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A Casa Dus Budas Ditosos

(João Ubaldo Reibeiro)

Mas, como não conta, eu conto, e ainda tenho muito mais coisa para contar, nunca vou conseguir contar tudo. E, finalmente, a terceira intenção é bem mais um desejo. É o desejo de estar com mulheres que tenham lido este texto, para ver as caras delas e ouvir os comentários para consumo externo e para o marido que se julga liberalíssimo, mas despencaria do Everest se soubesse dez por cento do que vai na cabeça dela. Parece que eu estou vendo: Gostei, sim, mas é claro que discordo de muita coisa, ela é muito radical para mim, eu não chego àquele ponto nem na teoria, quanto mais na prática. Canalhas. Claro que chegam, se já não chegaram.

Mas têm que se defender, é natural. É a tal coisa, tem uma comunidade cheia de veados e nenhum homem que coma os veados.

Existe? Claro que não existe. É a mesma coisa, modus in rebus.

Eu serei a única? Pelo contrário, eu sou mais é a regra, a norma, embora poucas tenham tido as oportunidades que eu tive e, por isso, não foram longe. E com quem é que eu fiz tudo o que eu fiz? Com algum marciano, por acaso? Quem está fazendo tudo agora? Sim, quero mexer com essas mulheres também, quero mexer com todo mundo.

É muito difícil fazer um resumo dessa época de ouro do pó, mas foi uma grande lição de vida. Ensinou muitas coisas, das quais agora vou dizer a primeira, sem ordem de importância. Ensinou que é muito difícil encontrar alguém que não tenha alguma grande obsessão sexual, ou mais comumente várias, geralmente reprimidas das formas mais inesperadas. Que mais? É muito difícil encontrar alguém que não se possa seduzir. Querendo-se pagar o preço, que pode ser até uma existência, é possível seduzir toda e qualquer pessoa. Que mais? Todo homem é veado, em maior ou menor grau, e toda mulher é lésbica, em maior ou menor grau. Ninguém é alguma coisa de forma absoluta, não há hipótese. Case histories uma atrás da outra, devo ter uma das maiores coleções do mundo, somente contando com meu tempo com Fernando e com Antonia.

Primeiro caso que me vem: Marina, a comissária de bordo.

Prefiro muito dizer "aeromoça", mas parece que agora elas se ofendem quando são chamadas de aeromoças, deve ser porque a cada dia ficam mais aerovelhas. Hoje em dia tudo ofende e, como nós vivemos macaqueando os americanos, também ficamos politicamente corretos, e um babaca aí agora está querendo uma lei proibindo piadas que possam ofender qualquer grupo, de qualquer tipo.

Imagino o surgimento de um grupo antipiadas -- a Igreja Universal da Assembléia dos Homens Sérios -- registrado e, portanto, a proibição de contar qualquer piada, sob o risco de ofendê-lo.

Haverá piadas clandestinas, contrabandistas de piadas, transeiros de piadas, fornecedores de piadas de árabe e judeu e presos inafiançáveis pelo delito de contar piadas. Puta que o pariu, só falando assim, atraso, atraso. A aeromoça nos conheceu numa birosca de praia, quando estava passando férias numa pousada em Porto Seguro, que não era moda como agora. Ela tomou umas batidinhas e acabou confessando que já estava ficando meio dura, e aí Fernando e eu, já pensando em dar um bote, porque ela era um deslumbramento, olhos verdões, peitos e coxas na medida certa, uma voz grave enlouquecedora, enfim, ótima, ótima, uma verdadeira estátua grega de biquíni, oferecemos lugar para ela, casa, comida, roupa lavada e ajuda no que ela precisasse, no sitiozinho que tínhamos alugado para a temporada. No começo, ela fingiu não querer, mas depois quis. E também fingiu que não gostava de pó, mas depois sentou a venta, como dizia o nosso amigo que cheirava Madalena. Na primeira noite em que cheiramos juntos, ela estava de shortinho meio frouxo e blusa por cima dos inenarráveis peitos, com os bicos que pareciam dois telescopiozinhos empinados para o céu, e eu fiquei ensandecida de tesão, passei o tempo todo alisando ela durante as conversas e, quando finalmente resolvemos ir dormir, eu entrei no quarto dela e deitei junto dela e encostei na bunda dela, e ela veio com aquela conversa de que o negócio dela era homem. Mas isso com um sorriso sem-vergonha, que nem de longe me convenceu. Aliás, mulher que vive repetindo que o negócio dela é homem, o negócio dela é homem, está num caso análogo ao que minha avó denunciava -- a mulher que não se refere ao marido pelo nome, mas vive falando "meu marido", "meu marido". No primeiro caso, dedução minha, o negócio não é só homem e, no segundo caso, dedução de minha avó, o marido é corno. Ainda conversei um pouco e apertei os peitos dela, que tirou minhas mãos, mas daquele jeito safado de quem não quer que a gente tire realmente. Perguntei se, nesse caso, ela estava interessada em Fernando, mas ela disse que não, desta vez com firmeza, que ela pode não ter tencionado mostrar, mas eu notei logo. Está certo, tudo bem, vá dormir, durma bem.

E, por uma questão de estratégia -- coisas sutis para as quais a gente tem talento natural e aperfeiçoa com a vida --, deixei ela sozinha no quarto e fui continuar a conversar sacanagem com Fernando, até o dia começar a amanhecer. Não gosto de ver o dia amanhecer completamente, deve ser algum lixo católico que eu carrego, me dá desconforto, culpa. Já desisti de combater isso há muito tempo, sempre vou para a cama antes que o dia amanheça, é mais cômodo do que dedicar a vida a tentar vencer uma neurose de merda. Como de hábito, não dormi durante muito tempo, apesar das bolinhas, e fiquei pensando nela. Eu tinha certeza de que ela queria que eu insistisse, mas não insisti; posso ser boba, mas nem tanto. Não sou boba, aliás. E assim se passou essa noite e a seguinte, até que, na terceira noite, depois que ela alegou sono e cansaço e foi para a cama sozinha novamente, eu passei de propósito pela porta do quarto dela, que estava quase completamente aberta e a luz do abajur lá dentro acesa. Ela não estava mais de shortinho e blusa, não estava vestindo nada, estava completamente nua, de bruços, pernas em ângulo, pose clássica, aquela bunda inefável, aquela pele coberta de lanugem dourada, e eu, é claro, não hesitei. Não podia haver a mínima dúvida de que ela estava ali me esperando para transar, por mais que pudesse dizer o contrário. Eu não ia deixar essa oportunidade passar levada por prudência babaca, já bastam as de que me arrependo por não ter caído em cima, hoje vejo como as barreiras eram bestas ou até fictícias. Nem parei para pensar. Fiquei também nua na porta do quarto, deixando as roupas caírem na entrada, e me insinuei por cima dela, que agiu como se estivesse acordando naquele momento, péssima atriz.

Deitada em cima das costas dela, encaixada em uma das bochechas da bunda dela, já começando a me esfregar, pedi que virasse o rosto para trás para que eu a beijasse na boca, e ela virou.

Pronto, uma química jamais declarada baixou em Porto Seguro, meu Deus! Tudo funcionou como se tivéssemos nascido já fazendo tudo aquilo uma com a outra, até os gemidinhos dela compassavam com meus gemidões, nada deu errado, nenhum movimento se frustrou, ai, como foi bom, esta vida é muito injusta, quando nos traz essas lembranças. Penso nela como ela era então, não penso nela como deve estar hoje, me masturbo evocando aqueles dias com ela.

Sem o momento, não existiriam nem a antecipação nem a lembrança, mas como os dois são melhores que o momento! Quando, depois de já termos gozado quase instantaneamente, eu na bunda dela e ela com meus dedos, vi o que minha mão já tinha adivinhado: ela tinha um tufo de pentelhos que só posso chamar de suntuoso, a visão mais hospedeira que já tive, adoro mulheres fartamente pentelhudas, não sou chegada às aparadinhas e raspadinhas, que são muito comuns no Nordeste. E nos Estados Unidos também, é engraçado. E também não aprecio esses pentelhos que ficam como uma crista, raspados certeiramente junto às virilhas, parecendo a cabeça de um índio seminole ou o topo do capacete de um centurião romano de cinema. Está certo, é para usar o biquíni, mas não é necessária aquela precisão, podia ser uma coisa menos definida, mais dégradée, menos brutal. Ou então deixar os pentelhos saírem pelos lados do biquini, ou até por cima, é bem mais sofisticado, embora requeira classe. Ela era perfeita nesse sentido, aquele monte de Vênus amplo e generoso, aqueles pêlos lãzudos e macios. Refocilei a cara nesse tapete que até agora sinto em meu rosto e vivemos horas de abraços, esfregadas e gozo, um atrás do outro, como só as boas mulheres sabemos fazer. Aliás, entramos num delírio tal que Fernando, sozinho, sozinho, abrindo ao acaso revistas pornográficas para tentar adivinhar se ele ainda ia comer Beltrana ou Sicrano e enchendo a cara, apareceu no quarto e também ficou nu e, apesar de broxado, não envergonhou. Nos transformamos num novelo e, no fim, Fernando entrou em rebordosa e ficou numa paudurisia inaudita, comeu nós duas e gozou na boca dela. Isso se repetiu até as férias dela acabarem e, no fim, ela nos disse misteriosamente que era casada e, por mais que tentássemos, nunca mais a vimos, mas eu não a esqueço como a mulher que eu mais gostaria de ter tido sempre ao pé, para a gente se comer.

Como ela me chupava! Mulher sempre chupa xoxota muito melhor do que homem, que geralmente acha que sua língua é uma espécie de falo desarvorado e que pode sugar um clitóris ignorando os próprios dentes cheios de arestas, como quem está tomando refrigerante de canudinho, com raiva do conteúdo. E ela me chupava com classe e um toque, não sei bem como dizer, um toque de devoção. Respirava fundo, se aconchegava entre minhas coxas, me segurava delicadamente na bunda, respirava fundo outra vez, me cobria de beijos nas virilhas, fechava os olhos e me levava ao céu, ao céu! Não posso nunca me esquecer do dia em que ela começou a me chupar no sofá, e eu resolvi que naquela hora preferia a cama e, não sei como, ela conseguiu me seguir até a cama sem tirar a boca de mim com os olhos fechados e eu gozei torrencialmente logo em seguida. Não sei se posso dizer, porque não vejo razão para rejeitar o rótulo de libertina pervertida e devassa, se já tive paixonite a sério por alguém, mas, se já tive, foi por ela. Uma vez, Fernando fora de casa, comendo uma carioca grãfina que havia aparecido com um marido altamente babaca e nós duas em casa, eu deitada num tapete, e ela, usando um roupão felpudo de Fernando sem nada por baixo, fez que ia passar por cima de minha cabeça e parou bem acima de minha cara com as pernas levemente abertas e aquele bocetão irresistível, na penumbra em torno de meus olhos. Toquei nos quadris dela, e ela, como se tivéssemos combinado antes, sentou na minha cara, que sensação insubstituível e incomparável! Como era aveludada, como era acolhedora, como tinha os cheiros certos! Como era submissa da maneira mais encantadora, pronta para fazer tudo o que eu quisesse, do jeito que eu quisesse, na hora em que eu quisesse, tudo com uma naturalidade que parecia que a vida sempre tinha sido assim, desde que o mundo era mundo. Não sei, não sei mesmo como descrever o que havia entre mim e ela, até o jeito como ela se livrou do roupão nessa hora é inimitável. Ela me chamou de meu amor, meu amor, minha tesão, minha dona, minha ídola, meu tudo, minha vida e, ai como eu a chupei, como chupei tudo dela, até que ela, falando as coisas mais sublimes que podem ser ouvidas, gozou como uma loba divina uivando, gozou mais, suspirou com aqueles olhões que davam vontade de mergulhar e pediu que roçássemos entrelaçadas até morrermos, e naturalmente que morremos um pouco. E depois continuamos a nos roçar e eu pedi que ela me desse a língua toda para eu enfiar na minha boca e, enquanto isso, que girasse a bunda para eu alisá-la, e ela passou a me chupar novamente, eu já sem fôlego e sem vontade de ser mais coisa nenhuma neste mundo, a não ser nós duas, diluídas no meio do universo e trocando nossos corpos. Quando falo nisso, fico um pouco -- um pouco, não, muito -- excitada e me arrependo por não tê-la perseguido o resto da vida. É claro que o negócio dela não era homem, era eu mesma. Podia não ser só eu mesma, mas eu fazia parte importante do negócio dela. Os outros participantes certamente houve ou há, mas não podem ter sido melhores com ela na cama do que eu.

Fernando, naturalmente, acabou se integrando. Ela era talentosa e claro que gostava de homem também, como acontece com todas as pessoas taentosas e cheias de vida. Vida, para mim, sabe o que é! Interessante, acabo de fazer uma espécie de redução epistemológica, não vou dizer nenhuma novidade, mas posso garantir que cheguei a essa redução depois de seguir um caminho que leva ao convencimento de que se trata de verdade transparente, um caminho que não posso dividir, mas que qualquer um, se quiser, pode trilhar também. A redução é a seguinte, sabe o que é a vida? é foder. A vida é foder. Note bem: esta, partindo de mim, é, como eu já sugeri, uma afirmação refinadíssima, não tem nada a ver com enunciados idênticos, mas simplesmente grossos ou instintivos. O meu enunciado é fruto de muita vivência e processamento dessa vivência. A vida é foder, em última análise.

É uma pena que a maioria nunca chegue nem de longe à plenitude que esta constatação oferece, uma grande pena mesmo. Ela também tinha compreendido isso e comigo abriu o resto do horizonte que precisava ter. Fernando entrou e demos muito certo, os três.

Gostávamos de sair para passear à noite e fazer sacanagem na rua, sabendo que estavam nos espreitando. A gente bebia numa pracinha ao ar livre e depois nos levantávamos e íamos os três para o escuro, se agarrar. Voltávamos com a cara mais inocente do mundo, sabendo que todo mundo sabia e que alguns tinham espiado e mesmo tocado uma punheta vendo a gente se beijar, se chupar e fazer outras coisas boas para o ar livre. E, mais ainda, ela inventou um roteiro doméstico que Fernando adorou. Ela ficava com uma carinha de puta inocente inacreditável e dizia que queria dar para ele gemendo entre ofegos quase lacrimosos e explicando que estava precisando que ele a cobrisse, a protegesse, penetrasse bem fundo nela e esporrasse muito nela, por favor, por favor. Uma diaba. Quando Fernando acabava, agradecia a ele, só vendo o jeito dela. E fez Fernando ainda mais feliz, porque comeu o casal que tomava conta do sítio e abriu caminho para Fernando, que estava doido pelos dois, realmente um casal de mulatos muito bonito, um raceamento perfeito. Fernando ficou doido pelo pau do rapaz, que de fato excepcional, mais comprido do que grosso e muito teso, lustroso e parecendo envernizado. E pela bunda também, que eu achava ainda mais bonita e comi algumas vezes. Fernando ficava indócil, não sabia se chupava ele, se o comia ou se lhe dava a bunda, começava uma coisa, emendava pela outra, era um frenesi. Eu devia contar isto em pormenores esmiuçados, pelo prazer de excitar as pessoas e induzi-las à sacanagem, é um exercício de poder agradável e meu propósito desde que eu comecei isto. Sim, não passávamos dia sem que fizéssemos muitas, muitas sacanagens, todo tipo de coisa com esse rapaz e a mulher dele, ele chupando Fernando todo para depois enrabá-lo com aquele cacete comprido que entrava todo, e Fernando chegou a sentar em cima dele, tanta coisa... Mas não vou contar, é preciso reconhecer que tenho pressa. Tenho que ter pressa, se quiser estar segura de que pelo menos as partes que considero mais interessantes neste depoimento não ficarão de fora. Esta doença... Eu vou falar sobre a doença que eu tenho, não é câncer como você deve estar pensando, eu não sou do tipo que tem câncer, minhas células têm pouquíssimos motivos de revolta, notadamente em comparação com a maioria das pessoas. Câncer é a doença do reprimido, da libido encarcerada, da falsidade extrema em relação à própria natureza. As células traídas e frustradas então se rebelam, mandam emissários subversivos para todas as partes do corpo e geralmente vencem e destroem o organismo. Eu não tenho isso e, de certa forma, a minha é uma condição bem mais interessante do que câncer, pelo menos num aspecto. E mais condizente comigo, mais tchan. Mas depois eu falo nisso e depois conto mais histórias com detalhes, a doença pode não me dar muito tempo, há coisas que julgo básicas e que ainda não contei. Já dei uma idéia suficiente de como nossos dias em Porto Seguro não têm comparação, o que se imaginar é pouco.

Não. Minto. Minto. Aliás, mente-se sempre, mesmo quando não se tem nenhuma intenção. Mente-se, mente-se o tempo todo e, que me desculpem a filosofia barata, a vida é uma mentira impenitente, renitente e resistente, e o único problema filosófico de fato é o suicídio. Estou pernóstica hoje, mas não minto sobre isso, ao contrário de praticamente todo mundo. the world is but a stage, não é assim que está no Hamlet? The world is but a stage, e eu, que não me considero melhor do que ninguém - mentira, mentira, me considero, claro que me considero, vamos ser democratas mas não vamos achar que todo mundo é igualmente dotado, porque não é --, estou desempenhando meu papel com um mínimo absoluto de veadagem psicanalítica, até porque considero Freud, além de mau-caráter, o gênio mais desperdiçado da História depois de Platão, aquele filho da puta, responsável pelo tascismo tecnocrata da República, babaca, devia ser castigado com uma encarnação perpétua como Ministro da Administração do Brasil. Babaca, eu não posso ler A República sem ficar com vontade de ir lá e esculhambar Sócrates, aquele veado sebento -- isso era o que ele era, um veado sebento e burro, que não comeu Alcibíades, ora homem, creia, não comer Alcibíades, quem era ele para não comer Alcibíades, quando qualquer um de nós comeria? E que pentelho inominável, o que ele enche o saco do coitado daquele escravo no banquete deixa a pessoa nervosa só de pensar em conviver com ele, Bernard Shaw tinha razão mataram ele porque ninguém conseguia suportar sua presença encardidinha, perguntadeira, petulante e impertinente, devia ter mau hálito, Alcibíades precisa ser desagravado e viva Xantipa, grande mártir Xantipa. E, quanto a Freud, deixou essa herança desarvorada de falantes nebulosos e nervosos, que praticam seitas obscuras e dedicam as vidas à infelicidade palavrosa. Nunca provaram efetivamente nada e nunca geraram nada de aproveitável além de uns dois filmes de Woody Allen, mas estão aí para ficar, sempre estarão, como as cartomantes e videntes e conselheiros sentimentais. Ouvido de aluguel sempre teve um grande mercado, a Igreja tem sacadas geniais, vamos reconhecer, a confissão auricular foi uma delas. Freud não chegou a substituir isso, nunca será suficiente e, além do mais, não se pode perdoar o progenitor do maior acúmulo de asnices labirínticas jamais despejado sobre a Humanidade e de bichas francesas que não entendem o que elas próprias escrevem e de alemães que acham que, pelo fato de terem palavras para designar condições, atos e situações que os outros não têm, entendem mais dessas coisas, um perfeito non sequitur, nada a ver o cu com as calças, alemão só entende de alemão, Weltschmerz é a puta que pariu Gocthe, com quem, aliás, eu simpatizo, era um fodelão e morreu um velho safado, como devem ser todos os velhos, em vez de engolirem calados os papéis que os mais jovens, não se contentando em ser mais jovens, lhes impõem. Nada de conferência, que coisa, é incontrolável. Se eu fosse professora, seria linchada pelos alunos. Evidente que não retiro nada do que acabo de dizer, mas o objetivo que escolhi, depois de muito pensar, foi dar um depoimento pornográfico e provocar e espicaçar e encorajar e reassegurar homens e mulheres enfurnados em suas cascas de caracóis. Portanto, não tenho nada que ficar falando nisso, quero mostrar e argumentar, mas tudo num contexto pornográfico, quero ditar por-no-gra-fi-a, me agrada muito, quando eu consigo.

Minto, dizia eu. Minto quanto a Marina, minha aeromoça, que faço parecer a melhor transa de minha vida depois de Rodolfo, mas não é nada disso, não existe essa transa. Não existe a foda, só existem fodas. Minto, mente-se, eu minto, tu mentes, ele mente, nós mentimos, vós mentis, eles mentem.

Sempre tive problemas com a mentira, mas também sou mentirosa, não há como escapar, all the world etc. Quantas mentiras, embora a maior parte, felizmente, apenas interpretativa, já não contei aqui e vou continuar a contar? Vão à merda, vocês todos mentirosos, mentirosos, a esmagadora maioria hipócrita e santarrona. Viva nós, os mentirosos à força, os conscientes. O Cristo não soube dizer o que era a verdade diante do Império Romano porque Ele próprio teve que mentir desde que aprendeu a falar. Não há como Ele não haver mentido, a não ser que vivesse isolado e sem falar desde o berço. Do contrário, nem teria chegado à idade da razão, quanto mais aos 33 que dizem que Ele viveu, querendo nos ensinar uma maneira de ser impossível de assumir. A quem tem, será dado; de quem não tem, será tirado! Expulsai os vendilhões do templo a chibatadas, oferecei a outra face para a bofetada! Crescei e multipli- cai-vos, disse Javé, porém não fodais. Todo mundo sabe de gente que se castrou e muitos outros que passaram as vidas como se seus órgãos sexuais houvessem sido criados apenas para levá-los à tentação e ao inferno. Então é tudo uma permanente contradição, e todos são obrigados a mentir, tanto assim que, no diálogo geral, todo mundo sabe o que é mentira, mas definir com precisão é difícil, senão impossível.

Portanto, era mentira que os tempos de Porto Seguro não tenham rival. E a vida não é um campeonato de futebol, em que a gente fica procurando o melhor, cada instante é um, comparar é impossível. Na verdade, minha vida tem apenas um denominador comum, que é o fato de eu tê-la dedicado basicamente à satisfação saudável de minha luxúria. Tenho orgulho, grande orgulho disso, como já devo ter deixado transparecer. Tudo em escala grandiosa assume grandiosidade. Creio firmemente que é o meu caso, não consigo vê-lo de outra forma, senão com orgulho. Agradeço muito a Deus, por Ele me ter dado a força, a determinação, a inteligência e a coragem para levar adiante o dom que recebi de nascença, digo isto com devoção, os burros não acreditam, os inteligentes vêem logo que é verdade. Eu nasci com um dom que Deus me deu e honrei esse dom, diferente de muitos outros, talvez quase todos. Ele fez a parte d.Ele, e eu fiz a minha, como ordena o Livro. Então eu tenho esse denominador comum, que é muito forte, muito singular, até porque, se a maioria das pessoas é mesmo como eu, a imensa maioria dessa maioria nunca conseguiu fazer nem um milésimo do que eu fiz. Não, não há como comparar nada, todo tempo tem sua individualidade. Como este, que estou vivendo. Talvez, muitos anos atrás, se eu pudesse antevê-lo, achasse que viria a ser o melhor da minha vida. Talvez agora mesmo eu possa dizer isso, de fato achei uma solução irretocável para os problemas que uma pessoa sozinha, na minha idade, costuma encontrar. E então, na medida em que se pode dizer isto, eu sou feliz. Mas não esqueço que dinheiro ajuda muito, é mesmo indispensável como suporte e ferramenta, mas o mais importante é a imaginação. Curvemonos aos tempos e usemos suas palavras.

Criatividade, palavra horrenda -- por que não pudemos preservar "invenção", com as belas conotações que ela tinha, "engenho", tantas palavras boas mofando por burrice e colonização. Mas não adianta reclamar. Então digamos: criatividade e grana confortável facilitam muito. No meu caso, uma não funcionaria sem a outra, e estou muito satisfeita.

Minha solução também dependeu um pouco de sorte, se bem que, se ela não tivesse aparecido, eu a encontraria por outro caminho.

Equacione isto. Eu, bem de vida, morando bem, vestindo bem, tudo muito bem, velha bonitona, gostosa e devassa, não querendo mais amantes fixos que me encham o saco -- e é muito difícil achar um que acabe não enchendo -- e vivendo na grande cidade do Rio de Janeiro, que é que eu faço, quando estou com vontade de uma transazinha expedita? Pego o jornal, acho um anúncio qualquer, telefono, encomendo um rapaz, uma moça, um rapaz e uma moça, qualquer combinação, tudo especificado, pago até com cartão de crédito. Nenhum problema, certo? Errado. Todo dia a gente lê no mesmo jornal a história de um veado velho e só, assaltado e assassinado por um garoto de programa, ou equivalente. Nunca, o veado velho e eu estamos na mesma situação básica. Uma boa paranóia, como eu acho que já lembrei, tem o seu lugar. Eu estava procurando uma solução, e aí ela caiu no meu colo. A maçã de Newton, serendipity. Eu tinha sido convidada para sair com um casal amigo meu, também baiano, mas morando aqui acho que até há mais tempo do que eu, e não queria ir, eles são meio chatinhos.

Essas pessoas de que a gente gosta genuinamente, mas cuja convivência é soporífera, todo mundo se dá com gente assim, é como o chato a favor, todo mundo tem pelo menos um chato a favor, que a gente não pode mandar ir se catar porque é bonzinho e é a favor, faz tudo pela gente. Mas é chato e às vezes fica difícil de suportar. Aí eu não ia mesmo, mas, um dia depois de haver decidido isso, me surpreendi morta de tesão e sozinha em casa, repentinamente desprevenida e pensando sacanagem com tanta intensidade que ia acabar fazendo uma besteira, pegar alguém no supermercado 24 horas, qualquer coisa assim, eu me conheço, já fiz isso, é porque eu de fato dou muita sorte, meu anjo-da-guarda é ótimo, como se diz. E aí, meio de última hora, telefonei para eles e fui com eles ao Canecão e foi lá que encontrei outro casal, esse jovem. Um sobrinho deles e a namorada, uma garota muito simpática e bonitinha, com umas pernas e uma bunda provocantes e uns peitinhos engraçadinhos, que ela deixava ver de vez em quando, com muito charme. Eu parecia que tinha cheirado uma fileira, de tão ligadona em sexo que estava, e a sem-vergonha encostou o joelho no meu por baixo da mesa assim que as luzes se apagaram e ficamos numa bolinação sonsa o tempo todo. Eu não aguentava mais, minha vontade era arrancá-la dali na hora e levá-la para casa e comê-la toda minuciosamente, mas tive de me conter e, por via das dúvidas, sondei o rapaz, afinal podia vir a ser necessário pô-lo na transa também. Quando tive de prestar atenção nele, vi que não era feio, tinha uma boa cara e talvez ficasse inibido na companhia de uma mulher infinitamente mais escolada do que ele, que devia lhe pôr chifres escrotos rotineiramente. Sim, não era feio, era até bonito, e Algo me disse de estalo que ali tinha ouro. Thars gold in them thar hills! Curiosíssimo, é como o momento em que a gente adormece, não se pode lembrá-lo. A gente está na cama e cai no sono, não se dá conta da passagem pela fronteira, foi isso o que aconteceu com ele. Bateu-se-me cá o borbulhar do gênio, troquei de marcha como um piloto de Fórmula-1 e baixei a mão no pau dele. Baixei mesmo, nem pensei, fosse o que Deus quisesse. E, menino, a reação foi instantânea, parecia que eu tinha acordado um urso hibernado.

Uma massinha antes murcha e informe desabrolhou como uma pipoca, e eu, enquanto o ídalo no palco sincronizava requebros vis com acordes igualmente desagradáveis, cerrei meus dedos no belo pau que já adivinhava em minha boca.

Encurtemos, ars longa, vita brevis, viva o grande Quintus Horatius Flavius, viva Roma. Eu... Não! Não vou falar sobre Horácio, não vou fazer outra conferência, silêncio! Oh vós, sombras soturnas das eras... Speak, by heaven, I charge thee, speak! Sim, os fantasmas devem falar, eu é que não devo falar agora. Falai, fantasmas. Fala o fantasma: na calada daquela noite de janeiro, em que na saída trovejava e chovia e relâmpagos arrojavam lampejos infernais sobre as almas inquietas que adejam acima do cemitério de São João Batista... Fala, fantasma, estamos atentos; não hesite, fantasma, de que pode ter medo um fantasma? Fala o fantasma, com sua voz reverberante. Ooooh, sim, naquela noite mesma comi os dois, comi os dois muito tempo, comi diversas outras vezes, gostei dele e terminei constatando que ela era um equívoco enfeitado, e me aliviei quando a família se mudou com ela para a Holanda, terra do pai dela, e nunca mais a vimos.

Quanto a ele, Paulo Henrique, pode me chamar de Pigmaliona. Fui eu que o esculpi e fui eu quem pediu a Afrodite para que ele fosse exatamente o que eu queria, e Afrodite me atendeu, me deu meu Galateo. Eu creio que posso me considerar sacerdotisa de Afrodite, tenho prestígio com ela, um dia desses, se a doença não explodir em minha cabeça, como dizem que vai explodir, escrevo a biografia dela, sou conhecedora íntima.

Paulo Henrique. Ignorantíssimo, mas inteligentíssimo, até para perceber encantadoramente que é ignorante e usar essa condição como adorno. Riso fácil, jovialidade, vivacidade, alegria e, principalmente, talento, sensibilidade e aplicação. Quando o peguei, peguei uma forcinha da Natureza, um espírito silvestre, um exuzinho inocente e sôfrego, dentro de um homem alto, musculoso mas macio e todo bem-feito, todo como se tivesse sido projetado por um designer milanês como obra aberta, de leitura dependente de quem a encontrasse. E igual a um programa de computador, desses que você configura para sempre, porque armazena tudo em arquivos arcanos, que nunca ninguém abre e são obra obscura de algum programador que chega de bermuda a sua toca na Microsoft e aí passa o tempo todo feliz porque foi o autor do subprograma responsável pelo desabrochar de um iconezinho no canto da status line, esta é a obra dele, ele não pode ver aquele iconezinho sem dizer Parla! Era pedra-sabão, era a minha matéria-prima, tão bem moldável. E eu configurei ele, um programazinho de cada vez. E, de súbito, ao abrir os meus arquivos executáveis um belo dia, lá está Paulo Henrique, Deus seja louvado. Ele também leva a sério seu dom, me adora porque eu o ajudei a compreender como esse tipo de coisa funciona.

Assumiu, virou meu executivo sexual, de uma forma antes insuspeitável. É realmente fantástico o que aconteceu, chega a parecer invenção, mas não é, é verdade, a vida é que parece invenção, a invenção é que tem que parecer verdadeira.

Creio que, entre outros benefícios que a publicação deste depoimento com certeza trará -- e eu quero que traga e fico feliz com isso, gosto de ajudar o semelhante --, está também um serviço público que agora estou prestando. Vou contar o esquema que armei e que considero muito bem bolado. É um pouco elitista, ou bastante elitista, mas pode até ser adaptado a circunstâncias bem mais modestas. A primeira coisa que eu fiz foi criar uma firma, uma sociedade civil. Peguei o mesmo casal chato através do qual conheci Paulo Henrique e botei os dois como sócios somente para constar -- eles nem perguntaram nada, assinaram logo, são grandes chatos a favor, e criei a firma. Em seguida, tirei Paulo Henrique do emprego na gerência de um posto de gasolina da Barra, onde ele ganhava uma merreca, e a firma alugou um quarto-e-sala bonitinho no Leblon, onde eu botei ele, porque não suporto a Barra, e a única hipótese de eu ir lá é se me levarem de ambulância ou camburão, tenho horror só de pensar, para mim os separatistas têm razão, eles devem mesmo bloquear aquela merda e continuar pastando em paz nos seus shoppings, que horror. Contratei ele como funcionário da firma e pago um bom salário. Não extraordinário, para não acostumar mal, mas o suficiente para que ele possa comprar as roupinhas dele, os CDs e outras coisas de que ele gosta, além de possibilitar que ele saia com as gatinhas dele sem muita preocupação de dinheiro, quero que ele tenha uma vida normal, e Deus nos livre de enchermos os sacos um do outro, isso é inadmissível. E, finalmente, a parte básica, eis que já vivi o suficiente para saber que seguro morreu de velho e confiar desconfiando é um lema sapientíssimo. Fiz um baita seguro de vida para ele, em dólar, e dei a apólice a ele. E, evidentemente, ele só recebe o seguro se eu morrer de causas naturais. Se houver qualquer dúvida fundamentada quanto à minha causa mortis, ele não recebe um tostão, pode ser até acidente de carro ou avião, para não falar no óbvio, que é assassinato. Expliquei a ele tudo direitinho, ele compreendeu e hoje tem uma preocupação enorme com minha segurança. Se eu quero encontrar alguém que não conheço muito bem, muitas vezes uso o apartamento dele. E ele geralmente está aqui em casa quando recebo alguém, discreto, mas visível.

Gosto de crer que ele seria tão atencioso assim mesmo que eu não fizesse o seguro, mas não vem ao caso, indagação acadêmica. O fato é que tudo funciona maravilhosamente bem, ele ficou perfeito na cama e nunca nega serviço de qualquer tipo, arruma namoradas para a gente transar juntos, arruma homens, é um esquema primoroso, estou muitíssimo bem servida, tão sem problemas que parece sonho. Agora ele está querendo casar. Não sou propriamente contra, mas também não sou a favor, não vejo para que ele precisa casar. E sou insuspeita para falar, porque a menina é ótima, sem problemas, cuca fresca, como se diz. Se a gente está a fim, a gente transa, e ela, apesar de estar apaixonada por ele, diz que também é apaixonada por mim, tudo sem grilo. Mas é que eu não sei... Bom, não vou pensar nisso, não adianta. E não quero dar a entender que tenho ciúme. Achar isso, a esta altura de uma vida como a minha, é uma ofensa grave, mas as pessoas tiram conclusões, geralmente baseadas em sua própria maneira de ser, e isso me irrita, ficaria com vontade de dar porrada em quem dissesse que eu estou com ciúme. E, veja você, também sou apaixonada por Paulo Henrique, mas minha paixão não é doente, como costuma acontecer. Já nasci assim e me aperfeiçoei conscientemente Nunca me deixei engabelar por essas baboseiras que nos impingem como fazendo parte da natureza humana. Não se pode estar apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo, meu Deus, quanta gente morreu e morre todos os dias por causa desse dogma babaca, que é tão arraigado que a pessoa, homem e, principalmente, mulher, que está ou é apaixonada por dois ou três entra em conflitos cavernosíssimos, se remói de culpa, se acha um degenerado, não confessa o que sente nem às paredes, impõe-se falsíssimos dilemas, se tortura, é uma situação infernal e cancerígena, todo mundo lutando estupidamente para ser quixotes e dulcinéas. É o atraso, o atraso! Em tese, somos capazes de nos apaixonar por tantas pessoas quantas sejamos capazes de lembrar, o limite é este, não um ou dois, ou três, ou quatro, ou cinco, ou dezessete, todos esses números são arbitrários, tirânicos e opressores. Tá lá o meu fichário apaixonativo, com o perfil do que eu acho atraente, que é bastante vasto. Entrou novo contato, perfil aprovado, eu posso me apaixonar por ele. Hoje eu estou altamente informática. A superstição perniciosa generalizada é que é preciso deletar o anterior, para aceitar o novo. Que pobreza, que pobreza, que pobreza, que atraso! Se a memória aceita, se o perfil confere, se a senha foi dada, roda os dois programas ao mesmo tempo, roda os três, roda os vinte, porra! Minimiza um, roda embaixo o outro, exporta um arquivo pra lá, outro pra cá, a informática é muito educativa, para que os débeis mentais que tanto pontificam e nos abalam com suas besteiras compreendam que os processos mentais que consideram sublimes e prova da existência de Deus são meras linhazinhas de comando de rotina no DOS do cérebro, o buraco é abissalmentissimamente mais embaixo. Claro que a paixão nova, no primeiro momento, mobiliza muito o apaixonado, que tende a ficar cego para os outros arquivos e aí, na maior parte das vezes, o entulho burro começa a aporrinhar, o camarada foi treinado para não achar aquilo certo, tem que deletar o arquivo em uso, não sei o quê. A analogia informática continua certeira, é como um programa novo, um brinquedo novo. Mas depois a gente abre o arquivo mais antigo, é bom, reaviva, estimula, meu Deus, por que erigimos empecilhos absurdos e destrutivos da beleza da Criação, os arquivos podem conviver na maior paz; clica, ele abre, tudo pronto para o deleite de todos e o cumprimento cioso quão alegre da sina! O limite é a memória! E quantos gugóis de bytes não temos na memória? Nunca vamos usar nem um zilionésimo, por mais que vivamos e abertos sejamos. Por conseguinte, minhas paixões não são doentes, convivem perfeitamente bem e é por isso que não morrem como as outras, só morrem quando eu deixo de regar, porque resolvi deixar de regar. Mas as pessoas se sentem obrigadas a deixar de regar, é uma merda, esculhamba tudo, cancerígeno, cancerígeno. Sou apaixonada por meu irmão Rodolfo, sempre serei, apaixonada pela minha aeromoça, apaixonada por Fernando, apaixonada por Paulo Henrique e Tânia, a moça com quem ele quer casar, por todo mundo por quem me interessa apaixonar-me, pois meu manejo da paixão me dá grande liberdade, eu posso botar o tempero da paixão em qualquer transa, sem culpa, sem apreensões ridículas. E todo mundo que sofre e vai ter câncer por isso pode fazer como eu, que desperdício, meu Deus, que genocídio. Tatatá, ta-ta-tá. Não se pode amar duas pessoas ao mesmo tempo, bah-bah-bah, duh-duh-duh-duh. Corolários múltiplos, és um filho da puta se pensas o contrário, mesmo que saibas que o contrário é a verdade que vive no peito e na cabeça. A paixão é simplesmente a tesão formatada, será que jamais isto será compreendido, será que ficaremos sempre algemados com a chave na mão? Meu Deus, dai força a vossos mártires, ao penosíssimo testemunho de nossa fé e à perseverança no exercício de nossa inteligência.

A formação dele foi impressionante. Magnífico aluno, professora genial. Como já contei, peguei matéria bruta. Ele não sabia trepar, não tinha compreendido nem aspectos relativamente elementares, tais como a desnecessidade de ficar agindo como se o pau fosse um pistão com arritmia e caprichando em estocadas, quando todo bom homem sabe que, no ramerrão satisfatório, basta ele se encaixar e ficar indo e vindo em movimentos suaves, quase imperceptíveis, quase como o amortecedor de um Rolls-Royce; estocada tem seu lugar, mas como efeito especial, como componente de um determinado cenário, como um solo de jazz improvisado, nada de prática habitual. E ele tinha ejaculação prematura, que ataquei logo com Masters e Johnson, funciona. Novo serviço público, redivulgação de uma técnica inexplicavelmente esquecida.

O candidato se desmancha em ejaculações assim que penetra. No começo, tudo bem, mas depois enche o saco. Que fazer, se o candidato vale o esforço? Consultem o Masters e Johnson para maiores detalhes, mas o básico eu posso transmitir. Criem um clima de sacanagem. Clima criado, fiquem nus. Ficados nus, toque uma punheta nele e peça que lhe avise, na hora em que estiver prestes a gozar, ou seja, daí a quatro segundos. Quando ele avisar, pare a punheta imediatamente e aperte o pau dele pela base. Funciona, é difícil de acreditar, mas funciona, nem requer muito know-how. Paulo Henrique reagiu belamente ao tratamento, hoje goza na hora em que quer. Eu digo "goze!", e ele goza, é perfeito, ele agora se sente muito mais seguro, com muito mais poder, que maravilha uma bela esporrada, nisso eu tenho um tantinho de inveja dos homens, que riqueza simbólica insuportável há numa esporrada, como o homem pode explorar bem isso para o seu deleite, como as mulheres gostam, como é bom saber que se está sendo magicamente irrigada, que coisa mais lindamente atávica, é bom ser bicho. Para mim, sem esperma derramado, não existe sexo com homem, a camisinha é uma castração fundíssima, é uma privação cruel para as mulheres.

Mas evidente que a moldagem não ficou nisso, foi total. Ele era um homem completo e não sabia, certamente nunca viria a saber, se não me conhecesse. Ele hoje curte tudo o que eu curto, aprendeu com rapidez e entusiasmo. Só tinha tido, por exemplo, umas experiências homossexuais na infância, cuja memória aprendeu a reprimir e, na adolescência, tinha comido umas três vezes um médico que lhe deu dinheiro, fato que ele só me contou depois de muita conversa persuasória. Usei a mesma técnica consagrada que eu e muitas outras mulheres, muitas mulheres mesmo -- ah, se eu tivesse estatísticas, que sustos não tomaríamos --, usamos, e que já descrevi. É só livrá-lo, com paciência e compreensão, da insegurança em permitir que acordemos nele sentimentos já tão represadinhos que parecem mortos. Decepcionar-se com ele, com moderação, discrição mal-disfarçada, uma trombinha ou uma palavrinha eventual ou outra, porque ele acha ótimo que você transe com outra mulher, mas não admite para ele nenhuma forma de relacionamento com outro homem, seja moço, seja velho, seja dando, seja comendo, seja apenas pegando. Portanto, considera você inferior, mas na verdade você deixa claro que o inferior é ele. Enfim, vão se dando os reforços e sanções certos, tipo Skinner mesmo, até que um dia pinta. Se não pintar, é porque ele não vale a pena, a não ser que se queira continuar a ser fiel a um bestalhão impenitente, muito aquém da gente em versatilidade e sensibilidade. Enfim, um sensaborão limitado, destituído de verdadeiro atrativo. Mas isso é comparativamente raro, soube de muito poucos fracassos nessa área. Quando ele sente que a mulher é sincera, ele embarca. E a adesão de uma boa amiga, que ele queira comer ou cuja opinião ele respeite, é fácil de obter e às vezes é a espoleta. Eu mesma, há séculos, já dizia coisas como "nós duas tínhamos muita vontade de trepar com você, mas agora, que você se revelou esse homenzinho, perdemos a vontade", ganhei muitos assim, ou mais ou menos assim. "Quer dizer que, no fundo, você se considera superior a Fernando, porque ele pegou no seu pau sem exigir reciprocidade, e você quer que a gente ache você gostoso por isso, quando é revoltantemente o contrário?" E eu dizia isso com sinceridade mesmo, não mantenho a tesão em homem que não faz pelo menos tudo o que eu faço, chega de caretice, a vida é curta. Só tem é que cumprir. Se você diz uma coisa dessas e ele adere e você não lhe dá logo recompensas e reforços generosos, é uma sacanagem, tem de atentar nisso no começo, tem que ajudar os pobres nos primeiros passos, depois eles pegam embalagem. Para muitos é difícil, é preciso dar muito apoio. Mas, quando ele adquire certeza de que as mulheres em torno estão é a fim de sacanagem e não de ficar julgando que ele é isso ou aquilo porque transa com homem, antes muito pelo contrário, ele embarca e é muito mais feliz, e as mulheres muito mais felizes.

As mulheres transmitem sinceridade nessas ocasiões porque estão de fato sendo sinceras e às vezes até ficam ansiosas, descobrem que precisam de uma coisa da qual antes não tinham plena consciência, descobrem que foi metido na cabeça delas, por interessados, que, por alguma razão explicável, transa entre duas mulheres é "mais bonitinho". Pode ser para muitos, mas para outros tantos não é. Para os normais é tanto quanto, embora diferentes, ambas estética e sexualmente curtíveis. Por que é bonito uma mulher transando com outra e nunca um homem transando com outro? All in the eye of the beholder, tudo está no olho de quem vê, é claríssimo, e fizeram os olhos dela e aí um belo dia dá-se que ela descobre que adoraria ver o homem dela penetrando outro homem, preferivelmente um homem que ela também pudesse ter, ou não, ou vice-versa, ou vice do vice da versa do verso da vice, cada uma é uma coisa, viva a diversidade biológica e cultural.

Sejam sinceras, pensem nisso sem filtros babacas, olhem umas fotos de homens machos se enrabando e se chupando, claro que é um barato a que vocês têm direito, principalmente aquelas fotos em que está com pinta de veado clássico mas simplesmente um homem enraba o outro de frente, um de pernas para cima e o outro, ao meter fundo, obrigado a roçar a barriga no pau do que está sendo enrabado, ambos se olhando ou de olhos fechados, é lindo, mentira de quem diz que não é lindo, senso estético distorcido e atrofiado, assim como os veados do tipo de Father Bill, que se imunizaram contra a beleza de uma xoxota. Por que há tanto mercado para essas fotos, muito mais do que o mercado gay reconhecido? Por que que há tantos prostitutos, cada vez mais? Porque as pessoas estão podendo ter cada vez acesso mais fácil e daí a pouco, se houver progresso, vão parar com intermediários e agir diretamente, nada de arriscar ser assaltado na rua, levar um amigo para casa e se comerem os dois, a mulher participando ou não, mas provavelmente sim, eis que ninguém é de ferro e deve ser assim, porque dificulta a ação dos entulhos neolíticos. Se você for olhar, a maioria dos veados superiores continua veada, mas fez ou faz filhos, não tem medo de xoxota, só prefere outra coisa, podendo escolher. Perfeito, única atitude sadia, entre veados e sapatonas superiores. Entre homens e mulheres superiores, é a norma. Muitos veados e sapatonas que eu conheço não tiveram filhos por relaxamento, não por ojeriza.

Foram adiando, adiando e aí ficou tarde e também não era uma coisa imperiosa, como não é entre muitos dos chamados héteros puros -- espécie esquisitíssima, quanto mais eu penso, mais eu acho que não existem, são unicórnios. Agora resumo minha tese explicitamente. Claro que não estou dizendo novidade nenhuma, nada do que se diz é novidade, especialmente isto, muita gente já disse isto, sou apenas uma vulgarizadora veemente.

Heterossexualismo exclusivo, limitação. Homossexualismo exclusivo, limitação. Bissexualismo, normal, tanto assim que na infância desperta em todos e todas, sem exceção. Pansexualismo, o futuro, se até não acabarmos como espécie, por força de vícios de origem que só fizemos piorar e jogarmos fora a chance de universalizar a força agregadora do amor. Não duvido nada que um físico quântico, desses que ficam malucos porque não sabem explicar com os termos deles aquilo que não dá para explicar com os termos deles, ou sequer explicar, venha a adicionar, se não já adicionou, o conceito de amor romântico à física das partículas, não adicionaram sabor, cor, não sei o quê? A exclusividade -- os exclusivos inteligentes e sensíveis sabem disso, e os que não saem dessa situação deprimente é porque não encontraram ajuda -- é no mínimo medíocre e espoliativa. A mesma técnica de despertar a consciência deve ser aplicada nos casos, bem menos fáceis de achar, em que a mulher resiste seriamente à idéia de ir para a cama com outra mulher, nesse ponto as mulheres se beneficiaram do machismo que mitificou as transas entre mulheres e lhes conferiu um status estético fajuto, muito superior ao do homossexualismo masculino. Tanto isso não é natural que durante muito tempo acontecia o contrário, acontecia na Grécia, acontecia em Roma, antinatural uma conversa, em empulhação conciliar, broxura calvinista, veadagem anglicana enrustida, tudo isso e o resto que conhecemos. As mulheres, mesmo as mais quadradinhas, há muito tempo se livraram das culpas por haverem transado com amiguinhas na infância, nem lembram, a sociedade faliforme não dá a menor importância a essas coisas, não são nem transgressões interessantes.

Nada disso, na verdade; foi apenas outra conferência, elas me pegam desprevenida. Eu apenas queria mostrar como arrumei esse esquema invejável com Paulo Henrique e como fiz dele um homem completo. Já tinha contribuído para muitos casos desses, continuo a contribuir, até com a ajuda dele, mas ele foi total, foi realmente uma escultura. Não tive um filho, mas tive algo de mais meu, duvido que alguém pudesse ter feito de um filho o que fiz dele, nunca. Já era obra para encerrar minha vida. Mas, felizmente, minha vida não se ciscunscreveu a isso, foi dedicada mesmo a uma missão, e eu levei essa missão a conseqüências possíveis e impossíveis, com uma dedicação que nunca esmoreceu.

Eu fiz o bem a muita gente, muita gente, e cheguei ao ponto de dizer isto sem orgulho, apenas com contentamento. Eu já falei muito em Deus aqui, fica difícil dizer que alguém acredita tanto em Deus e fala tanto em sacanagem. Minha resposta é como se eu dissesse: "Desculpe, assim não dá para conversar." Eu serei então a voz de Satanás, sem dúvida. Mas, não, lamento dizer-lhes; lamento mesmo, porque sei que isto vai fazer muitos sofrerem mais do que no inferno, mas eu sou a voz de Deus. Não só porque a voz da luz e da inteligência é a voz de Deus, mas porque sou mesmo a voz de Deus. Não sou profeta, muito menos o Messias, mas sou a voz d.Ele como na teofania do livro de Jó -- onde estáveis, quando Ele criou as fêmeas e os machos e lhes deu cada centelha de desejo cego um pelo outro e lhes deu como misturar-se livremente uns com os outros? Onde estáveis, quando Ele criou todos os mistérios que levam ao Desejo e à tesão e tornam sublimes os abraços? Onde estáveis, quando Ele criou as ânsias imortais que agora forcejais por sacrilegamente abafar e matar? Onde estais, depois que Ele vos deu o poder do prazer inocente e agora cuspis nesse poder e pretendeis que vossas palavras valham mais que as d.ele? Eu não sou a voz de Satanás, Satanás odeia a Luxúria, não é invenção dele, assim como a Bondade. Tanto uma quanto a outra, Satanás usa solertemente para seus fins malévolos. Eu sou a voz de Deus, sou uma das vozes de Deus, e não estou maluca. Ou por outra, posso estar como qualquer um pode estar, o que faz com que a palavra perca o sentido. Seria o caso de perguntar que religião estranha é esta, que eu professo. Eu mesma não sei. Professar, professar mesmo, acho que não professo nenhuma, detesto religião organizada, qualquer que seja ela.

Agora estão organizando até candomblé, é uma praga, a religião mais lindamente desorganizada do mundo e agora eles querem cobri-la de regras. Já li o Livro dos espíritos, achei que ia achar um bestialógico, mas não achei nada disso, pelo contrário, gostei muito, mas também não sou propriamente espírita e acredito que deixaria um bom espírita chocado, se dissesse a ele que a principal razão por que quero reencarnar é que na outra encarnação eu planejo comer quem por bobeira deixei de comer nesta. Também penso nisso, quando vejo ali meus Budas. Não deixa de ser verdade, embora talvez não seja a principal razão. Não há a principal razão, na realidade eu não quero reencarnar, acho essa obrigação um saco. Não, eu não queria reencarnação, acho que, não posso compreender como, continuo católica, do jeito que fui criada. E você veja, sempre honrei Seu Santo Nome, embora nunca tenha aceito o magistério da Igreja. E nunca blasfemei, jamais saiu de minha boca uma blasfêmia, uma queixa contra Ele, só louvor. Minha doença mesmo, minha doença, antes que ela me acabe e ninguém saiba o que fui. É um aneurisma no meio do cérebro, inoperável. Sempre esteve ai, só soube faz algum tempo.

No começo, me assustei, mas não levei dois dias assustada, achei que será uma boa morte, provavelmente rápida. Já deixei instruções para doarem o que puder ser doado e tocarem fogo no resto e socarem as cinzas onde quiserem.

Mas não era uma boa razão para eu me maldizer e blasfemar? Ser avisada de que, a qualquer dia, a qualquer hora, dormindo ou acordada, minha cabeça pode explodir em sangue? Claro que não, morre-se de algum jeito, e considero o meu bom. Não seria tão bom se eu seguisse as prescrições, mas eu não dou a menor importância a quase nenhuma delas, ajo como sempre agi minha vida toda.

Blasfemo nada, até agradeço. Faço tudo que me dá na cabeça, não quero saber de limitações. Eu não pequei contra a luxúria. Quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer. E eu fiz o que Ele me criou para fazer. Não quero entender nada. Quero acreditar, mas não posso ter certeza, não se pode ter certeza de nada, que Deus me terá em Sua Glória e sei que Ele agora está rindo.

Fonte: livrosparatodos.net

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