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A Casa Dus Budas Ditosos

(João Ubaldo Reibeiro)

Claro que nessa sodoma-e-gomorra do wife swapping, os padres -- os padres, não, porque o Bill não se interessava por mulher -- Pat e a freira tinham um certo problema porque não dispunham de cônjuges para apresentar, mas a gente apresentava um como cônjuge do outro, e Mike falsificava licenças de casamento, se fosse necessário -- que loucura, duas pessoas casadas que vão trepar com outras exigindo papel passado, ou isso é loucura rematada ou é de um requinte por mim inatingível, embora possa imaginar um certo cenário, um filme de Buñuel, por exemplo. Deve haver filmes, relatos e ensaios sobre wife swapping, mas nada pode descrever aquilo, nenhum filme, nenhuma coleção de filmes e livros. Eu adorava quando podia ir como mulher de padre Pat, porque ele era excelente marido e companheiro e adorava perverter aquelas peruas cheirosas de cabelo armado e sapatos brilhosos da mesma cor que o vestido, o cachecol, os brincos e tudo mais. Ele ensinava as coisas mais escabrosas, fazendo as caras mais inacreditáveis, e eu ali, batalhando pelo Oscar de coadjuvante, aprendi muito com ele também. Ele era privilegiado. Os irlandeses, que eu saiba, não têm fama de desmarcados, mas o dele era muito grande e grosso e ficava duro como uma viga de madeira, apontando para cima e gozando com uma força e abundância, que, onde quer que ele gozasse em alguém, esse alguém sentia a inundação, eu amava isso. às vezes ficava sentada com a boca junto ao pau dele, assistindo transportada a ele bater uma punheta para, na hora de gozar, dirigir o jato à minha boca aberta. Fizemos muito isso em ocasiões em que a pressa era amiga da perfeição e tiramos vários finos, fomos quase pilhados diversas vezes, mas isso dava graça. Ele fez padre tinha alguma coisa a ver com isso, ou então o Diabo lhe dava uma colaboração extraordinária. Andy, mesmo. Andy era uma mulher que nós comíamos num desses clubes, descoberta por ele. Quer dizer, descobrir todo mundo tinha descoberto, porque ela era exibidíssima. Ele descobriu foi o talento dela, por trás daquela boçalidade empetecada e ao lado do marido meio broxa e barrigudão, sem charme nenhum, coitado, mas acho que preferia freqüentar aquela turma, onde pelo menos estava nominalmente em igualdade de condições, do que tomar o corno solitário que fatalmente tomaria.

No começo, eu achei que padre Pat estava maluco, querendo que a gente comesse aquela Jayne Mansfield de oitava categoria -- a verdadeira Jayne Mansfield era fantástica, e eu quase como, verdade mesmo, mas isso é outra história, foi num coquetel em Beverly Hills, me lembre depois, mas ele tinha razão, Andy era uma gênia, um diamante bruto. Em dois meses, já sabia e gostava de tudo, deixou de achar que chupar pau era fazer caras e bocas e passar uma língua frenética na glande como uma cobra com problemas neurológicos, aprendeu a curtir tudo, comeu todos os homens, mulheres e sortidos disponíveis, ficou craque em todas as modalidades, virou absolutamente outra. E o casamento acabou, claro. Tracy, o marido dela, realmente não tinha jeito. Nossa freira, Sister Grace, alias Mrs. Saunders, alias Maureen, alias Dee, alias tanta coisa, acho que nesse clube ela era Mrs. Rivera, mulher de Fernando. Ela fez o impossível para trazer Tracy ao convívio da humanidade, mas nem ela seria capaz desse feito, nem eu. Nem Norma Lúcia. E cumpriu-se o carma de cada um, nós transando com Andy e Tracy se dando por muito feliz em ser chupado com afinco e dentes por Rita Mae, a magrela de Iowa que ninguém queria comer. Eu queria ser pintora, prima de um Brueghel qualquer, um Bosch qualquer, para pintar aquelas noites. E dias.

Saudades, por que não dizer, saudades.

Grande Sister Grace, grande Father Bill, grande Father Pat Mulligan! Fernando sempre disse que a maior fantasia dele se cumpriu no dia em que foi chupado por Sister Grace, com ela toda nua, menos pelo arranjo de cabeça de freira. E Grace era linda, tinha aquelas sardas de irlandesa, mas no ponto certo, os peitos curvados suavemente, os bicos rosados e arredondados, uma xoxota magnífica, com pentelhos arruivados e deixados à vontade, uma bunda clássica, a fronteira, para as coxas traseiras bem traçadíssima, linda, linda, linda e safada, era como eu e Pat e raros outros e outras que encontramos na vida: estava sempre disposta, sempre a fim, em qualquer lugar, a qualquer hora, sinto falta de mais gente assim, acho que todo mundo seria assim, se ajudado. Fazia um escândalo quando gozava, tinha que ter música alta, para os vizinhos não pensarem que a gente estava matando alguém de vocabulário mais sujo do que Long John Silver.

Father Bill era mais calmo, muito delicado, educadíssimo, falava não sei quantas línguas e era também muito bonito, só que alto, moreno, com uma covinha no queixo e absolutamente bandeira nenhuma de que era bicha, eu tomei um susto quando soube. Não era um veadão radical, só se recusava a comer ou chupar xoxota; aliás, nem tocar; aliás, nem ver. Tinha nojo, dizia que lembrava as ostras da cidadezinha de pescadores onde ele nasceu em Massachusetts, ou no Maine, sei lá. Ele tinha pavor dessas ostras, tinha até pesadelos com elas. Mas, tirando as ostras, o resto era com ele mesmo, principalmente chupar pau e peito com a avidez de um bacorinho. Mas o que ele preferia mesmo era ser enrabado por Fernando na frente de quem estivesse. Quanto mais gente, preferivelmente mulher, melhor para ele. Parecia um ator de filme pornô classe A, era uma vocação inata. Dirigia o espetáculo e fazia uma espécie de ensaio com Fernando, hoje você faz assim, hoje faz assado. E Fernando também tinha senso de espetáculo, eles dois eram um show, sem exageros, understated mas vigoroso, uma beleza mesmo, inspirou muita gente. Comi a bunda dele algumas vezes, mas ele me emprestava um nome masculino e quase sempre me pedia para usar uns dildos especiais, umas picas de borracha deste tamanho que se encaixavam direitinho no púbis da mulher e ela gozava de tanto se esfregar. Atualmente, qualquer revista de sacanagem traz anúncios de calcinhas, geralmente pretas e de um mau gosto atroz, todas com picas de diversos tamanhos, sempre achei detestável.

Usei umas duas vezes, mas foi terrível, inclusive por eu ter de trepar usando calcinhas, não há a menor graça e me dá um certo nojinho do homem que curte isso, não sei bem por quê. De mulher também, pensando bem, a passiva e, principalmente, a ativa, não acredito que uma sapatona de respeito use habitualmente um negócio desses, é uma indignidade.

Já Father Pat, como eu disse, era perfeitíssimo, completo, nenhuma reclamação, pelo contrário. Irretocável, aquilo é que se pode verdadeiramente chamar de atirar com todas as armas mesmo, gostaria muito de estar com ele e Grace novamente, mas ele sempre promete que vem ao Brasil e nunca aparece. Foi ele quem confirmou muitas coisas de que a gente havia muito suspeitava e perdia tempo e ânimo com elas. Por exemplo, sessenta-e-nove é uma besteira, que tira a concentração e só vale a pena em casos especialíssimos. E a chamada penetração dupla, que hoje está muito na moda e eu vejo nas revistas pornográficas? Eu passo na banca e pergunto se tem revista de sacanagem nova, pergunto em tom de voz natural, não importa quem esteja presente.

Interessante é que a maioria das pessoas finge que não ouve, é curioso, no começo eu esperava o contrário. E os jornaleiros já separam as revistas para mim, os jornaleiros são uma categoria muito esclarecida e de mente muito aberta, alguém devia escrever uma tese sobre esse interessante papel da imprensa. Em quase todas as revistas, há fotos de penetração dupla, dois sujeitos e uma infeliz toda maquilada, ela mais ou menos como um naco de carne no espeto, eles como as duas metades de um pão de cachorro-quente, isso não existe. Ou melhor, existe, porque nós mesmos experimentamos, mas não tem valor algum, a não ser para currículo. E outras contorções, que me destroncam a alma só de lembrar, principalmente quando se arma uma macarronada humana.

Três, três é o número ideal para um grupo, quaisquer que sejam os sexos dos participantes, inclusive misturado. Eu gosto das três formas possíveis: uma mulher e duas mulheres, uma mulher, um homem e outra mulher, uma mulher e dois homens. Na minha experiência, mas enfatizo que só falo por mim, o menos satisfatório é mulher com duas mulheres, e o mais satisfatório -- surprise! -- é duas mulheres com um homem. O ideal é que todo mundo nesse grupo se transe, mas não é indispensável. O indispensável é que as duas mulheres se dêem muito bem, em matéria de rivalidade sejam esportistas sinceras e gostem e tenham tesão no homem e, um belo dia, decidam transformá-lo em sultão e elas em odaliscas. E, muito preferivelmente, que todos sejam amigos, essa história de que não se pode misturar amizade com sexo é uma maluquice, é precisamente o contrário, meu Deus do céu. É porque as pessoas envolvem o sexo em tanta merda --mesquinharias, ciúmes, de peitos, inseguranças, disse-me-disse, suspeitas, afirmações de ego, tanta, tanta merda -- que fazer sexo com amigos às vezes acaba prejudicando a amizade. Não se oferece merda aos amigos, atentar nisso, os amigos são muito importantes. Então, livrar-se da merda, para pode oferecer a ambrosia, que está aí para quem quiser deixar de ser babaca e ver. Se se prestar atenção e se assumir a postura correta, o certo é comer os amigos, é absolutamente óbvio, chega a ser ridículo ter que dizer isso e apresentar como tese a ser discutida, não há nada a ser discutido, é elementar, lógico, curial. Não todos os amigos, é claro, minha idéia não deve ser deturpada, embora eu ache legítimo que alguém empreenda como missão de vida comer todos os amigos e amigas que puder. Eu mesma, de certa forma, sou assim e conheço gente assim, mais gente do que seria de esperar à primeira vista. Comer alguém deve ser um gesto de amizade e que complementa e aprofunda, não estraga essa amizade. O que estraga é o lixo na cabeça, que não é inerente ao sexo, são os penduricalhos mortíferos que arranjam para ele. Experimente conversar sobre isso com amigos e coma eles, se eles se revelarem sensíveis a essa maneira de ver as coisas. Indecente é comer pessoas que não seriam nossas amigas.

Isso só se admite em raríssimos casos, como, por exemplo, para satisfazer uma perversãozinha. Eu gosto, de vez em quando e com as pessoas certas, de dar uma de odalisca, toda mulher sabe de que estou falando, é gostoso. Fiz isso muito, é bom ser uma das duas mulheres que estão comendo um homem de cima a baixo e de todos os jeitos e sabendo que estão dando a ele um dia de rei, bastam elas para que ele se sinta um rei, maior que um rei. Há quem pense que não tem homem com resistência para isso, mas tem, sempre topava com um, a variação de parceiros faz muito bem ao macho, ele é programado para isso. Você sabe o que eu curti? Eu e uma amiga minha, por exemplo, curtimos intensíssimamente uma noite que passamos com meu irmão Rodolfo e na qual, entre outras coisas, ficamos ambas de rabo para cima, para ele nos penetrar alternadamente. E Rodolfo era Rodolfo, fodeu as duas a noite inteira em todos os buracos e fez questão de não ser grosseiro e esporrou também nas duas. Já quatro pessoas é mais complicado.

É possível, mas não é fácil, a não ser se for na base da troca vez por outra e outras variações. Todo mundo embolado não é bom.

Ou então é disfarce, já vi isso acontecer. Por minha causa, uns dois ou três homens, que eu encorajei e elogiei na hora, praticaram vários atos a que antes se recusavam. Muitos resistiam a Fernando no começo, mas acabavam cedendo, até porque tanto ele como eu éramos muito hábeis nesse setor. Se o sujeito permitia que Fernando o chupasse e não ele a Fernando, tudo bem, desapontava um pouco as mulheres, mas Fernando queria chupá-lo de qualquer jeito, reciprocidade ou não, porque não tinha essas frescuras. E a gente aplaudia e mostrava admiração e tesão redobrada por Fernando e, embora não forçasse a barra ou recriminasse o refratário, deixava visível que ele era assim uma espécie de bobo. As mulheres sempre se revelaram ótimas nisso, a maior parte me ajudava muito a convencer os maridos e namorados a transar com outros homens na nossa presença ou com a nossa participação. Você pode pensar que não, mas as mulheres curtem isso, talvez muito mais do que a maioria suspeita, não me lembro de uma que tivesse experimentado e não tivesse gostado. Então, nas trepadas de quatro, há freqüentemente disfarces, que, quando eu descobria, desmascarava logo e encorajava a que liberassem logo tudo, fossem homens na expressão da palavra, fossem os fodaços que nós sempre quisemos que eles fossem. E um fodaço cheio de limitações não pode ser um fodaço. Que um não curta certas coisas, tudo bem; um camarada pode gostar muito de comer outro e não querer dar para esse outro, assim como esse outro pode muito bem só querer dar, ou dezenas de vice-versas. Assim como pode não se sentir tesão por determinada pessoa, ou tipo de pessoa, pode-se até só ter tesão por um tipo de pessoa exclusivamente, embora isso já seja doidice. Mas que se seja absolutamente infenso a toda e qualquer coisa com o mesmo sexo, aí não, aí é limitação grave, não há um homem ou mulher completo, no caso. Todo homem que disser que nunca, na vida toda, sentiu nenhuma tesão por absolutamente nenhum outro homem, até um belo transexual ou um efebo, mas nenhum mesmo, ou está mentindo ou se enganando. O mesmo para as mulheres, que reconhecem esse fato com muito maior facilidade, talvez porque não tenham que ser machos como os homens e não vivam tão assustadas o tempo todo. Por isso e porque as mulheres são de especial ajuda aos homens hesitantes e inseguros -- já que só os inseguros é que têm esse problema -- é que eu nunca deixei os disfarces escaparem, no sexo grupal.

Os disfarces começam já no sexo a três. Não importa o que digam, se dois homens estão transando ao mesmo tempo com a mesma mulher, existe um conteúdo de veadismo nisso, eles ficam olhando as rolas um do outro, curtindo coisas que o outro faz, volta e meia se encostam, se pegam e, sem falar nada, acabam entrando no samba um com o outro, sempre tem uma coisa dessas. O mesmo ocorre com duas mulheres e um homem, excetuando, como é de praxe nestas questões e eu observo sempre, casos graves de doença mental.

Excetuando casos graves de doença mental, todas as mulheres gostam de mulher também, em graus variados ou até especializados, do mesmo jeito que todo homem gosta de homem, faz parte da constituição de nós todos, ninguém nasceu com papel sexual rígido, todo mundo é tudo em maior ou menor grau, o resto é medo de fantasmas ridículos e absurdos, que nunca se sustentaram nas suas pernocas de névoa. Já assisti a episódios e já ouvi confidências de homens que odiariam dar o rabo, mas curtiam fantasias endemoninhadas de enrabar jovens rapazes e muitas vezes faziam isso escondidos deles mesmos. Os travestis comem habitualmente homens sérios, os travestis têm histórias muito boas, eu simpatizo com os travestis em geral. Eles comem basicamente homens sérios. Os homens os pegam em seus carros e ficam de quatro para eles, é esse o grande negócio deles, não é dar aos homens sérios, como se pensa. E todos esses homens sérios são indistinguíveis dos que não fazem o que eles fazem, eles estão em toda parte, são nossos conhecidos, pais, maridos, chefes, comandantes etc., que se abrasam ocultamente, depois se aposentam e morrem de câncer. Precisava disso, precisava? Não, se certas verdades óbvias fossem admitidas de uma vez por todas.

Atraso, atraso, vivemos segundo regras e padrões para os quais nenhum ser humano foi feito e, claro, ficamos malucos por isso.

Não sei se já falei que encaro com piedade a mulher que diz sincera e proibitivamente "meu negócio é homem, minha filha" e, freqüentemente, é irrecuperável para uma visão do mundo e uma vida sadias, até porque fortificada por trás de sua muralha de neuroses e crendices. Fico com pena. A bem dizer, fico com pena não só dessas mulheres como dos homens em condição análoga, fico com pena de todos esses exclusivos de araque. Preferências, sim; exclusividade, jamais. As mulheres gostam, sim, de mulheres e as que menos gostam pelo menos adoram ser vistas em ação pelas outras que as acompanham, preferivelmente mostrando que são mais gostosas. Já participei desse tipo de coisa, e muitos homens, como o próprio Fernando, me contaram que transaram com mulheres que, sozinhas com ele, ficavam lá, paradonas como uma almofada com buracos, mas, quando eu ou qualquer outra estava por perto, viravam demônios do leito, gritavam, gemiam, berravam o nome dele em altos brados e assim por diante. É o famoso ser humano. Mas não faz mal a ninguém, é talvez dos grandes atrativos de sexo a três, é legítimo, uma concorrência construtiva. Mas a verdade é que a grande maioria das fantasias como o sexo grupal, quando vivida, é um saco, com raras e episódicas exceções. Quando imaginada e até vista em fotos, a impressão é outra. Ser penetrada enquanto se chupa alguém de valor, todos amigos e amantes, tudo bem. Aliás, o melhor para tudo isso, volto a bater na tecla, são os amigos e parentes. Ou então o outro extremo, desconhecidos que não vão mais ser vistos. Quando se é amigo, acabam se tornando mais prováveis as combinações, geralmente espontâneas, que podem dar certo. Até sincronismo de orgasmo a três muitas vezes dá certo, mas gente de primeira qualidade para isso é difícil de ser encontrada, e a situação propícia é também difícil de armar.

Atraso, atraso! E eu dei sorte, ainda dei muita sorte.

Minha bolsa de estudos, todo esse tempo, foi de longe a melhor que eu poderia esperar. Saí formadíssima, pós-graduadíssima. Não nas matérias do currículo, evidente, porque eu ia ao campus somente quando havia necessidade, embora tenha pegado o maior diploma de mestrado. Lá é igual a aqui, basicamente, só que bastante mais elaborado e com uma hipocrisia intrincadamente coreografada, que chega a ser bonita de tão horripilante e bem estruturada. Lá a gente compra os papers, os trabalhos de casa que tem de apresentar, existem firmas que fazem isso, é a maior moleza, é só ter dinheiro para comprar, como quase tudo mais. Dar para os professores funcionava da mesma forma que aqui, dei até para um mórmon, que não fumava, não bebia nem café, não dizia palavrão; era um santo homem, mas, quando eu peguei no pau dele por cima das calças, se esporrou todo e só me deu nota A o curso inteiro. E assim diversos outros, era só dar e passar, procurem em outro lugar as diferenças de desenvolvimento entre o Brasil e os Estados Unidos. No feliz dizer de Marilyn Monroe, segundo eu li em alguma revista de fofoca, chupei muita pica, mas consegui muitos papéis. Não havia dificuldade, ainda mais com a aparência demolidora que eu tinha, eles tinham medo de mim e fascinação absoluta e, melhor ainda, não havia concorrência digna desse nome, eu estrangeira, casada, livre para qualquer horário, sem querer dinheiro de ninguém, gostosíssima, fazendo coisas que eles nunca sonharam, era até covardia, nenhum resistiu, absolutamente nenhum. Eu falava português durante as trepadas, eles calam em transe. Com dois eu trepei a sério, mas com os outros eu ficava dizendo "Flamengo até morrer!", "o suflê já está pronto", "tu é ruim de cama pra caralho" e outras maluquices que me davam na cabeça, sempre ligeirinho para não arriscar que eles entendessem, era na Califórnia, e muitos sabiam umas palavrinhas em espanhol, como quando eu chamei Dr. Scott de estúpido porque ele me penetrou por trás como um rinoceronte dando uma marrada, coitado dele, era casado com uma mulher terrível que eu e Fernando comemos e era corno vitalício, se bem que bom de nota para mim, straight A.s again.

Tive apenas três problemas, dois pequenos e um grande, na volta para a Bahia. O primeiro probleminha foi titioAfonso, é claro, que chorou, me chamou de ingrata, perversa, irresponsável e mau-caráter, porque eu não quis dar. Ele estava todo crente, todo Leocádia, como se falava no meu tempo de colégio de freiras, e foi logo metendo a mão em mim, assim que me pegou sozinha.

Aliás, nós marcamos. Eu marquei, melhor dizendo, quem marcou fui eu, sem dizer nada do que havia decidido e deixando que ele devaneasse à vontade. Marquei na mesma sala do sitio onde fizemos sacanagem pela primeira vez. Deus me perdoe, fiz como Hitler, que obrigou os franceses a assinarem a rendição no mesmo vagão de trem onde o Tratado de Versalhes foi assinado. Nos encontramos lá, ele veio todo pressuroso, todo metido a ótimo, mas eu tirei as mãos dele de cima de mim e disse que parasse, que as coisas já não eram as mesmas. Ele me perguntou se eu ia cumprir a promessa, fiquei calada, levantei a saia e, ainda sem dizer uma palavra, fiz com que ele compreendesse que eram só as coxas. Sei que é difícil crer, mas dei somente as coxas. Em pé, pedindo pressa porque achava que vinha gente, sem beijo na boca, sem nenhum extra, e ainda ri na cara dele, na hora em que as pernas dele bambearam e ele teve de se agarrar em meus ombros e ainda disse a ele -- eu não valho nada mesmo, mas menos valia ele -- que tinha baixado a calcinha somente porque não queria que ela ficasse toda lambuzada daquilo, exigi o lenço dele para me limpar, segurando-o nas pontas dos dedos e fazendo carinhas de nojo. E pronto, aquela era a última vez, ele que se desse por muitíssimo satisfeito por eu ainda ter feito aquilo como despedida, ele me fizera cair numa armadilha, prometer o que não poderia cumprir, se aproveitando da minha boa-fé e inexperiência, o inescrupuloso amoral que tinha iniciado a sobrinha inocente na sacanagem, o último e mais pérfido dos homens. E agora, para todos os efeitos, eu era uma senhora casada, ele queria que eu contasse tudo a Fernando ou a alguém mais da família? A tia Regina, talvez? Se tia Regina concordasse com o cumprimento da promessa, podia ser que eu revisse minha posição. Devolvi o lenço ainda nas pontas dos dedos e desviando o rosto e nunca mais deixei que ele chegasse nem perto de mim.

O segundo problemazinho foi que eu tinha de ensinar na universidade por conta da bolsa, que tinha uns requisitos desse tipo, embora tivesse sido quase toda paga pelo tio Afonso, Deus o tenha, pensando bem, eu também botei pra quebrar em cima dele, aquilo não se faz. Apareceu para dar aulas o Dalai Lama? Assim apareci eu. Ainda tentaram me. chantagear para eu aceitar aquele emprego escravizante de merda, mas eu não quis nem saber, até hoje deve haver algum inquérito ou processo contra mim, mas eu nunca dei a menor importância. Mas, enfim, como eu disse, foi uma grande bolsa, apesar de eu detestar Los Angeles e a Califórnia de modo geral, com exceção de São Francisco. E veio o terceiro problema, desta vez bem mais grave. Nem Fernando nem eu conseguiamos agüentar a Babia depois de 64, e todo mundo se mandou, e nós ficamos praticamente sem amigo nenhum, principalmente os que nós queríamos converter à nossa maneira de viver. Eu sempre dei para comunistas e esquerdistas variados por uma questão que eu considerava cívica. Comunista é ruim de cama que ninguém sabe, talvez seja a maior incidência de broxura definhada que eu encontrei. Nunca tive tesão em Lênin, só tenho por Fidel Castro. Mas os esquerdinhas tinham todos desaparecido, entre boatos de que enfiaram uma granada na boca de um, outro era guerrilheiro no Camboja e outra tinha dedado todo mundo e agora era comborça de um major torturador, todo dia aparecia uma história. E todo mundo que ficou parecia sem graça, chato e atrasado -- e, para quem está cheirando pó, todo mundo que não cheira é chato e atrasado --, e Fernando tinha que viajar para o Rio para conseguir pó, e tudo era realmente muito, muito chato, e a1 nós resolvemos vir para o Rio de Janeiro. Chegamos a passar ainda uns três ou quatro anos na Bahia, mas pegamos ojeriza mesmo, até porque nos parecia que lá estavam concentrados os filhos das putas que se aproveitaram da Redentora para encher o cu de dinheiro, a começar por aqueles fundos de não sei o quê, da família militar, não sei o quê, que realmente encheram o rabo de dinheiro e agora sumiram com o dinheiro de todo mundo que foi na deles e ninguém mais fala neles. Um bando de escrotaços, e não começo nem pelos milicos, começo pelos débeis mentais que doaram até as alianças de casamento, e não duvido que os mais babacas tenham dado seus blocos dentais de ouro para a campanha "ouro pelo Brasil", ouro sinistro, que lembrava o que os nazistas roubaram dos judeus e que nunca mais ninguém viu e até hoje deve estar fazendo a felicidade dos promotores da campanha, bons filhos das putas, para não falar no festival de dedurismo da época e em muitas outras coisas sobre as quais a gente age como se em muitas outras coisas sobre as quais a gente age como se nunca tivessem acontecido. Mas eu não, se bem que reconheça que, no fundo, é uma atitude besta.

Resolvemos nos mudar para o Rio entre altas expectativas.

Eu, que nunca tinha evitado filhos com a seriedade apropriada, mas tinha medo de pegar um sem querer e, pior ainda, sem ter saco para crianças, ainda mais podendo não ter certeza sobre quem era o pai, fui a não sei quantos ginecologistas, e todos inventaram um problema diferente em meu sistema reprodutivo. Problema era claro que eu tinha, porque obrigaram Fernando a fazer exames, e os exames sempre demonstraram que ele tinha fertilidade suficiente para emprenhar todas as chinesas com meia dúzia de esguichadinhas. Foi até interessante que ele fizesse esses exames, porque eu decidi ir com ele e me trancava com ele naquelas salinhas sórdidas, uma coberta de folhinhas de posto de gasolina e todas sórdidas, sórdidas, eu dizia, com a maior cara-de-pau, que ia ajudar na coleta de material. Era ótimo sair da salinha e ver as caras das pessoas, algumas fazendo força para disfarçar e outras abertamente escandalizadas. Uma vez, levamos uma putinha contratada especialmente, dizendo que ela era secretária de Fernando, e o médico, Dr. Clóvis, não me esqueço dele, um baixote meio sebentinho, que fumava um toco de charuto mordido e babado, tentou fazer um discurso contra, mas Fernando e eu reagimos e entramos os três na salinha de punheta, foi fantástico, aposto que o Dr. Clóvis deve ter ficado traumatizado pelo resto da vida. Meu palpite era que eu era estéril mesmo, não importando por que razão, mas, como confio em médicos tanto quanto em economistas, resolvi ligar minhas trompas e me livrar dessa preocupação para sempre.

Rio de Janeiro, trompas ligadas, problemas nenhuns, liberdade, liberdade. Mas no começo foi uma merda e pensamos até em morar em outro lugar, chegamos a viajar, pensamos em Paris, pensamos na Provença, pensamos numa ilha do Mediterrâneo, mas acabamos ficando no Rio e tudo foi se acertando aos poucos. Eu não concebo outro lugar para morar que não o Rio, apesar de tudo o que fazem para acabar com ele, notadamente os cariocas mesmos. Mas só é possível morar, morar mesmo, no Rio. Você veja, eu adoro São Paulo, acham até estranho, mas é verdade, adoro. As paulistas são fogosas, os paulistas são bons amigos e, quando fodem bem, fodem muito bem, basta você desenvolver o paladar. E o interior de São Paulo também tem muita coisa ótima, é surpreendente. Mas eu só quero morar no Rio, nem pensar em sair daqui. E olhe que eu sou baiana e, como todo baiano, criada com preconceito contra carioca. Baiano tem preconceito contra todo mundo, aliás, quem quiser que pense que entra mesmo em casa de baiano, porque não entra. Tem aquele oba-oba todo, meu irmãozinho, meu amor, meu idolatrado, meu rei, tudo o que é meu é seu, minha mulher é sua, meu marido é seu, minha bunda é sua, mas quem quiser que pense que entra, porque não entra, só um ou outro, salvando-se uma alma no purgatório. Baiano acha não-baianos seres incompreensíveis, perigosos e conspiratoriais. Observe: fora do território deles, eles podem se detestar, mas vivem se elogiando. Pergunte a qualquer baiano o que ele acha de outro baiano, que na verdade ele considera a caca das cacas, e ele dirá que é o maior do mundo. Eles ficam malocados, mas, se outro baiano precisar, eles saem das tocas, são uma espécie muito peculiar, quem quer que tenha medo deles tem razão. Até eu, que tenho esta postura crítica, sou vítima disso. Fui criada para odiar o Bahia e odeio o Bahia, mas, quando ele está jogando fora de lá, eu torço por ele, é ridículo. Mas é sério. Por isso que, para muitos paulistas, a Endlösang é acabar com a baianada toda. Eu acho uma sacanagem, mas compreendo. Eles podem espernear, mas não conseguem aceitar a existência da baianidade, ela tem de ser exterminada.

Alguns baianos apareceram no Rio, nessa ocasião. E alguns destes somente nessa ocasião, nunca mais vimos. Pareciam uns missionários e hoje compreendo que era a baianada em ação, acho que é uma coisa meio inconsciente, que já está programada neles de nascença. Eles foram nos ajeitando e daí a pouco estávamos integrados, completamente cariocas -- o Rio adota todo mundo, não faz perguntas, se bem que tampouco paparique, mas isto já é outra conversa. Logo já tinha pó de dar de pau no Rio, já tínhamos as conexões certas, nada de subir no morro e lidar com malandros que não podem ser recebidos em casa. Minto. Uns quatro ou cinco chegaram a entrar, e me lembro de um que apresentou de graça diversas vezes, adorava Fernando, achava que se tratava de um intelectual finíssimo e eu também era uma intelectual finíssima e uma grande dama. Esse era um fenômeno, parecia um aspirador de pó pesado, desses que você vê limpando as ruas em Paris. Batia o pó com as costas de um pentinho de plástico e cheirava fileiras do tamanho de um salame. Ele tinha obsessão por uma mulher do seu passado chamada Madalena e de vez em quando escrevia o nome dela com pó, em letras enormes, numa capa de elepê, e cheirava Madalena toda numa cafungada só, tinha que ver para acreditar.

O problema era que, quando ele aparecia, tanto Fernando como eu, depois de umas duas cheiradas, estávamos mortos de tesão e de vontade de falar sacanagem e de telefonar para chamar mais gente, mas isso era impossível com ele ali, seu bigodinho pintado, suas pernas esqueléticas e sua barriga maior que um zepelim, um verdadeiro maxixe espetado em dois palitos. Eu mesma, que, quando cheirava, já fiquei excitada vendo a foto de uma mulher muito bonita chupando o pau de um cavalo e já pensei muito em dar para um jegue -- cheguei mesmo --, nunca consegui nem pensar em transar com ele. Quer dizer, pensar até pensei, mas não podia ir adiante, por mais que recorresse a meus argumentos pansexuais de costume. Acho que já contei que, quando menina, veraneando na ilha, vi muitos jegues trepando, e só uma pessoa de sangue de barata não fica excitada, quando vê o jegue subir com aquele vergalho imenso em riste, montar na jega, morder a nuca dela, ele fechando os olhos e ela mexendo o queixo, dando uns coicezinhos nele e babando, é lindo. Claro que nunca esperei agüentar um jegue todo em mim, mas pelo menos um pouco, e fiz um desenho de memória da cilha que eu tinha visto com Fernando em São Francisco, num show pornô de um night club de quinta categoria.

O número principal, pelo menos do meu ponto de vista, era uma mulher encilhada por baixo de um cavalo, e o cavalo metia nela.

Não tudo, é óbvio, mas um pedaço impressionante. Fiquei excitadíssima, até com vontade de subir no palco e tomar o lugar dela. E Norma Lúcia me ensinou a curtir transas com cavalos, era muito bom pegar um cavalo manso daqueles e ficar de mente perdida no descampado, acariciando os colhões dele e lhe alisando o pau.

Era, não; é. É muito bom e carrega logo o corpo de todos os hormônios mais safados. Mas vamos deixar de lado jegues e cavalos, nunca consegui de fato praticar minhas poucas fantasias de bestialidade, sou fraca em bestialidade, nasci mal dotada e não desenvolvi nada. Cachorro, que é o mais comum, é que nunca me atraiu. Limitação minha, com certeza. Outro dia, numa dessas salas de bate-papo de sacanagem na Internet que eu freqüento, um rapaz estava procurando um cachorro grande e manso, que pudesse enrabá-lo. Permitia que os donos assistissem e até fotografassem.

E dizia que nada superava ser enrabado por um cachorro. O pau do cachorro parece fino, disse o rapaz, mas aumenta muito de volume quando penetra e tem um magnífico nó no meio. Além disso, o cachorro prolonga sua penetração por até meia hora, ejaculando abundantemente a intervalos. O rapaz está pensando num fila.

Quando vi o anúncio, fiquei com vontade de ter um cachorro e assistir a isso. Mas não fiz nada e o anúncio pode até ser mentira, embora eu creia que é verdade; nós, o homem, fazemos tudo. Mas nunca consegui nem pensar direito em fazer qualquer coisa de sexual com esse sujeito do pente no pó, lamento mesmo dizer que não havia a mais remota condição. Além disso, um dos problemas com pó é que a gente fica se dando e afetando amizade por uma porção de gente para quem nem olharia, se não fosse pelo fato de eles oferecerem ou repartirem o uso da droga deles. E daí fomos nos desligando gradualmente desse tipo de gente e ficamos só com os nossos fornecedores de classe fina, digamos assim, e acabamos entrando num regime de loucura total, de que não tenho o mínimo de arrependimento -- só gostaria de fazer algumas revisões --, só tenho arrependimento do que não fiz, como se diz muito e é verdade, a gente só se arrepende do que não fez. E aí mergulhamos de cabeça no pó e na sacanagem.

De repente nos vimos metidos numa roda-viva alucinante, que nem sei reconstituir direito, nem, quero, nem vou tentar. O que eu sei é o seguinte: pensemos em desvarios. Mas desvarios mesmo, houve muito pouca coisa que eu não experimentasse, no terreno que arbitrariamente defini como normal para mim. Desisti de querer justificar minhas escolhas, trabalhei os pontos nos quais notei uma centelha inicial, além disso a vida é curta. Necrofilia, coprofilia, muitas outras filias, não, definitivamente. Tudo bem para quem gosta, nada de repressão, a não ser à mutilação e à morte. Mas eu não. Tirando isso, fomos bastante fundo. Pó, contudo, tem aquele defeito, entre muitos, a que já me referi: liga a cabeça, mas desliga os órgãos genitais. Fernando mesmo, que eu saiba, nunca conseguiu transar com pó. Mulher não tem esse problema de precisar de ficar fisicamente tesa, mas, assim mesmo, prejudica, pelo menos no meu caso e no de diversas amigas minhas.

Mas isso não impedia que, menos de um minuto depois que a gente cheirava a primeira carreirinha, a gente se obsedasse tanto por sexo que só falávamos putaria até o dia amanhecer.

E praticávamos. Chega a ser tedioso recordar certas coisas.

E também não quero ficar repisando aqui o que todo mundo já conhece. Mas, por outro lado, preciso repisar. Henry James -- eu já gostei muito de Henry James, hoje não gosto mais tanto assim, mas me dá uma saudade imprecisa de tardes longas e meio nubladas, entre árvores tristonhas, não sei bem por quê, ou, por outra sei, mas estou com preguiça de falar, é por causa de Washington Square, eu sempre fico triste quando passo por lá no inverno --, Henry James escreveu não sei onde que ler um romance é olhar pelo buraco da fechadura. Este depoimento não é um romance, nem enredo tem -- se bem que os do próprio Henry James também mal tivessem, pensando bem --, mas é olhar pelo buraco da fechadura. Claro, minha vida não foi comum, mas eu basicamente sou igual a qualquer uma, nem pior, nem melhor. Sempre tive dinheiro e fui inteligente, o que certamente facilita as coisas. Mas sou igual a qualquer uma. E as pessoas lêem romances, biografias, confissões e memórias porque querem saber se as outras pessoas são como elas. Não somente por isso, mas muito por isso. Querem saber se aquilo de vergonhoso que sentem é também sentido por outros, querem olhar mesmo pelo buraco da fechadura e, quanto mais olham, mais precisam olhar, nunca estarão saciadas. Faz bem, é reconfortante. Porque eu tenho a convicção de que a maior parte das mulheres e homens é como eu e pensa que não, cada um pensa que é único em suas maluquices. Não é, não, somos todos iguais.

Vai ter muita gente que vai ler isso e vai discordar e de novo estou com preguiça de argumentar. Largue este texto, então, não perca seu tempo. Não largou? Não largou, claro, chegou até aqui.

Não é para largar. A intenção do buraco da fechadura é a primeira. A segunda é provocar tesão, quero que quem me ler fique com vontade de fazer sacanagem, pelo menos se masturbando. Se alguém lesse isto no avião e, por causa disso, entrasse numa sessão de sacanagem com o companheiro ao lado, seria uma realização, um accomplishment. Penso principalmente nas mulheres, gostaria que as mulheres, ao tempo em que se tornassem mais ousadas, se tornassem também mais abertas, mais compreensivas, deixassem de ser tão mulheres, por assim dizer. E gostaria de um mundo de sacanagem sem problemas, é dificílimo, mas não é impossível em certos casos. Quero que as mulheres fiquem excitadas, se identifiquem comigo, queiram me comer e comer todo mundo que nunca se permitiram saber que queriam comer, quero criar um clima de luxúria e sofreguidão. De noite, sozinha, isso acontece. às vezes por causa de um drinque, um baseado, uma música, uma foto, uma coisa qualquer que altere ou provoque a consciência. às vezes, aparentemente por nada. Mas todas as mulheres --todos os homens, mas agora quero falar de mulheres -- já sentiram e sentem um momento em que são puramente sexo e pulsam sexo por todos os lados e ficam com medo de si mesmas e se descontrolam e compreendem tudo sobre sexo e querem tudo, é uma sensação avassaladora de absoluta sexualidade, um momento em que a sacanagem toma conta de tudo, e ela se sente fêmea, devassa, puta, ela faria tudo, tudo, ela quer foder, ela quer fazer tudo! Toda mulher que não dá a bunda sente vontade de também dar a bunda nessas horas, toda mulher que nunca deixou gozarem em sua boca sente vontade de chupar um pau até que ele esguiche forte em sua boca, toda mulher assim limitada sai desses limites nessas horas, finge que não tem problemas. Todas iguais.

Eu quero excitar essas, quero provocar muitas trepadas, quero que maridos, namorados e pais assustados as proíbam de ler, quero que haja gente com vergonha de ler em público ou mesmo pedir na livraria, ah, como seria bom acompanhar tudo isso. E não estou fazendo nada demais, a não ser contar a verdade. É de fato inacreditável, se você for ver bem, que contar a verdade seja escandaloso, quase subversivo, o atraso, o atraso. Se todo mundo contasse, este depoimento seria apenas mais um entre milhões.

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