- Vancê pare um bocadinho; componha os seus arreios, que a cincha está
muito pra virilha. E vá pitando um cigarro enquanto eu dou dois dedos
de prosa àquele andante… que me parece que estou conhecendo…
e conheço mesmo!... É o índio Reduzo, que foi posteiro
dos Costas, na estância do Ibicui.
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- Vancê desculpe a demora: mas quando se encontra um conhecido do outro
tempo - e então do tope deste! - a gente até sente uma frescura
na alma!… Coitado, está meio acalcanhado… mas, bonzão,
ainda!
Pois aquele cuerudo que vancê está vendo, teve grito d'armas!...
Vou contar-lhe uma alarifagem em que ele andou metido, e que só depois
se soube, pelo miúdo, e isso mesmo porque a própria gente do
caso é que contava.
O Reduzo foi nascido e criado em casa dos Costas, ainda no tempo do velho,
o Costa lunanco, um que foi alferes dos dragões do Rio Pardo. Este
Costa lunanco era um pente-fino, que naquele tempo arranjou tirar para ele
e para os filhos - miudagem, ainda - como quatro sesmarias de campo, sobre
o lbicui, pegadas umas nas outras, e com umas divisas largas... como goela
de gringo!...
O chiru criou-se junto com os meninos, e desde ninhar e armar urupucas, até
botar as vacas, irem aos araçás e pegar mulitas, tudo faziam
juntos.
Quando eram já taluditos o velho começou a encostá-los
no serviço, também sempre de companheiros; e assim foram aprendendo
a campeirear, domando, capando... até saberem apartar boi gordo e tocar
uma tropa.
Neste entrementes rebentou outra vez uma gangolina com os castelhanos.
Um dos moços, que era um quebra largado, nomeado por Costinha, esse,
foi dos primeiros a se apresentar ao comandante das armas, pra servir. E tais
cantigas cantou ao velho Costa, que este deixou o Reduzo ir com ele, de companheiro
e ordenança, porque o rapaz era cadete, com estrela, e tinha direito.
O chiru ficou todo ganjento; imagine vancê que colhera, daqueles dois
aruás!...
Neste passo porém deu-se uma cousa em que o Costinha nem tinha pensado.
E rabo-de-saia, já se vê...
O cadete tinha uma paixão braba por uma moça lindaça
- a sia Talapa -, filha dum tal Severo, também fazendeiro dali pertinho,
obra de cinco léguas.
O moço Costinha de vez em quando aparecia por lá, matava as
saudades; fazia umas agachadas, e vinha-se embora trazendo nos olhos o encantamento
dos olhos da namorada.
O velho Severo parece que não queria o casamento dos dois, nem por
nada; teimava e berrava que ela havia de casar-se com o sobrinho dele, primo
dela, um que tinha uma casa de negócio na Vila.
Esse tal era um ilhéu, mui comedor de verduras, e que para montar a
cavalo havia de ser em petiço e isso mesmo o petiço havia de
ser podre de manso... e até maceta... e nambi... e porongudo!...
A moça chorava que se secava, quando caçoavam-na com o primo
e o casório.
Era mesmo uma pena, lhe digo... casar uma brasileira mimosa com um pé-de-chumbo,
como aquele desgraçado daquele ilhéu… só porque
ele tinha um boliche em ponto grande!...
O caso é que o Costinha gostava da moça e a moça gostava
dele: tem, é que não atavam nem desatavam... e o velho Severo
puxava a pêra, torcendo as ventas...
O ilhéu às vezes vinha à estância do tio, em carretinha...;
veja vancê como ele era ordinário, que nem se avexava. de aparecer
de carretinha, diante da moça!... E era só cama com lençóis
de crivo, para o primo; fazia-se sopa de verdura para o meco; e até
bacalhau aparecia, só pra ele!...
Que isto das nossas comidas, um churrasco escorrendo sangue e gordura e salmoura…uma
tripa grossa assada nas brasas… uma cabeça de vaquilhona... uma
paleta de ovelha; e mogango e canjica e coalhada. .. e uns beijus e umas manapanças.
.. e um trago de cana e um chimarrão por cima… e para rebater
tudo, umas tragadas dum baio, de naco bem cochado e forte... tudo isso, que
é do bom. e do melhor, para o ilhéu não valia nem um
sabugo!...
Tuuh! diabo!... Até me cuspo todo, quando me lembro daquele excomungado!...
- Vancê está se rindo e fazendo pouco?... E por-que vancê
não é daquele tempo… quando rompeu a independência
lá na Corte do Rio de Janeiro… e depois tivemos que ir pra coxilha
fazer a guerra dos Farrapos, com seu general Bento Gonçalves, que foi
meu comandante, sim senhor, graças a Deus.. . e mais os outros torenas!...
Galego, naquele tempo, era gente, vancê creia! Estância, era dele;
negócio, era dele; oficial, era só ele; era arrematante das
sisas, ele; surgião, ele; padre-vigário, ele; e pra botar a
milicada em cima dos continentistas… era ele!…
E cada presilha!...
Gente da terra não valia nada!...
- Que é que vancê está dizendo?... O que nós somos
hoje a eles devemos? Qual! É verdade que uns in-ventaram plantação
de trigo… isso enfim, era bom...; sempre era uma fartura; noutras casas
plantavam e fiavam linho… também não era mau, isso; noutras
cardavam lã... Algum mais vivaracho botava tenda e vendia mechiflarias
ou prendas de ouro... Nalguns trocava-se uns quantos couros por um pão
de açúcar, e pipote de cana por qualquer meia dúzia de
vacas. E sempre corria alguma dobla, de salário, e algum cruzado pela
peonada de ajuste.
Mas, como quera... eram mui entonados, os reinóis. Onde é mesmo
que eu estava? Ah!... O Costinha e sia Talapa tinham juramento entre eles,
de se casarem, ainda que ela saísse de casa na garupa do namorado,
se o carrança do velho Severo não consentisse. Com o ilhéu
é que nunca!
Pois foi por estas alturas que os castelhanos bandearam a fronteira e o Costinha
assanhou-se.
Foi uma despedida de arrebentar a alma! Ele deixou-lhe de lembrança
uma memória e ela deu-lhe um negalho de cabelo. E combinaram que pra
qualquer recado ou carta ou aviso, ela teria o nome de Melancia e ele de Coco
verde. Só eles, ninguém mais saberia; que era para despistar
algum xereta.
E como a despedida foi de noite, e ela veio acompanhá-lo até
a porta. .. até a ramada, onde ele montou a cavalo… e como ventava
forte, e a vela que um crioulo trazia apagou-se… parece que houve a
roubada de uma boquinha... porque ele tocou a trotezito, calado, e ela, ficou
como entecada, no mesmo lugar, calada... Quem não soubesse jurava que
se despediam enfunados, quando a verdade é que se despediam chorando
nos olhos mas tocando música no coração... por causa
daquela bicota arreglada no escuro, mas que valeu como um clarão!...
Ninguém viu… só o Reduzo.
Nessa madrugada o cadete marchou.
O velho Severo deixou passar um mês ou mais; quando teve notícia
de que as forças andavam bem longe, e trançadas com o inimigo,
e que ninguém de lá podia sair assim a dois tirões. .
. sem falar nos balázios e nos lançaços - que isso era
a boche! -, quando inteirou-se de tudo, mandou à Vila o capataz para
vir acompanhando o sobrinho, a quem escreveu uma carta grande, fechada com
mais obreias do que tragos de vinho tem um copo de missa, de padre gordo!...
Oral... daí a uns dias o ilhéu batia na estância, de carretinha
e com um carregamento de cousas. E já começaram a aferventar
o casamento.
Imagine vancê o cerco em que se viu a pobre da sia Talapa! Eram os pais
dela; a parentalha; vizinhos velhos, cancheiros da estância... tudo
a dizer, a gabar, a achar até bonito o ilhéu...
E já foram alinhavando papéis, e preparos de vesti-dos e doçarias,
perus na engorda, leitões no chiqueiro, terneiras pros churrascos.
Uma negra que havia lhe dado de mamar era a única criatura que chorava
com a moça… mas chorava escondido, a pobre, por medo do laço...
De noite, fechadas no quarto as duas abraçavam-se, rezavam e só
diziam, no consolo duma esperança:
- Mãe santíssima... valei-me!...
- Nossa Senhora!… manda nhô Costinha aparecer!..
Afinal chegou o dia marcado. Veio o vigário com o sancristão
e gentama de toda parte; não digo bem: o velho Costa lunanco nem a
família não foram convidados.
Mas assunte vancê como se passaram as cousas.
Pela Vila tinha justamente passado a meia rédea um chasque para as
forças em que servia o cadete. O chasque era rapaz novo, alegre, mui
relacionado por aqueles meios; enquanto mudava de cavalo tinha ido tomar um
refresco no negócio do ilhéu, e aí, pela gente da casa
soube a nova do casamento, do dia certo, dos preparos da jantarola, enfim,
de tudo, tudo, pelo miúdo.E mal que apertou os pelegos, montou, - e
se foi - que o rei manda marchar, não manda chover.
Quando bateu no acampamento e entregou os ofícios que levava, procurou
a rapaziada conhecida e portanto o Costinha, para dar a novidade do casório
da sia Talapa com o primo.
Como touro de banhado laçado a meia espalda, assim ficou o moço.
Amassou o sombreiro sobre a orelha, afivelou a espada e gritou:
- Me vou, e é já! Reduzo!
- Pronto!
- Encilha os nossos cavalos! Já! Vamos embora!... Deserto!... Hei de
lonquear aquele galego ordinário!... Deserto... Deserto... acabou-se!
- Encilho? reperguntou o chiru.
- Sim, coos diabos! berrou o desesperado.
Neste momento o clarim deu toque de alarma… e como pra acoquinar o
pobre um cabo veio a toda pressa chamar o Costinha, de ordem do comandante...
Veja vancê que entaladela!
Pelos altos das coxilhas avistava-se uma partida do inimigo. O comandante
então deu ao Costinha uma prova de confiança, pois encarregou-o
de uma carga sobre um flanco dos atacantes...
E agora?!...
Filho de tigre é pintado!…
Diante do dever o moço engoliu a tristeza, e mesmo não quis
se desmoralizar desertando justamente naquela hora de peleia.
Mas coriscou-lhe um pensamento... e logo montou, formou a gente, tomou a testa
do piquete e disse ao Reduzo.
- Procura-me, que te preciso!...
Desembainhou a espada, deu um viva a Sua Majestade! - e despencou-se, firme
nos estribos, com o chapéu caído pra trás, sobre um ombro,
preso pelo barbicacho. E a gauchada, reboleando as lanças, carregou,
a gritos, fazendo tremer a terra e o ar.
O Reduzo, de pura pabulagem, atou a cola do pingo e logo riscou, escaramuçando,
na culatra dos companheiros.
E foi mesmo no meio da carga, entre gritos, juras, palavrões, tiros,
pontaços de espadas e coriscos de lanças, pechadas de cavalos,
foi nesse berzabum do entrevero que o Costinha industriou o chiru;
- Tu, sai já; vai direito lá em casa, mas não chegues.
A Talapa, depois d'amanhã, de noite, se casa, à força,
com o ilhéu… Tu, mata cavalos, boleia e monta os que precisares…
arrebenta-te, mas chega antes do casamento... Não digas a ninguém,
nem lá em casa, que me viste, nem que sabes de mim... Mas vai ao velho
Severo, mete-te lá, custe o que custar e acha jeito de dizer, que ela
ouça, que o coco verde manda novas à melancia... Ela entende.
Compreendes?... Eu sou o Coco Verde, ela é a Melancia... Só
nós sabemos isso... e tu, agora. Vai. Tu vais adiante; logo mais eu
sigo, se não morrer neste revira. Vai, Reduzo!... Coco verde... Melancia...
Não esqueças... Abaixa-te!... abai!...
E enquanto o chiru se deitava no pescoço do cavalo e uma lança
de três pontas escorregava-lhe por cima do espinhaço, o Costinha,
com um tiro de pistola derrubava um gadelhudo lanceador… e continuava
o sermão:
- Olha, não brigues… pra não perder tempo... Olha…
é depois d'amanhã... Se dormires, se comeres no caminho, não
chegas a tempo!... Sempre a meia rédea, Reduzo! Eu não posso
desertar agora... Senão, eu ia... Vou logo… amanhã. Tu,
agora!... já sabes:
Coco verde manda novas a Melancia... Diz como quem não quer.. . Só
ela entende… O que é preciso é que ela ouça...
- Acuda aquele, patrãozinho, que eu tempero estes!…
Isso disse o chiru e esporeando o flete atirou-o contra dois desalmados que
iam degolar um ferido… emborcou-os a patadas e logo gritou ao moço:
- Já sei tudo! Deus ajude! Lá le espero!...
E riscou campo fora, rumo da querência, ainda ba-tendo na boca, num
pouco caso dos castelhanos!
E bateu na marca!... Boleou e mudou cavalos alheios, pediu outros no caminho,
tomou um, à força, largou os arreios porque rebentou-se-lhe
o travessão e não tinha tempo para remendá-lo, mas com
duas braças de sol, na tarde do casamento, veio dar no velho Severo,
de em pêlo - pelego, e freio -, as boleadeiras na cintura, o facão
atravessado no cinto, e sem mais nada; moído, entransilhado, estrompado,
varado de fome, com sono, com frio, mas ainda de olho vivo e língua
pronta, contando uma rodela mui deslavada.., que vinha de casa, andava campeando
umas tambeiras... e uma vaca mocha, que não apareciam no gado manso,
havia dois dias!...
O velho Severo pasmou...
-- Uê! chiru!... Pois tu não tinhas ido com o seu Costinha?
- Eu?... Não sr., patrão! Fui só levar uns cavalos até
o meio do caminho e dei volta. Diz que lá bala é como chuva…
e lança, como roseta!... Não vê!... E dele mesmo, nem
notícia nenhuma, té agora... Vancê dá licença-
de campear os alimais?
- Deixa isso pra amanhã. Hoje estamos de festa. Fica aí, pra
tomares um copo de vinho e comer uns doces à saúde do noivado...
Vai pra o galpão...
- Sim, senhor patrão: Deus lhe pague. Eu hei de fazer uma saúde,
sim senhor...
- Pois sim, pois sim; vai!
O sorro entrou no galinheiro...
Quando apeou-se, o chiru estava de pernas duras; agüentou-se como um
tigre, pra não dormir.
Daí a pouco pegaram a jantarola. O casamento ia ser de noite, depois
da comida; depois, baile. Havia uns quantos cantadores, e violas; dava pra
dançar a tirana, o anu e a mancada na casa-grande e no terreiro.
O Reduzo foi se fazendo de sancho rengo... e foi se encostando pra janela
da sala de jantar..., e por ali foi comendo e bebendo, como soldado estradeiro,
que não se aperta...
A noiva estava como um defunto: branca, esverdeada, de olhos fundos e chorando
sem alívio; a negra, ama, atrás dela, muito retinta, só
mexia o branco dos olhos, parecia uma alma penada, do purgatório...
O ilhéu é que estava solto!...
Parecia que tinha bicho-carpinteiro, o desgraçado!...
Só estava era meio vendido com o jeito da noiva, mas fingia não
se dar por achado, o velhaco...
Um convidado levantou-se e fez uma saúde; depois outro, e outro e outro;
cada um fazia o seu verso. Havia risadas, o noivo agradecia.. . a noiva chorava.
Os convidados aplaudiam; moças também botaram versos; os rapazes
respondiam; foi se virando tudo numa alegria geral.
Nisto o capataz da estância chegou à porta e pediu licença
pra oferecer um verso à saúde do noivado, e botou uma décima
bem bonita. Outros, posteiros e agrega-dos, também.
Nesse entrementes o velho Severo perguntou:
- Que é do Reduzo? Oh! Chiru?...
- Pronto, patrão, respondeu o caboclo.
- Então?… e a saúde prometida?
- Já vai, sim senhor!
E amontoando-se para a mesa, bem junto dos que estavam sentados, frente a
frente dos noivos, olhando pra sia Talapa o chiru levantou o copo e disse:
Eu venho de lá bem longe,
Da banda do Pau Fincado:
Melancia, coco verde
Te manda muito recado!
E enquanto todos se riram e batiam palmas, enquanto o ilhéu se arreganhava
numa gargalhada gostosa, e o velho Severo, mui jocoso, gritava - gostei, chiru!
outra vez! - e enquanto se fazia uma paradita no barulho, a noiva se punha
em pé como uma mola, e com uma mão grudada no braço da
ama, já não chorava, tinha um cobreado no rosto e os olhos luziam
como duas es-trelas pretas!…
Lindaça ficou, como uma Nossa Senhora!
O Reduzo aproveitou o soflagrante e soltou outro verso:
Na polvadeira da estrada
O teu amor vem da guerra:...
Melancia desbotada!...
Coco verde está na terra!…
Amigo! Nem lhe sei contar o resto!...
A noiva atirou-se pra trás e pegou aos gritos.
A gente da mesa levantou-se toda; o mulherio correu, pra acudir...
O padre-vigário benzia pra os lados...
O ilhéu olhou para o Reduzo, viu-lhe o facão atravessado…
e tomado dum mau espírito, gritou furioso e escarlate:
- Foi esse negro, com tanta arma, que estarreceu a menina!
Um que estava perto do chiru gritou-lhe na cara:
- Que desaforo é este?...
O Reduzo - cuê-pucha! índio dente-seco! - largou-lhe os cinco
mandamentos, de em cheio!
Porém caíram-lhe em cima; foi uma desgraceira!
O ilhéu, do outro lado da mesa sampou-lhe com uma botija de bebida,
que acertou bem entre o queixo e o ouvido do chiru...
Fechou o salseiro, nem se sabia bem com quem.
Nessa inferneira o Reduzo mergulhou por baixo da mesa e quando surdiu, foi
para arriar o braço, dar uma volta na traira e reiunar o ilhéu…
E antes que o picassem - que o picavam! - pulou por uma janela e se foi ao
galpão onde montou no primeiro matungo que encontrou e abriu os panos!…
O resto é simples.
Passados dois dias chegava o Costinha, como bagual com couro na cola; e apresentou-se
ao velho Severo, pedindo a mão da moça, O velho teve de desembuchar,
contar o compromisso em que estava e que até havia se demorado o casamento
por causa dum estropício mui bruto, que tinha havido,.. O Costinha
não quis saber de nada… armou banzé...; veio a moça
à fala...
Vancê imagina: rebentou o laço pra mais de quatro...
Pra não afrontar o velho Severo, o Reduzo teve de andar escondido.
Tempos depois do Costinha já casado, então o chiru tomou conta
dum posto; depois passou a capataz.
Era o confiança da casa.
Veja vancê que artes de namorados: Melancia… Coco-verde!…
- Foi depois da batalha de Ituzaingo, no passo do Rosário, pra lá
de São Gabriel, do outro lado do banhado de Inhatium. Vancê não
sabe o que é inhatium?
Ë mosquito: bem posto nome!
Banhado de Inhatium. .. Virge' Nossa Senhora!... mosquito, aí, fumaceia,
no ar!
Eu era gurizote: teria, o muito, uns dez anos; e andava na companha do meu
padrinho, que era capitão, para carregar os peçuelos e os avios
do chimarrão.
As cousas da peleia não sei, porque era menino e não guardava
as conversas dos grandes; o que eu queria era haraganear; mas, se bem me lembro,
o meu padrinho dizia que nós estávamos mal acampados, e estransilhados,
pensando culatrear o inimigo, mas que este é que nos estava nos garrões;
não havia bombeiros nem ordem, que o exército vinha num berzabum,
e que o general que mandava tudo, que era um tal Barbacena, não passava
de um presilha, que por andar um dia a cavalo já tinha que tomar banhos
de salmoura e esfregar as assaduras com sebo...
O meu padrinho era um gaúcho mui sorro e acostumado na guerra, desde
o tempo das Missões, e que mesmo dormindo estava com meio ouvido, escutando,
e meio olho, vendo...; mesmo ressonando não desgrudava pelo menos dois
dedos dos copos da serpentina...
Num escurecer, enquanto pelo acampamento os soldados carneavam e outros tocavam
viola e cantavam, ou dormiam ou chalravam, o que sei é que nesse escurecer
o meu padrinho mandou pegar os nossos cavalos; e encilhamos até a cincha;
e depois nos deitamos nos pelegos, com os pingos pela rédea, maneados:
ele, armado, mateando; eu, enroscadito no meu bichará, e o ordenança,
que era um chiru ombrudo, chamado Hilarião, pitando.
Eu, como criança, peguei logo a cochilar.
Amigo! Vancê creia: o coração às vezes, trepa,
dentro da gente, o mesmo que jaguatirica por uma árvore acima!...
Lá pelas tantas, ouviu-se cornetas e clarins e rufos de caixa...; mas
o som dos toques andava ainda galo-peando dentro do silêncio da noite
quando desabou em cima de nós a castelhanada, a gritos, e já
nos foi fumegando bala e bala!...
Numa arrancada dessas é que o coração trepa, dentro da
gente, como gato...
- Desmaneia e monta! gritou o meu padrinho; ele que falava, eu e o chiru que
já estávamos enforquilhados nas ganas.
E por entre as barracas e ramadas; por entre os fogões meio apagados,
onde ainda havia fincados espetos com restos de churrascos; por entre as carretas
e as pontas de bois mansos e lotes de reiúnos; no fusco-fusco da madrugada,
com uma cerraçãozita o quanto-quanto; por entre toques e ordens
e chamados, e a choradeira do chinaredo e o vozerio do comércio, já
no cheiro da pólvora e em cima dos primeiros feridos, formou-se o entrevero
dos atacantes e dos dormilões.
E cantou o ferro… e choveu bala!...
O meu padrinho levantou na rédea o azulego: e de espada em punho, o
chiru, com uma lança de meia-lua - e eu entre os dois, enroscadito
no meu bichará - nos botamos ao grosso do redemoinho, para abrir caminho
para o quartel-general do dito Barbacena.
Como lá chegamos, não sei.
A espada do meu padrinho estava torcida como um cipó, e vermelha, e
o azulego tinha uns quantos lanhos na anca; o Hilarião tinha um corte
de cima a baixo da japona, e eu levei um lançaço, que por sorte
pegou no malote do poncho.
Mas, varamos.
No quartel do Barbacena ninguém se entendia.
A oficialada espumava, de raiva, e um cutuba, baixote, já velho, botava
e tirava o boné e metia as unhas na calva, furioso, de ralar sangue!...
Esse, era um tal general Abreu... um tal general José de Abreu, valente
como as armas, guapo como um leão… que a gauchada daquele tempo
- e que era torenada macota! - bautizou e chamava de - Anjo da Vitória!
Esse, o cavalo dele não dava de rédea para trás, não!
Esse, quando havia fome, apertava o cinto, com os outros e ria-se!
Esse, dormia como quero-quero, farejava como cervo e rastreava como índio...;
esse, quando carregava, era como um ventarrão, abrindo claros num matagal.
Com esse.. . castelhano se desguaritava por essas coxilhas o mesmo que bandada
de nhandu, corrida a ti-ro de bolas!...
Era o Anjo da Vitória, esse!
Daí a pouco apareceu um outro oficial, mocetão bonito, que
era major. Este chamava-se Bento Gonçalves, que depois foi meu general,
nos Farrapos.
Os dois se conversaram, apalavraram os outros e tu-do montou e tocou pra rumos
diferentes.
No acampamento estrondeava a briga.
Já tinha amanhecido.
Eu andava colado ao meu padrinho, como carrapato em costela de novilho. Por
onde ele andou, andei eu; passou, passei; carregava, eu carregava; fazia cara-volta,
eu também.
Naquelas correrias, o meu bicharazito, às vezes, enchia-se de vento,
e voava, batia aberto, que nem uma bandeira-cinzenta...
O major Bento Gonçalves formando a cavalaria, agüentava como um
taura as cargas do inimigo, para ir entretendo, e dar tempo à nossa
gente de quadrar-se, unida.
Os castelhanos, mui ardilosos, logo que aquentou o sol tocaram fogo nos macegais
onde estava o carretame; o vento ajudou, e enquanto eles carcheavam a seu
gosto, uma fumaça braba tapou tudo, do nosso lado!...
Então o general Abreu no alto do coxilhão formou os seus esquadrões:
o meu padrinho comandava um deles.
Formou, fez uma fala à gente e carregou, ele, na frente, montado num
tordilho salino, ressolhador.
Oh! velho temerário! Firme nos estribos, com o boné levantado
sobre o cocuruto da cabeça, a espada apontando como um dedo, faiscando,
o velhito ponteou aquela tormenta, que se despenhou pelo lançante abaixo
e afundou-se e entranhou-se na massa cerrada do inimigo, como uma cunha de
nhanduvai abrindo em dois um moirão grosso de guajuvira... E deixando
uma estiva de estrom-pados, de mortos, de atarantados, de feridos e de morrentes
- como quando rufa um rodeio xucro... vancê já viu? - varou para
o outro lado, mandou fazer -alto, cara-volta! - e mal que reformou os esquadrões,
os homens chalrando e rindo, a cavalhada, de venta aberta, bufando ao faro
do sangue e trocando orelha, pelo ala-rido, o velho já se bancou outra
vez na testa, gritou -Viva o Imperador! - e mandou - Carrega!
E a tormenta da valentia rolou, outra vez, sobre o campo.
Mas nesta hora maldita, a fumaça maldita nos rodeava e cegava; e mal
íamos dando lance à carga - eu, folheirito, abanando no mais
o meu bichará pra o Hilarião - rebentou na vanguarda e num flanco
a fuzilaria, e vieram as baionetas... e uma colubrina, que nos tiroteavam-
donde não podia ser!...
A nossa cavalaria se enrodilhou toda, fazendo uma enrascada de mil diabos…
e enquanto o tiroteio nos estraçalhava, que os ginetes e os cavalos
caíam, varados, e que, por fim, os próprios esquadrões
já iam rusgando uns com os outros - aí, amigo, andei eu às
pechadas!-enquanto isso... veio uma rajada forte de vento, que varreu a fumaça,
limpou a vista de todos e mostrou que era a nossa infantaria que nos tinha
feito aquela desgraça...
Então, por cima dos mortos e dos feridos houve um silêncio grande, de raiva e de pena… como de quem pede perdão, calado… ou de quem chora de saudade, baixinho...
Lá longe, os castelhanos, enganados, tocaram a re-tirada. O nosso
quartel-general também tocou a retirada.
Pegou a debandada; dispersava-se a gente por todos os lados, aos punhados,
botando fora as pederneiras, as patronas; muitos sotretas fugiram de cambulhada
com o chinerio...
Metades de batalhões arrinconavam-se, outras encordoavam marcha.
Os ajudantes galopavam conduzindo ordens… mas parecia que toda a força
ia fugindo duma batalha perdida, que não era, porque tudo aquilo era
da indisciplina, somentes.
O Anjo da Vitória lá ficou, onde era a frente dos seus esquadrões,
crivado de balas, morto, e ainda segurando a espada, agora quebrada.
Campeei o meu padrinho: morto, também, caído ao lado do azulego,
arrebentado nas paletas por um tiro de peça; ali junto, apertando ainda
a lança, toda lascada, estrebuchava o Hilarião, sem dar acordo,
aiando, só aiando...
Deitado sobre o pescoço do cavalo, comecei a chorar.
Peguei a chamar:
- Padrinho! padrinho!...
- Hilarião! Meu padrinho!...
Apeei-me, vim me chegando e chamando - padrinho!… padrinho!… e
tomei-lhe a bênção, na mão, já fria…;
puxei na manga do chiru, que já nem bulia...
Sem querer fiquei vendo as forças que iam-se mo-vendo e se distanciando..,
e num tirão, quando ia montar de novo, sem saber pra quê... foi
que vi que estava sozinho, abandonado, gaudério e gaúcho, sem
ninguém pra me cuidar!...
Foi então, que, sem saber como, já de a cavalo, enquanto sem
eu sentir as lágrimas caíam-me e rolavam sobre o bichará,
os olhos se me plantaram sobre o tordilho salino... sobre o coto da espada...
sobre um boné galoado...
E o cabelo me cresceu e fiquei de choro parado...e ouvi, patentemente, ouvi
bem ouvido, o velho macota, o Anjo da Vitória, morto como estava, gritar
ainda e forte
- Viva o Imperador! Carrega!
O meu bicharazito se empantufou de vento, desdobrou-se, batendo como umas
asas... o mancarrão bufou, recuando, assustado… e quando dei
por mim, andava enancado num lote de fujões...
Comi do ruim... Vê vancê que eu era guri e já corria mundo...
- Batia nos noventa anos o corpo magro mas sempre teso do Jango Jorge, um
que foi capitão duma maloca de contrabandistas que fez cancha nos banhados
do Ibirocaí.
Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira a cruzar
os campos da fronteira: à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão
das noites, na cerração das madrugadas...; ainda que chovesse
reiúnos acolherados ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou
vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada!...
Conhecia as querências, pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo
florescido, lá o dos trevais, o das guabirobas rasteiras, do capim-limão;
pelo ouvido: aqui, cancha de graxains, lá os pastos que ensurdecem
ou estalam no casco do cavalo; adiante, o chape-chape, noutro ponto, o areão.
Até pelo gosto ele dizia a parada, porque sabia onde estavam águas
salobres e águas leves, com sabor de barro ou sabendo a limo.
Tinha vindo das guerras do outro tempo; foi um dos que peleou na batalha de
Ituzaingo; foi do esquadrão do general José de Abreu. E sempre
que falava no Anjo da Vitória ainda tirava o chapéu, numa braçada
larga, como se cumprimentasse alguém de muito respeito, numa distância
muito longe.
Foi sempre um gaúcho quebralhão, e despilchado sempre, por
ser muito de mãos abertas.
Se numa mesa de primeira ganhava uma ponchada de balastracas, reunia a gurizada
da casa, fazia - pi! pi! pi! pi! - como pra galinhas e semeava as moedas,
rindo-se do formigueiro que a miuçalha formava, catando as pratas no
terreiro.
Gostava de sentar um laçaço num cachorro, mas desses laçaços
de apanhar da paleta à virilha, e puxado a valer, tanto, que o bicho
que o tomava, ficando entupido de dor, e lombeando-se, depois de disparar
um pouco é que gritava, num - caim! caim! caim! - de desespero.
Outras vezes dava-me para armar uma jantarola, e sobre o fim do festo, quando
já estava tudo meio entropigaitado, puxava por uma ponta da toalha
e lá vinha, de tirão seco, toda a traquitanda dos pratos e copos
e garrafas e restos de comidas e caldas dos doces!…
Depois garganteava a chuspa e largava as onças pras unhas do bolicheiro,
que aproveitava o vento e le echaba cuentas de gran capitán...
Era um pagodista!
Aqui há poucos anos - coitado! - pousei no arranchamento dele. Casado
ou doutro jeito, estava afamilhado. Não nos víamos desde muito
tempo.
A dona da casa era uma mulher mocetona ainda, bem parecida e mui prazenteira;
de filhos, uns três matalotes já emplumados e uma mocinha - pro
caso, uma moça -, que era o - santo-antoninho-onde-te-porei! - daquela
gente toda.
E era mesmo uma formosura; e prendada, mui habilidosa; tinha andado na escola
e sabia botar os vestidos esquisitos das cidadãs da vila.
E noiva, casadeira, já era.
E deu o caso, que quando eu pousei, foi justo pelas vésperas do casamento;
estavam esperando o noivo e o resto do enxoval dela.
O noivo chegou no outro dia; grande alegria; começaram os aprontamentos,
e como me convidaram com gosto, fiquei pro festo.
O Jango Jorge saiu na madrugada seguinte, para ir buscar o tal enxoval da
filha.
Aonde, não sei; parecia-me que aquilo devia ser feito em casa, à
moda antiga, mas, como cada um manda no que é seu...
Fiquei verdeando, à espera, e fui dando um ajutório na matança
dos leitões e no tiramento dos assados com couro.
Nesta terra do Rio Grande sempre se contrabandeou, desde em antes da tomada
das Missões.
Naqueles tempos o que se fazia era sem malícia, e mais por divertir
e acoquinar as guardas do inimigo:
uma partida de guascas montava a cavalo, entrava na Banda Oriental e arrebanhava
uma ponta grande de eguariços, abanava o poncho e vinha a meia rédea;
apartava-se a potrada e largava-se o resto; os de lá faziam conosco
a mesma cousa; depois era com gados, que se tocava a trote e galope, abandonando
os assoleados.
Isto se fazia por despique dos espanhóis e eles se pagavam desquitando-se
do mesmo jeito.
Só se cuidava de negacear as guardas do Cerro Lar-go, em Santa Tecla,
do Haedo... O mais, era várzea!
Depois veio a guerra das Missões; o governo começou a dar sesmarias
e uns quantíssimos pesados foram-se arranchando por essas campanhas
desertas. E cada um tinha que ser um rei pequeno... e agüentar-se com
as balas, as lunares e os chifarotes que tinha em casa!...
Foi o tempo do manda-quem-pode!... E foi o tempo que o gaúcho, o seu
cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam estes pagos!.
Quem governava aqui o continente era um chefe que se chamava o capitão-general;
ele dava as sesmarias mas não garantia o pelego dos sesmeiros…
Vancê tome tenência e vá vendo como as cousas, por si mesmas,
se explicam.
Naquela era, a pólvora era do el-rei nosso senhor e só por sua
licença é que algum particular graúdo podia ter em casa
um polvarim...
Também só na vila de Porto Alegre é que havia ba-ralho
de jogar, que eram feitos só na fábrica do rei nosso senhor,
e havia fiscal, sim senhor, das cartas de jogar, e ninguém podia comprar
senão dessas!
Por esses tempos antigos também o tal rei nosso senhor mandou botar
pra fora os ourives da vila do Rio Grande e acabar com os lavrantes e prendistas
dos outros lugares desta terra, só pra dar flux aos reinóis...
Agora imagine vancê se a gente lá de dentro podia andar com tantas
etiquetas e pedindo louvado pra se defender, pra se divertir e pra 1uxar!...
O tal rei nosso senhor, não se enxergava, mesmo!...
E logo com quem!... Com a gauchada!...
Vai então, os estancieiros iam em pessoa ou mandavam ao outro lado,
nos espanhóis, buscar pólvora e balas, pras pederneiras, cartas
de jogo e prendas de ouro pras mulheres e preparos de prata pros arreios…
e ninguém pagava dízimos dessas cousas.
Às vezes lá voava pelos ares um cargueiro, com cangalhas e tudo,
numa explosão da pólvora; doutras uma partida de milicianos
saia de atravessado e tomava conta de tudo, a couce d'arma: isto foi ensinando
a escaramuçar com os golas-de-couro.
Nesse serviço foram-se aficionando alguns gaúchos: recebiam
as encomendas e pra aproveitar a monção e não ir com
os cargueiros debalde, levavam baeta, que vinha do reino, e fumo em corda,
que vinha da Baía, e algum porrão de canha. E faziam trocas,
de elas por elas, quase.
Os paisanos das duas terras brigavam, mas os mercadores sempre se entendiam...
Isto veio mais ou menos assim até a guerra dos Farrapos; depois vieram
as califórnias do Chico Pedro; depois a guerra do Rosas.
Aí inundou-se a fronteira da província de espanhóis e
gringos emigrados.
A cousa então mudou de figura. A estrangeirada era mitrada, na regra,
e foi quem ensinou a gente de cá a mergulhar e ficar de cabeça
enxuta...; entrou nos homens a sedução de ganhar barato: bastava
ser campeiro e destorcido. Depois, andava-se empandilhado, bem armado; podia-se
às vezes dar um vareio nos milicos, ajustar contas com algum devedor
de desaforos, aporrear algum subdelegado abelhudo...
Não se lidava com papéis nem contas de cousas: era só
levantar os volumes, encangalhar, tocar e entregar!...
Quanta gauchagem leviana aparecia, encostava-se.
Rompeu a guerra do Paraguai.
O dinheiro do Brasil ficou muito caro: uma onça de ouro, que corria
por trinta e dois, chegou a valer quarenta e seis mil réis!... Imagine
o que a estrangeirada bolou nas contas!...
Começou-se a cargueirear de um tudo: panos, águas de cheiro,
armas, minigâncias, remédios, o diabo a quatro!... Era só
pedir por boca!
Apareceram também os mascates de campanha, com baús encangalhados
e canastras, que passavam pra lá vazios e voltavam cheios, desovar
aqui…
Polícia pouca, fronteira aberta, direitos de levar couro e cabelo e
nas coletarias umas papeladas cheias de benzeduras e rabioscas…
Ora… ora!... Passar bem, paisano!... A semente grelou e está a árvore ramalhuda, que vancê sabe, do contrabando de hoje.
O Jango Jorge foi maioral nesses estropícios. Desde moço. Até
a hora da morte. Eu vi.
Como disse, na madrugada vésp'ra do casamento o Jango Jorge saiu para
ir buscar o enxoval da filha.
Passou o dia; passou a noite.
No outro dia, que era o do casamento, até de tarde, nada.
Havia na casa uma gentama convidada; da vila, vizinhos, os padrinhos, autoridades,
moçada. Havia de se dançar três dias!... Corria o amargo
e copinhos de licor de butiá.
Roncavam cordeonas no fogão, violas na ramada, uma caixa de música
na sala.
Quase ao entrar do sol a mesa estava posta, vergando ao peso dos pratos enfeitados.
A dona da casa, por certo traquejada nessas bolandinas do marido, estava sossegada,
ao menos ao parecer.
Às vezes mandava um dos filhos ver se o pai aparecia, na volta da estrada,
encoberta por uma restinga fechada de arvoredo.
Surdiu dum quarto o noivo, todo no trinque, de colarinho duro e casaco de
rabo. Houve caçoadas, ditérios, elogios.
Só faltava a noiva; mas essa não podia aparecer, por falta do
seu vestido branco, dos seus sapatos brancos, do seu véu branco, das
suas flores de laranjeira, que o pai fora buscar e ainda não trouxera.
As moças riam-se; as senhoras velhas cochichavam.
Entardeceu.
Nisto correu voz que a noiva estava chorando: fizemos uma algazarra e ela
- tão boazinha! - veio à porta do quarto, bem penteada, ainda
num vestidinho de chita de andar em casa, e pôs-se a rir pra nós,
pra mostrar que estava contente.
A rir, sim, rindo na boca, mas também a chorar lágrimas grandes,
que rolavam devagar dos olhos pestanudos...
E rindo e chorando estava, sem saber porque... sem saber porquê, rindo
e chorando, quando alguém gritou do terreiro:
- Aí vem o Jango Jorge, com mais gente!...
Foi um vozerio geral; a moça porém ficou, como es-tava, no quadro
da porta, rindo e chorando, cada vez me-nos sem saber porquê... pois
o pai estava chegando e o seu vestido branco, o seu véu, as suas flores
de noiva...
Era já fusco-fusco. Pegaram a acender as luzes.
E nesse mesmo tempo parava no terreiro a comitiva; mas num silêncio,
tudo.
E o mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os olhos.
Então vimos os da comitiva descerem de um cavalo o corpo entregue de
um homem, ainda de pala enfiado...
Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada; todos entenderam
tudo...; que a festa estava acabada e a tristeza começada...
Levou-se o corpo pra sala da mesa, para o sofá enjeitado, que ia ser
o trono dos noivos. Então um dos chegados disse:
- A guarda nos deu em cima... tomou os cargueiros... E mataram o capitão,
porque ele avançou sozinho pra mula ponteira e suspendeu um pacote
que vinha solto... e ainda o amarrou no corpo... Aí foi que o crivaram
de bala.... parado... Os ordinários!... Tive-mos que brigar, pra tomar
o corpo!
A sia-dona mãe da noiva levantou o balandrau do Jango Jorge e desamarrou
o embrulho; e abriu-o.
Era o vestido branco da filha, os sapatos brancos, o véu branco, as
flores de laranjeira...
Tudo numa plastada de sangue... tudo manchado de vermelho, toda a alvura daquelas
cousas bonitas como que bordada de cobrado, num padrão esquisito, de
feitios estrambólicos... como flores de cardo solferim esmaga-das a
casco de bagual!...
Então rompeu o choro na casa toda.