Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  A Casa Dus Budas Ditosos João Ubaldo Ribeiro - Página 2  Voltar

A Casa Dus Budas Ditosos

(João Ubaldo Reibeiro)

É, eu cheguei a dizer que não tenho saudades de nada, mas tenho algumas. Muitas, até. É natural, não seria normal não tê-las. Saudades daqueles bailes americanos, por exemplo. Os navios da marinha americana aportavam, e o mulherio ia aos píncaros. Havia bailes nos navios e bailes em clubes. Os quirômanos baianos -- quem nos ensinou esta palavra foi o velho professor Mendonça, esse, sim, uma pérola de pessoa, maluco beleza, como se diz agora, grande homem, a gente morria de rir com ele --, os quirômanos baianos, ou seja, os viciados em mão, que eram praticamente todos, ficavam revoltadíssimos, mas a gente não estava nem aí nem chegando. Eles ficavam assim indignados porque sabiam que a gente dava para os americanos e não dava para eles. Quer dizer, a maior parte não dava propriamente, pela razão de sempre, a necessidade de permanecer tecnicamente virgem, mas dava, em última análise. Até hoje me espanta essa himenolatria.

Era a honra da mulher, que horror. Ainda existe, sabia? E existe aos montes, é de cair o queixo, de vez em quando tomo um susto.

Pittigrilli, um escritor que hoje ninguém lê, mas andava em voga e de que as moçoilas não podiam nem chegar perto, mas cujos livros davam sopa na biblioteca de meu pai e na do de Norminha -- mais um ponto para minha família, nossas famílias, aliás --, dizia mais ou menos que, em vez de se preocuparem tanto com a integridade dessa honra, melhor fariam as mulheres italianas em lavá-la, com água mesmo e não com sangue, pelo menos uma vez por dia. E, de fato, é triste, acho que como ele próprio ainda disse, viver numa sociedade em que a honra feminina é portada entre as pernas, que coisa mais besta, meu Deus do céu. Mas, não é, não é? às vezes me dá vontade de fazer um comício. Quantas vidas se perderam, quantos destinos se estragaram, quantas tragédias não houve, quantos conventos não foram abarrotados desumanamente, por causa da honra de tantas e tantas infelizes? Sim, creio que a grande maioria preservava o hímen com os americanos, mas, de resto, fazia-se tudo. E a gente quase sempre tinha que ensinar muito a eles, embora com bastanta jeito, para não espantar. Nunca encontrei um -- nem eu, nem Norma Lúcia, nem nenhuma das outras meninas que faziam intercâmbio de experiências comigo -- que não tivesse um mundo para aprender. Eles eram uns bestalhões, os americanos, mas tinham grande serventia, porque o homem baiano metia a mão por baixo de sua blusa e, no dia seguinte, todo mundo sabia, até em Feira de Santana. Isso num tempo em que não se usava telefone como hoje e, por exemplo, uma ligação aqui para o Rio costumava levar o dia todo para se completar. Quando se completava. No final, a gente tinha que falar aos berros, entre todo tipo de chiadeira, zumbidos e apitos, uma cacofonia infernal. Acho que não há um só baiano dessa geração, e das duas ou três posteriores também, ou mais, que nunca tenha chegado a um amigo, ou à turma do bairro ou do colégio, para dizer "não digam a ninguém, mas eu peguei nos peitos de Guiomar por dentro". Peguei nos peitos por dentro, frase mágica, muitas moças mais frágeis quase foram destruídas por essa frase e os "também quero, senão vou espalhar" que se seguiam. É inacreditável, mas havia sujeitos que chegavam para as meninas e diziam isto, e algumas cediam, é inacreditável.

Em suma, os americanos eram uns merdas simpáticos, só eram bonitinhos, mas não sabiam trepar, e a maioria, quando queria dizer um palavrão, dizia God e Jesus, imagine um povo que achava palavrão dizer Deus e Jesus, tudo ligado ao puritanismo deles, usar Seu santo nome em vão, essas coisas. Tanto assim que muitos empregavam eufemismos, como Geez, Golly gee e oueras besteiras do mesmo jaez, imagine novamente um povo que precisava de eufemismos para exclamar o nome de Deus ou de Jesus. Eles trepavam e diziam oh God, oh God, só me lembra um português, Nuno, um português lindo que foi meu caso uns tempos, José Nuno, lindo. Aliás, fode-se muito bem em Portugal, ao contrário do que eu suponho ser a opinião generalizada. Mas eu quase nunca gozava com o Zé Nuno, porque, no momento culminante, ele urrava "não t.acanhes, não t.acanhes!", e meu ponto G acionava o disjuntor no ato, eu entrava em crises de riso e depois roçava na bunda dele, ele adorava, embora fosse machíssimo como todo português, inclusive os veados -- paneleiros, para ficar com a usança portuguesa e emprestar alguma cor local à narrativa --, os paneleiros que se juntam nos arredores do Campo Pequeno, onde se fazem ash curridash d.toirosh em L.shboa e vão trabalhar como forcados, que são uma espécie de veados parrudos que vão enfrentar os touros no peito. Em fila, trenzinho, um encostando a bunda no de trás, naturalmente. E depois vão às tascas, aos copos e à veadagem, são veados machíssimos. Vi muitas belas bundas em Portugal, que lá não são chamadas de bundas, mas de cu mesmo, que lá nem é palavrão, veja como são as coisas, grande país subestimado. Bundas de homens e mulheres. Toda mulher portuguesa dá a bunda, ou pelo menos dava, para manter a santa virgindade genital, como aqui. Hoje, com a entrada na Comunidade Européia e outras mudanças -- eles hoje detestam o Brasil, sabia? português de-tes-ta o Brasil, com a exceção do Mário Soares, do Saramago, do José Carlos Vasconcelos e dois ou três outros gatos pingados, desprezam mesmo, é uma pena --, não sei mais como estão as coisas. Provavelmente nunca mais será ouvida a pergunta imortal que um amigo meu escutou, depois de enfrentar galhardamente a primeira com uma portuguesa belíssima, ele que antes estava até com medo de broxar. Ele me contou que, satisfeito e aliviadíssimo, estava fumando o tradicional cigarrinho post coitum, quando ela olhou para ele e falou: "E ao cu, não me vais?". Fantástico, disse ele; emocionante. E fui-lhe ao cu, disse ele, que maravilha. Imagine aqui no Brasil, uma mulher fazer uma pergunta dessas, não faz. Eu morei no bairro de Alvalade, dava para ir andando ao Campo Pequeno, cansei de ir às corridas somente para ver as bundas apertadinhas dos forcados.

Sou contra essa teoria segundo a qual os brasileiros tem belas bundas e alimentam uma fixação patológica por bundas somente por causa dos africanos. Isto é preconceito, as belas bundas da nossa gente vêm tanto da áfrica quanto de Portugal, tanto assim que eu não tenho sangue africano nenhum, pelo menos que eu saiba, e sempre portei uma bunda acima de qualquer crítica, até hoje não envergonho. Duvido que, se eu disser a algum homem que me coma

"e ao cu, não me vais?", ele não vá imediatamente.

Claro que nunca fiz essa pergunta aos americanos, até porque em inglês não tem graça, e eles eram realmente uns bestalhões, a gente tinha que usar mil recursos para eles irem acertando aos poucos. Mas não tinham só essa vantagem de que falei de não poderem, mesmo que quisessem, sair pela rua Chile, espalhando aos quatro ventos suas proezas conosco. Eram proezas nossas, pensando bem. Mas era bom, no final das contas. A gente tinha de ensinar tudo, porque eles não sabiam nem beijar direito, achavam chupão com língua uma coisa praticada exclusivamente em bordéis franceses -- até hoje chamam isso de French kiss, se bem me lembro -- e mais uma porção de coisas infantis. As baianas de minha geração devem ser responsáveis pela formação de centenas e centenas de americanos, fomos uma força progressiva na vida deles. Teve um, chamado Chuck, a quem ensinei tudo, e ate hoje ele deve ser um desajustado na terra dele, em Oklahoma. Muskogee, Oklahoma, nunca mais esqueci. Acho que sou a única pessoa de fora de lá que ouviu falar, deve ser um horror. Bom aluno, ele, um talento que teria sido perdido, se a mulher baiana não tivesse entrado em cena, e com meu brilhantismo, modéstia à parte. E apesar disso tudo, era bom, como eu falei. Não só a gente dava alguma vazão àquela energia toda de potrancas mal-atendidas, felicíssimas por receberem uma carga maciça de homens para uso livre três a quatro vezes por ano, como treinava o nosso inglês, tanto para papos normais como para palavras que não eram encontradas nos dicionários e a gente morria de curiosidade em saber. Aprendi muita palavra chula em inglês, cunt, pussy, prick, balls, blowjob, fingerfucking, cherry, perdi a conta.

Que interessante, nada como um dia depois do outro, realmente.

Quem te viu, quem te vê. Quando Chuck passou por Salvador e mesmo muito depois, as mulheres grávidas nem sequer apareciam barrigudas nos filmes americanos, não podiam ter enjôos, nada, nada. Passavam nove meses grávidas, com a barriga do mesmo tamanho. Dormiam de sutiã, impecavelmente maquiladas e penteadas, e acordavam do mesmo jeito. Ninguém falava palavrão. Ninguém comeria nada de errado, a não ser para sofrer castigos demoníacos no fim. E por aí se ia, era como se aqueles fascistas do tipo de um tal de William Hays, de quem eu vi uma foto que imediatamente me trouxe à cabeça o velho Pedrão e outros santarrões do mesmo quilate, despejassem o anti-séptico deles no cinema. Pois ontem eu estava brincando na Internet e aí bati de cara com uma página de educação sexual, que qualquer criança pode achar, se bem que eles agora estejam usando códigos, programas e senhas especiais para não deixar que as crianças tenham acesso a certo tipo de coisa. Até aí, vamos dizer, tudo bem, porque a Internet realmente mostra uns troços que você entende por que os pais não querem que seus filhos pequenos vejam, se bem que seja inútil, como todo esforço nessa área sempre foi. Mas essa era uma página normal de consulta e pesquisa, até meio família, com aquele ar de americano vestindo paletó para ir ao culto no domingo, ou trinchando peru no dia do Thanksgiving. E lá estava uma tal Dra. Betty Dolson, grande Dra. Dolson, falando para uma platéia aberta, que apenas devia ter pago a entrada, a respeito do clitóris dela, de vibradores, de felação, de cunilíngua, de um casal de mais de setenta cuja mulher se queixava agressivamente de que o pau do marido não subia, experiências sexuais de todos os modelos e mais uma porção de coisas do arco da velha, numa linguagem tchan-tchan, sem disfarces, que fazem este depoimento soar até como antigo, eu acho que terá uma aparência de antigo e pudico para muita gente que o ler. Verdade, não estou sendo irônica, verdade, é por isso que eu quero soltar as amarras que ainda me pegam, eu quero ficar livre. Livre! Eu quero ser moderna! Você não está achando que eu estou sendo branda demais? Eu estou achando. Estou parecendo uma americana do tempo de Chuck. Não, não estou, exagero meu. Mas preciso pôr tudo numa perspectiva correta, atualizada, moderna, enfim. Não posso ficar numa atitude temerosa dos censores de Joyce, de Lawrence, de Henry Miller etc.

Se eles podem, se a Dra. Dolson pode, por que eu não posso? Grande Dra. Dolson, me ajudou bastante nesta fase de escancaramento e batalha contra a burrice e o atraso, vamos à luta, ponto para os americanos. Ponto para mim também, por que não? Estou atenta e tiro proveito inteligente de tudo o que me aparece; comigo não pode haver hesitações. Vamos à vitória, estou com preguiça de me estender mais e acabar me enovelando novamente, como já aconteceu. Uma coisa de cada vez. Aos americanos.

Norma Lúcia reuniu uma coleção de americanos da mais alta categoria, quantitativa e qualitativamente. Funcionava como uma biblioteca pública; a gente ia lá e tomava um emprestado, sem burocracia. Sobretudo quantitativamente. Só quantitativamente, aliás. Quantitativamente, só serve para o livro de récordes. Um acervo interessantíssimo, o de Norminha. Basta citar Melvin, que gozava e ficava com as pernas bambas se a gente tocasse no pau dele nos minutos subseqüentes e pedia perdão a Deus toda vez que gozava, contribuía bastante para nossa religiosidade. Tinha esse Melvin, tinha Gordon, tinha Cliff, tinha Andy, todos querendo aparentar experiência, mas a gente sabia que precisava trabalhar ex tabula rasa com eles. Mas também, é claro, teve o Bob, teve o Ken... O Ken era judeu, e eu fiz um empréstimo dele; às vezes Norminha e eu até armávamos umas surubinhas, semi-surubinhas na verdade, coisa boba --americano até hoje não tem uma boa palavra para "suruba", continuam um pouco subdesenvolvidos nessa área.

Group Sex soa como saído do catálogo de ciências sociais de Stanford e vai ver que está lá. Foi o Ken que me ensinou o que quer dizer mohel, porque eu fui tomada por uma crise de riso incontrolável, quando vi o pau dele pela primeira vez. Era todo tronchinho e, quando você o olhava de cima, parecia uma careca dando risada. Ele não se incomodou, disse que já estava acostumado, que o mohel que cortou a pelanquinha dele só vivia de cara cheia e que o lugar de Nova Jersey em que ele nasceu está cheio de judeus de paus tortinhos e risonhos, que esse mohel circuncidou. Cultura inútil é comigo, ninguém sabe o que é mohel, a sacanagem é mesmo um grande veículo de intercâmbio cultural.

Mohel é o cara que faz a poda dos prepúcios, é uma alta especialidade mosaica, mas esse do Ken era mais chegado a Noé, que tomou um porre e comeu as filhas e depois ficam falando isso e aquilo para disfarçar; até Dante acho que botou Noé no limbo, em vez de no inferno, que era o lugar dele. Vamos ser coerentes.

Trepar com todo mundo dá ou não dá inferno? Comer filho dá inferno? Aliás, vamos deixar de lado esse negócio de inferno, ainda conservo um certo grilo de inferno.

Pois é, Norma Lúcia tinha essa infinita coleção de americanos, alguns ricos, e todos adoravam ela. Ela se hospedou muito naquelas fazendinhas deslumbrantes da Nova Inglaterra, ranchos texanos, criacões de cavalos em Kentucky, desbundes em Palm Springs, tudo o que você possa imaginar, naquele tempo em que o Galeão era um galpão mal-acochambrado e as mulheres viajavam de chapéu e desfilavam para lá e para cá, com os passaportes abanando nas mãos. Quando ela gostava de algum pobre, tipo capitão de submarino, bancava a despesa toda, eu amo Norminha.

Ela fazia todo tipo de estripulia, comeu a mulher de Ken, comeu uma porrada de amigos deles, comeu o filho mais velho de Gordon, comeu o general pai de Bob... Eu amo Norminha, é uma ídola minha, e olha que eu não sou dada a ter ídolos. A vida é louca. Ela se casou com Carl, o fazendeiro sul-africano, por causa do Bob. A gente transou com o Bob em duas viagens que ele fez à Bahia, uma como oficial da Marinha e outra num desses veleiros em que as pessoas vomitam, dormem dentro de buracos, nunca tomam banho, vivem de bunda assada e curtem se pendurar nas bordas dos barcos -- "fazer beira", eles dizem; para mim fazer beira sugere outra coisa, deixemos para lá --, fazem beira entre ventos assassinos e água salgada na cara e as mãos sangrando e tudo no corpo sendo moído, tem gosto para tudo neste mundo. Apesar desse defeito, Bob era fantástico, o avô dele tinha inventado uma espécie de grampo de papel inovador, não sei bem, um troço desses que todo mundo usa e só os americanos patenteiam, de maneira que Bob tinha mais dinheiro do que todo o estado da Bahia, era um festim, trazia todo tipo de presente americano, do tempo em que só se achavam certas coisas em Nova York, e Nova York era Nova York, e não existiam japoneses. Ele aprendeu muito com Norma Lúcia. Comigo não, porque ela era craque e eu aspirante, se bem que muito talentosa. Aprendeu tanto que virou virtuose e, quando ficou amigo de Carl, numa dessas rodas de iatismo que eles freqüentavam, contou tudo a ele. Contou que Norma Lúcia era o fodaço dos fodaços, verdadeira oitava maravilha do universo, aqui perdida neste lado do Atlântico Sul, e não deu outra. Claro que não deu outra: o iate dele -- que iate! -- aportou na Bahia. E claro que ele ligou imediatamente para Norminha, e ela, ça va sans dire, não envergonhou a Bahia, o homem ficou completamente ensandecido. Casaram em três meses, e Bob foi o padrinho e eu a madrinha e, enquanto eles partiam no Hurricane para um cruzeiro no Caribe, Bob e eu fomos nos enroscar numa casa de veraneio que ele tinha alugado em Amaralina, ô vida.

Eles sempre foram felicíssimos. Ela adorou a áfrica do Sul, até porque sempre gostou muito de matar bichos grandes, e Carl dava todo o dinheiro que ela queria para ela comprar o direito de sair matando o que lhe desse na veneta, naqueles países africanos que a gente vê nos documentários, onde só tem bichos, pobres fantasiados e generais com contas secretas na Suíça, são só não sei quantos mil dólares por elefante, não sei quantos por leão e assim por diante, para não falar que não havia ecologistas. Ela disse que matar é o maior afrodisíaco que existe e que sente um arrepio assombroso, na hora em que o bicho sucumbe. Quando ela era menina, ordenava às serviçais da fazenda que a chamassem quando fosse hora de matar qualquer bicho, inclusive porco, que é uma barra para morrer de faca, com aqueles guinchos agoniados, aquelas contorções e sangue espirrando por tudo quanto é lado. E ela preferia faca a qualquer outro instrumento, para essa diversão. O contato é mais próximo, dizia ela, e eu acredito que ela tinha um barato fazendo essas coisas.

Naturalmente que não dava para matar um leão dessa forma, feito Tarzan, mas ela sempre atirou bem e matou uma porção. Ainda aqui na Bahia, ela chegou a criar uma jibóia chamada Selma, e a coisa de que ela mais gostava era alimentar Selma. Jibóia não come comida morta, tem que ser um animal vivo. Pelo menos foi isso que ela me contou. Cobra come pouco, acho que uma ou duas refeições por mês. Bem, não vem ao caso, o fato é que ela descolava uns ratos brancos com uma amiga em não sei que laboratório, ou então uma preá no criatório de um empregado do pai, e fazia um verdadeiro ritual para dar o bicho a Selma. Assisti a algumas dessas celebrações. Não entrei em transe nenhum, mas acredito que compreendi o barato dela, acho que intuo esse barato, havia alguma coisa de morbidamente sensual naquela cena. Ela trazia o rato numa gaiolinha de arame, não tinha nem a caridade de arranjar uma caixa fechada; me lembrava aquela cena de Ana Bolena em que vêm dizer a ela, Ana Bolena, que Henricão mandou cortar o pescoço dela, com aqueles tambores agoureiros redobrando e Maria Callas gritando "sirrrr Peeerrrrrrcy!", acho lindo. Norma Lúcia botava Selma num quarto desocupado e sem mobília daquele casarão enorme da chácara, trancava a porta, acendia uns incensos fedidos que ela comprava nas Sete Portas, se acocorava num canto e soltava o rato para Selma comer. Despejava o rato, quero dizer, porque ele não saía da gaiola, gelava assim que via a cobra. Ela entrava em êxtase só de ver o rato paralisado de terror, e Selma fixava aquele olhar malevolente de cobra nele, com a língua tenteando o ar, para depois, com uma classe sinuosa que só cobra tem, enroscar-se nele, lambê-lo, esmagá-lo e engoli-lo sem pressa. Norma Lúcia não se aguentava de excitação diante desse espetáculo e se masturbava horas seguidas. Muitíssimo mais tarada do que eu, incomparavelmente, chegava a acariciar longamente os paus dos cavalos dela, com os olhos fechados e quase em transe. E adorava ver cavalos trepando também.

Não que cavalos trepando não sejam uma visão muito bonita, eu também gosto de ver, assim como jegues; vi inúmeros, soltos pelas ruas e terrenos baldios, em Itaparica. E cachorros também, é interessante como cachorros trepando também são excitantes. A corte dos cachorros parece desgraciosa à primeira vista, mas, bem olhada, não é, principalmente a dos vira-latas em bando, brigando pela posse da fêmea, até que um sai vitorioso, e a penetração culmina o triunfo. Mas nunca cheguei a ser como Norminha. Ela era diferente, era realmente completa, sempre tive uma certa inveja dela. Inveja sadia, eu não queria tirar o que ela tinha, queria somente ter também o que ela tinha, ou melhor, ser como ela era.

Uma inveja a favor, de admiração, não uma inveja destrutiva. Tudo o que ela fez, fez num tempo em que tudo era bem mais difícil para as mulheres. Não que não fosse difícil para os homens também e, sob outros aspectos, nunca deixei de ser solidária com os pobres dos machos, acorrentados a uma porção de deveres esdrúxulos, desde não chorar até enfrentar situações horripilantes, só porque eram machos. A gente pensa que lembra como eram as coisas, mas não lembra, há sempre filtros, filtros da memória, filtros das neuroses, filtros do voluntarismo, tudo quanto é tipo de filtro. Não era brincadeira, não, mesmo com ela e eu vindo de famílias muito liberais e meio porras-loucas, meio metidas a européias cosmopolitanas. Minha mãe dirigia carro, usava calças compridas e fumava desde que eu me entendi e ia ao médico sozinha e ao cinema sozinha, um escândalo. Mulher não tinha que ficar virgem apenas porque o babaca do noivo exigia -- como até hoje exige, o Brasil não é só Ipanema --, pois havia também o medo de engravidar. Usava-se camisa-de-vênus, mas os próprios homens tinham vergonha de comprar camisinha nas farmácias, para não falar que é um recurso insuportável e grande parte dos homens fica tão concentrada ao tentar enfiá-las, que acaba broxando. A ereçáo não foi planejada para acontecer quando se está concentrado num problema técnico. É uma operação esquisita e desajeitada. Eu ouvi dizer que, aqui no Rio, já há meninas que põem a camisinha no namorado com a boca. Eu imagino como seja, mas mesmo assim gostaria de ver, não creio que a camisinha melhore com essa manobra, nunca suportei camisinha. Quando foi que chegou a pílula? Não me lembro bem, mas nós não éramos mais mocinhas, por aí se pode adivinhar o que nós vivemos, se bem que a repressão, como já observei, teve sua utilidade, até mesmo lúdica. Eu passei muito tempo sem saber que era estéril, só vim a saber muitos anos depois, de maneira que tinha tanto pavor de engravidar quanto Norma Lúcia e todas as outras, a não ser as chantagistas ou inconseqüentes. Ela, por sinal, apesar das cautelas, tabelinhas, simpatias e remédios suspeitos, fez três abortos. Havia uns médicos conhecidos e comentados à boca não tão pequena, dizem que até bons médicos, que faziam abortos. A clientela devia ser fortíssima, só podia ser. Quem podia, vinha fazer os abortos aqui no Rio, para despistar. Mas, claro, eu, graças a Deus, não tive que fazer aborto e agora, olhando para trás, vejo que Deus sabe mesmo o que faz, porque eu não ia dar para mãe, ia ser uma mãe horrenda e talvez até comesse meu próprio filho, conheço uma meia dúzia de três ou quatro dessas jocastas por aí, nada no mundo é impossível, isso é até relativamente comum. Como dizia o velho Matosinho, na faculdade, a verdade dói, a verdade machuca, a verdade contunde, a verdade fere, a verdade maltrata, a verdade mata -- o velho Matosinho era um estilista baiano, no pioríssimo sentido da palavra, mas tinha óbvia razão. Como tinha razão Nelson Rodrigues: se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém. A verdade é essa, de vez em quando eu fico com ímpetos de sair vergastando os fariseus, acho que é por isso que eu quero publicar este depoimento, já me quebra um galho. Não vou dizer que seja comuníssimo mãe comer filho ou irmã comer irmão, mas que las hay, las hay. E los hay também, talvez até mais. No interior do Nordeste -- e por que não dizer do Brasil todo, do mundo todo? -- de vez em quando prendem um, como sempre, pobre, e suspeito que é a famosa ponta do iceberg, na verdade as ocorrências são muito mais numerosas do que se imagina. Em relação a irmão, posso dar meu testemunho pessoal, eu comi muito Rodolfo, meu irmão mais velho, até ele morrer a gente se comia, sempre achamos isso muito natural. Evidente que é natural, a maior parte das pessoas passa pelo menos uma fase de tesão no irmão ou na irmã, só que a reprime em recalques medonhos. Nós não. Norma Lúcia também não.

Muita gente também não.

Mas não era isto que eu estava dizendo, eu ia dizer que, se houvesse mesmo feminismo neste país -- feminismo sadio, não esta merda de querer ser melhor do que os homens e apenas assumir o papel de dominador, como se para descontar, burrice, burrice, uma tirania não justifica outra, burrice --, levantariam uma estátua para Norma Lúcia, estabeleceriam uma Fundação Norma Lúcia, qualquer coisa assim. Talvez eu mesma tome essa iniciativa, pensando bem. Por que não? A gente se acostuma a achar que não pode fazer as coisas e, de repente, descobre que pode. Quase sempre pode, é por isso que muitos malucos dão certo. Vou meditar sobre isso seriamente. Fundação Norma Lúcia pela Liberdade da Fêmea da Espécie, a FUNOLU! Não, sem brincadeira, pode ser uma boa idéia, pensar nisso com carinho. Fundação Antipreconceito Norma Lúcia, Fundação da Liberdade Humana Norma Lúcia, Comitê Antiburrice Norma Lúcia, Comissão Norma Lúcia de Combate ao Atraso e à Estupidez, alguma coisa importante em homenagem a ela, inspirada nela e em outras heroínas ignoradas. Ela de fato merece. Elas merecem. Nós merecemos. Se bem que, como eu também ia dizendo, as restrições todas nos forçaram a conseguir caminhos inteligentes para superá-las, o que nos tornou melhores mulheres em todos os sentidos, inigualavelmente melhores do que seríamos sem elas. Aprendemos a dobrar situações adversas, desenvolvemos áreas intelectuais, emocionais e sociais que do contrário teriam ficado estagnada, atrofiadas. E aprendemos a transar, a curtir tudo. As mulheres, paradoxalmente, nesta era de liberdade, estão ficando incompletas, em relação a nós. Não todas, nunca são todas, mas muitas de nós aprenderam a gozar por praticamente todos os buracos do corpo, basta dominar uns truquezinhos e exercitá-los com um certo afinco; eles, quando menos você espera, se tornam automáticos, parecem inatos. A necessidade deu muita criatividade à minha geração, muita versatilidade. Aprender a apertar as coxas produtivamente, por exemplo, muitas mulheres não sabem mais, a necessidade não as espicaçou. Antigamente era muito mais comum a mulher gozar apenas apertando as cozas uma contra a outra, ou quase isso, havia recurso para tudo, havia realmente um certo virtuosismo hoje perdido, pela falta de exploração plena de nossas potencialidades. Enfim, conseguimos transformar o limão em diversas limonadas, transformamos o limão em laranja doce, melhor dizendo.

Isso pode resvalar para o saudosismo, os bons tempos e semelhantes asnices, não há bons tempos, só há tempos. Nada de saudosismo, saudosismo é uma espécie de masturbação sem verdadeiro prazer, uma inutilidade atravancadora, que no máximo pode ser empregada para brincadeiras, mas geralmente é perda de tempo mesmo. Não, nada disso. Aqueles tempos tinham seu charme, mas eram duros também, cada tempo tem sua dureza, com mil perdões pela filosofia de botequim. Tomar nas coxas, de que eu já falei tanto, exige know-how, para ser desfrutado decentemente A mulher tem que treinar a postura, para estar segura de que vai atingir um orgasmo, ainda mais quando o homem é semi-adolescente e goza em dois décimos de segundo. Era preciso também tomar cuidado com o pessoal do "só a cabecinha", todo mundo manja esse pessoal, embora ele exista mais no folclore do que na vida real, eu mesma só encontrei uns três. Tive até vontade de dar para um deles, cheguei a começar a abrir as pernas, encostada no pára-lama do carro do pai dele. Mas algo me disse que não. Algo quase sempre mente, mas, mesmo assim, manda a boa paranóia sadia que se dê atenção a ele. Pois é, Algo me disse que não desse, nem nesse dia nem nos subseqüentes, embora adorasse me agarrar com esse rapaz, ele devia ter uns feromônios extraordinários. Ficava ralado de tanto botar nas minhas coxas e eu fazia tudo com ele, exceto deixar que ele metesse, fosse na frente, fosse atrás. Atrás, bem que eu tentei, a primeira vez em pé, encostada no muro do farol da Barra, que, aliás, é meio inclinadinho, e a gente fica mais ou menos reclinada de bruços, grande farol da Barra. Ele passou cuspe, eu me preparei toda ansiosa e, quando ele enfiou, não consigo imaginar dor pior do que aquela, uma dor como se tivessem me dado dezenas de punhaladas, uma dor funda e lacerante, que não passava nunca, me arrepio até hoje. E as tentativas posteriores foram todas desastrosíssimas, experiências humilhantes e acabrunhantes, passei anos traumatizada e decidida a tornar aquilo território perpetuamente proibido e mesmo execrado. Até que Norma Lúcia me ensinou uma coisa. Não. Duas coisas. Não. Três coisas. Primeira coisa: no começo, na iniciação, por assim dizer, tem que ser de quatro, requisito absoluto para a grande maioria.

Segunda coisa: tem que dizer a ele que venha devagar. Ou, melhor ainda, dizer a ele que espere a gente ir chegando de ré devagar, sempre devagar. Terceira e mais importante de todas: relaxar, relaxar, mas relaxar de verdade, soltar os músculos, esperar de braços abertos, digamos. É um milagre. Foi um milagre, na primeira vez em que eu segui essa orientação simples. Daí para gozar analmente -- não sei nem se é gozo propriamente retal, só sei que é um gozo intensíssimo -- foi só mais um pouco de vivência, with a little help from my friends, ha-ha. Quem não sabe fazer isso nunca fez uma verdadeira suruba, nem pode fazer, nunca vai poder comer direito um casal, enfim, vai ser uma mulher incompleta, acho que qualquer um concorda com isso. Não sei se você sabe, mas as hetairas, as cortesãs da Grécia antiga, davam a bunda, preferencialmente. Apesar de já haver métodos anticoncepcionais, o mais seguro era mesmo uma enrabação, é uma arte milenar que não pode ser perdida, e toda mulher que, sob desculpas inaceitáveis e ditadas pela ignorância, preconceito ou incapacidade, não conta com isso em seu repertório permanente é uma limitada, não importa o que ela argumente. Acho até que todas as refratárias na verdade sabem que são limitadas e procuram negar essa condição através de mecanismos para mim pouco convincentes. Depois que aprendi, naturalmente que tive de procurar esse namorado meu -- esqueci o nome dele agora, Eusébio, qualquer coisa por aí -- e dar a bunda a ele, não podia morrer sem fazer isso. Dei numa festa de aniversário da então namorada dele, num sítio onde é hoje Lauro de Freitas, eu também era levadinha.

E por que eu não deixei que ele me comesse na frente também? Bem, primeiro porque achei que não estava pronta ainda, embora me sentisse profundamente lesada em meus direitos elementares, por não poder dar tudo o que era meu e de mais ninguém. Mas, para consolar, eu já rinha me desenvolvido extraordinariamente em outras áreas, já desfrutava tomar na bunda e nas coxas com grande competência, já gozava chupando, gozava até quando chupavam meus peitos bem chupados, gozava no dedo, gozava apertando as coxas, não sentia, enfim, falta de muita coisa e tinha realmente terror de ficar grávida. Segundo, e mais relevante, é que eu tinha uma fantasia de meu desvirginamento, que eu acho que tirei da biblioteca de meu avô, um livro grossão sobre a vida sexual, que trazia as fotografias de um homem e uma mulher, ambos nus de frente, ambos em posição de sentido, tudo altamente neutro. Mas eu não conseguia deixar de mirar os peitos e os pentelhos dela e o bigode e o pau dele, passava horas entretida nisso e lendo a descrição de um desvirginamento, feita pelo autor. Não sei de cor, mas é como se soubesse, até hoje sou capaz de repetir essas palavras, do jeito que ficaram em minha cabeça: "E então chega o momento tão ansiado. Sem pronunciar uma palavra, ele fecha a boca da donzela com um beijo decidido entre seus bigodes másculos, insinua seus quadris, delicada mas firmemente, entre as coxas dela e dirige a glande inturgescente para o hímen, então trêmulo e lubrificado pelos fluidos naturais da genitália. Resoluto, ele se assegura, às vezes com a ajuda das mãos, de que está no ponto certo e então, enquanto ela dá um gemido abafado, entre a dor e o prazer da fêmea que finalmente cumpre o seu destino biológico, penetra-a com um só impulso vigoroso, abre-lhe mais as pernas, inicia um movimento de vai-e-vem profundo e, finalmente, derrama-lhe nas entranhas o morno líquido vital, sem o qual ele não é nada, ela não é nada." Essa era minha fantasia, até hoje é, sempre foi um dos meus temas de masturbação favoritos e, não sei se de alguma forma por isso, passei grande parte da vida preferindo homens mais velhos, só depois é que comecei a gostar de homens mais novos, depois que descobri que os mais velhos são putas velhas iguais a mim, não valem nada. E, depois, burro velho, capim novo, verdade inegável.

Hoje, sinto prazer em seduzir e treinar um jovem bonito; é

estimulante, revitalizador, faz bem ao ego.

Claro que eu, mesmo gostando irracionalmente da cena, ou seja, da maneira mais forte possível, não tinha idéia de que ia acontecer comigo exatamente dessa maneira, ou quase exatamente.

Ainda nem sonhava em conhecer José Luís. José Luís foi meu professor de prática de Penal, ninguém ligava para ele, mas Penal é ótimo, porque tem aqueles papos de estupro presumido, sedução, atentado ao pudor, rapto etc., tudo excelente para puxar conversas de sacanagem aparentemente inocentes e técnicas, mas assim mesmo as meninas pouco ligavam para ele, não tinham intuição ou experiência para avaliar adequadamente o potencial dele. As poucas que se interessavam por ele não alimentavam planos, porque ele era casadíssimo, caxiíssimo, ordeiríssimo, reprovadoríssimo, de maneira que ninguém achava que valia a pena o trabalho, mesmo diante da tenebrosa escassez de homens aproveitáveis, aquele elenco deprimente de coçadores de baixios e primitivos neandertalescos. Parêntese. Falando em neandertalesco, me apareceu este parêntese, talvez injustiçando um pouco o homem de Neandertal. É difícil acreditar neste parêntese, mas é a pura verdade, não resisto a contá-lo.

Verdade, verdade, fiquei pasma na ocasião e continuo abismada.

Uma conhecida minha era noiva, de aliança no dedo, de um rapaz muito conhecido, com quem todo mundo simpatizava, um rechonchudinho corado, gentil, educado, aberto, simpático mesmo.

Eles eram um casal de pombinhos, todo mundo se referia a eles como pombinhos, um chamego e um carinho que chamavam a atenção, só apareciam juntos, aos beijinhos e alisadinhas. Namoro padrão, na Bahia. Pois bem, pois um belo dia acabaram. Foi um susto geral, dezenas de hipóteses e especulações e ninguém conhecia a versão correta. Muitas e muitas voltas do mundo depois, nós duas estávamos tendo uma espécie de caso passageiro, e ela me contou, na cama, o que de fato havia acontecido. Inimaginável, mas acho que até hoje continua acontecendo. Ela me contou que mantinha a virgindade com ele, mas, de resto, faziam uma porção de coisas, na verdade, agora ela sabia, uma porção de meras perfumarias. E ele foi o primeiro na vida dela, a única experiência que ela tinha. E aí estão os dois namorando numa balaustrada deserta na Barra, já escurecendo, ele sentado, ela em pé, recostada entre as pernas dele, quando sentiu o pau dele duro lhe roçar na bochecha. Ela então ficou esfregando a cara para lá e para cá, por cima do pano da calça. E então, me contou ela, que não tinha razão nenhuma para mentir e parecia até estar precisando daquele desabafo, ela foi seguindo um curso natural, sem nem pensar no que estava fazendo. Abriu a braguilha dele e deixou que o pau pulasse fora. Era a primeira vez que o via assim, cara a cara, e ficou quase hipnotizada, se sentindo como nunca se sentira antes, uma falta de fôlego, uma ânsia, uma vontade de agarrar tudo de uma vez, as costas fibrilando de alto a baixo. Daí para pôr o pau dele na boca foi um instante e aí acabou o namoro. Ele de repente empurrou a cabeça para trás e deu um murro nela. Não um tapa, disse ela, mas um murro que lhe deixou o queixo roxo.

Que era que ela estava pensando? Em que puteiro aprendera aquilo? Achava que mulher dele era para fazer aquela coisa nojenta, própria das mais baixas prostitutas? Se ele quisesse aquilo, ia procurar uma vagabunda na rua, não sua própria mulher. E que desenvoltura era aquela, onde ela havia aprendido aquilo, com quem já fizera aquilo? Nunca mais a beijaria na boca, não queria chupar homem nenhum por tabela. Casaria com ela, sim, porque já estavam comprometidos, mas nunca mais a beijaria na boca. Ela, que tinha caráter, decidiu que acabaria tudo naquela mesma hora.

Na ocasião, não conseguiu dar a descompostura nele que pretendia, mas nunca mais quis saber dele, mesmo quando ele tomou corno de uma outra namorada e veio atrás dela no proverbial rastejar, mordido de arrependimento.

Então você vê. Não só os homens tinham medo de deflorar as moças, mesmo quando elas imploravam, como ainda existia esse tipo de selvageria. Era crucial ser uma navegadora hábil, nesse mar de babaquice, cheio de armadilhas inesperadas. Mas eu sempre tive um faro superior, uma capacidade de percepção mais aguçada que o comum, talvez. Talento, por que não? Por exemplo, descobri o potencial de Zé Luís num estalo, foi repentino mesmo. Eu estava no saguão da faculdade, quando me veio um clarão, clarão é a única palavra apropriada. Mas... Mas estava na cara! Zé Luís, Zé Luís ali dando sopa, e ninguém à altura de aproveitar. E então ele subiu a escada sem me olhar, mas eu sabia que ele estava me vendo e então eu falei comigo mesma que Deus é grande e tudo estava maravilhosamente às ordens, a vida é simples e a gente não repara. Cego é mesmo o que não quer ver e agora eu vou contar La grande séduction.

A grande sedução. Ele não era bonito, mas também não era feio.

Aliás, as categorias "feio" e "bonito" não se aplicavam bem a ele, como acontece com muitos homens. Com mulher também, mas as mulheres têm mais truques superficiais, já consagrados pelo uso e pelo tempo, e os homens, não. Ele era bonito, muito bonito, até, sob certa perspectiva. E podia ser chamado de feio atraente por outras pessoas, ou mesmo feio, ponto final. Bem, sem querer ser Spinoza e ficar perguntando onde é que está a beleza, vou mais ou menos pelo mesmo caminho. Para mim ele era bonito porque preenchia as condições para ser meu deflorador, é uma coisa complexa, muito pessoal, é uma conjuminação de tudo o que você acha que compõe uma pessoa e compõe você. Ele preenchia as condições objetivas e emocionais, pronto, falava à minha neurose.

Óculos de tartaruga, que ainda não tinham entrado na moda como depois, magrinho no ponto certo, bundinha fornidinha, voz bem modulada, sabia tudo de Penal e outros direitos, era educadíssimo, era de esquerda -- um must, nessa época -- , sorriso lindo, uma graça, pensando bem. Um jeito entre acanhado e sardônico, facilidade de falar bem sem afetação, um rosto expressivo e franco e, óbvio, bigode. Não desses bigodinhos ridículos, mas bigode cheio mesmo, bigode de homem macho. Não era um galã como os americanos tecnicolor, mas um belo galã, inclusive em termos de hoje. Já deve ter morrido e, se não fosse eu, certamente morreria completamente desperdiçado. A mulher dele ensinava Física em outra faculdade e era um horror, dessas mulheres sem queixo que comparecem a toda reunião reivindicatória e fazem colocações -- sempre houve gente fazendo colocações -- e, ainda por cima, tinha mania de cantar, cantava em todas as festas, tocava um violão horrível com um repertório de quatro acordes e imitava Stellinha Egg e Inezita Barroso e mais umas tantas outras cantoras folclóricas do interior de São Paulo. E ele adorava ela, carregava o violão dela, fazia psiu na hora em que ela começava a uivar e dava beijos sapecados nela, depois que ela cantava trenzinho chuá-chuá, ou qualquer merda dessas, que todo mundo ouvia se achando altamente povo. Ela ajudava a que eu não sentisse remorso nenhum, acho até que lhe fiz um favor, Zé Luís deve ter melhorado bastante em casa, depois da série de surras de cama que eu lhe apliquei. E mesmo que desse remorso, a verdade é que nunca fui dada a esse tipo de remorso. O único problema mesmo era armar uma estratégia eficaz e eu enfrentei a situação com uma categoria digna de Norma Lúcia. Ou melhor, por que me diminuir? Categoria minha, só quem viveu naquele tempo é que pode sentir os desafios em sua inteireza. E a verdade é que dessa vez não pedi assessoria a Norma Lúcia, resolvi que ia enfrentar tudo sozinha, vôo solo.

voltar 123456avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal