Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Cancioneiro Guasca João Simões Lopes Neto - Página 3  Voltar

Cancioneiro guasca

João Simão Lopes Neto

Carta de um moço tropeiro

Cá te escrevo, destes pagos
Onde a sorte me há boleado,
Rebenqueado de saudade
Como um matungo cansado.

Um só dia não se passa
Que me não tire a paciência;
De quando em quando relincho
Com saudades da querência.

Desde que as patas do baio
Pisaram neste rincão
A modo que já nem como,
Já não tomo um chimarrão.

Dize à Rosa do Manduca,
Sobrinha do Tiririca
Que o nosso casamento
Desta feita em nada fica.

Vim levantar nestes pagos
Certa gauchita matreira
Que tem plata como terra
E é lindaça e faceira.

Estes dias se encontramos
Bem no atalho da picada
E num repente a pequena
Cabresteou, pela olhada.

Assim chegamos à fala,
Confiou-me os seus pesares
Andando tão só no mundo
Inveja todos os lares.

E sonha fazer seu ninho
Encostada a um braço forte
E andar a estrada da vida
Com ele junto, até a morte.

Mas o tutor, pássaro bisnau,
Sentiu catinga de tigre
E tem me armado parrandas
Esperando que eu emigre.

Cuê-pucha! sotreta maula
Já quis se fazer de fino
Aias mostrei-lhe quanto vale
A aspa de boi brasino.

Fiz-lhe um arranco macota:
Botei-lhe a traíra ao peito!...
Foi só numa relancina:
E acoquinei o sujeito!

Por isso não te admires
Do pouco que tenho escrito,
Agora cumpro a promessa
Conforme tinha te dito.

Chegando, dei água à tropa
E foi pastando, d'espacito
Algum mais delgado, encheu,
E tudo ficou bonito.

Quando cheguei na Tablada
Vieram charqueadores
E fizeram suas contas
Como bons entendedores.

Com pouco mais arreglamos
Negócio, dinheiro à vista
No outro dia a guaiaca
Já 'stava cheia de alpista.

No "Paraíso das Damas"
Eh puxa! que me entestei
Pois enchi os pessuelos
De tudo quanto gostei.

Num gringo mais adiante
Chamado Mussiú Levy
Não estrompei dinheiro
Só naquilo que não vi.

Comprei memórias mui lindas
Com pedras vindas de Europa,
De forma que aí deixei
Quase o dinheiro da tropa.

Mais umas araganadas
E outras coisas merquei;
Onça por onça escorria
A minha tropa de lei...

Um certo dia, contente
No meu cavalo lazão
Num jogo de argolinhas
De todos fui o pimpão.

Atropelei o meu flete
E como não tinha medo
Logo tirei uma argola
Bem enfiada no dedo.

Aí é que tive o golpe
Da gauchita que te digo
Tremi todo só de olhá-la
Que olhos! que face, amigo!

A prenda fui ofertar
A essa moça bonita,
Que no braço me amarrou
Uma maneia de fita.

Foi como coisa mandada,
Acolherados ficamos;
Seguiu-se o que já te disse
E assim é que nos casamos.

De lá saí mui gamenho
E meti o meu bagual
Numa praça que tem pasto
Como a estância do Seival.

E dali fui resvalar
Bem na porta do mercado
E saiu-me um índio velho
De chapéu baio encerado.

Entrei por um portão largo
E me apeei, de repente,
O cujo pinchou-me multa,
Deixou-me de marca quente.

Agora é com a Marucas,
Já te contei anedotas,
Vou contar como se vestem
As muchachas de Pelotas.

Usam cabelo na testa
Tosadito a cogotilho
Mais alinhado e parelho
Que o do teu bagual rosilho.

Usam fitas na cabeça
Qu'esvoaçam com os ventos
E do lado de laçar
O leque preso nos tentos.

Usam coletes cinchados
E ancas esparramadas
Parece, quando caminham,
Avestruzes boleadas.

Usam botinas mui lindas
E de tacões muito altos
De forma que sem esporas
Andam elas sempre aos saltos.

Usam preso no granito
Um peitoral de ouro puro,
Ao qual prendem o retrato
Do cujo que está seguro.

E outras muito trapalhadas
Que eu vi e não sei dizer;
Quando vender a outra tropa
Com vagar hei de aprender.

Ah! me diz à Marucas,
Que recomendo a ximbé,
(A filha da vaca osca,
Neta do boi jaguané)

Dá lembranças à tia Rosa
E mais ao compadre Juca
E tu, já sabes, ocupa,
O estimado irmão

Resposta ao voluntário

Cá por estes velhos pagos,
Amigo! teu versos li;
Quis cantá-los à viola
Mas a toada perdi;
E de amor meio abombado,
Dessa tenção desisti.

Do teu tordilho tu choras
A dura separação,
E as saudades que tens
Dos pagos do teu rincão,
Saudades do bom churrasco
E do mate-chimarrão!...

Ah!... por Deus! que é vida triste
Essa vida que aí passas!...
Sem poder furtar a volta
Por mais quebrasdas que faças
à fome, sede, e fadigas,
Desaforos e pirraças...

Essa vida desastrada,
Como tu, eu já passei;
O vigor da mocidade
Nesse lidar eu gastei:
E por velho e estropeado,
Agora à soga, fiquei.

De fome andava delgado
Como por lá andarás
Sem um peludo no bolso
Que também tu não terás.
Com porteiras pelas botas,
Calças rotas por detrás.

E além de tal miséria
Ralhos, gritos, cara feia
Às vezes por quem não vale
Nem sequer pataca e meia...
Por quem sente o garrão frouxo
Na mais pequena peleia.

Se as rações nos adelgaçam,
O soldo, inda mais chorado,
Vem sempre muito de espaço
Como um matungo cansado...
E deixa a cola escondida
Pois lá fica o - atrasado - !...

Quando os ossos estendemos
Depois do rude lidar,
As cornetas e tambores
Do sono vêm nos tirar,
E da cama improvisada
Pronto nos fazem saltar.

Assim sempre aperreado
Um alentado gaúcho
Tendo leve a algibeira
E ainda mais leve o bucho
Passa a vida de reiúno
Até dar o último pucho.

Se na frente do inimigo
É guapo, forte, atrevido,
Mesmo assim pode ficar
Na promoção esquecido
Se por cá... tiver votado
A favor dum só partido.

Mas enfim, servir a pátria
Seus contrários combater
Do brasileiro soldado
É nobre e santo dever...
Que apesar de mil trabalhos,
Ele não deve esquecer!

--------------------------------------------------------------------------------

Também, como tu, amigo,
De amor eu fui pealado,
E mesmo sendo um bagual
Um tanto ressabiado...
Mais de uma guapa moça
Me trouxe palanqueado...

Se, por muito esporeado,
Coicear eu pretendia,
Um mancarrão me tornava,
Quando a bela me sorria...
E buçal de couro zarro
Levava... se ela queria!...

Houve um tempo que, diziam,
Amor firme se encontrava,
Que assim como laço novo
Duros tirões agüentava!...
Minha avó assim dizia
Que sua avó lhe contava...

Porém hoje... que'esperança?
Falar nisso é pura asneira,
Que é rara a moça bonita
Que trinta amantes não queira,
E custa encontrar alguma
Que não seja volvedeira!...

Hoje as modas, meu amigo,
Baralhando tudo vão;
É moda as meninas terem
Moeda e não - coração... -
A ternura e lealdade
Trocam por qualquer botão.

A ausência de tua bela
Não chores, portanto, amigo;
Pois que talvez te julgando
Muito perto do perigo
Um outro amor procurasse
Do que o teu, menos antigo.

Podes crer que a tal menina
Já por cá embuçalou
Algum arisco matreiro
Que do rodeio escapou
E sem se parar estaca
Ao faxinal se atirou.

Esse, sim, andou na regra,
Pois perto da namorada,
Escapando como sorro,
De cair na volteada:
Tem sempre livre o pelego,
De bolaço ou estocada.

Uns maulas tais envergonham
Esta nossa heróica terra:
No Campo são... avestruzes,
E... quatis lá pela serra...
Assim que de longe sentem
Coisa que pareça guerra!...

--------------------------------------------------------------------------------

Mas, Deus! Eu vou findar,
Com este largo sermão:
Memórias a esses bravos
Que contigo aí estão;
E se topares co'o Lopez
Prega-lhe um bom encontrão.

Para que, outra vez,
A quebralhão não se meta;
Com tuas fortes chilenas
Rasga-lhe bem a paleta,
E larga-o, depopis qu'esteja
Torto dum olho e maceta!

Uma festa

Senhores, se querem ver
Um sucesso assaz galante
Dai-me atenção um instante
E ouvirão.

Eu vos faço narração,
E começo a divulgar
Coisa que é de se ficar
Pasmado!

Porque, no tempo passado,
Nunca se chegou a ver
O que veio a acontecer
Agora.

Desposou-se uma senhora
Na capela do Boquete;
E deu o melhor banquete
Do mundo!

Eu que atendi em segundo,
E que sempre observava
Vi que o banquete contava
Bons manjares.

Mas vim ver nestes lugares,
- Não sei se é do uso aqui -
Pratinhos que nunca vi
Em funções:

Laçaços e bofetões!...
É o nome que eu lhes dei;
Mas eu deles não provei,
Nem por nada!

São comidas carregadas,
E eu nunca gostei delas,
Nem tampouco posso vê-las
Perto de mim...

Como foi: Manoel Joaquim,
Que do noivo era um irmão,
Foi quem tomou o fartão
Do tal bocado.

O pai com ele zangado,
Por ele entrar-lhe com contos,
Fez chegar o caso a pontos
Do laço andar...

ELe, então a fim de honrar
A sua querida mãe...
Diz: - Voce não é meu pai!...
E assim,

Poder nenhum tem em mim;
E a dizer-lhe agora, venho:
De obedecer não tenho
Obrigação! -

E para que a função
Fosse inda mais arrojada,
Da noiva uma irmã casada,
E outra solteira,

Também lá por certa asneira,
De um vidro que se quebrou,
A solteira, sem mais, começou
A improvisar:

Quis uma outra acomodar,
Mais armaram tal travada.
Que o marido da casada
Acudiu!

A solteira que isto viu,
Querendo a coisa espremer:
- Que vem cá você fazer,
Seu ladrão?... -

A casada, disto então
Fortemente estimulada,
Sentou-lhe uma bofetada;
Foi um gosto!

Ela rebateu com o rosto
- Que assim manda a boa ordem -
E eu, vendo uma tal desordem,
Quebrei beco...

Francisco José Pacheco
Que do noivo era padrinho,
Vendo que o tal pratinho
Não lhe tocava,

- Pois suponho que gostava,
Segundo o que praticou.
Que para o mostrar tratou
Servir-se a si;

- Bem asno em estar aqui,
(Dizia) nesta função!... -
E, a si mesmo, muito bofetão
Foi dando!

Eu estive observando
Aquele belo entremez,
Que, sem dúvida, se fez
Com aplauso.

Da noiva findo o caso,
Resta-me dizer agora,
Aquela dita senhora
Como se chama,

Para que conte a fama
Duma função esquisita,
Que se fez no casamento
De Antônia Rosa Brabita!

IV - Trovas

Cantadas ao som do Hino Farrapo

Bento Gonçalves da Silva
Da Liberdade é o guia
É herói porque detesta
A infame tirania.

Contra a infame galegada
Ufanos trabalharemos,
Triunfando as nossas armas
Republicanos seremos.

Os galegos já contavam
Que a vitória fosse sua,
Quando entraram farroupilhas
De lanças e espadas nuas.

Aborrecemos o jugo,
Fazemos guerra aos tiranos
Juramos por nossas armas:
Seremos republicanos.

Guerra, guerra, fome e peste
Contra o malvado tirano!
E a todo o mais que não for
Liberal republicano.

Tenho o meu cavalo oveiro
Tosadinho a cogotilho,
Para correr os galegos
Como tropa de novilho.

Nos ângulos do continente
Pavilhão tricolor
Se divisa sustentado
Por liberdade e valor!

Amarrei o sol e a lua
Com a fita da Liberdade;
Aquartelando as estrelas
Só respeito a Divindade!

Liberal, republicano,
Rio-grandense - até a morte,
Hei de levantar bandeira,
Té onde for minha sorte!

Bento Gonçalves, primeiro,
General Neto, segundo,
Não se lhes há de atacar
Em qualquer parte do mundo.

Grande Neto, abençoado,
Teu nome é o que mais rebrilha;
Por isso é que serás sempre
O mimo dos farroupilhas.

Foi eleito presidente
Na vila Piratinim
O ilustre José Gomes
De Vasconcelos Jardim.

Há muito lombilho novo,
Caronas de couro cru,
Pois já vai chegando o tempo
De encilhar caramuru.

No dia vinte e quatro,
No passo do Canapé,
Bento Manoel escapou-se
Só co'uma bota no pé.

O Lima subiu ao valo
Como um grande valentão;
Uma bala levou-lhe o queixo
Desmaiou, caiu no chão.

Os bravos filhos de Marte
Juravam pela existência,
Sustentar a todo o custo
Da Nação a independência.

Amante, firme, independente,
É dever de um filho honrado,
Pela Pátria dar a vida,
É justo, é dever sagrado.

Unidos, amantes briosos
Da feliz fraternidade;
Seremos republicanos,
Justa lei da liberdade.

Quem saudoso inda suspira
Pelo amado cativeiro,
Vá servir a seu senhor:
Deixe o solo brasileiro!

Quando a voz da Pátria chama,
Devemos obedecer;
Na frente cantando o hino:
- Ou liberdade ou morrer!

Mimosas rio-grandenses,
Criai bem vossos filhinhos,
Que a Pátria muito precisa
Do vigor dos seus bracinhos.

Porto Alegre e Rio Pardo
Seguem a mesma opinião;
Por não poder suportar
Esta vil escravidão.

Bento Gonçalves da Silva
Foi preso, foi desterrado;
Mas deixou o bravo Neto
P'ra cumprir os seus tratados.

O Neto gritou na frente.
O David na retaguarda:
- Esta corja de cativos,
Para os livres não são de nada!

Valente David, guerreiro,
Que na mão sustenta a espada!
Atropela, prende e mata,
A nojenta galegada.

Graças imensas são dadas
A Gonçalves Lima e Neto;
Viva o Coronel Crescêncio!
E seus camaradas libertos!

Onofre rendeu as armas
Com dores no coração;
Não foi falta de coragem,
Foi falta de munição.

Qual seria o farroupilha
De tão duro coração.
Que foi dizer aos galegos
- Que não tinham munição!

Se eu não sou republicano,
O Deus do Céu não me escute,
A luz do dia me falte,
A terra não me sepulte!

Senhor Neto vá-se embora,
Não se meta a capadócio;
Vá cuidar dos parelheiros,
Que fará melhor negócio.

Senhor Neto não precisa
De cuidar de parelheiros;
Já lá tem Silva Tavares,
Só'stá faltando o Medeiros.

Mais vale um farroupilha
Que tenha uma saia só
Do que duas mil camelas*
Cobertas de ouro em pó.

Ó galego, pé de chumbo,
Calcanhar de frigideira,
Quem te deu a confiança
De casar com brasileira?

Ó galego, talão grosso,
Cara dura, unha de gancho,
Hei de correr-te a rebenque,
Se pisares no meu rancho.

Hei de mandar escrever
Por montanhas e desertos,
Em letras d'ouro este nome:
- Antônio de Sousa Neto. -

O dia oito de outubro
Foi um dia soberano,
Em que no Seival soou
O grito republicano.

As pedras vertiam sangue,
As árvores davam gemidos,
Por verem os patriotas
Da sua pátria corridos.

Bento Gonçalves farroupilha;
Bento Manoel caramuru;
Juntaram-se estes bentinhos,
Fizearm da província angu.

Tenho uns arreios velhos,
Carona de couro cru,
Com que pretendo encilhar
O partido C'ramuru.

Noo campo de honra andamos
Fevereiro, março, abril,
Defendendo a nossa causa,
Commo filhos do Brasil.

Minha mãe eu lhe dou parte;
Não me chame de tirano,
Vou seguir as minhas armas.
Porque sou republicano.

O herói Bento Gonçalves
Que de nada se temeu,
No dia 20 de setembro
Bateu palmas e venceu.

A vinte e cinco de maio
No passo de Inhanduí,
Camelo virou capincho;
Ninguém me contou, eu vi.

Deixei mãe, deixei mulher,
Deixei o rancho e cabedais,
P'ra seguir meus companheiros
Republicanos liberais.

Não dês guarida aos tiranos
Oh! altas serras do norte!
Oh! brandos campos do sul
A tirania traz morte!

No outro lado da linha
Lá p'ra Banda Oriental,
Vou arriscar minha vida
No partido liberal.

De setembro o grande vinte
Torna de novo a raiar;
Empresa tão gloriosa
É tempo de terminar.

Graças mil te sejam dadas,
Grande Bento abençoado;
No Brasil, em toda a parte,
É teu nome respeitado.

Para fazer num instante
Tremer o Brasil inteiro,
Á frente de mil heróis,
Temos um Lima guerreiro!

Viva a coluna dos livres
Viva o povo rio-grandense,
Que aos olhos de todo o mundo
Vencerá o fluminense!

Um João Antônio famoso
Qual raio do deus Mavorte,
Arremessa entre os cativos
O terror, o susto, a morte!

Setenta e tantos algozes,
Sectários da escravidão,
O braço de um Agostinho
Enviou a Deus Plutão.

Ainda na terra floresce
O sangue de um Amaral!
Há de ser como este sangue
A liberdade imortal.

Se heróis valentes como estes
Em prol da pátria morreram,
Da terra, contra os tiranos,
Veremos outros nascerem!

Já vem o Silva Tavares
Com a sua gente armada,
Perguntando pelo Neto
Mais a sua farrapada!

No passo da Cachoeira
Rio de sangue se formou
Das cabeças dos tiranos
Que a espada livre cortou.

No dia 7 de Setembro
No campo da Boa Vista,
Foram presos João Lourenço
E outros mais legalistas!


* Outra denominação da "legalidade".

V - Poesias históricas

A batalha do Rosário

A desgraça do governo
Nos levou a tal estado,
Que deu valor ao inimigo,
Fez o exército desgraçado.

Bravos heróis se perderam
Faz pasmar a triste cena...
Devido à rude vileza
Do General Barbacena.

Como condutor de negros,
Que trouxesse do Valongo,
Conduziu a nossa gente
Muito pior que um rei Congo.

Deu princípio ao ataque.
Sem junção duma brigada...
Nem mandou juntar bagagens,
Carretas, bois, cavalhada.

E assim aconteceu
Sem nada determinar;
E só entrou nessa luta,
Aquele que quis entrar.

Fazendo carga no centro,
Sem dar proteção aos flancos
Lá deixou bastantes mortos,
Muitos feridos e mancos.

Ganha força o inimigo
À cavalaria do Rio,
Que por ser pequena força
Logo rompida se viu.

Um grande Abreu em socorro
A cavalaria entrevela
E aí um batalhão nosso
O matou junto com ela!

Já então a vil canalha,
Que ficou fora de forma,
Vai a correr pelos altos
Sem disciplina e sem norma.

Lá se foram os covardes
Que na luta não entraram;
Creio alguns três mil homens
A ela desampararam.

Muitas chinas percorriam
Pelas margens dos banhados,
Levando cada uma delas
Aos dez e doze soldados!

Neste número de covardes
Iam muitos oficiais,
Que se esqueciam das honras
E vozes dos generais.

Ó Augusto Imperador!
Dai-lhes, senhor, castigo!
Pois que devem ser julgados
Ainda mais do que o inimigo.

Por esse motivo enorme
Nossa ação foi malfadada,
Por haver nas vossas tropas
Oficiais feitos do nada.

Quando devem ser exemplo,
Exercitam a fugida:
Por isso, Augusto senhor,
Foi vossa gente perdida.

Rege a ordem militar
Dar o soldo, mas também
Castigar o delinqüente,
Premiar o que serve bem.

Se quereis ser triunfante
Mudai desde logo a cena,
Não dês heróis combatentes
Ao cargo de um Barbacena.

Tendo-nos sido visível
Quase inteira a perdição,
O herói Bento Gonçalves
Foi a nossa salvação!

Vou apostar se quiserdes
Uma soma não pequena,
Que ignoram as praças
Como atacou Barbacena.

Zelou muito a retirada!
Deixou aos centos cansados!
Assim perde um general
A vida dos seus soldados.

E como fraco, decerto,
De cada rio, fez muro:
Muito além de São Lourenço
Não se julga estar seguro.

O ataque do Rosário

Agora vou contar
O ataque dos guerreiros
Lá no passo do Rosário
Dia vinte de fevereiro.

Os bombeiros confirmavam
De quatro a cinco mil homens;
Ai Jesus! Meu Deus do Céu!
Isto é o que nos consome.

O inimigo aproximou-se
Pouco mais, menos altura
Onde se deu o ataque
Campos do Boaventura.

Os Pátrias* nos perseguiam
Com guerrilhas pelos flancos;
Para mais nos consumirem,
Botaram fogo nos campos.

Os fogos nos começaram
Na esquerda muito primeiro.
Na direita nos faltou
Quem comandasse os guerreiros.

E o nosso Barbacena,
Depois que fez a borrada,
Foi matar a gente toda,
E se pôs em retirada.

Marchamos p'ra Cacequi,
Todos p'ra morrer, de sono,
Quando foi no outro dia...
Tanto cavalo sem dono!...

Saímos de Cacequi,
Todos nós em boa-fé,
Nos currais fomos saber
Que íamos para Bagé.

* Os castelhanos.

Dedicado aos serritanos de Canguçu

- 1820 -

Amigos, irmãos de fado,
Nossos pagos estão perdidos;
Já não são admitidos
Os honrados

Ilustríssimos senhores
Lá dos pagos do Cerrito:
De arrenegado e aflito,
Vou falar.

Já não posso suportar
Esse infame proceder;
Por isso vou dizer
O que são:

Tolos sem comparação,
São todos lá desses pagos
Que não merecem afagos
De ninguém.

Vergonha nenhuma têm,
São de lares namoradores,
Que por causa dos amores
Vivem brigando.

De contínuo rezingando
Uns com os outros só se vê;
Vejam a causa por que
Fazem isto.

Várias vezes tenho visto
O motivo dos enfados;
Querem todos ser amados
De por força!

Um diz: - Veja aquela moça
- Sendo bela e delicada,
- Foi-se fazer desgraçada
- Por seu gosto;

- Pois é de importuno rosto
- O moço a quem ela quer;
- Bem dizes: sempre é mulher,
- Amigo!

- Sendo eu tão belo figo,
- Mil vezes melhor qu'ele,
- Foi-se agradar daquele
- Traste!...

Diz outro: - Tarde andaste,
- Devias ter-te adiantado
- Com mais sinais de agrado
- À tal.

Responde: - Guerra fatal
- Tenho feito àquela ingrata;
- Mas ela de resto trata
- O meu amor.

- Tome um conselho, senhor,
Que lhe dou, sou amigo.
Não queira ser inimigo
Da paz.

Deixe lá o pobre rapaz
Gozar da sorte o prazer,
Para que você há de ser
Assim?

- Adoto o conselho enfim,
- Que o meu amigo me dá;
- Ela se arrependerá
- De desprezar-me.

- Hei de ver outra e casar-me;
- Mostrar-lhe quanto mereço
- Pois tenho quem faça apreço
Em minha pessoa.

É uma razão mui boa
E melhor você não pensa.
A seca vai sendo extensa;
Adeus!

Vá cuidar dos passos seus
Que eu dos meus vou tratar,
Para não dar que falar
Ao mundo... -

É de juízo profundo
Um dos tais namoradinhos,
Que ficou fazendo pratinhos
De conselheiro.

Faz-me falta o dinheiro
P'ra minha desdita seguir;
Mas, com quem discutir
Eu sempre acho.

Logo sem mais demora,
Vejo um que era dos tais,
Tolo inda talvez mais
Que o primeiro.

- Deus guarde, cavalheiro!
- Estimo de o encontrar,
- Para poder conversar
- A gosto.

Veja como trago este rosto,
- De mil raivas incendiado!...
Que comigo tem se passado
- Casos tristes.

Tu, que no mundo existes
- Alguns anos mais do que eu,
- Repara o que sucedeu
- No distrito.

- Eu, de agoniado e aflito,
- Até falei na hora de casar.
- .....................................
.......................

- Agora vou nomear
Os que seguem esta carreira;
José Barbosa Siqueira
É o primeiro.

E também seu companheiro,
Que é de nome Constantino,
Que às vezes fica interino
Em seu lugar...

Os Caetanos vão gastar
Os seus reais por ter estrada;
E o Borges é camarada
Da súcia.

Não são de menos astúcia
O Ermilindro e o Pantaleão;
Também anda no cambão
Hilário.

E outros de juízo mais vário
Como três, que me iam ficando:
O Maximiano, o Hildebrando
E o Inácio da venda.

Fica acabada a contenda;
Em que isto dá, quero ver,
E também seu proceder
Tolo.

Meus senhores, me desculpem
A minha pouca extensão:
Que, se eu fosse falador,
Muito mais diria então.

Persignação

- 1835 -

Tristes tempos malfadados,
Nunca vistas maravilhas,
Distinguem-se os Farroupilas
- Pelo sinal -

De pistola, de punhal,
A vaga raivosa gente,
Assola o Continente
- Da Santa Cruz -

Chamam-nos Caramurus,
Nos ameaçam de saque;
Mas, de semelhante ataque,
- Livre-nos Deus, -

As leis andam a boléus,
O povo tremendo foge;
- Bento Gonçalves - é hoje
- Nosso Senhor. -

Os que furtam sem pudor,
Espancam os seus patrícios,
Chamam-se, sem artifícios,
- Dos nossos, -

Os que, tremendo alvoroços,
Querem viver retirados,
Logo são apelidados
- Inimigos. -

Dizem inda tais amigos,
Que há de Caldas* governar,
Que a lei se há de ditar
- Em nome do Padre -

No entanto anda o compadre
Do compadre dividido
Foge a esposa do marido
- E do Filho. -

Grande Deus! Eu me humilho
Ante vossa divindade!
Mandai-nos a caridade
- Do Espírito Santo. -

Enxugai o nosso pranto,
Acalmai a nossa discórdia;
Por vossa misericórdia!
- Amém, Jesus! -

* O Padre Caldas.

Outra, da mesma época

O partido que pretende
Nossa moral corromper,
Vou fazê-lo conhecer
- Pelo Sinal.

Da palavra liberal
Tem ele tanto temor,
Como o diabo tem horror
- Da Santa Cruz.

Em seus escritos transluz
A indecência em grau subido;
De tão funesto partido,
- Livre-nos Deus.

Perseguir patrícios seus,
P'ra de estranhos ser bem-visto,
Só faz quem não crê em Cristo,
- Nosso Senhor.

Mas de Deus não tem temor
O partido saquarema;
Longe vá o seu sistema
- Dos nossos.

Rebater os erros grossos
Dos saquaremos, devemos
Porque são das leis que temos,
- Inimigos.

Do povo se fazem amigos,
Quando tem necessidade,
Porém é - sua amizade,
- Em nome.

Lição tal o povo teme,
Desta gente que deseja
Que o filho contrário seja
- Do Pai.

Vede qual é, reparai,
De Pernambuco hoje a sorte:
Chora o pai a triste morte
- Do Filho.

Da desordem o caudilho
Quer ver se o mal nos conduz,
Porque odeia a clara luz
- Do Espírito Santo.

Mas há de ver com espanto,
Que, amando o povo a verdade,
Só quer paz e liberdade.
- Amém!

Pelo sinal

O herói Bento Gonçalves,
Por ter de nós piedade,
Quer mostrar a liberdade
- Pelo Sinal.

O Neto, que é seu igual,
Não teme grandes perigos;
Livrai-nos dos inimigos
- Da Santa Cruz.

Que são os Caramurus,
De João da Silva Tavares
E de todos os seus sequazes,
- Livre-nos Deus!

Perdoa os pecados meus,
E tem de nós piedade;
Livra-nos da crueldade,
- Nosso Senhor.

Destes que com furor
Tudo levam a peito,
Para tirar direito
- Dos nossos.

Sofrer eu já não posso
Esta malvada gente:
Porque são do continente
- Inimigos!

Olhem os grandes perigos!
Está-se criando outro Pedro!...
Deus nos livre deste enredo,
- Em nome do Padre.

Deste-nos a liberdade;
Já nos livraste do pai:
Vê se também nos livras
- Do Filho.

E, então, eu me humilho
Com todo meu coração;
Venha-nos a proteção
- Do Espírito Santo.

E ressoará suave canto
E recompassada melodia,
Dizendo a Virgem Maria:
- Amém, Jesus!

Outro - Pelo sinal

Na coxilha do Seival,
Eu o vi muito depressa
Fazer logo às avessas
- Pelo Sinal.

Maldito monstro infernal!
Não há quem dele dê cabo?...
Só não entende o diabo
- Da Santa Cruz.

Santo nome de Jesus!
Nós todos somos humanos;
De semelhantes tiranos
- Livre-nos Deus.

Tanto mal queres aos teus
Que o sangue desejas ver,
P'ra depois, vires a ser...
- Nosso Senhor.

Tendo já visto o rigor,
Inimigo da nação,
Que produz a boa união
- Dos nossos.

Nós todos somos sócios
Da ordem e patriotismo,
E, somos, do despotismo,
- Inimigos.

E tu, com os teus amigos,
Caramurus diabólicos,
Não obram como católicos,
- Em nome do Padre,

Não acham lei que lhes agrade,
Senão com a lei dos seus,
Todos abusam de Deus
- e do Filho.

Malditos! Em um tornilho
Ver-se-á cada qual,
Com tormento corporal
- do Espírito Santo.

Assim queira Deus, portanto,
Que o diabo, por esses ares
Carregue o Silva Tavares!
- Amém, Jesus!

(Versos da Revoluçção de 1835.)

--------------------------------------------------------------------------------

Quem adora a liberdade
Mais do que Bruto e Catão?
- João -

Quem, por justo, a estima goza
Do mais perverso demônio?
- Antônio -

Quem, do Sul entre os heróis
Está na plana primeira?
- Silveira -

Respeitado inda há de ser
Pela nação brasileira
O herói republicano
João Antônio da Silveira.

Serafim Joaquim de Alencastro
(São Gabriel, 30 de dezembro de 1841.)

--------------------------------------------------------------------------------

Quem da pátria a liberdade
Defende como um leão?
- João -

Quem sempre um soldado encontra
No destemido campônio?
- Antônio -

Quem na guerra faz brilhar
Da república, a bandeira?
- Silveira -

Vencer a força que oprime
Toda a nação brasileira
É o que aqui faz com glória
João Antônio da Silveira.

Um soldado republicano
(Alegrete, 20 de dezembro 1842.)

--------------------------------------------------------------------------------

Quem virtuoso se mostra,
Sem o vício d'ambição?
- João -

Quem é que sem descanso
Persegue o caramuru - demônio?
- Antônio -

Qual a melhor espada
Da nossa melhor fileira?
- Silveira -

Erija-se um templo agora
A essa espada primeira,
Imite, quem quer ser grande,
João Antônio da Silveira.

voltar 12345avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal