Se vancê fosse daquele tempo, eu calava-me, porque não lhe contaria
novidade, mas vancê é um guri, perto de mim, que podia ser seu
avô... Pois escuite.
Tudo era aberto; as estâncias pegavam umas nas outras sem cerca nem
tapumes; as divisas de cada uma estavam escritas nos papéis das sesmarias;
e lá um que outro estancieiro é que metia marcos de pedra nas
linhas, e isso mesmo quando aparecia algum piloto que fosse entendido do ofício
e viesse bem apadrinhado.
Vancê vê que desse jeito ninguém sabia bem o que era seu,
de animalada. Marcava-se, assinalava-se o que se podia, de gado, mas mesmo
assim, pouco; agora, o que tocava à bagualada, isso era quase reiúno...
pertencia ao campo onde estava pastando. E mesmo nem tinha valor nenhum: égua
baguala era só para tirar-se as loncas, alguma bota.
Depois é que apareceram uns lamões e uns ingleses, melados,
que compravam o cabelo: por isso às vezes se cerdeava; mas eles pagavam
uma tuta e meia.
Veja vancê: sempre a estrangeirada especulando cousas de que a gente
nem fazia caso...
Eguada xucra, potrada orelhana, isso, era imundície, por esses campos
de Deus; miles e milesl...
E bicho brabo pra se tropear, esse!... Barulhento, espantadiço, disparador
e ligeiro, como trezentos diabos!
Mas, como quera, era sempre um divertimento ma-canudo, uma volteada de baguais!
Ah!…
Não há nada como tomar mate e correr eguada!
Aí para os meios de Quaraim, nos campos do major Jordão, entrei
uma vez numa correria macota.
Foi logo depois da guerra do Oribe. Havia como dez mil baguais entre éguas
e potros orelhanos, cavalhada largada, reiúna e marcada, que toda virou
haragana, nos pajonais.
Os gados, que já eram mui ariscos, viviam numa bolandina com as disparadas
da bagualada.
Pro caso, diz que é o Negrinho do Pastoreio que faz as disparadas dos
cavalares... Isso é uma história comprida…
Um belo dia o major resolveu fazer uma limpa naquele bicharedo alçado.
E preparou-se, com tempo.
Desfrutou a novilhada que pode, no verão, arreglou as suas contas e
mandou avisar e convidar o vizindário para correr a bagualada no veranico
de maio, que era para agarrar o bicharedo rachando de gordo e aguaxado, pesadão
e o tempo mais fresco para a cavalhada do serviço.
Amigo! Quando foi aos três dias da lua nova a estância estava
apinhada de gauchada. Como uns oitenta e tantos torenas, campeiraços
destorcidos, domadores e boleadores de fama.
Adelgaçava-se os fletes com água a meia costela, em qualquer
lagoão, e à soga; cascos bem aparados, agarradeiras bem cavadas,
endurecidas com uma untura de sebo de rim e carvão, aquentada com a
ponta em brasa de um tição de goiabeira; cola curta, toso baixo.
E a gauchada quase toda de em pêlo. Uns de bombacha, outros de chiripá;
muitos sem chapéu, muitos de lenço na cabeça; tudo em
mangas de camisa e faca atravessada.
O mais maula levava pelo menos dois pares de bolas; três pares, isso
era a rodo, e havia torena que chegava a levar cinco: um na mão, os
outros na cintura.
E tudo boleadeiras mui bem feitas, de pedra peque-na; porque vancê sabe
que o cavalar tem o osso mais quebradiço que a rês - e vai, se
toma de mau jeito um bolaço pesado, aí no mais já temos
um avariado.
Pois é: as três-marias retovadas a preceito; e as sogas macias,
pra não cortar; e levava-se também uns quantos ligares.
- Vancê não sabe o que é um ligar? Não é
só, não sr., o couro de terneirote pra fazer carona; é
também uma tira de guasca, chata, assim duma meia braça, com
um furo dum lado e uma meia ponta do outro. Conforme boleava um animal e ele
caia, o campeiro chegava-se e passava-lhe o ligar em cima do garrão
e apertava, acochava, à moda velha; hom!... era mesmo como botar uma
liga de mulher, com perdão da comparação!
Vancê compr'ende, não!
Ficava o nervo do garrão, arrochado pelo ligar; então o gaúcho
desenredava as boleadeiras e assinalava e mal isto, já o bagual se
aprumava e levantava-se, bufando, puava, pra rufar..., mas qual! saía
em três pernas!... E assim de seguida, em dois, três, oito ou
mais, que cada corredor boleasse; esses não podiam mais disparar, ficavam
perneteando no meio do campo!
Então a gurizada, os piás, a relho, iam entropilhan-do os ligados,
que depois cada dono separava pelo sinal feito.
Era assim, que, conforme ia correndo a eguada, cada gaúcho ia boleando
o bagual que mais lhe agradava; às vezes saíam dois a um mesmo
animal: aí, o que primeiro lhe sentava as pedras, era o dono.
Mas também, quanto porongo!... Quantas vezes, depois duma canseira,
boleava-se e caía um potro lindaço, cogotudo e bem lançado,
e ia-se ver, era um colmilhudo, com cada dente como uma estaca... velho como
o cerro do Batovi; ou era um mancarrão de montaria, aporreado e cuerudo...
outras vezes ainda… enfim, havia sempre embaçadelas!
Mas, como ia dizendo: quando a gente estava toda a cavalo e pronta, o estancieiro
ou o encarregado distribuía os ternos, que espalhavam-se a todos os
rumos, sobre as costas e rinconadas, para fazer a tocada de lá desses
fundos.
E daí a pouco já se levantavam os primeiros rumores... A bagualada
estranhava aqueles movimentos; os colhudos começavam a relinchar, ajuntando,
pastorejando as manadas; os entropilhados, farejando, entreparavam-se, arpistas;
outras pandilhas, de cola alçada, iam num trotão dançado,
bufando... e já cerravam numa correria em redondo e depois riscavam,
campo fora...
Lá adiante, o mesmo barulho; noutro ponto, igual; dum rindo, numa trepada
de coxilha, numa descida de canhada, rufando duma restinga, os lotes de eguariços
iam se encontrando, entreverando-se; os campeiros vinham chegando e a gritos,
a cachorro, a tiro, ia-se tocando a bagualada de cada querência; de
todos os lados cruzava-se a contradança, que se encaminhava sobre uma
linha já combinada; e aos poucos ia crescendo o rodeio movediço,
que engrossava, redemoinhava, espirrava, tornava a embolar-se... e de repente
fazia cabeça, fazia ponta, e todo disparava, fazendo tremer a terra,
roncando no ar, como uma trovoada.
Aí a gente entrava a manguear, aos dois lados, e então é
que começava, de verdade, o divertimento! Ar-rematava-se três,
quatro, cinco fletes; corria-se sem parar, seis, dez, doze léguas...
e no fim estava-se folheiro!...
Barbaridade! Nem há nada como tomar mate e correr eguada!
Amigo! Aquele novelo não se desmanchava mais; ao contrário,
o que ia topando pela frente ou aos lados, de eguada, também corria
e atirava-se, incorporando-se; na culatra ia ficando uma estiva de potrilhos,
de flacos, de aplastados, dos que rodavam, dos que se quebravam e até
dos que morriam pisoteados por aquela massa cerrada de cascos.
E em cancha direita ou fazendo voltas largas, não se respeitava sanga,
banhado, tacuru, panela de caranguejo, nem buraco de tuco-tuco; ia-se acamando
as macegas, pisoteando cardais, esmigalhando as manchas de trevo, e ia-se
sempre a meia rédea.
Aí é que era o lindo!
Os fletes montados, alevianados, corriam, alçados no freio; os tiros
de bolas cruzavam-se nos ares… e aquilo era largar as três-marias
sobre a paleta do escolhido e o bagual logo rodava, no enleio das sogas.
O gaúcho, apeava, ligava, tirava as boleadeiras e já se bancava
de novo pra nova nombrada,
Isto quando era por divertir.
Quando era para tropa, o melhor era reiunar os boleados; isso era ligeiro: com um talho de faca, por detrás, na raiz da orelha, esta caía pra diante, sobre o olho; o sangue também ajudava, porque escorria e se empastava nas clinas; e podia ser potro cru e malevaço, que ali no mais dava o cacho; podia fazer-se dele sinuelo.
Quando era para limpeza, então tocava-se a eguada sobre um apertado
qualquer, sobre uma sanga bem funda, grota, manantial, sumidouro, e atirava-se
aí pra dentro, para destroçar, para acabar, atirava-se aí
para dentro toda a bagualada, que, do lance em que vinha, toda se afundava,
amontoava, esmagava e morria, sem poder recuar, perdida pela sua própria
brabeza, empurrada pelas pechadas dos que vinham, sarapantados, tocados de
trás!...
E o resto que se desguaritava e que se podia ainda apanhar a laço e
bolas, esse, degolava-se.
Dessa feita, nos campos do major Jordão matamos pra mais de seis mil
baguais. E cada gaúcho, na despedida, foi tocando por diante a sua
tropilhita nova.
Hoje... onde é que se faz disso?
É verdade que há muita cousa boa, isso é verdade... mas
ainda não há nada, como antigamente, tomar mate e correr eguada...
Xô-mico!... Vancê veja… eu até choro!...
Ah! tempo!…
- Quando foi do cerco de Uruguaiana pelos paraguaios em 65 e o imperador
Pedro 2° veio cá, com toda a frota da sua comitiva, andei muito
por esses meios, como vaqueano, como chasque, como confiança dele;
era eu que encilhava-lhe o cavalo, que dormia atravessado na porta do quarto
dele, que carregava os papéis dele e as armas dele.
Começou assim: fui escalado para o esquadrão que devia escoltar
aquele estadão todo.
Quando a força apresentou-se ao seu general Caxias, o velho olhou...
olhou... e não disse nada.
Cada um, firme como um tarumã; as guascas, das melhores, as garras,
bem postas, os metais, reluzindo; os fletes tosados a preceito, a cascaria
aparada... e em cima de tudo, - tirante eu - uma indiada macanuda, capaz de
bolear a perna e descascar o facão até pra Cristo, salvo seja!...
Pois o velho olhou…, olhou…, e ficou calado. E calado saiu.
O tenente que nos comandava, relanceou os olhos como numa sufocação
e berrou:
- Firme! E dando um torcicão forte na banda, começou a mascar
a pêra, furioso.
E ali ficamos; de vez em quando um bagual escarceando, refolhando, escarvando...
Daí a pouco, de em frente, das casas, veio saindo unia gentama, muito
em ordem, de a dois, de a três.
Na testa vinha um homem alto, barbudo, ruivo, de olhos azuis, pequenos, mas
mui macios. A esquerda dele, dois passos menos, como na ordenança,
o velho Caxias, fardado e firme, como sempre.
O outro, o ruivo, assim a modo um gringo, vinha todo de preto, com um gabão
de pano piloto, com veludo na gola e de botas russilhonas, sem esporas.
Pela pinta devia ser mui maturrango.
Não trazia espada nem nada, mas devia ser um maioral porque todos os
outros se apequenavam pra ele. Quem seria?...
O tenente descarregou umas quantas vozes; e nós estávamos como
corda de viola!...
O ruivo passou pela nossa frente, devagar; mirou um flanco e outro, e falou
com o velho, mostrando um ar risonho no rosto sério.
O velho acenou ao tenente, que tocou o cavalo e firmou a espada em continência.
Então o ruivo disse:
- 'Stá bem, sr. tenente; estou satisfeito! Mande-me aqui um dos seus
homens, qualquer...
- O tenente bateu a espada e deu de rédea, e parou mesmo na minha frente...
eu era guia da fila testa.
- Cabo Blau Nunes! Pé em terra! Um!... Dois!…
Estava apeado e perfilado, com a mão batendo na aba levantada do meu
chapéu de voluntário.
- Apresente-se!
E baixinho, fuzilando nos olhos, boquejou-me: - aquele é o imperador;
se te enredas nas quartas, defumo--te!
Ora!... Caminhei firme e quando cheguei a cinco passos do ruivo, tornei a
quadrar o corpo, na postura dos mandamentos.
Aí o velho Caxias perguntou:
- Sabes a quem falas?
- Diz que ao senhor imperador!
- Sua majestade o imperador, é que se diz.
- A sua majestade o imperador!
Vai então, o tal, que pelo visto, era mesmo o tão falado imperador,
disse, numa vozinha fina:
- Bem; cabo, você vai ficar na minha companhia; há de ser o meu
ordenança de confiança. Quer?...
- O senhor imperador vai ficar mal servido: sou um gaúcho mui cru;
mas para cumprir ordens e dar o pelego, tão bom haverá, melhor
que eu, não!
Aí o homem riu-se e o velho também. E vai este indagou:
- Conheces-me?
- Como não?!... Desde 45, no Ponche Verde; fui eu que uma madrugada
levei a vossa excelência um ofício reservado, pra sua mão
própria... e tive que lanhar uns quantos baianos abelhudos que entenderam
de me tomar o papel... Vossa excelência mandou-me dormir e comer na
sua barraca, e no outro dia me regalou um pi-caço grande, mui lindo,
que...
- Bem me parecia, sim... E ainda és o mesmo homem?
- Sim, sr., com algum osso mais duro e o juízo mais tironeado!
- É que sua majestade vai precisar de um chasque provado, seguro...
há perigo, na missão...
- Uê! seu general!... Meu pai e minha mãe hoje, é esta!
E beijei a minha divisa de cabo.
O imperador pôs a mão no meu ombro e disse:
- Estimo-te. Podes ir... e cala-te.
E vancê creia... - que diabo! - tive um estremeção por
dentro!...
Eu pensava que o imperador era um homem diferente dos outros... assim todo
de ouro, todo de brilhantes, com olhos de pedras finas...
Mas, não senhor, era um homem de carne e osso, igual aos outros...
mas como quera... uma cara tão séria… e um jeito ao mesmo
tempo tão sereno e tão mandador, que deixava um qualquer de
rédea no chão!...
Isso é que era!…
Fiz meia-volta e fui tomar o meu lugar; o esquadrão desfilou, apresentando
armas e fomos acampar. Logo a rapaziada crivou-me de perguntas... mas eu,
soldado velho, contei um par de rodelas, queimei campo a boche, mas não
afrouxei nada da conversa; não vê!...
De tardezita já entrava de serviço.
A não ser nas conversas particulares daqueles graúdos - pois
tudo era só seu barão, seu conselheiro, seu visconde, seu ministro
-, eu sempre via e ouvia o que se passava.
E a bem boas assisti.
Um dia apresentaram ao imperador um topetudo não sei donde, que perguntou,
mui concho:
- Então vossa majestade tem gostado disto por aqui?
- Sim, sim, muito!
- Então por que não se muda pra cá, com a família?...
Outro, no meio da roda, puxou da traíra, sovou uma palha de palmo,
e começou a picar um naco; esfregou o fumo na cova da mão, enrolou,
fechou o baio e mui senhor de si ofereceu-o ao imperador.
- É servido?
- Não, obrigado; parece-me forte o seu fumo...
- Não sabe o que perde!... Então, com sua licença!...
E bateu o isqueiro e começou a pitar, tirando cada tragada que nuveava
o ar!
Havia um que era barão e comandava um regimento, que era mesmo uma
flor; tudo moçada parelha e guapa.
O imperador gabou muito a força, e aí no mais o barão
já lhe largou esta agachada:
- Que vossa majestade está pensando?... Tudo isto é indiada
coronilha, criada a apojo, churrasco e mate amargo... Não é
como essa cuscada lá da Corte, que só bebe água e lambe
a... barriga!...
Este mesmo barão, duma feita que o d. Pedro pro-curou no bolso umas
balastracas para dar uma esmola e não achou mais nada, desafivelou
a guaiaca e entregando-a disse:
- Tome, senhor! Cruzes! Nunca vi homem mais mão-aberta do que vossa
majestade…, olhe que quem dá o que tem, a pedir vem... mas...
quando quiser os meus arreios prateados... e até a minha tropilha é
só mandar... só reservo o tostado crespo e um qualquer pelego...
- Mas, sr. barão, nem por isso eu dou o que desejara…
- Ora qual!... Vossa majestade não dá a camisa... porque não
tem tempo de tirá-la!...
Numa das marchas paramos num campestre, na beira dum passo, perto dum ranchito.
Daí a pouco, com uma trouxinha na mão apareceu no acampamento
uma velha, que já tinha os olhos como retovo de bola. Por ali andou
mirando, e depois entrando mesmo no grupo onde ele estava, disse:
- Bom dia, moços! Qual de vocês é o imperador?
- Sou eu, dona! Assente-se.
A velha olhou-o de alto a baixo, calada, e depois rindo nos olhos:
- Deus te abençoe! Nossa Senhora te acompanhe, meu filho! Eu trago-te
este bocadinho de fiambre!
E abrindo o pano, mui limpinho, mostrou um requeijão, que pela cor
devia de estar um gambelo, de gordo e macio. D. Pedro agradeceu e quis dar
uma nota à velha, que parou patrulha.
- Não! não!... Tu vais pra guerra... Os meus filhos e netos
já lá andam... Eu só quero que vocês não
se deixem tundar!...
Houve uma risada grande, da comitiva. A velhota ainda correu os olhos em roda
e indagou:
- Diz que o seu Caxias também vem aqui... quem é?
- Sou eu, patrícia!... Conhece-me?
- De nome, sim, senhor. O meu defunto, em vida dele, sempre falava em vancê...
Pois os caramurus iam fuzilar o coitado, quando vancê apareceu... Lembra-se?...
E vai, quando o seu general Canabarro fez a paz entre os farrapos e os legais,
o meu defunto jurou que onde estivesse o seu Caxias, ele havia de ir... mas
morreu, pro via dum inchume, que apareceu, aqui, lá nele. Mas, como
por aqui, correu que vancê ia pra guerra dos paraguaios, o meu filho
mais velho, em memória do pai, ajuntou os irmãos e os sobrinhos
e uns quantos vizinhos e se tocaram todos, pra se apresentarem de voluntários,
a vancê!… Vancê dê notícias minhas e bote a
benção neles; e diga a eles que não deixem o imperador
perder a guerra... ainda que nenhum deles nunca mais me apareça!...
Bem! com sua licença... Seu imperador, na volta, venha pousar no rancho
da nhã Tuca; é de gente pobre, mas tudo é limpo com a
graça de Deus... e sempre há de haver uma terneira gorda pra
um costilharl... Passar bem! Boa viagem... Deus os leve, Deus os traga!...
O imperador - esse era meio maricas, era! - abraçou a velha, prometendo
voltar, por ali, e quando ela saiu, disse:
- Como é agradável esta rudeza tão franca!
Numa cidade onde pousamos, o imperador foi hospedado em casa dum fulano,
sujeito pesado, porém mui gauchão.
Quando foi hora do almoço, na mesa só havia doces e doces...
e nada mais. O imperador, por cerimônia pro-vou alguns; a comitiva arriou
aqueles cerros açucarados. Quando foi o jantar, a mesma cousa: doces
e mais doces!... Para não desgostar o homem, o imperador ainda serviu-se,
mas pouco; e de noite, outra vez, chá e doces!
O imperador, com toda a sua imperadorice, gurniu fome!
No outro dia, de manhã, o fulano foi saber como o hóspede havia
passado a noite e ao mesmo tempo acompanhava uma rica bandeja com chá
e... doces...
Aí o imperador não pôde mais… estava enfara-do!…
- Meu amigo, os doces são magníficos... mas eu agradecia-lhe
muito se me arranjasse antes um feijãozinho... uma lasca de carne...
O homem ficou sério… e depois largou uma risada:
- Quê! Pois vossa majestade come carne?! Disseram-me que as pessoas
reais só se tratavam a bicos de rouxinóis e doces e pasteizinhos!…
Por que não disse antes, senhor? Com trezentos diabos!... Ora esta!...
Vamos já a um churrasco... que eu, também, não agüento
estas porquerias!...
- Vancê sabe que eu tive e me servi muito tempo dum buçalete
e cabresto feitos de cabelo de mulher?…Verdade que fui inocente no caso.
Mais tarde soube que a dona dele morreu; soube, galopeei até onde ela
estava sendo velada; acompanhei o enterro... e quando botaram a defunta na
cova, então atirei lá pra dentro aquelas peças, feitas
do cabelo dela, cortado quando ela era moça e tafulona… Tirei
um peso de cima do peito: entreguei à criatura o que Deus lhe tinha
dado.
Eu conto como foi.
Quem me ensinou a courear uma égua, a preceito, estaquear o couro,
cortar, lonquear, amaciar de mordaça, o quanto, quanto...; e depois
tirar os tentos, desde os mais largos até os fininhos, como cerda de
porco, e menos, quem me ensinou a trançar, foi um tal Juca Picumã,
um chiru já madurázio, e que tinha mãos de anjo para
trabalhos de guasqueiro, desde fazer um sovéu campeiro até o
mais fino preparo para um recau de luxo, mestraço, que era, em armar
qualquer roseta, bombas, botões e tranças de mil feitios.
Este índio Juca era homem de passar uma noite inteira comendo carne
e mateando, contanto que estivesse acoc'rado em cima quase dos tições,
curtindo-se na fumaça quente... Era até por causa desta catinga
que chamavam-lhe - picumã.
Pra mais nada prestava; andava sempre esmolamba-do, com uns caraminguás
mui tristes; e nem se lavava, o desgraçado, pois tinha cascão
grosso no cogote.
Comia como um chimarrão, dormia como um lagar-to; valente como quê...
e ginete, então, nem se fala!...
Para montar, isso sim!…, fosse potro cru ou qual-quer aporreado, caborteiro
ou velhaco - o diabo, que fosse! -, ele enfrenava e bancava-se em cima, quieto
como vancê ou eu, sentados num toco de pau!... Podia o bagual esconder
a cabeça, berrar, despedaçar-se em corcovos, que o chiru velho
batia o isqueiro e acendia o pito, como qualquer dona acende a candeia em
cima da mesa! Às vezes o ventana era traiçoeiro e lá
se vinha de lombo, boleando-se, ou acontecia planchar-se: o coronilha escorregava
como um gato e mal que o sotreta batia a alcatra na terra ingrata, já
lhe chovia entre as orelhas o rabo-de-tatu, que era uma temeridade!...
Voltear o caboclo, isto é que não!
E bastante dinheiro ganhava; mas sempre despilchado, pobre como rato de igreja.
Um dia perguntei-lhe o que é que este fazia das balastracas e bolivianos,
e meias-doblas e até onças de ouro, que ganhava?...
Esteve muito tempo me olhando e depois respondeu, todo num prazer, como se
tivesse um pedaço do céu encravado dentro do coração:
- Mando pra Rosa… tudo! E é pouco, ainda!
- Que Rosa é essa?
- É a minha filha! Linda como os amores! Mas não é pra
o bico de qualquer lombo-sujo, como eu...
A conversa ficou por aí.
Passaram os anos. Eu já tinha o meu bigodinho.
Rebentou a guerra dos Farrapos; eu me apresentei, de minha vontade; e com
quem vou topar, de companheiro? Com o Juca Picumã.
Duma feita andávamos tocados de perto pelos caramurus... Tínhamos
saído em piquete de descoberta e aconteceu que depois de vararmos um
passo, os legalistas nos cortaram a retirada e vieram nos apertando sobre
outra força companheira, como para comer-nos entre duas queixadas...
E não nos davam alce; mal boleávamos a perna para churrasquear
um pedaço de carne e já os bichos nos caíam em cima...
Na guerra a gente às vezes se vê nestas embretadas, mesmo sendo
o mais forte, como éramos nós, que bem podíamos até
correr a pelego aqueles camelos…, mas são cousas que os chefes
é que sabem e mandam que se as agüente, porque é serviço...
Ora bem; havia já dois dias e duas noites que vivíamos neste
apuro; arrinconados nalgum campestre dava-se um verdeio aos cavalos; os homens
cochilavam em pé; nisto um bombeiro assobiava, outro respondia e o
capitão, em voz baixa e rápida, mandava:
- Monta, gente!
E o Juca Picumã, que era o vaqueano, tomava a ponta e metia-nos por
aquela enredada de galhos e cipós e lá íamos, mato dentro,
roçando nos paus, afastando os espinhos e batendo a mosquitada, que
nos carneava... Ninguém falava. A rapaziada era de dar e tomar, e -sem
desfazer em vancê, que está presente -, eu era do fandango…
e devo dizer, que nesse tempo, fui mondongo meio duro de pelar...
Dessa vereda o vaqueano foi pendendo para a esquerda; de repente batemos
na barranca do arroio, e ele, sem dizer palavra meteu n'água o cavalo
e, devagarzinho, fomos encordoando de trás e varando, de bolapé.
Seguimos um pedaço, sempre sobre a esquerda, e mui adiante tornamos
a varar o arroio para o lado que tínhamos deixado. Tínhamos
feito uma marcha em roda, que íamos agora fechar saindo na retaguarda
do acampamento dos legalistas.
Num campestrezinho paramos; o capitão mandou apear rédea na
mão, tudo pronto ao primeiro grito.
Depois acolherou-se com o Juca Picumã e meteram-se no mato e aí
boquejaram um tempão. Depois voltaram.
Então o capitão correu os olhos pelos rapazes e disse:
- Preciso de um, que toque viola...
Mas o Picumã xeretou logo:
- Tem aí esse pisa-flores, o furriel Blau...
- Esse gurizote?…
- Sim, senhor, esse; é cruza de ca1ombo!...
E deu de rédea, com cara de sono. O capitão acompanhou-o, mandando
que eu seguisse; e eu segui-o, quente de raiva, pelo pouco caso com que ele
chamou-me -gurizote -. Se não fosse pelas divisas, eu dava-lhe o -gurizote!…
Fomos andando... parando... farejando... escutando... Em certa altura o Picumã,
sem se voltar levantou o braço, de mão aberta e parou. O capitão
parou, e eu.
O chiru disse, baixo:
- Está perto… ali!... E o churrasco é gordo!…
E levantava e mexia o nariz, tal e qual como um cachorro, rastreando...
E apeamos.
- Vamos botar um torniquete nos cavalos, para não relincharem…
Fizemos, com o fiel do rebenque.
- Tiramos as esporas, por causa dalguma enrediça... Tiramos.
- Bom; agora o capitão diz como há de ser o ser-viço…
O oficial encruzou os braços e assim esteve um pedaço, alinhavando
a idéia; depois, como falando mais pra mim do que pra o outro, disse:
- Olha, furriel Blau, tu e o velho Picumã ides jogar o pelego numa
arriscada... Ele que te escolheu pra companheiro é porque sabe que
és homem... Há dois dias, como sabes, andamos nestes matos...,
mas não é tanto pelo serviço militar, é mais por
um vareio que quero dar... por minha conta... Ouve. A minha china fugiu-me,
seduzida pelo comandante desta força... Vocês vão-se apresentar
a ele, como desertados e que se querem passar... Ele é um espalha-brasas;
ela é dançarina..., arranja jeito de rufar numa viola e abre
o peito numas cantigas... Tendo farra estão eles como querem... E enquanto
estiverem descuidados, eu caio-lhes em cima com a nossa gente. Agora... quando
fechar o entrevero só quero que tu te botes ao comandante… e
que lhe passes os maneadores... quero-o amarrado...; entendes? És capaz?…
O Picumã ajuda... O resto… de-pois...
- Mas... não é pra defuntear o homem... amarrado?...
- Não! Acoquiná-lo, só...
- A tal piguancha, também… não é pra... lonquear?...
- Não! Desfeiteá-la, só...
- Então, vou. Mas quem fala é o Picumã...; eu, nem mentindo
digo que sou desertor...
- Estás te fazendo muito de manto de seda!... Cuidado!...
- Seu capitão é oficial… nada pega...; eu sou um pobre
soldado que qualquer pode mandar jungir nas estacas...
Aí o Picumã meteu a colher.
- Seu capitão, o mocito não é sonso, não! Deixe
estar, patrãozinho, tudo é comigo... vancê só tem
é que atar o gagino..
Depois os dois se abriram e ainda estiveram de cochicho, rematando as suas
tramas.
O capitão montou.
- Bueno!... Vejam o que fazem; eu vou buscar a gente, e, conforme chegar,
carrego. Vocês devem-se arrinconar junto da carreta, para eu saber.
Blau!... não cochiles: o ruivo não é trigo limpo!...
E desandou por entre as árvores.
Quando não se ouviu mais nada o chiru convidou.
- Vamos: nos apresentamos como passados, que já andamos entocados aqui
há uns quantos dias. Deixe estar, que eu falo… estes caramurus
são uns bolas... Vai ver como passamos o buçal.. . logo nos
aceitam! Vamos! Ah! meta dentro da camisa uma cana de rédea... é
para a maneia do homem... Os companheiros depois nos levam os mancarrões,
a cabresto.
E metemos a cabeça no mato, ele adiante, a rumo do cheiro, dizia.
Andamos mais de seis quadras; nisto, o chiru pego a cantar umas copias, devagar,
meio baixo, como quem anda muito descansado, de propósito para ir chamando
o ouvido de algum bombeiro, se houvesse...
Ora… dito e feito! Com duas quadras mais, um vulto junto duma caneleira
morruda, gritou, no sombreado das ramas:
- Quem vem lá!
- É de paz!
- Alto! Quem é?
- É gente pra força, patrício! Andamos campeando vocês
desde já hoje...
- Há! Pra quê?
- Ora, pra quê... Pra escaramuçar os farrapos!... E queremos
jurar bandeira com o ruivo...
- Ah! vancês conhecem o comandante?
- Ora... ora! Mangangá de ferrão brabo! Ora, se conheço...
Então, seguimos?...
- Passem. Vão por aqui… até topar um sangra-douro...;
aí tem outra sentinela; diga que falou comigo, o Marcos...
- 'Tá bom... Quando render, vá tomar um mate comigo!...
Fomos andando, até a sanga dita; aí topamos com a outra sentinela;
o chiru nem esperou o grito, ele é que falou, ainda longe;
- Oh... sentinela!
- Quem vem lá?...
- Foi o Marcos que nos mandou; andávamos extraviados... ele nos conhece...
vamos levar um aviso ao comandante... É dos farrapos que andavam ontem
por aqui... foram corridos...
- Hã! Pois passem...
- Sim... Pois é... foram-se à ramada do Guedes... Com um couro
na cola, os trompetas!... Tem ai cavalhada de refresco?
- Que nada! A reiunada está estransilhada... A gente a custo se mexia...
E pra mal dos pecados ainda o comandante traz uma china milongueira, numa
carreta toldada, que só serve pra atrapalhar a marcha... A chi-na é
lindaça... mas é o mesmo. .. sempre é um estorvo!...
Aqui o Picumã se acoc'rou, tirou uma ponta de trás da orelha
e pediu-me:
- Dá cá os avios, parceiro...
E bateu fogo. Reparei que a respiração do chiru estava a modo
entupida... Mas pegou outra vez:
- Ë... o Marcos disse-me que o comandante é mui rufião...
-
- Ë mesmo; mal empregada, a cabocla; qualquer dia ele mete-lhe os pés…
é o costume... Ora!...
- É... assim, é pena... Vamos, parceiro. Até logo. Como
é a sua graça?
- João Antônio, seu criado... E a sua, inda que mal pergunte?
- Juca, patrício... Juca no mais... Quando render, espero a sua pessoa
para um amargo!...
- 'Stá feito!... Vá em paz!...
E outra vez nos mexemos, agora sobre o acampa-mento dos legais. Começamos
a ouvir o falaraz dos homens, assobios, risadas, picamento de lenha, uma rusga
de cachorros.
Mais umas braças. Chegamos. No meio do campestre uma fogueira grande,
rodeada de espetos onde o churrasco chiava, pingando o fartum da gordura;
nas brasas, umas quantas chocolateiras, fervendo; armas dependura-das, botas
secando, japonas abertas, e ponchos, nos galhos. Deitados nos pelegos, nas
caronas, muitos soldados ressonavam; outros, em mangas de camisa, pitavam,
mateavam.
Do lado da sombra uma carreta toldada. Num fueiro, pendurado, um porongo morrudo,
tapado com um sabugo; vestidos de mulher, arejando, diziam logo o que aquilo
era. Pertinho, outro fogão, também com churrasco, uma chaleira
aquentando e uma panela cozinhando algum fervido... Uma fumaça mui
azul, cerrava tudo, alastrando-se na calmaria da ressolana.
Dois cavalos à soga, e um outro, bem aperado, maneado, pastando.
Mal que desembocamos do mato vimos tudo… e tudo com jeito de acampamento
relaxado.
O chiru foi andando como cancheiro, e eu, na cola dele. Nisto um sujeito,
deitado nos arreios, gritou-nos:
- Che! Aspa-torta! Então isto aqui é quartel de far-rapos?…
não se dá satisfações a ninguém?...
- Foi o Marcos, que nos mandou...
- Que Marcos?
- O Marcos, que está de sentinela… e o João Antônio...
sim, senhor, para falar com o comandante...
: - Isso é outro caso… O comandante está sesteando...
Se quiserem, esperem ali, junto da caneta. Já comeram?
- Já, sim senhor.
- Pois então!... Vão!
E apontou.
Arrolhamo-nos na sombra da carreta, junto da roda, encostando a cabeça
na maça. Eu estava como em cima de brasas… não era pra
menos...
Cuna!... Se descobrissem, nos carneavam, vi-vos!...
O Picumã cochi1ava... mas estava alerta, porque às vezes eu
bem via fuzilar o branco dos olhos, na racha das pálpebras, entre o
sombreado das pestanas...
A milicada começou a retirar os churrascos, já prontos e foi-se
arranchando em grupos, para comer.
Nisto, por cima de nós, dentro da carreta, ouvimos falar, e depois
uma risada moça, e logo uma mulher desceu, barulhando anáguas.
O chiru, que estava com os braços encruzados por cima dos joelhos,
quando sentiu a mulher, afundou a cabeça pra diante, escondendo a cara…
e o chapéu ainda ficou imprensado entre a testa e a curva do braço...
Então passou pela nossa frente a cabocla... viu um como dormindo e
o outro, que era eu, mui derreado e bocó... E foi-se à panela,
mirou-a, apertando os olhos pro via da fumaça e do mormaço do
brasido,
Por Deus e um patacão!...
Era um chinocão de agalhas!... Seiúda, enquartada, de boas cores,
olhos terneiros... e com uma trança macota, ondeada, negra, lustrosa,
que caía meio desfeita, pelas costas, até o garrão!...
- Por que seria que este diabo largou o meu capitão, para se acolherar
com este tal ruivo?...
Isto de chinas e gatos... quem amimar sai arranha-do... Talvez por este ser
ruivo… talvez por farromei-ro... por causa dalgum cavalo que ela gabou
e ele regalou-lhe… e até… até por enfarada do outro...
Ora vão lá saber!...
Nisto a piguancha alçou a panela e voltou pra car-reta.
O chiru então, com a cara de lado, soprou-me de leve:
- Ela não se arpistou quando me viu?...
- Não... nem nos benzeu com um olhado... É uma cabocla enfestada!...
- Cale a boca... Apronte-se que o fandango não tarda.
- Eu preferia bailar com a morena...
- Aqueles dois do mate convidado não vêm mais....
- Os sentinelas?
- Sim; com certeza o capitão enxugou-os... Está me palpitando
que a gente está desabando aí...
Palavras não eram ditas, que saiu do mato um milico, pondo a alma pela
boca, e balançando, de cansaço e medo, mascou a nova:
- Os farrapos! Os farrapos! Mataram o João Antô-!…
Estrondeou um tiro… zuniu uma bala... um legal virou, pataleando.
E pipoqueou a fuzilaria em cima da camelada!
Eu, pulei logo para o recavém da carreta, para me botar ao ruivo; mas
antes de chegar já ele tinha desci-do... e se foi ao cavalo, que montou
de pulo e mesmo sem freio e maneado, tapeando-o no mais, tocou picada fora.
E berrou à gente:
- Pra o rincão! Pra o rincão!
E com a folha da espada tocou o flete, que pelo visto era mestre naquelas
arrancadas.
Mesmo assim eu ia ver se segurava o homem, mas o chiru gritou-me:
- Deixe! Deixe! Agora é tarde!…
Naturalmente de dentro da carreta a china viu o entrevero, e que o negócio
estava malparado; e pulou pra fora, pra disparar e ganhar o mato. Mas quando
pisou o pé em terra, a mão do Juca Picumã fechou-me o
braço, como uma garra de tamanduá...
A cabocla não estava tão perdida de susto, porque ainda deu
um safanão forte e gritou, braba:
- Larga, desgraçado!...
E olhou, entonada... mas conheceu o chiru e ficou abichornada, pateta...
- O tata! O tata!...
- Cachorra!... Laço, é o que tu mereces!...
- Me largue, tata!...
- Primeiro hei de cair-te de relho... pra não seres a vergonha da minha
cara...
Neste instante, fulo de raiva, o nosso capitão manoteou-a pelo outro
braço.
- Ah! mencê... perdão!... Nunca mais!... Eu... Eu...
- Eu é que vou dar-te sesteadas com o ruivo, guincha desgraçada!
E furioso, piscando os olhos, com as veias da testa inchadas, largou o braço
da morena mas agarrou-lhe os cabelos, a trança quase desmanchada, fechando
na mão duas voltas, agarrou curto, entre os ombros, pertinho da nuca..,
e puxou pra trás a cabeça da cabocla..., com a outra mão
pelou a faca, afiada, faiscando e procurou o pescoço da falsa...
Chegou a riscar… riscar, só, porque o chiru velho, o Juca Picumã,
foi mais ligeiro: mandou-lhe o facão, de ponta, bandeando-o de lado
a lado, pela altura do cora-cão!…
- Isso não!... é minha filha! disse.
O capitão revirou os olhos e deu um suspiro rou-co… depois respirou
forte, espirrou uma espumarada de sangue e afrouxou os joelhos... e logo caiu,
pesado, com uma mão apertada, sem largar a faca, com a outra mão
apertada, sem largar a trança...
E a china, assim presa; rodou por cima dele, lambuzando-se na sangueira que
golfava pelo rasgão do ta-lho, que bufava na respiração
do morrente…
Vendo isso, o Picumã quis soltar a piguancha e forçou abrir
a mão do capitão: qual! era um torniquete de ferro; tironeou...
nada! Então, sem perder tempo, com o mesmo facão matador cortou
a trança, rente, entre a mão do morto e a cabeça da viva...
Foi - ra… raaac! - e a china viu-se solta, mas sura da trança,
tosada, tosquiada, como égua xucra que se cerdeia a talhos brutos,
ponta abaixo, ponta acima...
E mal que sentiu-se livre sacudiu a cabeça azonzada, relanceou os olhos
assombrados, arrepanhou as anáguas e disparou mato dentro, como uma
anta...
- Cachorra!... vai-te!... rugiu o chiru, limpando o ferro na manga da japona.
E olhando o corpo do capitão, cuspiu-lhe em cima, resmungando:
- Pois é... seduziu... e agora queria degolar... E mui triste, pra
mim:
- Vancê vai dar parte de mim?
- Esta é a Rosa, a tua filha?
- Sim, senhor, que eu criei com tanto zelo!...
E mais não pudemos dizer, porque o entrevero rondou para o nosso lado..
. e tivemos que fazer pela vi-da!... No meio do berzabum o Picumã ainda
achou jeito de atirar uns quantos tições pra dentro da carreta...
e daí a pouco o fogo lavorava forte naquele ninho de amores A la fresca!...
que ninho!...
Alguém gritou: o capitão 'stá morto!... Vamos embora!...
Um de a cavalo atravessou-o no lombilho e fomos retirando, tiroteando sempre.
Mas a trança não ia mais na mão do morto.
Passaram-se uns três meses largos; em muita corre-ria andamos, surpresas,
tiroteios, combates sérios.
Um dia um estancieiro regalou-me um pingo tordilho, pequenitate, mas mui mimoso.
Quando eu ia sentar-lhe as garras, apareceu-me o Picumã, sempre esfrangalhado
e com cara de sono e disse-me, desembrulhando um pano sujo:
- Vim trazer-lhe um presente; é um trançado feito por mim; e
há de ficar mui bem no tordilho, porque é preto...
E ajeitou na cabeça do cavalo um buçalete e cabresto preto,
de cabelo, trançado na perfeição. Nunca passou-me pela
idéia cousa nenhuma a respeito...
O meu esquadrão marchou para a fronteira; depois andamos de Herodes
para Pilatos, até que no combate das Tunas... fomos topar com os antigos
companheiros de divisão. Brigamos muito, nesse dia. Aí ganhei
as minhas batatas de sargento.
Não sei como ele soube, mas de noute um fulano procurou-me dizendo
que o soldado Juca Picumã, um chiru velho, que estava muito ferido,
pedia para eu não deixá-lo morrer sem vê-lo.
Lá fui. Estava o chiru deitado nas caronas e todo reatado de panos,
pela cabeça, nas costelas, nas pernas.
O coitado gemia surdo, de boca fechada; e às vezes cuspia preto...
Quando me viu, à luz de uma candeia de barro fresco, quis mexer os
ossos e não pôde...
- Então, Picumã... homem afloxa o garrão?...
E ele falou tremendo na voz:
- Estou… como um crivo... Eram oito... em cima... de mim... só
pude... estrompar... cinco!... Vancê... ainda… tem... aquele buçalete?...
- Tenho sim; meio estragado, mas tu ainda hás de compô-lo, não
é?...
Não... eu queria… eu queria… lhe... lhe pedir... ele, outra
vez... pra... pra mim...
- Pois sim, dou-te! Amanhã trago-te.
- E do... do cabelo da Rosa... a trança... lembra-se?...
Levantei-me, como se levasse um pregaço no costilhar... O buçalete
era feito do cabelo da china?!... E aquele chiru de alma crua... E quando
firmei a vista no índio, ele arregalou os olhos, teve uma ronqueira
gargalejada e finou-se, nuns esticões...
Nessa mesma madrugada fui mandado num piquete de reconhecimento, de forma
que não soube onde nem como foi enterrado o Picumã, porque o
meu desejo era atirar-lhe pra cova aquele presente agourento...
Agourento… agourento não digo, porque afinal enquanto usei aquele
buçalete nunca fui ferido.., e ganhei de uma a quatro divisas...
Tem é que dobrei a prenda, reatei-a com um tento e soquei-a pro fundo
da maleta, até ver...
Até que um dia, como lhe disse, soube que a Rosa morreu e então...
ah!... já lhe disse também: atirei para a cova da china os cabelos
daquela trança... doutro jeito, é verdade… mas sempre
os mesmos!...