Quanto ao resto, a necessidade de uma conspiração se mostrava patente, mas, aí também, os obstáculos seriam mínimos. Não se reviveria a malograda confederação, pois agora tudo viria a estar sob seu direto comando. Novamente, sob esse aspecto, não enfrentaria dificuldades. O que a Mesa Visitadora já sabia sobre os homens mais influentes da vila podia ser usado contra eles, caso se negassem a apoiá-lo. E, além disso, contava com determinadas circunstâncias favoráveis, como por exemplo, a inimizade entre o intendente Felipe de Melo Furtado e o secretário da Câmara, Manuel Faveiro. Com a colaboração deste, derrubar o intendente seria tarefa para não mais do que uma manhã. Entre os homens de bem da vila, suas idéias seriam bem-recebidas, ainda mais quando anunciasse que, além da preservação de seus segredos escabrosos, os deveres de seus aliados para com o Santo Ofício seriam esquecidos e muitos poderiam ser incorporados à nobreza local, que se constituiria depois do estabelecimento do ducado. Em relação às outras vilas, usaria o procedimento adequado às particularidades supervenientes, não só com as mesmas armas persuasivas que empregaria em São João quanto com o que sabia sobre a arte de dividir e gerar antagonismos entre os que se opusessem a ele, pois conhecia todas as manhas, engodos e prodições aplicáveis nessascontingências, sabia que era um político engenhoso e competente. Para o combate aos negros oficialmente cativos, mas agora comportando-se como libertos e cidadãos de nascimento livres, praticamente como brancos de pleno direito, sujando a raça através de crescente mestiçagem, muitos dos quais certamente se rebelariam, dispunha da milícia e da guarda, que seriam mais bem armadas, através de contrabando. E, mais ainda, contaria sem dúvida com a ajuda empenhada de D. Afonso Jorge II, com quem firmaria sólida aliança, reconhecendo-lhe o reinado e acertando proteção mútua e permanente, até porque os princípios de autoridade, religião e manutenção apropriada do elemento servil preservados no quilombo — quilombo, não, reino — eram os mesmos que defendia e não custava estender aos minoritários negros congolenses a condição de brancos honorários. Bem possivelmente, o quilombo podia participar a seu lado de combates e supressão de focos de rebeldia^ caso isso se tornasse necessário. Se o mestre-de-campo prendesse o nefando índio Balduíno ou o mandasse matar, provavelmente cairia em desgraça com Capitão Cavalo, e isso não convinha aos interesses do ducado. Mas, se o maluco do Jorge Diogo — Jorge Diogo, não; Sua Majestade D. Afonso Jorge II, o mestre-de-campo precisava acostumar-se, era uma questão diplomática — cuidasse desse problema, como sem dúvida cuidaria, ao ouvir certas histórias que o índio mesmo andava contando quando bebia, a coisa seria outra e certamente Capitão Cavalo lhe daria um corretivo e acabaria com ele, pouco fazendo caso o mestre-de-campo — mestre-de-campo, não; Duque de São João, Grão-duque, aliás, precisava acostumar-se, mesmo que ainda secretamente.
E assim, insone e exaltado, Dão José Estevão Borges Lustosa atravessou a noite, já não mais procelosa,mas envolvida numa brisa calma e no cheiro vivificador da terra molhada. Amanheceu um dia auspiciosamente radioso e ele, já convicto da grandeza de seu destino, interpretou aquilo como um augúrio celeste, anunciando-lhe a vitória de seus ideais. Como toda dinastia cristã, a dele também provinha de uma escolha de Deus, era uma ocasião sublime a que vivia, contemplando da janela aquelas paragens, antes familiares, mas agora transfiguradas por uma nova luz. Notou que suas botas ainda estavam úmidas da noite anterior, mas não teve paciência de trocá-las. Não teve paciência para nada, aliás, e, logo que terminou, chamou o negrinho Tome para que convocasse à sua presença o ajudante-de-ordens Josué Caldeira. Não que lhe fosse participar coisa alguma do que planejava, mas simplesmente o enviaria à casa paroquial, para, salvando as aparências de cerimônia, pedir audiência especial e confidencial ao padre Tertuliano. Sabia que o ajudante-de-ordens não manteria segredo quanto ao pedido e realização da audiência, mas isto era de sua conveniência, eis que assim se espalharia melhor a certeza de seu decisivo poder junto à Mesa Visitadora. E, mesmo antes da chegada de Josué Caldeira, já rabiscava num papelucho os nomes daqueles que, naquele dia mesmo, seriam procurados. O intendente ainda não, pois tinha que ser surpreendido pelos acontecimentos, mas muitos outros sim, como o mestre Joaquim Moniz Andrade e suas travessuras com os alunos, padre Boanerges e suas peraltices com a mulher do almotacel Zacarias Rabelo, padre Virgílio e suas intimidades com certas ursulinas, uma lista, enfim, quase inesgotável, assim ao correr da pena, comprovando que, breve, de um dia para o outro, mesmo, a vila ia mudar como jamais se sonhara possível. Leocádia apareceu, interrompendo suas anotações, e ele a recebeu quase com brutalidade, pensando ao mesmo tempo em como ela seria uma duquesa muito aquém do que ele merecia, prometendo-se mais tarde pensar em alguma solução para o assunto. Mas na hora apenas ignorou as perguntas dela com um gesto enervado, ordenou-lhe que mandasse vir imediatamente à sua presença o moleque Tome, recusou-se a ir comer e a despachou com mais veemência, refreando o repelão que queria dar-lhe, para depois voltar às notas, entremeadas por um esfregar de mãos incontrolável.
XXXIV
Diga-se lá o que se disser de Balduíno Galo Mau, ninguém há de negar que é amigo de seus amigos, leal, dedicado e sempre disposto ao sacrifício desprendido. Se teve que agir ingratamente algumas poucas vezes, isso se deve a que a vida, sem prévio aviso, atordoa quem por ela passa, ao antepor-lhe encruzilhadas onde nem sempre o caminho proveitoso coincide com o da amizade e deve-se compreender o homem que, já tão acossado pelas vicissitudes de uma existência sem explicação, é traiçoeiramente enceguecido pela conveniência. Perfeita, aliás, pessoa alguma é, nem mesmo os santos mais eminentes, a exemplo do venerabilíssimo São Pedro, por todos sublimado, que, certa feita, de conveniência, fingiu repetidamente que não se dava com o Cristo. Balduíno nunca se interessou muito por São Pedro, como, aliás, santo nenhum a não ser Tome, mas se lembra de ter ouvido essa e outras histórias na doutrina dos padres e agora se orgulha de que, deixando de lado todos os grandíssimos negócios que requeriam sua pessoal atenção, tirara dois dias para dar um pulo às grenhas da aldeia de Mato Preto, a fim de providenciar nova cabacinha, desta feita um bocadinho maior que a primeira, com a tísana da indomável tesão. Bem verdade que, até o momento, a tisana, apesar de fazer efeito sem necessidade de que a mulher falasse as palavras, de nada adiantava com Crescência. Portanto, podia suceder a mesma coisa com a segunda encomenda, pois cada vez mais parecia que a dificuldade de Iô Pepeu estava mesmo na idéia dele, que se entortara por qualquer razão e talvez nunca se desentortasse, como acontecia com avariados do juízo de todas as qualidades. Avaria pequena em relação a outras, mas suficiente para tornar Iô Pepeu muito infeliz — e Balduíno orgulhou-se mais uma vez em estar preocupado com o amigo, chegando mesmo a cogitar, em caso de novo revés, conversar com Crescência, convencê-la a deixar de tanta teimosia boba, que para ninguém tinha serventia.
Não, não, era sincero, não se sentia assim porque Iô Pepeu, além de seu aliado desde o dia em que se conheceram, agora, ainda por cima, era a garantia viva de que nada lhe aconteceria, apesar do ódio que lhe tinha padre Tertuliano e o mestre-de-campo Borges Lustosa. Nada disso, era pura amizade, sentida no peito mesmo, amizade que lhe enchia o coração candidamente grato e o fazia sopesar a cabaça pensativo, enquanto esperava o amigo. Tinha bebidas finas a oferecer-lhe, em copos ainda mais finos, ancoretas dos mais afamados vinhos e aguardentes de qualquer procedência, tinha comida às pilhas, louça do reino, tinha prataría e toalhas com ricas frioleiras, tinha cadeiras espaçosas e coxins, tinha até mulheres, muitas mulheres, algumas ali mesmo na Casa do Ingá, outras, de todas as cores e feitios, podendo ser chamadas à sua bela vontade. Havia aprendido a estalar os dedos, depois que ouvira alguém contar como os grandes potentados satisfaziam desejos e ordens com um simples estalar de dedos. Estalaria muito os dedos durante a visita de Iô Pepeu, iria homenageá-lo, oferecendo e mostrando seus novos dotes e bens e o que podia fazer com um simples estalar de dedos.
Bem, um pouco mais que os dedos, em alguns casos. Volta e meia um olhar, um menear de cabeça, uma escassa palavra ou outra, para que aquilo que queria acontecesse. Não sabia o povo por quê — e continuaria sem saber — Balduíno Galo Mau, de índio escorraçado, passara a ser importantíssima figura, auxiliar da Mesa Visitadora, todo ataviado e metido em garbos, podendo ser tido como um grão-senhor ou fidalgo, se não fosse a pele acanelada, os pés descalços e as plu-mas que insistia em enfiar no nariz e nas orelhas, até na missa, a que agora dera para assistir todos os domingos e dias santos, com as mãos postas e os olhos voltados contritamente para os céus. Sim, um grão-senhor, pecunioso e poderoso, tratado com respeito e mesmo servilismo em todas as rodas, das mais humildes às mais elevadas. Por combinação, para que nada desse na vista e fosse causa de suspeita, o mestre-de-campo e ele não se falavam em público e procuravam nunca estar no mesmo lugar, eis que não haveria como explicar uma total e repentina aplacação da ira de Borges Lustosa contra Balduíno, mesmo que se soubesse que o índio morava agora na vila por causa de Capitão Cavalo. Mas a contenção resignada dessa ira se entendia, pois, apesar de seu prestígio junto ao Visitador e ao monsenhor, o que se via era Balduíno agindo como se fosse preposto de Sua Reverendíssima e, na verdade, da paróquia em geral, porquanto os bons padres Boanerges e Virgílio tinham lá também suas boas contas a prestar ao Santo Ofício. Sim, sim, pois que seja reconhecida a realidade das coisas vistas a toda hora, que mostravam como ele era de fato poderoso. Claro que não deixava o orgulho virar filáucia, porque sabia que essa situação não o tornava querido de grande parte dos joaninos influentes e já até contratara dois provadores de comida para que não o envenenassem e se preparava para quando as coisas mudassem, pois mudariam mais cedo ou mais tarde, neste mundo tudo vive mudando, aproveita-se enquanto se pode, porque sempre chega o dia em que não vai se poder. Já desconfiava, pelo jeito dele nos últimos dias, que o mestre-de-campo vinha arquitetando alguma manobra pérfida. Ainda não sabia qual podia ser, mas estaria mais alerta do que nunca, de ora em diante. Por enquanto, não adiantava vexar-se, ia exercendo o ótimo cargo que ele mesmo criara: despachador. Praticamente mais nada se resolvia sem a sua intervenção, mediante uma pequena retribuição monetária, proporcional ao benefício obtido. Despachador, função meritória e indispensável para o bom andamento de quaisquer processos e, cada vez mais satisfeito consigo mesmo, Balduíno deu palmadinhas de contentamento na barriga. Não sentia nem falta, como antigamente, dos índios de sua aldeia. Pelo contrário, era melhor que ficassem por lá mesmo, ali só iriam atrapalhar e querer meter as mãos nas coisas dele, sustentados por ele. Nada de índio, lugar de índio ignorante, descompreendido e selvagem era no mato. Ele não era desses índios. Despachador completo, fazia negócios em separado com o seminarista Manuel Taborda, o escrivão Terêncio Góes e o padre Tertuliano, roubando os três, enquanto eles roubavam uns aos outros. Tinha até arrumado o despachamento de uma mulher para o seminarista, que andava muito do satisfeito, e também arranjava uns encontros do escrivão com as meninas de Mirinha Vesga, ele de máscara e mudando a voz, como se fosse adiantar alguma coisa — só que as meninas não falavam, Mirinha não deixava. Despachador, despachador, altíssima função, merecia um papel com tudo isso escrito e estampilhado, ia pensar no assunto.
E dessa forma deambulava a mente de Tontonhen-gá, Balduíno Galo Mau, quando, o sol do meio da tarde em ricochetes pelas pedras da ladeira acima, ele avistou, subindo devagar e arqueada, a corpatura antes tão guapa de Iô Pepeu. Que mal causa uma mulher querida e não possuída! Em que fantasma se transfigurara o pobre Iô Pepeu? Em muito casmurro fantasma, com toda a certeza, as feições meio encovadas, a tez pálida, os olhos foscos, a voz amofinada, como se via e ouvia agora, enquanto ele subia os degraus da varanda onde o esperava Balduíno, estendendo frouxamente a mão e murmurando um estranho "bom dia, como passaste?" Balduíno, admirado, quase esqueceu de estalar os dedos, mas terminou por fazê-lo como havia planejado para aquele momento e eclodiram logo três mulheres de torsos e vestidos de estampado igual, que carregavam bandejas cheias de comidas e bebidas e as depositaram sobre a grande mesa, junto à qual um ventinho balançava as duas redes em que os amigos ficariam.
— Viste? — perguntou Balduíno radiosamente. — Com um estralo de dedo! Agora índio é assim, estrala o dedo, tudo vem.
Mas Iô Pepeu pareceu não ouvir e tampouco reparar nas bandejas, porque baixou a uma rede como se quisesse ser engolfado por ela, lá afundando em silêncio, ignorando as perguntas de Balduíno.
— Daqui a pouco eu falo — disse afinal. — Estou arrumando um pouco a idéia, não tenho andado bom da idéia.
Balduíno se interrompeu em meio a nova pergunta. Sim, naturalmente ficaria calado. O outro com toda a certeza viera para falar e falaria. Quase sussurrando, perguntou apenas se não podia oferecer-lhe uns três dedos de uma cachaça inglesa castanha, da qual tinha uma boa meia dúzia de pipos. Talvez fosse bom socorro naquele transe e ele mesmo, que não era o próprio padecente mas somente um amigo que partilhava daquela dor o quanto possível — e acreditasse que era muito, punhalada sobre punhalada. Se não quisesse da cachacinha estrangeira, pedisse o que mais lhe apetecesse, tinha de tudo lá dentro, às barriladas. Iô Pepeu, com a voz ainda mais languinhenta do que antes, concordou e disse que o que de lá viesse cá seria bem-vindo.
Bebidos por ambos três dedos mais três mais três, pôs-se então Iô Pepeu a falar, como esperado, diante do rosto cada vez mais pungido de Balduíno, que resolvera logo de início tomar uma cachaça compadecida, pois lhe parecia a mais indicada. Iô Pepeu, já soerguido na rede e com a voz bastante firme, agradecia copiosamente o presente da nova cabacinha, que apesar de tudo ainda representava uma esperança, mas sabia que estava perdido. Já nem mais via Crescência, que, ao que tudo dava a entender, tinha resolvido ficar de vez na furna da Degredada, onde não o deixavam entrar e até o pai lhe recusara ajuda nisso. Algo de extraordinário estava se passando e ele tinha certeza de que Crescência agora partilhava de segredos que sempre desconfiara serem mantidos entre seu pai, a Degredada e Hans e talvez alguns outros, cuja identidade ele não sabia. Só estivera com ela duas vezes, nos últimos tempos, a segunda já tão longe, quanto mais a primeira. E, já na primeira, notara como ela estava diferente, até falava diferente, muito diferente, parecia dispor de mais palavras e jeito de dizer. Mais uma vez, não se recusara a ir para a cama com ele, mas continuara a teimar em não falar o que ele pedia, de forma que, novamente, nada acontecera senão sua reiterada humilhação, que já lhe oprimia o peito o tempo todo, lhe tirava o sono e o apetite, fazia-o passar dias inteiros sentado com os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos, olhando para nada.
Pior ainda, quando está assim, jogado pelos cantos, descoroçoado e definhado, eis que, vinda apressada da furna, aparece ela, muito animada e com os olhos brilhantes. Era só uma passagem, uma breve passagem pela Casa dos Degraus, para ver a mãe. Passagem mesmo ligeirinha, precisava voltar correndo para a furna, muitas maravilhas estavam por acontecer. O grande feiti..., chegou a dizer, mas se conteve a tempo e não respondeu às perguntas dele sobre o que seriam aquelas maravilhas. Nada, coisa de feiticeira como eu, disse ela, fazendo uma careta, tu não sabe que eu sou feiticeira como Don'Ana? Vou voar com a jarreteira do rei Salomão. E então riu como quisesse sublinhar que estava fazendo pilhéria, indagou maquinalmente se havia alguma novidade na casa e começou a despedir-se, precisava realmente ver a mãe.
— Tu ainda gostas de mim? — falou ele, assim que ela lhe voltou as costas, e ela parou e tornou a encará-lo.
— Gosto — respondeu ela, depois de um silêncio prolongado.
Ele a abraçou, beijou-lhe todo o rosto, pôs-lhe as mãos nos ombros, afastou-a um pouco sem soltá-la e lhe perguntou, olhando-a nos olhos de forma quase demente, se, casando com ele, ela consentiria em dizer as benditas palavras. Ela ficou em silêncio prolongado outra vez, para finalmente dizer que estranhava que ele quisesse casar com ela, pois nunca lhe dissera ou dera a entender que queria casar com ele nem com ninguém. Gostar dele não significava casar com ele. E, mesmo que — não sabia como, mas, enfim, tudo era possível — viesse a casar, não diria as palavras. Se queria estar com ela, viesse com ela lá para dentro, estava disposta a demorar mais um pouco, porque gostava dele. Mas não queria casamento, não queria mancebia, não queria casa de presente, não queria nada. Da mesma maneira que não queria e não iria dizer as palavras.
E nesse pé melancólico andavam as coisas, já nada mais interessava, já a própria vida carecia de propósito. Balduíno muito se comiserou com seu amigo, atiçou-lhe a esperança e de novo exaltou sua poção. Que Iô Pepeu tomasse a poção e bebesse um pouco, para ver se tirava aquele medo, sim, aquilo não passava de medo besta, tudo ia dar certo. A não ser, claro, que de fato Crescência não voltasse mais da furna. Não perguntou nada a Iô Pepeu, pois, para este, seu repetido inventário de tribulações era tudo o que interessava. Mas, enquanto conservava o ar de condoída atenção à fala do amigo, não pôde deixar de começar a remoer na cabeça quais seriam as maravilhas de que falara Crescência. E o grande feitiço, sem dúvida era o que ela ia dizer, Iô Pepeu só não pensara nisso porque estava encegueirado por ela e, conseqüentemente, abestalhado. Que seria esse grande feitiço? Balduíno se levantou para pegar mais aguardente e se lembrou que ele havia muito também notava uns mistérios na amizade de Capitão Cavalo, a Degredada, Hans e agora, segundo parecia, Crescência Maravilhas? O grande feitiço? Balduíno, subitamente meio inquieto, teve uma sucessão atabalhoada de pressentimentos, que não entendeu direito.
XXXV
A singular construção, no cimo do pico que se alça da cratera do monte da Pedra Preta, pareceu outra vez aflorar de repente, diante de Capitão Cavalo, Hans, a Degredada e Crescência. Já deviam estar acostumados a atravessar a mata cerrada em torno e topar com essa recém-completada figura de alvenaria, dominando a extensa clareira granitosa que coroava o monte, mas sempre seus corações palpitavam ao vê-la e palpitaram ainda mais fortemente, nessa noite de lua cheia em que, depois de tão longa espera e preparação tão laboriosa, Capitão Cavalo afinal ia cumprir o que determinara a si mesmo e entrar de corpo inteiro na bola misteriosa que aquelas paredes inexpugnáveis protegiam. A edificação tinha a forma de um cubo do tamanho de uma pequena casa e suas paredes de argamassa de baleia de quase dois palmos de espessura eram lisas, com exceção de uma fileira ordenada de abocaduras estreitas em sua parte superior, orientadas em diagonal descendente em relação ao solo,,de forma que alguma ventilação e luz as penetravam, mas quem ventura conseguisse espiar através delas enxergaria somente um teto sem ornamentos ou mesmo qualquer espécie de lumeeira. Mas algo mais se destacava, em cada uma dessas paredes: um triângulo eqüilátero de cristais azuis embrechados, que cintilava quando recebia diretamente o brilho do sol e parecia sair dos seus próprios contornos. Fora a Degredada quem sugerira a aposição de um símbolo nas paredes e na cobertura, como um aviso de que elas encerravam algo muito fora do comum, que alguém que por acaso visse o cubo respeitasse, reverenciasse ou mesmo temesse. Ninguém jamais subia ao topo do monte da Pedra Preta, pois não crescia nada em suas rochas custosas de pisar, de bicho só se via um lagarto ou outro tomando sol e, além disso, contavam os antigos e aprendiam os mais novos que ali era lugar enfeitiçado e quem se aventurasse a entrar nele podia sofrer as conseqüências mais imprevisíveis. Talvez fosse por isso que Capitão Cavalo nunca tivesse ouvido falar no que lá descobrira por acaso, fazia já algum tempo. Resolvera um belo dia, por desfastio, subir o monte, que ficava bem dentro de suas terras. Quase caindo, enquanto trambolhava pelas pedras desordenadamente espalhadas sobre todo o platô, chegou mais ou menos a seu centro e viu que realmente era uma espécie de ilha empedrouçada, com mata fechada a suas bordas. Não havia de fato nada interessante naquela aridez silenciosa e ele se preparou para voltar, quando notou uma mureta baixa em torno de uma espécie de fosso, na verdade um precipício circular, como se. o chão da chapada tivesse cedido e, dentro do monte da Pedra Preta, existisse outro, muito menos volumoso, embora da mesma altura, cujo sopé chegava tão fundo que não se podia enxergá-lo. E, também estranhamente, o cume do monte menor era coberto por uma touceira alta, em contraste com a total ausência de vegetação em redor. Não era possível, sem uma ponte de uns dez ou doze pés, atravessar o abismo até esse monte embutido, como também não era improvável que, surpreendidos por ele ao darem com os joelhos na mureta, alguns homens e bichos tivessem despencado daquelas alturas, para nunca mais serem vistos. Por que a touceira vicejava ali, em terreno aparentemente tão escalvado quanto o circundante? Quem haveria erguido aquela mureta, já que os índios não construíam com pedras, que queria dizer tudo aquilo? Durante todo esse tempo, ninguém havia atravessado até a touceira? Tudo bastante curioso, sim, mas existiam inúmeras outras coisas curiosas na ilha do Pavão, aquilo certamente não passava de mais uma de suas extravagâncias, que algum maluco talvez um dia quisesse explorar, do que, por sinal, ele duvidava muito, por não crer que houvesse por ali alguém com coragem suficiente para investigar um mistério de renome e aparência tão assustadores. A não ser ele mesmo, talvez, e passou mais alguns instantes dando voltas em torno da mureta e procurando vislumbrar alguma coisa na escuridão do despenhadeiro. É, talvez viesse a querer atravessar o abismo e desvendar o enigma da touceira, que, embora certamente tivesse uma explicação trivial, o incomodava um pouco, era como se suas terras fossem sua amante e lhe desagradasse a manutenção por ela de um segredo afinal intrigante. Não diria nada a ninguém por enquanto, iria sozinho à touceira, mesmo porque não queria que ninguém ficasse sabendo dela, até que descobrisse do que se tratava. Depois falaria com Hans e a Degredada, no caso de ser alguma coisa efetivamente digna de nota. Procurou a corda fina que sempre levava no bornal, apanhou uma pedra mais ou menos do tamanho de um punho, amarrou-a numa das pontas da corda e a jogou para o outro lado. Pronto, retesando a corda com cuidado, teria a medida aproximada da prancha que já havia decidido construir e com a qual chegaria à touceira. Passaria algum tempo, com a ajuda da mula Proveitosa, para levar o material morro acima, mas não havia pressa, aprontaria a prancha com calma, lá no topo.
E assim se deu que, no meio de uma manhã um tanto enevoada, a alguns passos da mureta que cercava o abismo, Capitão Cavalo pôs na vertical a prancha em que acabara de montar, afastou-se um pouco e a mirou com satisfação. Nem Onofre, seu mestre-marceneiro, faria melhor. Havia incluído todos os pormenores para torná-la segura, até mesmo vários ganchos de ferro sob cada uma das extremidades. Brandindo um marrão para abrir na mureta uma espécie de ameia ao contrário, criou espaço suficiente para a largura da prancha e, com ela levantada, não foi difícil fazê-la cair na posição ideal, baqueando do outro lado com um barulho inesperadamente abafado. Já estivera sem tremer em tantas situações tenebrosas e desesperadas, por que respirava com rapidez, o pescoço latejava e sentia o corpo enrijar-se e esfriar, apesar do calor na testa? Tolice, resolveu, e pôs o pé direito na prancha para palmilhar até a touceira, lugar onde depois, embora ainda não soubesse, ergueria o grande cubo.
Imaginava que teria de lutar contra arbustos densos e resistentes e necessitaria usar o podão, mas, assim que afastou os caules de algumas das plantas, viu que elas apenas compunham uma frágil cerca circular e fácil de transpor, em torno de nada, a não ser o mesmo chão de pedra que lá fora. Ou melhor, em torno de nada, não, porque, já dentro do anel de mato, notou com susto uma esfera flutuando no ar, apesar de ser dificultoso fixar a vista nela, pois desaparecia volta e meia, a qualquer movimento do rosto ou dos olhos dele. Outras vezes, era bem visível, estática e silenciosa, sem nada que a apoiasse ou suspendesse. De que seria feita, que aconteceria se fosse empurrada, ou mesmo tocada? Chegando o rosto próximo dela, achando-a etérea e transparente e, ao mesmo tempo, sólida e opaca, estendeu vagarosamente o braço e tentou apalpá-la. Mas sua mão não encontrou nenhuma superfície sensível ao tato. Aumentou a pressão e o antebraço desapareceu dentro dela. Estava ali, como se enfiado dentro de uma tina de água, mas também não estava. Apressadamente, retirou o braço, embora não houvesse sentido nem dor nem incômodo, apenas a impressão de que ele tinha ido embora. Não tinha, estava inteiro como entrara, e lá continuava o pequeno globo, com a mesma aparência incompreensível. Seria possível, certamente, gatear através dele de corpo inteiro, mas algum viajante, por mais ousado, ousaria fazer isso? Capitão Cavalo deu dois passos para trás e olhou novamente para a esfera, desta vez com a sensação incontestável de que ela levava a algum outro lado, algum outro lado que desconhecia e, ao mesmo tempo, lhe era desusado. Ele via e não via uma paisagem nesse outro lado, paisagem que lhe era familiar e não era, como se vislumbrasse um mundo igual ao seu, mas também diferente. Não, não entraria ali sozinho naquelas circunstâncias, sem que pelo menos alguém de confiança estivesse presente, era demais para qualquer um. E foi nessa hora em que se afastou da esfera, transpôs outra vez a cerca de mato, cruzou a prancha de volta, escondeu-a num pequeno brechão que já havia escolhido antes e resolveu que tinha que falar com Hans e a Degredada sobre tudo aquilo. Continuava certo de que encontraria coragem para entrar na esfera, mas era indispensável falar com eles, até porque sem dúvida o ajudariam a compreender o mistério.
Na primeira vez em que passaram juntos até a tou-ceira, Hans quis entrar na esfera e só a muito custo foi demovido. Mas conseguiu que lhe permitissem enfiar o braço e depois passou muito tempo examinando-a por todos os lados.
— É mesmo como me contaste — disse a Capitão Cavalo. — Quando se olha de certo jeito, parece que se vê alguma coisa do outro lado. Vê-se, vê-se. É como se houvesse um outro mundo do lado de lá.
Era, sim, como repetidamente verificaram todos. Hans insistiu outra vez que o deixassem atravessar, o máximo que poderia acontecer era ele ir bater nesse outro mundo e talvez ficar por lá. Já experimentara tanta coisa na vida, já estivera em tanta parte, nada lhe fazia mais medo. Mas os outros argumentaram que seria precipitação. Afinal, aquilo podia fazer parte dos segredos que tanto buscavam e tanto discutiam. Que Hans lembrasse o muito que lhes tinha falado sobre os antigos filósofos, principalmente sobre aquele que dizia que algo que é ou foi jamais poderia deixar de ter sido e, portanto, continuava sempre a ser. O tempo podia existir, embora ninguém de fato soubesse defini-lo, mas aquilo podia ser a toca do tempo, o lugar em que tudo o que foi é e sempre será. Portanto, não deviam tratar aquele achado como algo trivial, não estaria ali um segredo básico, cujo significado ou utilidade poderia para sempre perder-se, se caísse nos ouvidos errados? Além disso, o autor da descoberta havia sido Capitão Cavalo, que não tinha mais o que o prendesse a este mundo, ao contrário de Hans, com suas mulheres e filhos e ao contrário da Degredada, que tanto serviço prestava aos que a buscavam e com ela aprendiam ou se beneficiavam. Hans ainda tentou contestá-los, mas lembrou-se do experimento que inexplicavelmente lhe ocorrera fazer. Enfiara o braço na esfera com os dedos fechados e, lá dentro, os abriu. Quando retirou a mão, procurou manter os dedos abertos, mas eles estavam fechados, da forma como haviam entrado e, durante alguns momentos, abriram-se e fecharam-se a intervalos curtos, como se possuíssem vontade própria. Talvez os outros estivessem mesmo com a razão, talvez ali fosse de fato a toca do tempo, embora não lhe ocorresse como isso sucedesse. Passava-se outro tempo, do outro lado da esfera, não se passava tempo algum, passava-se qualquer tempo, passava-se um tempo diferente para quem estava fora dela, passava-se todo tipo de tempo jamais decorrido, existiam um ou vários outros universos do outro lado, mas, sim, não havia por que negar que talvez estivesse ali a toca do tempo, ou uma de suas muitas tocas, sabiam-se lá quantas no cosmo.
Depois de muita discussão a partir desse dia, terminaram por chegar à idéia da construção do cubo, concebido por eles mesmos e por eles mesmos construído, com a ajuda de Crescência, a quem Hans, em acordo com os outros, decidira revelar o segredo, pois, sendo ela jovem, de confiança e capaz de ter filhos, desempenharia, se fosse necessário, o papel de herdeira, guardiã e transmissora do que descobrissem, numa espécie de dinastia já freqüentando a mente de todos, que passaram a delirar em conjunto ou sozinhos, andando a esmo pelos matos, apertando a cabeça entre as mãos espalmadas. E assim, nessa noite de lua cheia, manobraram entre os trilhos, contrapesos, roldanas e segredos de abertura para descerrar a entrada oculta do cubo e chegar outra vez, com as touceiras já mirradas pela falta de água e luz, diante da esfera, à frente da qual Capitão Cavalo se postou quase de quatro, pediu-lhes mais uma vez que o esperassem tanto quanto pudessem e entrou como quem mergulha numa onda do mar.
XXXVI
Quem ignora o que se dá nas coxias do poder e da alta política, como acontece desde sempre com a maior parte das gentes, quase nada, ou mesmo nada, perceberia das transformações subterrâneas por que passa a vila de São João, depois que o cesarismo do mestre-de-campo Borges Lustosa, antes tão injustamente descurado até por ele mesmo, iniciou sua marcha avassaladora. Enquanto prosseguia a rotina cotidiana dos habitantes, entre comentários pretensamente abalizados de todos os que tinham uma roda de ouvintes ou um confidente a escutá-los, a realidade, obra dos verdadeiros condutores de povos sob as bênçãos de Deus, enveredava pelo seu caminho inexorável. E como enveredava, com uma celeridade que as previsões mais otimistas não teriam ousado sugerir! Que talento se escondia sob a modéstia lacônica de Borges Lustosa, talento grandioso que já se havia tanto esmaecido, soterrado pela inveja, a má fortuna e o desprendimento dos verdadeiramente eminentes, ante seus medíocres, napeiros e vesgos coetâneos, mas agora relembrado emdevaneios sobre a infância e sobre os sonhos nobres da adolescência. Não tinham sido somente sonhos, mas a antevisão de um futuro que agora, como se se abrisse uma cortina para o horizonte, mostravam-se em todo o seu esplendor. Eram seu destino, eram seu fado, que as desilusões de vida o haviam levado a olvidar, mas Deus o esperara, como esperara Saulo na estrada de Damasco. In hoc signo vincis, e o mestre-de-campo Borges Lustosa se persignou, enquanto tomava o banho de sábado, na tina que era uma das peças mais orgulhosas de seu mobiliário, com dizeres ingleses em azul pálido gravados no ferro laqueado, os quais não compreendia, nem ele nem ninguém, e, por isso mesmo, ela valia mais que a maioria dos seus honestamente parcos bens terrenos.
Fulminante? Talvez sim, apesar de a palavra lhe trazer fogachos de modéstia ao torso. Temia, embora com a força interior dos que estão genuinamente imbuídos de uma missão transcendente e, portanto, acima de preocupações no fundo comezinhas, o pecado da soberba. Mas não havia como distorcer a verdade e a verdade era que poucos teriam sido registrados pela História como autores solitários de urdiduras políticas tão hábeis e versutas como as que ele havia protagonizado nos últimos dias. O secretário Manuel Faveiro, espicaçado pelas próprias ambições e estimulado pelo que com ele podia fazer a Mesa Visitadora, já substituía interinamente, na intendência, o renunciatário Felipe de Melo Furtado, por sinal, muito mais acessível às mudanças do que se imaginara antes. O mestre-de-campo, antes de falar com ele, se munira de todas as cautelas possíveis, desde decorar frases de contundência histórica e ameaças semiveladas em palavreado elegante, até preparar-se para enfrentar um ataque de apoplexia, ocorrência cada cada vez mais assídua na vida do intendente. Não era bom que ele desaparecesse àquela altura dos acontecimentos, poderia atrapalhar o andamento do golpe. Mas o que se viu na hora, para surpresa talvez até de si mesmo, foi seu contentamento e sua grande alegria, ao saber que estava livre das investigações do Santo Ofício e ainda seria agraciado, na ordem vindoura, com o título de Visconde da Penha, justa homenagem às terras em que nascera e de que ainda era proprietário. O mesmo se deu com Dona Felicidade, que, com o sorriso contido, empalideceu, enrubesceu, empalideceu e enrubesceu em curtos intervalos, para depois ocultar o rosto por trás do leque, quando o marido lhe deu as novas. Também ela estava livre de acusações despeitadas e aliviada das suspeitas que lhe vinham infernando o coração.
Chegará até a ser impossível de crer que, após mais um dia de intensivas negociações, o mestre-de-campo pudesse, insone e exaltado a ponto de recear que o peito estourasse, ver que tudo, absolutamente tudo, dera certo, até mesmo o aplacamento dos receios expressos por Balduíno Galo Mau, ao sentir que algo estava mudando, embora não pudesse provar nada. Esperto como ele era, o maldito índio não podia fazer nada, porque não tinha de onde partir. Como podia ele temer que algo lhe acontecesse, quando partilhava de tal forma da intimidade de padre Tertuliano com o mestre-de-campo, ha vendo-se também garantido com o auxílio de um amigo? Dinheiro não perdera, porque a maior parte dos indiciados já tinha pago o que tinha a pagar, havendo ele recebido seus dízimos infalivelmente. E, além de tudo, continuaria com suas funções de despachador, com ainda maiores poderes do que então, porque seria, depois das mudanças, uma espécie de Despachadoria-Mor. É, pois sim, ele que esperasse tudo isso de lá dos seus deuses e feitiços, pensou Borges Lustosa, com um sorriso que lhe entortou maldosamente os bigodes, porque seu destino ia estava traçado e não se passaria muito antes que fosse eliminado — e, melhor que tudo, sem que, nem de longe, se pudesse atribuir a responsabilidade ao mestre-de-campo.
E, assim, tudo tinha corrido da melhor forma esperável. Domitilo e Cosme estavam calados e a própria vergonha se encarregava de mantê-los dessa forma. Mestre Joaquim Moniz Andrade, futuro Barão do Carmo, respirava como havia muito tempo não conseguia, por poder de novo dormir em relativa paz e se prometia, embora no fundo não cresse, que jamais outra vez nessa coisa de fustigações e traseiros encerejados a palmatória ou cipoadas. Assim como prometia a si mesma, embora no fundo não cresse, Dona Maria Joana, santa esposa do mestre de letras, deixar de lado os favorecimentos do negro Serafim. O seminarista João Manuel Taborda, de onanista esquálido e exoftálmico, passara a latagão rubicundo, com as mulheres que Balduíno pusera à sua disposição e a mesa que, às custas deste, Mirinha Vesga lhe prodigalizava, e não queria nem ouvir falar em mudar de vida, desocupado e folgado de dinheiro. Padre Tertuliano já se sentia um verdadeiro papa e continuava cada vez mais a submeter-se às ordens do mestre-de-campo, batina levantada ou não. Padre Virgílio, padre Boanerges, as ursulinas — todos os que importavam alguma coisa na vila, enfim —, já haviam sido vencidos pela retórica suave, porém peremptoriamente suasória, do mestre-de-campo.
Até mesmo as vilas de Nossa Senhora da Praia do Branco, Xangó Seco de São José e Bom Jesus do Outeirão, para grande espanto seu, estavam a seu lado, se bem que não de maneira homogênea, pois que rivalidades regionais são inevitáveis, mas o sentimento geral era de que se desejava a volta da velha ordem e dos costumes decentes e cristãos. Já podia citar, assim só de cabeça, a Irmandade pelo Bem do Catolicismo da Praia do Branco, o Grêmio Xangoano pela Coroa, o Sodalício de Xangó pela Verdadeira Cristandade, o Outeirão pela Verdadeira Liberdade e mais dúzias de organizações que se formaram em apoio a sua causa sagrada, bem certo que desunidas pelos seus cabecilhas e respectivos asseclas, mas unidas em nome da causa comum. Não havia por que preocupar-se com isso agora, existiam questões mais fundamentais — e o mestre-de-campo ajoelhou-se contrito, para agradecer aos céus por tanto o terem iluminado. Claro, claro, claro, não existia nada mais claro do que a propriedade de sua iniciativa em procurar Jorge Diogo —Jorge Diogo, não, D. Afonso Jorge, pelo menos por enquanto — para com ele firmar uma aliança de conveniência. Capitão Cavalo, por tudo o que havia demonstrado em sua conduta, não interferiria. Talvez ainda viesse a querer interferir, mas aí já seria demasiadamente tarde. O máximo que podia acontecer era ele ficar em suas terras, ensimesmado como sempre, enquanto a vila e toda a ilha mudariam. Ver-se-ia depois, ver-se-ia depois. Por enquanto, isso não lhe trazia cuidados — e o mestre-de-campo, com a mão no baixo ventre riu rancorosamente, ao lembrar-se do dia em que Capitão Cavalo, diante de Balduíno e de seus pares, o humilhara daquela forma imperdoável, na casa de sua fazenda.
Riu mais, riu tanto que quase não conseguiu fazer o que havia pretendido desde cedo, ou seja, reler a mensagem que lhe fora enviada, havia dois dias, por D. Afonso Jorge. Sim, o negro louco tinha concordado em recebê-lo, faria tudo entre honrarias, porque sentia que estariam forjando um acordo que repercutiria em todos os cantos do Universo. "Nossa Majestade faz-vos saber que vos receberá, a vós e a todos os que quiser trazer convosco, no dia em que, por este arauto e mensageiro que esta carta real vos porta, vos for de bom alvitre. Etc, etc. Etc, etc. Generosamente, D. Afonso Jorge II, R." É amanhã, pensou o mestre-de-campo, já havia tomado todas as providências para a viagem, que faria na companhia exclusiva de seu ajudante, Josué Caldeira, que no entanto, não sabia nem se atrevia, como, aliás nenhuma outra pessoa, a perguntar sobre o objetivo da viagem. É amanhã e, a partir de amanhã, todo o mundo será diverso. E novamente o mestre-de-campo teve um acesso de riso que o deixou de mãos na barriga, tossindo, com a cabeça esticada para fora da janela do salão.