O passo inicial foi ser a primeira a comparecer às aulas e sentar, com uma cara de atenção e admiração que qualquer um jurava que eu tinha freqüentado o Actors Studio, colega de turma de Marlon Brando. Só quem ia às aulas dele eram os cê-dê-efes e os que estavam pendurados por faltas, mas eu não, eu já estava no corredor na hora em que ele vinha e, quando ele vinha, eu ruborizava -- sempre soube ruborizar à vontade --, virava as costas e, sabendo perfeitamente que ele estava vendo, retocava o batom e o ruge, alisava a saia, ajeitava o cabelo e ia sentar na primeira fila. Quantas vezes eu sentei ali, toda pudica, antes de qualquer outro aluno chegar! Ele ficava sem-gracíssima, uma tesão, e eu não dava bandeira nenhuma, só perguntava como ele ia e dizia que estava esperando aquela aula, eu adorava Penal, e as aulas dele me abriam mundos. Minha postura era também muito recatada, se bem que com umas certas exceções repentinas e fugazes, só para deixá-lo de orelha em pé e sem saber o que pensar direito. E naquele tempo se andava de anágua e sutiã e minissaia era dos anos 20, do tempo das flappers, que a gente via no cinema. E, mesmo que houvesse minissaia, eu não usaria, já estava ligada na prática do primeiro-foi-você, nunca perdi tempo
em querer dar murro em ponta de faca.Foram meses, alguém acredita? Foram meses para ele compreender que eu estava querendo dar para ele e mais meses para ele aceitar me desvirginar. Foram meses renascentistas, florentinos, mas eu não me importei, até gostei. Continuei levando a minha vida como sempre, com noivo e tudo. Me sentia mais ou menos como Selma, a jibóia de Norma Lúcia, e ele era o ratinho em que eu ia me enroscar e engolir. E eu não me limitava à manobra de sentar na primeira fila. A cada dia eu fechava o cerco mais um bocadinho, um aperto sutil, um avanço quase imperceptível, mas sempre um tijolo na minha construção. Dei para ficar na sala depois da aula, sempre tinha uma pergunta, várias perguntas, olhando direto nos olhos dele, que desviava a vista, mas eu firme. Pedia bibliografia, fazia que não entendia certas coisas, citava trechos de livros, virei uma verdadeira Beccaria, só se vendo. Depois pegamos mais proximidade e eu mostrei cadernos, anotações e escritos meus, uns poemas. Uma vez -- ninguém neste mundo presta, muito menos eu -- ele estava lendo uns poemas e eu, fingindo alto nervosismo, tomei o caderno dele na hora em que ele estava começando um poema e disse que aquele não, aquele ele não podia ler. E -- fiz, fiz, fiz, não posso negar, fiz um negócio que sempre considerei vulgar, mas fiz -- apliquei aquele golpe do veja como eu estou nervosa, puxando a mão do freguês para o meu regaço. E, no setor visual, a esta altura eu já tinha chegado ao saião com botões na frente. Anágua fina por baixo, mas saião com botões. Não aparecia nada, só muito de relance e uma vez na vida e outra na morte, mas ele ficava perturbado, já andava visivelmente perturbado comigo, às vezes, coitado, dava uns olhares caídos e compridos, como se quisesse pedir misericórdia. E eu firme. Minhas ficadas depois da aula viraram costume, comigo conversando e usando todos os truques que já nasci sabendo, pegando no braço dele e tirando a mão depressa e maliciosamente, elogiando ele, chegando perto para olhar livros sobre o ombro dele, olhos nos olhos sempre que podia, uma campanha napoleônica, Norma Lúcia disse que eu era letal.
Finalmente, chegou o grande dia. Era uma quarta-feira e chovia -- não é assim que se começam esses relatos? Não sei se era quarta-feira, mas chovia, sim, no grande dia, é um pormenor importante. E foi inesperado, porque ele não dava aula nesse dia, mas Mascarenhas, o catedrático, tinha medo obsessivo de ficar tuberculoso outra vez e amaldiçoava até ventiladores e mandou que ele aplicasse a prova. Quase todo mundo acabou mais ou menos cedo, mas eu, que tinha estudado como uma alucinada, escrevi resmas de papel e demorei ate quase o fim do horário. Quando chegou a hora, só restavam na sala ele e Jorginho, que era maluco e tinha dificuldade em escrever, mas já estava terminando. Eu esperei um bocadinho, vi que Jorginho ainda ia demorar mais um tempinho e tomei uma decisão que já estava disposta a tomar fazia muito. Fingi que o vade-mécum e os cadernos-estavam atrapalhando, botei a caneta na boca e fui até ele. Ele estava curvado, com as mãos apoiadas na mesa, e então, aparentando estar toda sem jeito, deixei uns cadernos cair na mesa, peguei a papelada da prova para entregar e, bem nessa hora, como quem está distraída mas deixando transparecer uma determinação inegável embora intangível, encostei na mão dele, que se fechava sobre a borda da mesa. Ele levou um susto e tirou a mão, mas eu fiz pressão e minha saia chegou a subir um pouco, arrepanhada em frente a meu púbis pelo movimento dele. Mas eu não aliviei a pressão, só olhei nos olhos dele outra vez, depois baixei a vista, depois fiquei vermelha, fiz menção de sair atabalhoadamente, voltei para pegar um caderno que tinha esquecido de propósito e aí perguntei a ele se eu, agora que a prova estava entregue, podia permanecer ali um bocadinho e tirar umas dúvidas com ele? Sabe, eu tinha tido uns dois professores que marcaram minha vida, dois ou três, no máximo. E ele era um deles, sabia? Ele tinha despertado algo que dormia em mim, algo de cuja existência eu jamais suspeitara e agora, pelas mãos dele, descobrira arrebatada, quase sem fôlego.
Uma paixão, disse eu. E falei "paixão" de forma tão ambígua que eu mesma senti o ambiente esquentar e ficar como se um vapor escarlate tivesse repentinamente se evolado do chão. E senti pena dele, coitado! Sim, senti pena dele, eu era a cobra Selma, ele era o ratinho.
A verdade é que, sob certo sentido, as mulheres não têm razão de queixa. Em primeiro lugar, essa conversa de que a maior parte da História da humanidade foi vivida sob o domínio masculino é bastante questionável. Hoje ninguém lê, mas o velho Robert Graves -- grande Robert Graves, que eu desconfio que também era um fantástico mentiroso, um colhudeiro, esta palavra admirável que tem na Bahia para designar mentirosos de primeiro time, um sublime colhudeiro -- tinha umas idéias sobre isso, de vez em quando eu leio, ele era inteligentíssimo, de bom-gostíssimo, eruditíssimo. Hoje, a erudição acabou, a memória é a dos sistemas de armazenamento eletrônico. No futuro, a gente pagará a um sujeito para achar o que a gente quer nos bancos de dados, pois nem ir lá diretamente ou precisar disso a gente vai, a erudição acabou mesmo. Mas, graças a Deus, não acabou a inteligência.
Robert Graves, vou ler de novo, The Greek Myths, tenho uma edição pequenininha, em paperback, já toda sebenta de eu tanto manusear.
Então o Bob Graves e eu temos sérias dúvidas sobre essa questão de a mulher ter sido sempre dominada. O contrário, na verdade, é que parece que aconteceu. Mas isso não vem ao caso, não se pode querer ver a afirmação da mulher como uma vingança, agora vamos descontar e assim por diante, essa barbárie insuportável. Então, porque supostamente os homens nos oprimiram ao longo da História, agora é a nossa vez de oprimir os homens, para eles verem o que é bom. Não concebo estupidez maior, substituir uma merda por outra, preservando a baixaria humana. Em segundo lugar, você pode até alegar que isso forçou as mulheres a desenvolver aptidões pouco louváveis, como dissumulação, chantagem emocional e sedução com golpes baixos, mas a verdade é que as mulheres sempre tiveram um poder desmesurado sobre os homens, e muitos de bom grado prefeririam o inferno e todos os seus diabões a passar de novo pelo que lhes fez passar alguma mulher. O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não broxar, não afrouxar, não pedir penico. Aquilo que, numa primeira visão, oprimia somente as mulheres oprimia mais os homens, que até hoje vivem cercados por um cortejo de mulheres fantasmagóricas, reais e imaginárias, sempre prontas a esquartejá-los, se o pegarem fora desses padrões. E não adianta psicanálise, nem ficar arrotando liberações. Eles têm medo, eme-é-dê-ó, cagam-se de medo. Medo, teu nome é macho, não disse o Bardo, mas digo eu. Quanta mulher não comeu o homem que quis, apenas porque ele não podia recusar uma mulher? Uma mulher se tranca com um homem num quarto e diz que ele vai comer ela. Ele tem que comer, a não ser que ela seja o corcunda de Nôtre Dame. Até mesmo recusar uma mulher obedece a normas, porque é estabelecido o direito de ela se ofender, se a recusa for feita fora das normas. Por exemplo, "você é feia, e eu não vou lhe comer", não se diz uma coisa dessas a uma mulher. Para não fazer uma inimiga mortal, o recusador tem que ser artista. Já a mulher pode recusar perfeitamente e mesmo nos piores termos possíveis -- "você nunca, tá?" --, as mulheres sabem do que estou falando, sou uma feminista esclarecida-progressista, sou um grande homem fêmea.
Sim, eu fiquei com pena dele. Pena propriamente não, preciso de uma palavra mais adequada. Fiquei numa postura meio filosófica, meio melancólica... Não é bem melancólica, é a de um sorriso chapliniano, talvez. Tem uma palavra inglesa que está zanzando aqui, em torno de minha cabeça como uma mariposa em torno de uma lâmpada. Detesto usar palavras estrangeiras porque as portuguesas me faltaram, me sinto uma débil mental, isso só se perdoa em alemão, que tem palavras para designar coisas que só alemão sente. Bem, não tenho inseticida aqui, wistful. Fiquei assim meio wistful, olhando para ele, como se eu estivesse à distância, destacada da cena. Eu tinha todas as armas, ele só tinha obrigações, só podia reagir como estava no código, e eu joguei tudo em cima dele. Bombardeio de saturação, artilharia e infantaria blindada. Eu já disse isso, mas posso repetir, para enfatizar, mesmo porque é verdade. Eu era linda de arrepiar, até hoje sou bonita, mas claro que não tenho o viço da juventude e sei que não tenho o mesmo olhar; depois dos quarenta, ninguém tem o mesmo olhar. Mas nesse dia eu tinha tudo, Deus me fez assim, lembro que fingia espontaneidade e casualidade, mas passava horas diante do espelho, às vezes nua, me admirando e ensaiando tudo, do riso ao andar. Tanto ensaiei que muita coisa, talvez tudo, passou a fazer parte de mim, não sei mais o que é natural ou o que me condicionei a fazer. Acho que me lembro do riso, sim, o riso é certo. Eu ria hi-hi-hi, me achava uma garrincha. E treinei muito para rir ha-ha-ha, tanto que hoje só rio ha-ha-ha e ainda lanço a cabeça para trás, nada disso é realmente espontâneo em mim. E então eu joguei tudo em cima dele, cada detalhe do vestido, do decote abotoado descuidadamente, das sobrancelhas, da boca, dos ombros, do pescoço, dos joelhos, dos pés, dos quadris, das pernas, eu sabia, eu sabia tudo. Ainda não sabia do que interessava a ele mais particularmente, mas já tinha uma vaga idéia. Pés. Mãos, minhas mãos de dedos longos mas suaves e cheios, as unhas compridas esmaltadas de vermelho. Lábios, olhos, dentes. Meus dentes até hoje são estas pérolas, todos naturais, nunca perdi nenhum. Meus dentes mordendo lentamente o ar entre meus lábios carnudos, minha língua passando quase imperceptivelmente por entre eles, eu era mortífera. Meu cheiro, minhas curvas, minhas harmonias, meus trejeitos, eu sempre enlouqueci os homens que quis enlouquecer, decifro todos, sei dos que gostam de entrevisões indefinidas, dos que sucumbem a um porte erguido, de todos os arquétipos que podem surgir neles, eu sei, tenho talento e estudei, aprimorei esse talento. É por isso tudo que eu disse que tinha pena dele, mas na verdade não tinha e não tive e não tenho, fico wistful.
Coitado. Quando nós ficamos a sós na sala, ele virou uma pilha, chegou a tremer, mas acho que já estava ligado na transação, claro que estava, embora nada de mais concreto tivesse acontecido nesse dia. Ficamos conversando quase meia hora e, quando nos despedimos, apertei a mão dele com força e prolongadamente e ruborizei de propósito novamente e disse "até logo, professor", como quem não queria ir embora, e nos olhamos enquanto ele seguia caminho. A partir daí, pode se dizer que já estávamos namorando. Era uma coisinha atrás da outra, todo dia um progressinho, mas eu fiquei impaciente e resolvi dar uma solução tão rápida quanto possível àquele chove-não-molha e afetei nova crise de nervosismo, seguida de renovada apelação vulgar, dane-se. Elogiei a mulher dele, dizendo que só podia ser uma mulher excepcional para atrair um homem como ele. Aí acrescentei que não podia falar aquelas coisas, ficava muito nervosa e botei a mão dele no meu coração outra vez, quer dizer, no meu peito, é claro, e desta vez dois dos dedos dele passaram da blusa e roçaram na borda de meu sutiã -- veja como meu coração está palpitando, disse eu, eu vou morrer. E aí -- tenha a santa impaciência, não dava mais para aguentar aquela lentidão -- dei um beijo nele, um beijinho só, mas ele não se segurou e, para grande surpresa minha, me devolveu o beijo. Felizmente era perto do meio-dia como da vez anterior e ninguém estava por perto para espionar e, depois desse dia, passei a tomar todo tipo de ousadia possível sempre que tinha ocasião, passei o dedo pelos contornos do rosto dele, encostei o joelho no dele, botei logo para quebrar tanto quanto se podia naquela época, ainda mais eu querendo ao mesmo tempo manter a imagem de inocente enlevada. E o que eu falei mal de meu noivo foi um festival, coitado, ele apesar de tudo não merecia, mas eu precisava falar que já estava farta de rapazinhos, que não suportava mais imaturidade e falta de experiência e tudo mais que me ocorreu para compará-lo mal com o outro, sinto uma certa vergonhazinha até hoje, mas vale tudo na guerra e no amor.
O desvirginamento. Esse foi realmente um grande dia, a culminação de muita dedicação e trabalho árduo. Primeiro, tinha o lugar do encontro. Ele dava aulas de noite na Associação dos Funcionários Públicos, de maneira que a gente conseguia se encontrar pelos escuros. Quase sempre ele pegava o carro do pai emprestado e me punha dentro dele, depois de grandes cautelas para não sermos pilhados. Entrar em carro era muitíssimo malvisto, e os cafajestes, todos mentirosos e malfodidos e malfelizes, diziam coisas como "entrou no meu carro, eu meto logo a mão nas coxas" ou então "eu saio sacudindo as chaves do carro e pingo gasolina no lenço e o mulherio chove em cima de mim" -- pabulagem patética, não faziam nada disso, cansei de entrar em carro e, se estava a fim do motorista, ter que me virar para ele fazer alguma coisa. Então o carro não era simples, com todos aqueles subterfúgios e sobressaltos. E, além disso, estava absolutamente fora de questão perder a virgindade num carro, não tinha nada a ver com meu script. Virgindade só se perde uma vez e, já que eu criara a oportunidade para me livrar dela do jeito que idealizara, não ia desperdiçar satisfação tão plena. Meu script era taxativo: requeria cama, com todas as letras. E transar em carro, francamente, só em certos casos, nas raras ocasiões em que tem o seu lugar, embora exista muita gente que tem uma certa perversão automobilística, adora trepar em carros.
E, mesmo que não houvesse esses problemas, ele não queria tirar minha virgindade, foi uma luta. Até hoje dou risada, quando penso que estava com vontade de chupar ele havia não sei quanto tempo e, quando ele finalmente me chupou pela primeira vez -- e muito mal, por sinal, cheio de dentes e usando a língua como um arado hipercinético --, eu disse "agora que você fez comigo, eu vou fazer com você, machuca? Você não vai derramar na minha boca essa coisa que espirra, vai?" Canalha, canalha. Mas não era o que queriam? Dançar conforme a música muitas vezes não é uma má idéia. E tive de vencer a impaciência, porque era a primeira vez que eu chupava um homem, claro, aquilo só ele, só ele, e então tinha de fingir que não sabia chupar com o vigor e a categoria que sempre tive, tinha que perguntar de novo se machucava, tinha que afetar falta de jeito, um saco, e eu doida que ele gozasse na minha boca e ele acreditando naquela frescura preliminar do "essa coisa que espirra" e tirando o pau fora de minha boca para gozar na minha mão, até que eu não agüentei e grunhi "goze na minha boca!" e reenfiei o pau dele tanto quanto pude na boca e só parei quando senti ele gozando quase em minha garganta; até hoje não deve ter entendido nada e por mim morre sem entender, certas burrices são indesculpáveis e é bom que haja mistérios insondáveis em nossas biografias.
O problema do local do crime não foi de resolução simples. Eu tinha um amigo, melhor dizendo, uma verdadeira amiga, que só faltava sair pela rua vestida de mulher, uma bicha francesa chamada Claude, que tinha uma galeria de arte em Salvador e que morava sozinha e me emprestava a casa na hora em que eu queria. Foi uma produção inventar um jeito de dizer a Zé Luís, sem levantar suspeitas, que nós podíamos usar a casa. Fui obrigada a dizer que ajudava o francês nos catálogos e nas montagens de exposições -- de fato ajudava mesmo, mas não muito -- e por isso tinha a chave, o francês viajava o tempo todo, não sei o quê, imagine a complicação. Arranjar um dia em que Claude pudesse emprestar a chave e sair de casa e, horror dos horrores, fazer com que esse dia coincidisse com os dias da tabelinha. A tabelinha, a famosa tabelinha! A tabelinha saía em certos livros ou em forma de folhetos sempre de aparência clandestina, que as mulheres não tinham coragem de mostrar e muito menos de comprar.
Era uma verdadeira maçonaria, mulheres casadas compravam para dar secretamente às amigas solteiras, tudo se passava entre cochichos e trocas furtivas de embrulhinhos, referências em código, uma subcultura completa, hoje perdida como as revistinhas de Carlos Zéfiro. Alguns desses livrinhos eram aterrorizanres, com detalhes intimidadores sobre umidade genital, temperatura e tantas outras coisas que muita mulher deve ter preferido a castidade a tanta aporrinhação por uma coisa que já não falava à alma tanto assim. Agora existem programas de computadores para os católicos, naturebas, doentes e outros, que não usam ou estão proibidos de usar qualquer outro meio de evitar filhos.
Só vi um, de relance, mas imagino que há algum em que a mulher digita os dados dela e ele responde: "You may fuck
safely tomorrow, Thursday rLe 16.th, from 08:32 am to 10:46 pm.Remember, if you don.t know your partner well, it.s always on the wise side to make sure he wears a condom." Ou "Hi Peggy, here are your Fucking Hours for this week! Happy cavorting, tee-hee!". Não sei se gosto disso, mas, em todo caso, argumente-se que é um progresso. Hoje uma menina que se dá mal com pílulas ou está desprevenida pode clicar em três lugares e receber o sinal de FTF, Free To Fornicate, é outra coisa. Ajuda também a ter certeza da paternidade, quando se está dando para mais de um simultaneamente. Eu tenho uma amiga que não sabe os pais de dois de seus filhos, de tão panoramicamente que ela dava. Hoje, nem quer mais saber, mas isso foi um grilo durante certo tempo.
Enfim, tudo vai ficando mais fácil, embora não necessariamente melhor. A tabelinha devia ser estudada por algum bom historiador, era uma irmandade secreta mais bem mantida do que o PC. Mas lá em casa, não, lá em casa o regime era diferente e pedi uma a minha máe, que a providenciou logo e só fez comentar que já era tempo de eu ter minha tabelinha; se ela soubesse que eu não tinha, já haveria conseguido uma, minha mãe era extraordinária.
Hoje me arrependo de não ter sido mais chegada a ela, mas foi tudo trauma de infância, eu acho. Tem gente que diz que tudo é trauma de infância e deve ser verdade. Eu tenho praticamente certeza de que minha mãe corneava meu pai com o irmão dele e talvez com outros, certamente com outros. Agora, você veja o que é que eu tenho com isso, por que é que eu tanto tempo pus isso em julgamento, logo eu? É, logo eu, sou constrangida a reconhecer, não sem uma certa vergonha, um ressentimento comigo mesma. Minhas emoções quanto a isso sempre foram muito confusas, eu mesma não compreendo direito. Eu sei que achava meu pai a maior tesão e tinha ciúmes dele e raiva dela e talvez tenha sido por isso que eu tenha feito aquilo com meu tio Afonso e de certa forma tenha me vingado de tio Afonso, ou dela com meu tio, uma confusão, depois eu vejo se destrincho tudo isso, depois eu falo em tio Afonso, primeiro eu quero acabar essa história da tabelinha e do dia D, em que finalmente Zé Luís, nervosíssimo, bateu na porta da casa onde eu já estava esperando, subindo pelas paredes de tanta ansiedade e já tendo me masturbado duas vezes, vários orgasmos intensíssimos.
A tabelinha falhava o tempo todo, arquivávamos casos e mais casos no folclore de nossa turma, mas era o menos ruim, descontando, é claro, a camisinha. Eu jamais admitiria ser desvirginada com camisinha, jamais! Imagine onde ficaria o trecho de meu script que dizia "enquanto ela dá um gemido abafado, entre a dor e o prazer da fêmea, ele a penetra com um só impulso vigoroso, abre-lhe mais as pernas, inicia um movimento de vai-e-vem profundo e, finalmente, entre gemidos de gozo, derrama-lhe nas entranhas o morno líquido vital, sem o qual ele não é nada, ela não é nada". Não, nada de camisinha, tinha que ser a tabela. Os outros métodos não existiam, mulher sofreu muito com isso através dos tempos, era muito cerceador da liberdade.
Alguém pode acreditar que aconselhavam até sal lá dentro, pimenta-do-reino, azeite de oliva, uma verdadeira salada? Havia também umas tais injeções para atraso de regras, mas eu acho que na realidade eram abortivas e, como minhas regras nunca atrasaram, nunca precisei. Norma Lúcia pesquisava essas coisas nas bibliotecas e museus de tudo o que era canto aonde ia e descobriu receitas hediondas, como, por exemplo, uma do Egito antigo que prescrevia coco de crocodilo, e outra, não sei de onde, cuja base era coco de elefante. Acho que já falei que as putas grega tomavam na bunda, Norma Lúcia viu um jarro no Museu Britânico, que eu também vi depois. O mundo tinha feito muito pouco progresso antes da pílula e desses outros troços, como o DIU. Como se matou e morreu por causa disso, meu Deus do céu. E eu, também já disse, não sabia que era estéril, então a tabelinha era sagrada.
Num prodígio de coordenação, uma autêntica operação de guerra, parecendo filme inglês de espionagem, finalmente chegou o dia.
Quatro horas da tarde, eu daquele jeito que já contei, um maremoto de tesão latejante, ele atrasado, uma aflição. Tive que me conter para não cair em cima dele assim que passei a chave e o ferrolho na porta, mas consegui me segurar, fiquei em pé junto dele, e ele, depois de uma eternidade, pôs a mão no meu ombro e disse "como vai você?".
-- Vou bem, vou bem. Vou nervosa.
-- Nervosa? -- O que é que você acha? Minhas pernas estão tremendo.
Estavam mesmo e ele ainda demorou para fazer alguma coisa além de botar a mão no meu ombro, até que finalmente desencantou e, agarrados mesmo, fomos para o quarto que dava porta para o corredor e onde Claude tinha sua cama de casal para receber rapazes, um quarto penumbroso dentro de uma floresta de quadros, esculturas e bibelôs, com parte do teto e uma parede cobertas por espelhos. Sentamos na cama olhando fixo um no outro, eu fazendo minha melhor cara de corça no cio alcançada pelo macho, sem nem precisar muito, porque estava mesmo fora de mim de tesão. Ele me desabotoou a blusa, eu o ajudei a tirá-la, com um sorriso leve, sem mostrar os dentes e baixando os olhos. Ele me beijou bem, já tinha aprendido comigo. E pôs a mão no fecho de meu sutiã, novidade tecnológica na época, um americano que Norma Lúcia me trouxe de presente, do tipo que soltava com uma pressãozinha dos dedos. Meus dois peitos pularam livres, trêfegos e lindos como luas cheias, as aréolas rosadas quase apontando para o alto, os bicos tensamente enrijecidos, as curvas delicadas se desdobrando em mil outras sem cessar, e ele enfiou o rosto no meio deles. Não sei como, logo estávamos nus e deitados juntos e resolvi que ficaria o mais quieta possível na cama e só me mexeria em caso de emergência, para evitar uma barbeiragem mais grave, enquanto ele descia a boca dos meus peitos para o umbigo e finalmente lá embaixo, que foi quando eu não me controlei e segurei a cabeça dele entre minhas pernas e gozei tão profundamente que achei que ia morrer. Quando parei de gozar, pensei que ele ia querer que eu o chupasse também um pouco, e eu estava com vontade, mas, mal resvalei os lábios no pau dele, ele recuou os quadris, ficou de joelhos diante de mim e me disse, encantadorissimamente, machissimamente no melhor sentido: -- Abra as pernas para mim.
Eu abri, ele curvou meus joelhos para cima, afastou minhas coxas ainda mais -- ai, que momento lindo! --, encostou a glande bem no lugar certo, agarrou meus ombros com os braços em gancho pelas minhas costas, abriu a boca para me beijar com a língua enroscada na minha e, num movimento único e poderoso, se enfiou em mim. Senti uma dor fina e quase um estalo, cheguei a querer deslizar de costas pelo colchão acima, mas ele somente enfiou-se em mim até o cabo e ficou lá dentro parado, me segurando forte, para só então terminar o beijo, erguer o tronco e começar a me foder, olhando para a minha cara. E então, com a expressão de homem mais bonita que já vi na minha vida e exalando um cheiro para sempre irreproduzível, gozou muito fundo dentro de mim e eu senti, senti mesmo, aquele jato me inundar gloriosamente aos borbotões, aquela pica grossa e macia pulsando ereta dentro de mim, ai! Eu não gozei, mas só tecnicamente, porque de outra forma gozei muito naquele momento, não posso descrever minha felicidade, minha profusão de sentimentos, me sentir mulher, me sentir fodida, me orgulhar de ter sido esporrada em meio a meu sangue, sem fricotes, como uma verdadeira fêmea deve ser inaugurada por um verdadeiro macho. Já li muitos livros eróticos e pornográficos, a maior parte detestável, já vi tudo, mas nada pode espelhar aquele instante, nada, nada, nada, nada, até hoje me masturbo pensando naquela hora, minha fantasia perfeitamente realizada.
Ficamos amantes uns tempos, até porque acabei meu noivado. Zé Luís se revelou uma cama de primeira categoria e, mesmo depois que nos afastamos, ainda dávamos umas incertas, uma vez na própria faculdade, lá no terraço. Depois dele eu comecei a achar meu noivo um chato com gosto de jujuba velha. Além disso, como eu podia dizer a ele que não era mais virgem e não tinha sido ele o autor da façanha? Sabia que certamente viria a encontrar esse mesmo problema no futuro, mas não me interessava, preferia não pensar nisso. Eu não conseguia suportar estar agora habilitada a todo tipo de sexo e ter de fingir que não estava.
Começou a me dar um certo nojinho dele. É horrível quando isso acontece, tão horrível que muita gente se recusa a reconhecer que passou por isso, mas a verdade é que, antes de a gente se livrar de alguém, às vezes dá um nojinho. Horrível, até porque a pessoa pode não ter culpa, mas de repente fica nojenta, cheiros inaceitáveis, manchas de pele insuportáveis, roupas sujas repelentes, hálito ascoso, cabelo fedido, tudo irremediavelmente nojento. Como eu podia conviver com aquela contrafação toda, ainda mais numa idade em que todos nós somos radicais e intolerantes? Não podia. Mandei-o à merda, dei um chute na bunda dele, no fim de uma noite em que, ele não sabia, mas eu estava dando a saideira dele. Aparentemente foi uma homenagem de despedida, uma consideração final, mas qualquer pessoa de sensibilidade nota que foi de uma escrotidão absoluta. Eu não tinha propriamente motivo para ser escrota com ele, mas eu queria, é o instinto pelvelso, como explicava uma negra lá da ilha, que ficava apreciando siris morrerem em fogo lento, xingando-os baixinho. O instinto pelvelso se apoderou de mim e então eu fiz isso, não há o que explicar. Saímos de carro e fomos para um morro do Rio Vermelho a meu pedido. Quando cheguei lá, abri a capota, fiquei de pé e tirei a roupa. Em seguida, mandei que ele tirasse também a roupa, enquanto eu me requebrava, em pé no banco de trás. E aí, com uma lua descomunal iluminando a barra da baía de Todos os Santos, eu encarnei todas as deusas do amor, todas as diabas desabridas que povoam o universo, a Luxúria com suas traiçoeiras sombras coleantes e seus estandartes imorais, seu chamado à devassidão, à dissipação e à entrega a todos os gozos de todos os matizes até chegar à morte lasciva, eu era a Luxúria integral, baixada ali para reinar como um espírito imisericordioso e invencível, naquele morro assombrado e suas redondezas petrificadas. Eu fiz tudo com ele, tudo, a ponto de achar que ele desfaleceria. E nem perguntou nada, quando eu sentei em cima do pau dele e ele viu que eu já estava longe de ser virgem. Não perguntou, nem eu disse nada. Depois de tudo o que fizemos, saí do carro, vesti a roupa, ajeitei o cabelo e a maquilagem, me compus com calma, voltei para o carro e, ao sentar, pedi com um sorriso recatado, quase pudico, que ele me levasse em casa. Fomos em silêncio e olhando para a frente, eu curtindo o vento no rosto e achando a paisagem muito mais bonita que de hábito. Quando chegamos, ele quis me beijar, mas eu fiz que não com a cabeça e o empurrei levemente com o antebraço. E, com a cara mais impassível do mundo, tirei a aliança, botei na mão dele, disse que me esquecesse, acenei bye-bye e entrei, ele lá fora com a aliança na palma da mão estendida, o queixo certamente tocando a cintura.
Passado o nojo, até cheguei a pensar que, num futuro remoto, ainda poderia dar para ele, mas ele ficou um desses coroas untuosos de dentadura reluzente, pele bronzeada e eaux pour l.homme ridículas, desses que você tem dificuldade em acreditar que algum dia já foi neném, ou mesmo rapaz jovem. E eu disse isso a ele, no dia em que ele veio me perguntar, na festa de aniversário de Julinho, aqui no Rio mesmo, a respeito daquela noite no Rio Vermelho, ele é obsedado por isso. Acho justo. Mas como vou explicar, se nem mesmo eu sei explicar? Claro, sei quem me desvirginou, mas nunca iria contar a ele, como ele pedia. Eu não podia resolver o problema dele, que hoje, para piorar, está grotescamente casado com uma mulher uns quarenta anos mais nova, bom candidato a chifres, se já não os ostenta. Por que digo isso, o que é que tem isso? Certo, certo, tem razão. Não sei. Acho que tenho um traço sádico, não sadismo físico, a não ser muito light, como quando fico querendo sufocar alguém sentando na cara dele ou puxando a cara para dentro de minhas pernas, coisa assim bem light. Já dei uns tapas, mas a pedido, em homens e mulheres, nunca curti muito. Nunca permiti que me batessem na cara, mas quis experimentar palmadas, chineladas e cinturão leve, não gostei, não repeti. Sou ainda menos masoquista do que sádica.
Curto o sadismo superior, digamos assim, mas sem identificar-me com ele. É como tourada. Eu sei que há toda uma beleza entranhada nas touradas, toda uma cultura, toda uma mitologia, todo um conjunto de valores, não sou hostil aos aficionados, mas não gosto de tourada. Com sadismo e masoquismo, a mesma coisa. A História de O me deixou excitadíssima, mas eu não queria ser O.
Nunca; mas curto, tenho sensibilidade para saber qual é a dela e saber como a dela pode ser um barato, digamos assim. É, tive algumas poucas experiências nessa área física, depois eu falo nelas, se for o caso. Considero meu sadismo psicológico muito mais interessante, inclusive porque é seletivo, é um prato feito para analistas.
Exemplo desse meu noivo, muitos exemplos, exemplo de tio Afonso, o pior de todos. Tenho certeza de que contribuí substancialmente para o enfarte dele. Ele não valia nada, de qualquer jeito, comia a mulher do irmão, minha mãe. Eu de Hamlet nessa história, veja que maluquice, eu toda electra, toda hamletiana, em torno de um sentimento cretino como esse. A meu favor, diga-se que sim, eu fiz, ou quis fazer, coisas iguais ou equivalentes, mas nunca professei os valores que ele vivia arrotando com cara de santa puta arrependida, nunca fui a epítome da hipocrisia. Não, desculpa esfarrapada, não convence. Estou aberta à crítica, eu mesma já pensei muito nisso, de certa forma vivo pensando. Não acho nada demais o sujeito comer a mulher do irmão, mas não concordo em que o irmão de meu pai tivesse comido a mulher do irmão, meu pai. Neuroses. Por mais que me desgoste, sou obrigada a admitir. Traumas de infância. Bem, eu não estava pensando nisso, quando tio Afonso me sentou no colo e ficou de pau duro, eu ainda devia ter uns doze ou treze anos e o filho da puta ficou de pau duro comigo no colo, mas eu deixei. Não sei o que deu em mim, mas deixei e me mexi bastante em cima do pau dele e, desse dia em diante, toda vez que ele aparecia, eu sentava no colo dele, já tínhamos até umas combinações tácitas. Até que, mais ou menos um ano depois, no sítio dele, todo mundo foi passear a cavalo, e eu menti que não ia porque estava menstruada, e ele mentiu que tinha de supervisionar a limpeza dos coqueiros, já tínhamos acertado tudo antes. Dia quente, de libélulas zumbindo em vôos baixos, calangos de cabeça erguida nos troncos das mangueiras, folhas imóveis, o sol retinindo no laguinho, uma fogo-pagou de arrulos enervantes, um silêncio desagradável, que parecia imposto por aquele ar cristalizado. Eu demorei de propósito, sabia que ele estava ansioso, mas, quando cheguei, não fiz pirraça. Assim que fechei a porta, na sala pequena do segundo andar, marchei para ele sem dizer uma palavra e peguei no pau dele, patolei mesmo. Ele tomou um susto, mas se recuperou logo e meteu a mão por baixo de meu sutiã. Parecia desses filmes em ritmo acelerado, aquelas comédias do cinema mudo, um tal de puxa roupa, tira roupa, aperta pau, dá chupão, chupa peito, lambe xoxota, uma coisa impressionante. Só depois desse frenesi é que me deitei de barriga para cima no sofá, com o corpo meio para fora, as pernas abertas estendidas, o púbis empinado e atrevido -- sempre tive um monte de Vênus lindo e pentelhos fartos na medida certa --, esperando que ele viesse de cabeça, como de fato veio, e chupava muito bem, habilidade surpreendentemente rara em homens, mesmo homens de valor. Em seguida foi a minha vez, mas eu disse que sabia que saía uma coisa lá de dentro, tinha lido num livro, e não queria que ele esguichasse aquela coisa na minha boca, como de fato não queria. Ele disse "claro, claro, tudo como você quiser", como se essa concessão de alguma maneira atenuasse a monstruosidade que ele achava que estava fazendo, e continuou com a sacanagem, muito boa realmente, até que gozou nas minhas coxas e eu também gozei na mesma hora.
Começou então a escravidão dele. No dia mesmo do banheiro, já mencionei esse dia, ele não queria me botar nas coxas em pé, atrás da porta de um banheirinho que nem bidê tinha, porque estava com medo de que a mulher dele, tia Regina, nos pegasse.
Mas eu, que gostava do perigo de tia Regina nos flagrar, disse que, nesse caso, nunca mais faria nada com ele, ou ele topava ou adeus. Ele então topou e eu ainda lhe dei uma mordida no pescoço para deixar marca e ele ter de inventar uma história qualquer, ele que se lixasse, eu achava que não tinha nada a perder. Tia Regina não me suportava, morreu me odiando, meio caquética, mas ainda lúcida o suficiente para odiar. Claro que ela nunca teve condições de provar qualquer coisa, e eu fazia guerra de nervos, não tinha dó. Cheguei a pensar em comer ela também, mas não dava, só os perfumes que ela usava já broxavam qualquer um e, além de tudo, não acredito que ela caísse, era do tipo meu-negócio-é-homem, uma dessas antas falocêntricas, falófilas e falólatras que não morrem porque lhes falta vergonha. Para não falar que, sem eu ter nada com ela, meu domínio sobre o sacana era integral, era só dizer que ia contar tudo a tia Regininha -- e ele sabia que eu era inconseqüente, maluca e corajosa o bastante para contar -- que ele ficava às portas da morte, quase apoplético. Apliquei até a tortura da gravidez nele, anunciei o atraso de umas dez regras, só para sacanear ele. Houve uma fase em que eu telefonava para a casa dele e dizia "só quero que você saiba porque estou me sentindo muito sozinha, eu só queria que você soubesse que meu incômodo até hoje não chegou e eu posso estar com um filhinho seu aqui dentro e eu fico pensando: será que vai ser bom, como será a cara dele?". Ele morria, morria; acabou morrendo, aliás. E claro que ele não metia em mim, mas me esporrava toda e eu sempre dava um jeito de que ele se lembrasse de que alguma coisa sempre podia escorrer para dentro de mim, eu também já tinha lido isso num livro. Ele andava com milhares de lenços nos bolsos, que tinha de jogar fora depois, para ninguém em casa suspeitar.
Lembrando assim, a vida dele se tornou um inferno, e eu Satanás.