Parecia que encontrava dificuldade em parar de falar e de 9,0 r-nexer. Como não havia nada para fazer, sentava-se e levantwyç, se, ajeitava uma gaiola de passarinho, sentava outra vez, retor.
nava à gaiola, espanava a casaca com as pontas dos dedos e gg movimentava sem cessar, enquanto rememorava em voz ntj$4 alta os tempos melhores que tinha vivido, os tempos do respeb, e da severidade.
Budião, tonto e às vezes desfalecendo para acordar com ombros e braços em fogo, já não sentia as pernas havi já não movia os olhos e a cabeça com facilidade, já n preendia direito o que lhe falavam, já nem mesmo sent dor, a não ser na cabeça, que parecia estar sendo repu todos os lados por garras amoladas. Não viu quando Joaquim sumiu do corredor para onde davam as e foi abrir a porta da frente, para deixar entrar o filo, os três soldados que fizeram a prisão e o chefe o camento, Cabo Lourenço Frota.
- Está morto? - perguntou Cabo Lourenço diante de dião, depois que Manoel Joaquim abriu a cela para que entr - Morto nada, Seu Cabo. Isso tá é fingindo.
0 Cabo não se convenceu, levantou uma das pálpebras Budião, que estavam fechadas, deu-lhe dois tapas no rosto, pontapé de leve na canela.
- Não se mexe. Há quanto tempo ele está aí? - Desde que chegou. Mas tem comido. A torrente do b é calculada para ele poder segurar o prato e comer, eu me calç:ulei. Ontem comeu feijão com pé de porco, comeu tu Hoje foi que ainda não comeu, também ainda é cedo. Hoje, eu..~l, - Solte ele, desamarre.
- Não é melhor chamar os milicianos, não? É um forte, pode ter alguma reação.
- Solta, homem, está se vendo que ele está fraco. Tern aí, alguma bebida forte? - Café? Quisera eu ter café, há quanto tempo que não café! Que pensa Vossa Senhoria, com a meia pataca que i le por dia, quando me dão, esperam que me trate a pão-il~e-lá, dê aos presos café, que hoje custa uma fortuna? 356 ~,1 - - Cala a boca, velho, solta o preto! Sentaram Budião numa cadeira de espaldar largo e espigado.
C-,,rno ele deslizava no assento, tiveram que suspendê-lo e prendê- 1,) zts costas da cadeira quase pelos sovacos. 0 cabo ordenou que Manoel Joaquim fizesse uma salmoura de ágtia fria do se- reno e a derramasse sobre a cabeça do preto, molhando-o todo.
Depois, mandou que trouxessem cachaça, apertou as bochechas de Budião.até que ele abriu os lábios, despejou meio copo lá dentro, fechou-lhe a boca com um safanão no queixo. Budião estremeceu.
- Está vivo - disse o cabo. - Anda lá, negro, que tens a dizer?
Pues entonces - disse Budião. - Bamos a sacarlos todos de ajá.
Que foi que ele falou? Uma espécie de língua africana. Ele não é ladino? En marche-marchel - disse Budião levantando o pescoço, e o cabo lhe deu uma bofetada.
Escuta aqui, negro ousado, eu sei que tu é ladino, que tu fala perfeitamente língua de gente, procura te assuntar, não 1 vem com presepada, que te quebro todo! Budião abriu os olhos, deu com o Capitão Teófilo, quase sorriu.
Capitão Teófilo! - falou. - Senhor Capitán Teófilo, que beo? Bolbi de Ia Guerra Farropija, Capitán! Lebamos el Co- mandante Bento Gonçalbes como nós ordenó e] Capitán Teófilo! E a Probíncia ...
0 Capitão Teófilo empalideceu.
- Que guerra é essa? - perguntou o cabo. - Ele não fa- lou numa guerra? - Deve ser delírio, não sei que guerra é essa, não sei quem é esse comandante.
- Eu sei, o Comandante Bento Gonçalves, esteve aqui preso no Forte de São Marcelo, um galego safado, sedicioso, eu es- tava na guarnição do Forte quando ele fugiu, faz mais de uns oito anos, mais do que isso.
357
358 i Não scí, não me lembro.
Ah, esse preto sabe de coisas. Mané Joaquim, cadê r,,apéis que ele apresentou? - 'l'ão na ,aveta, na gaveta lá de dentro, Tranquei tudo, que fico com medo dessa papelada. Aqui não vem ninguém, nil~,1 vem escrivão, não vem autoridade, fico eu com esses papéis mà saber o que fazer com eles. Vossa Senhoria não quer levar W dos logo, não? - Não, Manoel Joaquim, quero os papéis que ele andou apg#"~",~, 1 sentando aí. Vá buscar os papéis, pare de muita convers Capitão Teófilo começou a andar pela sala, com as m costas. 0 cabo acreditava que aquele seu preto fugid realmente de coisas importantes? - Com toda a certeza. Tenho para mim que é hoje q cobrimos como se deu essa tal fuga (lo galego.
Crê que falará? Isso depende. Mas, se o ponho ao garrote, ou fala termina por morrer. Isto, porém, depende de Vossa Excelên é preto seu.
0 capitão não respondeu logo, precisava ponderar muito que ia dizer, Se o escravo dele tinha informações importan el não podia, sem despertar suspeitas ou mesmo má vontade, de de permitir que o interrogassem pelos meios costumeiros.
também, se em vez de morrer falasse, não o incriminaria paravelmente? E ainda estava pensando no que fazer, qu Manoel Joaquim voltou com os papéis.
Deixa-me vê-los - apressou-se o capitão, para ant= se ao cabo. - Faustino, é isso mesmo. Faustino ...
Mas não pôde concluir, porque uma explosão violenta guida de duas menos fortes, pareceu abalar toda a Terra.
prateleira da cozinha desabou, a moringa de Manoei lo rolou pela mesa e caiu no chão espatifando-se, a porta do redor se abriu estrepitosamente, um bafo de ar morno c ai até eles. Lá fora, um rolo de fumaça preta, vindo da di da Fortaleza de São Lourenço, principiou a envolver as ai e os topos das casas.
- Jesus, Nossa Senhora! É a fortaleza! Está havendo levante! 1 1 Esqtteceram lá dentro Maiioel Joaquim e o preso, atiraram- s~.~ porta afora atropeladamente e, no meio da correria e da con- fttsão que já se formara, entre gritos de mulheres, choro de criançab e berreiro dos homens, viram que realmente a fumaça vinha da fortaleza, não só de suas próprias paredes, como de trás delas, dando a impressão de que o próprio mar estava em chamas.
A fortaleza arde! Fomos atacados! É um levante, é um levante da tropa! Passarão todos ao clavinote, é um levante! - Cabo Lourenço, o senhor tem que conter os amotinados! - Mulheres para as casas, mulheres para as casas, tranquem- ,;e nas casas e não abram a porta para ninguém! - A guarnição, onde está a guarnição? Às armas! Às armas! - Capitão Teófilo! A Guarda Nacional! A Guarda Nacional! - Em nome de Sua Majestade Imperial! Pela ordem, em nome de Sua Majestade! - lá disseram que não deixarão vivo nenhum que nao passe à causa deles e não lhes pague tributo! É o fio da espada para todos, ai meu Deus' - Os baldes! Acudam ao forte, acudam ao forte! Somente muitas horas depois é que se descobriu, entre re- criminações, mal-entendidos, desaforos e uma confusão que veio a durar meses, que não houvera motim, não houvera invasão, não houvera luta - não se sabia bem, aliás, o que houvera.
Ninguém estava na fortaleza àquela hora, a não ser o faxineiro Preto Máximo, varrendo as folhas da entrada. E Preto Máximo não tinha muito para contar.- havia ficado ainda mais surdo depois daqueles três baques que bufaram da parede norte e da- quela fumaceira que quase o mata; pareceu um barril de pól- vora papocando, um barril, mais dois barriletes, depois fumaça de breu com borra queimando; e, de repente, lá estava a água do mar em chamas, coisa que, felizmente, muitos outros também viram, para não o terem na conta de mentiroso, mesmo porque depois se descobriu que era óleo e alcatrão, a que atearam fogo depois de despejá-los na maré.
359
Alguns afirmaram também que, por trás do fogo, bem recor.
tado contra a Ilha dos Frades, fundeara um briguezinho as velas arvoradas, o qual zarpou como um corisco, aí uns tr& quartos de hora após as explosões. E se soube também que ' ao voltarem à cadeia, o capitão e o cabo não mais encontiraraa, Budião. Encontraram, abandonadas, as ferramentas que os m gatadores iam usar para soltá-lo das correntes, mas não prwj, saram. E encontraram também Manoel Joaquim, preso ao mes= lugar em que fora acorrentado Budião, só que uma das gri lhetas, em vez de passada no tornozelo, estava apertada em torno do pé do ovo rendido. Cego de dor e se maldizendo muito,~ Manuel Joaquim, para crença de alguns e descrença de outros,~, testemunhou que foram pelo menos cinco os que libertaram o preto. Entre eles havia uma mulher jovem, alta e fortíssima, a quem os outros chamavam de Maria da Fé.
Salvador da Bahia, 5 de abril de 1863.
Q ue susto! Entre as folhinhas de cidreira apanhadas pelo c dor de prata, uma estava embolada e empretecida, idênitic.,7 uma mosca morta. Amleto arrepiou-se. Antes de gritar en rizado, como já pretendia, resolveu examinar o objeto mais perto, apesar da repugnância que lhe causava e dos en 1 que teria se fosse realmente uma mosca. Levantou o coa(Eor direção da claridade da janela, apertou as lunetas no naria~ futucou a folhazinha com a ponta do cabo de uma co Desgraça, nem de óculos enxergava direito agora. Mas a t",,' tura era com certeza de mosca, era efetivamente uma in estava quase seguro.
- joviniana! joviniana! joviniana! Nega Juvi, o torso despencando, os olhos esbugalhados, avental torto, o corpo gordão parecendo mais largo que entrou aflita na sala. Conhecia a regra estabelecida pelo cou--, dador, segundo a qual a um negro só se chama uma ve;ll se dá ousadia de chamar duas vezes. Logo, alguma coisa muito séria havia acontecido, se bem que, depois da morte laiá Teolina, Ioiô Amleto viesse ficando cada vez pior dos nom~, 360 vos, ,em comer quase nada e com as manias mais esquisitas.
Viu o coador na mão que ele levantava acima da cabeça, trê- Intil.o de raiva, adivinhou que era coisa da mania das moscas, a mais terrível de todas, que alongava qualquer refeição insupor- tavelmente, enquanto ele escarafunchava cada colherada, entre sobreçs,iltos dos presentes toda vez que esmurrava a mesa, pen- sando ter encontrado uma mosca. Punha dois negros de plantão à beira da mesa para espantar as moscas com ventarolas de penas, ordenava que queimassem cânfora por todos os cantos da casa, exigia um galho de pinhão roxo e um ramalhete de crisântemos em cada jarro, fazia rondas pela cozinha e pela copa para ver se não tinham guardado qualquer alimento desco- berto e, mesmo assim, estivesse comendo ou bebendo, tinha de raspar a língua nos dentes para evitar engolir alguma mosca por engano. Isto lhe tornava as refeições muito penosas, não
só porque demoradas como porque cheias de ansiedade e de crises de melancolia pós-prandial, q~ando, apesar das precau- ções, ardia em receios de estar a digerir moscas inadvertidamente consumidas. E disto também lhe vinha a aparência bicuda que a cada dia se acentuava em suas feições, pois, para não mostrar a língua enquanto a esfregava nos dentes para frente e para trás, era obrigado a conter-lhe o avanço com os lábios cerrados, a língua lhe estufando a boca e as bochechas como se fosse um animal vivo aprisionado lá dentro.
- Que foi, ioiô? - Isto! É isto! Isto é uma mosca! Uma mosca no meu chá! Nega juvi curvou-se, estendeu a mão.
- Dá licença, ioiô? Pegou o coador, franziu os olhos, revolveu a folha com o dedo mindinho, sorriu.
- Não é, não, ioiô, é uma folhinha enrolada.
- Tens certeza, negra? Olha bem, isto me pareceu perfei- tarnente uma mosca! E, se é uma niosca, sei de muita gente que vai passar a chá de mosca, sopa de mosca e moqueca de mosca o resto da vidal - Não é, não, loiô, é uma folha, o senhor olhe aqui.
361
Desenrolou a folha, esticou-a com cuidado diante dele. Eje chegou as lunetas para mais perto dos olhos, demorou fitando,' a folha, terminou se derreando aliviado na cadeira.
- Não é mosca - disse sorrindo. - Não é, com efeito, não é. Bem, leva esta bandeja. 1 - Não, não. Leva.
- Ioiô não quer chá preto, em vez de cidreira? - Leva este chá, Joviniana! Se disseres mais uma palav faço a ti como fiz ao negro Fidúcio: mando meter-te um o quente na boca para curar o teu desplante! Leva! Como beber chá, beber qualquer coisa, comer qualquer CO com o pensamento da mosca a lhe dar ganas de vômito? fato uma vez, pouco depois da morte de Teolina, ele qu engolira uma mosca. Contraiu o corpo todo de asco ao 1 brar como acontecera, mas não pôde evitar rememorar PC samente todos os detalhes. Estava distraído lendo a gazeta, e prestou atenção ao cálice de vinho do porto que levou il Sorvido um gole, sentiu na língua aquele volumezinho joso, como se fosse uma passa ou bagaço de uva. Mas logo volumezinho tremelicou sobre a língua e ele, com uma ri indescritível, cuspiu a mosca ainda viva e vomitou na a até desmaiar de fraqueza.
Apertou o estômago, sacudiu a cabeça com energia, espantar os pensamentos desagradáveis. Esfregou a língua dentes, inspecionou-a no espelhinho do porta-chapéus. Sim, aquela época, a idéia de que pudesse haver uma mosca comida tanto o inquietava que quase não comia mais. Em muito, os cabelos agora, ainda submetidos todos os dias e à babosa, lhe escorriam pelos lados da cabeça escol 1 acentuando as maçãs do rosto protuberantes e as bochechas vadas. No começo sentia-se bem, mas aos poucos ficava vez mais fraco, o tronco contabescido, as pernas finas sem - Mas ioiô não vai tomar o chá? - Não. Não, não vou.
- Mas o chá está como ioiô gosta, ioiô não comeu nada de" manhã cedo, está em jejum até agora, o chazinho 362 Zi~ iriãos transl~icidas e definhadas. inlas não lhe desagra- daka je iodo essa astenia, às vezes muito suave e aliciadora, c(,mt-. qtiindo lhe vinha uma embriagiiez delicio~,a, acompanhada fl.cLl~uiiteiiie,nte de rápidas visões de cores, depois, por exemplo, de Lonseguir tomar um cafezinho com muito açúcar ao ama- nhece.', E a preferia, certamente, à possibilidade de ingerir moscas, ameaça que nem a mais estrita vigilância podia estar segura de contornar inteiramente.
Xlas eram só as moscas? Achava que sim, mas, de tanto dar a entender a todos que não comia de desgosto pela morte da mul,~ier. também não deixava de lado esta hipótese. Pobre Teo- ]iria! Sempre quieta, sempre disposta ao trabalho e à solidarie- dade, sempre de um comportamento exemplar para uma dama.
Não morrera da bicha durante a epidemia, embora tivesse tido
a doença, a terrível febre amarela que diversas vezes matara mi- lhares. Ou talvez não tivesse realmente tido a doença, pois, no auge da febre, não expelira as lombrigas causadoras do mal, como as outras vítimas. Mas sua saúde nunca mais fora a mesma, sempre uma febre, uma dor, um achaque, tudo agravado pela ausência de Patrício Macário, que a atingira mais fundo do que ele havia imaginado. já no leito de agonia, rezava um terço atrás do outro, implorando aos santos que, como nas histórias que todas as famílias contavam, lhe concedessem a graça de ainda ver seu filhinho mais novo antes de expirar. Mas isso não aconteceu, porque Patrício Macário não conseguiu em- barcar a tempo para a Bahia e já encontrou a mãe sepultada.
Sim, talvez fosse também por causa de Teolina. E ela fazia falta, fazia falta de mil formas que antes não ocorriam a ele, tanto assim que era sincero o choro que, durante muitos meses, ele escondia pelos cantos do gabinete, quando lembrava dela.
Viúvo, sim, viúvo, nunca imaginara em que vazio se fica depois da viuvez, nunca imaginara como a vida fica sem jeito, corno os hábitos se transtornam, pessoas e coisas adquirem novas aparên- cias. Mas a viuvez era principalmente o vazio, o grande vazio que lhe tornava as tardes infindáveis e o fazia socar-se no escri- tório do Comércio até altas horas.
Viúvo e rico. Pensara no início que, com discrição e engenho, não lhe seria difícil viver uma aventura galante ou outra, 363
armar as coisas de forma que pudesse finalmente conhecer mulheres. E não foi difícil, só que cedo perdeu o gosto essa atividade, que lhe saía sempre mais custosa que diverti&,* Ainda se encontrara algumas vezes com uma atriz francesa aquela que vira brilhar no palco com tanta beleza e na verdade bastante mais velha do que parecera, e sua coa*,,' vência coalhada de manhas, amuos e dengues o enervaiía, maneira que lhe mandou um falso billet doux em que tava eterno afeto e gratidão, fundo foro íntimo que melhor ria, não podia mais vê-Ia.
Sim, talvez fosse por causa da morte de Teolina. PC) afinal, tirante isto, forçoso reconhecer que era um homem Como fazia muitas vezes, recostou-se, tirou as lunetas e se parou para pronunciar nova conferência mental a si sobre como era feliz e, portanto, tinha que ficar feliz. Os n cios agora o tornavam, com certeza, um dos homens ma da Província, talvez do País, principalmente depois q pregou na lavra de diamantes verbas de auxílio obtidas propriedades em regiões de seca. Fez força para lembr r-,,se tudo o que possuía, como antigamente, mas não conseguiu, demais para sua memória cansada. Praticamente não havia guém que não lhe devesse ou não lhe comprasse alguma direta ou indiretamente. Até mesmo os negros, a quem, mostrar a coerência de suas posições, vinha libertando na dida do possível, pagavam, em prestações acrescidas de peq juros, seus títulos de alforria. E justiça fosse feita, quase tocava nesse dinheiro, cuja maior parte destinava a uma de muitas iniciativas no campo da cultura e dos problemas no caso o Fundo de Estudos Abolicionistas.
Então não era feliz? Seu filho mais velho chegara a r' mente a monsenhor como se previra, entregava-se de ( ~l alma à educação dos jovens, tanto no orfanato das Obias3 quanto no colégio pago que com grande tenacidade e tência conseguira fundar, mantendo já mais de 300 aluno&,', mente no regime de internato. Bonifácio Odulfo, chegando 30 anos, ainda o preocupava, mas não tanto quanto antes não fossem as despesas que lhe dava com a publicação de mas, por motivos do mais seria nunca desvendar, não 364 i cada um dos quais ostentava no frontispício o nome de urna casa editora diferente, ditado pela fantasia do poeta, até qtte não lhe causaria o menor dissabor. lá estava acostumado a que, c(-)mo ele mesmo dizia, passasse meses sem ver o sol, não tinham mais conflitos e se tratavam até com algum carinho, nas pouquilssimas vezes em que se viam. 0 poeta tinha seu círculo de admiradores, a julgar por algumas notas de jornais e pan- fletos, numa das quais houve quem declarasse o poema Haroldo
e Dandalê um clássico da língua, com personagens dignos de repousar na estante universal ao lado de Dido e Enéas, Helena e Páris, Ulisses e Penélope. Não o substituiria jamais à frente dos negócios, mas o Dr. Vasco Miguel, ainda que escabichador e lento como um cágado escrupuloso, demonstrava, senão talento, pelo menos uma mediocridade sólida, tão preciosa no mundo dos negócios, tão mais desejável em muitos casos do que a inteligência ou a originalidade. Genro melhor, pensando bem, nao podia ter obtido e, quando olhava para a figura rechon- chuda e plácida de Carlota Borroméia, sabia que a família es- taria bem em quaisquer circunstâncias.
E Patrício Macário - que milagre! 0 preparo militar, a dura sujeição aos 29 rigidíssimos artigos de guerra do Conde de Lippe, que Amieto aprendera a conhecer e admirar através do filho, a vida da caserna e a disciplina, como tudo isso fizera bem ao caráter do rapaz! Encontrara, sem dúvida alguma, sua vo- cação. Ainda moço, seu comportamento brioso nas hostilidades do Prata - onde, dizia ele jocosamente, cada um dos brasileiros tinha como ponto de honra matar pelo menos um gringo por dia - lhe havia granjeado o respeito de seus comandantes e sua rápida promoção ao posto de tenente, qtie ocupava agora, servindo no Distrito Militar da Bahia. A farda lhe caía bem, lhe disfarçava a,é a mulatice, ainda mais que ele se dera ao gosto de adereços imponentes e capas de corte audacioso, de tal forma que, apenas um tenente, impunha-se como uma es- Pécie de marechal à tropa e aos oficiais mais pobres, que eram a maioria. Sua reputação de guerreiro valente e soldado até a medula lhe acabara de valer a designação, por expresso pedido do capitão comandante, para servir como segundo oficial na Companhia especial que seria destacada para liquidar a famosa 365
bandida Maria da Fé, que coptinijav,9 a semear o terror e & , desordem em todo u Recóncavo e até mesmo no sertão. No dà.Âtl seguinte, segunda-feira, partiria à frente de seus soldados pari~al, essa expedição, em que certamente se cobriria de glória mau uma vez. Amieto chegava a sentir orgulho dele, apesa de r haver superado de todo o embaraço de ter um filho m vendo-se compelido a dar extensas explicações, toda vez era obrigado a tocar no assunto.
Portanto, era feliz, não era? Pensou sobre se tinha al preocupação, alguma preocupação real. Não, não tinha. Era, PC*~ conseguinte, muito feliz. Recostou-se para melhor assimilar verdade e chegou a sorrir com gosto, chegou mesmo a * al pensou até em comer alguma coisa antes do almoço, q tarde, bem depois das onze, por causa da presença d família. Sim, comeria alguma coisa, ia pensar em algo talvez um pudim de arroz, talvez uns brioches. Que havia nada que não pudesse ordenar que lhe trouxessem, via nada que não estivesse ao alcance de sua mão, e homem feliz.
Não sabia, naturalmente, o que estava acontecendo, mas, menos nessas mesmas nove horas da manhã, na casa de genro, Vasco Miguel. 1,á, depois de chegar da missa, mandar' meninos aos desenhos e às instruções de boas maneiras com Clara, a governanta e preceptora inglesa, Carlota Borrorneei biu para o salão de cima, abriu as portas das sacadas, pren os os cortinões, pôs as mãos no balaústre e pareceu admirar s 9~ C~' rir ai ue s e toda delica bom, nao ~ra i cristalinos que envolviam a casa de todos os lados, os cam verdes se alargando por todo o horizonte, o jardim respial, cendo em todas as cores. Foi até a escrivaninha, molhou a no tinteiro, mordeu-lhe o cabo longamente, revirou os olhos bem devagar, curvando o pescoço para o lado como um esc que quer contemplar sua obra por todos os ângulos, i ~scr algumas linhas, em letra caprichada e redonda: Pois então, pois então, pois então! Pois estão! Pois então, pois então? Pois estão? Pois então, que me perdoem, que me desculpem.
366 Pois então!
Eu descobri que, visto daqui, o jardim, 0 jardim e o madrigal, Ia-si-ré-dó! Não se interessam pela existência! Pois então! Poisentão, poisentão, poisentão, A quem me ler. Assinado, CBNFD.
Em seguida sentou-se ao piano e tocou durante mais ou me- nos meia hora. Levantou-se, abriu uma gaveta do aparador grande, tirou dela uma faca toda de prata, em bainha também de prata, que, segundo Amleto, havia sido herdada de um bisavô inglês.
Dirigiu-se a todas as muitas estatuetas de biscuit que povoavam o salão e, pegando uma por uma sem pressa, cortou-lhes as ca- beças, repondo-as em seus lugares e jogando as cabeças pela janela. Quando as negras perceberam a chuva de cabeças de biscuit caindo sobre o jardim, foram para defronte das sa- cadas e não souberam do que se passava, até que Carlota Borro- méia apareceu lá em cima e, inicialmente sorrindo, depois com fúria, se atacou em estocadas repetidas, tombando ao chão ao trespassar-se no pescoço. Quando conseguiram arrombar a porta, já a encontraram sem vida, fazendo uma careta enigmática, den- tro de uma poça de sangue de odor adocicado.
Amleto foi informado disso no momento em que ia enfiar a colher no pudim de arroz. Deixou cair a colher, fechou a boca e disse a Nega Juvi, sem alterar a voz, qtie mandasse os negros da cocheira aprontarem a carruagem, porque ia ter com sua filha morta.
367
12 Arraial do Baiacu, 25 de maio de 1863.
Uma só pergunta corre de boca em boca, uma só indagação freqüenta os corações pressurosos, só uma dúvida é sussurrada na ilha, da Ponta das Baleias ao Catu, da costa à contracosta, de barco em barco, de casa em casa, de botica em botica, de senzala em senzala, de plantação em plantação: será que ela virá? Mais uma vez se provará sua tremenda ousadia, que os poderosos consideram desfaçatez, mas o povinlio admira? Mais uma vez enfrentará, com a prosápia que nunca a abandona, tropas e armas das autoridades? Ou deixará, desmentindo as lendas de grandes feitos que todo o povo conta, de prestar homenagem a seu avô? Ou será até que ela não existe, apesar d s testemunlios de diversos, os quais contudo podem ser sim- ples boateiros, dos muitos que abundam entre o populacho? É noite fechada sobre a ilha, nuvens pardis e extensas, contí- nuas como se aplicadas a pincel, entoldam um espesso negrume, dentro do qual nada parece mexer-se. No sopé do Outeiro Grande, as janelas da casa de Nego Leléu estão abertas, são laminazinhas retangulares de luz soltas na escuridão e agitadas Pelo vento morno que de vez em quando sopra, estranho para esta época do ano. E dessas janelinhas, como ondas fluindo em andamento regular, sai uma nênia ganida e trenielicosa, puxada pela voz nasal de uma velha e replicada pelas outras mulheres.
369
Ninguém pode en-lanar-be sobre o que é e,~a catitig~i: são ende.
chas, monódias de deftinto, incelenças aqui ~;empre cantadas nos funerais, não tanto pelis palavras, pois que nem set-i sentido se conhece direito, mas pela melancolia em que banham os viventes e a paisagem, tudo convertendo à mesma tristeza chorosa.
De quem será esse velório lá lonre lobrigado, lamentoso e lúgubre? Ora se aquele não é Nego Leléu sorridente no caixão, mais lorde que um visconde, mais guapo que tim marquês, fato preto bem passado, botas tinindo de lustro, barbinha feita a capricho, carapinha escovadinha, mãos mui limpas cruzadas so- bre o peito, camisa mais que cheirosa e engomada, sem cara nenhuma de morte! Se Nego Leléu morreu? Mas claro que mor- reu, ou não o teriam banhado, vestido e deitado ali, para ser enterrado na manhã seguinte. Morreu no meio da soneca do meio- dia e, como estava ficando cada dia mais menino, pensou que era um sonho. Foi encontrado pelos outros meninos, com quem tinha combinado sair para brincar de pelota, empinar arraia e jogar pião. Viram logo que estava morto, mas nenhum deles se assustou, porque ele tinha a expressão divertida, talvez ma- treira, certamente feliz.
Pois seguramente que era feliz, esse Nego Leléu, que foi tantas coisas na vida e terminou virado em menino. Não fazia tanto tempo assim que tinha ficado menino, nem aconteceu de repente.
Foi aos poucos, cada dia uma novidadezinha, até que, quando, se deu pela coisa, ele estava pulando e correndo no meio da meninada e não queria saber de outra ocupação senão brincar.
Bem reparado, desde o tempo em que a neta morava em sua companhia, ele já estava um pouco assim. Mas houve aquilo com a mãe dela, ela ficou afetada, ele passou por muitos desgostos por causa dela e ela acabou, de um jeito que ninguém lembra direito, sumindo no mundo, varando os matos e guerreando há mais de quinze anos, debaixo da condenação de todas as j" tiças e polícias.
Que tinha acontecido a menina tão bem criada, tão mimada, tão bonita, parecendo quase branca de tanto trato? Ninguém sabia, existia até quem se benzesse e falasse no demônio, pois somente o Inimigo arrastaria uma mulher a vida tão eriçada de lutas e percalços, dificílima até para um homem. Entretanto, 370 Nego Leléu, ali sorrindo no caixão, sabia de tudo perfeitamente .;, mesmo criança, nunca esqueceu que tinha sua neta e sempre se orgulhou dela, só que não podia sair por aí dizendo isso, p~)is até a ele não chegaram a ameaçar por causa dela, e não uma nem duas vezes? E, coitadinha, como havia sofrido depois da morte da mãe! No dia em que ele matoti os quatro brancos, ela dormiu até mais tarde, ele aproveitou para ficar no quarto, tirando o sono atrasado. já perto das oito horas, estava pronto para sair, tinha guardado peixeira, porrete e esporão, pensava em como contaria a ela o que havia acontecido, ou mesmo se devia contar, quando a escutou gemendo. Correu para junto dela, perguntou-lhe o que
sentia, ela outra vez se queixou de estalidos, zumbidos e asso- vios dentro da cabeça. Mas como, filha, como assovios, como zumbidos? Ah, ela não sabia, só sabia que tinha essa orquestra enlouquecida dentro da cabeça.
Orquestra que, daí em diante, pouco se conteve. Muitas vezes tocava baixo, raras vezes parava, outras vezes desandava sem limites, fazendo com que a menina corresse para os matos ou para o apicum, onde finalmente, depois de retorcer as mãos e mover-se como quem quisesse enfiar-se terra adentro, con- seguia alívio. Leléu, sem saber mais o que fazer, contou a ela q~,ie os quatro homens tinham morrido quando o barco deles naufragara, e ela ouviu tudo sem mostrar emoção. Ele então narrou como fora ele mesmo o autor dessas mortes, enfeitou a historiação, fez caretas muito feias para contar em porme- nores mentirosos a execução dos quatro. Girou para lá e para cá, pavoneou-se ao feitio de um guerreiro antigo, mostrou-lhe com o porrete como sabia manejar o sabre e a baioneta melhor que os melhores generais, disse-lhe que era capaz de derrotar exércitos, ficar invisível, atravessar paredes e voar sem asas, abraçou-a para afirmar, esmurrando e mordendo o ar com fe- rocidade, que nada, nada, nada, nada, nadinha de nadíssima, nadissimizíssima, podia acontecer a ela, porque Vovô era forte como 88 elefantes, brabo como 120 leões e abusado como 360 regimentos de marimbondos. Então, muniria munita, cundunga pleta do zóio verdejante, peudra pleuciosa, frô dó meu jaldim, ,igria dó mó zistença, alents dó mó vivê, desgrachinha de coi- 371
juta safadosa munitinha senvergosa corderrosa butuquinha tutu.-"~-- quinha do biquinho solaminguento? Hum? Tu-tu-turututu'P Bir4~, bom-bim, Iam-bombém? Acumaé, cadê o sorrisinho do véio? Vét~'~ sola, sola, sola, sã menina, véio sola! Quer que véio sole? Apoà lá vai - ai-currum-currum-currum-currum, ai-arrum-arru i~-a - véio sola que vai se desfazer, menininha non tênzi a do~i véío solador? Sunlisinho, sã menina, sunrilisinho, vai poder Mas ela não sorriu e comentou com seriedade que, so os mens morreram sem saber por que estavam morrendo, de adiantara a vingança. Era preciso que aquilo tivesse sido um exemplo, não só para eles como para os outros. Leléu se tou, quase ficou zangado com ela, perguntou se estava ai se tinha perdido de vez o juízo. Aquele fora o único j(.
é que ela pensava, pensava que ele podia enfrentar sozinho t Bahia, enfrentar todo o Brasil? Melhor que calasse a boca e, agora em diante, pensasse mais antes de dizer besteira.
Ela não pareceu ouvi-lo e disse, olhando para as má zadas no regaço, que devia haver justiça, que se houve tiça ele não teria precisado fazer aquela coisa inútil, se por nada, por uma coisa que nem lhe devolvera a ma , n lhe apagara a humilhação e o terror, nem ia prevenir a repeti do que acontecera.
- Aqueles quatro não repetem mais! - gritou Leléu tado. - Que negócio de justiça é esse, que besteira é essa, não existe, pode existir no estrangeiro, mas aqui não existe! Mas vai ter que existir.
Mas vai ter de existir... Quem está falando, é a Im -n ratriz? É a Generala Marechala? Vai criar juízo, me inia, tá pensando que o céu é perto, mas o céu é longe! Só se tu mudasse para uma dessas terras que dizem que existem, eu não acredito nem nisso, ainda mais tu sendo mulata, dizer, preta.
- Não. Vai ter que ser aqui, aqui é que é a minha - Aqui é que é a minha terra... Qual é tua terra, m a tua terra é os terreninhos que eu tenho e vou te (lei= olhe lá, porque mesmo assim, se tu não for esperta, tu sem nada, tem sempre um para querer tomar.
372 Não toti falando minha terra nesse sentido, tou falando qu, ILJU1 C minha terra, nós somos o povo desta terra.
- Disseste bem, disseste muito bem: nós somos o povo desta terra, u Povinho. É o que nós somos, o povinho. Então te lembra disto, bota isto bem dentro da cabeça: nós somos o po- vinho! E povinho não é nada, povinho não é coisa nenhuma, ine diz onde é que tu já viu povo ter importáncia? Ainda mais preto? Olha a realidade, veja a realidade! Esta terra é dos donos, dos senhores, dos ricos, dos poderosos, e o que a gente tem de fazer é se dar bem com eles, é tirar o proveito que puder, é se torcer para lá e para cá, é trabalhar e ser sabido, é compreender
que certas coisas que não parecem trabalho são trabalho, essa é que é a vida do pobre, minha filha, não te iluda. E, com sorte e muito trabalho, a pessoa sobe na vida, melhora um pouco de situação, mas povo é povo, senhor é senhor! Senhor é povo? Vai perguntar a um se ele é povo! Se fosse povo, não era senhor.
- E a justiça? - Que justiça? Mas, homecreia, que justiça? Onde é que tu já ouviu falar de justiça? justiça é uma palavra dos livros, isso é que a justiça é! Justiça quem faz para mim é eu mesmo, eu que não me desdobrasse nem me virasse em oito, em oito vezes oito, eu que fosse ficar quieto, esperando justiça, que hoje que a gente estava comendo era capim e olha lá! - É, mas vai ter justiça. Quem é que trabalha, não é o povo? Não é o povo que sustenta? Então é o povo que vai mandar.
Leléu não conseguiu manter a boca fechada, ficou de queixo pendurado, achando que estava ouvindo alucinações. Que idéias eram aquelas, que é que tinha dado na cabeça da menina? - Tu não já viu todos aqueles príncipes e reis e heróis dos livros? E não viu que nem eles conseguiram nada disso, que nada disso existe, que a vida a pessoa tem de viver com os pés no chão? - Sei não.
Sim, de fato não adiantara ele ter matado aqueles quatro ho- mens, porque isso não só falhou em devolver Vevé, como Dafé ti- nha comentado. Falhou também em llie devolver a própria Dafé, que não continuou triste como antes, mas era outra pessoa.
Continuava a mesma menina boa e carinhosa, mas não brincava 373
mais, conversava pouco e saía muito para o mato, passava hom~'.
perdida lá fora, voltava andando devagar, como quem i=&., muitas coisas pesando no pensamento. Quando ele vi~ às vezes inventava viagens de propósito -, ela sempre q acompanhá-lo e ele a levava, mas ela não queria ver as que ele sugeria. Ficava horas parada na rua, sentada num de jardim ou numa balaustrada onde consentissem pretos, o povo passar e parecendo estar tão longe quanto a C., estrelas. Depois passou a pedir ao avô que a levass a gente trabalhando. Gente trabalhando, mas que maluquice Gente trabalhando, gente trabalhando, gente trabalhando! pinteiros, marceneiros, ferreiros, tanoeiros, sapateiros, pedreiros, lavradores, jardineiros, alambiqueiros, padeiros-, beiros, pintores, armeiros, açougueiros, carroceiros, ,.ut,., vassoureiros, quitandeiros, vaqueiros, fateiros, muleiros, dores, caixeiros, sineiros, ourives, tecelões, paneleiros, m* caçadores, boticários, quituteiros, maquinistas, tiradentes, deiros, cocheiros, mariscadores, peixeiros, lenhadores, ma'g porqueiros, verdureiros, seleiros, salineiros, azeiteiros, serra faxineiros, aguadeiros, taverneiros, amoladores, foguistas, ma tes, alfarrabistas, oleiros, impressores, escreventes, acende gravadores, coveiros, almocreves, caseiros, arreeiros, tos capadores, leiteiros, estalajadeiros, moleiros, todos ela foÍ nhecer e admirar no trabalho, convencendo-se cada vez ~ iais,~, M que todo fazer, produzir e servir é sinal da beleza do niu somente é homem aquele que faz, produz ou serve. Também diu para ver os músicos, os saltimbancos e palhaços, os dores de feiras, os violeiros, os repentistas decorando seus tes, os construtores de brinquedos, os mambembeiros de os desenhadores de quadros, os tocadores de música, os rinos de festas, os escultores de bois, bonecas e utensfiios, entalhadores com suas madeiras, os douradores com suas nas de ouro fino, os fazedores de magias, os fogueteiros e perigos, os contadores de casos e histórias, os fingidores autos de Natal, os criadores de passarinhos. Tudo isso e mais coisas ela foi ver, estudar e admirar, na companhia de avô Leléu, que também conhecia muitas dessas artes e seus 374 deixando-,q várias veze,; tão maravilhada com ele qua ticara com Vevé, ao vê-Ia exercendo seu ofício de pescar.
Mas, se a amizade e o amor entre eles se ramificava por ,)Liir~)s (,uminhos e criava raizes ainda mais fundas que antes, iste não impedia que ela continuasse estranha, calada e arredia.
Hotis7e mesmo dias em que pareceu ter fugido de casa, dei- xando Leléu tonto e fora de si, até que alguém a encontrava, às vezes em lugares distantes, aonde só se podia ir de barco.
Desse tempo em diante, ele começou a achar que ela estava fi- cand(-, louca, louca de asilo mesmo, mas, como era louca mansa - e mesmo que não fosse -, resolveu não dizer nada a ninguém, nem procurar conselho com ninguém, para que não
a quisessem trancafiar ou a julgassem possuída do demônio.
Mesmo assim, não desistiu de aconselhá-la: esses pensamentos não são próprios nem de negro nem de mulher - dibse-lhe mtiitas vezes - e são pensamentos de quem não conhece nem o mundo nem a vida. Mas ela, embora costumasse ouvi-lo sem discutir, não mudava de comportamento, nem deixava de expli- car a ele suas idéias esquisitas, A princípio, ele não queria es- cutá-las, mas terminou por habituar-se a isso. Pelo menos, falando somente com ele, ela não corria o risco de não conter a vontade de falar com alguém e vir a ser tida como louca e sediciosa.
Nlas será que ela não falava? Por que, de uns tempos para cá, depois de ter conhecido o velho Zé Pinto, tanoeiro antigo meio aposentado, mas que ainda pôde mostrar a ela as coisas de seu trabalho, ia de vez em quando visitá-lo, levar-lhe urna comidinha e passar horas prosando? Por que, depois desse co- nhecimento, também deu para conversar com um antigo negro do Barão de Pirapuama, na época apanhador de cascas de ostras para a caieira do Comendador, um negro que nem falava di- reito, visto o barão ter-lhe cortado a língua? Mas ela aprendeu a entender o que ele dizia e chegava a pegar um barco no domingo, para ouvir o que ele tinha a contar. Ficou também amiga de uma certa Merinha, do Manguinho, negra caseira de uma família rica, que nunca tinha visto antes, mas agora pare- cia que eram irmãs.
Leléu continuou preocupado, ficou com ciúme, armou até umas brigas feias. Que diabo era aquilo, que vida era aquela, que ela 375
estava levando? Se negro já não era considerado família, família de negro já era senzala e amancebamento, como esperar quç,, ela jamais nunca em nenhum tempo fosse considerada moça &,~*I família, continuando a agir assim? Aprendera o que era uma moça de família, estudando com aquela velha coroca, ou nk, aprendera? Tudo indicava que não, pois apontasse uma só ~ de família que tivesse aquelas conversas, tivesse aquelas idé ' tivesse aquelas atitudes, se acompanhasse de negros pretos dlesqz, lificados, não aproveitasse para melhorar a raça e preferisse, ",, vez de sair dos pretos, voltar aos pretos? Nascer preto, tu41 certo, não se pode fazer nada. Mas querer ser preto? Quem que pode querer ser preto? Mostrasse um que, podendo, casse tão branquinho quanto uma garça! Como é que pode aproveitar para procurar deixar de ser preta e não ap - Eu nunca vou deixar de ser preta, voinho.
- E tu é preta? Não és preta, senão mulata, mulata verdes, e muitas menos bem parecidas, muitas muitíssi nos bem parecidas, hoje são quase-quase brancas, são si radas, estão arrumadas na vida. Eu mesmo sei de muit bem raceada, mas bem raceada mesmo, que hoje é branca, t as posições, tem importância na vida. E tu, que pensa tu? P em saber quem foi Dadinha - eu sei lá quem foi Dadinhal pensa em...
- 0 senhor sabe quem foi Dadinha, meu avô.
- Então sei! Não foi nada, não foi coisa nenhuma, foi u velha gorda, corró, mentirosa, safadosa...
Não foi minha bisavó? Mãe de Turíbio Cafubá? Mãe de... Quem é que está te contando essas cois" Isso é negócio daquele velho broco, Zé Pinto, eu vou pegar cacete e tacar umas porretadas na cabeça dele, pra ele de' de ser abelhudo e enxerido, quem é que tá te contando es coisas?
Por que o senhor não me conta também? 0 nome de nha mãe, o nome verdadeiro, era Naê? Eu não vou te contar nada dessas coisas! A gente lu luta, luta, a gente luta que chega o corpo nunca mais p de doer mesmo descansado, a gente luta, luta, luta para sa duma situação, para melhorar, para subir, e aí o que é 376 aparece? Aparece uma como tu, que eu aclio que vou mandar trancar em casa pra não sair fazendo asneira, querendo voltar pra baixo, querendo saber dessas coisas, querendo se meter em coniusão, alterar o que nao pode ser alterado ... Eu conheço a vida, entendeu tu? Eu conheço a vida! - Quem foi o caboco Capiroba? - Caboco Capiroba? E nunca teve nenhuns cabocos Capi- robas, menina, nunca teve nada disso, isso é tudo lenda! Mas será possível que eu te mando para a escola com pensionato, te boto com a melhor professora, te pago todos os livros para que tu tenha conhecimento e tu agora resolve crescer como rabo de cavalo, desaprender, se preparar pra ser uma negá preta véia,
em vez de gente? Que caboco Capiroba, nem car6ba capiboca! É para isso que tu estudou? Foi pra isso? ~- Não teve a filha do caboco, que se chamava Vu? 0 se- nhor conheceu um homem por nome Júlio Dandão? - Júlio Dandão? Bandido! Mandingueiro, feiticeiro, deve de ter fugido com mais de quarenta roubos e mais de vinte mortes nas costas! Não venha me dizer tu ... Júlio Dandão, não, tu não teve com esse Júlio Dandão, tu teve com ele? Isso não é com- panhia para a senhora, não é companhia, tu entendeu? Não é companhia para a senhora! - Mas ele não anda mais por aí, sumiu, o senhor mesmo disse.
- E o que é que tu quer saber dele? Ele não é seu parente, não é nada teu, pra que tu quer saber dele? - Eu só perguntei, foi só uma pergunta. E meu pai, o se- nhor conheceu meu pai? Leléu revirou os olhos. Que era mais que ia dizer à menina, que era mais que podia fazer? Ficou meio sem graça, levantou- se fingindo que ia olhar as plantas, acabou tendo a atenção despertada por um menino que tentava empinar uma arraia e corria puxando o cordão, quase por cima das leiras da horta.
0 menino pensou que Leléu ia reclamar e correr atrás dele para dar-lhe uns cascudos como sempre ameaçava, mas isto não aconteceu. Muito sério, Leléu pegou a arraia, examinou-a com jeito crítico, disse ao menino que, com aquele rabo, ela nunca ia subir. Aliás, aquela era uma arraia muito da ordinária, pare- 377
cerido até a cara de quem fez, deixasse que ele ia mostrar o que era uma arraia. E entrou no quarto dos guardados, apanhou.
uma porção de coisas, foi fazer uma arraia nova, passou a tarde empinando-a e dando aulas sobre os ventos ao menino e ao& outros que se juntaram.
Deve ter sido aí que ele começou a virar criança e, aos pou.
cos, deixou de reclamar com a neta. E não só deixou de re.
clamar como, um belo dia, chamou-a para uma conversa que clá~ nunca poderia haver antecipado. Disse a ela que não pareci&~ mas ele havia chegado a compreender muitas coisas, muitas coim., sãs, entre as quais que a sabedoria da vida tem muito s ladoi, não tem um lado só. Por conseguinte, era bem possível quc houvesse até muitas sabedorias em vez de uma só, de maneirá~, que ele não estava mais negando o que pensava a neta. Achavá,, errado, mas não negava, o mundo é assim mesmo, cheio de maneiras de ver. Então, sabia ela o que ele ia fazer? Pois l~l.
diria. Aquele dinheiro que tinha juntado numa vida de tirabalho,~, e mais trabalho, era dela, estava enterrado naqueles lugares qtí~ ele transcrevera no papel que agora lhe entregava. Tudo em, dela, ele estava velho, queria somente ficar ali com sua ho zinha, seu pomarzinho, sua casinha, suas galinhas, seus q por nhos, suas coisinhas, seus brinquedos, seus amigos meninos.
tava velho, bastante velho mesmo, devia ser o sujeito mais vel que ela conhecia, e então o melhor que fazia era perman ali mesmo sendo menino, coisa que nunca havia sido e lhe in ressava muito, para uma vida completa. E, quanto a ela, ag' não tinha mais desculpa para não fazer o que achava que de fazer, que, aliás, fizesse isso mesmo: o que achava que devia zer. Era um presente em que ele tinha pensado muito antes dar a ela e era um presente de grande amor. Não o dinhe* que ele não tinha ninguém no mundo a não ser ela e, port era sua obrigação cuidar dela direito, pois que ela tarn~ tinha alguém por si no mundo. Mas, sim, a liberdade de ser escolher, coisa para que, pelo menos da parte dele, ela acha ajuda, embora fosse encontrar dificuldade de todas as ou partes, dificuldade mortal mesmo, dificuldade dura e sem ricórdia. Mas este conselho lhe dava: que não fosse boba não confiasse, não confidenciasse e não desistisse com faciliá 378 que fião fosse mentirosa. mas também não imprudente: que não quisesse lutar sempre do mesmo jeito, mas que visse que para cada !,!ta há um jeito próprio, dependendo sempre das circuns- tàncias; e que gostasse dele, porque ele gostava tanto dela que o coração lhe doía e, se não tinha sido melhor avô, fora porque não soubera, mas tudo o que sabia e procurara aprender tinha feito para ela. Ela gostava dele?