XXXVII
Incapazes de prever o que poderia acontecer, Hans, a Degredada e Crescência partilharam do mesmo calafrio, quando Capitão Cavalo, um pouco pálido, mas sorrindo com espontaneidade, despediu-se deles, pedindo que esperassem pelo menos uma hora, pelo relógio que Hans havia levado para o cume do Pedra Preta. Antes disso, não fizessem nada, apenas aguardassem que ele voltasse, como esperava.
— Um pequeno adeus — disse ele, antes de curvar-se, esticar os braços e mergulhar na esfera. — Sei que em breve estarei de volta. Não me perguntem, porque eu próprio não sei explicar, mas logo estarei de volta e peço que tenhais confiança e penseis da mesma forma. A lua cheia clareava cada vez mais as terras do Recôncavo, fazia rebrilhar a maré vaza nas coroas de Itapa-rica e todas as praias circundantes à vasta baía, apagava os piscos das estrelas em favor de seu próprio esplendor e se tornava uma espécie de alvorada translúcida, mas, algum tempo depois que Capitão Cavalo desapareceu dentro da esfera e Hans e Crescência deram as mãos instintivamente, tudo em torno se transformou em sombras penumbrosas e logo se materializou um vulto gigante, numa das bordas do monte. O pêndulo do relógio estacou secamente e, em redor da ilha, não havia mais nada, nem coroas, nem praias, nem sombras, nem lampejos de fogueiras e lamparinas e era como se o mar houvesse permanecido, como se a ilha tivesse saído de seu espaço e agora existisse sozinha no mundo. No mesmo instante, o vulto à beira do cume se iluminou, em todas as cores, um desmesurado pavão de cauda aberta, que ofuscava quem tentasse fitá-la de olhos inteiramente abertos. Seus raios entrelaçados se lançavam em todas as direções e se refletiam no mar picado abaixo das falésias. Crescência, a Degredada e Hans apenas conseguiram ficar boquiabertos, sem se mexer ou dizer nada diante daquela visão maravilhosa. E ainda continuavam imóveis, quando, já brilhando havia tanto tempo que parecia querer ser eterna, a cauda do pavão se apagou, tão inopinadamente quanto se acendera. Voltaram a penumbra e as sombras, e Crescência finalmente conseguiu falar.
— Que foi isso? — Não sei, não sei. Não sei! O relógio parou, esse relógio não pára, é o melhor que já construí, encomendei as melhores peças, era para a casa de Capitão Cavalo. Não pode ter quebrado nada que o fizesse parar dessa maneira e agora recomeçar, foi como se uma mão tivesse segurado o pêndulo.
— É o feitiço, é o Grande Feitiço? — Não sei se devo chamá-lo assim, nem costumo acreditar em feitiços, mas não posso negar o que vimos e o que vimos, de fato, se contado, eu também não acreditava, acredito porque vi.
E já resolvera se aproximar do pavão embora agora não o visse mais, quando subitamente a lua voltou, as praias voltaram a resplandecer e Crescência e ele viram-se outra vez de mãos dadas, como estavam, quando o pavão se acendera. De dentro da bola, sem que eles houvessem notado como, havia emergido Capitão Cavalo, os olhos excitados e a voz mais alta do que o normal.
— Vistes o pavão? O que foi aquilo? Onde está ele agora? Desapareceu também tudo em torno, como percebi? Só a muito custo conseguiram aplacar seus comentários atropelados e concordar em que deveriam voltar e conversar calmamente sobre o assunto, na casa grande de Sossego Manso. Fecharam o cubo, fizeram a descida de volta e logo se juntaram no gabinete de Capitão Cavalo, onde passariam dias a discutir o que havia acontecido. Como não conseguiam chegar a qualquer entendimento, voltaram várias vezes ao topo do Pedra Preta, revezaram-se em entrar na bola, entraram em pares e em trinca e os mesmos fenômenos sucediam. A penumbra, o pavão resplandecente, o relógio parando, lembranças impossíveis, o tempo se detendo e não se detendo. Por sugestão de Hans, Crescência voltou à vila para passar nela uma das noites em que algum dos outros estaria mergulhando outra vez na bola e tudo na Casa dos Degraus aconteceu como havia acontecido, o pavão reluzente e os relógios parando. Portanto, o tempo parava, quando o pavão acendia. E o pavão acendia quando algum deles entrava na bola. Mas o tempo não parava, talvez, durante a travessia do funil em que a bola se transformava, quando penetravam nela. E o povo via o pavão fulgurar, mas depois não se lembrava, só se lembrava de que, repentinamente, a lua sumira, tudo escurecera, a ilha parecera ser a única terra no meio do mar, para depois voltar tudo a como estava antes. Mas, dentro do cubo, os quatro parceiros lembravam como o pavão se acendera e apenas se admiravam de voltarem ao mesmo estado ou posição em que se encontravam antes da luz, na hora em que ele se apagava. Hans disse que sempre havia pensado sobre o tempo e, às vezes, fazendo cálculos para acertar a hora astronômica, se perguntara se ele realmente existia, se não era apenas o movimento dos seres. Que coisa seria o tempo? Mas era inegável que o tempo parava, pelo menos para os que estavam na ilha. E não só o tempo parava, como a ilha parecia mudar-se para algum ponto desconhecido, onde nem sequer a mesma lua se via, mas duas delas, em fases diferentes, que nunca deixavam de deslumbrá-los. Além disso, feitas muitas experiências, descobriram que o pavão se acendia quando saíam na outra ponta do funil, se apagava no momento em que reingressavam na esfera e desaparecia, ao chegarem de volta à entrada. Que aconteceria a um barco que estivesse lá fora nesses instantes? Que acontecia com o mundo em torno? Também nele o tempo parava, ou só parava na ilha? A ilha ficaria invisível para o exterior também? Algum outro tipo de tempo decorria, enquanto o tempo habitual era detido pelo pavão ruante? Não sabiam, não sabiam e, quanto mais pensavam, menos sabiam.
— Acho que não temos mais que remoer sucedidos cujas razões e figuras não conseguimos perceber — disse Capitão Cavalo, levantando-se depois que Hans, semidelirante, falara interminavelmente sobre se o tempo podia ir e vir, sobre se, com o tempo, ou parte dele, parado, vários futuros entre os infinitamente possíveis estariam de certa forma a desenrolar-se, sobre se, nesse caso, poderia ser descoberta uma maneira de escolher o futuro, ai, ai, fazia Hans, apertando os lados da cabeça. Pois, se se podia parar o tempo, não se podia também levá-lo para trás ou para a frente? E, por que, com o tempo parado, o mundo comum desaparecia? Por que...
— Precisamos pensar mais, precisamos pensar mais! — gritou, dando um tapa exasperado na mesa.
— Tens razão, mas agora está a ver-se de bem pouco tem adiantado. Tudo o que sabemos, e mesmo as sim duvidosamente, é o que vimos e experimentamos.
Creio que o entendimento, se um dia vier, mesmo assim virá aos poucos. Sabemos que descobrimos a toca do tempo e já nos deve satisfazer por enquanto, não se pode chegar a tudo de uma só vez. E nos deve satisfazer ainda mais pois vejo nela e seu bom uso aquilo que sempre buscamos.
Agora que podiam parar o tempo e sair do mundo, certamente conseguiriam na ilha tudo o que sempre almejaram, ou seja, mantê-la cada vez mais livre e livres seus habitantes, sem que tivessem sempre, apesar de protegidos pela Natureza, de temer que o mundo os alcançasse e lhes tirasse tudo o que tinham ganho e continuavam a ganhar, apesar de gente como o mestre-de-campo, que, conluiado com a Mesa Visitadora e conspiradores em toda a ilha, estava arregimentando forças para restabelecer a velha ordem de coisas nas vilas, até porque sabia que Capitão Cavalo se recusava a meter-se em questões que considerava dependentes da vontade dos envolvidos, ou seja, para ele a maior parte das coisas da vida.
Como já tinha dito, com a concordância de todos, eram guardiães daquele achado portentoso. Dominavam o segredo da toca do tempo, de teriam sua marcha e desapareceriam do mundo sempre que a ilha fosse ameaçada em seu destino independente e sempre mais libertário, apesar do quilombo e de Borges Lustosa, padre Tertuliano e seus seguidores. Não era dominação, era apenas uma arma contra um futuro indesejável. Parava-se o tempo, abria-se caminho para um novo futuro que, mesmo que não pudesse ser escolhido por eles, seria diverso do que o precederia. Ou depois, se descobrissem, como achava Hans, que poderiam viajar no tempo, levavam a ilha ao tempo que quisessem, para que de lá prosseguisse, em direção a futuro mais propício. E deviam achar herdeiros para aqueles deveres secretos, pois a Degredada não tinha filhos, o filho dele não estava seguro dos filhos que tinha, os filhos de Hans eram inocentes demais para cuidar daquilo e talvez coubesse a Crescência pensar em gerar aquela que seria a continuação de uma espécie de dinastia, de gente disposta a abdicar de si, pois poderia, ao ocasionar a troca de futuros, calhar um que lhe fosse adverso, gente que tivesse uma real lealdade para com os ideais em que todos eles comungavam. Sem nem procurar razão para isso, Crescência adivinhou que Capitão Cavalo gostaria de que ela tivesse filhos com Iô Pepeu e sentiu . um arrepio.
XXXVIII
Pois nem as décadas de Tito Lívio, nem a guerra de Tucídides, nem os anais de Tácito, nem os discursos filipíacos ou catilinários, nem as histórias morais de Suetônio sobre homens a cujo porte Borges Lustosa se comparava, nem as vidas dos varões de Plutarco, nem textuários ou vade-mécuns de todos os santos e doutores da Igreja, bem como os sábios filósofos da paga Grécia antiga, hoje, por não batizados, confinados ao limbo, condição, segundo se sabe, bem inferior à celestial, porém mais que reconfortante — nada disso lhe valia agora. O mestre-de-campo, ataviado como nunca antes se espenejara, de pé na sala do trono, aguardando a chegada de D. Afonso Jorge II, para a audiência que laboriosamente haviam acertado, pensava na vida, nos feitos e não-feitos, no que se achava poder fazer e não se podia. Como, por exemplo, esses ensinamentos cuja procedência conhecia, mas cujo conteúdo desconhecia, eis que, se aproveitando da surdez, semicegueira e entrevação de seu bom preceptor, frei José João, não lia nem copiava o que o mestre mandava, mas limitava-se a berrar-lhe trechos decorados ao pé do ouvido e mostrar-lhe garranchos nos cadernos, no que obtinha louvores e grandes felicitações. Que lhe aconselhava Tácito, em transe como o que vivia? Deos fortioribus adesse. Muito bem, os deuses estavam ao lado dos fortes, citação que fazia o bom frade José João arengar ininteligivelmente, entre cenhos franzidos e risadinhas a intervalos abruptos, mas que de nada lhe servia, porque forte se julgava, mas tantos revezes o desencorajavam. Que ensinava Tito Lívio? Potius sero quam num-quam. Muito bem, antes tarde do que nunca; agora podia ser tarde, mas não era nunca. O que fazer, como fazer, os exemplos precedentes, isso, sim, era o que lhe importava nesse instante e se arrependia de não ter seguido a orientação do velho e feito suas obrigações. Mas agora era, sim, tarde demais e não podia perder tempo com arrependimentos. Tampouco muitos grandes comandantes que vieram antes dele haviam estudado o que não estudara, notadamente os antigos, que nem ler sabiam.
Mas, na verdade, nada havia a temer, pois tudo estava nas mãos de Deus e de seus eleitos. Não fora seu gênio político, posto à prova dia após dia, noite após noite, a cada triquéte, já teria desistido de levar sua terra à salvação. Se não fora a disciplina militar, que o mantivera, apesar da dor nas costas, da barriga sobrecabada e dos joelhos em que já se não podia muito confiar, apto a qualquer grande esforço ou mesmo refrega corporal, teria abandonado a causa. Ingratidão, deslealdade, ambição descomedida, mentiras, juramentos falsos, punhaladas nas costas, tudo isso o defrontara e continuava a defrontar. O canalha do Tome Santos Ferrão, intendente de Xangó Seco, assim como outros, com diversas intenções, decidira que ele próprio, aproveitando-se das idéias do mestre-de-campo, seria duque de São João. Constituiu a Aliança Pavonina Conservadora e já obtivera aliados de importância, não só em Xangó Seco, na Praia do Branco e no Outeirão como — pasme-se — na própria vila de São João, onde o índio continuava a mandar e desmandar e nem sequer o intendente interino, o anteriormente leal Manuel Faveiro, parecia agora merecer confiança, com os ares dúbios que volta e meia exibia. A União Conservadora Assivissojoemapaense, criada pelo mestre-de-campo em resposta à desfaçatez de Tome Ferrão, tinha importantes aliados e a Mesa Visitadora a seu favor, mas urgia dar um passo adiante do inimigo, pegá-lo de surpresa, numa manobra astuta e inesperada.
Era por isso que estava ali, para uma audiência reservada com o tarouco do Jorge Diogo, aliás Sua Majestade D. Afonso Jorge II, que o fazia, como mandava seu cerimonial, esperar tanto quanto lhe desse na veneta. Bastante tempo, enquanto o mestre-de-campo, ladeado pelo mordomo e outros dignitários da corte, mudava de pé de apoio a cada momento, alisando a bainha do chanfalho. Não tivera dificuldade em conseguir a audiência, tivera, de fato, muita facilidade. Sua Majestade havia respondido a seu recado com lhaneza e magnanimidade — era muito bem-vindo, Mani Banto orgulhava-se de visita tão ilustre. Apesar disso, Borges Lustosa, sabedor da reputação real, rezava para que o negro lunático não o destratasse, ou muito menos tivesse um de seus muito comentados acessos de cólera, ainda mais que estava sozinho, pois a única exigência feita fora a de que viesse sem escolta, se bem que de pouco adiantasse uma escolta naquele lugar. Sim, esperava que não viesse Sua Majestade, como já lhe tinham contado que havia acontecido amiúde, resolver de repente entregá-lo à Irmandade de São Lourenço, sabia-se lá, louvado seja Deus, para sempre seja louvado.
Não, não, isso não aconteceria, era claro, e Borges Lustosa ainda buscava aplacar seus receios, quando D. Afonso Jorge foi anunciado e, depois de acenar amistosamente, sentou-se no trono. Estava muito afável, muito bem-disposto e, depois de indagar com um sorriso como passara o mestre-de-campo, começou um monólogo jocoso a respeito das vicissitudes do poder. Achavam todos que os monarcas levavam vidas despreocupadas e felizes, tendo.e fazendo tudo o que desejavam. Nem dor sentiam, nem de sono precisavam, nem de verdadeiros amigos e mulheres sinceras necessitavam. Mas não é bem assim, Excelência, os monarcas, na verdade, assemelham-se mais a escravos. Escravos cercados de pompa, luxo, bajulação e mentiras interesseiras, mas escravos. Ai — filosofou —, pudéramos nós livrar-nos desta cruz, mas o nosso dever é não enjeitar aquilo que é imposto pela vontade divina, pois, como se sabe, é Deus quem escolhe os verdadeiros governantes e é através destes que Sua vontade consegue, ainda que debilitada pela humana fraqueza, lograr algumas vitórias sobre a insensatez dos súditos. Se pudesse — ai, se pudesse! —, abdicaria, porém seus filhos eram ainda muito jovens, além de cada um se achar herdeiro presuntivo. Sabia como esse problema era grave, tendo sido resolvido, em seu caso, pela mão do destino, pois também tinha tido irmãos, quiçá muito mais habilitados para reinar do que ele, mas ceifados por acidentes letais, o que parecia ser até uma maldição em sua dinastia. Mas, assim que um desses filhos tivesse condições de empunhar aquele tão sofrido cetro, ele abandonaria o fardo ingrato, para viver a vida simples de seus ancestrais primevos, como sempre almejara.
Então ordenou que todos saíssem e o deixassem a sós com o mestre-de-campo, a quem ofereceu a grande cadeira ao lado do trono. Era a que usava para as mais importantes audiências de Estado, pouca gente houvera tido o privilégio de sentar-se nela. E aí, com a mão no queixo e em inusitado silêncio quase imóvel, ouviu o que, por vezes arrebatado, notadamente quando mencionava o índio Balduíno Galo Mau, cuja eliminação se fazia indispensável para a paz futura, o mestre-de-campo lhe narrou a situação, concluindo que, por partilharem os mesmos pontos de vista, ou seja, os da cristandade e do reino de Portugal, deviam firmar um pacto, uma sólida aliança, destinada a combater inimigos dispersos, como a negralhada libertina, a mulatada desavergonhada, a indiada que se achava gente, os comerciantes e artesãos liberais, as mulheres da vida e, enfim, tudo o que levava à mina a ilha do Pavão. Seria ele o duque da ilha, o padre Tertuliano o grão-bispo e o rei do quilombo marquês, além de preservar sua realeza como Mani Ban-to, em seus domínios. O custo talvez envolvesse uma guerra, mas contava com o poderio bélico do grande povo do Mani Banto, para esmagar conjuntamente o inimigo, ainda mais se os atacassem sem aviso, de supetão, como era seu presente alvitre.
— Aaaai! — gritou o rei, diante dos olhos e ouvidos estupefatos do mestre-de-campo. — Aaaai! Por que, Senhor Deus, jogais sobre nossos ombros tamanha canga, tal peso fatal a carguejar, tantos encargos de que quase não podemos desincumbir-nos? Não diremos que afasteis de nós esse cálice, pois acima de tudo somos Vosso servo no mundo. Mas por quê, por quê? Teremos mesmo a grandeza que me atribuís? Logo o mestre de campo compreendeu a razão do desabafo real. Naturalmente o sr. dr. comandante marechal almirante, futuro duque de São João, estava sendo chistoso, quando falara na hipótese de Sua Majestade aceitar uma posição subalterna em qualquer governo da ilha. Ou, para melhor pensar, estava subestimando o senso de devoção à causa da justiça, da verdade, da moralidade e da cristandade que sempre animara abimo pectore, o espírito de Sua Majestade. Não havia empresa, por mais espinhosa, que o desviasse do seu dever, imposição, como já dissera, não humana, mas divina. Aceitava, sim, ser rei da ilha, com o ducado do mestre-de-campo assegurado, o grão-bispado de padre Tertuliano idem, a eliminação do índio nefando uma questão de honra, enfim, tudo mais que propusera o mestre-de-campo. Estava pronto para tudo, bastava uma palavra do visitante e subseqüente juramento de fidelidade a Sua Majestade, para que tudo ficasse acertado.
Muito vermelho, o mestre-de-campo ficou cheio de dedos por não saber como dar a fundamental resposta negativa aos desejos de D. Afonso Jorge. Acabou balbuciando algumas palavras, ia pensar, mandaria uma resposta em breve, não se tratava de algo simples, a resolver sem uma consulta a todos os aliados.
— Pois muito bem! Pois que penseis. Pois que consultai-os. Sabemos esperar — disse Sua Majestade.
Talvez até soubesse mesmo esperar, mas desta feita só esperava por interesse. O mestre-de-campo, agora em sua mula, chouteando pela picada afora, não sabia direito o que pensar daquela proposta esdrúxula, mas estava decidido a não aceitá-la. Arregimentaria mais aliados, ignoraria o quilombo, ele que fizesse lá o que quisesse, continuaria tão desimportante quanto antes. Sim, tomara um susto, mas não havia motivo para desespero e deu até um suspiro de alívio, criara um problema onde não havia e livrara-se dele com facilidade.
Mas não daria tal suspiro se não ignorasse que, antes dele, Tome Ferrão já procurara D. Afonso Jorge e lhe assegurava a condição de rei da ilha, contanto que ficasse com o ducado e a administração, o que fora prontamente aceito. Além disso, o pérfido Ferrão já tinha ideado pormenorizados planos de campanha. Auxiliado pela árdega cavalaria do rei e pelos seus temíveis lanceiros, tomaria primeiro sua própria Xangó Seco, onde talvez nem houvesse resistência alguma, tamanha a satisfação de todos em ver um homem da terra mostrar a São João que ela não era tudo isso a que se arrogava. Depois a Praia do Branco de surpresa, igualmente o Outeirão e, finalmente, num movimento de pinças, o cerco a São João e o esmagamento das pretensões de Borges Lustosa e talvez seu enforcamento, por constituir um permanente perigo contra a ordem pública. E assim, sentindo a bunda arder em sua sela redomona, o mestre-de-campo não podia imaginar que o rei esperaria, sim, mas não mais que quatro ou cinco dias, nem podia ver o sorriso viperino que agora se estampava no rosto de Sua Majestade.
XXXIX
Quando Balduíno chegou de repente ao Sossego Manso, querendo falar quanto antes com Capitão Cavalo, Crescência se lembrou do dia em que voltara à Casa dos Degraus, para ver se alguma coisa acontecia mesmo no resto da ilha, na hora em que o pavão se acendia. Acontecia, sim, o tempo parava ou andava diferente, mas não foi isso que a deixou nervosa, ao ver Balduíno. No encontro breve que tivera com Iô Pepeu, naquele dia, ele de início se mostrou alegre e sorridente, para logo assumir ares soturnos e desaparecer das vistas dela. Chegara a falar de novo em casamento, chegara mesmo a pegá-la pelo braço como se quisesse levá-la ao quarto, mas deve ter havido algum estalo em sua cabeça, porque recolheu as mãos, cruzou-as nas costas e disse que ia pescar. Ia pescar, ia pescar. Pensava que queria estar com ela mais uma vez, pensava em experimentar novamente uma coisa que já antes experimentara sem resultado, mas agora, pensando bem, não queria mais isso, ia pescar, não ia passar por mais nada do que passara na companhia dela, preferia a companhia dos peixes, que não feria tanto, gostava muito dela, mas estava preferindo a companhia dos peixes. Por que, perguntou-se ela, naquela hora, não tinha dito o que lhe tinha vindo à mente, ou seja, que pronunciaria a frase que tanto fazia falta? Não sabia, mas a intenção de falar ficou presa na garganta. Seria por que gostava dele tanto agora que se dispunha a fazer o que sempre recusara e ainda resistia, talvez só por capricho? Ou seria só porque, depois das palavras de Capitão Cavalo sobre a toca do tempo, ela queria ter filhos de confiança para cuidar da toca no futuro? E, afinal, haveria realmente diferença entre uma coisa e outra, considerando que não mentia, quando confessava gostar dele? Balduíno, que, embora meio cético e apressado, havia prometido até a si mesmo trocar umas palavras com ela sobre Iô Pepeu, não tinha vindo para conversar sobre esse assunto. Mas, como foi ela a primeira pessoa que viu, na soleira da varanda da casa grande, conteve a afobação que o agitava e se deteve um instante.
— Tu muito má com Iô Pepeu — falou.— Tu bem que devia casar com ele, não custa nada fazer o que quer, é pura maravadeza. Tu boba.
Ela não respondeu, até porque Balduíno, depois de perguntar aereamente se Capitão Cavalo estava em casa e entrar sem esperar esclarecimentos, encontrou a Degredada, Hans e Capitão Cavalo sentados a conversar. Ah, dá licença desculpassem índio, mas índio tinha de contar a eles o que estava sucedendo, o pandilheiro do Borges Lustosa estava armando qualquer coisa contra todos eles, estava com certeza tramando mandá-los para o inferno, sendo que, no caso do índio, literalmente, tinha certeza. Os outros o ouviram com atenção. Já dispunham de algumas informações, mas não sabiam que a situação havia chegado a esse ponto, inclusive com a participação de D. Afonso Jorge e Tome Ferrão. Toda a ilha estava correndo o risco de se enlouquecer, cada um pensava uma coisa mais maluca do que a outra. Verdade, Balduíno tinha razão, era preciso tomar alguma providência.
— Capitão manda canhão, manda cavalaria, cobre de cacete toda essa gente, estora tudo — sugeriu Balduíno, suando muito.
— Não, nada disso — retrucou Capitão Cavalo. — Não vou fazer nada disso, não quero saber de guerras. E foi assim que começaram a usar de fato a toca do tempo, sobre a qual aprendiam cada vez mais, embora não entendessem nada de seus mecanismos misteriosos. Agora tinham certeza de que, enquanto ó presente parava, ilimitados e indefinidos futuros ficavam em perpétua gestação e o tempo os recebia ao acaso, não tinha preferências. Ou podia ser levado a tê-las, pelo menos por exclusão, embora não por inclusão. Escolher um dos futuros disponíveis, sim; plasmar esse futuro, não, não parecia ser possível. Como não? Cada mudança mudava tudo mais, mas como saber? Ah, que coisas confusas, que coisas mais que confusas! Entenda-se isso, entenda-se isso, dizia Hans, com cara de choro. Há vários futuros lá fora, fora não sei de onde e agora talvez possamos rejeitar uns, aceitar outro, mudar de pensamento, rejeitar este, procurar outro, rejeitar ainda este e procurar outro e outro! Não é possível, não é possível! E sua perplexidade se justificava ainda mais, porque muitos novos fenômenos se tinham apresentado, como numa floresta cheia de bestas e plantas insólitas. De certa maneira, pelo visto, podiam viajar ao passado e mudar os futuros e, portanto, devia também haver muitos passados. Hans não se conformava com essa situação incompreensível e queria explicá-la, passando dias trancado e enredado em contas, fórmulas e mapas astronômicos, mas não chegava a lugar algum, tendo se conformado, sob grande resistência, a ficar em silêncio, a não ser por um palpite ou outro, enquanto a Degredada, Capitão Cavalo e Crescência, que já havia aprendido a ler e lera, falando às vezes como um bacharel, discutiam os usos práticos da toca do tempo, sem questionar o que para eles simplesmente era.
Ah, como ia e vinha a ilha do Pavão, depois que os quatro praticamente se mudaram para o morro da Pedra Preta. No primeiro futuro que lhes foi dado a conhecer, um súbito ataque de erisipela incapacitou o intendente Tome Ferrão, fortalecendo as hostes de Borges Lustosa, mas também alimentando as ambições de muitos outros, a ponto de, quando os quatro tomaram ciência do que ocorreria, terem corrido de volta aonde estavam antes. Noutro deles, o mestre-de-campo Borges Lustosa perdia de vez a razão e passava a apresentar-se como o rei de Veneza, envolvido em trajes de veludo púrpura. Oh, senhoras e senhores, como os futuros são caprichosos! Num deles, acontecia tudo o que gostariam que acontecesse, com a ilha livre, em paz e harmonia, mas Hans morria por mordida de cobra. Regressando às pressas, salvaram Hans das presas da jararaca que dentaria seu calcanhar, mas o futuro que substituiu este lhes mostrou o mestre-de-campo Borges Lustosa pavoneando-se na condição de duque e tirano da ilha e mandando esquartejar Balduíno Galo Mau, depois de envenenar D. Afonso Jorge num banquete comemorativo do restabelecimento da nova ordem. Em outros futuros, Tome Ferrão exterminava todos os seus inimigos com a ajuda de D. Afonso Jorge, com este na condição de rei da ilha, aquele duque governador e todos os habitantes submetidos a um jugo cruento, voluntarioso e sem peias. Em outro, as frotas portuguesas contratavam pilotos da ilha e se apossavam de tudo outra vez, trazendo de volta tudo o que os quatro queriam para sempre abandonar e esquecer. Em ainda outro deles, os acontecimentos levaram Balduíno, à posição de rei da ilha, o que consideraram, com o apoio dele, que gritava "eu bom rei, eu rei ótimo, eu rei a seu seriviço" e ficou tão assanhado que passou duas noites sem dormir, até uma possibilidade aceitável, mas o que vinha depois, em matéria de devassidão, decadência e tudo o que Balduíno não considerava importante para a existência humana os fez desistir. Viram também a ascensão tumultuada ao poder de Borges Lustosa, com alianças feitas e desfeitas a toda hora, compromissos esquecidos e traições a granel, com grande desassossego em uma vila atrás da outra, mudanças de comando, volta da escravidão, morticínios e hostilidades perenes. E todos os futuros, depois de descartados, voltavam aleatoriamente, aparentando a mesma face mas sutilmente modificados, de modo que quase se desesperançaram, até que lhes apareceu uma revolução no quilombo, chefiada por um mulato sem sangue congolês chamado Juliano, que fazia os escravos se rebelarem, os aristocratas quererem matar-se uns aos outros, a Irmandade de São Lourenço desvairar-se em rivalidades e todo o reino de Afonso Jorge desmoronar, com ele implorando pela própria vida, sob o risco de ser simultaneamente empalado e enforcado.
Nenhum dos quatro conhecia Juliano, mas, depois de tanto matutar, decidiram que não iam esperar mais, fariam aquela escolha. Ele não queria ser rei de coisa alguma, queria apenas desmantelar o quilombo e viver como todos os outros habitantes da ilha. Depois, depois... Ninguém sabia o que viria depois, porque os futuros se embaralhavam de forma inacompanhável. Muito bem, o quilombo viria abaixo por sua própria vontade, D. Afonso Jorge seria no máximo rei de suas mulheres, as vilas escolheriam seus próprios destinos, provavelmente tudo iria acontecer como já queria a maioria, Borges Lustosa seria duque de São João, não mais da ilha, padre Tertuliano seria grão-bispo também de São João e, mais tarde, talvez de toda a ilha, até porque, em seu papado, padres e freiras poderiam continuar consagrando-se à vida religiosa, mas casando-se ao bel-prazer. E Balduíno, detentor de segredos básicos dos homens e da Natureza, continuaria como despachador, sempre influindo aqui e acolá e desfrutando da vida que sempre quis ter, com os outros índios também podendo morar nas vilas. E, enfim, que afinal fosse tudo como Deus quisesse e, se Deus quisesse, continuariam sua existência singular e protegida pela Natureza e pelos mistérios das durações, podendo sair do tempo e do mundo em volta, conforme as necessidades, contrabandeando como sempre contrabandearam e fugindo dos inimigos só ao entrar na esfera e acender o pavão.
— É, ainda queria perceber como tudo isso sucede, mas não posso — disse Hans. — E, como não posso, estou de acordo com todos. Acho que seremos felizes. E acho que devemos usar essa toca do tempo só com a máxima cautela e só em último caso e também acho que devemos cuidar que ela seja protegida para sempre.
Balduíno, que havia passado todos aqueles dias no Sossego Manso, querendo falar mas sabendo que não devia e, por não lhe contarem sobre a toca, não podia, olhou para Crescência mais longamente do que ela suportava, até que obteve uma resposta abespinhada. — Que é que tá me olhando? — Eu nada — disse ele, com uma cara sem-vergonha. — Eu tava era pensando no meu amigo Iô Pepeu.
XL
Há um riachinho, chamado ribeiro do Curuçu, que corre cascateando, sem alarde mas com elegância, por trás da Casa dos Degraus, para desaguar discretamente na angra do Bispo. À beira dele com os olhos melancólicos da infância agora tão passada, Iô Pepeu segurou a cabacinha e despejou na água o resto de seu conteúdo. Estava convencido, depois do novo ataque de priapismo que tinha tido depois de tomar seus últimos golezinhos, de que não precisava dela. Não precisava de mais nada, pensando bem. A lembrança de Crescência ainda confrangia seu coração, a ponto de lhe tirar o fôlego e o apetite, mas aprendera a portar uma resignação fatalista, era assim e assim continuaria, ele com suas muitas mulheres, agora esquecidas durante semanas ou meses, ela lá com suas conspirações, na companhia de Hans, a Degredada e Capitão Cavalo. Sabia que ela estava no Sossego Manso e de lá não saíra desde a última vez em que se viram, mas não ia lá, não tinha boa recordação desse dia em que de novo quase lhe implorara que dissesse as palavras que ela sempre lhe recusara. Mudara tudo, mudara a ilha, mudara a vila. Agora o mestre-de-campo era duque e havia ducados independentes, barões e viscondes em todas as outras vilas, embora os nobres não fossem mais do que figuras emproadas e vistosamente ajaezadas, sem que ninguém lhes desse muita importância, mesmo pagando as moderadas taxas necessárias para que as ruas se conservassem, as igrejas tapassem as goteiras e uma ou outra obra pública se levasse a cabo. O duque de São João parecia satisfeito com a nova situação e, surpreendentemente, cuidava das obras públicas e outros deveres menores como se tivesse nascido para aquilo. Suas desavenças com Tome Ferrão e os outros pretendentes ao poder haviam desaparecido sem combates ou confrontos graves, tendo toda a ilha aceitado a autoridade eclesiástica de Tertuliano I, grão-bispo geral, e as mudanças que ele havia introduzido, para satisfação geral, dos padres e freiras, às mulheres de padres e aos freiráticos.
O mulato Juliano, depois de, inesperadamente, ter conseguido juntar uma pequena multidão de adeptos para atacar a sede da Irmandade de São Lourenço e libertar um amigo, havia causado o desmoronamento do reinado de Mani Banto, com a libertação indiscriminada de todos e o ostracismo de D. Afonso Jorge. Este, depois de quase ter sido apedrejado, enforcado, esquartejado, esfaqueado, flechado, fuzilado, canhonado, incinerado vivo, envenenado, afogado, atirado de despenhadeiros ou dado de comer aos jacarés, havia simplesmente sido banido, junto dos três ou quatro seguidores que lhe sobraram, das terras do antigo quilombo, agora propriedade mais ou menos coletiva de todos os que ficaram por lá. Conseguira levar consigo algo de sua riqueza e planejara fugir para a Bahia, onde achava que se estabeleceria como aliado da corte portuguesa, mas lhe fizeram ver, a muito custo, que, na situação atual, seria tido apenas como negro fugido, posto a ferros e provavelmente escravizado. Humilhado mas mantendo o orgulho, mandou um emissário a Balduíno Galo Mau para obter uma carta de alforria falsa, que lhe chegou às mãos com rapidez e eficiência. Depois disso, pagou uma pequena fortuna a Felisberto Gaivota para que o levasse, com seus três ou quatro seguidores, para a Bahia, onde, segundo se comenta, administra uma casa de putas muito próspera, em que exige ser tratado pelas mulheres como Sua Majestade e bate em todas com equanimidade, recebendo figuras de relevo da sociedade — do clero, da nobreza e do funcionalismo —, vivendo, de certa forma uma boa vida, embora desgostosa.
Seguia assim a existência em São João. Hans, de volta a aldeia índia da Beira da Mata, de onde só saía para uma visita ou outra à Degredada ou a Capitão Cavalo, cuidava de seus filhos e pensava muito, inutilmente, nos mistérios da toca do tempo. Capitão Cavalo, apesar de preocupado com o filho, ia continuando a ficar no Sossego Manso, sem querer saber de muita coisa, a não ser do que se fizesse necessário para manter a ilha longe de intrusos indesejáveis. E a Degredada, em sua furna, continuando a tratar de doentes e a ter fama de feiticeira, agora tão feliz que estava sempre com uma expressão de sorriso. É isso mesmo, pensou Iô Pepeu, acabando de derramar a última gota da cabacinha no riacho e logo depois ela mesma, a vida é o que se tem, não o que se quer, mas se sobressaltou muito, quando, ao chegar de volta à varanda da Casa dos Degraus, tomou um susto. Sentada na rede grande onde ele agora costumava passar horas com a mente vazia e olhando para os ares, lá estava Crescência.
— Como estás? — disse ela. — Vim ver-te.
No primeiro instante, ele ficou com raiva, achou que ia ser vítima de outro vexame malvado e quase não fala com ela. Mas um resto de altivez lhe sobrou e, como se não pretendesse parar mais do que alguns instantes, falou-lhe, afetando indiferença.
— Há quanto tempo — disse. — Estás bem, a vida no Sossego Manso faz-lhe bem.
Não estava somente bem, estava gloriosamente linda, um alabá vistosamente estampado sobre a pele, os cabelos encaracolados lhe emoldurando o rosto como numa pintura, o sorriso mais luminoso do que todos os sóis e ele quase desatou a chorar.
— Ouviste bem? — disse ela. — Vim te ver.
— Ouvi, ouvi. Mas tu é que nunca mais vais ouvir o que tanto te supliquei. Se é para isso, podes muito bem voltar ao Sossego Manso. Volta, vive tua vida, esquece de mim, esquecerei de ti também, pelo menos da forma que me perseguia.
— Vem comigo — disse ela, levantando-se e pegando-o pelo braço.
Ele relutou, mas terminou por não resistir e a acompanhou até o quarto grande, onde ela, deixando-o parado e quase estarrecido à beira da porta, foi para junto da cama, cruzou os braços em torno das abas do alabá e o tirou, aparecendo diante dele como uma deusa jamais vista por olho humano.
— Vem — disse ela. — Vem.
E, sem esperar, puxou-o para a cama, com um olhar que nunca lhe lançara.
— A ela sem pena — disse ela. — A ela sem pena! Ah, quem estava distraído nessa hora afirma que a tarde se iluminou de rosa e carmim, o ar se perfumou e toda a orla da ilha do Pavão faiscou. Não se sabe se isso é verdade, mas parece que sim, porque passaram um tempo infinito um dentro do outro e gozaram como ninguém nunca gozou neste mundo, atravessando a longa noite abraçados e amantes, nada de ruim podendo alcançá-los.
De noite, se os ventos invernais estão açulando as ondas, as estrelas se extinguem, a Lua deixa de existir e o horizonte se encafua para sempre no ventre do negrume, as escarpas da ilha do Pavão por vezes assomam à proa das embarcações como uma aparição formidável, da qual não se conhece navegante que não haja fugido, dela passando a abrigar a mais acovardada das memórias. Logo que deparadas, essas falésias abrem redemoinhos por seus entrefolhos, a que nada é capaz de resistir. Mas, antes, lá do alto, um pavão colossal acende sua cauda em cores indizíveis e acredita-se que é imperioso sair dali enquanto ela chameja, porque, depois de ela se apagar e transformar-se num ponto negro tão espesso que nem mesmo em torno se vê coisa alguma, já não haverá como. Ninguém fala nesse pavão ruante e, na verdade, não se fala na ilha do Pavão. Jamais se escutou alguém dizer ter ouvido falar na ilha do Pavão, muito menos dizer que a viu, pois quem a viu não fala nela e quem ouve falar nela não a menciona a ninguém. O forasteiro que perguntar por ela receberá como resposta um sorriso e o menear de cabeça reservado às perguntas insensatas.
FIM
Fonte: livrosparatodos.net