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O Feitiço da Ilha do Pavão

(João Ubaldo Reibeiro)

— A ela sem pena, a ela sem pena! — continuou ele incessantemente, já depois de levantar-se e começar a marchar dramaticamente pelo quarto, puxando os cabelos e se dando palmadas violentas no traseiro, entremeadas por todas as imprecações de que conseguia lembrar-se, mesmo sem entender o que algumas delas queriam dizer. Encolerizado, avançou em direção ao aparador onde havia depositado a cabacinha, bebeu o pouco que restava de seu conteúdo e novamente agitou e estapeou seu falo inerte, sem receber de volta a menor reação. Crescência nem se mexia, nem modificava a expressão e somente não tirava os olhos dele, que deu dois pulos repentinos no mesmo lugar, abaixou-se, apanhou a roupa, vestiu-se às pressas e saiu, batendo a porta com estrondo. Mas, tão logo caminhou alguns passos pelo corredor, sentiu que de novo se intumescia e executou uma meia-volta triunfante, para escancarar a porta do quarto e exibir-se ostentoso a Crescência, que ainda permanecia na cama, com a mão direita roçando o púbis.

— Olha! Espia! Vê! Toca! — bradou ele, para, um instante depois, presenciar o mesmo encarquilhamento súbito que antes o devastara, suspender as calças e, outra vez fora de si, sair com a mesma pressa com que entrara.

Terra em que ninguém de fato se surpreendia com o vigor amoroso de homens, mulheres e bichos de todas as raças e matizes, a ilha do Pavão jamais foi palco de furor priápico nem sequer comparável ao que avassalou Iô Pepeu, depois do infausto episódio. Invadindo a cozinha descabelado, puxou Eulâmpia pelo braço e arrastou-a para outro quarto, com ela, em antecipação do que se passaria, já gritando "a ela sem pena!" pelo trajeto, para logo após se aturdir com o vigor com que ele lhe suspendeu os panos e penetrou-a rudemente, sem as exortações habituais. E, com ela ainda arfante e dolorida, dir-se-ia que não houve mulher na Casa dos Degraus ou suas cercanias que não fosse igualmente atacada, até a chegada da noite. Não que essa chegada houvesse detido o arrebatamento de Iô Pepeu, pois, com os olhos chamejantes e os lábios trêmulos, muniu-se de um archote de pescador e disparou para a baixa do Alecrim, onde ordenou que lhe servissem a mais forte das jeropigas disponíveis, no maior dos canecos à mão, exigindo serviço de todas as mulheres, sem dispensar nem mesmo Mirinha Vesga, que já não estava acostumada a essa função, mas aquiesceu, estarrecida diante da veemência com que foi convocada.

E dessa forma raiou o dia na vila de São João, Iô Pepeu desabado de exaustão e vinhaça na cama onde forcejara para extravasar seu eretismo desmesurado e onde, mesmo adormecido, ainda balbuciava nomes de mulheres e praguejava contra o destino inclemente a que o condenara a teimosia de Crescência. Nos ares, um sol vigoroso e alegre irrompia sobre o casario, o mar e os campos, tudo levando a crer que, não fora pelo infortúnio de Iô Pepeu, a força de tal beleza emoldurava uma povoaçâo feliz e livre de cuidados, todos tratando de seus afazeres e prazeres cotidianos, uns felizes, outros nem tanto, como ditam os desígnios da Criação. Mas não era bem assim, pois se ultimavam os trabalhos de instalação da Mesa Visitadora e pavores excruciantes assediavam os corações de um número inestimável de joaninos. Nunca se viram tantas velas acesas em nichos, edículas, oratórios e capelas, tantas imagens, medalhas e bentinhos beijados a cada instante, tantas preces fervorosa e prolongadamente sussurradas aos pés dos altares, nunca tantos santos normalmente deslembrados foram recordados — eis que se sabe que, como demonstra o exemplo do excelente São Judas Tadeu, de tão infeliz homônimo, os santos esquecidos ou ignorantemente desprestigiados revelam, ao serem despertados do imerecido olvido, invulgar desempenho na solução das causas em que sua intervenção lhes é suplicada. Constelação inarrolável de tais celícolas foi conclamada pelas consciências atribuladas de toda a ilha e certamente paira sob esse firmamento mais que azul, na busca de consolar e dar a mão a seus devotos, antigos ou recém-conquistados. O olho privilegiado, bem como o ouvido abençoado pela Graça infinitamente misericordiosa, reconheceria nos espaços etéreos São Leandro, incorrompível conversor de visi-godos e irreprochável aconselhador de freiras; Santa Matilde, viúva sofredora e resignadíssima mãe de filhos ingratos; Santo Anascário e seu biógrafo, o igualmente santo São Remberto, ambos de virtudes inexpugnáveis, que só queriam de Deus ser apenas homens bons; Santo Elói, patrono dos ferreiros, ourives e escultores de obras sacras; Santa Brígida, fundadora da ordem do Santíssimo Salvador, que acolhia mulheres e homens castos, aspirantes à glória eterna. E mais tantos outros, Santa Godeliva, a protetora das noras perseguidas, Santa Batilda, São Julião Hospitaleiro, São Nicéforo, Santo Edmundo, São Jacinto, Santa Agatonice, santos, santos e mais santos, em esforçado socorro a seus devotos, mesmo dós que só tiveram notícia deles depois da chegada das agonias deflagradas pela Visitação.

Mas a fé humana vacila e fraqueja diante da adversidade, conquanto isto não deva ser motivo de excessiva culpa, pois que o próprio Pedro, sob cujo nome se edificou a Santa Igreja, chegou a três vezes negar o Cristo, de quem depois se tornou seu primeiro vigário e guardião das portas do Paraíso. Será talvez por isso que, do largo da Calçada ao campo da Fortaleza, da própria baixa do Alecrim à rua Direita, de canto em canto e beco a beco, em pouco coisa mais se fale, apesar da proteção dos santos, promessas e atos votivos, do que naquilo que a Visitação pressagia. Alguém deixava de conhecer ou impressionar-se com as histórias tremendas do que obrara o Santo Ofício em todos os reinos, com exceção dos bárbaros, excomungando, queimando, esquartejando, empalando, triturando ossos, garroteando, afogando e encomendando as almas imortais dos ímpios às punições eternas dos infernos? Contava um a triste história de um certo Vasco Simões, marrano tornado cristão-novo, mas depois denunciado como novamente ajudeuzado, por sua postura furtiva, seu sorriso suspeito, sua excessiva cordialidade, sua caridade que só podia ser falsa, suas artimanhas de judeu, murmurando-se haver ele secretamente regressado à sua seita estrangeira e anticristã, praticando à sorrelfa seus ritos malditos, mesmo casado com mulher católica, batizando os filhos, indo à missa, confessando-se e comungando, só para que não percebessem suas maquinações diabólicas. Mas, embora escudado por esses ardis, não conseguiu enganar a argúcia divinamente inspirada do Santo Ofício, que o condenou à fogueira, após sevicíá-lo até que não pudesse mais ficar de pé ou falar—prova cabal de que Deus não queria que continuasse a proferir seus juramentos mentirosos de inocência —, confiscar seus bens e amaldiçoar seus descendentes até a quinta geração, apesar de que, com a misericórdia própria da Santa Madre, lhes houvessem consentido viver em liberdade, sob a justa restrição de submeterem-se às muitas penitências que sua condição odiosa lhes impunha. Não seria Simão Pereira, seleiro na rua Direita, proveniente dessa genealogia infame? Não estariam seus amigos e fregueses arriscados ao mesmo trevoso destino? Não haveria outros igualmente suspeitos? Ah, Deus nosso que estais no céu e que tudo vedes, como escapar, como escapar à mão onisciente do Salvador, quando tudo indicava que ela se abateria implacável sobre os pecadores? E assim multiplicavam-se as histórias, geralmente narradas pelos mais velhos e repetidas com retoques pelos mais novos. E os temores aumentavam em cada um que deparava as cataduras severíssimas do padre Tertuliano da Mota, do escrivão Terêncío Góes e mesmo do seminarista João Manuel Taborda, que, apesar da juventude ainda quase lampinha, exibia feição tão austera que mesmo as beatas mais velhas lhe procuravam a bênção, concedida de cenho franzido e ares ponderosos. Deus do céu, já intimavam os primeiros depoentes, já circulavam aimorés de acusações seríssimas, já toda a vila se preparava para a antevisão terrificante do Juízo Final.

XXXI

Relâmpagos cegantes, raios fulminando o mar, trovões terremoteiros e uma chuva de assombrar Noé, eis talvez a manifestação da ira divina sobre os numerosíssimos pecados que, nesta noite tremebunda, depois de quase dois meses de trabalho infatigável, a Mesa Visitadora já coligiu entre os moradores da vila de São João. Mas só talvez e nem sequer talvez, como ainda não sabemos com certeza. Sabemos que, denunciado pela mulher e intimado a depor, o jogador de mosquinha Bororó se viu tomado de tamanho pavor que, no dia do depoimento, amanheceu morto e hirto, com o peito estranhamente empinado e a boca escancarada, sobre cuja comissura direita, por ironia dos fados ou escárnio do Inimigo, revoava uma mosca igual àquelas que o levaram à perdição. Esse terrível acontecimento teve como imediata conseqüência o desaparecimento de seus companheiros Nanásio, Bico Preto e Nunciaçâo, desde então procurados em vão por toda parte, embora haja quem se benza em gratidão aos anjos, por haverem livrado a vila de prática tão amaldiçoada quanto o jogo da mosquinha. E sabemos de diversos outros sucessos, peripécias e perigos, o principal dos quais, como depois se verá, é que os milicianos Domitilo e Cosme, depois de artes e denúncias como sempre mal esclarecidas, confessaram chorosamente que se prestavam, com alguma freqüência, ao uso carnal do mestre-de-campo Borges Lustosa. E alguns alunos e ex-alunos do mestre Moníz Andrade contaram suas práticas, e, enfim, muitas situações antes envoltas pelas mantilhas do segredo foram desdobrando-se diante dos ouvidos atentos da Mesa.

O que certamente ainda não sabemos é quem é ou o que está fazendo, mal discernível em meio às trevas ensopadas, um vulto encolhido e disfarçado, embrulhado num gabão impenetrável que só lhe deixa os olhos à mostra, assim mesmo através de uma fresta mínima, que lhe permite enxergar apenas o suficiente para não errar sua direção, ou afundar-se em algum buraco encoberto pela água. Quem será essa figura sombrosa, a cambetear quase encostada nas paredes das casas, como se pretenda ser totalmente invisível, e a afetar um passo claudicante, que não lhe parece ser natural? Talvez porte na consciência dores imencionáveis até para si mesmo e pecados onerosíssimos, mas tal condição seria, ainda que em parte, responsável pela aparente fúria da potestade celestial, ou ela, havendo estabelecido que os homens são livres para escolher seus próprios caminhos, deixa apenas que a Natureza siga seu comportamento voluntarioso de sempre? O curso da História é caprichoso e arisco, dependendo do olho de quem a observa, do pensar de quem o examina e dos vezos. de quem o narra, fruto das humanas limitações de que ninguém escapa. Haverá sempre quem duvide ou contradite, mas a verdade é que esse vulto atabafado é ninguém menos ninguém mais do que o mestre-de-campo José Estêvão Borges Lustosa, regressando de uma visita tardia à casa paroquial. Visita à casa paroquial, com esse tempo e a essas desoras, casa paroquial que agora hospedava os componentes da Mesa? E para uma reunião a portas fechadas com o próprio padre Tertuliano da Mota? Enigma sobre enigma, ainda mais se se chegar o ouvido perto do mestre-de-campo e se escutar que, surpreendentemente, ele não rumina os pensamentos elevados que deveriam haver resultado de tal encontro, mas pragueja contra o índio Balduíno Galo Mau. Miserável, patife, velhaco, ordinário, maldito entre os malditos, filho de uma puta! Se não fosse ele, ah, se não fosse ele, como os acontecimentos teriam face tão diversa! Mas agora não, agora estavam todos nas mãos daquele selvagem desqualificado e impudente, cujo testemunho não devia valer nada para qualquer homem decente, mas infelizmente valia, e se fosse dado publicamente, desencadearia uma sucessão desastrosíssima de conseqüências. O fato era que Balduíno sabia, sabia de tudo, sabia absolutamente de tudo e vendia muito caro manter a bocha fechada, caro demais, intoleravelmente caro demais. Daí a pouco seria o dono da vila, seu senhor incontestável. Se já não fosse, se já não fosse! Como aquele índio safardana havia conseguido aquilo tudo, já praticamente um nababo, tomando todo tipo de ousadia e cuspindo ordens como um grão-senhor? Desconhecia o mestre-de-campo quase tudo o que arquitetara e realizara Balduíno, cuja presença era agora permitida na vila, depois que Capitão Cavalo argumentara que os índios precisavam de pelo menos um representante em São João, que comprasse mantimentos, vendesse cestos, potes, caça, frutas e ervas, desse recados e assim por diante, sem que ninguém, inclusive o indignado Borges Lustosa se houvesse atrevido a contra-argumentar. Tinha pleno conhecimento do episódio do telhado, é claro, mas ignorava completamente como haviam surgido as suspeitas do índio, como descobrira tudo o que com tanta desfaçatez lhe lançara ao rosto. Como, como soubera das confissões de Domitilo e Cosme, como chegara à conclusão de que deveria subir ao telhado da casa paroquial tal dia, às tantas horas, para ver e ouvir o que ninguém na face da Terra devia presenciar? Era o diabo, era o diabo encarnado, esse índio bodoso que, mais dia, menos dia, teria que ser varrido da face da terra, atirado ao mar para que se afogasse e fosse comido pelos siris. Feiticeiro, só podia ser feiticeiro, aquilo era obra de feitiço, morte na fogueira era pouco. Mas como vencê-lo? O mestre-de-campo se deteve um instante na varanda aberta de uma casa.e, deixando repentinamente de imprecar e contorcer o rosto irado, deu um sorriso, que começou tímido, mas quase se transformou numa risada. Sim, era isso mesmo! — e, saindo outra vez à chuva, no começo esquecendo até de disfarçar o andar como antes, entregou-se com enlevo a pensamentos políticos.

O que de fato ocorreu, mais ou menos um mês e meio atrás, foi que esse feiticeiro, esse diabo encarnado, recém-autorizado a regressar à vila, estava na casa de Mirinha Vesga, onde passara toda a tarde bebendo na companhia de Iô Pepeu, que se queixava lastimosamente do recente malogro com Crescência. Não duvidava dos poderes da tisana, já que se tornaram tão patentes em todas as situações. Menos com Crescência, aquela mulher desumana, que tinha evidente prazer em vê-lo sofrer tamanha humilhação.. Sinceramente consternado, Balduíno filosofou sobre a condição humana e a fraqueza do macho, mas foi obrigado a confessar que a única coisa que podia fazer era preparar mais um pouco da tisana. Talvez funcionasse da próxima vez, ele a faria ainda mais forte que a primeira. Iô Pepeu lhe perguntou se ele poderia dizer a Crescência uma palavra em seu favor, mas Balduíno respondeu que de nada adiantaria, talvez até piorasse a teimosia dela. E Iô Pepeu terminou por ir embora para a Casa dos Degraus, cabisbáixo e cambaleante.

Aborrecido com a situação do amigo, sentindo falta dos índios seus companheiros, Balduíno se serviu de mais um copo de seu garrafão. Queria mudar de cachaça. Estava de cachaça esmorecida e não queria ficar assim, queria uma cachaça um pouco mais animada. Não havia de ser difícil e ele desfranziu o cenho para tomar a primeira talagada na intenção certa, pensando até que depois chamaria uma mulher para se divertir com ele. E já estava com o copo junto à boca entreaberta, quando entrou, arrastando os pés e com um chapeirão enfiado na cabeça até o nariz, o miliciano Domitilo, e Balduíno, sem saber como, sentiu que alguma coisa ia sair dali. Não sabia mesmo como, mas já tivera aquela sensação antes, nunca falhava. Domitilo, que dois dias antes fora interrogado pela Mesa, estava trazendo algo muito importante, em suas costas arqueadas.

Muitíssimo importante, aliás; tão importante que Balduíno mal podia conter a vontade de remexer-se no tamborete e manter a expressão de solidariedade que considerou adequada a suas pretensões. Ofereceu um pouco de sua preciosa supupara a Domitilo e fez questão de ir pessoalmente lá dentro, buscar um copo de vidro que só reservava a gente da alta consideração, como o miliciano. Não falou nada, é claro, mas tirou do bornalzinho que trazia à cinta um embrulho em folhade bananeira, do qual despejou um pouquinho de pó esbranquiçado, que se dissolveria ao primeiro contato com a cachaça e não seria notado por Domitilo. Era uma erva dormideira, encomenda de Rui da Lua, assim chamado porque tinha dificuldade em dormir e, quando não tomava o pozinho, passava as noites em claro, com os olhos arregalados debaixo de um lampião e diante um livro que começara a ler havia muitos anos. Mas aquele bocadinho só não ia fazer falta a Rui da Lua e, tomada com cachaça, tinha o efeito oposto à tomada com água. Transformava quem a ingeria num tragueado falastrão, capaz de contar com grande prazer qualquer coisa que lhe perguntassem sobre sua vida. Como de fato aconteceu entre Domitilo e Balduíno, que por via das dúvidas, começou a beber em golinhos espaçados, para não correr o risco de tomar demais e vir a esquecer alguma coisa.

Embora o prazer de Domitilo se manifestasse através de um semblante dorido e ansioso por comiseração, a qual Balduíno lhe prodigalizava, foi realmente com satisfação, quase felicidade, que Domitilo narrou os sucedidos. Contou que, por denúncia partida não sabia de onde, o Visitador lhe perguntara se era fato que seu vaso traseiro era assiduamente usado como se fora vaso dianteiro de mulher e ele, depois de muito chorar e tremer de medo dos castigos, achou que melhoraria sua posição, se revelasse que Cosme também fazia a mesma coisa e eram a isso compelidos por ordens enérgicas do mestre-de-campo. Contudo não faziam isso com mais ninguém, nem na passiva nem na ativa, eram homens até o fundo de suas naturezas, cumpridores dos deveres, heróis da Sedição Silvícola, tementes a Deus e casados com filhos. O Visitador, antes impassível, ficara muito irrequieto com a história e, sem quê nem para quê, disse ao escrivão que não mais escrevesse o que se falava ali, mandando também que apagasse o já anotado. Era uma questão delicadíssima, sobre a qual precisava meditar com a gravidade adequada. Em seguida ordenou que a história fosse repetida, sempre com exigência de pormenores, chegando mesmo a indagar se o mestre-de-campo os enrabava metido em seu uniforme de campanha. Pelo menos envergando a túnica? E muito mais perguntas fez, durante o que parecia ser uma eternidade, até mandá-lo embora e dizer que aguardasse uma palavra de Mesa, sem falar sobre o assunto com ninguém. Agora não sabia o que lhe aconteceria, nem a Cosme, mas os visitadores não podiam ser injustos, devendo pegar a maior das penas o mestre Borges Lustosa, único responsável por aquela triste situação. Mas home, mas home, que é que índio tá ouvindo, pensou Balduíno, esfregando as mãos por baixo da mesa.

Pensou muito mais ainda, depois que Domitilo esgotou o assunto e passou a contar sua vida inteira, desde a infância, até emborcar-se sobre a mesa, vomitar no chão e ser posto para fora por Mirinha. Com que então o mestre-de-campo, com aquela cara de santa puta arrependida, ia aos eus da soldadesca, bonita notícia! Balduíno resolveu imediatamente que não diria nada a ninguém, a informação era preciosa demais para ser dividida. Ainda não podia provar nada, mas sabia, de fonte mais que limpa, que seu inimigo era um fanchão e estaria perdido se isso viesse a ser sabido. Calma, muita calma, cautela, muita cautela. Alguma coisa terminaria por acontecer, para ajudá-lo a usar o que sabia. Por que o padre mandara apagar as anotações? Por que ficara tão interessado nas minúcias da história? Sim, alguma coisa aconteceria, pelo menos alguma vantagem do mestre-de-campo o padre queria, devia ser dinheiro, aquele padre tinha cara de ladrão.

E já acontecera, antes da noite procelosa em que o mestre-de-campo palmilhava o caminho da casa paroquial à sua própria. Balduíno já tinha tirado e continuava tirando amplo proveito da situação. Mas agora o mestre-de-campo sabia como agir, e agir muito mais amplamente do que jamais sonhara. Entrou em casa com o queixo empinado e um olhar determinado. Não tinha explicações que dar a Leocádia, sua mulher. Tratava-se de altas questões de Estado e Igreja, que não estavam ao alcance de mulheres. E, pela primeira vez, bendisse a insônia que ultimamente o vinha atormentando, porque poderia passar quase toda a noite dando trela a seu pensamento político, cada vez mais atropelado por uma cascata incessante de idéias audaciosas — ia precisar tomar algumas notas.

XXXII

Sim, dizer que Balduíno Galo Mau virará um nababo talvez fosse exagero. Mas seu passadio mudara consideravelmente e ele agora morava, cercado de luxo, mulheres, bebida e comida, na Casa do Ingá, de longe a maior e melhor de todas na baixa do Alecrim, pela qual pagava renda suficiente para sustentar várias famílias, além de gastar com presentes às mulheres — colares e gargantilhas de ouro, vestidos de tafetá legítimo, chapéus de plumas, perfume e lenços da índia, pecinhas de cambraia e praticamente tudo mais o que pedissem ou lhe desse na telha comprar. Também tinha muitas outras despesas, pois mandava distribuir comida a todos os que a pedissem no portão, dava dinheiro a quem queria tomá-lo emprestado e criava bichos que não comia nem vendia.

E tudo isso começou com a história de Domitilo. Se Borges Lustosa tinha sido denunciado, deveria ser imediatamente convocado pela Mesa, desta vez não como testemunha, como sabiam Balduíno, Domitilo e Cosme, mas como réu. De fato, veio logo a convocação, mas não se falou em multas, penitências e formações de culpa, como no caso dos outros abastados que também foram chamados pela Mesa. Que estaria havendo? Tontice achar, como praticamente todos na vila, que, por se tratar de irmão do poderoso monsenhor Gabriel Borges Lustosa, o mestre-de-campo funcionava como auxiliar da Mesa, certamente era encarregado de missões sigilosas e sensíveis, razão por que agora era tão visto indo e vindo da casa paroquial, até mesmo tarde da noite, compreensivelmente disfarçando o andar. Mas Balduíno não conseguia acreditar nisso. Para ele toda a gente estava sempre a tentar ganhar alguma coisa e esse caso não era exceção. Só que ele não tinha idéia do que se tratava, só sabia que, com certeza, haveria algum proveito a tirar.

É capaz de ter sido o Cão mesmo, vai ver que ele costuma soprar sugestões nos ouvidos de Balduíno, só pode ter sido o Cão. Pois uma bela noite está Balduíno pautando os dentes com um gravetinho de araçá e andando pela rua Direita somente para esticar as pernas cansadas de tanta rede, quando vislumbra a figura do mestre-de-campo saindo de casa, bem a tempo de o índio se esconder por trás de um oitizeiro e perceber à luz da Lua que o capote envergado pelo mestre-de-campo ao sair encobria sua túnica de brilhosos alamares, galões e dragonas. Roupa de festa militar, de chefia de combate, para ir à casa paroquial? O diabo soprou de novo no ouvido de Balduíno. Não tinha dito Domitilo que o Visitador se interessara muito em saber se o mestre-de-campo levava a cabo suas enrabações trajando uniforme? Que queria dizer uma coisa junto com a outra? O Cão cutucou as costelas de Balduíno e ele, como não precisava seguir o mestre-de-campo, pois já conhecia seu rumo, esperou um bom tempo antes de ir também para a casa paroquial. Lã chegando, descobriu, pelos vãos do telhado levadio, que havia luz na sala dos fundos. Impossível ver alguma coisa, através das janelas trancadas. Mas barulho podia ouvir e o que ouviu foi uma conversa surda, em que a voz do mestre-de-campo soava com certa energia, enquanto a do padre parecia submissa, embora forte. Mas não era possível entendê-los e Balduíno pulou a cerca do quintal, subiu ao batente da janela e daí, como um macaco, empolei-rou-se no frontal superior, com os olhos à altura do telhado. Pronto, agora era só afastar cuidadosamente uma telha e criar uma greta por onde pudesse ver o que se passava, além de ouvir melhor o que falavam, até porque as vozes se elevaram um pouco. Quase despenca lá de cima, quando verificou, à luz de dois lampadários, o que estava acontecendo. Deitado de bruços numa camilha de forro aveludado, padre Tertuliano, com a batina levantada até quase o pescoço, olhava para trás, onde se postava com a expressão severa o mestre-de-campo, vestido em sua túnica marcial, mas nu da cintura para baixo.

— Ordens, meu comandante! — disse o padre, com as pernas juntas e o corpo retesado.

— Levanta este eu! À traseira! — ordenou o mestre-de-campo e imediatamente após, num só movimento ágil, o padre ficou de quatro, para ser quase de pronto penetrado com energia pelo mestre, que levou mais tempo do que Balduíno esperara e continuou a dar ordens, como se estivesse à frente de uma batalha.

Balduíno desceu ao chão com o juízo esquentado, suando um pouco na testa. Então, então... Então era isso, era essa a função do mestre-de-campo junto à Mesa. O padre gostava de militares graduados e enérgicos e não pudera sopitar a atração que sentira pelo mestre-de-campo, ao tomar conhecimento da história de Domitilo e Cosme. Nem a atração nem a vontade de satisfazê-la, porque foi franco e direto, no seu primeiro encontro a portas fechadas. Afável, mas firmemente, interrompeu o acesso de indignação e perplexidade com que Borges Lustosa, abalado com a notícia sobre Domitilo e Cosme, procurou sem muita solidez reagir ao que lhe era tão escandalosamente proposto, lembrando o irmão monsenhor e sua reação, se viesse a saber dos fatos. Muito melhor que aceitasse a oferta do Visitador, que assim o prestigiaria, manteria segredo e o livraria de qualquer incômodo. Ainda mais que, afinal, propunha algo que o mestre-de-campo apreciava, como já fora sobejamente provado. Também ele queria ser dominado como os milicianos, queria ser possuído por um militar voluntarioso e enérgico. De uniforme, sim, de uniforme, sonho que sempre acalentara e que nunca julgara poder vir a seu alcance. O mestre-de-campo, sentado na beira da cadeira com os braços entre as pernas, olhou longamente para o padre, que esperava sua resposta em silêncio, aparentando uma paciência sem limites. Mesmo por baixo da batina, via-se que tinha um traseiro ajeitado, empinadinho, quase atrevido. E deixara bem claro que não queria reciprocidade, permanecendo o mestre-de-campo inatacavelmente macho. Sim, isso mesmo, por que não? A vontade de Sua Reverendíssima seria atendida, e com satisfação.

Embora Balduíno não soubesse de todos esses detalhes, foi mais ou menos assim mesmo que imaginou como os fatos se deram. Agora vira e ouvira atos e palavras que, tinha certeza, valiam ouro, claro que valiam ouro, até porque estava seguro de que os membros da Mesa eram uma trinca de salafrários, a furtar tanto a Igreja quanto uns aos outros e muito pouco do que arrecadavam escapava de suas algibeiras. Tinha que falar com o mestre-de-campo e com o padre Tertuliano, já trazia na cabeça o que pediria, ou melhor, exigiria. Mas, antes, atenção no sopro seguinte do diabo que, como se sabe, pode ter todos os defeitos, mas, justiça seja feita, quando faz uma coisa, faz bem feita. Balduíno não podia arriscar-se a enfrentar os dois sem algum tipo de garantia. O mestre-de-campo bem que seria capaz de decepar-lhe a cabeça com aquele espactagão e o padre podia mandar prendê-lo e matá-lo devagar, ele era apenas um índio e nem a proteção de Capitão Cavalo, que morava tão distante, chegaria a valer-lhe a tempo. Não, não, e Balduíno voltou à Casa do Ingá para dormir, para, assim que amanhecesse, procurar Iô Pepeu.

Foi obrigado a ter paciência, porque agora Iô Pepeu estava claramente enredado por Crescência e não cessava de lamuriar-se. Que achava Balduíno da idéia de propor casamento a ela, noivar um pouco e depois casar mesmo? Ela diria finalmente as malditas palavras? Balduíno o consolou o quanto pôde, prometeu de novo mais tisana e disse que ia procurar pensar em qualquer coisa, só que agora não tinha tempo. A muito custo, dizendo tudo o que ele queria ouvir antes de cuidar de qualquer outro assunto, conseguiu que Iô Pepeu o escutasse com atenção. Era muito importante, importantíssimo, disso dependia a própria cabeça de Balduíno. Era o seguinte: se passara tal e tal e tal coisa, era aquilo mesmo que ele estava ouvindo, podia acreditar como se tivesse presenciado tudo. Muito bem, agora que Iô Pepeu sabia, tinha de assumir um compromisso com Balduíno, em nome de sua velha amizade. Assumia o compromisso? Assumia, claro. Balduíno lhe renovara a esperança quanto a Crescência, acreditava que, de uma forma ou de outra, chegaria aonde queria. Compromisso afirmado e reafirmado.

E tal compromisso foi que deu inteira segurança a Balduíno, quando procurou padre Tertuliano, na casa paroquial. No começo, não queriam recebê-lo, mas ele tanto uivou, puxou os cabelos, rolou no chão e se queixou de que não podiam atender a um cristão batizado somente porque ele era índio, que o padre Tertuliano, embora contrariadíssimo, o mandou entrar. Recebeu-o postado à sua escrivaninha e não o convidou a sentar-se. Então, fazendo o rosto do padre ficar pálido como uma parede caiada e quase lhe causar um desmaio, Balduíno, com grande simplicidade, lhe contou tudo o que tinha visto e ouvido, além do que sabia sobre Cosme e Domitilo. O padre, desta feita muito vermelho, gritou que Balduíno não passava de um índio tido como dos mais baixos entre os mais baixos daquela laia pestilenta e que imediatamente pagaria por sua calúnia. Mas Balduíno, sem alterar a voz, contou que confidenciara tudo aquilo a um amigo, um amigo respeitado e querido por todos, , e esse amigo estava instruído a, se Balduíno não voltasse antes de o sino tocar as vésperas, contar tudo a todos na vila. Aliás, se acontecesse qualquer coisa a Balduíno, esse amigo faria a mesma coisa. De maneira que era melhor convocar de pronto àquela sala o senhor Dão mestre-de-campo Borges Lustosa.

O que foi feito e terminaram por reunir-se, depois que o mestre-de-campo, emborrascadíssimo, ameaçou atacar Balduíno, mas foi contido pelo padre. Era difícil, mas procurasse manter a calma, tratava-se de assunto de enorme gravidade. Diante da cara cada vez mais estupefata de Borges Lustosa e com a mesma tranqüilidade de antes, Balduíno expôs as informações de que dispunha e, quando o mestre-de-campo fez menção de sacar o espadagão, berrando que ia rachar sua cabeça em duas, fez nova menção ao amigo que guardava os segredos.

— Vais dizer-nos quem é esse amigo agora mesmo. Vamos ver se o nome dele não sai com uma boa surra de palmatória.

— Índio não diz nada. E índio não quer levar paramatória, não gosta nem de paramatória nem de vergaio pelo traseira. índio avisa amigo é: vai tocar as vespra; se índio não parecer, o amigo vai falar.

— Merecias a morte e ainda a terás, pelas minhas mãos, Deus há de ser servido! Que queres, afinal? Dize o queres e desde já te advirto que, se fores insolente, nada obterás.

— Índio não sabe o que quer dizer solente, mas índio é solente se quiser, índio é qualquer coisa que quiser, não recebe ordes. E bitém tudo que quiser também, bitém qualquer coisa. Mas é, índio quer pouco, pouquinho mesmo, não trapaia nada, índio que biter só pouquinho.

— E que é esse pouquinho? — Dizmo. índio quer dizmo.

— Dízimo? — Isso, dizmo.

Como, dízimo, quem Balduíno julgava que era? Não jurugava nada, só queria dizmo. A Igreja não cobrava dizmo? Então ele também queria dizmo em tudo que a Mesa cobrasse ou apreendesse. Talvez não haja palavras suficientemente capazes de descrever os sentimentos do mestre-de-campo e do Visitador, ao ouvirem essa fala impudente e não poderem fazer nada.

— Vai dar as vespra — disse Balduíno. — Amanhã índio passa aqui, pra começar a cobrar dizmo, os que eu ainda não cobrei e os que eu vou cobrar ainda.

Mas como explicariam esse dízimo ao escrivão e ao seminarista, como justificá-lo? Balduíno respondeu que eles mesmos pensassem numa resposta, não era de sua preocupação. Mas, já junto à porta para sair, resolveu de súbito voltar-se e oferecer a opinião de que o dízimo poderia ser atribuído ao mestre-de-campo, havia boas justificativas para isso, a começar pelo parentesco com o monsenhor Gabriel. Diziam aos outros que pagavam ao mestre-de-campo e na verdade pagavam ao índio, nada mais simples. Bem, vosmecês que sabe, despediu-se Balduíno, para sair e encontrar Iô Pepeu, que o esperava, como combinado, no largo da Calçada. Mal se viram e as vésperas começaram a tocar e Balduíno, com o sorriso mais largo que jamais exibira, abraçou o amigo, havendo dado o primeiro passo na sua, dessa hora em diante, incontida ascensão.

XXXIII

Leocádia, que tinha medo de trovão, com toda a certeza estava tremendo e rezando por baixo das cobertas, mas ele não lhe daria importância. Estivesse do jeito que estivesse, o mestre-de-campo Borges Lustosa, ao entrar em casa batendo os pés e pendurando o gabão encharcado no capeiro, não a procuraria nem para cumprimentá-la ou dizer que estava de volta e talvez sequer lhe retrucasse qualquer coisa, se ela por acaso se levantasse e lhe fizesse alguma pergunta. Havia questões de magna relevância a considerar, planos a traçar, visões a tornarem-se realidade. Com a cabeça em rebuliço insuportável, nem sequer tirou as botas e se encaminhou diretamente à escrivaninha, onde, apoiando a testa na mão esquerda e com ela cofiando ocasionalmente os cabelos, pôs diante de si uma pilha de papel, enfiou a caneta no tinteiro e começou a escrever com tal velocidade que lhe vinham cãibras e ele flexionava os dedos nervosamente com os olhos no teto, para logo em seguida retornar à escrita.

Como domar aquela cascata de idéias que lhe chegavam aos borbulhões, a ponto de, enquanto anotava uma, pegar várias vezes em papéis diferentes, para anotar o resumo de outras? Essa empresa lhe pareceu impossível durante um tempo angustiante, mas, finalmente, coincidindo com o amainar da chuva lá fora, lhe veio aos poucos uma calma que o acabou tomando por inteiro, e ele recostou-se, para, somente vários minutos depois, suspirar e, vagarosa e ordenadamente, arrumar os papéis em algumas pilhas, tendo ainda a preocupação de numerar cada página. Não, não pretendia publicar nada daquilo, não pretendia, aliás, mostrar nada a quem quer que fosse. Talvez, no futuro, já bem entrado nos anos e na glória, pudesse expandir aqueles pensamentos, transformando-os na obra de um estadista, para ilustração das gerações vindouras. Mas agora não, agora aquilo era tão-somente o arcabouço de uma estratégia insuperável que, percebia neste momento, vinha tomando forma em sua mente havia talvez anos. Escolhera a hora de chegar, era obra da Providência, decreto dos fados.

Tratava-se das idéias políticas cio mestre-de-campo. Nunca deixara de tê-las, é óbvio, versado como era na história universal e de seus grandes guerreiros, mas jamais se imaginara como aquele pensador que tão intensamente se revelava, nem executor do fruto desse pensamento, a não ser em suas fantasias mais secretas, jamais confessadas a quem quer que fosse. A vila de São João mudaria para sempre, logo mudaria também toda a ilha do Pavão. E era tudo extraordinariamente simples e tornado ainda mais fácil pela conjugação de circunstâncias favoráveis que ora se manifestava tão patentemente. Sim, a idéia do ducado era perfeita, inatacável mesmo, a única solução justa e duradoura para os problemas da ilha. O ducado de São João! Ouvira falar de muitos reinos opulentos no Oriente, que prosperavam em território menor do que o da ilha, com suas riquezas, sua terra de fertilidade inigualável e até mesmo — quem sabia? — ouro ou pedras preciosas, naqueles rios que ninguém explorava, a não ser para pescar. E, posteriormente, não só o ducado da vila, mas o ducado de toda a ilha do Pavão — e o mestre-de-campo se perfilou, imaginando como seriam seus trajes e as pinturas reproduzindo sua figura. Alicerçava suas teses em análises de textos e histórias clássicas e pensava na era gloriosa de César e Augusto, sobre a qual acabara de escrever tanto. Acrescentava a esse suporte geral uma visão destituída de paixões descabidas e raciocínios meramente voluntariosos. A verdade era que a ilha, de tão custoso acesso, dificilmente seria atingida pela mão da Igreja ou do braço secular, como já tinham demonstrado tantas experiências, desde a chegada dos primeiros portugueses. Disso já se sabia, mas se agia como se não se soubesse, por vício de pensamento, ou talvez pela vontade de não sentir os laços com o continente excessivamente afrouxados, ou mesmo quase inexistentes. Mas não se podia negar a evidência dos fatos: se quisessem as leis e a ordem, de acordo com o espírito que herdaram de seus ancestrais e com o mais perfeito Direito das gentes, a ação teria de vir de dentro da própria ilha, ela mesma devia suprir suas necessidades e corrigir seu rumo. Não descobrira novidade alguma, apenas, como narrava tantas vezes a História, fora necessário o gênio de um grande homem para ver e efetivar o que todos viam e disso nada de bom retiravam. O terreno era perfeito para a instituição do ducado, que, mais tarde, poderia enviar legações aos funcionários da Coroa, ou mesmo ao próprio reino, para legitimar por direito a solução de fato. Rematada tolice, achar que os grandes feitos não estavam perfeitamente ao alcance de quem os almejasse com a força de vontade e a habilidade necessárias. Nada do que projetava se encontrava além dos limites do razoável e factível, até porque, mesmo que a inatingibilidade da ilha já fosse por ele discernida com clareza e firmeza de propósitos, agiria astuciosamente para preservar seus interesses. Ou seja, não partilharia com os outros essa convicção sólida e, pelo contrário, alimentaria a crença de que a Coroa estaria sempre disposta, em caso extremo, a exercer sua autoridade com determinação, empregando meios de que até agora não sentira necessidade, notadamente avanços na arte náutica e artilharia muito superior aos que os habitantes da ilha, até mesmo Capitão Cavalo, conheciam. Era preciso que todos acreditassem nisso, ou pelo menos temessem a possibilidade, ao tempo em que também preservassem o receio da cólera divina, que podia vir sob a forma de sanções eclesiais pesadíssimas, ou mesmo de calamidades como as pragas do Egito ou desastres como terremotos, inundações e pestes. Nada era difícil, tudo era espantosamente fácil. Igreja e Estado se uniriam em consórcio harmonioso, não só do ponto de vista das instituições, como, sabia ele, do ponto de vista pessoal, neste caso importantíssimo, pois, mesmo que padre Tertuliano não viesse a empolgar-se com a proposta de tornar-se uma espécie de papa da ilha, com o título, vamos dizer, de Grão-arcebispo, talvez passando à História sob o epíteto de Tertuliano I, o Grande, não iria contrariar aquele que, afinal, sabia de sua vida mais íntima e lhe proporcionava momentos de êxtase cada vez mais intensos. Um sem o outro afundaria, ambos juntos iriam a píncaros. Mas era claro que compreenderia isso e o seduziriam o poder, a riqueza e a pompa da condição de sumo pontífice da vila e posteriormente de toda a ilha, com exceção, ao menos por enquanto, dos domínios de Capitão Cavalo, o que, aliás, não fazia diferença. Que Capitão Cavalo continuasse senhor incontestado de suas terras e seu povo. Não interessava, o que interessava nesse instante eram as vilas. A aliança com padre Tertuliano estava assegurada, não havia a menor dúvida.

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