eu já tinha o feijão todo empilhado:
Apodreceu-me a metade quase toda
Co'a chuvarada, sim, do mês passado.

- Ah! compadre! antes que m'esqueça:
Se vires minha égua douradilha
Manda o negrinho levá-la lá p'ra casa
Pois vou acolherá-la co'a tordilha.

E também se topares aí no campo
Aquele meu torito jaguané
Me avisa, que quero segurá-lo
Pois vendi-o p'ra viúva do André.

Não sei se conheces este touro?
Já tem uns dois repasses na carreta
Foi marcado no verão passado
Tem um J e um S na paleta.

E com esta me vou. Adeus, amigo!
Vou dar o remédio p'ra mulher.
Manda sempre neste amigo velho,
Sempre o mesmo Zacarias Xavier.

Um noivado no Rincão do Buraco

(Camaquã)

Faz tempos que recebi
Um bilhetinho do Bento
Pelo qual me convidava
Para ir a um casamento.

No bilhete me dizia:
"Quem se casa é o Vicente
Co'uma moça bonita
E filha de boa gente."

E inda mais ele escrevia:
"Se tua égua está sã,
Vem cedo, qu'inda hoje mesmo,
Bandeamos o Camaquã."

Chegando o dia marcado
Partimos, sem mais demora.
À tarde lá estivemos:
Chegamos pela uma hora.

De chegada vi a noiva
E conversamos um naco...
Era a mais bela flor
Lá do Rincão do Buraco!

Fomos p'ra mesa, jantar;
Depois, um moço a meu lado,
Pediu-me fizesse um brinde
Oferecido ao noivado.

Peguei no copo, acanhado
- Confesso de coração -
E disse: - Viva o noivado
E a bela reunião!

Em seguida, para a noiva,
Dirigiu-se o meu vizinho
E disse: - Mana Mercedes,
Faz também o teu versinho!

Coradinha ela ficou
E sorrindo p'r'o namorado
Com jeito e com voz bonita,
Agradeceu p'r'o meu lado:

"Viva o Vicente, meu noivo,
Viva o meu noivo Vicente!
Viva a gente do Buraco,
Viva o Buraco da gente."

Numa garrafa arrolhada
Pega um velho desastrado
E pondo-a na boca gritou:
"Este buraco é tapado!"

Este brinde fez um outro
(Por apelido Papaco)
"Quem quiser boa mulher
Procure só no Buraco!"

Ainda outro, mui sério
Comendo cocadas, diz:
"Quem se casa no Buraco
Faz o Buraco feliz."

Diz uma velha risonha
Ao noivo e noiva brindando:
"Não se esqueçam do Buraco
Vão no Buraco ficando!..."

Ao noivo tocou a vez
Tirou a viola do saco
Dizendo: - "Mulher, te juro,
Não saio mais do Buraco!"

"Hei de dormir no Buraco,
No Buraco, trabalhar;
Já que te achei no Buraco,
No Buraco te hei de amar"!

--------------------------------------------------------------------------------

Depois de sair da mesa
Os convivas, conversando,
Os bens que a noiva possuía,
Estiveram me contando:

"Esta moça que casou-se,
- Diz um, pitador de naco -
Tem boa data de matos
Aqui no Rincão do Buraco."

Informa outro: "a menina
Tem suas prendas, seu gado,
Quem vê de fora o Buraco
Calcula de um modo errado."

--------------------------------------------------------------------------------

Gostei das simplicidades
E nunca dei o cavaco
Nessa festa que assisti
Lá no Rincão do Buraco.

O noivo pronto

Boa tarde, seu vizinho!
Bati como três vezes na cancela,
Como ninguém mandou entrar,
Vai... e foi... eu abri e entrei por ela.

Pelo jeito... passa bem?
E também a obrigação?
Se lhe pergunto estas coisas!
É só por estimação.

Ora pois, aqui me tem
Assim um tanto avexado
Por ter o que lhe dizer
Sem saber dar o recado.

Vindo aqui na sua casa
Não lhe venho visitar,
Mas somente lhe dar parte
Que breve me vou casar.

Estou de um tudo preparado,
Nada me falta p'ra festa
Apenas uma camisa
Mais engomada que esta.

Também lhe venho pedir
Seu lencinho de pescoço
P'ra ver se naquele dia
Fico o mais bonito moço.

Se não lhe faz desarranjo,
Suas calças e colete
P'ra não fazer má figura
Junto de meu ramalhete.

Também lhe peço emprestado
Seu casaco e seu chapéu
Pois quem vai p'ra se casar
Vai p'r'o caminho do céu.

E p'r'acompanhar a fatiota
Suas botas e as esporas;
Minha mãe fica contente
Por causa das outras noras.

Ora, depois de vestido
O pó da estrada me suja
E não quero que por isso
A minha noiva me fuja.

Por isso também lhe peço
O seu cavalo tostado
Com este ginete em cima
Verá como ele é gabado.

E peço que ele vá pronto,
Com seus aperos de prata,
O casar não custa nada
Quando o noivo se precata.

E para encerrar a festa
Tendo a gente algo que morda
Também lhe peço emprestada
Uma terneira bem gorda.

Só faltou dizer agora
Quem minha noiva vai ser,
Se o meu vizinho consente
É o que me resta saber.

Tenho cavalo e arreios,
Traje, terneira e vontade;
Agora lhe peço a mão
Da Rosinha, essa beldade.

Se consente em ser meu sogro
Pouco mais tenho a pedir
Cama e mesa e sociedade
No lucro feito e por vir.

Nos tempos que vão correndo
Ninguém se deve amarrar
E eu esqueço tudo, tudo
P'ra co'a Rosinha casar.

E diga, no soflagrante,
Se devo me retirar
Se a Rosinha não me pega,
É capaz de se matar.

E apenas por dever
De não provocar tristezas
Lhe peço esse ajutório
Apenas de miudezas.

E como consente e cala
É que vou por bom caminho
P'ra completar o serviço
Seja também meu padrinho?...

voltar 12345avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal