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A Mandinga

 

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João Simão Lopes Neto

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Serafim Bemol, Sátiro Clemente e D. Salústio, em comandita literária, que pretendem celebrar, nos anais da pilhéria pelotense, escrevem uma novela, romance, narrativa ou cousa que melhor nome tenha, observando-se o seguinte programa:

A obra não tem fio nem pavio, os autores são obrigados a continuá-la, como entenderem, no ponto em que o associado anterior a tiver deixado.

Quando estiverem aborrecidos, ou o público começar a bocejar, matam-se os personagens todos e... assunto concluído.

A sorte designou Serafim Bemol para principiar o trabalho, dar-lhe o título e encaminhá-lo como entendesse. Seguir-se-ão com a palavra Sátiro Clemente e D. Salústio.

A Mandinga é o lôbrego título do folhetim, e começa hoje.

Arranjam-se os leitores e esperem pela volta todos os domingos e quintas-feiras em que lhes servirem este pratinho, destinado a amenizar os seus dissabores.

Temos tempo de sobra para chorar.

Apresentação

Poema em prosa, trágico-cômico-burlesco, que não se sabe bem como começou nem quando acabará — pela firma social S & S & S — como tudo se verá com o andar do tempo, se Deus quiser.

Não ride.

Existe — existe — abaixo de nós outros, que lemos jornais — discutimos política e tratamos de negócios — o mundo sombrio — rodeado de pouco caso — aparente — mas que é tratado com respeito, quando alguém carece do seu serviço — de ordem diversa — e que a geral hipocrisia social priva de procurar em plena luz.

O mundo que passa à nossa beira — durante o dia em que não atentamos — mas que espia o que fazemos — cospe no lugar onde pousamos o pé — e que traça no ar — sobre as nossas costas — grandes figuras fantásticas.

O tempo dos bruxedos — Não passou.

Apurai a memória e recordai-vos de mil frases soltas — sobre casos sucedidos com pessoas das vossas relações.

Recordai — recordai — atróz a dor de cabeça de um; a cólica súbita de outro; a congestão aqui, a febre acolá! Por que? Como? Por outro lado — os desgostos — as dissenções — a desconfiança — há cilada de todo o gênero.

Procurai — procurai.

São as misteriosas consultas provocadas pelo despeito — pelo ciúme — pela inveja e pela pequena ambição.

São as ignóbeis, beberagens; as representações barbaramente teatrais de cenas caóticas; as invocações — os gritos — os trejeitos — as contorções.

E o povo — por mais que ria — cá fora — lá dentro — no santuário — prosta-se.

Porque, apesar de tudo — ele não fala no feiticeiro — sem uma ponta — nem sempre oculta de um vago receio — como se o bruxo — estivesse — aqui — ouvindo e pronto a saltar sobre o imprudente e sufocá-lo com o laço invisível e todo poderoso da sua aliança com o DEMÔNIO.

Capítulo I

No espesso nevoeiro daquela madrugada de junho — uma sexta-feira — muito enrolado na sua capa, de gola alta — chapéu mole desabado — e de sapatos de verniz — de laçarotes pretos — ia — rápido o Elesbão Soares e ao que parecia — único na rua solitária.

Amortecida na bruma — a luz dos lampiões formava uma como auréola — avermelhada tristonha e baça — o que acrescentava o isolamento do retardatário — que sem poder alongar o olhar — apenas tinha e vagamente o consolo de distinguir — sem lhes perceber as particularidades — alguns edifícios cuja arquitetura, cores, letreiros e até números conhecia.

E evidentemente o homem ia preocupado, porque resmungava — resmungava — sumido o rosto nas dobras da capa.

Quis fumar, puxou do bolso um cigarro; não encontrando fósforos — atirou-o — longe de mau humor — de encontro a uma parede.

Tomando a calçada da praça — contornou uma parte do gradil, e entrando por uma das ruas que descem para a Várzea, indo — indo perdeu-se de todo no nevoeiro e na escuridão — fazendo apenas ouvir — mais e mais enfraquecido — o bater compassado dos tacões dos seus sapatos de verniz de laçarotes pretos.

Havia já nos anos que o Elesbão Soares era viúvo. Morrera-lhe a mulher — de febre puerperal; a pobre filha — um entezinho raquítico e cheio de manchas — poucos dias resistiu as faixas em que a comprimiam, apesar dos chás e fomentações caseiras — finou-se — justamente depois que o padre — chamado a toda pressa — lhe impusera o nome de Agueda — a pedido da mãe, também Agueda — sendo madrinha — de ocasião — a dona Demitildes que já antes tinha lembrado o emprego da água de socorro como meio eficaz de salvação cristã.

Dona Agueda, que da cama, onde ainda a prendia o resguardo — percebera tudo — o pequeno caixão branco — o velório — os convidados — os cheiros de alfazema queimados e de água Labarraque — pôs-se tão desesperada, arrenego tanto de todos e de tudo — chorou — entorceu-se — alvorotou de tal forma o seu enfraquecido corpo — que em breve — acidentes diversos apareceram — complicaram-se e apesar dos cuidados empregados — morrem sem que o Elesbão — teimoso e embezerrado — aparecesse a consolar-lhe os últimos arrancos — como também já nem ao menos beijara a mirrada face morta da efêmera Agueda.

Alto, claro, de face chupada, grandes olhos azuis, casaram-se com a D. Agueda Juliana Vieira, que trouxe-lhe em dote, uma faceirice perigosa e um preto velho, o — Caboclo — grande conhecedor de ervas e raízes.

Por esse tempo, era seu caixeiro um tal Belmiro, um latagão robusto, e com o rosto cheio de espinhas nada castas e grande amador de modinhas e serenatas ao violão, e que depois de acompanhar a senhora algumas vezes nos seus passeios fora rispidamente despedido, sem procurar sequer acertar as suas contas e sem se saber bem porque, o que muito intrigou as vizinhas amigas da faceira da D. Agueda, que aliás foram unânimes em descobrir nisso, gato encerrado.

Meses depois sucedera a viuvez de Elesbão, que pôs em evidência a sua oculta, porém tenaz repugnância em acariciar as duas Aguedas — moribundas.

Depois de dar ao pesar — pelo tempo do estilo, as portas semi-cerradas — refletiu lá à seu modo no que lhe conviria fazer: tanto se vivia aqui, como além, e assim como assim — já agora — que estava livre e sem cuidados, que era apenas a sua pessoa — o verdadeiro era descansar durante algum tempo. Balanceou as suas mercadorias, conferiu os seus livros, verificou o que havia de lucros, procurou um comprador, encontro-o e passou-lhe todo o negócio, depois de regatear um pouco de parte a parte.

Depois de algum tempo de ausência, reaparecera, atirado a uma elegância pesada de dar nas vistas, ao longe, tantas as jóias, tanto o esplendor das gravatas, tanto o abuso dos perfumes.

Bem observado, era ainda aquela mesma antiga massa bruta, porém falquejada, aplainada, lixada.

Dado o período da satisfação à curiosidade de seus antigos amigos, foi resvalando para a modorra do meio, tornou-se o tipo vulgar um homem — um sujeito como os outros.

De uma feita — ao terminar uma grande festa na igreja matriz — o Elesbão Soares entrou em ala — sem saber bem como — em meio de uma porção de rapazes que esperavam na porta da sacristia — a saída das famílias e que quase todos contavam amigos -parentes ou conhecidos.

Ao enfrentar com ele — por mero acaso — caiu o leque a uma senhora que passava.

Curvou-se rápido — apanhou-o do chão — e um pouco turbado — entregou-o... não à dama — mas a um senhor, velho, grande e com cara de poucos amigos, que a acompanhava — e que nem sequer lhe disse — obrigado!...

Um dos rapazes não se conteve e disse-lhe por entre o borborinho da multidão que se atropelava:

— O senhor não devia dar o leque àquele tipo: é um grosseiro...

— Mas era o dono...

— História! Um urso! Ela, sim... um fazendão!

E deu-lhe as costas, indo na onda para fora da porta onde já estava um grupo de conhecidos seus.

Aquele simplíssimo, trivial incidente — lançou-o em busca de um antigo auxiliar — aquele quase deslembrado Caboclo cujo préstimo ele conhecia...

Eis porque — como se saisse de um baile, ia o Elesbão Soares — no denso nevoeiro daquela madrugada de junho — à Várzea — resmungando — resmungando sumido, o rosto nas dobras da capa.

Capítulo II

Elesbão Soares, apesar de não ser criança, pois já contava os seus cinqüenta bem passados, era muito amigo de mulheres novas e de vinho velho.

Na suave e descuidade convivência destes dois elementos — mulher e vinho — se lhe foram melando as pequenas economias — que constituiam o seu cabedal.

A tristeza e a filosofia, que são a ciência do pobre, já começavam a torturá-lo.

Ora, realmente, nesse nosso planeta sublunar só é verdadeiramente ridículo o homem que não tem dinheiro. Para o alcançar com limpeza sujeita-se um triste mortal a toda sorte de trabalhos e sacrifícios, canseiras e privações. É um penar do corpo com a alma sempre esmagada por um pensamento único, constante.

O meio mais fácil de chegar a ter dinheiro sem trabalho é um casamento rico.

Muitos tem empregado esse processo com bom êxito. Os exemplos saltam como camarões em terra seca.

Não me lembre quem disse que o homem que deseja casar rico sempre consegue o seu intento.

A questão cifra-se apenas nos seguintes mandamentos:

Extirpar os escrúpulos da consciência, como quem extrai um dente cariado ou corta um calo que doi.
Procurar a mulher através de todas as torpezas, como a galinha de Esopo procurava pérolas nos monturos.
Suportar com paciência evangélica e cara alegre todas as desfeitas, como se tal coisa não acontecesse.
Insistir no mesmo sistema com preserverança e sempre com a mesma cara, bem escanhoada de toda a sombra de pundonor, até o dia do casório.
A falar a verdade, o nosso herói já trazia a sua ferrada, quando apanhou o leque à porta da sacristia, o tal velhote muito sério, com cara de poucos amigos, também já trazia a pedra no sapato.

O Elesbão não entregou o leque à senhora que o deixara cair, para não dar nas vistas daquela troça de marmanjos, que sempre acompanhavam, e que costumavam escolher a igreja para ostentar os primores de educação.

Mas que o nosso homem já sentia as vísceras engalfinhadas pelos atrativos daquela distinta dama, isso é que não padece dúvida.

Era a tal história da cobra e do sapo.

Elesbão Soares não era verdadeiramente um homem bonito, na singela expressão desta palavra.

Antes pelo contrário.

O nariz parecia um promontório de tão largo e de rugoso que era. A boca era tão rasgada que parecia querer devorar as orelhas.

Para disfarçar estes pequenos defeitos físicos e naturais o nosso homem não poupava despesas.

Ele era a bela cartola de pele de seda.

Ele era a fina camisa engomada a capricho, bem alva, sem nenhuma nódoa.

Ele era a linda gravata de várias matizes, muito sarapintada, com o seu laço artístico.

Ele era a bem esticada sobrecasaca, ornada na boutonniére de um raminho composto de catinga de mulata, amor perfeito e alecrim cheiroso.

Ele era a fresca luva Jouvin cor de telha ou verde garrafa.

Ele era a bem talhada calça de casemira francesa.

Ele era as boas botinas de verniz, número 48, que lhe requeimavam os calos e joanetes, nos dias de sol, daquelas toesas, a que ele, ingenuamente, chamava pés e que vistos de longe pareciam as duas torres da igreja Matriz deitadas no chão e cobertas de couro da Rússia.

O sapateiro que lhe fazia as botinas (só de encomenda) era o Taveira, um ermitão que viveu, in illo tempore, que calçava a Humanidade em virtude da sua profissão, e usava a língua calçada de aço para melhor cortar nas vidas alheias, como quem corta em roupa de francês.

Um belo dia, o Taveira vendeu aloja, bateu a bela plumagem, e se foi a outras plagas, onde não houvesse Elesbão. Tal qual como as andorinhas, com uma única diferença: — foi e não voltou.

E retirou-se a tempo, quando não entisicava.

Não era brincadeira, o ter de fazer botinas daquele calibre a dois pospontos.

Aquilo que era um gastar de cerol, fio e sovela.

Junte-se a isso o trabalhinho de dar a língua constantemente, e me digam se há bofes que resistam.

O nosso Elesbão era homem muito precavido no tamanho da vida.

Quando soube que o Taveira tencionava mudar de terra, e antevendo a dificuldade de conseguir outro igual, tratou logo de comprar a forma de suas botinas, a qual forma é um verdadeiro monumento, de que a nobre e muito distinta diretoria da nossa Biblioteca Pública deve fazer aquisição, ao seu tempo, como início de um museu anexo àquele utilíssimo estabelecimento.

Dissemos que o Elesbão não era bonito, mas também não era tão feio como alguns o queriam pintar.

Dizem que não há formosura sem senões e ele só tinha três: — o nariz, a boca e os pés.

Há outros bípedes que tem muito mais mas como andam saturados de muita petulância e pouca vergonha, ninguém faz o devido reparo.

Assim vai o mundo e o melhor é deixar correr o marfim.

O Caboclo...................................................................................................

O leitor, se és meu amigo, dispensa-me de te fazer o retrato do Caboclo.

Aquilo não era um preto velho; era um verdadeiro orangotango.

Parecia que tinha parte com o Belzebu.

Coçava-se, como um macaco, — e falava só, — como um desesperado.

Conhecia as virtudes de quase todas as ervase raízes, fazia benzeduras que encantavam muita gente boa e sabia de feitiços como um graúdo.

Era um portento, o raio do preto.

Ganhou fama e teve época.

Já contava com uma clientela bem regular, que lá o ia consultar e pedir-lhe remédios para vencer as dificuldades da vida.

E ele a todos acudia com proficiência de um bruto que sabia muito.

Era de ver-se, quando alguma senhora — que ainda há deste gosto — o ia consultar sobre a fidelidade do esposo, que andava arredio do lar doméstico.

O preto ouvia, ouvia as lamentações da pobre mulher, com o aprumo de um professor de ciências naturais, e com os ares de importância que o assunto exigia.

Depois de fingir-se bem compenetrado da gravidade do caso, lançava em um fogareiro com brasa três pedras de sal, três gotas de azeite, três folhas de arruda e três palhinhas em cruzes, como manda a liturgia, e todos estes movimentos acompanhados de tal engrolada de palavras sem nexo, em um idioma completamente desconhecido, o que não parecia linguagem de gente cristã.

Aquilo era com toda certeza a língua do inferno.

E aquela pobre senhora, queda e muda, toda entregue às suas dolorosas suspeitas e amargos pensamentos ali esperava — entre receiosa e crente — à profecia daquela Pitonisa de nova espécie.

Há quem não acredite em bruxedos e feitiços, nem as artimanhas do Boi-Tatá.

Pois que não acreditem, e fazem muito bem. Cada doido com a sua mania.

Nisto as crenças, gostos e cores, não há discussão possível.

Todos tem igual direito, ou as leis que nos regem são falsas, como Judas.

Se não houvesse mau gosto, não se gastava o amarelo.

O nosso Elesbão não era desses. Extremamente chato do intelecto, quando se tratava de ciências. Não via meia polegada adiante do nariz.

Lápara ele as profecias do Caboclo era um evangelho.

Dir-se-ia que o preto velho lhe fizera coisa má, que lhe enguiçara o juizo.

O Caboclo tivera a rara habilidade de comunicar-lhe ao cérebro, que era de cera virgem e bem dura, as mais diabólicas sugestões.

Dizem que é a isto que os teólogos chamam: — possessão demoníaca.

Depois que se encontrara, pela vez primeira, com aquela guapa mocetona da porta da sacristia, o mafarrico tomara conta daquela alma invadida de feitiços e visões.

Não tinha parança nem sossego.

O sono era-lhe sempre povoado de sonhos, umas vezes horrorosos como os fantasmas de Cagliostro; outras, alegres e divertidas, em que ele via a felicidade com todo o seu cortejo de ilusões e esperanças, amor e glória.

Naquela madrugada de junho, em que o deixamos caminho da Várzea, onde morava o Caboclo, um minuano frio cortava que doía — exatamente como as navalhas do meu barbeiro.

Ao dobrar uma esquina, Elesbão tropeçou num vulto que jazia alí, estendido no chão.

O nosso homem deu um pulo para trás, como se estivesse pisado numa serpente, e estacou estarrecido.

Os cabelos enriçavam-lhe, como as piaçavas de uma vassoura usada.

O promontório, — quero dizer, — o nariz tomou proporções desusadas e movimentos insólitos, como se fora abalado por um terremoto.

O sangue esteve — quase, quase, — vai, não vai, — a coalhar-se-lhe nas veias.

Sentiu um nó na garganta, como se o estivessem enforcando pela parte de dentro.

Os olhos esbugalhados saltados das órbitas, seus naturais esconderijos, pareciam querer fugir-lhe da cara e apitar pela polícia.

Causa medo do homem que tem medo!

Imaginou estar adiante de um corpo morto, e já se sentia engasgalhado pela justiça, por suspeita daquele crime.

Assim permaneceu o pobre diabo durante alguns momentos estáticos, com as idéias embrulhadas, sem tomar uma resolução.

Por fim, recobrando o ânimo, fazendo das fraquezas, forças, desceu cautelosamente à calçada, a fim de tomar o meio da rua não tirando os olhos daquele vulto e experimentando na firmeza das pernas, no caso de alguma necessidade imprevista. Quando, — já do meio da rua, — enfrentou com a causa do susto que tivera, o corpo que ele supinha inanimado, moveu-se e erguendo-se à custo dos cotovelos, e uma voz muito sua conhecida lhe disse:

— Ah! É você, amiguinho? Pelas alminhas, dê-me uns cobres para eu ir comer no Mercado, ainda hoje não comi nada, assim Deus me salve. Só bebi um copo d'água e um pouco de café.

Era o Mutuca, devoto sincero e incorrigível ao deus Baco, que ali acamara para ali cozinhar a mona mais pesada de que há memória, e ali jazia naquele engano d'alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito.

Certamente a caninha era de boa qualidade, pois o tornara impermeável à umidade e ao frio daquela agreste madrugada do mês de junho.

Mas, o que ia fazer Elesbão à casa do Caboclo aquela hora?

Quem era o velhote muito sério e com cara de poucos amigos?

Quem era aquela mocetona, airosa e bela, que deixara cair o leque, por quem o Elesbão se sentira avassalado de cruel paixão?

Mau, amigos leitores se começam com perguntas, estamos arranjados.

Tenham paciência, porque temos pano para mangas.

Ainda agora estamos no princípio, azeitando as asas para o grande vôo acrobático, cheio de muitas reviravoltas, que estamos ensaiando.

Isto vai ser um romance crônico, infindo, como a saudade daquele trovador da Judia de Tomaz Ribeiro.

E, destarte, o leitor fará de conta que é a tal hebréia linda a que se refere a poesia.

Se, tu, meu amigo, já estiveres dormindo, como aconteceu à linda hebréia, o escrivinhador destas linhas se julgará em demasia recompensado, porque elas serão de utilidade pública.

Nestes tempos calamitosos que estamos atravessando, quem pode dormir e cantar é muito feliz.

Quem dorme, esquece; — quem canta, seus males espanta.

O enredo desta peça mágica há de ser tão enredado que ninguém mais o desenredará, nem mesmo que baixe uma pastoral do bispo, aconselhando que se desfaça semelhante embrulhada.

Daqui por diante é provável que comecem a ferver surpresas de fazer arrepiar os cabelos.

Feitiços, bruxedos, incêndios, tempestades, furacões, raios, coriscos, maravilhas, maravilhas, tudo aqui será representado em notas alegres, saltitantes, petulantes, como a música de Offenbach.

De vez em quando, algumas cenas de horror, pintadas a roxo-terra e oca, para não ser tão triste.

A tinta preta só será empregada nos tipos de imprensa, e isto mesmo contra a nossa vontade.

Se pudéssemos, estes trincolhos literários seriam impressos em cores vivas e variadas, como uma iluminação veneziana.

Está hoje muito em moda filiar-se o que se escreve a certas escolas, tais como: realista, positivista, sentimentalista, etc., etc.

Este nosso modesto trabalho não pertence a nenhum destes sistemas. Filia-se simplesmente ao grupo folhetinista, de que ninguém se importa, por ser filho das ervas e do acaso.

Isto vai ser um quadro chinês, visto aos pedacinhos para não cansar.

Adorado leitor, tem resignação e espera, Roma não se fez num dia.

Destes pratinhos serve-se pouco de cada vez, exatamente como o paté de foie gras.

Lembra-te que és pó, e que nós somos três e que em pó te tornaremos a paciência, se tiveres a pachorra de nos acompanhar nesta via láctea de acontecimentos espaventosos, pois já deveis saber que a láctea e a sacra, são as duas maiores vias que se conhecem. Um trabalho de longo fôlego, como este, tem necessariamente de enveredar por um desses caminhos.

Nós somos três.

É um impossível que desta tripeça não saia obra fina e asseiada.

Capítulo III

Livre e refeito do valente susto que o trambolho do Mutuca lhe causara, o Elesbão Soares estugou o passo, e, tomando uma rua escusa, na direção dos potreiros da Várzea, ia murmurando.

— Ah! se eu pudesse, se eu pudesse!... Mas como?

Por fim, procurou orientar-se.

Neblinava sempre, e de tal modo, que quase não se distinguiam os vultos a dois passos.

Em frente a um cercado de tábuas, dividido ao centro por um portão pintado de verde escuro, o Elesbão parou e, tateando, passando a mão espalmada, de cima para baixo e da direita para a esquerda, sobre as tábuas encharcadas, descobriu a aldabra como a qual bateu três vezes.

— Quem bate? Perguntou-lhe uma voz enrouquecida, denunciando o mau humor do locatário.

— Sou eu, o Elesbão da tia Maricota.

— Ahn! Está bom. Já aibro.

Seguiu-se o rumor de ferros a rangerem, de trancas retiradas, e o portão abriu.

— Já não esperava, seu Elesbão. Tão tarde, e com uma noite destas!

— Tive que fazer. Já começaram?

— Sim, senhor, há muito tempo.

— E tem muita gente?

— Pouquinha. Eh! Eh! polícia de seu João Afonso tem atrapalhado muito papai Caboclo.

Raio de jorná anda sempre falando. Parece que não tem mais que faze.

Enquanto falavam, o interlocutor de Elesbão, que não era outro que o velho Jerônimo, uma espécie de cérebro da caverna do Caboclo, tornou a fechar o portão, cautelosamente, e puseram-se ambos a caminho para o interior da morada.

Fizeram alguns passos, por um terreno de pântano visguento, úmido, que se pregava à sola das monumentais botinas do Elesbão, e dois minutos depois achavam-se diante de uma cortina da aniagem, tendo ao centro desenhada a carvão, uma grotesca cabeça de galo, e que os separava da sala das sessões do Caboclo. Um pandemônio a tal sala.

Imagine-se uma peça retangular, de três ou quatro metros de lado, um assoalho, sem forro, com as paredes afumaradas, cheia de retábulos esquisitos, figuras de monstros, nódoas de gorduras e cusparadas.

Tamboretes aqui e acolá carregadas de miçangas, cabeças de galos pretos, penas de aves, pedaços de ossos, caudas de boi, bonzos, relicários, corujas empalhadas, uma horrível miscelânea de objetos misteriosos, que punham um arrepio no fio de lombo dos iniciados de surpresas, nas tenebrosas práticas do Caboclo.

Ao fundo, uma mesa de pinho ensebada, mal tapada, com um jornal enxovalhado e, sobre ela, um figurão de três pés de altura representando o fetiche de que o Caboclo era, na terra, e fiel sacerdote. A beira, ao alcance da mão do sacerdos, que se acocorava a um lado, sobre um mocho, ajaezado com farrapos de cores faiscantes — uma cabeça de boi, seca, pelada, muito branca, denunciando meticuloso cuidado no seu tratamento.

O quadro era iluminado por uma lâmpada de lata. Onde se queimava azeite de peixe, presa a uma trave do teto. Três velas de cera de um amarelo escuro, quase brônzeo, disposta triangularmente na mesa do oráculo, de um modo que ao centro lhes ficava a cabeça de boi, completava esse sumaríssimo processo iluminativo, aliás muito adequado às circunstâncias e ao local.

O fumo que se desprendia da lâmpada e das velas tornava a atmosfera baça, pesada, opaca, úmida e de um tão acre cheiro de resinas, que nauseava.

Quando o Elesbão e o porteiro entraram na sala dos encantos, havia alí uns seis indivíduos, entre eles, o Maximiliano, doceiro afamado, de casaco curto e as calças muito esticadas, e um vulto de mulher completamente embuçado e de pé, à distância, como se lhe repugnasse a companhia de toda aquela gente tão hipoteticamente limpa, tão oposta à sua condição social...

Elesbão, ao levantar a cortina, piscou muitas vezes os olhos para habituá-los àquela luz de interior de mausoléo que cansava e, entre o receio, o enfado e o desejo, pondo um pé adiante e logo recuando, como quem quer mas não tem ânimo, aproximou-se da mesa.

Justamente, nesse momento, o Caboclo, resmungando palavras cabalísticas, passava e repassava nas mãos uma madeixa de cabelos, que algumas vezes, levava a altura de uma das velas.

Percebendo que se lhes aproximava um estranho, ergueu a cabeça e perguntou desabridamente:

— Que qué pecadô?

— Vim aqui, pai Caboclo, disse-lhe Elesbão, como te mandei prevenir para que faças uma consulta.

— Alguma pouca vergonha, não? remédio para paixão?

— Talvez.

— Pois, espere. Xererê está trabaiando noutra quiston.

E, sem cerimônia, entregou-se de novo à sua sobrenatural tarefa.

Elesbão conservou-se de pé, com as feições alteradas e já com muita vontade de se mandar mudar sem dizer ao que ali tinha ido.

Decorreu um quarto de hora ainda, e, por fim, o Caboclo, tendo terminado a consulta, virou-se para o Maximiliano, dizendo-lhe secamente:

— Moço há de vortá. Xererê diz.

O Maximiliano deu um suspiro de satisfação e esticou mais as calças.

Elesbão, após, contou o seu caso, narrando ao Caboclo as apreensões que o minavam sobre o amor que tão rapidamente o invadira pela rapariga da porta da igreja.

Fez-lhe o retrato da sua beleza, contou-lhe o incidente do leque, as disposições em que estava de descobri-lá e apanhá-la, fosse ela solteira, viúva ou casada.

O Caboclo, neste ponto atalhou logo, fazendo um gesto ao Elesbão que lhe chegasse o ouvido aos lábios e segredou-lhe, tão claramente como o se apreendido o Coruja.

— Se for casada, custa mais caro.

O Elesbão enfiou, vendo que o Caboclo, era um finório e se fazia passar por cassange, mas engoliu.

Enquanto o Elesbão fizera a narrativa ao Caboclo a mulher embuçada estremecera a miudo, abrira um pouco a manta para ouvir melhor, e não raras vezes, um fino sorriso misterioso lhe enflorara os lábios.

— Aquele é o senhor do leque, murmurou. O que ele virá aqui fazer, meu Deus?

— E eu que não posso sair agora!

O Caboclo, voltando ao seu papel de feiticeiro, engorolando as palavras, e entremeando-as de frases misteriosas, ouviu o Elesbão e disse-lhe:

— Precisa pecadô traze quarque cosa dessa muié para Xererê dize.

— Mas que coisa pai Caboclo?

Nesse momento, o Jerônimo levantando o reposteiro de aniagem, chamava:

— Nhan Pombinha! Carro está aí.

O Elesbão, naturalmente, voltou-se na direção ao gesto de Jerônimo e fosse pelo que fosse, tornou-se pálido.

A Pombinha não respondeu, nem se ergueu logo do lugar.

Esperou alguns instantes para que os olhares, que se tinham voltado todos para ela, se distraíssem.

Tinha um grande acanhamento em sair assim, diante de seis tipos que não conhecia, ela a Pombinha, tão festeja cá fora, na sociedade elegante.

De resto, podia estar sossegada. O esposo só poderia chegar no dia seguinte, pelo trem da tarde, e pelos seus cálculos, deviam ter apenas duas horas da manhã.

Está claro, e o leitor já percebeu que o que ela queria, sem a si mesmo o confessar, era ouvir o desenlace da consulta do Elesbão.

O Elesbão repetia a pergunta:

— Mas que coisa? Pai Caboclo.

— Lenço, camisa, meia, cabelo, coisa assim chegada ao corpo.

— Homem! chegada ao corpo? Isso há de ser-nos difícil arranjar.

— Pecadô não tem dinheiro?

— Sim, algunzinho.

— Pecadô dá dinheiro a papai Xererê (o Bonzo) e Caboclo arranja.

Pombinha, ao ouvir isto, levantou-se, não sabendo bem se devia indignar-se ou poupar ao Xererê o trabalho de fazer sugestões ao Caboclo, oferecendo ao Elesbão... não, isso não!

Mas, não era certo que ela também ali fora consultar o Caboclo sobre o seu encontro com o Elesbão? De que devia indignar-se ou de admirar-se? Ela, em suma, achava-se mais culpada, pois não se pertencia.

Agora, segredavam o Caboclo e o Elesbão, fazendo grandes gestos de entusiamos e calor. Que diriam eles? Inquiriu-se a Pombinha.

Em silêncio pesado, de subterrâneo, fez-se em seguida.

Desesperada, por não poder ouvir o que ciciavam Elesbão e o Caboclo, Pombinha foi dirigindo-se para o lugar da saída, atabafando-se ainda mais as mantas que a embuçavam. O Caboclo, interrompendo o colóquio com o Elesbão, voltou-se surrateiramente para o lado que passava a Pombinha.

— Já vai Nhanhã?

— Sim.

— Não esquece. Moço há de caí. Mande buscá chinelo pé esquerdo dele, prá trazê a Papai Caboclo.

— Está bem.

E pos a mão na cortina, rasgada secamente, com um gesto de nojo, para sair do antro.

Mas, nesse momento, um ruído estranho de vozes que altercavam em tom irritado, de golpes metálicos desferidos na madeira do cercado, de cães que acoavam ao longe, e cujos latidos acordavam os ecos, de apitos que trilhavam como um exército de grilhos monstruosos, um ruído confusamente feito de tudo isso chegou aos ouvidos da assembléia do Caboclo, que com os demais se pos de pé, estarrecido, pálido, de olhos esbugalhados.

Pombinha, gelada, deixou cair a cortina, que, naquele instante arregaçara...

O ruído crescia, avolumava-se, tornava-se, as vozes mais distintas, percebiam-se mesmo algumas frases, como Hei de acabar com esse canalha! Vai tudo para o buque! e outras, igualmente ameaçadoras.

Os fregueses do Caboclo parecaim fincados no chão como postes.

Por fim, uma massa informe de homens fardados e a paisana, alguns de chanfalhos em punho, trazendo pela frente o Jerônimo já muito amassado a soco, irrompeu na sala de sessões.

Só então o instinto de conservação, o desejo veemente de evitar a caçada da polícia inspiraram aos fregueses do Caboclo e a ele próprio a iniciativa de se porem a salvo.

Num abrir e fechar de olhos, os fregueses de Xererê — a Pombinha primeira de todos, procuraram as duas únicas janelas que deitavam para os fundos da casa, e de atropelo, embrulhados um com os outros, sem atinare mais com que faziam, galgaram os peitoris, e correram em direção aos casebres vazios que por ali havia.

Nem a escuridão plúmbea da noite, nem a neblina, nem a lama do terreno, os impediu de procurar um abrigo.

A esse tempo, os policiais desabavam na sala das sessões, esquadrinhando todos os cantos, apreendiam as miçangas, os enguiços, os bonzos, a madeixa de cabelo, tudo, entre os gritos de Jerônimo: Vovô Xererê me salve! Vovô Xererê me salve!

Não vendo ninguém na sala, os policiais se espalharam em várias direções, procurando os fugitivos, por toda a parte.

O Maximiliano e outro sujeito sem saberem como, encontraram-se entalados dentro de um quartinho ladrilhado de tijolo sem o menor resquício de mobília. E acantoaram-se no lugar mais esconso, acontoaram-se mesmo tanto, que Maximiliano exprobava o companheiro, fazendo sibilar muito os sss:

— Moço, não me amachuque asss calçasss. Meu Deus! Esteja quieto! Ah! Minha Nossa Senhora!

Por outro lado, a Pombinha e o Elesbão, sem se conhecerem ainda bem, como já mostramos, e azoinados pelo terror, atropelados pela perseguição que lhes fazia um policial mais afoito e mais conhecedor do terreno, meteram-se num grande caixão que servia para guardar milho, à cocheira contígua.

Dona Pombinha entrou primeiro, apanhando os vestidos e as mantas enrolando pudicamente com elas as pernas, Elesbão segui-a, encafuando-se como poude, mas, como tinha os pés muito grandes, deixara-os entalados entre a tampa e caixão de milho, bracejando lá dentro aos encontrões com dona Pombinha.

Por desgraça, quando ambos tinham já arranjado o melhor meio de se estirarem, o Elesbão tratava de puxar os pés das talas em que se pusera, o policial chegava, trepava sobre o caixão, esmagando as canelas do Elesbão, e batendo com os costados da espada sobre o móvel, bradava:

— Ah! Ah! sempre os apanhei!!

Capítulo IV

Atraídos pelos gritos de dor do mísero Elesbão Soares, trovejados numa verdadeira escala ascendente, e pelas bravatas e furibundos panásicos do policial, e não tendo aliás encontrado já os outros meliantes, o comandante e o resto da sua escolta dirigiram-se ao telheiro da cocheira.

O comandante mandou buscar luz, e, fazendo cessar o fandango do soldado, abriu a tampa do caixão e olhou curiosamente para dentro.

O Elesbão, que tinha ficado com os pés de fora e deitado de costas sobre o milho, não tendo tido tempo de arrumar-se, e, tendo ficado preso naquela posição, com as atrozes dores que sofrera, rebolara-se tão doidamente, que a sua elegância estava totalmente desfeita. Saltara o milho por todos os lados e o desgraçado tinha por entre os cabelos, no rosto, na roupa, por dentro da camisa.

O gorgulho, que era abundante, começava a mover-se, o que afligia-o em extremo.

Uma nuvem tênue porém abundante de pó, levantada nos seus pulos, envolvia-o e Nhan Pombinha, num canto do caixão, muito metida no meio, e quase sufocada pelo pé e pela manta que cobrira a cabeça logo que sentira abrir-se o caixão. O comandante ao princípio não distinguiu nada, depois de pouco a pouco, foi-se elevando o pé, então mostrou-se-lhe o quadro descrito. Foi uma gargalhada geral que o respeito não pode comprimir. O Elesbão, sentindo os gorgulhos no rosto, quase a entrar-lhe pela boca e pelo nariz,pos-se a cuspir, assoprar, a fungar forte.

Nham Pombinha, pelo seu lado, e na posição em que estava, sentia também a bicharia a caminhar-lhe pelas pernas, e meter-se-lhes pelas meias a dentro, e, metendo a mão por debaixo das saias, com a sua rara habilidade de caçadora de pulgas, conseguia apanhá-los; mas eram tantos, tantos, que era já um inferno atendê-los.

— Salte cá para fora, ordenou o comandante da polícia, em tom ríspido.

O Elesbão moveu-se, moveu os pés, e um pouco desengonçado, pouco firme nos tornozelos, sempre soprando e gemendo, conseguiu sair. Pos-se de pé e sacudindo das suas belas roupas uma grande porção de milho, gaguejou logo:

— Não me prenda! Não me prenda!

— Cale a boca. Responda só o que eu lhe perguntar.

E o comandante fez um breve interrogatório, passou-lhe um grande sabão e fez-lhe saber que havia de dar um tanto para o Asilo de Mendigos, senão iria dar com as costelas no xadrez.

— E aquela madama, quem é? perguntou.

O Elesbão aditou logo que não sabia, que nem nunca a tinha visto mais gorda.

— Saia, saia, também.

Nham Pombinha bem percebeu que era com ela, mas fez-se desentendida.

— Não ouve? saia ou mando puxá-la por uma perna.

Levantou-se a dama, atabafada na sua capa e com o derradeiro gorgulho nas unhas.

— Quem é? Como se chama?

E dando um pequeno puxão à capa, descobriu a cabeça de Nham Pombinha.

O comandante estacou estupefato.

Conhecia, conhecia!

— A senhora! A senhora aqui?

O Elesbão quase caiu; abriu a boca de forma que quase se lhe via no estômago os restos da ceia; o nariz quase arrebentou com a força do sangue, e arrancando do fundo do peito um trêmulo sentimental, disse:

— É ela! Eu bem adivinhei aqui!

E querendo bater no coração, coçou desesperado o umbigo.

Nham Pombinha pediu ao comandante duas palavrinhas em particular.Concedido. Tanto chorou,prometeu e jurou que o comandante, que era um cavalheiro gentil com as damas, prometeu levá-la à casa e ser discreto sobre o caso.

Olhou fito para o Elesbão, transfigurado, e disse-lhe:

— Se você amanhã não entregar 50$000 para o Asilo, teremos que conversar.

E fazendo um sinal sairam os três.

Cá fora já a sua gente tinha metido para dentro do carro de aluguel de Nham Pombinha, toda a mobília do culto.

Era um confusão de cabeças de boi e miçangas e molhos de ervas, que enchia o carro.

O comandante, sem indagar, mandou tocar para casa da guarda, distribuiu a patrulha, que não pudera encontrar os outros crentes, e, oferecendo o braço à senhora, começou a andar, seguido do Elesbão.

Recaiu a pouco e pouco tudo no silêncio. Vinha rompendo o dia.

Começaram então a surdir os fugitivos: o Caboclo, o Jerônimo, o Maximiliano e os outros. E apesar de assustados, puseram-se a rir.

Escapos! Escapos!

Capítulo V

Esta Nham Pombinha era uma verdadeira mulher — homem ilustrado. Que termos seletos! Que pureza no frasear! Que elegância no dizer.

Apreciemo-la a um poucochincho na vida íntima. Ela mesmo o dizia:

Pela manhã, tomava sempre um frágil pires de elementos de mingau.

Tomava ao almoço, quentes e chupadinhos na casca, dois ou três produtos espontâneos da esposa do galo!...

À noite, como o chá, roía uma ou duas tênues imponderáveis como o sonho de uma virgem e a que o vulgo chama de torradas!...

De uma vez, estando o marido doente, ao médico que viera examiná-lo disseraruborisando-se toda, no fogo da modéstia:

— Senhor doutor, o meu marido é muito superabundante; qualquer invasão de orvalho matutino nauseabunda-lhe os intestinos; quando dorme, fica incógnito e pode-se fazer dele o que for aplausivo!

Ajunte-se a isto que não cosia, porque o frio da agulha causava-lhe tremuras, e quase teremos — pelo lado da moral — a sábia Nham Pombinha, casada com Cirilo Pereira, velho, com bons bens de fortuna e um ciúme Otélico da sua cara metade, que era uma gastadora terrível.

Além disso — diga-se a verdade — Nham Pombinha era bonita com a sua cutis morena, os seus olhos negros, os seus dentes brancos e um impertinente de um buçozinho, que era mesmo uma tentação. Muito dada a leituras românticas, depois de casar com o Cirilo velhusco, cheio de tosses e reumatismos, gasta raiz para a exuberância daquela árvore viçosa, Nham Pombinha, com a prática da vida, começo a sentir que aquilo não devia ser aquilo assim como era, e calculava que tinha sido roubada — no seu modo de entender — porque, de fato, de nada tinha sido despojada, porque o Cirilo somente em mente seria homem para aquela violência...

Moleirão! Pacóvio!

Cirilo Pereira, que em tempos idos fora da pá virada, acabrunhado com os anos e com os infrutíferos esforços que o aniquilavam, pra contentar Nham Pombinha, dava-se a perros com os freqüentes desastres, de que a sua escalavradíssima organização o arrastava, mas vaidoso, dava-se a uma esquisita sobranceiria, quando acompanhava a mulher na rua, ao teatro, a uma festa qualquer, onde ambos, pelo contraste, deviam atrair olhares.

Morava com seu pai e madastra o Hilário, um rapagão de maneiras sacudidas, porém delicado, instruido e desembaraçado. Viajara em tempo pelo Rio da Prata e por quase toda a costa do Brasil, e por fim acentara o vôo, vivendo fartamente de uma agência de loterias, que já tinha criado fama pela abundância de prêmios, que vendera à freguesia.

O Hilário opusera-se ao casamento do pai. Mas, depois de consumado, não mais relutou e deixou-se ficar em casa, vivendo sob o mesmo teto, em contato com o novo casal.

O rapaz com seu rápido dicernimento conheceu logo na madrasta, tão nova e bonita, um temperamento de por campainhas à cantela e notou mais a sua mania dos romances, pois palavreado, soi distant, chique, e concluiu, achando-a iminentemente frívola. Para o diante foram-se acentuando umas tantas nuvens fugaces naquele rosto moço, que por fim, suportava, bem se via, a contragosto, as carícias babosas de Cirilo.

A apreciação desse fato era então patente, quando o velho, por causa das tosses ou reumatismos, não podia acompanhar a jovem mulher e a espinhosa incumbência era dada a Hilário.

Madrasta e enteado! Era quase pateta se não fosse verdadeiro, este modo de nomear aquelas duas criaturas, quase da mesma idade, que se falavam de longe por pequenos gestos, que se compreendiam por simples olhares, quando ao terminar um concerto, um baile, uma festa, que os tinha separado, eles se procuravam por ntre confusão natural de um fim de reunião.

No entanto Hilário era sempre o mesmo rapaz, correto, respeitoso e amável.

Ligados, na intimidade, ele julgando-a superior a si, em mútuas desconfianças e reservas, Hilário, por vezes contava-lhe as suas estroinices, pândegas furiosas, depois as ceias livres com amigos, em sala reservada de hotel; serenatas a Marílias da cor jambo e que em geral terminavam em rolo provocada por Otelos de trunfa encarapinhada e tamanco bordado; namoros alheios e seus; os seus pares prediletos de valsas. Enfim, aquele rapagão senhor de si, fazia a sua madrasta, um tanto, a sua confidente.

Mas não passava daí, se ve bem. Moralmente, considerava muito inferior, pela sua posição, de mulher de seu pai, sua madrasta, colocava-a num alto pedestal de respeito ou melhormente de respeitosa indiferença.

Notava, calculava mesmo, compreendia até, com a sua experiência de rapaz calejado na vida, o que poderia haver de difícil na vida de seu pai e de sua madrasta...

Começou a notar que esta, as vezes, envolvia-o em longos olhares, apertava-lhe fortemente a mão; que ao sair punha-le sempre na lapela uma flor qualquer; que quando ele voltava, ela arrancava a triste rosa murcha e guardava-a no seio. No seio!

Por fim, uma noite em que estavam sós, depois do chá, depois de animada palestra, quando se levantavam da mesa, quando se despediam, — até amanhã — quando se afastavam... ela, Nham Pombinha, sua madrasta, chamara-o... tornaram a aproximar-se... ele animado e ela, ela excitada, nervosa, juvenil, a carne irritada... saltara-lhe ao pescoço e beijou-o na boca... furiosamente, brutal até!

— Nham!... rugiu ele, convulso, aterrado.

Um pigarrear grosso no corredor chamou-os à realidade.

Cada um fugiu para o seu quarto. Cirilo Pereira entrava.

Hilário andava como apatetado. Que som a de cruéis raciocínios se atropelava no círculo de análises da sua posição! queria ficar, queria fugir, morrer, matar, dizer tudo, tudo ocultar! Que suplício!

Que! Pois uma mulherzinha daquela ordem, uma parvalhana, uma frívola, uma pretenciosa, havia de mangar com ele, mais que com ele, com o seu pai!

E... e... no entanto a eterna congestão do sangue esmagava-lhe a razão, enfreiava-lhe os brios, enlouquecia-o! De repente resolveu-se: foi passar duas semanas em Porto Alegre, embarcou e seguiu, pretextando negócios.

Depois de dizer adeus a Cirilo, quando entrava no seu quarto para levar a mala ao carro, que já estavam à porta esperando, lá encontrou Nham Pombinha, muito atarefada, pondo em ordem o serviço do lavatório.

Não se falaram. Ele pegando a mala, sopesou-a e, na porta do quarto, voltando-se, disse-lhe: — Minha senhora, até a volta!

— Hilário... olhe... quero abraçá-lo... eu...

— Até a volta!

E, rodando nos calcanhares, saiu rapidamente.

Foisó então que, roída por aquela paixão, que era natural, mas que era descabelada, foi então que Nham Pombinha resolveu-se ir ao Caboclo, o mágico conselheiro, para estas farofas intrincadas.

Contou-lhe o caso; pagou-lhe generosamente o silêncio e a consulta. O bonzo disse-lhe que primeiro era preciso acabar o ciúme de Cirilo e depois tratar do resto. Era preciso paciência. E deu-lhe um pequeno frasco, contendo sabe Deus o que, e recomendando-lhe de arranjar meio de arrumar com aquilo as colheres, no estômago do homem. Dito e feito. Nham Pombinha começou a aplicar o seu remédio que produziu o salutar efeito de provocar cólicas terríveis em Cirilo Pereira e uma sonolência contínua.

O pobre homem estava ficando verde e nunca Nham Pombinha fora com ele mais dengosa do que então.

Aconselheu a escrever a Hilário, dizendo-lhe que viesse, porque enfim, doente como se achava sempre estaria mais acomapnhado.

Passaram-se mais dos quinze dias de que o Hilário avisara precisar.

Acabara-se a droga e Nham Pombinha dispunha-se a ir, novamente, ao Caboclo, quando os jornais falaram de certo fracasso provocado por este, então resolveu esperar.

Cirilo cada vez mais derreado resolveu-se a fazer uma pequena viagem provocada por seus interesses de fora.

Nham Pombinha aproveitou a partida do marido e nessa mesma noite dirigiu-se ao sacerdote do Xererê que deu-lhe mais remédio, e como já se podia ir mexendo com o moço, requereu-lhe um chinelo deste, para um certo encantamento.

Nessa noite, por obra do diabo, é que a polícia havia de lembrar-se de cercar a casa do mandingueiro!

Ai amor, a quanto obrigas?

Saindo da casa do Caboclo, o comandante de braço com Nham Pombinha e o Elesbão Soares atrás, ainda atormentados, ela e este, pelos importunos gorgulhos, veio o grupo caminhando para o centro da cidade, silencioso e mutuamente contrafeito.

Logo adiante, numa das esquinas foi o comandante abordado por uma patrulha, que o chamou e deu-lhe parte da qualquer coisa de urgente, porque ele, voltando-se para a senhora,pediu-lhe muitas desculpas de não poder acompanhá-la mais além, porque tinha negócio importante que o chamava, e que, como a circunstância da ocasião era delicada, rogava-lhe deixar acompanhar por aquele senhor, (e apontou o Elesbão) porque enfim sempre era um homem...

— Pois não! Pois não... atalhou logo este.

Despediram-se todos e cada grupo tomou rumo diferente.

Nham Pombinha e o Elesbão Soares!

Ele atormentado, pelo seu amor, aqui pelo seu braço, em carne e osso.

Ela revendo nma memória o Hilário, robusto, de ancas largas e grandes ombros.

E ambos, iguais perante o gorgulho, parando a espaços, para tirar algum mais impertinente, que dirigia a marcha muito imprudentemente...

Capítulo VI

— Pois sim senhora; minha senhora: Olhe que sempre escapamos de uma!... Nham Pombinha olhou de revés para o seu companheiro e continuou calada e apressando o passo.

Era esquisito até, se se pudesse, a difusa luz da madrugada, ver aquele par que caminhava rápido e sem ter o tom de intimidade que aproximasse os dois retardados.

— Minha senhora, olhe que, para lhe ser agradável, já venho desde a outra quadra de cotovelo torto a espera de seu braço.

— Obrigado. Não se incomode, senhor..., como é a sua graça?

— Elesbão.

— Só?

— Soares, seu criado, lesto e agudo para comer e para tudo.

— Ah!

— E a senhora?

— Ora eu... eu tenho um nome muito feio.

— Cuidado a sargeta. Dê-me a sua mão. Dê um pulinho. Isso! Ai! Ai!

— Por quem suspira, seu Elesbão?

— Ainda pergunta, ingrata! E os gorgulhos? olhe que não me deixam parar...

— E a mim também. Mas, seu Elesbão, o senhor vai ter paciência, me de deixar antes de chegar à minha casa.

— Por quem me toma a senhora? Não, tenha paciência. Enquanto não a entregar sã e salva não descanso.

— Mas lembre-se que alguém pode ver-nos juntos. E depois o que não diria de mim o mundo?

— Ah! minha senhora. Mas eu gosto tanto de si! Desde que a vi, não mais dormi, parece que nem comi; sinto aqui, no coração, um coisa que me trepa e que me desce e que me deixa embasbacado.

Para que é que a senhora é tão mazinha! Pois não tem reparado em mim? Não me conhece? Pois não me vê sempre passar pela sua porta, quando a senhora está na janela, e voltar-me duas e três para trás?

— Seu Elesbão! Silêncio! Eu sou uma pessoa séria: o muito, o muito que lhe digo é que arranje um pretexto para poder ser apresentado lá em casa.

— Quem será aquele que vem lá? É melhor nos escondermos neste portão.

— Nem pense nisso! Vamos.

E assim foram Nham Pombinha e o Elesbão, discreteando até próximo à casa de residência daquela.

Foram felizes, pois não tiveram mau encontro algum, algumas carroças de verdura que passavam para o Mercado, alguns operários madrugadores que iam para o serviço.

Contudo, o Elesbão procurou ser eloqüente e atirou-se a trechos de discursos, com colorido onça, que a Nham Pombinha aparava com a sua costumada retórica.

Isso ainda mais o embeiçava!

E Nham Pombinha, que só via o seu Hilário, defendia-se tanto mais vigorosamente quanto lhe servia de escudo o seu derriço pelo enteado.

À porta da rua, então, o Elesbão foi patético, tocou ao sublime, chegou além do... sublimado corrosivo: impetuoso e ardente, arrancou da Pombinha o lenço, beijou-o, fremente, e disse altivo:

— Ingrata! Já cá tenho uma lembrança!

O feio era que o triste lenço tinha num dos cantos, bem patente, em letras garrafais, o nome — Cirilo Pereira — mas o Elesbão nem reparou.

Nham Pombinha, com mil cautelas, abriu a porta de sua casa, e entrou e cerrou-a novamente, de vagarinho, de vagarinho, só por atenção com a criada e, sobretudo, por causa desta.

Sempre cautelosa, abafando o ruído dos passos, distinto o vulto na semi-claridade que já entrava pela bandeira da porta, encaminhou-se para o seu quarto. Aí a escuridão era profunda.

Com a infinita delicadeza, tateou o castiçal e os fósforos acendeu a vela e começou a fazer a sua toilete de dormir, tendo previamente guardado num canto da gaveta da cômoda o elixir dos milagres. Deitou-se.

Apagada a luz, nervosa da caminhada e das diversas sensações, filhas das peripécias da noite, não podendo já dormir, pôs-se a cismar.

O que faria o Hilário, a essa hora? Coitado. Passou talvez a noite, pensando nela Nham Pombinha, e, todo amor, toda paixão, estava se consumindo, o mísero. Quem sabe? Alguma patuscada como ele costumava fazer aqui... Ingrato! Mais não, era impossível, só nela pensava.

E o Cirilo?

— Ora, para o Diabo que o leve. Não veio me apoquentar, ela bem não queria. E então? Agora um velhadas daqueles, enrugado, sem dentes, e todo a se derreter com a gente. Era até a caçoada das outras. É... é... mas era sempre a mamãe a atazanar, a martelar, porque era um bom partido... porque era rico... porque era isto, porque era aquilo! Eu lá preciso da riqueza dele?!... Eu queria era outra coisa...

Ah! mas o Caboclo tinha afirmado que o remédio era bom.

Nham Pombinha não era uma perversa; não se julgue que aplicava a beberagem do mandingueiro com o fim criminoso.

Se ela julgasse que a droga era nociva, não a daria, com certeza; somente acreditava que a bebida era encantada.

Aí está.

Não que pudesse dela resultar uma desordem no organismo, um lento envenenamento, uma perturbação profunda.

Se qualquer caso deste aparecesse, seria originado doutra cousa, nunca do remédio do Caboclo.

Dando as suas colheradas a Cirilo, que fora se tornando adoentado, nunca julgou que ela é que provocava este estado; não: seria a idade, achaques velhos, alguma imprudência — isto é, se provassem que aquela droga era veneno, horrorizar-se-ia do seu procedimento; mas, como só acreditava na mágica da mesma porque o feiticeiro é quem tinha dado, aumentou até a dose inocentemente.

E embuida dos preconceitos das supertições, de mil babuseiras, era uma crente cega e decidida.

E aliava em si os dois extremos: inocente criminosa, e ignorando que o era.

Estava já clareando o dia. A luz entrava, viva, pelas frestas das janelas.

Nham Pombinha cismava ainda, jamais entorpecida, já quentinha nas suas roupas, acariciada pelo silêncio: ia-se adormentando.

E aquele Elesbão? Quem seria? Ela bem o conhecia, já o tinha notado mesmo na insistência, tanto que uma vez o Cirilo chegou a incomodar-se e quis tomar-lhe uma satisfação. Depois na igreja, aquele dia, aquela história atoa do leque.

A imaginação galopava.

Via-se viúva. Casava-se com o Hilário. Mas... mas não. Ele não queria. Oh! com certeza. Ah! mas arranjava-se tudo. Era com o Elesbão. Mas o Hilário zangava-se. Como seria? Como não seria?

E abatida, vencida pelo sono no último resto do pensamento, via-se numa sarabanda desesperada, todos de mãos dadas, no escuro: Hilário, Elesbão, ela, o Cirilo, o Caboclo e os outros, na terra do encantamento, vendo cousas nunca vistas.

Alto dia já. A criada batia à porta do aposento. Nham Pombinha, acordando espantada, abriu a sua janela que deitava para a área e, ao voltar para a cama, estacou: via a sua manta cheia de pó de milho e alguns grãos ainda presos às franjas, as suas delicadas botinas, à barra de seu vestido, com uma crosta grossa de barro, dois ou três grandes pintos de sebo infecto. E tudo amarrotado.

Aprontou-se e saiu para o almoço, passando a chave na porta. Depois arrumaria tudo...

Capítulo VII

Cirilo Pereira, o venturoso marido de Nham Pombinha, chegado, na tarde anterior, do Rio Grande, lia comodamente repoltreado numa preguiçosa a folha de sua predileção, enquanto a esposa, debruçada sobre o peitoril da janela, regava, negligentemente, uns jarrões com viçosíssimas flores.

Lindíssima, apesar de um pouco fria, aquela manhã de junho, que Pombinha afrontava, toda contente, com as faces muito coradas, uns fiozinhos de cabelo em desordem, na testa, aparentando grande preocupação por aquela delicada tarefa.

Entrou um criado trazendo o café com leite do costume, lardeado de biscoitos de soda, com os quais o estômago de Cirilo dava-se como Deus com os anjos.

Cirilo tomou uma das xícaras, pondo-a sobre a mesinha ao lado da preguiçosa, enquanto sua mulher, pousando o regador a um canto da janela, aceitava a outra xícara, que o criado lhe oferecera, antes de sair por onde entrara.

Chegou ela aos lábios, delicadamente, à borda da xícara que tinha entre os delgados dedos e sorveu alguns goles. O velhadas tomava o seu quinhão sorvendo o líquido com estrondo, com os beiços em bico, e atulhando a boca de biscoitos, como se eles o estivessem ameaçando de fugir. Reatou, entretanto, a leitura da gazeta, balançando a cabeçorra calva e escalavrada nas passagens em que o articulista falava mais de perto às suas inclinações. Naturalmente, o nosso homem se estava abarrotando de política, em algum artigalhão massudo, em que o governo tomava a sua cossa e a oposição era guindada às nuvens, ou vice-versa. O tema eterno, desde Adão e Eva, que mais felizes do que nós, viveram num tempo em que não havia jornais.

Decorreram alguns minutos. O honrado casal acabava precisamente, de chupar a última gota de café, quando, subitamente, Cirilo, arregalando os olhos e limpando as migalhas de bolachinhas de soda, que lhe tinha agarrado ao bigode, exclamou:

— Oh! Oh! Cá temos um novo caso de feitiçaria. E parece que desta vez entraram na coisa pessoas de estadão.

Nham Pombinha estremeceu, levemente, mas dissimulando com muita arte as suas apreensões, perguntou:

Feitiçaria? Onde?

— Ora, ouve lá:

Cirilo dobrou o jornal ao meio, alisando-o sobre a coxa, pô-lo em pé, ajeitou à luz que entrava pela janela e leu.

O jornal fazia uma narração muito estirada dos acontecimentos ocorridos, havia dois dias, em casa do Caboclo, não esquecendo de apimentá-los com enxerto de episódios de um grotesco pantagruélico, principalmente, nas cenas do do caixão de milho, em que figuravam o Maximiliano, o Elesbão Soares e Nham Pombinha.

Esta fazia prodígios de dissimulação para conter-se, sentindo, de quando em vez, desfalecimentos, passando a palidez à vermelhidão, desta à palidez, e, sobretudo, experimentando, veementes desejos de sair da varanda, sem dar a perceber ao marido, que o fazia para não ouvir o resto daquela impertinente narrativa.

— Que te parece, hein? Isto é uma patifaria, bradava o Cirilo indignado, é uma coisa para a qual todo o rigor da políria seria pequeno! Coisa assim! Ora vejam: este diabo do Caboclo a dar sessões de feitiçaria, a que horas da madrugada, para seduzir a gente honesta, e quem sabe para dar cabo dela!

E quem será a figurona de que fala aquii a gazeta? Ah! mulheres! mulheres! Ve tu, onde se foi esta meter. Olha, se fosse cá gente minha, amalgamava-lhe as costelas, palavra de honra.Lá isso era com certeza. No século XIX! É incrível!

A Pombinha calada, fora de novo à janela, e disfarçava remexendo nas flores, ao acaso.

Estava muito quieta. Uma vez que não se citavam nomes, o negócio era outro.

— E o negralhão? Ora dá-se! Quem lhe fizesse um feitiço!... O diabo foi terem escapado todos, e não se sabe quem é a tal figurona. Não entendo porque se dão dessas contemplações. Se fosse uma pobre qualquer, a gazeta punha-lhe o nome comtodas as letras. Não concordo. Cá comigo, era ali! O nomezinho todo, para escarmento. Que achas?

— Sei lá! Não me meto nessas coisas. Se a figurona, como tu dizes, foi a essa casa suspeita, talvez tivesse as suas razões.

— Razões! Razões de cabo de esquadra, com certeza! Não há razões que legitimem a ida de uma mulher honesta à casa de um feiticeiro. Pau é o que falta amuita gente boa! Pau é o que é!

E o Cirilo remoeu o seu mau humor espetando um charuto na boca e acendendo-o com a mão trêmula.

— Olha, vai lá dentro e manda-me trazer o conhaque. O diabo da notícia fez-me suores frios.

Aquilo pareceu à Pombinha uma inspiração celestial. Com rapidez do raio, seu cérebro abriu-se para colher este pensamento tremendo:

E, se eu pusesse o licor do Caboclo dentro do conhaque...?

Era questão de dez gotas. Não precisava de mais para os primeiros efeitos — mas, se sucedesse algum desastre? Se, em vez dos resultados com que o feiticeiro contava, o Cirilo ficesse, como tantos outros, idiota chapado, ou tivesse uma síncope, que o levasse para melhor mundo ou ainda, fosse acometido de uma paralisia que a incomodaria, a ela Pombinha, para o resto da existência?

Era preciso cautela.

Com essas idéias desconcentradas a tumultuarem-lhe no cérebro, trêmula, agitada, sem saber bem o que fazer, Pombinha dirigiu-se para o interior da casa afim de fazer servir ao marido o conhaque que pedira.

Mandou trazer o precioso licor da dispensa, encheu com ele um cálice, e tirou do corpete do vestido o vidrinho misterioso que lhe fornecera o Caboclo, e que até aí não deixara. Desarrolhou-o, e olhou em torno para assegurar-se de que ninguém a espreitava.

Não havia nada suspeito. A casa estava toda entregue ao movimento das primeiras horas da manhã, e cada criado ocupava o seu posto, na faina de costume. Aos ouvidos de Nham Pombinha chegavam apenas o chilrear da passarada no páteo e o batucar surdo dos bifes na cozinha.

Entretanto, a esposa de Cirilo hesitava ainda, temerosa dos resultados da droga do Caboclo.

Eis, porém, que a voz do marido se fez ouvir da varanda.

— Oh! Pombinha! Não vem esse conhaque?

Então,ela resolveu-se. Curvou-se um pouco agachada, aproximou o vidrinho à borda do cálice, vazou no conhaque dez gotas bem contadas de um líquido cor de topázio.Muito parecido com o licor da predileção do Cirilo, e que, ao contrário do que Pombinha esperava, não mudou de cor.

Em seguida, tomando o cálice entre os dedos, sacudiu-o, circularmente, para misturar bem as duas substâncias: po-lo sobre um pratinho de vidro lavrado, e dirigiu-se à varanda.

O Cirilo estava já na página dos anúncios.

Pombinha acercou-se do marido, ainda não reposta das comoções que, havia há poucos minutos, a tinham assaltado, de modo que o cálice tilintava, levemente, sobre o pratinho de vidro.

Mas o Cirilo não reparou nisso, não por estar a cemléguas de suspeitar das arteirices da esposa, como pelo interesse que lhe despertava a leitura da folha.

E sem cerimônias, de um só jacto, atirou o conhaque às guélas, engolindo-o com impassividade do habitué.

Deu uns estalinhos, chegando a ponta da língua ao céu da boca, limpou o bigode, dobrou depois o jornal, e levantou-se, abrindo os braços e esticando-os para os lados, num espreguiçamento deleitoso.

Por último, alisando com as pontas dos dedos as faces de Pombinha, e aludindo ainda à notícia da sortida policial na casa do Caboclo, disse-lhe:

— Tu, ao menos, não és capaz dessas tolices, hein? Sempre ajuizadinha.

— Eu? Ora, que idéia extravagante?

E sairam ambos, cada um para o seu lado.

Ele, dirigindo-se ao escritório, onde ia trabalhar com o guarda-livros; ela para o interior da casa, para ativar os preparos do almoço.

Davam as nove horas.

A passarada do páteo continuava a chilreae, sob a luz diáfana de um sol puríssimo de inverno.

Um papagaio amestrado, no passadiço envidraçado, perguntava pela décima vez, quem ia à caça; e da cozinha com um perfume de quitutes bem adubados, vinha sempre o rumor surdo do batucar de bife.

Capítulo VIII

Nessa mesma tarde — como o diabo as arma! nessa mesma tarde, assim pela volta das cinco horas, depois de competentemente jantada e deixados em casa à criada as recomendações para o dia seguinte, a D. Claudina de Morais, acompanhada de sua jovem filha Doricélia, resolveu-se a ir fazer uma visitinha à sua vizinha, a Nham Pombinha. Contos largos.

É bom saber-se que Doricélia era uma verdadeira pamonha, uma verdadeira posta de carne ensacada em vestidos sempre de cores variegadas, como um pano de teatro.

Mole, pesadona e um tudo nada de língua pesada, tinha uma paixão formidanda pelo Hilário, e como o rapaz, amável sempre, cumprimentava-a como vizinha, quando saindo ou entrando em casa, passava-lhe pela janela — a menina foi cozinhando do gordo do coração — aquela constipação amorosa, com um calor total, que a acreditar-se D. Claudina, mais um pouquinho de fogo na máquina, era negócio para temer explosão.

D. Claudina, velhota, frescalhona e andeja, puladinha, uma como cobra mal matada, assim que percebeu o derriço da pequena, aí língua para que te quero! não mais descansou.

Via Hilários em todas as esquinas e todas as horas: bizarro, em toiletes claras, sisudo, em vestuários pretos, sob desabados chapéus, de botas russilhonas, e lá — longe — caminhando de pressa.

Com uma volubilidade espantosa, D. Claudina, variando, repetia seguidamente o mesmo estribilho:

— Não sejas boba, menina; não deixes escapar> Olha, logo jogamos o víspora, e se queres mandamos convidar o pássaro. Aquilo sim, aquilo é que te convém... Aveza... e é um homem... Eu to digo... Disso conheço eu... Não vez o teu pai? quando mal se aprecatou... zas, traz, estava seguro! Repara bem, filho único, pai velho, madrasta moça. Tu verás... Mas também tu ficas aí como água morna. É preciso ser jeitosa. Vamos saindo da concha.

— Mas, mamãe...

— Psiu! Psiu! Cala a boca. Mas eu sei um meio seguro que me ensinaram. Não vês, como o teu pai é caseiro? Ah! Ah! é um segredo, é um segredo... Eu sei bem quem já decidia isso enquanto o diabo esfrega o olho: era o Caboclo, era, aí está. Te garanto. Juro.

— Mas então, a gente vai se meter na casa de um Caboclo? Acudiu com uns resquícios de bom senso e embatucada Doricélia.

— Vai, sim; por que não?

— Mas a mamãe já não disse que tinha uma figa milagrosa de dente de jacaré?...

— Tenho, sim tenho. Mas de que serve, não dirás; seu Hilário não vem cá em casa? É preciso que ele venha para se fazer as três cruzes nas costas... Arranja, arranja-te!

— Mas como há de ser?

— Pois, vamos visitar o seu Cirilo.

— Mas nós nunca fomos lá.

— Não faz mal, vamos agora.

— Mas...

— Vamos! É o verdadeiro. Olha que daquilo não anda aos ponta pés; mete-te a namorar algum bigorrilha que me há de vir comer os olhos da cara... Queres? Vai te vestir!

— Mas, como há de ser?

— Muito simples. Fazemos a nossa visita, eles nos pagam; nós voltamos lá, e eles tornam a vir cá; tu fazes compoteira de doce de côco e mandas ao velho, ele te manda logo umas flores; quando o rapaz passar, tu suspiras; damos um chá de garfo dançante; eles vem; eu então preparo um bolo especial para o moço e faço trabalhar a minha figa de dente de jacaré. Então, que tal?

— Mas, se papai...

— Quem manda aqui sou eu. Vai para a rua jogar o tal bilhar. Há de ser assim, porque eu quero... — mas eu tenho vergonha, mamãe...

— Mas... e o casamento, rapariga?

Olha que tu já tens idade. E o Hilário até tem jeito de bobo... podemos caçá-lo bem.

— Está bom, mas vamos amanhã...

— Pois sim, amanhã...

Estes diálogos eram freqüentes entre a gasguita D. Claudina e a abundante Doricélia; mas como se vê, sempre concluiam pelo adiamento da almejada visita, — para amanhã.

Tantas foram, porém, as investidas, que afinal chegou a resolução. Durante o jantar tinham falado no assunto, porém o seu José Pereira de Morais foi às nuvens e voltou com uma formal recusa.

— Nada! Não quero visitas. Já briguei com aquele Milorde do tal Hilário por causa do Quatro-olhos, um cachorro de estimação! Não dou o braço a torcer!

Mas que tem isso, criatura?

— Que tem? Pois só porque o cachorro esfregou-se por ele e sujou-lhe as calças de barro, era um motivo para ele, aquele assassino, dar-lhe uma porção de bengaladas! Perdi a cabeça...

— Ora, pois, havemos de ir.

— Não quero! Rugiu o Pereira de Morais, atirou o guardanapo sobre a mesa, virando o resto do café de sua xícara, meteu um palito entre os dentes, um cigarro entre os dedos, o chapéu na cabeça, e abalou, abalou o José Pereira de Morais, disposto a não voltar mais... aquele assunto.

— Pois, vamos. Havemos de ir, esganiçou D. Claudina. Menina vai te aprontar.

Pum! fez-se à porta do meio batida pelo pulso embravecido de Morais.

Discretamente, vibrou a campainha da porta.

Nham Pombinha, que estava na sala de visita, relendo o jornal, bandido, que trazia a notícia da busca policial, Nham Pombinha acudiu presurosa à porta e abrindo-a mostrou o seu busco moreno tão animado por aquele mágico par de olhos negros, e quase, quase recuou entre o admirada, o curiosa e o aborrecido.

— Que massada! articulou entre dentes. E expandindo um largo sorriso, abrindo de todo a porta, arredou-se um pouco e disse um tanto curvada: — Façam o favor! Entre!

— Com sua licença, disse D. Claudina. E atropelou a frente.

Depois de entrarem, encostada à porta e antes de se sentarem, meneou para o lado o corpito azougado e com um gesto soberbo de pose, garganteou o prelúdio:

— Apresentou-lhe a minha Doricélia. É tão sua amiga! Nem imagina, vizinha! Todos os dias fala na senhora.

— Sentem-se, sentem-se.

— Estimo muito. Que bonito nome, é um verdadeiro gorgeio das avezinhas imbeles!

Nham Pombinha não se emendava: sempre sutil no primor das frases.

Houve um largo silêncio. E nem podia deixar de haver. Nham Pombinha lembrava-se das cacetadas que o robusto braço do Hilário descambara no Quatro-olhos, o mimoso cão do Morais. Dona Claudina agitava-se na cadeira, alinhando os retalhos, para poder conduzir simpaticamente à sua visita.

Doricéia olhava para o teto batendo com o leque no joelho e respirando alto, opressa. Toda de branco, com uma larga faixa cor de rosa. — Que candura!

Aquilo já estava se tornando ridículo, Nham Pombinha, em seus livros, sempre lera que as visitas se fazem tagarelando.

Incitou os debates:

— O senhor seu marido, de saúde?!

— Bem, obrigado. Ele queria muito vir, mas as ocupações... E depois tem andado com uma tosse tão forte...

— Ah! o Cirilo também não vai passando bem.

— É, ele parece padecer...

— Não; isto é de tempos para cá.

— E o sr., seu mano?

— Meu mano!

— Sim, aquele moço, que mora aqui.

A ladina D. Claudina bem sabia o que dizia, era só procurando ser amável para com a Nham Pombinha.

— É o meu enteado, o Hilário, disse Nham Pombinha. Muito bom moço.

— Ora vejam; pois eu jurava que eram, os dois, irmãos. São tão parecidos, não é Doricélia?

— Não acho, mamãe.

— Pois eu acho. E a senhora?

— Eu! nem por eirrus, cumulus, respondeu Nham Pombinha, querendo dizer, provavelmente, que nem por sombras.

Novo silêncio.

Agora, era Nham Pombinha em devaneio, batendo com o salto da chinelinha, chique, cuja biqueira de verniz, aparecia, rápida, a furtos, se sob a fimbria do seu roupão de bonita flanela cor de havana, uns grandes ramos encarnados.

Depois, aos poucos foi se animando o grupo, e discreteando sobre vários motivos esgotaram as damas umas puxadas horas sem que tivesse gasto dez movimentos de palavras falada à graciosa Doricélia.

Este amorzinho só fazia largo dispêndio de palavras, era quando encontrava chá frio ou sopa quente.

D. Claudina exibiu-se em toda a florescência da sua elétrica pessoa.

Dava pequenos pulos na cadeira, gesticulava fogosamente e entremeava na conversa umas risadas rápidas, apenas trinadas mas nítidas e irritantes pela abundância.

Enfim, pouco colheu para o seu projeto, mas avançou um caminho imenso quando com sua licença, ergue-se e beijocou muito chuchurribiadamente as aveludadas faces da Nham Pombinha, e disparou o convite já de há pocuo engatilhado:

— Agora, minha senhora, apareça; teremos muito gosto, o José Pereira há de estimar muito, ele simpatiza muito com todos aqui.

Conto consigo. Adeus. Até outro dia.

— Passe bem, disse Doricélia a Nham Pombinha, que beijou-a nas duas rubicundas bochechas.

E com vivo tiroteio — de passa bem, recomendações a todos, apareça, volte, cá ficamos, — foram até os umbrais da porta externa, como dizia a dona da casa.

Trocaram-se os últimos abanadinhos de mão, como quem diz: vem cá Bilú, vem cá, e ainda não havia cinco passos de distância, entre umas e outra e elas já se amalgavam:

— Que presumida! regougou D. Claudina.

— Cauila. Nem nos ofereceu nada, gemeu Doricélia.

— Mas senhores, esta velha, não se lembrara da briga que o marido dela teve com o Hilário, por causa da sova que este deu no tal cachorro Quatro-olhos, quindins deles todos? E a filha! Credo, que empada!

Lá adiante caíra o lenço de D. Claudina, que, abaixando-se para apanhá-lo, voltou-se.

Trocaram-se novos e amistosos abanadinhos de mão.

Capítulo IX

Alguns dias depois das cenas que acabamos de narrar, conversavam plácida e beatificamente, após um alegre jantar, na bela e bem iluminada varanda, que já conhecemos, o Cirilo, sua mulher Nham Pombinha e seu enteado Hilário.

Em verdade, dos três era o Cirilo quem tinha menos razão para achar alegre o jantar. Nada se lhe alterara no físico exteriormente. As cores não eram de todo más, os olhinhos brilhavam sempre sobre as sobrancelhas copiosas e crespas, dormia bem e levantava-se cedo.

Todavia, ele não passava escorreito, precisamente como um abade.

Após a ingestão do cálice de conhaque, que lhe oferecera Pombinha, naquela belíssima manhã, tão clara, tão pura e tão fresca, o Cirilo sentira despertar nele um apetite de lobo para a mesa.

Mas aquilo era uma coisa verdadeiramente sardanapalesca infernal, extraordinária.

O Cirilo comia muito, comia de tudo, comia sempre, não enjeitava qualquer manjar dos que, variadamente, vinham à mesa, regava toda essa massa bem mastigada com uma bojuda garrafa de vinho de Bourgogne em mistura com Vichy do hábito. Mas nada o saciava.

Apenas levantando da mesa, a mastigar a ponta do charuto, após o café, sentia-se logo apto para o novo sacrifício, à moda dos de Lucullo. Por mais que enchesse o estômago, havia lá dentro uma sensação de vácuo, que reclamava, imperiosamente, ser preenchido.

O fato era tanto mais extraordinário, quanto, até então o Cirilo era um sujeito muito sóbrio à mesa, e em toda a sua vida tivera apenas uma indigestão, verdade é que de conseqüências um tanto tristes, pois, ocorrera no dia do casamento e prolongara-se, em seus fatais efeitos, por oito a dez dias.

Nham Pombinha, por seu lado, a princípio, quando o viu atirar-se assim tão denodamente aos chorumentos pratinhos que o cozinheiro Calixto tão caprichosamente preparava, teve um sobressalto denunciador de pecaminosa alegria.

Infelizmente, para ela, muito pouco viveram as suas esperanças, e muito pronto emudeceram os seus lábios, em entoar hinos de louvor e gratidão à misteriosa ciência do Caboclo.

A mandinga propinada ao Cirilo, em matéria de excitação de apetites, tinha se limitado aos do estômago, e ainda assim, imperfeitamente, porque o velho no crescendo em que, a esse respeito avançava, era muito capaz devorar os trastes ou estourar, se antes uma doença prolongada não o viesse amarrar ao leito ou à cadeira preguiçosa.

Em suma, para Nham Pombinha, nunca o marido fora tão velho. Havia de ser bonito, se em vez de uma ressurreição, a sombra da qual, o seu derriço com o Hilário poderia marchar em mar de leite, lhe coubesse em sorte aturar muitos meses um inválido.

Era essa a única preocupação de Nham Pombinha, porque, nem de leve, lhe passava pela mente que o que ela tinha praticado com o marido era um crime, nem mais nem menos.

Nham Pombinha extenuava-se, improficuamente, em despertar qualquer fagulha sob as cinzas.

Afinal, era uma consumição, e para acabar com aquilo tinha resolvido, na manhã do dia seguinte, forçar a nota, juntando ao conhaque matinal do Cirilo mais umas dez gotas do licor maravilhoso do Caboclo. Em último caso, pensava ela, inocentemente, o velho morre e... assunto concluído.

Afinal, ela tinha razão. O que estava sucedendo era fatal, e se alguém tinha a responsabilidade do drama cujos primeiros quadros começavam a delinear-se, na imaginação escaldada de Nham Pombinha, eram aqueles que haviam amarrado as suas poucas e floridas primaveras à carcaça do Cirilo, por causa do seu dinheiro.

O mundo está cheio disto.

Terminara, pois, o jantar. Cirilo, como de costume foi reclinar-se na preguiçosa para terminar o charuto, enquanto Pombinha e Hilário, afastando as cadeiras, tomavam cômoda posição para palestrar alguns instantes.

O assnto escolhido foi a freqüencia e a franqueza das visitas que a Doricélia, com a capa de vizinha, dera agora em fazer à casa de Pombinha, às vezes até em horas impróprias.

— Aquilo era demais, exclamava Pombinha escandalizada. Não lhe saía da porta. Era desde pela manhã até a noite um sair e entrar que não tinha fim. Credo! A mulherzinha não teria o que fazer em casa da mãe? E que modos? Mexia em tudo, entrava em todos os quartos, queria meter o nariz em todas as gavetas. Que espevitamento! Pois a gasguita não tivera a protuberância de pedir-lhe para mostrar o quarto do seu Hilário? Queria ver como era um quarto de moço! Ora dá-se? O Hilário se tinha alguma coisa com a espevitada, bem podia arranjar-se para longe. Pois não!

O Hilário fazia-se muito grave, abarrotado de sisudez, olhando de soslaio para o velho, que chupava pachorrentamente, o seu charuto, namorando uma compoteira a transbordar de damascos em conserva.

— Que não, desculpava-se. Não era nada com ele, nem pensava nisso. Era natural. Aquilo era amizade de raiz com a Nham Pombinha. Pois se ela era tão boa, tão amável, e recebia todos tão bem!...

Mas a Pombinha, insistia querendo, deixar o negócio bem aclarado para saber a que ater-se. Citava certas circunstâncias, apurava a significação de certas frases e olhares.

— Que eu, concluiu ela, com um largo gesto de desprendimento, não tenha nada com os teus negócios com a Doricélia. Aqui é que não.

O Cirilo estava aborrecido com a palestra.

— Que zanga Deixa o rapaz. Olha: se não for com a Doricélia será com outra, é claro. Escuta lá: Manda servir-me meia dúzia daqueles damascos. Estou com apetite.

Era aquilo, comer e mais comer. Daquela maneira, qualquer dia engulia um boi.

Por fim, o Cirilo levantou-se resolvido a sair para esticar as pernas.

— Menina, vou dar um salto até a Ponte de Pedras.

E saiu, puxando o pigarro, encostado à bengala e meio pesado, como quem leva linguados de chumbo aos pés.

Na varanda, faziam-se já as trevas.

O Hilário, porém, e Nham Pombinha não se mexeram. Continuaram a palestrar, em coisas insignificantes, até que os criados vieram acender os bicos de gás do lustre de cristal dependurado no teto de estuque.

Uma claridade crua inundou a sala de jantar, de cuja mesa do centro eram levantados os pratos, a toalha, os mil acessórios do ato principal da vida, como, gongoricamente, afirmava a Nham Pombinha, numa azáfama de criados, que estão mortos por se mandarem mudar.

Depois, tudo caiu em silêncio.

O Hilário, afinal aborrecia-se.

— Agora que as coisas encaminhavam-se, é que a Doricélia havia de meter-se-lhe ali pelos olhos como um trambolho.

O Hilário desconhecia ainda as artimanhas da madrasta, e esta, naquela tarde, dispunha-se a contar-lhe tudo.

E, insensivelmente, como se houvesse ali coisa que os trai-se, que os pretendesse empolgar, ambos dirigiam-se para o vão da janela próxima a a qual Pombinha zelava os seus opulentos jarrões de flores exóticas.

E sentaram-se, um em frente ao outro, entre as pesadas cortinas de damasco com pendurezas douradas, numa compostura de missa fúnebre, a ver quem primeiro rompia o fogo.

— Enfadou-se? Nham Pombinha.

— Acha?

O Hilário enfiou mas não desistiu.

No fim de contas, era uma tolice. Que diabo! A Doricélia não era nenhuma beldade por quem a gente deixasse apanhar assim sem mais nem menos. E ele olhava para cima. Sim. Não queria nenhuma princesa, é verdade, mas também não podia esperar coisa melhor.

E esbofava-se em apontar-lhe os defeitos, os modos, o espevitamento, que não podia deixar de ser ensinado pela mamã. Aquilo via-se.

— E depois, concluiu, andadota, em anos. Não é o meu ideal.

Nham Pombinha, remoia em silêncio.

— Então!

— Hilário. Tu entendeste mal. Já te disse que não me ocupo dos teus negócios. Era o que me faltava. Mas é dos meus. Irrita-me esta sem cerimôna da Doricélia, uma presumida que nem ao menos sabe vestir. Não vês como ela anda sempre cheia de fitas? E até me entra em casa sem bater. Já se viu uma coisa assim?

— Entre moças...

Entre moças que se dão, sim, concedido. Mas eu conheço-a,apenas, há uns vinte dias, Não. A coisa não pode ser comigo. Isso entra pelos olhos.

— E continuaram a discutir: ele procurando dissuadí-la das suas desconfianças, ela insistindo em atirar-lhe para os ombros a responsabilidade dos avanços rápidos da intimidade de Doricélia.

Afinal, foram enervando-se,amolentando-se, engolfando-se naquele silêncio feliz que os rodeava, que os comprimia, e ameaçava arrancar-lhe confissões perigosas para o futuro sossego do Cirilo.

Por último, Nham Pombinha, já concidia que o Hilário nada tivesse com o caso. Que, de resto, também pouco lhe importava.

E uma das mãos de Pombinha lá ficou esquecida sobre os joelhos, muito rosadas, uns dedozitos finos, aguçados, terminando em unhas aparadas em bico, muito vermelhas, brilhando aos reflexos ondulados do gaz tremeluzente...

E o Hilário tentado, muito cheio de preconceitos, de receios, e da salada de pepinos que comera ao jantar, ia avançando com a sua mão em busca da outra, como quem não quer a coisa, sorrateiramente...

As duas mãos já se tinham encontrado, e quem sabe se uma delas, talvez mais áspera, teria levantado a outra, por descuido, à altura dos lábios, se, nesse momento, a cabeça de Doricélia não tivesse emergido das cortinas da porta do corredor da rua, e a sua voz esganiçada não disparasse esta bombarda.

— Não te encomodes, Nham Pombinha eu sou de casa. Estejam ao gosto

E foi puxando uma cadeira para o vão da janela.

Nham Pombinha mastigava a sua raiva batendo com a ponta da botina no chão, freneticamente.

O Hilário apepinado deveras não sabia como sair da entaladela...

Doricélia, porém, com os modos francos e bruscos do costume, excitada ainda pela evocação da cena que surpreendera, não lhes deu tempo a pensarem num modo a encetar a palestra, estabelecendo uma dispensável solução de continuidade entre a distração inocente das mãos de Hilário e o seu imprevisto aparecimento na varanda.

E foi logo disparando o morteiro das novidades do dia, as corridas do prado, em que tinha havido um gancho escandaloso, a briga da senhora F. com a sua modista, porque esta era uma besta, fazia tudo mal e cobrava sem calcular, a prisão do N. que andava metido em barafundas políticas... uma avalanche de coisas assim interessantes.

— Ah! É verdade! um escandolozinho. O marido da Zezinha deitou casa à Marquesa. Sabes? Aquela figorona espanhola que traz pelo beiço todos os homens casados, o que nós temos visto! E a Zezinha a se fazer fina, querendo impigir-nos o marido como um abismo de santidade!

Que ela lastimava-lhe a sorte, e condenava o procedimento do doutor. Lá isso condenava. Mas os homens são assim mesmo. É preciso manha para domá-los.

E embora frustrava em largas considerações sob os projetos que executaria, quando se casasse e fosse para a sua casa. Trataria o maridinho como um alfinin, os seus ovinhos quentes, o seu vinhinho do Porto, o seu chocolate... tudo.

— Que eles, menina, o que querem é mimo. E desculpa-me falar assim. Mas estou em casa. Somos todos da família. Mas também, fidelidade, a minha; lá isso de namoros e coquetismos com todo o mundo, não: isso é que não.

E falava, falava sempre, sobretudo, de todos, atordoando o seu pequeno auditório, impedindo-o de dar a réplica, olhando demoradamente para o Hilário, pondo o pé muito fora do vestido.

Capítulo X

Não se admire a mudança no todo da Doricélia, que de pachorrenta, passou assim a ser uma imitação viva da sua mamãe. E que insistência de D. Claudina, vá afinal produzindo os seus frutos. Água mole em pedra dura.

Quando o Hilário chegou de Porto Alegre, houve a repetição e a amiudada, de visitinhas e recadinhos. Nham Pombinha mordia-se com isso, mas sem energia, cedendo sempre, foi se deixando invadir pelas vizinhas, que por fim tomaram-lhe conta da casa, já entravam sem se fazer anunciar, mandavam os seus criados, espanavam os seus móveis, dirigiam a cozinha, enfim, um assalto triunfante às suas prerrogativas de dona de casa. O Hilário, que era o alvo cobiçado de toda a estratégia, de princípios riu-se muito, depois incomodou-se seriamente. Aquilo estava se tornando uma maçada.

Nham Pombinha que, como de casa, tinha escondido e mandado ao Caboclo, um chinelo, de um belíssimo par de veludo bordado a ouro, do Hilário, ficou um dia desapontadíssima quando deu pela falta do companheiro, e guiada pela sua inspiração, disse logo que aquilo com certeza era obra de D. Claudina. Era mesmo. Esta, que já tinha ensaiado um bolo da rainha, com uma química à preceito, ficou um pouco de cara à banda vendo o Cirilo Pereira comer dele com um apetite diabólico. Nham Pombinha não lhe tocou.

Hilário achou-lhe um sabor levado da breca, e deixou no prato a fatia apenas encetada.

De outra feita, o rapaz encontrou em um dos bolsos do casaco, um pequeno embrulho, com cincoenta mil voltas de linha preta e branca, o que o deixou admirado, sem saber como podia aquilo ter-lhe caído na algibeira. Curioso, cortou a canivete o complicado atilho e, desembrulhando o papel, encontrou dentro um pequeno saco de fazenda preta, tendo bordado a lã amarela, de um lado, uma cruz, e do outro, uns pontos que davam a idéia de uma caveira. Prosseguindo no exame, e aberto o saquitel, achou cabeças de cravos de doce, um anel de cauda de lagarto, três lágrimas de N. Senhora, passadas numa linha amarela, uma folha verde e tudo isso coberto de uma camada de pó avermelhado, que ficou ainda no fundo do saco uma regular porção de pitadas...

Esta porção de coisas estranhas fez cismar o Hilário, que não gostou do que ele julgava caçoada.

Chamou Nham Pombinha, e mostrou-lhe aquela mandinga que tanto o intrigava, pedindo-lhe explicações.

Nham Pombinha mal deu com os olhos naqueles apetrechos, empalideceu, e viu que estava sendo roubada... e que senão tomasse já e já as suas providências, a D. Claudina ganhava-lhe a partida.

Mastigou todas as suas respostas às instantes e variadas perguntas de Hilário, que não sabia nada daquilo; não era mulher para aquelas coisas, e que, se soubesse quem era a engraçada...

O Hilário, apesar de intrigado com aquilo, não insistiu mais, e o fato foi esquecendo, quando Nham Pombinha deu pela falta do chinelo, cujo companheiro já ela tinha enviado ao competente destino.

A Doricélia animada, ia se aventurando, e chegou até a pedir ao Hilário que lhe trouxesse um bilhete de loteria, que ela pagava, já se sabe; ao que o rapaz correspondeu, trazendo o bilhete, de mau humor, a avisando-a secamente que aquele negócio ele só fazia na agência. Com tal mau modo se houve, que quando a Doricélia, entregou-lhe o dinheiro, elem sem contar, atirou-o longe, sobre o aparador da sala de jantar, onde então se achavam todos.

Nham Pombinha resolvida naquele dia a liquidar a situação, começou habilmente a excitar o Hilário, falando-lhe só da Doricélia, na sua paixão por ela, nas provas que ele dava, e que tanto era verdade que a pamonha, até estava pondo os manguitos de fora, já entendia que era dona da casa. O Hilário aborrecido e contrariado com aquela insistência, dava-se a perros para provar que não, que não.

Ora, isto já cansava. Parecia que ambas as contendoras tinham tido resposta à consulta do chinelo, porque, como se vê a tormenta crescia.

Doricélia, depois de parlar muito, diante do silêncio obstinado dos dois companheiros, interpolou diretamente o Hilário, sobre diversos assuntos e perguntou-lhe pela lista do bilhete que ela tinha comprado.

— Não sei D. Doricélia. Quando chegar o vapor mande ver o número lá no escritório.

— Estou com pé que o senhor nem calcula.

Nisto sente-se parar um carro, grande atropelo no corredor e tine desesperadamente a campainha elétrica.

Hilário levantou-se prestes, abriu a porta e perguntou logo:

— O que é? O que é?

— Não sei. Deu-lhe isto de repente, respondeu uma voz que fez corar Nham Pombinha.

Assomou entãoà porta, desfalecido, desfeito, cadavérico o corpo do Cirilo Pereira, carregado nos braços do Elesbão e de um outro sujeito desconhecido, e agora também do Hilário convulso e pesaroso.

Acomodaram no sofá o Cirilo, desacordado enquanto Doricélia com grande alarme, já dizia para se lhe dar um chá de erva cidreira com grelos de laranjeira, e saiu para o preparar e dar a novidade a D. Claudina, o tipo desconhecido, fez os seus cumprimentose retirou-se, desejando que não fosse nada.

— Às suas ordens. Às suas ordens. E chamando o Hilário um pouco à parte disse-lhe que o boleeiro estava esperando. E com sua licença... se podia aproveitar o carro...

—Pois não,pois não. Muito obrigado.

Pagou o frete e tornou a entrar.

Nham Pombinha pálida, sentada junto da janela, e olhando de soslaio para o seu marido desfalecido.

O Elesbão Soares, numa cadeira de braço, bem junto do doente, olhando muito para ele e fumando, um tanto desconfiado sem se atrever a encarar e nem com o Hilário, com quem já se dava, nem com Nham Pombinha, por quem o seu amor era mais forte.

Cirilo, agora, ainda desacordado, tinha pequenas estremeções, e umas pequenas manchas lividas lhe pareciam na face chupada.

Tinha respiração opressa, custosa.

Hilário mirou-o atentamente e perguntou:

— Mas, seu Elesbão, como foi isto?

— Nem eu sei. Só lhe digo que ia passando pelo seu escritório, e parei na porta um momentinho para falar com um conhecido meu: seu pai estava dentro, sentado, de repente, começou, ai! ai! ai!, a gemer, apertando o estômago, assim como com engulhos e a suar frio... O caixeiro assustou-se e disparou pela porta a fora, e já começou a gritar que o seu Cirilo estava com o cólera... porque parecia mesmo. Veja como está a roupa.

Enfim, eu como sou homem para as ocasiões, fiz das tripas o coração, chamei um carro, pedi ao homem meu conhecido e ao boleeiro, para me ajudarem, metemos o corpo, o corpo não, Deus me livre, o homem, sim, o senhor seu pai Cirilo, no carro, e de caminho para cá, já passamos pelo Dr. Eloi, que ficou de vir já. Nem há de demorar.

— Mas o senhor que acha que seja isso?

— Eu, a lhe falar a verdade, não sei bem mas pelo modo porque ele apertava o estômago, isto deve ser coisa de flato do coração, ou espinha caída...

— Nham Pombinha, meu pai nunca teve algum outro acesso como este?

— Não me lembro. Já há muito tempo que ele se queixava...

— Mas, senhor, é estranho... Seu Elesbão, já agora tenha paciência, ajude-nos. Vamos levar o doente para cama...

— Pois não, com todo o gosto.

E, enquanto o Hilário saiu um momento para desembaraçar o caminho, o Elesbão afrontou-se, não teve medo, praticou um rasgo sublime de audácia, virou-se para Nham Pombinha e um pouco risonho mas alvar e insinuativo, disse a queima roupa:

— Hein minha senhora? E os gorgulhos, aquela célebre noite? Quando me lembro!...

Foi o seu cumprimento a Nham Pombinha, sempre voltada, e que respondeu baixinho:

— É mesmo...

E não olhava, não olhava para o Cirilo; faziam-lhe medo aquela cor macilenta, aquele arquejar, aquele sofrer...

Com alguma dificuldade, os dois homens transportaram o doente para a cama, e acomodaram-no melhor que puseram, e sem saberem o que fazer, como usar de qualquer recurso de momento, ficaram-se na expectativa até chegar o médico que o Elesbão chamara.

Este não se fez demorar muito, e chegou muito azafamado e cumprimentador, arregaçando as mangas e tomando informações, se bem que incompletas, lá se foi encaminhando para o enfermo. Examinou-o, atentamente, língua, pulso, as pupilas, a respiração.

Ouvia-se apenas o ranger abafado de suas botinas Louzada, de bico quadrado. Os outros mudos e imóveis, acompanhavam o exame sem aventurar reflexões.

Nham Pombinha, cujos pensamentos turbilhavam, se acusava, intimamente, daquela desgraça. A verdade é que ela nunca tinha medido bem o alcance das suas funestas beberagens. Dava-as ao destinatário, com um fim muito diversos daquele que ali se apresentava, ou com aquele mesmo fito mas realizado por outra forma. Nem ela mesmo, sabia, no caos de raciocínios desencontrados que aquele quadro provocava. Concordar, concordava, seria mesmo uma droga ruim, aquela, mas ela não a tinha aplicado sabendo que o resultado seria tão cruel.

O Elesbão, que tinha as suas razões, como conhecedor, para calcular o que aquilo era, guardava-se bem de externar qualquer palavra. O Hilário era o único, que sombrio, não atinava com coisa alguma mas estranhava aquele aspecto horrível que apresentava seu pai.

O Dr. Eloi, tendo feito o seu exame, em consciência, não atinando com a causa mórbida, se bem que estranhasse a manifestação dos fenômenos, abanava a cabeça, nada satisfeito. E saindo do quarto, chamou o Hilário e o Elesbão, tomando-o também por gente de casa, e na sala, com uma fisionomia circunspecta, mostrou-lhes a gravidade da situação, a ausência de dados seguros para a escolha de medicação, insistiu no sério do caso, que voltaria mais tarde, e concluiu dizendo, convicto, que ele, médico, por si já não tinha esperanças, considerava o doente perdido, mas que, contudo, devia-se lutar até o fim.

Aconselhou, dirigindo-se ao Elesbão, uma coisa qualquer, que ele tomou muito pelo ar, e repetindo seus cumprimentos retirou-se.

Mal saiu, o Elesbão, cheio da missão de confiança. trocando os nomes, esquecido da recomendação, sem saber, enfim o que era, foi num pulo à farmácia e de lá voltou com um pequeno rolo, que misteriosamente, no exercício das suas altas funções de enfermeiro, levou para o aposento, e lá, fechado com o Hilário, aplicou-a ao doente, no mesmo estado de apatia.

Deitaram-o, molemente, outra vez, notando uns rápidos estremeções violentos, seguidos de imobilidade, cessassão de gemidos e ânsias.

O Elesbão ficou radiante; era com certeza o efeito do remédio. O Hilário aliviado por ver o sossego do pai, mirou-o um momento e depois sairam ambos do quarto, na ponta dos pés, cautelosamente, cerrando a porta para evitar a luz em demasia.

Foram para a sala de jantar.

Nham Pombinha, abatida, estava atirada na preguiçosa. Caía-lhe na sua plácida vida, aquele sucesso, com tal rapidez, com tal brutalidade, com tal evidência, que ela se sentia sufocada. Queria reprimir as suas íntimas sensações, queria mostrar-se solícita com o doente mas, de um lado o semi-remorso, do outro as conveniências...

Olhava para o Hilário com um misto de prazer satisfeito e de receio.

O Elesbão já mais senhor de si, encheu um copo d'água, sem pedir licença, e foi bebendo.

Estava o grupo sentado, entregue aos seus íntimos diversos pensamentos, quando reapareceram a D. Claudina e Doricélia, trazendo um enorme bule de folha abafado por uma coberta de lã. Era o chá paliativo de Doricélia. Começou a tagarelice:

— Então melhorou? O médico veio? O que acha? Mandou tomar alguma coisa?

Hilário respondeu soturnamente, e apesar da gana desesperada de dar a língua, as vizinhas tiveram de sopitá-la até que foram se chegando para o Elesbão e não o largaram mais.

Já noite fechada, tornou a vir o médico.

Apesar do bico do gás aceso, havia em torno da larga cama, ensombrada por garrido cortinado uma penúmbra que mal deixava distinguir os objetos. Deitado de lado, na mesma posição que ficara, estava ainda o corpo do Cirilo, imóvel. O médico tateou-lhe a testa e abaixou-se vivamente. Examinou-o um pouco mais. Estava inteirado.

— Não se lhe deu nada? perguntou sem se dirigir particularmente a ninguém.

— Não, doutor, não tomou nada. Apenas botei-lhe na boca do estômago o emplastro... disse o Elesbão.

— O que? Que emplastro? e levantando rapidamente as cobertas, abrindo o peito do camisolão de Cirilo, viu mesmo sobre o peito, uma larga faixa, do tamanho de uma folha de papel almaço, grudada e cheia de rugas, meteu a unha sobre um dos cantos, levantou e conhecendo o que era, voltou-se vivamente curioso.

— Esparadrapo? Para que?...

— Aguentei e botei. Foi santo remédio douotor. Foi como se tirasse a dor com a mão, replicou ainda o Elesbão. Lá o nome da história não me lembrei bem, mas parece que era isso, porque o boticário me deu logo mal eu pedi.

— Está bem. Podemos ir.

E tornando a cobrir Cirilo, saiu do quarto sendo acompanhado pelo Hilário e Elesbão, D. Claudina e Doricélia ficaram de pescoço estendido olhando e de ouvido a escuta.

Na sala, o doutor pegou o Elesbão por um botão. E disse-lhe:

— Pois meu caro senhor é ter coragem...

— Este moço é que é o filho... atalhou logo escamado o Elesbão.

— Pois então, disse o médico virando-se para o Hilário, pois então, meu caro senhor, é ter coragem. Seu pai está morto.

— Como?

— Morto, sim. Aquilo, não sei como foi... mas parece-me uma paralisia rapidíssima do estômago e complicações do coração.

Mas para que aplicaram aquele esparadrapo?

— Foi o seu Soares...

— Foi o doutor mesmo que me disse.

— Eu! Afinal, aquilo nada vem ao caso. Mas o senhor sabe o que é?

— Pois não é um cáustico?

— São pontos falsos, seu Soares!

— Pois eu botei pontos falsos no defunto?

E ficou estarrecido, assombrado.

O Dr. Eloi saiu, sem que ele o percebesse, dizendo a Hilário que de manhã poderia mandar pelo atestado.

Capítulo XI

Estava tudo concluído. O nosso bom Cirilo fora acomodado da melhor maneira possível em sua última morada por sinal puxadinha, porque os funerais custavam a viúva os olhos da cara — a Nham Pombinha empunhava sozinha o bastão do mando supremo da casa.

A pobre senhora começava apenas a voltar a si do que lhe parecia ainda um pesadelo, e experimentava ao sair da câmara onde se abrigara, a mesma sensação de quem está fechado numa casa inteiramente vazia de gente, e desguarnecidade de trastes.

Era como um cego habituado, desde muito tempo, a andar pelas ruas acompanhado por um bom menino caridoso, e que, de repente, se achasse só no meio da rua, atirado a sorte, ludibrio da garotada sem alma.

Quem a ajudaria, agora? Naquelas vinte e quatro horas, o seu caráter e os seus sentimentos tinham passado por uma transformação radical.

Aquele começo de flert com o Hilário, seu enteado, entrava-lhe a parecer uma monstruosidade, uma coisa nojenta, e até admirava-se como, como algum tempo, pudera alimentar esperança de levá-lo por diante.

As preocupações de Hilário eram de outra ordem. Passara as últimas horas muito triste e abatido, com aquele golpe inesperado da fatalidade, que arrebatava o pai quando menos ele o podia pensar. De resto, um como que remorso começava a invadir-lhe a alma, pelo seu namoro, verdade é que, até ali inocente, com a madrasta.

Aquilo, pensava ele, era para envilecer.

Depois tinham chegado os armadores, os homens da igreja, toda aquela legião de corvos esfaimados que se atiram de um jacto sobre os que morrem, e os vão devorando sofregamente, olhando para os lados receiosos de competência, até os deixarem em ossos.

Tudo um dinheirão!

Era tanto de aprestos funerários, uns trapos pretos esverdeados com galões falsos a esfiaparem; tanto de encomendação e cera e eça, outra pipeneira que tem dado para muita vadiação e para muito regabofe; tanto de carro e catacumba, a Misericórdia que tem o privilégio exclusivo de esfolar quanto pode a humanidade...

Um inferno!

Todos esses pensamentos e cuidados, que afluiram ao cérebro do Hilário aos borbotões, tinham-no distraído um pouco da sua mágoa.

Agora, do que ele tinha necessidade era de movimento. Queria dar umas passadas largas ao ar livre, pelas ruas, para sacudir aquela crosta de pesares e vergonheiras, que lhe andavam pegadas ao lombo como sarna.

Ainda não vira Nham Pombinha e evitava-a. Tinha medo de encontrá-la.

Depois de umas meias palavras que ouvira aos criados, a ligação de certos fatos, as entradas e saídas de Nham Pombinha, naqueles últimos dias, a conversação em que a surpreendera com um indivíduo desconhecido (que ele não sabia ser o Caboclo), tudo isso formava em torno do Hilário uma atmosfera pesada de desconfiança e de dúvidas que o abafavam.

Afinal, vieram chamá-lopara o almoço. Não havia remédio. Foi Nham Pombinha não se demorou também em se lhe ir juntar à mesa.

Mas não se olhavam.

Sentados à distância, tocavam apenas nos pratos, muito recolhidos, graves, como se estivessem ainda mergulhados num oceano de dores cruciantes.

Triste, aquele quadro, se a convenção desta tristeza não concorresse para lhe tirar todo o mérito, pela sua falta de sinceridade.

Quando já chegavam ao fim, e Nham Pombinha percebeu que o Hilário ia levantar-se, acenou-lhe que esperasse.

Depois, tirou do bolso do vestido um papel dobrado em quatro e disse-lhe com rispidez:

— Fique com isto. É a apólice de Amparo Mútuo.

O Hilário, admirado, como se acordasse, olhou, estranhando a frieza da frase.

— É desnecessário, Nham Pombinha, porque a senhora mesma é que tem de passar o recibo ao gerente.

E levantou-se para sair.

Mas, nesse momento, a porta do corredor, que dava para a rua, abriu-se em grande estardalhaço e entraram de tropelão empurrando-se, querendo um impedir que o outro falasse primeiro, a nossa Doric´wlia e o caixeiro de agência do Hilário agitando um telegrama, gesticulando como um danado, roxo, congestionado:

— Cincoenta mil pesos!

— Sim. Cin-co-enta...

— No bi...lhe...te que eu...

— Sim, no bilhe...te, que ela...

— Aqui! Aqui...

O Hilário e Nham Pombinha estacaram, pálidos, ofegantes também, adivinhando...

Depois de gaguejarem muito, o caixeiro e a Doricélia sem atinarem com o que diziam, metendo os pés pelas mãos, pisando e repisando as palavras, chegaram sempre a contar o que ocorrera, e que, aliás,era muito simples.

O Zambrano mandara mostrar à agência do Hilário o telegrama da loteria última de Montevidéu, e dar-lhe parabéns por haver vendido a taluda.

Como o Hilário, havia três dias, não ia ao escritório, o caixeiro lá se batera para a casa da família, louco, desesperado, e de caminho pela Doricélia, vendo-a à janela, atira-lhe com o número feliz, o 17.300.

— Aí! Aí! É mesmo?

— É! Olhe...

E lá estava no telegrama o 17.300.

A Doricélia teve um delíquio... com vontade de tê-lo. Mas dominou e correu com o caixeiro para a casa do Hilário.

— Pois foi assim.

O Hilário estava deslumbrado, e pensava — cincoenta mil pesos! Já é uma continha. Ao câmbio quase duzentos e cincoenta contos! Duzentos e cincoenta contos! Ora, quem diria?...

Em voz alta, muito cheio de zumbaias:

— Meus parabéns, D. Doricélia, meus parabéns. Seja muito feliz.

A Doricélia requebrava-se toda, ameaçando derreter-se ali mesmo, ao calor da cobreira que havia apanhado e do amor que tinha pelo Hilário.

— Mas quem sabe? Não vá ter havido engano no número... Isso é que era uma... Meu Deus! Uma coisa assim até deixa a gente meio tonta.

Mas o caixeiro obtemperou logo muito sacudido e muito cheio de ciscusntâncias que não havia dúvida.

A agência do Zambrano era uma casa muito séria, e o telegrama do correspondente já tinha sido reperguntado na estação...

E Doricélia transbordando de felicidade, foi abraçar Nham Pombinha, com uns gestos largos de generosidade mal disfarçada.

Agora, sim. Quem fosse do peito não havia de ter necessidades...

Veio depois, a mamãe velhota D. Claudina toda cheia de nove horas, aos pulinhos, esfregando as mãos, e já arrotando grandezas e paparrotices.

E era um turbilhão de palavras, de cálculos de considerações que afogavam Pombinha e a faziam crescer na sua raiva pela Doricélia e nos seus projetos de rompimento com o Hilário...

— Quanto mais tolo mais peixe — pensou a Pombinha.

— O cobrezinho bem aplicado, menina, bem aplicado, hein?

Logo de vereda, depois de recebermos o dinheiro, vamos ali ao tabelião da rua da Igreja, ver se ele nos indica uma casa boa para comprar.

— O seu Lima?

— Sim. É muito meu amigo.

E a D. Claudina, dizia estas palavras muito lambidas, lembrando-se sabe lá que passadas alegrias celestiais entre os autos.

Lembrem-se logo o desconto do bilhete, mas não podia ser grande coisa a despesa.

Que estas coisas, aconselhava a Claudina, querem-se logo liquidadas, para tirar a gente de cuidados.

— Olhe. Assim como assim, insinuava ela a Doricélia toda afogada em pudor, isso está aí, está nas mãos do Hilário.

É cá um palpite. Ele que se encarregue do negócio.

E todos concordaram.

O Hilário que, mais retirado do grupo das mulheres fazia, em mente os seus planos para o futuro, concluiu:

— É uma cobra descascada, mas não há dúvida, mas com duzentos e cincoenta contos, todo o mundo há de admirá-la. Está dito:

Decididamente, caso com ela

Capítulo XII

Ninguém contara, porém, com o José Pereira de Moraes, o pai de Doricélia.

O homenzinho, apesar das suas contínuas rusgas com D. Claudina, mal chegou à casa e foi informado do que sucedera, de como cairam das nuvens aqueles maços de pelegas, quis logo encarregar-se da liquidação do bilhete e da gestão do dinheiro, lá segundo seus planos, visto que a Doricélia era menor e a ele cabia esse direito.

As duas mulheres, se bem que não discortinassem muito bem argumentos em contrário, viram-se em papos de aranha para retrucar, visto que não eram o respeito e a confiança, a nota predominante naquela trilogia familiar.

A Zé Pereira cabia o direito, cabia; mas havia de ser para fazer render a fortuna e não para esbanjá-la.

Pois o diabo do homem não estava já fazendo planos!?

Comprar casa na cidade, carro, cavalos, chácara fora, para os verões, uma viagem a "Europa" para irem todos ver os seus pais pais dele, lá pela ffreguesia de Gouvea, Conselho de Baião, próximo a real cidade do Peso da Regra.

Na volta, traria um carregamento de vinhos, depois compraria uma charqueada, e depois uma estância, e depois...

— Um diabo que te carregue, rugiu D.Claudina, que, conhecedora das aptidões do Moraes, já, com o seu bom tino previa que, a ser assim, aquilo tudo dava em águas barrela.

E demais ela já estava farta da cozinha e da vassoura. Por três meses em que tinha criado passava seis a fazer tudo pelas suas bentas mãos. Eram camisas engomadas, para o milord José Pereira de MOraes se exibir por aí além; tinha de bater os bifes e, às vezes, o pé quando o homenzinho se dava muito à rabugem.

A Doricélia, que, honra lhe seja, não ligava a esta história do dinheiro, o épico ardor dos dois velhotes, deixava-os discutir, limitando-se a dizer que queria vestidos como Fulana, chapéus como Sicrana e jóias como Beltrana.

— Pois é, concluiu José Pereira, pois é; foram dar ao tal Hilário o bilhete, e agora ele lambe uma comissão furiosa.

— Para pequena será... disse D. Claudina.

— Como, para pequena? redarguiu o Moraes.

— Eu cá me entendo.

— O que é? A senhora está me fazendo fosquinhas... Casamento? Olhe: o Hilário nem pintado. Já se esqueceu da história do Quatro-olhos? Agora que tenho fortuna é que não consinto mesmo amizades com aquele bisbórria.

— Fortuna? Não é sua. E hão de se casar porque eu quero, ele quer e ela há de querer, e Nham Pombinha também quer. Há de ser... há de ser... há e... e há de...

E batia o pé, acompanhada pela Doricélia, esta resmungando, por temor do pai.

Passados dias, quando Hilário depois de liquidar vantajosamente o feliz bilhete, o tal 17.300, veio entregar a casa do Moraes, o saldo, foi uma alegira enorme, quase uma alucinação.

O José Pereira, com grandes olhos esgazeados, ventas dilatadas, mão adunca, armada em garras, atirou-se quase ao rapaz, esquecido da cena do Quatro-olhos, perdoando por esquecido, ou antes, esquecendo por ganancioso...

— Afinal! Afinal! rouquejou ele, sem se lembrar até do que havia de pouco delicado neste grito de expansão.

— Sim, afinal, cá está e pelo melhor, fique sabendo. Arranjei um câmbio favorável.

— E a comissão, é muito alta? Ora lembre-se que deve ser cordato. Faça alguma diferença.

— Perdão. Eu não tirei comissão alguma. Basta-me a confiança das pessoas que me estimam.

E dardejou sobre a Doricélia um olhar leonino, colossal de eloqüencia e paixão.

— Mamãe, segredou esta a D. Claudina, vá já buscar o dente de jacaré...

É verdade, entretem conversa com o melro que eu já volto. E saiu apressadinha para o inteior da casa.

Hilário, com naturalidade, puxou dos amplos bolsos do jaquetão de flanela azul dois enormes pacotes de notas de banco apertadas em laços de barbante, e tocando no ombro do Moraes, disse-lhe:

— Faça o favor de conferir. Como um gato esfaimado, achando a jeito um gordo e inexperto camundongo, lança-lhe as unhas, sôfrego, o José Pereira atirou-se aos maços de dinheiro e começou a sua verificação.

Foi longa e penosa. O homem atrapalhava-se, misturava as cédulas, errava a conta.

D. Claudina, tendo voltado, pusera-se às costas do Hilário enquanto ele, um tanto curvado, tagarelava com Doricélia e com o dente de jacaré, metido entre os dois dedos, como uma figa, fazia cruzes sobre as espáduas dele, murmurando ao mesmo tempo palavras misteriosas. Os seus olhinhos fúlvos, brilhantes, lançavam chispas de entusiamo. Depois tornou a retirar-se sorrateiramente, voltando momentos depois, falando, fazendo movimentos, como para mostrar que só então voltara à sala. Sentou-se junto à filha e meteu-se também na conversa, lançando a furta vistas investigadoras para o José Pereira, ocupado lá na sua tarefa.

O Elesbão Soares, que tinha sido incansável durante os apuros do primeiro compasso da viuvez de Nham Pombinha, considerava-se e procedia como íntimo da casa.

Visitas freqüentes e mais do que devera ser razoável e a horas em que geralmente o Hilário estava na agência. Fazia-se espirituoso, tomava mais confiança no frasear, e de quando em quando lá trazia à baila a cena dos gorgulhos.

Nham Pombinha, quando ele falava, lembrava-se dos motivos primeiros das suas visitas ao Caboclo, e amuava-se.

Lembrava-se dos esforços feitos, das tentativas audaciosas da sua imaginação e depois de analisar as particularidades do assédio, enraivecia-se porque achava que tinha sido ludibriada com o Cirilo, e queria ter a desforra com o Hilário.

Quanto ao mais, não lhe viesse, com argumentos.

Quando, porém, viúva, agora não que refletisse propriamente, mas achando-se senhora do seu nariz, entendeu castigar o Hilário que tivera o arrojo de fazer-se de tolo e desdenhá-la...

Foi justamente quando o Elesbão tocado por sublime inspiração achou que devia tornar-se assíduo. Mais que nunca, tinham sido freqüentes as suas conferências com o Caboclo, que tinha sabido da morte do Cirilo e que, honra lhe seja, andava arisco... Nessas sessões, o Elesbão aliviava as algibeiras, e os pesares. O pretalhão conduzia o papalvo ao santuário dos encantamentos e repetia as suas invocações, adicionando-lhe sempre novas esquisitices.

Nham Pombinha, com seu aguilhão de despeito forte e disfarçado, ajudava as tentativas do Elesbão de modo que este, encontrando menor resistência do que supusera, dava as honras de guerra ao mandingueiro.

Incompreensível catavento:

Nham Pombinha, que, se não escutava deleitada as tolices do Elesbão Soares, ao menos tolerava-se muito às ocultas, redobrava os seus escondidos trabalhos de enfeitamento para com o Hilário, a quem, tratando com uma dureza e rispidez enorme, queria reduzir a cair-lhe aos pés, para ela então poder, simples vingança, mandá-lo à fava...

Correra o tempo.

A burguês vida desta gente, tinha declinado sem totáveis solavancos, guardando-se todas as suas posições, e todos eles, ao seu modo, pondo os manguitos de fora, o José Pereira de Morais, depois de dilacerantes cenas em que tinha as suas tenções de apresentar-se ministro da fazenda a Rui Barbosa, com largos planos financeiros, fora forçado a atender a prudente D. Claudina e acomodara a sorte grande da Doricélia de forma bem razoável, porém segura.

D. Claudina exibia afoitas toiletes espaventosas nas cores, e dos atavios em contraste com a Doricélia, que tinha tomado a resolução de só andar de branco...

O Hilário era até cacete nas suas relações com essa família e nada decidia, com perigo para ele, porque a D. Claudina já resmungava que, com mais de duzentos contos, os Hilários andam aos ponta-pés, e que se aquele queria vender o peixe caro, estava se ninando...

A Doricélia, que parece tinha de verdade a sua queda pelas espáduas, do Hilário, ficou arrepiada.

Se a mãe fizesse alguma inconveniência, se maltratasse o Hilário, agora que tem o calor do dinheiro ela se julgava uma potência?

Não se sabe como foi, mas passados dias, ao jantar, o Hilário em vez de levantar-se logo, como costumava, esperou longamente sentado. E Nham Pombinha também.

Ela pressentiu logo.

— Nham Pombinha, rompeu por fim o rapaz, eu desejava consultá-la sobre o casamento meu com a Doricélia. O que acha?

— Eu...?

— Ela tem me dado provas de amor. Eu simpatizo com ela. E demais, tenho mesmo vontade de me casar. Que diz?

— Faça o que quizer. Eu cá não tenho opiniões.

E levantou-se pálida e quase a chorar, mas senhoril, altaneira, recolhendo-se ao seu quarto, enquanto o Hilário, depois de acompanhá-la com os olhos, sem atinar com aquilo, também se levantou disposto já, até com raiva, a mostrar de que pau era a canoa, e que não era nenhum fedelho para ser governado pelas birras da madrasta.

E saiu para a casa de Doricélioa, a fazer o pedido oficial aos papás da pequena.

Nham Pombinha, sufocada de raiva, de amor subjugado, de despeito, de ódio, de vingança, desatou a chorar.

Anoiteceu.

Nham Pombinha, depois daquele grande acesso, ficou calma e com as faculdades adormecidas. Não raciocinava. Estava ali, abafando suspiros.

O seu Elesbão está aí, minha senhora, disse à porta a criada.

Capítulo XIII

Não se soube nunca que assunto de alta relevância ocupou, por espaço de mais de duas horas, a atenção de Nham Pombinha e do Elesbão.

Que resultado teriam dado as indispensáveis exumações das cenas em casa do Caboclo, aquela prisão tão fora de propósito dentro do caixão de milho, e por último a invasão avassaladora dos gorgulhos importunos e nojentos?

Que lhe diria Nham Pombinha da mandinga ministrada ao Cirilo, e que resultado tão fatal e imprevisto lhe trouxera?

Falar-lhe-ia, por seu turno, o Elesbão, nas suas contínuas consultas ao Caboclo, a quem ainda na véspera comprara por um bom preço uma droga destinada a aproximar o seu ardor juvenil de que, indiscutivelmente, deveria ter a Nham Pombinha, e outra destinada a ativar nela os efeitos do contágio, — na hipótese de um consórcio?

Nunca se averiguou com exatidão nada disso.

O que é verdade é que já tinham dado as nove horas da noite, Nham Pombinha terminava o chiló recostada indolentemente na chaise longue, em que, por vezes, vimos o Cirilo, e o Elesbão não dava sinais de quem tinha pressa de retirar-se.

Com grande escândalo, mesmo, da mucama, uma mulatona de 18 anos a quem por várias vezes o Hilário lançara olho cobiçoso e aceso.

— Nham Pombinha mandou servir o chá mais cedo que o costume, e o Elesbão lá ficara à mesa, beatificamente, sentado à cabeceira, dando-se já uns ares de quem estava em sua casa.

Já haveria namoro, quatro meses depois da morte do primeiro?

— Irra! que mulherzinha!

E a criadinha não se conteve que não fosse à cozinha dar a taramela e comentar aquele procedimento da ama em dar tão de pronto substituto ao Cirilo... tão bom que era... coitado.

Mas o tempo voa. Os acontecimentos precipitam-se sem respeitar nem as conveniências, nem os preconceitos, nem os cálculos.

Adormece-se hoje para despertar amanhã, e nesse meio tempo, ficamos ricos ou miseráveis, transformando-nos em Júlio Cesar ou Isganarelo... às vezes mesmo em Pedro Sem.

Estamos, pois, na casa do senhor José Pereira de Moraes, precisamente na noite em que se casa o grandalhão do Hilário com a franzina Doricélia.

Todos os compartimentos do prédio novo, que a menina comprara com o auxílio da mamã Claudina e os conselhos do tabelião Lima, muito entendido nessas cousas, — resplandeciam de convidados, luzes, flores, música e mil adornos custosos.

Havia uma hora que se esperava o aparecimento da noiva, de cuja toilete se contavam maravilhas.

Nas janelas, do lado exterior, apinhavam-se os curiosos, acotovelando-se trepando uns aos ombros dos outros. As mulheres tinham até mandado vir escadas e cadeiras para apreciarem melhor a cena.

Dentro, na sala principal, havia uma expectativa solene, como se tratasse de abertura das câmaras legislativas.

A porta que dava para a alcova nupcial estava ainda fechada. Fora uma esquisitisse de D. Claudina, que gostava muito de lances teatrais.

O juiz de casamento, respirando gravidade, muito teso, abotoado na casaca preta atravessada pela faixa verde e amarela, esperava, puxando o pigarro e conversando em reserva com o velho José Pereira, com uns acenozinhos de cabeça protetores. O escrivão sobraçando o livro passava em revista a boa roda, apreciando à socapa os namoriscos, e calculoando a que soma teriam atingido os defits de certos papás para exibirem ali as filhas cobertas de diamantes e a esmagar sedas...

Um sussurro discreto enchia a sala toda a trescalar perfumes fortes, que subiam à cabeça, naquela atmosfera cálida, já saturada dos eflúvios das flores e do suor humano.

O Juiz, consultado, achou prudente abrir um bocadinho das janelas.

E o José Pereira,muito obsequiso, limpando a testa, lá foi, cheio de cerimônias — com licença — com licença, abrir um bocadinho de cada folha, enquanto pudesse entrar um novo oxigênio.

Nesse momento, porém, abriam-se de par em par as portas do quarto nupcial e o cortejo feminino entrava na sala, motivo pela qual toda a onda que aguardava fora o melhor meio de bispar a cena, atirou-se como se a um arroio tivessem de repente tirado a represa. Uns treparam descaradamente para os peitoris, outros, como se estivessem pago entrada, arregaçavam as cortinas pendentes, chegando-lhes a ponta da bengala e guarda-chuva...

E tudo isso, numa algazarra indecente, por entre ditinhos com pretensão a espirituosos, analisando tudo, com uma ponta de malícia, de que até as senhoras gostavam muito, abafando no lenço o risinho maldoso...

Quando a Doricélia, toda de branco, rendas, contas e flores de laranja, apareceu na sala, seguida de mamã Claudina, radiante, num vestido verde e rendas pretas, muito solene, da madrinha, a respeitável D. Miquelina Cidade, de grenat e toda cheia de brilhantes, e de algumas conhecidas também de branco, foi um deslumbramento...

Pela porta do corredor entrava o Hilário, muito mais alto e espadoado ainda, por causa do traje de etiqueta que lhe cinzelava os contornos, pondo-os em relevo seguido de Nham Pombinha, majestosa, muito pálida, num vestido de gorgurão preto, sem o mínimo enfeite, e com uma estrela de pérola no alto do penteado, desdenhosa, olhando para toda aquela gente como para um mundo que não era o seu e não a entendera nunca.

— A madrinha mete a noiva num chinelo, casquinou a vozinha de uma rapariga assentada à janela.

— Mais carnes tem ela, observou um atrevido ao lado.

— Cale a boca, seu indecente.

E já ia saindo um desaguisado.

Depois, vinha o Elesbão, que devia casar dali a três meses, muito mesureiro, com ar de entendido, procurando sempre por o nariz a altura do degote de Nham Pombina...

Eram os padrinhos do Hilário, triunfante de força e de seiva, como Nham Pombinha, no meio daquela gente toda engelhada...

O José Pereira veio recebê-los e convergindo este para outro grupo, como ele fundiu-se, caminhando todos para a mesa onde o Juiz de Casamentos, esperava, mais teso, mais grave que ao começo.

Houve um silêncio geral. Depois começou a cerimônia civil, que concluiu sem incidentes para dar lugar à religiosa, no altar armado a um canto... tudo púrpura e dourados...

Vieram os abraços, as boquinhas, as lágrimas dissoradas ao canto do olho, as felicitações:

— Seja feliz...

— Muitos anos e bons.

Nham Pombinha abraçou Doricélia, voltando o rosto, enquanto chegou a vez do Hilário, apenas lhe pôs a mão no ombro.

D. Claudina abundava em muitas considerações sobre o casamento, atormentando o Elesbão com conselhos de velha entendedora.

— Aquilo é mulherzinha para encher uma casa, conclui ela, , apontando para Nham Pombinha.

A conversação tornou-se então mais generalizada, e pouco a pouco se foi acalorando, quando sairam o vigário e o juiz, com muitas desculpas, por não poderem aceitar nada. Estavam indispostos. Ia ficar tarde.

De repente, todos cairam numa moleza enervadora. Não tinham assunto. Que diabo! Se já estava terminada a cerimônia, por que não se despachava a gente?

Mas D. Claudina acudiu logo com a costumada exuberância palavrosa a reanimar a assembléia convidando-a passar à sala de jantar...

E foi então uma algazarra. Perdeu-se a cerimônia — Ria-se alto, de tropel, os que estavam mais perto da porta correram para o interior, os homens deram o braço às senhoras graciosas, abanando-se com os clacks, deitando flanância.

Esvaziou-se a sala, cujas janelas os criados, vieram, então cerrar por cautela.

Os espectadores é que não se conformaram com semelhante decisão, que tanto os contrariava no prosseguimento do seu exame.

E, então, zangaram-se, e vingaram-se cerzindo a pele dos noivos, dos papás e dos convidados.

Foi uma razzia.

— Muita farofa. Afinal, a noiva é um canhas.

— Mas tem dinheiro.

— Também é a única coisa que ela tem.

Felizmente não estava ali o Hilário.

A bancada feminina passava em revista a noiva, a sua toilete e o mau gosto de expor no quarto umas tantas coisas.

Aí acudiu uma velha solteirona, que a fealdade deixara na seção do refugo, mas a quem rancores não saciados insuflavam a cólera contra todos os noivos.

— Aquilo é uma imoralidade. Até os camisolões! o melhor é logo chamar um fotógrafo!

— E como se fez esse casamento? Parece coisa de bruxedo. Uma gente que nem podia se ver! Aí há coisa.

— E não viste como a espevitada da viúva do seu Cirilo estava tão enfunada? Parece que tem o rei na barriga!

— Sim. Na barriga do marido é que pôs algum rei...

— Que é que me contas, menina?

— Ao menos dizem. Foi por causa do enteado!

— Que horror! Olhe que sempre vivemos numa terra...!

E era talho de alto a baixo, sem misericórdia, como quem corta no que é seu.

Afinal, os grupos dissolveram-se.

Passamos por alto sobre o banquete... um jantar régio em que em casa de Luculo, para qual o Hilário limitara-se a olhar, por cautela, ao passo que a sua sogra cevava um apetite extraordinário.

Depois de muitos brindes, de novos cumprimentos e felicitações, veio o chá e após, começou a dispersão, aceleradamente, como quem tem pressa de sair dum lugar onde nada mais lhe resta a fazer.

Ficaram sós, a madrinha de Doricélia, os noivos e os papás.

Descei agora, oh fadas benfazejas protetoras do Amor, sobre o perfumado ninho do novo casal, e fazei-o feliz, enquanto o Elesbão vai muito nervosamente para a casa roendo as unhas, aguardando o seu dia, que não vem longe.

E Deus lhes de muito boa noite.

O famoso dente de jacaré não fora esquecido. Aquela poderosa arma do arsenal do Caboclo, a qual, ao pensar de Doricélia e de D. Claudina, tão bons resultados dela, lá fora colocado em baixo do travesseiro pela cautelosa mamã, ao passo que, por sua vez, (e para que a noite terminasse toda em mandigagens) o Elesbão ia imaginando de que meio se valeria para arranjar com que a mucama de Nham Pombinha pusesse no chá de sua ama, um pozinho branco e solúvel saído do suprádito Caboclo.

Capítulo XIV

Que insofridos arrancos dava o maltratado orgulho de Nham Pombinha!

Que a lanceada tristeza escondia aquela capa rígida de altivez, que manifestara na solenidade do casamento de Hilário!

Como era chato, pequenino, desprezado o Elesbão! Como ela fazia, de si para si, ressaltar, sob o fogo ardente da sua pupila, a desempenada figura do enteado, um latagão de rapaz, imponente, correto na sua toilete de rigor, à vontade e desembaraço, e o seu noivo — dela — aquela idiota, com uns pés colossais, uma bocarra profunda e uma carregação de frases relés, que lhe causavam tristeza — a ela — tão habituada a deitar fogo de artifício nas suas palestras, à custa da grande enfiada a romances, que lera, somente em expansão a um pouco da sua concentrada raiva, quando, depois dos cumprimentos, após a benção, fingindo abraçar Doricélia e perto do Hilário, entregou disfarçadamente àquela um chinelo, aquele célebre pé de chinelo, que a Doricélia, embatucada, recebeu dócil.

— Olhe: junte com o outro que talvez faça falta, segredou-lhe Nham Pombinha.

— Mas que vem a ser isto? perguntou o Hilário, deveras intrigado.

— Sua mulher que lhe explique, retrucou Nham Pombinha, afastando-se.

Deixava-lhes o primeiro espinho.

Quando — meses mais tarde — celebrava-se o casamento do Elesbão com Nham Pombinha, muito a capricho, como que envergonhado, Hilário já estava inteirado...

Farto até das gorduras da Doricélia, que dia a dia mais e mais engordava, da sua sonolência preguiçosa, da sua pretensão a elegante, quando tendo de alcochetar o vestido, os cordões do colete tinham de dar o máximo de sua resistência.

Fartíssimo da D. Claudina, com o seu inesgotável palavriado, ôco, vazio, procurando fazer dele um baby delicado e mimoso, atabafando-o em chales e panos quentes... fazendo-o engulir chazinhos caseiros, em que ele encontrou sabores estranhos...

E, além de tudo, muitíssimo fartíssimo do absurdo José Pereira de Moraes, que agora, e depois que o genro lhe encurtava as rédeas aos gastos, voltara à baila com a história das cacetadas dadas por Hilário no Quatro-olhos, um cachorro tanto da minha estima, dizia. Se bem que Nham Pombinha nunca se tivesse furtado às visitas do novo casal, contudo não as retribuia. Ao Hilário isso passava em branco, nem notava; mas Doricélia e D. Claudina e até o Moraes faziam disso um cavalo de batalha e azoinavam o rapaz.

E quando foi do casamento, que Nham Pombinha avisara, pedindo-lhes de comparecer e que o Elesbão muito prazenteiro insistira tanto, quando foi para se decidirem a ir ou não, é que estalou a tormenta.

D. Claudina abriu os diques à eloqüência e à hidrofobia e descarregou em Nham Pombinha, ausente, pancada de criar bicho.

— Aquela emproada! Não precisamos dos favores dela e nem daquela cara de bagre! Somos ricos, não precisamos das suas migalhas.Bem dizem por aí que o pobre do Cirilo, um homem tão bom, não morreu de moléstia cristã!...

— D. Claudina lembre-se que eu não posso ouvir o que a senhora está aí a vociferar... atalhou o Hilário abespinhado.

— É mesmo como a mamãe disse. Já te esqueceste do chinelo teu que ela me entregou na noite do nosso casamento? Aquela intrigante! Só para te fazer desconfiar! Como se nós fossemos como ela para andar com bruxarias! Estes, que a terra há de comer, viram, e estes tem ouvido bem boas coisas da tal prendinha...

— É, é, é, e é... esfuziou a vozinha esganiçada de D. Claudina. Pensa que não se sabe umas certas visitas que a tal recatada fazia a um mandingueiro da várzea chamado Caboclo?... Pensa? Pois bem que se sabe. Eu é que não sou dessas; até me metem medo essas coisas; nunca teria coragem de fazer feitiçaria a ninguém... Sou uma mulher séria, fique sabendo!

— Está bem, está bem. Não quero saber disso: quem vai ao casamento sou eu.

— Não há de ir. O que parece o marido andar saracoteando na pândega e a mulher...

— Que pândega, minha sogra! Pândega um ato tão sério...

— Que sério, que nada.

— Pois se ninguém quiser vir, vou eu. Pouco me importo, e é a minha obrigação.

Houve destampatório cabeludo da parte de D. Claudina. Parecia que vinha a casa abaixo com os guinchos e riso da mulherzinha.

Doricélia abriu as torneiras lacrimais e foi um deus nos acuda de suspiros capazes de abalar alicerses, e soluços como bacias num tacho de calda a ferver.

Mas o Hilário foi inabalável.

Havia de ir e ia.

— Que rosca! mastigava ele furioso.

Noite.

A casa de Nham Pombinha, iluminada, porém discretamente cerrada as janelas, nãomostravam nada de excepcional a quem passava, a não ser o notar alguns carros de praça postados juntos às calçadas, e os boleeiros, em pequenos grupos, conversando, e dando por vezes umas gargalhadas — sui generis — únicas, impregnadas de grossa brutalidade com que são provocadas.

Seriam dez horas.

Tinham-se voltado há pouco da igreja, onde por casualidade muito pouca gente havia, de modo que o casamento era quase ignorado até dos próprios antigos amigos de Cirilo, que não deixariam de estranhar aquela nova ligação da sua viúva com um quindam que não se sabia bem quem era.

Os poucos convidados estavam na sala fumando e conversando e rindo, não se atrevendo a falar mal de nada, porque o Hilário andava seguido de grupo em grupo.

O Elesbão dando largas ao seu contentamento falava como nunca e encarecia, cativado, os méritos de Nham Pombinha contra, até, certas pontinhas de malícia com que seus amigos se atreviam a bordar os cumprimentos.

Pouco se demoraram à mesa, porque Nham Pombinha mesmo dona da casa, viúva de Cirilo, mulher do Elesbão e ex-madrasta do Hilário, segundo os preceitos dos seus romances, não era também de comezinhas e glutonérias.

Tudo, realmente, muito fino, muito delicado e servido com parcimonha, não tanto por mesquinharia, como por elegância, com grave desgosto dos amigos e padrinhos do Elesbão, dispostos a forrar o estômago com sólidos lastros e abundantes regas de vinho.

A mucama de Nham Pombinha, já certa dos seus hábitos, servi-a habilmente e mais habilmente ao Elesbão, que, como sendo o festejado, atirava-se vorazmente às pratazadas e abundantes repetições.

Era o felizardo, o privilegiado!

O Hilário, a esquerda da Nham Pombinha, macambúzio e inquieto, não esquecia a cena que o esperava em casa, de chegada.

E, cruel desfeita ao seu sacrifício, Nham Pombinha não se dignava a dirigir-lhe uma, uma única palavra!

Se bem que o Elesbão se desfizesse em alegrias e palavras de agradecimento e isso até o aborrecia, dela, só dela, queria um olhar, uma palavra, um sorriso, por nada, por nada, mas só para o não esmagar diante dos argumentos da sogra e da nulher, a falta de uma amabilidade, que Nham Pombinha parecia ferozmente esquecer: para dar o gostinho àquelas duas senhoras, de encontrarem a consciência do Hilário, de acordo com as prevenções.

Ele, ele, vir ali, e sair, e ter de confessar que realmente não se fazia caso dele, que era dispensável, e que assim como ele compareceu, não se lhe falou, se não tivesse vindo, não teria sido lembrado.

E nesta disposição de espírito ainda mais triste ficou por ver, alí, naquela mesa uma chusma de caras desconhecidas e imbecis, e na cabeceira repaltreado, repleto, vermelho e indecoroso, no lugar do seu falecido pai, como dono, o Elesbão!

E insensivelmente descambara-lhe o pensamento para Nham Pombinha.

— Como? Pois era possível?

Como é que aquela mulher, até ali cercada de uma certa auréola de respeito, podendo satisfazer os seus caprichos, vivendo no meio do bem estar e de relativo luxo, relacionada como era, que encantos encontrava naquela grande casaca do Elesbão, para se lhe votar inteira, corpo, alma, liberdade, mocidade, sonhos, pretensões?... Pois na verdade a mulher será um tão estranho ser, que a aberração não a desgosta, ao contrário, atrai-a? Fazia-lhe a justiça de julgá-la infeliz por se casar com Cirilo, com seu pai, por já ser um velho, gasto na vida, enferrujado em todas as molas, gougoento. Mas. Adeus! Mesmo assim era infinitamente superior a Elesbão, que era uma sombra, um idiota, um bagagem! Aquele Elesbão, aquele Elesbão!...

E um esfuziar de olhos animou a fisionomia de Hilário.

— Acabando isto, vou-me embora e nunca mais apareço! É até ridículo!...

— Hilário, repare que vai virar esse copo, por cima do meu vestido! Não enxerga já? disse sorrindo, porém secamente, Nham Pombinha.

Realmente, Hilário, abstrato tinha o braço sobre a mesa, e, encostado a uma taça de champanha, qualquer movimento para o lado fazia virar o frágil cristal!

— Desculpe-me, não tinha reparado.

— O que tem você hoje? São saudades da sua Doricélia? Causticou Nham Pombinha.

— Oh! deixe. Não me aflija mais, pediu ele.

Estava-se no fim da ceia. Um descompassado e ruidoso arrastar de cadeiras, guardanapos atirados, abertos, enovelados sobre a mesa. Desordem inteira na arrumação do serviço. Pigarrear. Arrastar de pés. Rápido à luz de um fósforo, logo extinta. Pequenas pontas de fogo nos charutos. Dispersão para a sala da frente, Elesbão abrindo a marcha.

Nham Pombinha ficou-se um pouco, dando várias ordens aos criados.

O Hilário, vagaroso, foi-se afastando também do rosto baixo, correto no seu traje preto, de casaca, o peito da camisa muito branco.

Nham Pombinha acompanhou-o com o olhar, opressa, ansiada, o seio opulento, vibrante, enérgico, sobre o corpete do seu elegante vestido de surah preto.

Nham Pombinha depois de dar uma volta pela sala, conversando, sendo festejada, ao passar perto do Hilário, este adiantou-se e disse-lhe: — bem, boa noite, Nham Pombinha. Eu me retiro, desejando-lhe mil venturas.

— Ah! Já vai? Tão cedo... olhe, leve umas balas para a Doricélia...

E foi andando. Ele acompanhou-a, sentindo-se ridicularizado.

E ao passar pelo seu quarto, o seu grande quarto, catitamente arranjado, Nham Pombinha entrou, e, sentindo-se seguida, voltou-se e disse ao Hilário:

— Entre. Tem medo?...

Ele deu um passo à frente e ela, audaciosa, fremente, palpitante, atirou-se-lhe ao pescoço, enlaçou-lhe a cabeça com os seus belos braços, e atirou-lhe à boca, colado lábio contra lábio, um beijão, alucinado, longo, inexorável!... E ele, aquele fervido respeitador daquele belo pedestal, levado na fervida exaltação daquele minuto completo, esquecido de tudo, só sentindo aquele contato, aquele perfume. Aquela pressão, retribuiu-lhe a carícia.

O Elesbão, na porta, com os olhos desmedidamente abertos, a boca esfauceada de orelha a orelha, a mão no ar, a voz no mais alto ponto da interrogação, atirou esta frase piramidal:

— Homessa!

Capítulo XV

— Homessa, por quê? perguntou afoitamente Nham Pombinha, soberba, no seu gesto de despreocupação pelas conveniências sociais, e deixando Hilário de lado. Homessa, por quê? de que se admira? Por ventura não é muito natural que uma madrasta, quase uma segunda mãe, na noite em que desata o último vínculo que a trazia presa a um antigo casal, em que canta a última estrofe de um poema, por sinal bem pouco alegre, não é natural que ela desabafe as mágoas e as recordações de sua mocidade, no seio de um amigo íntimo, de um quase filho? O mundo está muito corrompido! Aposto que o Sr. Elesbão, seu marido, já me supunha capaz de traí-lo, justamente nas primeiras horas do nosso consórcio?

— Não. Mas é que...

— Sim, eu compreendo. O Sr. é como todo o mundo: julga pelas aparências. Julga de toda a fazenda pela dobra de cima. Oh! Como isso é mesquinho! Não se poder dar expansão às dores íntimas sem ter necessidade de demarcar a compasso os nossos gestos, de arranjar uma medida para as nossas interjeições de dor. Não, Elesbão, o Sr. não é capaz de pensar isso de mim. Bem dizia Semiramis...

— Mas menina, atalhou o Elesbão quase a chorar, e com o coração derretido como rapadura, não precisas de andar com essas coisas comigo, que eu n/ao sou de cerimônias. Eu respeito muito as tuas interjeições e até acho-as bonitas. Se tens saudade de Semiramis, mandamo-la convidar para almoçar conosco amanhã.

Vendo-te assim abraçada a um homem e a fazer-lhe meiguices, compreendes, hein, fiquei meio apatetado. Mas lá, agora, pensar coisas esquisitas... Deus nosso Senhor me salve que não.

Nham Pombinha compreendeu que estava tão senhora da situação, quanto Hilário estava atacado de uma imbecilidade visguenta incapaz de dar uma palavra.

Os homens são todos uns patetas para essas coisas de lances de apuro. Se não os resolvem brutalmente a bala, fazem de Sancho Pança.

Nham Pombinha com aquele dilúvio palavroso, apanhado no último romance que lera, atordoara o Elesbão, e deixara-o embasbacado a ouvir como a mulherzinha falava bem.

— É de muita força, calculava o Hilário...

— Não desconfiaste de mim,não é, Elesbão? Era a primeira vez que Pombinha o tratava na segunda pessoa, e o peor era que, com a presença do Hilário, as coisas não podiam tão depressa tomar o caminho desejado por um noivo.

Por fim, o Hilário compreendeu que tinha de dizer alguma coisa para sair daquele embaraço.

— Meu amigo Elesbão, Nham Pombinha, antes que eu me retirasse, quis despedir-se de mim sem testemunhas. Era natural. Eu represento para ela um passado mais ou menos tranqüilo e relativamente feliz. Ninguém se aparta de um teto velho sem lágrimas mas, ao mesmo tempo; nos olhos de uma noiva não se toleram lágrimas que não sejam as da emoção ou alegria. Então, eu, como seu enteado...

— Nâo há dúvida, menino, não há dúvida. Ora, para que hás de estar aí com esse latim todo. Eu sei o que são estas coisas.

E ia conduzindo o Hilário para fora do quarto, dando-lhe palmadinhas à espalda, chamando-o familiarmente o meu grandumba, seu felizardo, e outras coisas assim doces e amáveis.

À porta da rua, torcaram-se as últimas despedidas...

— Almooço ao meio-dia, em, querendo já sabes... é com franqueza.

E voltou à alcova.

Nham Pombinha estava em outro apartamento contíguo trocando as roupas, aborrecida, nervosa com aquela interrupção da sua conferência com Hilário, com aquele acabamento de idílio ridículo e desastrado.

E despia-se febriciante, atirando com tudo à cara da criada alemã, tomada pelo Elesbão na colônia, a qual não entendia nada e ia sofrendo tudo com uma pachorra toda tudesca.

Eram onze horas da noite.

— Então, minha mulherzinha, não acha que são horas de nos acomodarmos?

Nham Pombinha, por detrás do reposteiro, que dividia os apartamentos, respondeu em tom desabrido, nervoso, como quem está acostumada a fazer e a dizer que o que lhe vem à cabeça.

— Olhe: Sabe que mais? Está muito calor e, quando faz calor, eu gosto mais de dormir só. O meu primeiro já sabia.

Não era uma razão para que o Elesbão o soubesse, ele que ia apenas voltar a primeira página de um livro que não conhecia, e do qual só vira a capa.

— Mas Pombinha...

— Olhe: durma um sono quietinho. Lá pela madrugada, com a fresca, falaremos.

E o Elesbão penalizado, submisso, admirado de quanto lhe sucedia de extraordinário, exclamou, pela segunda vez, na noite de seu noivado:

— Homessa!

Conduzindo a vela e deixando tudo às escuras, passava a criada alemã, gorda, corada, rochochuda, bem junto ao grande leito do Elesbão, feito no Lopes, deixando após si um perfume de almíscar irritante.

Em casa do Hilário, ia tudo numa polvorosa.

Doricélia, ainda de pé, desperta, rasgando as rendas do penteador de cetim azul celeste do segundo dia do consórcio, e falando muito alto, atirava-se ao Hilário em invectivas, indignada com a desobediência do marido indo ao casamento da madrasta, e com sua longa ausência.

Pois o Hilário não tivera o descoco de entrar-lhe em casa meia hora depois da meia-noite?

— Isto é imoral, bradava ela, soprando as palavras ao nariz do Hilário. É imoral, um homem casado, há pouco tempo, entrar em casa estas horas!

Fora o caso que o Hilário, ao sair da casa do Elesbão, ficara como que entontecido.

As sensações fortes, que lhe tinham produzido os abraços de Nham Pombinha, magnífica, no seu traje de noiva, subitamente transformados em diálogo de comédia, pelo aparecimento inesperado e intempestivo do Elesbão, tinham-no deixado com a cabeça oca, sem saber o que fazer. E o pior era que ele tinha ainda de aturar a birra da Doricélia, quando voltasse para a casa.

Este pensamento, sobretudo, levara-o a, instintivamente, afastar-se da rua de sua casa, como quem quer demorar o mais possível o aparecimento de um perigo com o qual deve inevitavelmente, contar.

Para onde ir? Tudo estava fechado, aquela hora. Não havia um café, ao menos, onde a gente se distraísse, um quarto de hora, a fumar um charuto palestrando com um amigo.

E,como a noite estava calmae de luar, fora até o Santa Bárbara pela Ponte de Pedra... Depois dera mais uma dúzia de voltas, aborrecendo-se a valer, cabeceando algumas vezes de sono, ou fechando propositalmente os olhos para não ver o quadro que na sua imaginação pintava: Nham Pombinha nos braços do Elesbão.

Por fim, não teve remédio. Foi para casa...

Aí foi Tróia.

Doricélia não esteve com meias medidas.

O tema para palestra foi uma indiscreta pancada que o tímpano do relógio fez ressoar, indicando meia hora depois da meia-noite.

— Então agora é que você vem da casa daquela delambida? Pensei que ficasse a fazer companhia ao noivo ou estivesse ajudando nos arranjos!

E desandou a torrente:

Aquilo era uma pouca vergonha. Ir tirar uma moça donzela de casa de seus pais, onde vivia feliz, para dar-lhe maus tratos, deixá-la abandonada como uma trouxa. Ir ao casamento daquela mulher? Isso nunca. O mundo dizia muita coisa, e além disso, o marido não deve ir onde a esposa não vai. Todo mundo havia de ter reparado. Casados havia tão pouco tempo!

O senhor não responde? É que a sua consciência o condena. Se não fosse assim, havia de achar muito justo o que eu digo. Para que casou comigo? Por causa do meu dinheiro? Maridos desses andam aos centos, se eu quisesse. Não precisava que o senhor me aparecesse com essa cara de sonso. Olhe, fique sabendo que eu não aturo desaforos comigo. Se as cousas não entrarem nos eixos, não se queixe. Quem me avisa, meu amigo é.

— Hilário calado.

A Doricélia passou das exprobações aos insultos, e a tal ponto levou os ímpetos de sua cólera, que a velha Claudina acudiu assarapantada, em saia branca e bata, esfregando os olhos e com uma vela de carnaúba cor de rosa na mão.

— O que é isto? que destapatório é esse, meninos?

— Sua filha está doida, D. Claudina, não vê como ela está a se rasgar a roupa toda.

— Doida, doida? Doido está você, seu pilantra. A mamãe já me conhece. Eu sou uma pessoa decente, muito diversa da tal sua madrasta, que tem andado com todo o mundo.

D. Claudina (não fora ela sogra!) aplaudiu a filha, logo que esta a inteirou de tudo.

Aquilo não tinha jeito. Se sua mulher não queria que ele fosse ao casamento, ficasse em casa. A gente de bem faz assim. Se não para que se casou?

Olhe, concluiu a Claudina, a gente séria lava a roupa suja em casa. O senhor sabe que, quando uma pessoa toma compromissos, deve cumpri-los, ou passa por mau e por patife. Nham Pombinha não é melhor que a minha filha, pelo contrário até é muito pior. O senhor tem de acabar com essa amizade, se quiser viver em paz aqui.

Afinal, o Hilário, irritado, levantou-se da cadeira onde se tinha atirado desde o princípio da conversa, foi ao bico de gás e fechou.

— Sabe que mais, suas furias? — Boa noite.

E ia a caminho para o quarto de dormir, quando o ruído seco de um objeto que lhe caira do bolso posterior da casaca fê-lo voltar, abaixou-se e apanhou-o. Era o chinelo que lhe dera a Nham Pombinha, dizendo-lhe que perguntasse à mulher o que significava.

Foi uma inspioração... o que é raro, porque nada é menos próprio a inspirar-nos do que um chinelo.

Ergueu-se pronto e a luz tíbia da vela, mostrou o chinelo.

— As senhoras que são tão sabidas, tenham a bondade de dizer-me: Onde está o outro pé deste calçado?

Foi um golpe de teatro.

Mãe e filha lançaram-se olhares assustados e vesgos, gritando como possessas e fingindo um desmaio, sacudindo os membros, atiraram-se inteirissadas ao chão...

— A mandinga, a mandinga...

Apagou-se a vela.

O Hilário desapontado, fora de si, sem atinar com o que fazia, atirou com o chinelo a esmo, produzindo grande estrondo no vidro do aparador em que ele fora bater, e resolveu sair de casa naquele instante...

— Desmaiem por aí. Estão bem livres de que eu vá levantar, suas bruxas... Ah! temos mandinga? Pois quem com mandinga mata com mandinga morre... Espere e verão... Também vou a casa do tal Caboclo, conhecido de Nham Pombinha...

E saiu, mesmo de casaca e clack como estava, furioso, como um pé de vento, levando tudo por diante, derrubando cadeiras, batendo com as portas, com estrépito, mandando de presente ao diabo a hora em que tinha casado..., enquanto que o José Pereira de Moraes, em ceroulas e camiseta, barrete de dormir furado no tope, e com uma vela igual a de D. Claudina, aparecia na sala de jantar, com uma baioneta velha e enferrujada, embrulhada em papel pardo de venda, embaixo do braço, tropeçava no corpo da velha, e saía de novo direito à porta da rua, bradando:

— Ladrões, ladrões! Pega ladrão!

Capítulo XVI

Hilário, saindo de casa, naquele desespero cego, pusera-se a andar por aí além. Bem sabia ele onde ia, onde era a pocilga do Caboclo!...

Ignorando tudo, bradou que ia procurá-lo, só para meter medo e fazer-se temer.

Afinal, cansado de andar trocando as pernas, pela madrugada voltou à casa e acomodou-se no sofá da sala de visitas, muito caladinho, muito silencioso, ansioso até por não ser visto e nem sentido.

De manhã deu-se papética cena: — explosão de desculpas, explicações, carinhos e festinhas, de modo que serenou a tormenta, dando-se tudo por esquecido e acabando em boa paz... aparente, aliás.

D. Claudina, porém, previdente, sabida e traquejada no mundo entendeu, que não devia-se descuidar, e de combinação com a Doricélia propôs-se de seguir uma regra de tratamento ao Hilário, pela qual o rapaz se tornaria caseiro, amigo dos seus lenços e deslembrado de más tenções. Por isso, daí em diante eram pitadinhas de certo pó denegrido, no café de manhã e o chá da noite, com bolos de magnífico aspecto, mas preparados no miolo com raspas de unhas e o diabo a quatro...

O Hilário, ao cabo de certo tempo, sem desconfiar da medicina, sentia-se de qualquer sofrimento vago, indeterminado, vertigentes, dores atrozes e rápidas como punhaladas, no estômago, um contínuo salivar enjoado...

Nham Pombinha, pelo seu lado, em crescente aumento de asco pelo Elesbão, a quem não queria senão para dar-lhe o gracioso papel de editor responsável, Nham Pombinha não descansava.

Tendo achado meios de afastar o marido, uma noite, conseguiu falar ao Caboclo e explicar-lhe pelo miúdo a sua posição e os seus projetos.

O preto velho, se bem que calejado na prática dessas falcatruas, admirou — não se sabe se mais se o cinismo da ex-viúva, referindo-se cruamente, sem tintas e nuas palavras — os seus desejos, se mais a pouca mossa que lhe fizera o arrastamento da vida do Cirilo, sucesso — que diabo — ao menos um pouco de remorso havia de provocar!

Mas como a paga era boa, a freguesa crédula e constante, o mandingueiro deu-lhe fórmulas especiais para o caso do Elesbão e iguais as que já fornecera a D. Claudina, para o caso do Hilário, de modo que este é que era o mais sacrificado, porque ingeria tudo em dose dupla.

Desde que o Elesbão tinha começado a absorção das coisas aplicadas por Nham Pombinha, esta não andou mais com meias medidas. Convidou insistentemente o Hilário a visitá-la, e foi, de dia, apertando mais o cerco ao já tão desvairado rapaz.

Oh! furiosas contorsões de uma ligação medonha, que tinha de permeio a lembrança vivaz do ludibriado morto, pai de Hilário, pai deste filho, que esquecia tudo, o que quebrava aos pés daquela mulher ardente as homenagens do respeito, da veneração, do culto devido à sua memória! Monstruoso a reviravolta de sentimentos, monstruoso amor, medonha expansão da carne, da carne exigente e intransigente, sepulcro de bons e são raciocínios, assassina da pureza de coração!

Passava-se o tempo, crescia furiosa ânsia de saciar aquela voragem. E como o Hilário resistia àqueles embates capazes de acachapar outro qualquer!

— Não Realmente este Caboclo vale tudo! dizia contentem Nham Pombinha.

O Elesbão, por seu lado, atristado e sonolento, decrescia, mirrava-se, acabava-se. Afinal, num dia, caiu na rua, nas mesmas condições em que o Cirilo já tombara, e morreu da mesma morte inesperada, estúpida e não esclarecida. Este sucesso foi como se não se tivesse dado, em nada alterou as relações do ex-enteado com a madrinha. Ao contrário, incendiou-se-lhes a vontade, vontade absurda de quebrarem todas as leis do decoro social e viverem, sob o mesmo teto, desse no que desse. E assim fizeram, depois de atirarem o cadáver do mísero Elesbão para o cemitério, com um mal escondido do assanho de alegria e de liberdade.

Dias volvidos sobre este arrojado procedimento, foi o Hilário chamado instantemente à sua casa, visto que se tratava de uma coisa muito séria. Foi, era o José Pereira de Moraes, que tinha sido cruelmente mordido pelo Quatro-olhos que havia ficado hidrófobo na véspera. O homem estava assustadíssimo, queimou as feridas com ferro em brasa, até nem se podia com o cheiro de carne tostada, e como lhe tinham ensinado que azeite de potro era muito bom para expelir os humores, o bárbaro tinha lhe bebido como três garrafas e ansiava agora, arrastando no esvaecimento da mais atroz desinteria, triunfalmente resistente às libras de polvilho, caldos de marmelo e folhas de araçá e aos frascos de bismuto, com que lhe atulhavam o enfraquecido estômago. Por fim, já sem forças, cadavérico, asqueroso até no horror visível do seu esgotamento, morreu sem um gemido.

Morreu com um passarinho! dizia soluçante D. Claudina.

O Hilário, coitado, estonteado, sentindo cada vezmais forte a sua dor de estranhas, procurou manter-se firme, e lá como pode assumiu o seu cargo de chefe da casa, mandando enterrar decentemente o José Pereira, dizer-lhe as respectivas missas, o seu agradecimentozinho pelos jornais, e fazendo-se logo enforcar o danado Quatro-olhos, no fundo do quintal, procedendo-se as operações fúnebres com grande luxo de precauções e alaridos.

Doricélia, disfarçadamente, punha em prática a sua tática de seduções...e uma noite, quando o Hilário, cada vez mais alquebrado, foi insistentemente chamado por um perfumado bilhetezinho de Nham Pombinha, ganhou a parada, porque o Hilário aliás sem grandes reservas pelo pudor de sua sogra e da sua mulher — respondeu que não poderia ir, porque se achava muito incomodado.

E mais, se vitória houve, a Doricélia confirmou-a logo na manhã seguinte, porque levantou-se risonha, esperta, cantarolando, fazendo enfim, contraste vivo com as últimas manhãs.

D. Claudina também já fora da cama, deu logo pelo júbilo da filha e dava-se parabéns pelo bom sucesso da última dose ao genro na véspera.

Tomavam as duas senhoras o seu matutino café com leite.

Depois de beberem uma grande xícara, acompanhada de duas respeitáveis fatias de pão, a Doricélia como que lembrou-se, e vivaz, jubilosa, levantando-se, disse à mãe:

— Vou tomar um banho no tanque!

— Espere um pouco, menina; tomaste agora café tão quente... Vai te fazer mal. Deixa descer, primeiro...

— Qual! Não acontece nada.

— Se fosse eu, não ia. Pode te dar algum pasmo!

— Não dá nada. Histórias.

— Vou!...

E foi.

Foi, arrumou as suas roupas, correu os olhos pelas faces visíveis das suas abundâncias corporais, anediou a sua macia e rosada pele e... catapruz! meteu-se de jacto no grande tanque e afundou-se na água fria e clara.

Por efeito natural de fenômenos patológicos, o café quente de inda agora, com a água fria,certamente, não se acertaram amigavelmente e quase repentinamente a mísera sentiu-se tonta, sem ouvido, tomada de imobilidade, abafada, muda, caiu prostada, músculos flácidos, boiando as suas banhas, na água tranqüila.

Em vista já da larga demora, D. Claudina estranhou o caso e foi averiguá-lo.

Chegou-se a porta do quarto de banho, chamou, chamou, bateu e nada. Espiou pelo buraco da fechadura. Horror! Pulou como uma louca, gritou pelo cozinheiro, pelo Hilário, pela alemã, fez um sarilho enorme, obrigou arrombar-se a porta, e ficou apatetada, imóvel sem chorar e repetindo apenas:

— Encarangada! Morreu encarangada!

Repentinamente D. Claudina, agitando os braços no ar, sem apoio, caiu de costas; esfolando profundamente o nariz; e aí morreu, deitando pela boca porção de sangue escuro e espumoso.

Feliz! Ao menos morreu de morte morrida!

Rebentara-lhe um maduro aneurisma.

Hilário e o cozinheiro, ali ficaram, estupefactos.

O cozinheiro, crioulo, moço ainda, vagabundo chapado, já muito conhecedor das desavenças daquela gente,com quem vivia, sem arredar o pé para a rua, por medo ao recrutamento, estático, perante a nudez morta daquele corpo, branco, cujas curvas lambia com um olhar velhado, foi rudemente arrancado à sua curiosidade pela voz impiedosa e áspera do Hilário, que lhe gritou rápido:

— Já daqui prá fora! E mais calmo acrescentou depois: Chama um carro e vai buscar-me o Dr. Eloi. Passa por casa de Nham Pombinha e dize-lhe de vir cá, já, já.

— Mas podem me pegar...

— Toma um carro, já te disse. Safa-te!

Saiu o mensageiro.

Hilário ali ficou um momento, relanceou um rápido olhar pelo quarto e depois abriu a válvula do tanque por onde começou a jorrar forte a água, um tudo nada aquecido pela permanencia do corpo de Doricélia, nela. Depois, chamando a criada alemã, aterrorizada com aqueles sucessos, com regular trabalho e esforço, conseguiu envolver o corpo da mulher no largo e felpudo lenço de banho, conduzindo-a para o seu quarto de dormir.

Volveu pelo mesmo fim a D. Claudina, inteiriçada e conduziu ao seu aposento, ficando nos assoalhos um trilho de largas gotas de sangue.

A alemã, tranzida de medo, logo que viu-se livre de tal fardo, saiu porta a fora e foi bater língua pela vizinhança, pálida trocando as palavras e jurando que ia logo no dia seguinte para a colônia, para perto de seu pai, na carroça de seu tio!

De modo, que daí há pouco a casa era invadida pelo mulherio da vizinhança ávida de curiosidade, caras compungidas e olhos perscrutadores. Hilário, atônito, começou a notar aquilo e não poude mais conter a onda. Contou o caso reunindo-as duas ou três velhuscas mais cheias de oferecimentos, entregou-lhe os molhos de chaves, indicou-lhes as gavetas onde julgava estarem as roupas, e meteu-se na sala onde estava mais à vontade. Redobravam aí suas dolorosas cólicas.

Chegou Nham Pombinha. Perguntou pelo Hilário e foi entrando afoitamente até onde estava. Por demais notara aquele ar de novidades, aquele rebuliço, que enchia a casa, mas ignorava por completo o sucedido.

Deu com os olhos em Hilário, recostado no sofá e pálido, desfeito, abatido, gemendo, com as mãos contraídas, comprimindo o estômago.

— Ai! ai! que dor, que dor atroz! gemeu o mísero.

— Mas o que é? O que sentes? indagou, aflita, Nham Pombinha.

— Aqui, aqui! Aí! Que fogo! Que dor!...

— Espere um momento, já te passa isso, eu volto.

Foi dentro, rápida, correndo quase, trouxe um copo d'água, vasou-lhe dentro uma porção de mandinga milagrosa do Caboclo. Misturou a beberagem deu-a a Hilário que enguliu avidamente, sem querer abrir os olhos, confiando e dócil, esperando pronto alívio ao seu sofrimento.

Foi golpe de graça.

Aquele organismo minado, corroído pelo efeito nocivo de tanta droga perigosa, daquele envenenamento lento, porém asqueroso persistente, não pode resistir e cedeu, desfibrou-se sob a ação rápida da poção de Nham Pombinha. Sacudiu-se convulsivamente, ameaçou um arranco violento, de olhos vítreos e ferozes, a boca aberta, narinas dilatadas, as mãos em garrasm crispadas sobre o estômago, deu um prolongado e doloroso gemido, e ficou-se, ficou-se, descaindo lentamente, inerte, frouxo, do sofá para o chão, onde parou, a face no tapete, um braço preso em cima, a roupa repuxada, silencioso, imóvel, morto!

Nham Pombinha, atônita, sem ter nunca imaginado aquele desfecho, adivinhou-o e fugiu, alucinada e cortada de medo, de piedade, de remorso e de angústia.

O Dr. Eloi, de chegada, ouvido o relatório, abriu imensamente os olhos. Quê? Em vez de um, em vez de dois, três, três cadáveres? Mas aquilo era uma matança, um acaba tudo, era o fim do mundo? Não andaria aí gato encerrado?!...

Mas não houve que dizer Doricélia, uma apoplexia, legal. D. Claudina, ruptura de aneurisma, legal. Na véspera ainda a desinteria de azeite de potro. No Moraes, legal também. Aquilo com Hilário é que era o diabo. Mas, enfim, não assistira o doente, nada lhe prescrevera, parecia coisa de estragos do coração, legal também, sem assistência médica, nota de barbas de molhor por causa das dúvidas. E deu os atestados. E vieram os caixões fúnebres e os outros aprestos dos defuntos. Alguns vizinhos, maridos das vizinhas, vieram também lançar a sua vista d'olhos, e deram os passos precisos para os enterros e avisos aos parentes, o principal, enfim.

Nham Pombinha, embezerrada, mandou dizer que positivamente não queria saber de nada e que se arranjassem.

As línguas então, trabalharam a valer. Parecia no Boato!

Concentrada nas suas recordações e no seu mordente remorso, só, ré perante a consciência, sacudida pelo terror, batida na sua defesa de ignorância, Nham Pombinha, fechada no seu quarto, passou uma noite medonha.

Pesadelos ou visões?

Revia, perpassavam-lhe diante dos olhos esgazeados, imagens vagamente desenhadas, com clarões fosforecentes; na meia luz da lamparina, via, via a cara boçal e esquisita do mandingueiro, com os dentes pretos, o branco dos olhos muito brilhante; assistia, jurava que assistia a uma sessão de bonzos, as invocações ao Xererê milagroso, dançando, sob o altar grotesco o corpo alquebrado do Cirilo, e coisa mais horrorosa, o pescoço desse corpo, que saracoteava, sustentava três cabeas: a do Hilário, a do Elesbão e a do Cirilo, rindo as três bocas, ferozes os três pares de olhos!

Aumentava o quadro, pulava a Claudina, pulava a Doricélia, o José Pereira, o Quatro-olhos, o cão estimado!... De repente, todos esses fantasmas acercavam-se-lhe, enganavam-a, mordiam-na, puchavam-lhe os cabelos, vasavam-lhe os olhos.

Então, levantou-se sem resolução, porém como fascinada, tirou do bolso vestido o vidrinho da última droga que acabara o Hilário, e bebeu-a de um só trago, sem uma visagem, sem repugnância. Atirou o vidro contra o espelho que refletia o seu corpo gentil, e de repente, às gargalhadas, atirou-se a pular, fazendo roda, dando às mãso a imaginários companheiros. às furiosas gargalhadas, sucederam gritos roucos, ofegantes e ela caiu, em cheio no chão, sem alento. Ou tinha enlouquecido de verdade, ou então ia criar macaquinhos no sótão. Em todo o caso uma lástima.

E acabou-se a Mandinga.

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