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Casos do Romualdo

João Simão Lopes Neto

Oitenta e sete

Quando fui ao Amazonas expressamente para preparar terreno para um negócio de tartaruga em grande escala, negócio que, de ótimo, tornou-se péssimo, por causa dos jacarés... a minha viagem foi cheia de acontecimentos curiosos, nada vulgares, os quais para um sujeito impressionável seriam obra de mau agouro ...

Viagem assim, dá-se uma vez na vida, outra na morte... mas dá-se.

Fui em barco a vapor, de rodas; e como ia muito bem recomendado ao capitão do navio, fui sempre tratado à vela de libra. Dispensei, sim, a cama de bordo, para dormir sobre o meu costumado colchão de couros de onças, todos com as suas cabeças e garras. Estes couros, como se sabe, são muito magnéticos, e, no mar, livram do raio; em terra, espantam as pulgas, e, no mato, servem de vigia, contra as feras.

Logo ao suspender ferro, correu a bordo a voz tremida de terror, de que um dos passageiros era um famoso bandido, matador feroz de gente pacata, incendiário, saqueador...

E, realmente, um senhor indivíduo que embarcara à última hora, sorrateiramente, tinha toda a traça da maldade e do crime: enormes cicatrizes de talhos, desfiguravam-lhe o rosto; uma larga peladura, de bala, raiava-lhe a cabeça; todos os dentes molares, quebrados, e, nas costas, ainda aberta, uma grande chaga parecendo de queimadura.

Conservava na cintura um par de pistolas, de cano montado, carregadas, bem como um bruto facão, largo e afiado.

E tomava-se o indivíduo ainda mais suspeito porque estava embuçado em um amplo capote, que vinha-lhe até os pés, e completamente abotoado; no pescoço um cachenê de lã, e, na cabeça, um chapéu desabado sobre os olhos, o que tudo tapava-lhe do rosto, de forma que ninguém podia ver-lhe as feições.

O comandante e eu ficamos logo alertas, para o que desse e viesse, em defesa dos outros passageiros, ameaçados, medrosos ou inquietos, com justa razão.

O barco largou.

Ao sair o vapor a barra, debaixo de borrasca, mar desfeito em ondas colossais, nenhum passageiro resistiu; fugiram para as camarinhas, enjoados.

Eu, fiquei.

Acredito que por ser muito pitador de fumo de naco, forte, sem me sentir tonto, creio que por isso não enjoei.

Os que sofrem do enjôo do mar, principalmente as senhoras, bem podem ensaiar esse tratamento: pouco custa experimentar.

O navio subia na crista das ondas... adernava... parecia afundar-se no abismo, virar-se de quilha para cima! ... mas lá aprumava-se, e seguia avante, batendo as rodas com fragor.

O capitão assestava o óculo para o mar largo, cheirava o ar, sorria-se; e afinal disse-me, esfregando as mãos;

— Que sorte! Que fortuna! Que viajão vamos ter...

Quem não sabe é como quem não vê! O que parecia-me uma loucura, sair com tal tempo, era, ao contrário, uma bela esperteza do comandante: é que, à vista da barra, passava nadando para o norte uma colossal manta de tainha, cuja morrinha (de peixe cru) sentia-se então, fortíssima.

É mais que sabido que uma manta de tainhas, quando é grande, de conta redonda, como se diz, quebra as vagas, aplana as águas, torna o espaço de mar por ela ocupado perfeitamente manso. Navio que tem a sorte de poder meter-se no centro de uma dessas mantas, voga sereno, como em mar de rosas, ainda que ao largo estoure a tempestade, encapele-se o mar, revolto!

Pois tal manobra e marcha desenvolveu O vapor, que quando sentimos estávamos dentro da manta das tainhas, e navegando sossegados, como em água de rio.

Realmente, é... muito cômodo!

Aquele imenso cardume de milhões de tainhas formava como que uma ilha misteriosa, que se movia, de corrida, à flor d'água, marchando sempre a rumo certo, que, por acaso, era o nosso.

Ao longe sobre as beiradas da manta, pelo óculo de bordo, via-se a arrebentação do mar, fazendo ressaca, espumando e espraiando-se, violentamente, como sobre uma praia de areia.

Durante todo o resto da semana, ao almoço e ao jantar, tivemos tainha fresca; e a bordo ainda salgaram muita.

E se durante mais dias não navegamos dentro da manta foi por causa da voracidade dos próprios peixes.

Assim:

As rodas do vapor não batiam n'água... não é exagero! Moviam-se dentro da massa compacta das tainhas, que nadavam aglomeradas; e, assim, é claro, esmagavam, matavam, tonteavam milhares e milhares delas; e tanto que essas morriam, as outras devoravam-as. e esta carniça foi estabelecendo a desordem na manta. As tainhas que comiam ficavam pesadonas e preguiçosas e deixavam-se ficar para trás; as que não tinham comido... revoltavam-se - é o que parece - e começou então uma verdadeira batalha das tainhas entre si, que foram-se atirando umas às outras, tão depressa e tão vorazmente que, em pouco tempo, da manta só apenas restavam sobre as águas escamas e espinhas!

Certamente umas comeram as outras, e as outras comeram as outras...

Pra lá de Santa Catarina batemos numa baleia que provavelmente estava dormindo. Eu nunca vira semelhante animal; para espantá-la, a pedido do comandante, dei-lhe uns tiros sobre a cabeça; e sem querer meti-lhe todas as balas nos ouvidos; de forma que foi pior, porque ela ficou surda e não ouvia os apitos do vapor e os gritos que dávamos; o choque foi horrível; pensei que íamos a pique; felizmente o vapor tinha a proa muito esguia e o talha-mar muito afiado, e como apanhou a baleia em boa posição, bem a meio, cortou-a em duas metades; atoramo-la!...

Foi a nossa salvação.

Pelas alturas do Rio de Janeiro, sentimos o navio rodeado de tubarões; era um rebanho, ou manada, ou tropa, como quiserem dizer. Era uma - manta - de tubarões; fica bem assim?

Fiquei horrorizado da companhia dos tremendos devoradores, e atônito para explicar-me o porquê daquele cerco tão perigoso. O comandante porém, muito prático das cousas do mar - também era o que faltava! - tranqüilizou-me em dois tempos. Ora, é simplíssimo...

Quando as rodas do vapor esmagavam as tainhas, da trituração dos corpos foi resultando uma pasta ou massa ou mingauzada de gorduras, de carnes, de ovas das vítimas; esta pasta foi pegando, besuntando o casco do navio. Da passagem à força por entre as duas metades da baleia, resultou ainda, como se fosse de caiação, mais uma mão de azeite misturado com esparmacete... Ora, os tubarões são grandes comedores de tainhas e bebedores de azeite de baleia... e mal no fundo do mar sentiram o cheiro daquela marmelada.., vieram-se!

Porém como eles têm a boca debaixo do corpo e não na frente, como os outros animais, não podiam chuchar aquela rica pastalhada pegada no navio ... e que tanto os seduzia!

Assim fomos andando, como uma grande isca, levando a reboque a manta dos tubarões.

Vivendo.., e aprendendo!

Mais ou menos a meio do arquipélago dos Abrolhos, há dois caminhos a seguir: ou pelo mar largo ou pela costa; este encurta muito o trajeto, mas é muitíssimo perigoso, por causa dos arrecifes à flor d'água.

Porém o comandante do nosso vapor era extraordinariamente prático desses lugares, e de mais a mais tirou um partidão dos tubarões.

Foi assim:

Os bichos, sempre ao faro da marmelada de tainha pegada no navio, vinham coalhando o mar em roda: à frente, à popa, a bombordo e estibordo!

Qualquer guinada que desse o vapor, eles orçavam, acompanhando.

Quando o capitão meteu o navio nos arrecifes, o bando dos tubarões da frente foi servindo de guia; se eles paravam, o navio parava, recuavam, recuava; para a esquerda, para a esquerda; para a direita, para a direita!

Compreenderam? ...

Que capitão mitrado! Servia-se dos tubarões, tal qual como em terra um general serve-se de piquetes de cavalaria, na vanguarda. Tirei o meu chapéu: aquele golpe era de mestre!

Fizemos uma travessia absolutamente - ótima.

Quando estávamos próximos a sair daquele rendado de pedras, o capitão, sempre com o óculo nos tubarões da vanguarda, chamou-me a atenção para uma certa ilhota recoberta dumas esquisitas conchas, como de ostras, mas com um feitio especial, como de ninhos de pássaros. Julguei mesmo que fossem ninhos de gaivotas.

O comandante mandou tocar as máquinas devagarinho, para eu não perder nada do que ele queria mostrar-me. E disse-me:

— Olhe, Romualdo: o mar tem, por semelhança, todos os animais que há em terra: para o elefante, a baleia; para o tigre, o tubarão; para o cavalo, o boi, o cachorro - o cavalo-marinho, o peixe-boi, o lobo-do-mar. Para os pássaros, temos o peixe voador, e para os canários belgas, cantores, temos os canarinhos do mar, que é o que você vai agora ver e ouvir, naquele ilhéu.

Nisto o vapor deslizava em frente à ilhota, e eu vi, patentemente visto, e ouvi, patentemente ouvido, com estes dois... e estes dois.., dois e dois que são quatro.., quatro que a terra há de comer... vi e ouvi, por todo o rochedo, dentro e empoleirados na borda das conchas abertas, uns peixinhos amarelos cor de ouro, muito espertinhos, dando saltinhos e cantando, cantando numa granizada de trilos e gorjeios, tão dobrados e garganteados, que efetivamente parecia um bando de canários que houvesse pousado sobre aquele rochedo! ... Eu estava maravilhado! O comandante afirmou-me ainda:

— Romualdo, para a maior sucuri de terra, a maior que você possa arranjar, temos a serpente do mar; para a cobra mais venenosa de terra, temos a cobra-farelo que, quando morde o pescador, o nadador, este se desfaz logo em miangos.

— Ah! atalhei eu: sobre cobras, fale comigo! Escute!

E ali, no quente, entupi-o com umas sete cobras ... digo, sete casos de cobras.

E a ilhota dos peixes-canários sumiu-se no horizonte ...

O navio retomou a sua marcha a todo o vapor, e a tropa dos tubarões estendeu-se também, na carreira.

Dias passados, à hora da merenda, deu-se a bordo uma avaria grande, na máquina.

O vapor esguichava e assobiava, saindo em rolos, pelos buracos abertos: foi o pânico entre foguistas e maquinistas!

A minha habilidade de atirador procurou minorar o mal; fiz vários tiros, de bala, metendo, é certo, as balas, uma em cada buraco, mas foi fraco remédio, porque o calor do vapor era tão forte que derretia o chumbo dos projetis!

Então - para os grandes males, grandes remédios! - meti os dedos nos furos, tapando assim a perda do vapor, enquanto o comandante mandava, a toda a pressa, rebater novos arrebites, por dentro da caldeira.

Não fora o meu sangue-frio e sabe Deus que desastre se poderia dar!

Eu digo sempre: caçar onças é boa escola para aprender a não se assustar!

Desejando uma linda companheira de viagem possuir uma gaivota azul das que então voavam sobre e em torno do navio, senti-me pesaroso por não poder ser-lhe agradável, por falta de munição própria: pois somente trazia uma barrica de balas.

A gaivota azul é uma ave muito maciça, e se eu atirasse-lhe com bala reduzi-la-ia a pó.

Mas lembrei que podia das balas fazer um pouco de chumbo... era um pequena questão de algum trabalho e paciência.

Espetei uma faca afiada dentro de uma tina cheia d'água e comecei.

Carregava de bala a minha espingarda: apontava ao corte da faca, descarregava, e pronto; cortava a bala em duas metades, que caíam e esfriavam logo, dentro da água da tina.

Tornava a carregar, então já com as duas metades da bala; e novo tiro, e, zás! tinha os dois pedaços cortados em quatro; outro tiro com os quatro pedaços, e, zás! cortava-os em oito.., e assim, tiro a tiro, dividi uma mancheia de balas a... chumbo miúdo.

Isto aconteceu; mas no dia seguinte não se avistou nenhuma gaivota cor-de-rosa.

Afinal, num domingo, chegava eu ao meu último porto, o de desembarque.

Pela primeira vez na travessia, o vapor largava âncoras, parava!

Corremos então um sério perigo: fomos rodeados pelos tubarões, a quererem ainda comer a pasta de tainha, que restava pegada ao casco do navio. Atiravam-se às trombadas, ou às marradas, contra o navio; julguei, mesmo, que pudessem abrir o cavername da embarcação.., mas, não, pobres! ... Eram os últimos arrancos da sua ferocidade, estavam cansados, estafados da viagem!

Atraídos e seduzidos pelo cheiro da pastalhada e danados por atirarem-se a ela, mas não tendo jeito para fazê-lo, por causa da marcha da embarcação, os tubarões haviam se esquecido de caçar outras comidas e também de dormir. E assim, em jejum e em claro por tantos dias e noites, à chegada, não puderam mais resistir à fraqueza, e com aquele último esforço foram morrendo, morrendo todos, com fundas olheiras e com as badanas em carne viva, de tanto nadar, e inflamadas, do sal da água do mar..., tal qual como gente, quando caminha muito e fica estropeada, com os pés sangrando, inchados e doloridos.

Tomei cômodos no principal hotel da cidade.

Notei que as cercanias do estabelecimento estavam apinhadas de povo, como se se tratasse de algum acontecimento de monta. No salão do hotel ia uma lufa-lufa de gente que ria, que dava as mãos, fazia caras extravagantes.

Bastante curioso, chamei o patrão da casa e indaguei do que se tratava.

Ele então explicou:

— O Senhor não sabe, porque ignora. Aqui ao lado, no sobrado, reside um casal, gente benquista e muito dada. O marido é uma pérola ... a mulher uma jóia! Pois... de há três anos para cá, cada ano a senhora apresenta sinais infalíveis de gravidez; isto e aquilo ... e aquiloutro... que não enganam nem nunca enganaram nem marido nem mulher alguma....

O homem chamou um médico.., dois, quatro, sete.., dez médicos, em consultas, exames e conferências; e todos, ao mesmo tempo e a pés juntos, juraram, à fé do seu grau, que aquilo ... aquilo..., era mais que gravidez, era parto próximo. Até marcaram mês, lua e semana.

Pois... e nada! Os sinais certos, volume, etc, desapareceram!

Marido, mulher, sogros, doutores, comadres, parentes e conhecidos..., tudo pasmou!

E o caso passou, esqueceu.

Um ano depois ... a mesma cousa! Não havia dúvida: era, agora era mesmo!

O volume então, esse, era de duplo bojo...

Doutor houve então, que jurou que aquilo agora, ou era gravidez e parto próximo, ou então.., ele queimava os livros e mandava a medicina às favas! ... E mais, que, a calcular pelo volume ... era de par de gêmeos para cima!

Novo alarme nas relações do casal; parabéns, presentes de roupinhas, promessas de missas, queima de velas bentas, etc. etc. Pois

Senhor... A sua graça?

— Romualdo, um seu criado.

— Obrigado, outro tanto. Pois, Sr. Romualdo, nada! Tudo passou, tudo voltou ao seu antigo natural...

— Com efeito, Senhor ... A sua graça?

— Figueiredo, um seu criado.

— Obrigado; outro tanto. Pois Sr. Figueiredo: é célebre!

— Muito célebre, Sr. Romualdo. Agora note: um ano depois, o terceiro portanto, que é este, o mesmíssimo sucesso se repete, está se dando, está impressionando a cidade, alarmando meio mundo!

A primeira vez, depois que tudo passou a senhora voltou a espartilhar-se, a passear, a ir a teatros e a bailes; a segunda vez.., também tudo passou, desapareceu, alisou-se, voltou ao seu antigo natural... Mas agora ... ninguém sabe em que isto irá parar!

Desde que, aqui há meses, começou a correr a notícia da terceira gravidez... e o volume - compreende? - foi aumentando... aumentando... o marido, por precaução, chamou doutores, muitos, daqui, de fora, de longe.

Estou com o hotel abarrotado deles; já reparou?

O que ninguém dá é uma explicação do mistério.

— É celebérrimo, Figueiredo!

— Celebríssimo, Romualdo!

As dores na doente seguiam o seu curso.

Uma noite, o dono do hotel, o Figueiredo, chamado às pressas para ajudar, lá foi. E veio logo chamar-me, a mim.., O homem estava pálido, trêmulo de comoções.

— Romualdo, o Senhor já é pai, ajude-me a ajudar o vizinho! Estão-lhe nascendo os filhos, muitos ... uns atrás dos outros... É um cordão... não cessa! A um de fundo!

Saímos; fomos.

Como contar o caso?

Os doutores estavam a postos, alinhados, desde junto da doente, até muito para cá; e de um para o outro, de mão para mão, vinha passando criança sobre criança...

Era um colar, um rosário, uma enfiada de criancinhas, todas pegadinhas pelas mãozinhas!

E todas guinchavam, esperneavam, fortes e saudáveis, meninas e rapazes! ... Valente senhora!

Afinal cessou aquela ... descarga de crianças, que os doutores, de lanceta em punho, começaram a separar, pois, como disse, estavam presas umas às outras, pelas pontas dos dedos. E logo tratou-se de banhá-las e enfaixá-las como foi possível em toalhas, lençóis, camisas, porque as roupinhas não chegavam para todas. Depois arrumar-se-ia tudo em ordem; o essencial agora era não deixá-las apanhar frio.

E, então, procedeu-se à contagem: eram oitenta e sete crianças!

Tudo chorava!

O pai...

A mãe...

A sogra...

Os doutores...

Eu...

Tudo chorava!

Como nenhuma das crianças tivesse morrido do mal dos sete dias, no oitavo fez-se o batizado geral. Funcionaram sete padres; além de outros senhores, todos nós, os que assistiram ao nascimento, fomos convidados para padrinhos, cada um dum pequenito.

Padrinhos, madrinhas, afilhados e amas... formavam uma procissão, salvo seja!

Como não sou abelhudo e nem me envolvo na vida alheia, não quis, no momento, dar a minha opinião sobre aquele sucesso; porém pelo que ouvi, esparso, e por informações vagas, dos antigos do lugar, cheguei a esta conclusão:

Nem a tataravó, nem a bisavó, nem a avo, nem a mãe daquela senhora, nunca tinham tido filhos; de forma que toda a fecundidade, toda a força familieira, tinha passado, acumulada, para a minha comadre... e assim se explica como veio ela, sozinha, a ter, duma só vez, todos os filhos que deviam ter vindo ao mundo repartidos em... pelo menos, cinco gerações!

O meu afilhadinho lá ficou com o meu nome, Romualdo. Era o mais bonito..., e olhem que é difícil ser o mais bonito entre oitenta e sete!

Algumas miudezas

Por vezes, em tropel, acodem-se as recordações; como sejam porém de cousas ligeiras, casos pequenos, sem maior importância, deslizo por eles. São fatos acontecidos de momento, num repente, e não como outros, em que houve circunstâncias especiais e mais longas. Por exemplo, dentre outros, recordo-me agora destes, que anoto apenas por descargo de consciência: aí vão eles!

A REDE

Havia três dias já, perseguíamos uma manada de cervos galheiros. Éramos vinte e tantos caçadores, com numerosa e especial cachorrada; a caçada ia bem dirigida por um sujeito muito prático. Como cada companheiro tinha de ficar na sua "espera" determinada, esse já se precatava com o aviamento necessário para passar o dia e a noite no mato. Tal havia que levava cama de vento, panela, louça, etc. Eu, que sou inimigo de bagagem pesada, montava em pêlo no meu cavalinho baio, o Gemada, e além das armas apenas levava uma rede, e mesmo assim, pequena, e os jornais da última semana. Na "espera" punha o Gemada à soga, fazia um foguinho e armava a rede nos galhos de qualquer árvore e... pronto! ... dormia regaladamente até o despertador bater.

Pois nessa tal caçada tive de mudar de "espera", por motivo de doença dum dos companheiros. Foi já à boca da noite, O dirigente da batida procurou-me, explicou o caso e pediu-me para ir o quanto antes, porque o lugar aquele, era certo de passagem do cervo, talvez até paradouro seu.

Lá fui; dei com a "espera"; fiz o meu foguinho, amarrei o Gemada, e procurei uma árvore de ramas próprias para armar a rede. Fui de sorte: topei logo com uma galharada limpa, pontuda, cortada de jeito para o caso. Naturalmente fora o companheiro que preparara aquele ótimo cabide... Armei a rede, deitei-me, li os telegramas, soprei a vela e ferrei no sono.

Pela manhã... não lhes conto nada! Qual a minha surpresa, quando acordei-me abaixo de latidos e gritaria de ensurdecer!

Abro os olhos e vejo os companheiros, todos, em perseguição dum enorme cervo, um galheiro soberbíssimo, um cervo... o cervo que me conduzia!

Compreendi tudo, de relance: na véspera, no escuro, eu armara a rede nos galhos do cervo, que muito cansado da correria do dia, dormia a sono solto, e nem me pressentiu.

De madrugada, já refeito, levantou-se e foi andando, andando comigo na rede, dependurada nos chifres...

Quando a cachorrada farejou-o e saiu-lhe, o bicho disparou.., e os caçadores de atrás; porém como ele corria muito, nunca as balas chegaram-lhe a tempo... e foi isso a minha salvação. Então, gritei aos companheiros que esperassem... e pondo-me em pé, dentro da rede, saquei a faca e desnuquei o cervo, que caiu, redondo!

ONÇA ENFREADA

Isto passou-se em Minas Gerais, lá em cima, no Ribeirão das Gralhas.

Eu estava numas grotas, no fundo do mato grosso; tinha ido melar; era um dia muito quente. E tinha ido montado numa mula ruça, de boa marcha e muito mansa.

Cheguei, escolhi o ponto de parada, tirei o freio à mula e atei-a pelo cabresto, para ela ir roendo algum criciúma que por ali havia.

Era a pino do meio-dia...

Deu-me uma lombeira... uma preguiça... que não lhes digo nada! ... Peguei a cochilar.

Dormi. E anoiteceu. Escuro, como breu! E dentro do mato! Então.., só mesmo quem nunca viu o que é noite escura de mato.., o escuro é preto, o preto é negro, o negro e retinto...

De repente, mesmo pesado de sono, senti faro de perigo. Olhei, e vi, na minha frente, por entre as árvores, um grupo de bugres, ferozes, já de arco entesado e flecha pronta, fazendo pontaria sobre mim! ... Se o luar não fosse tão claro ainda, talvez eu pudesse esconder-me. Disfarcei, e fazendo que os não via, para os não alarmar, fui-me esgueirando para trás, recuando, devagarinho, de mansinho recuando..

Com o intento - é claro! - de cavalgar a mula e fugir, tive a cautela de passar a mão no freio.., os arreios que ficassem!..

Sempre recuando, e sem despregar os olhos dos bugres, de costas topei com um animal que respirava forte; e sempre sem me voltar, atento aos índios, passei-lhe a cana da rédea no pescoço, enfreei o animal, e quando, pelo tato, senti que estava pronto, montei-o de salto, cravei-lhe as esporas e dirigi a montaria, procurando a beirada do mato.

Nesse instante os bugres descarregaram os arcos ... as flechas ventaram em volta de mim ... mas era tarde - eu já estava fora do alvo!

Gesticulando, estorcendo-se, num alarido medonho, os selvagens saíram-me nas pisadas.

E eu, vá espora!...

Notei então que o animal era habilíssimo dentro do mato: não esbarrava nos troncos, não se enredava nos cipós, não tocava nos espinhos, saltava pedras, pulava buracos...; apenas, por vezes, junto aos paus grossos, entre-parava-se, fazendo menção de querer subir por eles acima ... Então, eu dava de rédea, e vá espora!

Enfim, ao clarear do dia, consegui chegar à aba do mato, sair para a várzea, que era a salvação.

Apeei-me.. acendi o cigarro.,.. e quando puxava a primeira tragada, atirei-me pra trás, apavorado! ...

Eu havia enfreado uma onça!

Montei uma onça, nela havia fugido, na onça atravessei a floresta!

Pode parecer exagero; mas tudo se explica: enquanto eu dormia, a onça havia atacado e devorado a mula; os bugres, que isso viram, preparavam-se para flechar a fera e não a mim, como supus, e daí, a minha precipitação em fugir deles; e de costas e no escuro, julgando - de boa-fé - enfrear a mula, enfreei a onça e montei. Como nesse momento ela estivesse meio engasgada com um pedaço de carniça, não urrou, e, depois de enfreada, não pôde. E vai, como as esporadas doíam-lhe, ela obedeceu, disparou... e tanto, que os bugres perderam-nos de vista.

Mas, como dizia: apeei-me, e vendo a onça, fiquei apavorado: ... e ela, sentindo-se aliviada, também não esperou mais nada: miou de gato, e ganhou o mato!

A VARETA

Naquele tempo, as espingardas eram de carregar pela boca; o cartucho apareceu muito mais tarde. E por serem mais leves e mais baratas, eu só usava varetas de marmeleiro.

Uma vez, por esquecimento, depois de carregar a arma, deixei-lhe dentro a vareta.

De tarde, atirando a um bando de pombas que havia pousado sobre uma laranjeira, no tiro lá se foi a vareta.

As pombas - nem se pergunta, nem se duvida! - caíram todas, a chumbo.

Mas a vareta, essa ficou espetada no tronco da laranjeira e lá deixei-a ficar.

Pois no ano seguinte estava ela toda florida e cheia de botões... e no outro ano já deu marmelos, por sinal que bem graúdos.

A vareta tinha pegado, de enxerto.

O MEU CINTO DE COURO DE ANTA

Cousas fortes... cousas fortes ... Não, certos objetos não devem ser tão fortes que possam por isso vir a ser prejudiciais.

Eu me explico. Tive um cinto de couro de anta. Como se sabe, o couro de anta e um couro quase impossível de quebrar-se: é de uma resistência espantosa, rival do aço estirado.

Meu pai, durante cinqüenta anos, usou umas rédeas de couro de anta, couro por ele esfolado, e já as havia herdado de meu avo, que foi quem caçou o dito bicho, sozinho, e até sem cachorro; e eu usei-as ainda por muitos anos, pelo prazer de serem feitas do couro de um animal que eu mesmo havia morto; foi mesmo com uma dessas rédeas que amarrei o meu baio Gemada, à cauda de um tatu-rosqueira, o que custou a vida ao meu estimado cavalo... Parece-me que já falei nisso.

Pois o meu cinto, tirado do couro daquela mesma anta, e companheiro das rédeas, o meu cinto, digo, por forte, certa vez fez-me passar agonias... Andava em trabalho de campo, lidando com uma tourada de conta, cada bicho bem-criado, forte e bravo, que metia medo! Havia então um certo

touro brasino que era uma verdadeira fera, e foi justamente esse que tomou-me embirrância especial, creio que por causa do pêlo do cavalo que eu montava, que era vermelho. Por várias vezes ele atropelou-me de rijo; não andasse eu tão bem montado e seria colhido.

O tal era de raça franqueira, e tinha umas aspas abertas, quase de braça, cada uma, e grossas, na proporção.

Pois não lhes digo nada!

A última carga foi tão repentina, que eu só senti o perigo quando os companheiros gritaram, assustados. Mal tive tempo de cravar as esporas no baio, que deu dois saltos pra diante, mas - fatalidade! - para tropeçar e cair...

Com a minha calma habitual, saí perfeitamente, de pé; mas o touro vinha.., e no ímpeto em que vinha, com a chifrada armada, mal pude dar um passo à frente...

Ele baixou a cabeça, dando a tremenda marrada, e quando levantou a chifrada, esta resvalou por cima do cavalo e veio colher-me a mim, ainda de costas, certo, perfeitamente certo, entre o cinto e o corpo, nem mais nem menos; e, assim, fiquei dependurado no chifre do touro, tal qual um par de calças, suspenso pela presilha, num cabide... Que situação!

Por causa do peso do corpo, eu não podia desafivelar o cinto, e soltar-me; na posição em que estava, de costas, não podia fazer finca-pé e alçar-me acima do chifre e desengatar-me ...

E o touro disparou para o banhado levando-me dependurado, a dar com as pernas e os braços, como um boneco de cata-vento...

Os companheiros, que estavam de cavalos cansados, não puderam socorrer-me e perderam-me de vista...

O touro meteu-se banhado adentro, para a sua querência.

Curti sofrimentos!

Fiquei sabendo falar de cadeira sobre o micuim, mosquito ruivo e mutuca parda... sobre espinho de gravatá e serrilha de tiririca... sobre camoatim e formiga vermelha!

À custa de muito esforço consegui, movendo-me, torcendo-me, ajeitando-me, consegui firmar um pé no cachaço do touro e melhorar a posição, sentado naquele estranho banco.., sem encosto... Mas sempre foi um meio alívio.

Escureceu; como é fácil de imaginar, tive insônia. Amanheceu; e eu, como é fácil de imaginar, contrariado, por não poder ao menos lavar o rosto e pentear-me, como de costume...

O touro, parece que nem sentia o meu peso; andava, pastava, remoia, mugia, farejava as vacas e acariciava os terneiros - seus filhos, provavelmente - sem mostrar que eu pesasse mais que uma palha seca...

Lá pelas tantas da segunda tarde, encontrou-se ele com outro touro. Berraram, ambos; escarvaram, rodearam um pelo outro, em desafio, e, de repente... - questão de ciumada - de repente, atiraram-se, em briga de morte, como duas feras, que eram.

E eu, de testemunha obrigada!

Ah! meu amigo!

Me vi morto, esmagado, esborrachado entre aquelas duas cabeças duras ... esborachado, estripado, entre aqueles quatro chifres pontudos! ...

Morto! ... Morto! ... Morto! ...

Pois ... não, senhor: justo, justo, quando se chocaram as duas brutas testas numa marrada formidável, capaz de esfarinhar urna pedra.., justo, justo, aí... quando, brrr! ... eu ia morrer, aplainado, chato, quebrou-se o dente da fivela do cinto, que, pois, desprendeu-se, e eu caí ao chão, solto, livre enfim, e disparei rua fora, e quebrei a primeira esquina, sem olhar pra trás! ...

Esquecia-me de dizer que durante esses dias de fome sustentei-me de araçás, que havia muito, no tal banhado.

Pois é... se não fosse o dente da fivela quebrar-se, o meu cinto de couro de anta, por bom demais, matava-me, olé, se matava!...

UM TALHO

Uma, tive-a eu, e creio que outra faca igual não apareça. Deu-ma o compadre Mingote Pereira, infelizmente já falecido; Deus lhe fale n'alma! ...

Era - a faca - de têmpera muito dura, mas depois de agarrar corte, admirável: podia se atirar para o ar um fio de teia de aranha, que antes dele cair a faca cortava-o quantas vezes se quisesse.., tendo boa vista!

Um dia, na casa da sogra do dito meu compadre Mingote houve uma jantarola.

Corria bem a festa, quando apareceu uma travessa com - grande como um galo -uma bela galinha assada, de forno. E como naquele tempo era de uso, um dos convidados, mais habilitado, tinha de trinchar a ave.

A sogra convidou o Mingote.

O meu compadre levantou-se, colocou na sua frente a galinha, e armado do garfo grande e do trinchante afiado, começou a trabalhar.

E a querer espetar o garfo.., a querer fincar a galinha... deu-lhe uns pontaços com o trinchante, para abrir brecha onde cravasse o tridente.

Mas, por seguro, a galinha era velha, como a sogra do compadre, e dura e lisa como chifre!

O compadre Mingote, já vermelho, tremendo no nariz, lidava, lidava.., e não espetava!

A sogra, de lá da cabeceira, resmungou:

Oh! homem! ... nada?

O compadre respondeu: Já vai! ... E firmou o garfo a todo o muque, como quem crava uma estaca, a pulso!

Mas a galinha agüentou a estocada; e conforme o garfo bateu-lhe no costado... escorregou, e furou o prato e cravou-se na tábua da mesa e espirrou molho gordo, como chuva...; a galinha saltou pra diante, como bala, e derrubando copos, garrafas e compoteiras, bateu sobre o ombro da sogra do Mingote, ricochetou para a parede, sobre o relógio, cujo maquinismo achatou; daí para a janela, quebrando-lhe os caixilhos e caindo no pátio, derreou uma porca macau, matando-lhe três leitões; virou um gongá onde estava uma perua, no choco, afinal foi bater no tampo da pipa d'água, que aluiu!

Se fosse gente, era o caso de dizer-se: vá ser dura pra o inferno!

Imagine-se o alvoroto! ... Um criado trouxe novamente a galinha, não para ser comida, é claro, mas para ser vista, admirada, examinada.

Foi então que a sogra do Mingote censurou-o por não se haver servido da minha faca; e gabou-a. Duvidaram; então, para dar a todos uma pequena prova, ajeitei a galinha e a meio dela descarreguei um golpe.

Que talho! Foi como em manteiga: cortei a meio a galinha, o prato, a mesa; atorei pelo joelho a perna do vizinho da esquerda, o pé da cadeira onde ele sentava-se, a tábua do assoalho e o barrote!

O talho não foi adiante por falta de braço!

Que talho!


Findava aqui o calhamaço de que a princípio se falou, quando disse que o recebi em certa hora de pleno dezembro, por véspera de Natal, quando eu estava, desesperado, a abanar mosquitos, etc. etc. Findava aqui, no caso deste talho. Apenas, ao canto da página, a lápis, havia ainda uns dizeres que custei a decifrar, e que afinal eram estes: o 2º volume será o dos "Sonhos do Romualdo".

Durmamos, pois, e vamos sonhar também...

Fonte: pt.wikisource.org

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