- Pois olhe: eu já vi jogar-se uma mulher num tira de taba. Foi uma
parada que custou vida… mas foi jogada!
Um pouco pra fora da Vila, na volta da estrada, metida na sombra dumas figueiras
velhas ficava a vendola do Arranhão; era um bochinche mui arrebentado,
e o dono era um sujeito alarifaço, cá pra mim, desertor, meio
espanhol meio gringo, mas mui jeitoso para qualquer arreglo que cheirasse
à plata...
Mui destravado da língua e ao mesmo tempo rezador, sempre se santiguando
e olhando por baixo, como porco, tudo pra ele era negócio: comprava
roubos, trocava cousas, emprestava pra jogo, com usura, e sempre se atrapalhava
para menos, no troco dos pagamentos.
Às vezes armava umas carreiritas, que se corriam numa cancha dumas
três quadras que ele mesmo tinha arranjado a um lado do potreiro; então
conchavava algum gringo tocador de realejo e estava preparado o diverti-mento.
O que ele queria era gente, peonada, andantes, vagabundos, carreteiros, para
poder vender canha e comida e doces; e de noite facilitava umas mesas de primeira,
de truco ou de sete-em-porta para tirar o cafife. Doutras ocasiões
ajeitava umas dançarolas que alvorotavam o chinaredo da vizinhança.
Por este pano de amostra vancê vê o que seria aquele gavião.
Duma vez que ele tinha trançado umas carreiras, com duas ou três
pencas de patacão, e se havia ajuntado algum povo, tudo gauchada leviana,
choveu.
A chuvarada estragou a cancha, molhou as carpetas, atrapalhou tudo.
E a gente foi ganhando na venda, apinhoscou-se por debaixo das figueiras e
no galpão.
Quando passou o aguaceiro e oriou o terreiro, deram alguns aficionados para
jogar o osso.
Vancê sabe como é que se joga o osso?
Ansim:
Escolhe-se um chão parelho, nem duro, que faz saltar, nem mole, que
acama, nem areento, que enterra o osso.
É sobre o firme macio, que convém. A cancha com uma braça
de largura, chega, e três de comprimento; no meio bota-se uma raia de
piola, amarrada em duas estaquinhas ou mesmo um risco no chão, serve;
de cada cabeça da cancha é que o jogador atira, sobre a raia
do centro: este atira daqui pra lá, o outro atira de lá pra
cá.
O osso é a taba, que é o osso do garrão da rês
vacum. O jogo é só de culo ou suerte.
Culo é quando a taba cai com o lado arredondado pra baixo: quem atira
assim perde logo a parada. Suerte é quando o lado chato fica embaixo:
ganha logo e sempre.
Quer dizer: quem atira culo perde, se é suerte ganha e logo arrasta
a parada.
Ao lado da raia do meio fica o coimeiro que é o sujeito depositário
da parada e que a entrega logo ao ganhador. O coimeiro também é
que tira o barato - para o pulpeiro. Quase sempre é algum aldragante
velho e sem-vergonha, dizedor de graças.
E um jogo brabo, pois não é?
Pois há gente que se amarra o dia inteiro nessa cachaça, e parada
a parada envida tudo: os bolivianos, os arreios, o cavalo, o poncho, as esporas.
O facão nem a pistola, isso, sim, nenhum aficionado joga; os fala-verdade
é que têm de garantir a retirada do perdedor sem debocheira dos
ganhadores... e, cuidado… muito cuidado com o gaúcho que saiu
da cancha do osso de marca quente!...
Pois dessa feita se acolheraram a jogar a taba o Osoro e o Chico Ruivo.
O Osoro era um moreno mui milongueiro, compositor de parelheiros e meio aruá;
andava sempre metido pelos ranchos contando histórias às mulheres
e tomando mate de parceria com elas.
O Chico era domador e morava de agregado num rincão da estância
das Palmas; e vivia com uma piguancha bem jeitosa, chamada Lalica.
Nesse dia Unha vindo com ela ao festo do Arranhão. Enquanto os dois
jogavam, a morocha andava lá por dentro, com as outras, saracoteando.
Havia violas; havia tocadores; a farra ia indo quente. E os dois, jogando.
O Chico perdia uma em cima da outra.
- Culo! Outra vez?... Má raios!...
- Suerte, chê! Ganhei! repetia o Osoro.
- Jogo-te o tostado, aperado, valeu? Topo!
E culo!... Isto é mau olhado dalgum roncolho mirone!...
E relanceou os olhos pelos vedores, esperando que algum comprasse a camorra;
ninguém se picou.
- Jogo o teu ruano contra as duas tambeiras da Lalica!
- E pouco, Chico!... Ainda se fosse a dona!...
- Osoro, não brinca!... Pois olha; jogo!
- O ruano?
- O mano contra a Lalica! Assim como assim, esta china já está
me enfarando!...
- Pois topo!
Os mirones se entreolharam, boquejando, alguns; eles bem viam que o gaúcho
estava sem liga, que já tinha perdido tudo, o dinheiro, o cavalo, as
botas, um rebenque com argolão de prata; e agora, o outro, o Osoro,
para completar o carcheio, ainda tinha topado a última parada, que
era a china...
A cousa ia ser tirana; correu logo voz; em roda dos dois amontoou-se a gente.
O Osoro atirou, e deu suerte...
O Ruivo atirou, e deu suerte...
- Ora, não deu gosto! disse um.
- Outra mão! disse o outro.
E o Ruivo atirou: culo!
O Osoro atirou: suerte!
- Ganhei, aparceiro!
- Pois toma conta, ermâo!
- Tu é que tens de fazer a entrega...
- Não tem veremos... Trato é trato!...
Já ia querendo anoitecer.
O que se passou entre aquelas três criaturas, não sei; se juntaram
num canto do balcão da venda e fala-ram. Por certo que o Chico Ruivo
disse à china que a jogara numa parada de taba; o Osoro só disse
uma vez:
- Eu, se perdesse o ruano, o Chico já ia daqui montado nele...
A Lalica deu uma risadinha amarela; olhou o Osoro, olhou o Chico Ruivo, cuspiu
de nojo e disse pra este, na cara:
- Sempre és muito baixo!..., guampudo, por gosto!...
- Olha, guincha, que te grudo as chilenas!...
- Ixe! Este, agora, é que me encilha, retalhado!...
Nisto um violeiro pegou a rufar uma dança chorada; umas parelhas pegaram
a se menear no compasso da música e logo o Osoro, para cortar aquele
aperto, travou do pulso da morocha, passou-lhe o braço na cinta e quase
levantando-a no ar entrou na roda dos dançadores; o Ruivo ficou quieto,
mas de goela seca e nos olhos com uma luz diferente.
Na primeira volta, quando o par passou por ele, a china ia dizendo mui derretida:
- Quando quiseres, meu negro...
Na segunda volta, como num despique, ela tornou a boquejar pro Osoro:
- Eu vou na tua garupa...
E na outra, a china vinha calada, mas com a cabeça deitada no peito
do par, olhando terneira pra ele, com uma luz de riso, os beiços encolhidos,
como armando uma promessa de boquinha; e o Osoro se esqueceu do mundo…
e colou na boca da tentação um beijo gordo, demorado, cheio
de desaforo...
O Chico Ruivo teve um estremeção e deu um urro entupido, arrancou
do facão e atirou o braço pra diante, numa cegueira de raiva,
que só enxerga bem o que quer matar...
E vai, como pegou o Osoro pela esquerda, do lado, meio por detrás,
por debaixo da paleta, o facão saiu no rumo certo e foi bandear a Lalica
meio de lado, sobre a esquerda da frente.
Vancê compr'ende? Do mesmo talho varou os dois corações,
espetou-os no mesmo feno, matou-os da mesma morte, fazendo os dois sangues,
num de cada peito, correrem juntos num só derrame... que foi lastrando
pelo chão duro, de cupim socado, lastrando... até os dois corpos
baterem na parede, sempre abraçados, talvez mais abraçados,
e depois tombarem por cima do balcão, onde estava encostado o tocador,
que parou um rasgado bonito e ficou olhando fixe para aquela parelha de dançarmos
morrentes e farristas ainda!...
Levantou-se uma berraçada.
- Matou! Foi o Chico Ruivo!... Amarra! Cerca!...
Mas o Ruivo parece que voltou a si; coriscou o facão aos dois lados
e atropelou a porta, ganhou o terreiro e se foi ao palanque onde estava o
ruano do Osoro: montou e gritou pra os que ficavam:
- Siga o baile!...
E deu de rédea, no escuro da noite.
O Arranhão acudiu ao berzabum; aquele safado, curtido na ciganagem,
só soube dizer:
- Pois é... jogaram o osso, armaram a sua paranda... mas nenhum pagou
nada ao coimeiro!... Que trastes!...
Já um ror de vezes tenho dito - e provo - que fui ordenança
do meu general Bento Gonçalves.
Este caso que vou contar pegou o começo no fim de 42, no Alegrete e
foi acabar num 27 de fevereiro, daí dois anos, nas pontas do Sarandi,
pras bandas e já pertinho de Santana.
Foi assim. Tenho que contar pelo miúdo, pra se entender bem. Em agosto
de 42, o general, que era o presidente da República Rio-Grandense -
vancê desculpe… estou velho, mas inté hoje, quando falo
na República dos Farrapos, tiro o meu chapéu!... - o general
fez um papel, que chamavam-lhe - decreto - mandando ordens pr'uma eleição
grande, para deputados; estes tais é que iam combinar as leis novas
e cuidar de outras cousas que andavam meio à matroca, por causa da
guerra.
Em setembro houve a eleição; em outubro já se sabia quem
eram os macotas votados, que eram quase todos os torenas que andavam na coxilha.
O jornal do governo deu uma relação deles e dos votos que tiveram,
que eu sabia, mas já esqueci.
Por sinal que esse jornal chamava-se - Americano - e tinha na frente um versinho
que saía sempre escrito e publicado e que era assim, se bem me lembro:
"Pela Pátria viver, morrer por ela;
Guerra fazer ao despotismo insano;
A virtude seguir, calcar o vício;
Eis o dever de um livre Americano".
Em novembro, os deputados, que eram trinta e seis, mas que só se apresentaram
vinte e dois, juntaram-se em assembléia; em dezembro, logo no dia um,
foi então a cerimônia principal.
O general foi em pessoa, como presidente, com a ministrada, os comandantes
de corpos e outros topetudos, e aí fez uma - Fala - muito sisuda e
compassada, que todos escuitaram quietos, só sacudindo a cabeça,
como quem dizia que era mesmo como o general estava lendo no escrito.
Uê!... e que pensa vancê?... Estava tudo na estica, sim senhor:
fardas novas, bainhas de espada, alumiando; redingotes verdes ou azuis com
botões amarelos, padres com as suas batinas saidinhas; um estadão!
E famílias, muita moçada fachuda, povaréu, e até
uma música. Eu e o outro ordenança, os dois, mui anchos, de
gandola cobrada.
Por esse entrementes, no Estado Oriental, andava gangolina grossa entre Oribe
e Rivera, que eram os dois que queriam o penacho de manda-tudo. Volta e meia
as partidas deles se pechavam e sempre havia entrevero.
Ah! se vancê visse a indiada daquele tempo… cada gadelhudo...
Ah! bom!...
Mas, como quera, onde se encontrasse, a nossa gente entropilhava-se bem com
a deles. E mesmo era ordem dos sup'riores.
Quando íamos mal da vida, já pelas caronas, nos bandeávamos
para o outro lado da linha; lá se churrasqueava, fazia-se uma volteada
de potrada e voltávamos à carga, folheiritos no mais!
O barão Caxias, que era o maioral dos caramurus, mordia-se com estas
gauchadas.
Mas tanto Oribe como Rivera nos codilhavam quando podiam, porquanto faziam
também suas fosquinhas aos legais... apertavam o laço pra nós,
mas afrouxavam a ilhapa pra eles...
Vancê entende?... Pau de dois bicos!...
- Mas, vá vancê escuitando.
Rabo-de-saia é sempre precipício pros homens...
Não vá vancê cuidar que no caso andou mulher botando fungu
no coração de ninguém, não, senhor; a cousa foi
muito outra, de alrifage…
Naquele novembro de 42, quando os deputados foram-se ajuntando, de um a um,
vindos de todos os rumos da província da República e havia na
vila do Alegrete movimento de comitivas e piquetes, um dia, já à
boquinha da noite, chegou uma carreta de campanha, mui bem toldada, com boiada
gorda, e escoltada por um acompanhamento grande, de gente bem montada e armada.
Chegou o combói e parou em meio da praça; e logo o que vinha
de vaqueano cortou-se e foi apresentar o passe e outros papéis; e foi
dizendo que a pessoa que vinha na caneta era uma senhora-dona viúva,
que trazia ofício pra o governo e que era sobre uns gados que ha-viam
sido arrebanhados e cavalhadas, e prejuízos e tal, e mais uma conversa
por este teor e com mais voltas que um laço grande enrodilhado...
Foi isso o que correu logo no redepente da curiosidade.
Papéis foram que a tal dona trazia, que logo o general mandou chamar
os deputados e os ministros e de-pois se trancaram todos numa sala grande;
e depois despachou um capitão para ir buscar a figurona.
E ela veio; e mal que chegou o general veio à porta, fez um rapapé
rasgado e foi com ela pra tal sala onde estavam os outros.
Se era linda a beldade!... Sim, senhor, dum gaúcho de gosto alçar
na garupa e depois jurar que era Deus na terra!.
E destorcida, e bem-falante; e olhava pra gente, como o sol olha pra água:
atravessando!
Dentro da sala, fechada, ia um vozerio dos homens; depois serenava; parece
que eles estavam mussitando; e a voz da dona repenicava, hablando un castellano
de mi flor!
Lá pelas tantas levantaram o ajuntamento; o mesmo capitão foi
levar a dona. E de manhã, nem carreta, nem boiada nem comitiva apareceram
mais.
Depois é que vim ao conhecimento que aquela figurona tinha vindo de
emissária.
Rivera era mais valente; Oribe era mais sorro: mas, os dois, matreiraços!...
Agora, qual dos dois, pra disfarçar dos caramurus o chasque, mandou,
em vez dum homem, aquela vivaracha, qual dos dois foi, não pude sondar.
Era assunto encapotado...
Depois desse dia começou a haver um zunzum mui manhoso contra o general.
Não sei se era inveja, ou intrigas ou queixas ou ganas que alguns lhe
tinham. As cousas foram-se parando embrulhadas na tal assembléia e
uma feita, não sei por que chicos pleitos o general e o coronel Onofre
Pires tiveram um desaguisado; o general deu as costas, num pouco caso e o
coronel saiu, num rompante, batendo forte os saltos dos botins.
Em 43 houve outra arrancada braba, foi quando ma-taram um Paulino Fontoura,
que era um pesado. Houve outro bate-barbas entre o general e o coronel Onofre,
que era mui esquentado e cosquilhoso.
Mas logo os chefes todos se desparramaram, porque o barão Caxias andava
na estrada, levantando polvadeira.
E brigou-se!
Em S. Gabriel, na Vacaria, em Ponche Verde, no Rincão dos Touros. O
governo tinha saído do Alegrete e estava outra vez em Piratinim; aí
por perto peleou-se, e no Arroio Grande, em Jaguarão, nas Missões,
sobre o Quaraim, em Canguçu, em Pai Passo.
Que ano que bebeu sangue, esse!
E quando o exército se amontoou todo, pra lá do Ibicuí
e depois foi estendendo marcha, houve um cone-lho grande de oficiais; e aí
se falou outra vez na emissária, a fulana, aquela da carreta, no Alegrete.
Aí, então, os dois galões-largos se contrapontearam outra
vez.
A gente como eu é bicho bruto e os graúdos não dão
confiança de explicar as cousas, por isso é que eu não
sei muitas delas: tenência não me faltava; mas co-mo é
que eu ia saber as de adentro dos segredos?...
Já sobre o Garupá - vancê não conhece? são
os campos mais bonitos do mundo! - aí os homens se cartearam.
Então já era o ano 44.
O coronel escreveu barbaridades; o general respondeu com aquele jeito dele,
sisudo.
E quando foi no dia 27 de fevereiro o general me chamou e mandou que eu fosse
levando pela rédea, para a restinga, os dois cavalos que estavam atados
debaixo dum espinilho; era um picaço grande e um cobrado.
Fui andando; lá longe ia descendo um vulto, atrás de mim vinha
outro.
E devagarinho, como quem vai mui descansado da sua vida, os dois.
Ah! esqueci de dizer a vancê que atravessado de-baixo da sobrecincha
de cada flete, vinha uma espada.
Reparando, vi que as duas eram iguais, de copo fechado e folha grande, das
espadas de roca, que só mesmo pulso de homem podia florear.
E quando parei e os dois vultos se chegaram, conheci que eram o meu general
e o coronel Onofre.
E desarmados…
Mas como chegaram, cada um despiu a farda, que botou em cima dos pelegos e
desembainhou a espada que vinha.
O cobrado era do coronel; o picaço, do general.
Então o general deu ordem:
- Espera aí, com os cavalos!
E o coronel também:
- Bombeia; se chegar alguém, assobia!
E rodearam a restinga, para o outro lado.
Então é que entendi a marosca: eles iam tirar uma tora, dessas
que não se fira duas vezes entre os mesmos ferros...
Maneei os mancarrões e com um olho no padre, outro na missa, por entre
as ramas da restinga, fui es-piar a peleia.
Estavam já, frente a frente, de corpo quadrado.
O sol dava a meio, para os dois.
O general Bento Gonçalves era sacudido no jogo da espada preta; meneava
o ferro, que chispava na luz, co-mo uma fita de espelho; o coronel Onofre
parava os botes e respondia no tempo, mas com tanta força que a espada
assobiava no coriscar.
Nisto o general pulou pra trás, fincou a espada no chão e pegou
a tirar o tacão da bota, que se despregara.
O coronel encruzou os braços, e a espada dele ficou dependurada da
mão, como dum prego.
Pra um que quisesse aproveitar... Mas qual... aqueles não eram gente
disso, não?
E cruzaram, de novo. Em cima da minha cabeça um sabiá pegou
a cantar… e era tão desconchavado aquele canto que chora no coração
da gente, com aqueles talhos que cortavam o ar, que eu, que já tinha
lanhado muito cristão caramuru, eu mesmo, fiquei, sem saber como, com
os olhos nos peleadores, os ouvidos no sabiá, mas o pensamento andejando...
nos pagos, no meu padrinho, no Jesu-Cristo do oratório da minha mãe...
Os ferros iam tinindo, E nisto, o coronel deu um -ah! - furioso, caiu-lhe
da mão a espada… e a sangueira coloreou pelo braço abaixo,
desarmado, entregue!...
Pra um que quisesse aproveitar... Mas qual! aqueles não eram gente
disso, não!
O general tornou a cravar a espada na terra e veio ao ferido com bom jeito.
Pegou o braço, viu o ferimento; e com um lenço grande que levantou
do chão, do lado do chapéu, atilhou o talho para estancar o
sangue.
O outro, calado, nem gemia.
Depois o general tornou a pegar da espada, fez uma inclinação
de cabeça ao coronel e caminhou pra cá…
Foi o quanto eu me atirei pra trás e me acoc'rei perto dos cavalos.
Vestiu a farda, embainhou a espada e montou. Então me disse:
- Agora vem gente, que eu vou mandar. Não te movas daí, antes.
E deu de rédea, a galope, para o acampamento.
E no silêncio que ficou, só ficou balançando no ar o canto
do sabiá, na restinga: do outro lado, o sangue do coronel, pingando
nos capins; deste lado, eu, sabendo, mas não podendo me intrometer...
- Agora veja vancê se não foi mesmo o fungu daquela tal dona
- emissária dum dos dois sorros castelhanos - que veio transtornar
tanta amizade dos farrapos?...
Ela só não pôde foi mudar o preceito de honra deles: brigavam,
de morte, mas como guascas de lei: leais, sempre!
Pois não viu, naquelas duas vezes?… Pra um que quisesse aproveitar...
E creia vancê, que lhe rezei este rosário sem falha duma conta,
apesar de já sentir a memória mais esburacada que poncho de
calavera... Pois faz tanto ano!...
- Conheci, sim, sr., o Binga Cruz, desde assinzinho...
Guri levado da casqueira!...
E teve um fim que nunca se soube... Pobrezinho... Andaria nos doze anos. Filho
único.
O pai dele, o velho, recebeu de regalo um bagual picaço sãozito
das quatro patas, sem uma basteira; e de rédea, um pensamento. E era
mesmo para o andar dele.
Pois, amigo, se lhe conto!...
Um dia, dezembro, sol de rachar, com trovoada armada, andara o guri ninhando
numas restingas que ha-via sobre o fundo da roça, por detrás
das casas. O chapéu estava já abarrotado de ovos de tico-tico,
de alma-de-gato, de corruíras, canarinhos, sabiás...; era um
entrevero bonito de cores e feitios diferentes.
De calcita arregaçada, mui espinhado nas canelas e nos braços,
o rosto vermelho e a cabeça ardendo, o diabinho ainda gateava um ninho
de tesouras, quando, do outro lado da cerca, ouviu o assobio das avestruzes,
pastando.
Ouviu, e fura daqui, fura dali, varou a cerca para dar fé, bem à
sua vontade.
Entre a roça e um braço de banhado, que havia, formava-se uma
rinconada mui boa para volteada: e foi nisso que o guri pensou. As avestruzes
seriam umas oito e uma tropilha de filhotes, já emplumaditos.
Não se conteve, o miúdo: pulou para o lado de fora, perto da
bandada, e já correu sobre ela, de braços abertos, aos pulos,
aos gritos: os bichos se arrolharam, assustados, mas logo o macho do bando
ponteou para o rincão e tudo acompanhou.
Era o que o guri esperava mesmo; ele queria, de por força, pegar uma,
viva; mas só laçando...
Foi quando lhe coriscou na idéia bancar-se no bagual picaço,
do velho...
Se estava tão delgado e lindo.., aquilo seria só amagar o corpo,
chupar no beiço e rebolear o laço... Nem era tento! Num - vá!
- era avestruz a cabresto!
E correndo para o galpão, enfrenou o pingo, atirou-lhe um pelego no
lombo, passou a mão no seu lacito e se foi a arriba!
Espiou para os lados e mui de manso, a passo, saiu, sobre a cacimba, a encobrir-se
numa reboleira de chorões, que fazia uma sombra fresca, onde as galinhas
se rebolcavam, arrepiando as penas, assoleadas.
Mas tudo isto levou seu tempo, de maneira que quando ele chegou ao rincão
já as avestruzes haviam-se atirado no banhado e bandeado; apenas, por
descuidada ou mais esfomeada, apenas uma se deixou ficar e agora não
atinava com a passagem, e quando o Binga, gineteando, deu em cima dela, então
é que o bicho ficou mesmo atarantado, e começou a gambetear
zonzo, na enrascada.
O guri se esqueceu do mundo!
Tocava o picaço em cima do nhandu e atirava o laço… o
bicho negaceava, e o laçador errava o tiro... E vá outro, e
outro... mas errando sempre, só de apurado!
Mas nisto o nhandu deu com a boca do rincão, viu o campo largo, e fazendo
umas gambetas fortes, esparramando as asas, por fim aprumou o corpo e cravou
a unha, num trotão galopeado, de comer quadras!...
Mas o rapazinho estava encanzinado: levantou o picaço no freio e bateu
de trás!
Amigo! Que disparada! Por tacuruzais e buracama de tuco-tuco, por cima das
panelas de caranguejo, por lançantes de coxilhas e moles das canhadas,
salvando sangas e arrancando no barral das lagoas, tudo era várzea
lisa para aquela alminha de gaúcho!
Despistada pela perseguição, a avestruz corria à toa.
Corria. Depois foi mermando; e foi afrouxando, até que se enredou numas
macegas e caiu numa cova de touro. E conforme caiu, já o guri estava-lhe
em cima, atracado com ela, passando-lhe o laço, maneando-a, vencedor,
afinal!
E respirou, aliviado; olhou o campo, silencioso, viu a casa lá longe,
branqueando no verde do arvoredo.
Como diabo ia ele levar a caça, aquela?... E quando estava botando
as suas contas, o nhandu deu em pa-tear, a se revirar todo e mal apanhou livre
uma perna, priscou e se foi a la cria, deixando o caçador no ora-veja!...
Aí o Binga fez um jeito de choro de raiva, e mui desconsolado montou
de novamente.
E voltou para casa, a passo, porque o picaço vinha meio estaqueado,
de quartos duros.
Com mil cuidados, aproveitando ainda a hora da sesta tornou a meter o flete
no galpão e mui concho da sua vida foi para dentro, pedir à
mãe - uma santa senhora, aquela dona! - pedir uma tigela de coalhada,
pra refrescar.
Na manhã seguinte o picaço apareceu esticado na estrebaria:
derreteu a graxa dos rins; morreu arreganha-do.
O velho ficou buzina!... Quem foi, quem não foi...; afinal o próprio
Binga, meio de orelha murcha mas decidido, relatou a criançada, tintim
por tintim.
Aí o velho andou mal… ali no mais, à vista da peonada,
quis sovar o filho… e quando o guri viu o rabo-de-tatu no ar... quebrou
o corpo, disparou e de vereda encarapitou-se num matungo que estava de piquete,
encilhado, e abriu campo fora, sem rumo certo, ao deus-dará... Debalde
o velho gritou-lhe - Pára aí, menino! Pára aí,
menino!
Qual! No peito do gauchinho não cabia a vergonha daquele guascaço
do rabo-de-tatu, que caía-lhe em cima, se ele não foge...
A sia-dona não viu nada deste passo; andava lá pra dentro, nos
seus arranjos.
Passou o tempo.
Nunca mais houve notícias do menino.
Campeou-se pelo vizindário, saíram chasques a vá-rios
rumos e... nada!
O velho foi descuidando das lavouras; já não ia ao rodeio nem
montava a cavalo; nas marcações ficava na porteira da mangueira,
calado; pitava muito e passava os dias passeando na quinta, na rua das laranjeiras,
de chapéu nos olhos e de mãos atrás das costas.
A peonada já nem podia arranhar nas violas, por-que o velho se enquizilava
e mandava logo um piazito dizer lá fora que não queria bochinchadas
em casa.
Outras vezes dava-lhe para arranjar alguma trança prendia a lonca e
começava a tirar os tentos... e de repente parava, suspirava…
e torcia a mão, cortando ou fazendo entradas no couro, e afinal picava
tudo e não fazia nada, nem um botão, nem um passador qualquer,
de cacaracá...
Ou ficava horas e horas, com os olhos perdidos naqueles descampados... olhando,
olhando sempre, mas sem ver nada... nem as pontas de gado nem os mesmos andantes,
que às vezes chegavam, pedindo pousada...
A velhita, essa, então, dava lástima a gente se fixar nela...
Não se riu, nunca mais, aquela senhora-dona. Chorar eu não vi:
mas devia de chorar muito, porque quando vinha pra mesa servir os hospes,
trazia sempre os olhos vermelhos e algo inchados.
Ajuntou num canto da sala todas as cousas do Binga; os aperos, o laço:
umas tamanquinhas já gastas; um carretão de brinquedos, enfiadas
de ovos, uma chuspa cheia de pelotas de barro, argolas e ossinhos de mocotós;
enfim não sei quantas mais bobages de criança.., mas que tocavam
no coração quando a gente pensava que o doninho andava por esse
mundo, de gaudério e teatino... como cachorro chimarrão, comendo
de esmola algum soquete ordinário e tinindo de frio, sem ao menos um
bichará esburacado...
E sempre buenaça; mal chegava um andante, mandava logo um piá
levar-lhe um mate, e ainda, à noite, água para os pés;
e de manhã, quando a gente ia agradecer a pousada, lá vinha
um naco de queijo ou meia vara de lingüiça, para fiambre, e outro
amargo, pra o estribo...
Quem sabia do caso até nem falava nele… era tão penaroso
o sofrer daqueles velhos, que não diziam nada, que a gente entendia
tudo...
E não havia hospe que tivesse comido daquela me-sa ou dormido naquele
teto, que não desejasse ser ele que pudesse um dia topar o guri desguaritado
e trazê-lo, para o colo que esperava sempre e que rezava sempre ao Nosso
Senhor Jesus-Cristo, que, sendo Deus, morreu perto da sua mãe...
A velhita finou-se primeiro, e de pura pena foi por certo.
O vizindário em peso acudiu ao velório; o enterro se fez na
vila.
Pois desde a estância até o cemitério - umas quantas léguas
- o caixão veio sempre à mão. Mas não pesava nada.
Também - pobrezinha! - que pecados podia ela ter?...
E quando foi a hora de o corpo cair na cova, que cada um atirou um punhado
de terra, e que as crianças quase todas suas afilhadas - e as mulheres
desata-ram num pranto de choro e até o coveiro se entreparou atristado,
aí vi mais de um gaúcho colmilhudo manoteando nas lágrimas
que dos olhos lhes caíam, grandes e claras, como as gotas d'água
que caem do cartucho dos caetés...
Meses depois o velho seguiu o mesmo caminho de nós todos; mas antes
de morrer, engambelado por um padre gringo que apareceu aqui pelos pagos,
lá fez uns papéis… e papéis foram que tudo o que
era dele passou para missas e outros engrólios que ninguém sabia
o que eram. Nem um tambeiro saiu para um afilhado!…
-Os parentes meteram demanda… foi um arranca-rabo que durou anos...
E enquanto isso... vancê sabe o que é casa sem dono!...
O Binga... quem sabe lá. o que foi feito dele, por esse mundo de Deus,
tão grande!...
Cuê-pucha!... Eu desejava que ele aparecesse, só por causa do
padre gringo!... Que sumanta o guri lhe não havia de encostar!...
E... por Deus e um patacão!... Eu dava as guascas e ainda ajudava a
atar!...
Ora se não!...
- Vancê leu ontem no jornal aquele caso do sujeito que atirou-se à
água da beira da praia para salvar um fulano que estava-se afogando...
quando no aperto chegou um boteiro que levantou os dois… não
foi as-sim?... E o tal ainda ganhou uma medalha do governo, pela grande áfrica!...
'Stá direito, não digo que não, que afinal ele ao me-nos
sempre se lembrou de acudir a uma criatura de Deus; mas, lá quanto
à nombrada, hum!... nem por isso!
Olhe, mais, então, merecia o Juquinha Guerra.
Eu conto, conto; vá assuntando.
O Juca Guerra foi muito meu conhecido, desde guri. Já morreu, coitado,
e morreu numa tristura…
Veja vancê!... Um gaúcho daqueles... destorcido, bonzão!...
Aquilo, era pra ficar na coxilha, picado de espada, rachado de lançaços,
mas não pra morrer como foi, aperreado em cima da cama, o corpo besuntado
de unturas e a garganta entupida de melados e pozinhos dos doutores!…
Pobre de mim!... 'stou vendo que hei de morrer do mesmo jeito, como um pisa-flores
da cidade, como bicho de galinheiro!.
Moreno, alto, delgado; olho preto; nariz, de homem mandador; mãos e
pés de moça; tinha força como quatro; bailarino, alegre,
campeiraço; e o coração devia ser-lhe mui grande, devia
encher-me o peito todo, de bom que era.
Dessa feita houve rodeio na estância do Pavão; a estância
era na costa de dois rios; e tem muitos albardões com mato, que eram
a querência da gadaria xucra. Mas, pra chegar lá, havia que atravessar
um santafezal cerra-do, tiririca, atoleiros, juncais; um banhado brabo; lá
dentro é que a gadaria alçada vivia misturada com os galheiros
e os capinchos e os ratões.
A gritos, a tiro e a cachorro tinha-se conseguido to-car como umas pra mais
de três mil reses.
Nem lhe falo nas cousas divertidas do serviço, como rodadas, algum
matungo riscado de aspa de brasino, as compadradas da peonada e outras que
sempre alegram um campeiro.
E mal que cerrou o rodeio a gente mudou de cavalos, churrasqueou em pé
mesmo e começou-se logo a apartar a tourada. E que torunas! Cada bicho
pesado, criado na pura grama vermelha, ligeiros como gatos, e malevas, de
acompanharem o laço, quase cabresteando!...
Pois, foi um destes, que um moço chamado Tandão Lopes laçou...
e laçou mal, de meia espalda: o touro bufou, e depois do tido já
se lhe veio em cima…
O moço estava mui bem montado; o pingo era de patas, porém apenas
rocim, mui cosquilhoso; os arreios já vinham mal e com o tirão
a cincha correu toda pras virilhas...
Virge' Mãe!...
O bagual agachou-se a velhaquear, e, pra pior ainda, em volta, enredando-se
no laço, frouxo; o moço - ginetaço! - fechou as chilenas
e meneou o rebenque, de chapéu do lado, numa pabulagem temerária,
de guasca que só a Deus, respeita!
Foi nesse apuro, que o touro carregou, e veio, de língua de fora, berrando
surdo… e entreparado, baixou a cabeça, retesando o cogote largo
e ia a levantar a guampada, quando, meio maneado no laço e ladeado
por um sofrenaço de pulso, o bagual planchou-se... e o moço
Tandão ficou também aí caído, preso pela perna,
exposto, entregue... O touro recuou um pouco, escarvou, meio dançando,
retesou os lagartos, numa fúria de força e fez a menção...
A campeirada olhava, parada, vendo a desgraça vir...
Mas nisto, justo, justo quando o touro, balanceando no ar, pareceu dar o pulo
da carga, o Juca Guerra esteve-lhe em cima! Em cima!
Foi como o trovão e logo o raio..., pois como um raio o gaúcho
carregou e atirou a montaria contra o touro!
Oigalê! Pechada macota!
O tostado arrebentou as duas paletas na encontrada e caiu, sacudindo a cola,
os olhos chispeando, de beiço enrugado e subido, de dor... Caiu, mas
o touro, também.
E tanto que atirou o seu pingaço, de pechada feita - e certo de o escangalhar
- contra o touro, escorregou pela garupa, e enquanto os dois brutos se batiam
e enovelavam, o Juca já aliviava o companheiro, que apenas livre, pulou
para o cupinudo, ainda meio azonzado do trompaço, manoteou-lhe nas
aspas e torceu-lhe a cabeça, que cravou no chão, num pronto!
O bicho pataleava, puxando a respiração forte, que ondulava,
no arredondado da barriga.
Aqueles, sim, eram dois torenas que se valiam!
Só então é que os vedores acudiram… mas foi para
agüentarem uma tirana de sotretas! comedores de carne! maulas! vasilhas!
capões!... e outros rebencaços de língua, desses que
a gente esparrama quando está de marca quente...
E no meio daquele bolo de campeiros, sobre as ma-cegas pisadas, do lado do
touro arquejando e do cavalo gemente, os dois homens se abraçaram e
beijaram-se, chamando-se irmãos; e assim juntos chegaram-se para o
cavalo tostado, quebrado dos encontros... fizeram-lhe umas festas de puro
mimo e tristeza… e enquanto o Juca, com a sua própria mão
sangrava o seu confiança, o moço Tandão abraçava
a cabeça inteligente do flete... Correu o sangue, em borbotão;
e quando, esvaido, o tostado afrouxou a força e a respiração
e o garbo, e foi descaindo e ia a tombar, de vez, os lado, ampararam-lhe a
cabeça… como se fosse uma criança dormilona, deitaram-na
brandamente sobre os capins, - pro caso - sobre o pé malmequer branco,
ramalhudo, que florejava ali, como num propósito.
Coitado do flete!
Mas como deixá-lo viver, assim, arrebentado? Para vê-lo morrer
de dores, inchado, com fome e com sede... e antes disso serem-lhe os olhos
vazados pelos urubus... e os buracos deles, ainda vivos, virarem toca das
varejas? ! ... Não! Um gaúcho de alma não abandona assim
o seu cavalo: antes mata-o, como amigo que não emporcalha o seu amigo!
Vancê assuntou bem no conto?
Ora, agora, vamos ao fim; o que merecia, de prêmio, o Juca Guerra?
Qual o mais valente? o tal fulano, da beira da praia, ou este da beira. ..
da morte certa?
Muita gente anda no mundo sem saber pra quê: vivem porque vêem
os outros viverem.
Alguns aprendem à sua custa, quase sempre já tarde pra um proveito
melhor. Eu sou desses.
Pra não suceder assim a vancê, eu vou ensinar-lhe o que os doutores
nunca hão de ensinar-lhe por mais que queimem as pestanas deletreando
nos seus livrões. Vancê note na sua livreta:
1º. Não cries guaxo: mas cria perto do teu olhar o potrilho pro
teu andar.
2º. Doma tu mesmo o teu bagual: não enfrenes na lua nova, que
fica babão; não arrendes na miguante, que te sai lerdo.
3º. Não guasqueies sem precisão nem grites sem ocasião:
e sempre que puderes passa-lhe a mão.
4º. Se és maturrango e chasque de namorado, mancas o teu cavalo,
mas chegas; se fores chasque de vida ou morte, matas o teu cavalo e talvez
não chegues.
5º. A maior pressa é a que se faz devagar.
6º. Se tens viajada larga não faças pular o teu cavalo;
sai ao tranco até o primeiro suor secar; depois ao trote até
o segundo; dá-lhe um alce sem terceiro e terás cavalo para o
dia inteiro.
7º. Se queres engordar o teu cavalo tira-lhe um pêlo da testa todas
as vezes da ração.
8º. Fala ao teu cavalo como se fosse a gente.
9º. Não te fies em tobiano, nem bragado, nem mela-do; pra água,
tordilho; pra muito, tapado; mas pra tudo, tostado.
10º. Se topares um andante com os anelos às costas, pergunta-lhe
- onde ficou o baio?...
11º. Mulher, arma e cavalo do andar, nada de emprestar.
12º. Mulher, de bom gênio; faca, de bom corte; cavalo de boa boca;
onça, de bom peso.
13º. Mulher sardenta e cavalo passarinheiro... alerta, companheiro!...
14º. Se correres eguada xucra, grita; mas com os homens, apresilha a
língua.
15º. Quando dois brincam de mão, o diabo cospe vermelho...
16º. Cavalo de olho de porco, cachorro calado e homem de fala fina…
sempre de relancina...
17º. Não te apotres, que domadores não faltam...
18º. Na guerra não há esse que nunca ouviu as esporas cantarem
de grilo...
19º. Teima, mas não apostes; recebe, e depois assenta; assenta,
e depois paga...
20º. Quando 'stiveres pra embrabecer, conta três vezes os botões
da tua roupa...
21º. Quando falares com homem, olha-lhe para os olhos, quando falares
com mulher, olha-lhe para a boca... e saberás como te haver...
Que foi?
Ah! quebrou-se a ponta do lápis?
Amanhã vancê escreve o resto: olhe que dá para encher
um par de tarcas!...
Nasceu o potrilho, lindo e gordo, filho de égua boa leiteira, crioula de campo de lei.
O guri era mimoso, dormindo em cama limpa e comendo em mesa farta.
Já de sobreano fizeram uma recolhida grande, sentaram-lhe uns pealos, apertaram-no pelas orelhas e pela cola e a marca em brasa chiou-lhe na picanha.
Andaria nos oito anos quando meteram-lhe nas mãos a cartilha das letras e o mestre-régio começou a indicar-lhe as unhas, de palmatoadas.
O potrilho couceou, na marca. O menino meteu fios de cabelo nos olhos da santa-luzia...
Em potranco acompanhava a manada e retouçava com as potrancas, sem mal nenhum.
O rapazinho rezava o terço e brincava de esconder com as meninas… o que custou-lhe uma sapeca de vara de marmeleiro.
Quando o potrilho foi-se enfeitando para repontar, o pastor velho meteu-lhe os cascos e mais, a dente, botou-o campo fora: fosse rufiar lá longe!...
O gurizote, já taludo, quis passar-se de mais com uma prima...; o tio deu-lhe um chá-de-casca-de-vaca, que saiu cinza e fedeu a rato!...
O potro andava corrido, farejando... Mas nem uma petiça arrastadeira d'água e poronguda, achou, para consolo da vida. Té que o caparam.
O mocito, que era pimpão, foi mandado incorporar. Sentaram-lhe a farda no lombo.
Mal sarou da ferida o potro foi pegado: corcoveou, berrou; quebraram-lhe a boca a tirões, dividiram-lhe a barriga com a cincha; quis planchar-se, e lanharam-lhe as virilhas a rebenque e as paletas a roseta de espora. Tiraram-lhe as cócegas... Ficou redomão.
O recruta marcou passo, horas, pra aprender; entrou na forma; agüentou descomposturas; deu umas bofetadas num cabo e gurniu solitária e guarda dobrada, por quinze dias. Cortaram-lhe os cabelos à escovinha e ficou apontado. Era o faxineiro do esquadrão.
Houve uns apuros de precisão… O rocim foi vendido em lote, para o regimento.
Tocou a reunir: era uma ordem de marcha, urgente. O faxineiro recebeu lança, espadão e tercerola.
Quando a cavalhada chegou o primeiro serviço dos sargentos foi assinalar os novos; era simples e ligeiro: um talho de faca na orelha, rachando-a. Bagual assim, virava reiúno.
Quando tocou o bota-sela, o faxineiro estava na porteira, de buçal
na mão, esperando a vez. O laçador laçava, chamava a
praça e esta enfrenava... e cada um roia o osso que lhe tocava.
- Chê! Enfrena!...
Foi o reiúno que caiu pro recruta.
Aí se juntaram os dois parecidos, o bicho e o homem. E a sorte levou os dois, de parceria, pelo tempo adiante. Curtiram fome, juntos, cada um, do seu comer, E sede. E frio. E cansaço, mataduras e manqueiras; cheiros de pólvora e respingos de sangue, barulho de músicas, tronar grosso e pipoquear, nas guerrilhas.
E de saúde, assim, assim... Um teve sarnagem, o outro apanhou muquiranas;
se um batia a mutuca, o outro caçava as pulgas.
Quando, no verão, o reiúno pelechava, também o faxineiro
deixava de sofrer dores de dentes.
Passados anos o mancarrão já nem engordava mais, e todo ovado estava. O fiscal do regimento, sem uma palavra de - Deus te pague - mandou vendê-lo em leilão, como um cisco da estrebaria. Um carroceiro comprou-o, por patacão e meio, com as ferraduras.
Passados anos o praça aquele teve baixa, por inca-paz, com o bofe em petição de miséria; e saiu da fileira sem mais família e sem saber oficio. Saiu com cinco patacas, de resto do soldo, e sem o capote. Foi então ser carregador de esquina.
O reiúno apanhava do carroceiro, como boi ladrão!
O carregador levava dos fregueses descompostura, de criar bicho!
O reiúno deu em empacar.
O carregador pegou a traguear.
O carroceiro um dia, furioso, meteu o cabo do relho entre as orelhas do empacador e... matou-o.
A policia uma noite prendeu o borrachão, que resistiu, entonado; apanhou estouros… e foi para o hospital, golfando sangue; e esticou o molambo.
O engraçado é que há gente que se julga muito superior aos reiúnos; e sabe lá quanto reiúno inveja a sorte da gente...
- Olhe! Aí está uni peão do major Vieira; jogo o pescoço
se ele não traz invite pra ir lá, hoje, festejar o Natal, na
estância!...
Eu sei!... Aquele é gauchão buenaço!
Eu, se fosse o patrãozinho, ia. Ia, só pra ver o que é
uma gente de devoção.
E é que o seu major Vieira não era assim, não; pro caso
que ele, em moço, até que era um virado, da gente se benzer
três vezes!
O major Vieira quando era cadete haraganeava mui-to pela rancheria dos postos.
A estância era grande, e entre agregados e posteiros havia um povaréu;
o patrão velho, pai dele, era mui esmoleiro e não gostava de,
perto dele, ver ninguém com cara de fome.
Mas o diacho era que o que o velho fazia com as mãos o cadete desmanchava
coos pés...
O mocito era abusador, e mais duma feita saiu ventando de certos ranchos daqueles
pagos... Sim, que um pai cria uma filha não é pra carniça
de gaudério!.. Por isso é que já os antigos inventaram
o casamento.
A divisa da estância, no fundo, faz uma quebrada forte, assim como o
cotovelo do meu braço; nesta ponta aqui, onde está a minha mão,
fica o Lagoão das Lontras, e mais pra cá passa a estrada real.
Em certos tempos a gadaria pegava a costear o lagoão e andando, andando,
entrava na estrada e… adeus!
Assim perdeu-se numa primavera uma ponta de novilhos que se evaporaram como
sereno,.,
Foi um estafaréu, na estância, por causa disto; o patrão
velho ficou buzina com o capataz, que relaxou os repontes, e quase mandou
lonquear um certo Miguelão, que passava todo o santo dia lagarteando
na reserva do rancho, e de noite nunca parava em casa...
Parece que eu estou lhe enredando o rastro, mas não 'Stou, não;
vancê escuite.
É que este Miguelão não era trigo limpo; e tinha uma
filha que era uma criatura boa como uma santa, morocha linda como uma princesa.
E vai, o desgraçado obrigou a menina a casar-se com um sujeito sem
eira nem beira, e que diziam à boca pequena que era parceiro nas velhacadas
do Miguelão.
Era um mais que mouro, e meio corcunda, e tinha um lanho grande entre a orelha
e a nuca; e mal encarado, era.
Amigo! A quincha dos ranchos esconde tanta cousa como os telhados dos ricos!...
Marido e mulher davam assim uma idéia esquisita: vancê já
reparou quando abre um cacho de flor num jerivá velho, de casca esbranquiçada,
cheio de talos secos pendurados e um que outro pendão esfiapado, que
já deu coquinhos?...
O jerivá é uma árv'e tristonha, mas quando bota um cacho
de flor fica alegre, de enfeitada, Aquele pendão amarelo, lá
em cima, chama os olhos da gente, parece um favo de cera, de tão limpo
e dourado; chama as mandaçaias, os passarinhos, os mangangás,
as joaninhas; dá cheiro que é doce; é uma boniteza pra
todos os viventes.
Assim era aquele casal: ele como o jerivá velho, ela como um cacho
de flor,
Ela chamava-se nhã Velinda: e chorava muito, às vezes.
Por quê? Quem sabe lá…
Depois daquele sumiço dos novilhos, o cadete Vieira passou a recorrer
o campo por aquelas bandas; a bolear avestruzes por aquelas várzeas;
a correr veados por aqueles meios; a caçar mulitas naquela costa; e
até numa noite de breu arranjou uma perdida -. 'magine! mais vaqueano
que sono! - mas perdida foi que soube rumbear sobre o rancho do Miguelão...
Cousas de rapaz; que a nhã Velinda, essa, era de confiança.
Lá porque era moça, quase uma criança perto do marido,
lá por isso não era motivo pra qualquer um chegar-se de buçalete
em mão, como se faz pra uma redomona, pra amanusear-lbe desde a tábua
do pescoço até as ancas...
Mas o cadete gostava da moça numa paixão de verdade, diferente
de quantas cavaleiradas estava avezado a fazer.
Era uma adoração, quase um medo de ofender a querida do seu
coração; perdia a voz pra falar com ela, enredava-se nas esporas,
perdia o entono de todo o seu jeito, e todo ele vivia só nos olhos
quando atentava na formosura do seu rosto.
Entrementes foi acabando o ano e já era sobre o Natal.
E vai a família do patrão velho armou um presépio na
sala grande da estância; e ele mesmo mandou avisar o vizindário
todo que a sia-dona convidava para se cantar um terço de festa, na
noite santa.
E veio tudo, velhada e crianças, moçada, namorados, e até
alguns andantes, que estavam de pouso, ficaram, todos, pra louvar a Deus na
noite mais pequena do ano.
O cadete andava no meio do povo caçoísta, dançarino e
pisa-flores, mas no que chegou a gente do Miguelão, já se foi
pondo como um céu amontoado, emburra-do, de dar nas vistas.
Houve jantarola e doçaria, na sombra das figueiras.
Escureceu; a sala grande estava fechada, e as moças da estância
lá dentro, preparando as luminárias; enquanto o velho e a sia-dona
pauteavam com a gente sisuda, embaixo da ramada grande, em frente da casa,
a gurizada corria na pega dos vaga-lumes, rodando por cima dos cachorros ou
fazendo provas de burlantins, nos cabeça-lhos das canetas; do galpão
vinha o zunzum da peonada; na sombra do campo não se via nada, mas
de lá vinham relinchos e mugidos, cracrás das corujas e uais!..
dos graxains.
E no ar, como uma cerração que não se via, andava o fartum
dos churrascos.
Por um segredo do destino a sia-dona mandou o cadete ver se as luminárias
estavam ou não prendidas; e vai, o moço, no entrar a porta,
topou de cara a cara com a nhã Velinda que saia, justamente para vir
chamar os donos da casa; toparam-se as criaturas e miraram-se, num clarão
que só elas viram...
As mãos se encontraram. .. e num de-repente, num silêncio, num
tirão das suas almas, na pressa e no lusco-fusco, perto da gentama,
numa relancina de corisco, as duas bocas famintas se encontraram…e um
beijo, um beijo que jurou pelos dois, para toda a vida, um beijo só
derrubou todas as negaças, como uma represa de açude aluída
é derrubada por uma muita descida de águas...
Vê vancê, a gente sabe falar, dizer muitas enredices adocicadas,
mas às vezes a palavra nem dá pra partir… e caladito no
mais, um simples beijo, largado de tronco, chega ao laço, folheirito,
de rebenque alçado!
Pobres! Nesse passo cruzou na mesma porta o Miguelão e bispou o caso,
e decerto já lo foi xeretear ao genro, e atossicá-lo, suscitando-lhe
maldades...
Mas logo escancararam as janelas e a claridade da sala alumiou o terreiro;
foi um alarido de contentamento, todos se ajuntaram e a sia-dona, puxando
a ponta, entrou, para principiar o rosário. E aquele bandão
de gente entrou e foi-se acomodando, olhando com ar de riso pasmado, toda
só dizendo: o presépio! o presépio! o presépio!
Fazia a modo uma ramada no alto de uns cerritos, e fingindo grotas e sangões
e umas reboleiras; havia esparramados uns "alimais" entre boizinhos
e ovelhas de brinquedo e outros enfeites; e mais uns figurões mui calamistrados,
de coroa, que pareciam reis, e, pro caso, um, que era negro retinto, era o
mais empacholado. E perto destes, sobre a ponta do presépio, estava
então a Senhora Virgem e o Senhor São José, e entre eles,
acamado numas palhinhas de milhã e uns musgos e umas penugens, estava
o Menininho Jesus, ruivito e rosado, nuzinho em pêlo, pro caso como
uma criancinha que não tem pecado por mostrar as vergonhinhas do seu
corpinho de inocente.
Todos se ajoelharam de roda, mas foi nessa ponta do presépio que a
nhã Velinda ajoelhou-se; e no costado dela, como um precipício
ou um encorrentado, aí amoitou-se o cadete Vieira, talvez até
para dar o seu peito em resguardo dalgum perigo...
Não lhe conto nada!... Quando pegou a cantoria do rosário e
no cantante da reza a gente se foi enquartelando e emparelhando as vozes,
que era uma boniteza de ouvir, por aí os olhos dela estavam como amarrotados
no presépio, mas os olhos dele estavam no rosto dela, como se ai estivesse
o próprio presépio, com as suas velinhas e prateados e bichinhos
mimosos...; era até um pecado do inferno, aquela maneira de adorar
gente, ali assim, nas barbas dos santos e da Senhora Virgem e do seu Menino!...
Mas porém, lá da porta, outro olhar, raiado de sangue, estava
vendo tudo; por certo que alguma loucura de cabeça atacou aquele cristão
velho, porque, num soflagrante, sem um deus-te-salve! - o aflito aquele me-neou
os passos, derrubando gente, e logo o facão relam-peou na direitura
do coração de nhã Velinda!...
Houve um grito d'espanto pro mode o desaforo do desatinado.
- Jesus!... foi o grito de todas as bocas.
Ah! patrãozinho!... Olhe que às vezes, na luz das velas bentas,
se passam cousas de deixar um golpeado qualquer mais, mais aplastado que mancarão
reiúno em mão de recruta...
Quando a ponta do ferro matador estava a uma mão atravessada…
a quatro dedos só da carne macia, aí - credo! louvado seja Deus!
- aí rolou da sua caminha de milhã... rolou e caiu no boleado
do seio da moça, na canhadita dos dois, caiu no regaço de nhã
Velinda o Menininho Jesus, como uma defesa… e aí no regaço
delicado ficou, como um dono na sua casa...
E o facão matador sentou, tironeado... depois recuando, «minuindo",
caiu mermado, mal seguro na mão sem força, do braço sem
vontade, e o cuerudo aquele deu costas e se botou porta fora e o Miguelão
com ele, boquejando.-
Tempos depois se soube que lo mataram, num entrevero, numa bochinchada de
carreiras.
Jerivá torto não dá ripa!...
Os velhos lá ouviram do cadete e de nhã Velinda o que havia,
e lá arrumaram as cousas.
O que le conto é que o seu major Vieira, ainda em cadete, se casou
com a nhã Velinda, e que aquele tal Menininho Jesus ainda hoje é
o figurão do oratório e éo mesmíssimo do presépio
que, bá mais de cinqüenta anos, se arma sempre na estância,
no festo do Natal.
- Não lhe parece que houve um milagre? Claro! Foi por causa do Menininho
que... Se o diabinho é tão milagroso!...
Fonte: Biblioteca Virtual do Estudante