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Cancioneiro guasca

João Simão Lopes Neto

Contra Bento Manoel Ribeiro

(Versos feitos pelos seus adversários, na Revolução de 1835)
Pode um altivo humilhar-se,
Pode um teimoso ceder,
Pode um pobre enriquecer,
Pode um pagão batizar-se;
Pode um avaro prestar-se,
Um lascivo confessar-se,
Pode um mouro ser cristão,
Um arrependido salvar-se,
Tudo pode ter perdão:
Só o - Bento Manoel - NÃO!

Oh! do inferno instrumento.
- Bento,

Modelo dos tiranos, da traição painel
- Manoel,

No inferno te aguardam, qual primeiro
- Ribeiro.

Como um montão de chamas num braseiro,
- Bento Manoel Ribeiro!

Soneto

Treme, vacila, tomba e cai por terra,
Fatal, nefanda, horrível Tirania;
Um Deus, um Deus potente, num só dia
Confundiu o opressor, deu fimà guerra.

Brame o monstro feroz, ulula e berra,
Aos céus imprecações, ódios envia;
Em prantos se faz sua alegria:
Treme, vacila, tomba e cai por terra!

Exulta oh! Pátria minha generosa;
Não mais escravidão, não mais Tiranos!
És livre, serás livre e venturosa.

Opressores cruéis e desumanos,
O Ramo da Oliveira dadivosa
Pronto aceitai, ou morrerreis insanos!

Ao chefe dos rebeldes, Bento Gonçalves da Silva

Pudeste, ó monstro, quase num momento,
Ferir a pátria, de tartárea guerra;
Fazer pudeste o campo, o vale, a serra
Covis de feras, de ladrões assento.

D'estrago e luto lágrimas sedento
Entregue à fúria, que teu peito aferra,
Pudeste converte formosa terra
D'eterno horror em vasto monumento!

Mas não conseguirás, monstro nefando,
De sangue fraternal embriagado,
Sobre o trono exercer horrível mando;

Dos tiranos te espera a sorte, o fado;
Ou nas mãos do verdugo terminando
Ou de Marte nos campos, fulminado!

Dois sonetos

À memória de Bento Gonçalves
Nas memórias do bravo de Caprera,
De grande capitão ele figura,
Que por ser desamado da ventura
Não teve os louros de que digno era.

Se das regiões da superior esfera
Baixar porém o fez a sorte dura,
De seus feitos a fama inda perdura,
E o povo o nome seu inda venera.
O civismo, a nobreza, a humanidade,
O valor e a palavra, que convence,
Seus predicados eram, sem vaidade.
Verdadeiro centauro rio-grandense,
De arvorar o pendão da Liberdade,
A imorredoura glória lhe pertence!

A um retrato de Canabarro

Eis da guerra o leão famigerado,
Como a sua carranca bem denota,
Que nas batalhas, só bramindo irado,
Às inimigas regiões punha em derrota.

Na paz colosso foi nunca abalado
E modelo de vero patriota;
Da liberdade o mais leal soldado
E somente do bem seguindo a rota.

Quando da guerra a tuba aterradora
De novo ouviu soar, ei-lo que assoma,
Tremer fazendo audaz a horda invasora.

Do feroz inimigo a fúria doma,
E aos pátrios lares salva como outrora
O grande Fábio a desolada Roma.

Ao general D. Manoel de Rosas

Eras bagual matreiro e quebralhão
Que coices e manotaços meneavas:
Forte touro que o laço rebentavas,
Furioso, atrevido e chimarrão.

Eras tigre sanhudo, eras leão
Que tudo quanto vias devoravas;
Eras sorro manhoso que zombavas
Do mais farejador, ligeiro cão.

Hoje és lerdo matungo, vil sendeiro,
Novilho, boi de carro, estropiado,
Em vez de leão, manso cordeiro.

Jogaste mal e foste cedilhado.
Mas enfim tu desceste do poleiro;
Já um cigarro não vales, mal fechado.

Recordação histórica

A seguinte poesia foi oferecida em 1842 pelo seu autor, o tenente-coronel Sebastião Xavier do Amaral Sarmento Mena, falecido na cidade de Rio Pardo em junho de 1893, ao general David Canabarro e coronéis João Antônio da Silveira e Manoel Lucas de Oliveira:

Quem, qual Argos vigilante
Da pátria em defesa vi?
- David.

Quem faz o Dario Imperial
Estalar qual fraco barro?
- Canabarro.

Quem entre os bons generais
Será general bizarro,
Quem a tropa quer por chefe?
- É só David Canabarro!

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Quem virtude adorando,
É mais forte que Catão?
- João.

Quem só com vista aterra
O despotismo demônio?
- Antônio.

Quem na guerra louros colhe
E na paz, pura oliveira?
-Silveira.

Manda o fado que respeite
Toda a Nação Brasileira
Ao Lafayette do Sul,
João Antônio da Silveira!

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Quem braço a braço guerreia
O despotismo cruel?
- Manoel.

Quem de escravos do poder
Não come petas nem cucas?
- Lucas.

Quem, entre o povo e as tropas
Goza confiança inteira?
- Oliveira.

É liberal por princípios,
Preza a honra verdadeira,
É na guerra um novo Marte
- Manoell Lucas de Oliveira!

VI - Desafios (Dois modelos)

Desafio

(Entre Malaquias e Agache em uma festa de casamento)

Malaquias:

Aceite a Sra. Lúcia
O meu alegre cantar!
Só peço a Deus mil venturas,
Que decerto lhe há de dar!

Ao noivo também desejo,
Por ser moço apessoado,
Que seja um marido em regra,
Por todos sempre estimado.

A sô Capitão Manduca
Que também sente alegria,
Desejo que tenha netos
Que lhe dê muita honraria.

A este casal de noivos,
Por ser gente mui honrada
Desejo que se arrodeie
De bonita filharada!

Agache

Ao lindo casal de pombos
Desejo toda a grandeza,
Saúde e categorias
E bastante amareleza!

Que a noiva viva contente
Cheia de brilho e beleza,
Com seu noivinho fachudo,
De gravata sempre tesa!

Que o sô Manduca desfrute
A vida com gentileza,
Nesta casa abençoada
Só cheia de boniteza!

Que tenha netos, visnetos,
Como manda a natureza,
Moçada toda faísca,
De muita politiqueza!

M:

A minha china é trigueira,
Mais trigueira que um pinhão,
Barriga d'égua-madrinha,
Olho de gato ladrão!

A:

A minha china é perversa,
Deu-me um triste desengano;
Fui encontrá-la nos braços
Dum mascate italiano...

M:

Me trata como cachorro,
Só me chama de animal!
Não há china mais maleva
Que a Zefa do Faxinal!

A:

A mulher com quem casei
É toda a minha arrelia:
Quando está com seus azeites,
Me dá três sovas por dia!

M:

A mulher é como o gato;
Que mia quando namora:
Porém assim que se casa
Põe logo as unhas de fora!

A:

Saibam todos, meus senhores,
Saiba todo o vizindário:
Que p'ra semana me caso
Co'a filha do seu vigário!...

M:

Vendo tudo quanto tenho
Só p'ra me chegar a ti;
E só não vendo as ceroulas,
Porque nunca as possuí!

A:

Fui fazer uma viagem,
Andei uns meses por fora;
Na volta, encontro a mulher,
Já pronta... p'ra cada hora!

M:

Eu antes de dar princípio
A esta luita travada,
Cumprimento o sô Manduca
E a sua família honrada.

A:

Dirijo os meus cumprimentos
Ao cantador Malaquias,
Que vem mostrar nesta casa
Suas grandes valentias!

M:

Eu sou muito conhecido
Na Cruz Alta e S. Sepé,
Na Cachoeira, em Pelotas,
No Rio Grande, em Bagé!

A:

Pois eu também tenho fama
Nos pagos da Encruzilhada;
Rio Pardo, Porto Alegre,
Eu tenho feito agachada!...

M:

Eu já fui peão d'estância,
Fui capataz e tropeiro;
Agora lavrando terras,
Vou ganhando o meu dinheiro.

A:

Enganaste-te, amiguito,
Não sou amigo da pândega;
Empreguei-me em Porto Alegre
Como servente da alfândega!

M:

Se queres ver minha força,
Tomar nota do que eu sei,
Me faz algumas perguntas,
Que eu tudo responderei.

A:

Aceito a tua proposta:
Diz-me agora por favor,
Que bicho é esse daninho,
Que todos tratam de amor?

M: Amor é bicho de concha,
Que se intromete no peito,
Quanto mais se enxota o bicho,
Mais ele nos tem sujeito!

A:

Se o amor é bicho feio,
Tu não deves explicar,
Por que é que amor de mãe
Se faz tanto respeitar?...

M:

Amor de mãe é sagrado,
É sentimento divino;
É como o sol que alumia
Nossa estrada do destino.

A:

Foi bonita esta resposta,
Porém ela não me basta:
Quero que agora me digas
O que é amor de madrasta.

M:

Amor de madrasta é sarna
Que esfola o corpo da gente;
Madrasta não é mulher,
Mas venenosa serpente!

A:

Pergunta-me alguma coisa
Que te corra no besunto,
E verás como respondo
Direito no mesmo assunto!

M:

Como desejas que eu faça
A pergunta que quiser,
Me diz em quatro palavras,
Quem vem a ser - a mulher?...

A:

Toda a mulher desde Eva,
Tomou partes do diabo;
Quando s'enfeita, parece,
Uma macaca sem rabo!...

M:

Quero ainda exp'rimentar-te;
Se és cantador de talento,
Num rasgado da viola
Me diz o que é - casamento?

A:

O casamento, amiguito,
Sempre é coisa mui amarga,
Pois transforma um cidadão
Num triste burro de carga!

M:

Se me puxas pela língua
Mostrarei que não sou peco,
Mas muito capaz de levar-te
De arrasto num couro seco!

A:

De arrasto num couro seco
Levarei a tua vó,
Toda a tua parentada,
Com cabresto de cipó!

M:

Com cabresto de cipó
Eu vi a tua madrinha
Á frente de uma manada,
Repicando a campainha!

A:

Repicando a campainha,
Vi teu pai - um boi tambeiro -
Levando muito guascaço
Por ser bicho mui coceiro!

M:

Por ser bicho mui coceiro,
Desbocado e sempre mau,
Levaste do Chico Porto
Muita camada de pau!

A:

Muita camada de pau
Precisa o negro atrevido,
Que se meta em vida alheia,
Por ser muito intrometido!

M:

Por ser muito intrometido,
Vou-me saindo folheiro,
Montado no João Agache,
Orelhudo e caborteiro!

A:

Orelhudo e caborteiro
Sempre foi o teu avô.
Deu mais de trinta corcovos
No dia em que se ferrou.

M:

No dia em que se ferrou
A tua mulher - tordilha -
Deu quatro coices nas trombas
Na porca da tua filha!

M:

Vou mostrar um peito nobre
Que sente aquilo que diz:
Desculpa, meu bom Agache,
As injúrias que te fiz!

A:

Com tua delicadeza
Tu me mostras qu'és dos nossos!
Esquece os meus estrupícios...
Amigo, aperta estes ossos!

FESTA DO CAMPESTRE

Santo Antão. Capela do Monge
Santa Maria da Boca do Monte

Descante à viola

(Desafio entre o Juquinha da Tapera e o Chico Cigarra.)

Chico:

- Seu Juquinha da Tapera,
Morador deste rincão,
Vamos discorrer, trovando
Em louvor de Santo Antão? -

Juca:

- Em louvor de Santo Antão,
Eu lhe topo amigo Chico:
Pois sou t'ronguenga no pinho;
No trovar, atrás não fico. -

C:

No trovar atrás não fico,
Que nisso sou forte e cuera;
Não costumo pagar mal,
Seu Juquinha da Tapera!

J:

Seu Juquinha da Tapera!
Nada lhe fica devendo;
Portanto, amigo Cigarra,
Se quiser - vá discorrendo!...

C:

Se quiser - vá discorrendo!...
Eu já discorrendo estou:
Você fez como o matungo,
Que na cancha se empacou...

J:

Que na cancha se empacou,
Fez você, que é sem capricho:
Fez como o burro manhoso,
Quando se aperta o rabicho...

C:

Quando se aperta o rabicho
Fiz em você, que é um bagual,
No dia emque lhe botei
Maneia, rédea e buçal!

J:

Maneia, rédea e buçal
Faz muito que já deixei;
Desd'aquela sexta-feira,
Quando a cola eu lhe quebrei!

C:

Quando a cola eu lhe quebrei
Foi no dia de marcação
E depois cravei-lhe os garfos,
E risquei p'ra Santo Antão.

J:

E risquei p'ra Santo Antão,
No fandango me achei;
E você se foi ao pasto
Como matungo de lei.

C:

Como matungo de lei,
Posso ser, porém no pinho;
Pois num rasgado sou mestre
E na trova ando sozinho!

J:

E na trova ando sozinho,
Dizem todos deste pago;
Não bebo cana fiada,
Nem ando chorando trago.

C:

Nem ando chorando trago,
A você, nem a ninguém;
Me fio nesta guaiaca,
Que ela, plata, sempre tem.

J:

Que ela, plata, sempre tem,
Tenho por opinião;
Não deixo mal um polpeiro
Na festa de Santo Antão.

C:

Na festa de Santo Antão
Vou dar um viva primeiro
Ao seu Maneco do Carmo,
O nosso guapo festeiro!

J:

O nosso guapo festeiro
É homem de estimação;
E por isso eu a Deus peço,
Que lhe ajude e à obrigação.

C:

Que lhe ajude e à obrigação,
Vou pedir, cá de bem longe:
À gente cá do Campestre,
E ao meu santo padre monge.

J:

E ao meu santo padre monge
Que esta capelinha ergueu;
Que, se vive, anda vivendo,
Se não vive - já morreu...

C:

Se não vive - já morreu,
Nos deixando sem conforto;
Pois até curava a gente
De sezões depois de morto!

J:

De sezões depois de morto,
Eu curo por simpatia:
Basta trazer o defunto
Para ver esta folia...

C:

Para ver esta folia,
Muita gente vem, seu Juca;
Uns trazem seu revirado,
Outros comem de... pussuca...

J:

Outros comem... de pussuca,
Por andarem recalcados
Como matungos da porta,
Todo o dialombilhados.

C:

Todo o dia lombilhados
Por terem manhas e baldas.
Para o ano, Deus permita,
Que o festeiro seja o Caldas.

J:

Que o festeiro seja o Caldas
Eu peço de coração;
O Caldas tem vaca gorda,
E é homem de opinião.

C:

E é homem de opinião,
Gaúcho e franco no mais;
Viva - o capitão do mastro
O Sr. Régio de Morais.

J:

O Sr. Régio de Morais
De quem nunca tive queixas;
E o alferes da bandeira,
Nosso bom amigo Seixas.

C:

Nosso bom amigo Seixas,
E a nossa bela festeira,
E o nosso doutor dos queixos*
Seu tenente da fogueira.

J:

Seu tenente da fogueira,
Comigo não dê cavaco;
Quando Deus me dá o trigo;
O demo me leva o saco.

C:

O demo me leva o saco.
E nele apincha o seu Juca,
Que na trova se mostrou
Carunchado e pururuca.

J:

Carunchado e pururuca
Não sou eu que por engano
Fui marcado na paleta;
Pois no ferro sou tirano!

C:

Pois no ferro sou tirano,
Oigalê! que sou ventana!
Nunca agüentei carona,
Quanto mais ''stando na cana!

J:

Quanto mais 'stando na cana!
Não arreio cartucheira;
Peleio lindo no mais...
Pois sou índio polvadeira!

C:

Pois sou índio polvadeira,
Como potro de palanque;
Quando entro num salseiro,
Ninguém há que me desbanque!

J:

Ninguém há que me desbanque,
Aqui, nem noutro lugar;
Quem desejar qu'experimente,
Que procurando, há de achar.

C:

Que procurando há de achar,
Caramba qu'isto é verdade!
Nem bem fiz a despedida,
Já me'stá dando a saudade.

J:

Já me'stá dando a saudade,
Já lhe sinto os seus rigores...
Daquela guampa de apojo;
Que me deu seu Chico Flores...

C:

Que me deu seu Chico Flores
Nesta festa do Campestre,
Onde sempre foi t'ronguenga
Onde sempre será - mestre.

J:

Onde sempre será - mestre,
Porque sempre foi assim;
Se se lembrar do Juquinha
Mande um ramo de alecrim.

C:

Mande um ramo de alecrim,
Que chegue para nós dois,
Que, senão, não cantarei
Na outra festa e depois!

J:

Na outra festa e depois,
Com você cantarei junto.
Mas, se um de nós morrer,
- Que você seja o defunto!...

C: - Que você seja o defunto,
- Essa agachada, aceito;
Se quiser, morra primeiro -
E eu lhe enterrarei com jeito.

J:

E eu lhe enterrarei com jeito,
Como enterro esta função:
Viva a festa do Campestre!
Viva o nosso Santo Antão!

* Era um cirurgião-dentista.

Trecho de outro desafio entre dois repentistas

1.°:

- João Bilro, eu sou casado;
Minha mulher é Chiquinha:
Por que não trouxeste a tua,
Para dela ser vizinha?
Para a minha ver a tua
E a tua ver a minha?

2.°:

- Desta vez eu vim com pressa,
Não pude trazer ninguém;
Quando vier, outra vez,
Junto comigo ela vem:
Eu vejo a tua mulher,
Tu vês a minha também...

Outro

A:

- Bonito lenço encarnado
Esse, que tens no pescoço!
Com certeza que o ganhaste
Nalguma cancha de osso?...

B:

Nalguma cancha de osso
Nunca andei em estrupícios;
Pois eu não sou como tu,
Sortido armazém de vícios!

Outro, entre uma mulher atrevida e um rapaz que nem sequer a conhecia

ELA:

- Ó! moço de chifre grande,*
Donde vem, para onde vai?
Isso é bem que Deus lhe deu,
Ou herançado seu pai?...

O RAPAZ:

- Não é bem que Deus me deu
Nem herança de meu pai;
É um chifre do teu marido,
Que, de maduro, já cai!...

Outro, entre um velho e uma velha pitadeira

ELA:

- Véio guapo e chibante,
De carçado de sarto arto,
Dizei-me se tens um cigarro
De paia di mio vermeio?...

ELE:

- Senhora, minha senhora,
Dona deste coração:
Chupe lá quatro fumaças,
Deste seu venerador!...

MOTE

Vou embora; adeus, Sampaio,
Não te incomodes comigo.
De ti não levo saudades
Mas sempre sou teu amigo.

GLOSA

É custosa a despedida
Mas pior é a ficada
E não sinto, camarada,
Deixar-te aqui nesta vida.
Sei que gostas desta lida
Porque dela tens ensaio
Eu é que noutra não caio,
Não entro nestes pagodes
Por isso, não te incomodes
- Vou embora; adeus, Sampaio. - *

Sei que ficarás bravo
Com a minha retirada
Mas isso não vale nada
Porque não sou teu escravo,
Não sou peão de conchavo
Por isso pr'os pagos sigo
A plantar feijão ou trigo
Que sempre ganharei mais,
Até breve, fica em paz
- Não te incomodes comigo. -

Se ficas aborrecido
Por não ter dado parte,
Passa a mão num bacamarte
E faz o que for devido;
Senão, me põe excluído,
Diz mal das minhas maldades,
Procura-me nas cidades
Ou manda-me perseguir,
Que eu sempre direi a rir:
- De ti não levo saudades. -

Não faz o mesmo que eu:
Persegue esses maragatos,
Entre nas sangas e matos,
Põe-te pior que os judeus;
Encomenda-te com Deus
P'ra escapares do perigo,
Conduz um breve contigo
Que sirva de salvaguarda,
Que eu, vou com alma enraivada,
- Mas sempre sou teu amigo. -

VII - Dizeres

Dizeres

Oh! da ronda pelotão!
Vá! responda ao chimarrão!
Toca a encerra; vá, barroso!
Aqui mesmo neste pouso!

Não agüentar carona dura.
(- não aturar desaforos).

Está de tirar lexiguana!
( - está fazendo muito frio).

Aquentar água para outro tomar mate.
(- preparar um negócio para outro tirar o proveito e, mais propriamente, aprontar a moça para o outro gozá-la).

Levar buçal de couro fresco.
(- ser enganado, com desagradável conseqüência).

Estar como carancho em tronqueira.
(- andar tristonho).

Pagar a chapetonada. (- sair-se de modo contrário ao esperado, mormente por inexperiência).

Quando o urubu anda sem sorte, não há galho de pau que o agüente.
(- quando se anda mal não se encontra apoio).

Os teus olhos são como retovo de bola!
(- tens os olhos - as pálpebras - enrugados).

Estar de dar laçaços!
(- estar a -comida - saborosíssima).

A estrela que faz a cola bater mutuca.
(- o sol, ao meio-dia, quando o gado se junta nos paradouros).

Chá de casca de vaca.
(- rebenque, corretivo).

Bater a alcatra na terra ingrata!...
(- morrer).

Andar como bola sem manícula.
(- andar às tontas, sem préstimo).

Estar como aspa.
(- estar lesto, feliz, furioso).

Ter caracu.
(- ser enérgico, forte).

Andar pelas caronas.
(- correr perigo e estar em apuros).

Estar como chaira!
(- estar preparado, senhor do assunto).

Quebrar o corincho (a alguém).
(- desmascarar, abaixar o topete a alguém).

Andar galgo (ou galguinço) por fazer alguma coisa.
(- estar desejoso, faminto).

Afrouxar o garrão.
(- perder a coragem, cansar-se).

Fincar as aspas.
(- cair, levar uma queda violenta).

Passar os maneadores.
(- amarrar - a um homem -, ligar).

Estar ou ficar a mano.
(- quitar-se; pagar com igual).

Ficar de marca quente.
(- zangar-se).

Ser, parecer, um paleta.
(- pessoa intrusa, importuna).

Dar ou receber uma pechada.
(- fazer ou receber um pedido de dinheiro).

Sacudir o poncho.
(- desafiar).

Forrar o poncho.
(- ganhar muito).

Pisar no poncho.
(- provocar).

Poncho dos pobres.
(- o sol).

Ir (mandar) à ramada dos Guedes.
(- ao diabo que o carregue! foi-se).

Estar (ou ficar) de rédeas no chão.
(- ficar manso, subjugado, convencido).

Sujeito de armada grande e bastante rodilho.
(- tipo exagerado, espalhafatoso, mentiroso).

Cair na volteada.
(- comparecer, ser detido).

Ter, dar, uma coraçonada.
(- ter um palpite feliz, boa sorte rápida).

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Tostado, antes morto que cansado.
Tordilho, n'água, é melhor que canoa.
Aspa mole, boi gordo.
Casco rachado, cavalo gordo.
Se encontrares um viajante com arreio às costas, pergunta-lhe:
- Onde ficou o baio?

A moçada de São Lourenço

Viviam muito contentes
Tinham prazer imenso
Antes de vir p'ra campanha
Os filhos de S. Lourenço.
Agora vivem contritos
Como a rola no deserto,
Arrependidos de virem
Para a brigada do Neto.
Já dizem quase chorando
- Já nem se toma café;
Nunca pensamos passar
Da cidade de Bagé. -

Eu não me queixo da fome
Nem da falta de café,
Mas montar em burro magro
É pior que andar a pé,
Dizia um para o outro:
- Ah! meu amigo! o que quer?

Eu só tenho de queixar-me
Do Aurélio Xavier
Se perdermos um combate
Como vamos retirar
Neste matungos cansados
Qu'stão bons p'ra courear.

Isso é a pura verdade
A tua queixa é tocante.
Mas pior é esses pobres
Que vêm marchando d'infante
Antes entrar no inferno
Que morar no purgatório
Por andar a pé cansaram
Três do 9.° Provisório...
- Às vezes creio que alguém
Contra mim já rogou pragas...
- Deixa-te disso, não creias:
Lamúrias não curam chagas. -

- Adeus, adeus; até logo;
Manda ferver o soquete;
Que o ajudante mandou-me
Dar um giro com o piquete -
- Cuidado! não vás meter-te
Nalguma casa de telha...
Mas traz, se por lá arranjares,
Uma paleta de ovelha...
Mas toma tento, que agora,
O Sampaio nesta lida
Vai pôr em cada rebanho
Uma sentinela perdida!...

VIII - Diversas

Encomenda

Como aí no Boqueirão
Um ferreiro há de patente,
Que faz, de gosto excelente,
Folhas de faca e facão,
Assim, por esta razão,
Uma encomenda te faço:
É de uma traíra de aço,
Palmo ou mais, de comprimento,
E quero seja reforçada
Pois não gosto dela fraca
Em tudo bem fabricada.
Largura proporcionada
Ao comprimento que tenha;
E com brevidade venha
Por seguro portado
Do importe que convenha.
Do cabo não necessito,
Preciso somente a folha.
Mas que faças boa escolha,
Eu de novo te repito,
Pois que sou muito esquisito:
Gosto de faca boa,
Caxerenquengue à-toa
Para mim não tem valor -
Quero-a de gasto e primor,
Conforme a minha pessoa,
Porque, faca que não corta
É amigo que não serve,
E pena que não escreve,
Que se perca, pouco importa!

Conselhos

Olha, ilustre Mingote:
Sei que vais para a fronteira;
Cuidado com a brincadeira
Com gente de certo lote;
Ali há muito aruá
Que café nunca tomou
E nem por calças trocou
O antigo xiripá;
Se vires algum clinudo
Barbacena, cor tostada,
Que troteie pela estrada
Com feições de botocudo
E franjas no xiripá,
Deixa andar o cabeçudo
Sobre o peito cabeludo
Carregando o patuá;
Não lhe digas uma asneira
- Esse tourito é rabão
E atropela a porteira
Bosteando no garrão!...

O pica-pau

Pica-pau que fura pau,
Do pau fez hoje um tambor,
Para tocar a alvorada
Na porta do nosso amor.

Pica-pau do mato virgem
Tem catinga no sovaco;
De dia, pica no pau,
De noite, no seu buraco.

Pica-pau do campo raso
Tem catinga de urubu;
De dia, pica no pau,
De noite, como tatu.

Pica-pau da beira d'água,
Quando choca, faz rãe-rãe;
Pica em si, pica na gente,
Pica até na sua mãe.

Pica-pau, de noite escura
P'ra picar não tem certeza;
Ele só pica de dia,
De noite, cai na fraqueza.

O pica-pau, na alvorada,
Abre as asas p'ra voar;
De noite tomou descanso
De dia só quer furar.

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