PortalSaoFrancisco.com.br

O Feitiço da Ilha do Pavão

(João Ubaldo Reibeiro)

Para Sérgio Lacerda e Tarso de Castro

Sabe-se muito pouco

I

De noite, se os ventos invernais estão açulando as ondas, as estrelas se extinguem, a Lua deixa de existir e o horizonte se encafua para sempre no. ventre do negrume, as escarpas da ilha do Pavão por vezes assomam à proa das embarcações como uma aparição formidável, da qual não se conhece navegante que não haja fugido, dela passando a abrigar a mais acovardada das memórias. Logo que deparadas, essas falésias abrem redemoinhos por seus entrefolhos, a que nada é capaz de resistir. Mas, antes, lá do alto, um pavão colossal acende sua cauda em cores indizíveis e acredita-se que é imperioso sair dali enquanto ela chameja, porque, depois de ela se apagar e transformar-se num ponto negro tão espesso que nem mesmo em torno se vê coisa alguma, já não haverá como.

Ninguém fala nesse pavão ruante e, na verdade, não se fala na ilha do Pavão. Jamais se escutou alguém dizer ter ouvido falar na ilha do Pavão, muito menos dizer que a viu, pois quem a viu não fala nela e quem ouve falar nela não a menciona a ninguém. O forasteiro que perguntar por ela receberá como resposta um sorriso e o menear de cabeça reservado às perguntas insensatas. É sabido, porém, que a ilha freqüenta os sonhos e pesadelos da gente do Recôncavo, que muitas vezes desperta no meio da noite entre suores caudalosos e outras vezes para entrar em delírios que perseveram semanas a fio. Outros sentem por ela uma atração inquietante, que vários procuram disfarçar numa postura falsamente taciturna. E muitos desaparecidos que nunca mais foram vistos podem bem estar na ilha do Pavão, embora certeza não haja, nem se converse ou escreva sobre o assunto.

Os que não conseguem suportar pensar nela crêem, ou sabem, que lá encontrarão todos os seus medos materializados e empenhados em acossá-los como matilhas de cães enraivecidos. Vêem nos pesadelos numerosos demônios e suas malfeitorias mais torpes e guisas mais ardilosas — o demônio Oriax, dos peidos sulfurosos e miasmas letais, o demônio Agares, dos lancinantes padecimentos da inveja e do despeito, o demônio Cassiel, da entrega do corpo aos vícios e à dissipação, o demônio Mamon, da ganância e da avareza, o demônio Malquedama, da intolerância e do ódio, o demônio Nimorup, da mentira, hipocrisia e falso testemunho, o demônio Apolion, da discórdia, da blasfêmia e da coprolalia, o crudelíssimo demônio Asmodeus e seu anel maligno, e outros príncipes do Mal, que surdem traiçoeiramente das trevas abissais, para desencaminhar e levar à danação as inocentes criaturas de Deus. E não temem só esses, mas todos os outros entes satânicos que na sua opinião enxameiam a terra, os ares e as águas da ilha, os seis mil e seiscentos e sessenta e seis diabos que se apossaram da boa ursulina Madalena Palud, estriges voláteis, lobos amaldiçoados, o sol lampadejando com um clarão luciferino, tudo podendo contagiar espíritos de outra sorte puros, honestos e ordeiros.

Entre esses temerosos, encontra-se também a convicção de que na ilha moram feiticeiras de poderes inauditos, umas pretas, outras roxas, outras cafuzas ou índias, outras brancas da terra ou do reino, como a que é chamada por muitos nomes, principalmente por Ana Carocha ou a Degredada. Os poderes dessas feiticeiras provêm do que misturaram do Congo, da Guiné, do Benim, de Oió, do Daomé e de outras Áfricas com as grongas dos bugres e com os seres infernais, bruxarias e venefícios arribados nas velas do além-mar, muitos deles homiziados entre páginas de livros aparentemente mortos, mas sempre à espera de que alguém os folheie, para despertar seus residentes maléficos. Esses livros, chamados gramuás, são na maior parte da falange de Salomão e o principal deles é escrito em língua velha e se denomina Clavícula, que vem a ser a chave daninha para tudo o que há na vida. E também suspeitam que, em meio a práticas malditas, as feiticeiras, seus comparsas e seus prosélitos se entregam a ações de espantosa libertinagem, tamanhamente se cobrindo de pecados hediondos que a eternidade é tempo curto para seu escarmento. Assim se entende o terror de tudo o que diz respeito ou é semelhante ao que julgam ocorrer na ilha do Pavão, pois, para eles, nela se cede às tentações e se desobedece aos ditames da boa consciência, do respeito aos de mais posição e do acato ao ensinamento da lei e dos homens de Deus, tal anarquia e impiedade conduzindo sem perdão às penas infinitas do inferno.

Já os que são atraídos pela ilha não pressentem nela demônios, ou, se os pressentem, não lhes dão importância, assim como não temem ser possuídos por trasgos e entidades nefandas, ou ser vítimas de feitiços. Tampouco devotam seu tempo a horrorizar-se com as práticas libertinas alheias, preferindo ocupar-se das próprias, ou não se ocupar de nenhuma. Não sabem a razão por que têm o desejo, sempre lhes ardendo no peito, de ir para a ilha, de onde, ao que tudo indica, é muito difícil voltar. Certamente a maioria nunca reunirá coragem ou condições para buscá-la, mas sentem que nela há talvez uma existência que não viveram e ao mesmo tempo experimentam em suas almas — paisagens adivinhadas, sonhos aos quais dar vida, sensações apenas entrevistas, lembranças vividas do que não se passou.

Todos sabem que a ilha existe, com sua história, sua gente, sua terra amanhada e seus matos brabos, seus bichos e seu próprio tempo, que é diverso dos outros tempos, embora ninguém saiba explicar de que maneira ou por que razão. Entre os que a temem e os que por ela anseiam, a razão talvez não se alinhe nem com estes nem com aqueles. Não se pode negar que a verdade é distinta para cada um e talvez estejam certos os que sustentam que este mundo não passa de miragem e, portanto, pode ser isso ou aquilo, segundo quem olha e pensa. Mas, se alguma coisa mais existe, também existe por necessidade a ilha do Pavão e a única" maneira de desmentir que ela existe é demonstrar que nada existe.

Para quem se abeira pelo mar Oceano, ela avulta ainda bem fora da barra como um paredão alcantilado, penhascos monumentais orlados pelo vôo perpétuo das aves da água. Desde longe, sua feição é a de uma barreira de granito, amalgamada com os contrafortes do Recôncavo e os costados de Itaparica e vedando aos navegantes a entrada da baía e os acessos a seu interior. Sem dúvida, incontáveis pilotos, tanto obscuros como renomados, passaram muito tempo diante dessa muralha irredutível, que se obstina em não cessar de redobrar-se em novos rebordos. A maior parte dos que viram a ilha do Pavão certamente não conseguiu entrar, vencida pelos grotões náufragosos dessa costa sentinela. Mas alguns terminaram por embicar por uma das muitas goletas ocultas da baía e os vagalhões mortíferos que anteparam a muralha deixaram de ser obstáculo para que aportassem à cidade da Bahia, assim como não são obstáculo para os que não chegam a ver a ilha do Pavão, pois, como se sabe, ela está ou não está, a depender de quem esteja ou não esteja.

Desde sua testa de pedra, fronteira à praia de Chega-nego, a ilha serpenteia pela altura da ponta de Santo Antônio, se estreita de repente para espremer-se entre a ponta do Jaburu e a de Monte Serrat, se alarga como uma moringa entre Manguinhos e Itacaranha e se desfralda fartamente em esplanadas e taludes, ameaçando engolir a ilha de Maré e a ilha dos Frades e, a partir das vizinhanças desta, espichando uma forquilha a oeste, com um braço até para lá da ilha das Vacas e o outro descendo para cá da ilha das Canas. Ao terreno pedregoso que franja os penhascos se sucede, maravilhosamente, uma mata cerrada em que somente índios e mateiros podem ter certeza de que não se perderão, entre árvores altas como campanários — sucupiras, maçarandubas, jacarandás, paineiras, figueiras, ipês, jatobás e mais todo tipo de vegetação, terrestre, aérea ou aquática. E bichos — macacos, onças, gatos-do-mato, guarás, raposas, preás, preguiças, tamanduás, tatus, borboletas de todos os matizes, besouros de todos os feitios, marimbondos de todas as índoles, beija-flores, sangues-de-boi, cardeais, sanhaços, jandaias, tucanos e o que mais voe ou se alvorote pelo chão, os que rastejam, jibóias, jararacas, cobras-cipó,cágados, teiús, calangos e toda família de animais de sangue frio. O rio São Judas, que nasce em cascata no morro da Embaúba e em cascata morre na penha do Marvado, corta essa grande mata e forma duas lagoas de águas negras, Paçu e Caçu, ambas cavilosas e devoradoras de gente. E, num bando aqui, outro acolá, cada macho com suas variadas fêmeas, nas partes mais secas dos matos, transitam os pavões descendentes dos trazidos por Nuno Pires da Beira, de volta de uma de suas corseadas às índias ou ao Ceilão, onde abatia imensos infiéis, dilatava a cristandade e rapinava o que podia, de pérolas a criaturas extravagantes.

Nova cerca de pedra, agora mesclada com uma areia áspera que no verão se aquece ao ponto de poder engrolar peixes, parece inaugurar um descampado árido e, no entanto, enquanto o terreno desce em quebradas amenas, o que se vê são coqueiros, ouricuris, carnaúbas, piaçavas, dendezeiros e outras palmeiras, manguezais se abrindo à esquerda, praias alvas à direita, canaviais infindáveis em frente, vastas roças de tabaco e mandioca, rolando planura abaixo e se ondean-do sobre as curvas pacatas dos morrotes. Às vezes um pouco distantes no mar fronteiro, outras vezes irrompendo abruptamente da terra macia e formando precipícios abismais, as muralhas de rocha só franqueiam suas vias secretas aos conhecedores e aos de muita sorte e habilidade. Por trás delas, ancoradouros, enseadas, marinhas alongadas, apicuns. Entre elas, marés destemperadas, meandros labirínticos, caribdes antropófagas, pontas aguçadas empaladoras de cascos, arcos, cavernas e águas, sublevadas sem aviso pelo vento de apelido funileiro, que se entuba por aquelas passagens, fortalecendo-se e desvariando a cada estreitamento tortuoso, havendo assim posto a pique em instantes um número desmedido de navios e embarcações de porte.

Pelas bordas das águas, armações de pesca, caieiras, viveiros de curimã, atracadouros, lagunas rasas rebrilhando entre os arrecifes. Muitas povoações se espraiam em todas as direções, desde arraiais pequenos que não contam mais de vinte casas, até as importantes, como as vilas de Xangó Seco de São José, Nossa Senhora da Praia do Branco e Bom Jesus do Outeirão, existindo também as aldeias dos índios e um certo reino na mata do Quilombo. Mas, em meio a todas, a principal é de longe a Assinalada Vila de São João Esmoler do Mar do Pavão, que, havendo sido pisada pela primeira vez por pé cristão num vinte e três de janeiro, recebeu esse nome em honra do santo do dia, grande santo entre os mais santos, altíssimo padroeiro da Sagrada Ordem de São João de Jerusalém, voz mais elevada nas hostes de Malta, senhor da famígera cruz das oito pontas. Todos os anos chove no vinte e três de janeiro e muitas vezes baixam uns repiquetes fora da norma, transfigurando as águas num marouço enfurecido. Mas, mesmo assim, a galeota Flor da Santidade, de seis em seis meses reataviada, não deixa de capitanear a procissão embarcada que comemora o bom santo do dia remoto em que o reputado capitão e almirante Nuno Pires da Beira saltou de um batelão para a água rasa da coroa do Enforcado, vadeou até a praia e declarou tudo ali seu.

Pela abundância de ruas, becos e vielas, pelos diversos sobrados e vivendas de escol, pela abundância de capelistas e comerciantes de novidades, pelas igrejas, pelas feiras e mercados e por muitos outros atributos, a vila de São João bem pode ser comparada a muitas cidades grandes e, mesmo em tavernas e casas de mulheres, não fica nada a dever, senão quiçá lhe devem. Na rua Direita, por exemplo, até as pedras do calçamento parecem rebuliçar com a agitação das dezenas de tendas de artesãos, boticas, armarinhos, casas de secos e molhados, armazéns, negras de tabuleiro, damas de chapéus-de-sol floridos, cavaleiros em trajes de garbo, caleças e montarias vistosamente ajaezadas. Já na descida para a baixa do Alecrim, o movimento não é da mesma espécie e a gameleira gigante que lhe oculta a entrada testemunha todo dia a passagem de homens de respeito, cobertos de mil cautelas, em direção às mulheres públicas ou a algum outro encontro galante numa casa d'alcouce, ou nos quartos que as alcoviteiras alugam e trocam por favores.

De figuras eminentes, é também rica a vila de São João, mesmo para uma cidade do Recôncavo, país celebrado por seu patrimônio inesgotável de homens insignes. O primeiro a ser citado é forçosamente o lendário capitão Baltazar Nuno Feitosa, que prefere atender pela alcunha que ganhou em labutas e combates, qual seja a de Capitão Cavalo, dono de desmesuradas terras, açúcar para adoçar eternamente o Tejo, tabaco para enfurnar todos os reinos, piaçava para encordoar todas as frotas, dendê para não deixar no orbe roda ou comida sem azeite e barcos de atordoar Poseidão. Mas, se ele e os ricos menores têm estatura para médir-se com os ricos de quaisquer outras partes, o mesmo se diga dos letrados e grados assivissojoemapaenses, adjetivo pátrio cuja sonoridade e exatidão devem, aliás, ap engenho do gramático, boticário e mestre-escola Joaquim Moniz Andrade, pois, apesar de se tratarem na conversa por joaninos, sentiam desconcertada falta de uma apelação de mais peso, que os designasse como nativos da Assinalada Vila de São João Esmoler do Mar do Pavão. Se morasse em Lisboa, mestre Joaquim teria nomeada universal, mas, mesmo assim, está longe de ser solitário em São João. Nas letras poéticas, nas letras históricas e filosóficas, na parenética, nas artes farmacêuticas, nas ciências geográficas, na música e na pintura, em todos os campos da humana inteligência, São João foi bem dadivada.

Contudo, apesar de todas essas prendas, nada parece evidenciar na vila qualquer singularidade de monta. Observaria o visitante apressado que os joaninos são iguais a toda outra gente, ocupados em afazeres dos quais toda a gente se ocupa. Talvez lhe cause um pequeno espanto ver como homens, mulheres e crianças, brancos e negros, bem-postos e pobres, diferentemente de outras terras, abraçam o uso de tomar banhos de mar, às vezes durante toda a manhã ou mesmo todo o dia, entre grandes folguedos e algazarras, sem que se constipem ou lhes advenha algum mal da excessiva infusão em humores salsos. Possivelmente também estranhará ver negros calçando botas, sentando-se à mesa com brancos, tuteando-os com naturalidade e agindo em muitos casos como homens do melhor estofo e posição financial, além de negras trajadas como damas e de braços dados com moços alvos como príncipes do norte. Mas, à parte essas e outras originalidades menos notáveis, zarparia esse visitante sem levar para contar os prodígios que se espera ouvir de todo viajante. E assim terá sido, se lhe pareceu.

Um dia saltou do tempo e amanheceu em São João. De madrugada, a friagem umedecida por um chuvisquinho quase gosmento pareceu preceder mais uma sucessão de juntas entanguidas e espirros alarmados, mas, na hora da segunda missa, o sol se inflamou de súbito já a um palmo da borda do horizonte, as janelas se escancelaram e a tagarelice do dia, antes atalhada por baixo das nuvens pardas, encheu os ares, misturando-se ao cheiro da terra molhada. O mar e as grandes rochas no mesmo lugar, o céu turquesa de sempre, as construções alheadas, no envelhecer vagaroso dos seres de alvenaria. Recebendo agora o nordestezinho que baixa para permanecer até a noite, as águas já não são mais um lago parado, mas se dobram em ondinas desapressadas, que mal fazem oscilar as embarcações na angra do Bispo e no caneiro do Mesquita. Nas colinas ainda enevoadas do outro lado da angra, já pelas divisas da vila, Casa dos Degraus, faiscando seus azulejos brancos salpintados de azul-celeste, é a única a refletir os tons dourados do sol, uma louçainha no topo da elevação mais alta, entre alamedas de flores e frondosas árvores de frutas. Suas dezenas de janelas, de um azul mais escuro e fechadas por gelosias, ainda não estão abertas, com exceção das que dão para a cozinha, onde mulheres ralam milho e coco e formigam em meio a gamelas e panelas fumegantes, à volta de um fogão descomunal. De resto tudo é parado como uma pintura, nada se movendo senão as folhas na brisazinha e o rolo de fumaça parda que emerge pachorrento pela chaminé. Mais uma vez cumprindo a missão que lhe foi dada desde a Criação, um grande bem-te-vi atitou energicamente, na copa de um oitizeiro do largo da Calçada.

II

A ela sem pena! — bradou uma voz de mulher, por trás do madeirame de uma janela do andar de cima da Casa dos Degraus.

— Mais alto! Mais sentimento! Mais sinceridade! — A ela sem pena! Sem pena! A ela, a ela! — A ela sem pena! Sem pena! Mais sentimento! — Sim, ai, vem de lá! A ela sem pena! A ela, a ela sem pena, a ela sem pena, trevessa eu! — Sim! Assim! Vou comer-te toda, desalmada! Ai que te atocho até os gorgomilos, malvada! Olha-o cá, olha-o bem! Gostas! Enlouqueces quando o tocas? É o teu bonifrate querido, todo teu, podes viver sem ele? Vês como se empina por ti? Que queres que ele faça? A ela sem pena, a ela sem pena, anda lá, não esperes que te peça! — A ela sem pena, sem pena! Sem pena! Martrata! Estraçaia! A ela sem pena! — Então? Sim! Assim! Vou trespassar-te, vou misturar-me contigo, perversa! Ai que me matas! Ai que te mato! Ai que morro, levanta essa periquitona, levanta esse meio do mundo, isto cá é o meio do mundo, ai, levanta, vai, arreganhamo lá, ai que morro, ai que me matas! — A ela sem pena, ih, uai, sem pena nenhuma, uai, ai, sim, assim, toda, toda, té os bago, todo, todo, todo esse caraio grande, aí! A ela sem pena, assim! Ai, ui, ai, ui, ai, ui! A ela sem pena, de com força! Cada vez mais clamorosos, os gritos chegaram à cozinha, mas as mulheres prosseguiram trabalhando como se não estivessem ouvindo nada, a não ser a velha Clementina, que se deteve um instante, sorriu e sacudiu a cabeça.

— É Vitória novamente? — perguntou, num tom de quem já sabia a resposta.

— Ai que venho, ai que já gozo, ai que já vem, ai que já venho, ai que me pões doida! Me aperta, ai que já gozo, ai que venho, ai! — gritou a voz de mulher.

— Se dessa vez não emprenhar, não emprenha mais nunca — disse Clementina. — Desde ontem que eles tão na safadagem. Se fosse Naná, já tava com pelo menos dois no bucho, com tanta socação.

— Ah, tava.

— Naná dá sorte. Tu veja como é as coisas. Naná pelejou pra conseguir que ele quisesse ela, passou mais de cinco mês se entupindo de banha de porco, cabaú e farinha pra engordar e crescer a bunda, só faltava esfregar o rabo nele toda vez que podia e da primeira vez que ele pegou nela foi ela que puxou ele no banho salgado, todo banho salgado ela metia a mão por debaixo dele. Agora, Crescência fica se julgando, fica como se fosse príncipes e princesas, em vez de pensar na vida. Crescência...

— Que é que tem Crescência? Uma negra moça, alta e bem-feita, de dentes alvos e pele sedosa, vestida numa bata estampada, enfeitada de contas vivazes e carregando um saquinho meio encardido, entrou sorrindo e agitada, como se estivesse apenas passando por ali, a caminho de festejar alguma coisa bem longe.

— Que é que tem Crescência? — repetiu, mas nova grita entrou pela janela e ela parou para escutá-la, só recomeçando a falar momentos depois. — Menino, o negócio tá brabo! É Vitória, menina? Pronto, que Fenício tá feito na vida.

— Que é isso, menino, e Fenício sabe de nada? — Comigo a senhora não precisa fingir. Nem comigo, nem com ninguém aqui. Se ele inda não sabe, que eu duvido, vai saber logo, quando nascer o pardozinho e quando ela receber a casa. Toda a gente sabe, ele não vai saber? Santinho sabe, Gaze sabe, Morotó sabe. Roque sabe, Lazinho sabe, Deus e o mundo sabe, só Fenício é que não vai saber? — Que é isso, menina, tire Deus dessa conversa, já viu falar em Deus no meio de uma porção de corno? — Porção de corno, não, corno não é eles, eles tão é no proveito e ainda papando as mulheres. Corno é Iô Pepeu, que pensa que as mulheres é só dele e ainda dá sustento a elas. Casa de chão de lajota e telhado amouriscado não é todo mundo que tem, não. Papa fina, sabão nem de sebo nem de peixe, sabão de coco fino, água de cheiro, bugiaria do pé à cabeça, muito respeito e compra na conta... Aquela que bem dá o seu bem-bom, bem da boa ficará! — Cala essa boca, por Nossa Senhora! Essas coisas não se diz! E quem é tu pra falar em vida boa, eu vejo assim minha vida, socada nessa cozinha, muito mal saindo no domingo, e fico pensando se eu tivesse a tua idade... Toma juízo, menina, tu não é nada, tu devia era pensar de que Iô Pepeu prefere tu do que todas aqui e que bastava estralar o dedo pra ele vir lambendo o beiço. Que é que tu vai ter na vida? Depois de velha, cai tudo, cai dente, cai peito, cai bunda, cai coisa que tu nem sabe que tem. Que é que tu vai ter? — Ah, não quero saber, depois de velha eu penso.

— Isso tu diz agora.

— Tá certo, tou dizendo agora. Quando chegar depois, eu digo depois. Eu não posso dizer depois uma coisa que eu só posso dizer agora, nem posso dizer agora uma coisa que só posso dizer depois. Eu tou antes do depois, não me lembro nada do depois, só me lembro do antes.

— Tu tá é variada da idéia, Deus que piade. E onde é que vai assim, tem nada que fazer, não? — E aqui ninguém tem nada o que fazer? Se eu tivesse de vintém o que tem de negro vadio nessa quinta e nas outras casas, eu comprava uma casa igual à de Naná mais Roque.

— Mas não vai ter, nem de vintém, nem de nada.

Não era bem melhor tu pegar essa casa do mesmo jeito de Naná e as outras todas que não tem vento na cabeça no lugar de mioleira. não era mais fácil? E duvido que ficasse na casa somente, ia ter muito mais coisa, podia até pedir antes. Por que tu não pede antes uma ruma de coisa, aí ele dá tudo, aí tu satisfaz a vontade dele, tem nada de custoso nisso? Que é que tu vai arranjar? Negro rico despreza e menósgaba negro pobre, negro rico quer mais é casar com branca, nenhum negro rico vai querer saber de tu, beleza não põe mesa. Eles, que já subiu, não vai querer descer. Iô Pepeu não é feio, não vem me dizer que ele é feio, é um branco bonito. Aí tu vai, pega o que quiser, garante teu futuro e só precisa servir ele, toda a gente diz que não é nenhum sacrifício e não deve de ser mesmo. Tu não esqueça que tu é cativa do pai dele e ele pode chegar e te pegar de qualquer jeito, é só ele querer.

— Que cativa? E nunca mais teve cativo aqui, de pois que Capitão Cavalo ficou viúvo? — Não tem, mas tem. Tem, mas não tem.

— Apois. Não tem.

— Vamos dizer. Mas, mesmo assim, que é que custa...

— Depois tu fala de meu avô, mãe, tu diz que ele fazia qualquer coisa por dinheiro, tu diz que ele te vendeu ainda quando era menininha e que vendia até a mãe e que...

— Chega, eu não quero ouvir essa conversa. Teu avô não tem nada com isso. Eu só queria saber por que tu...

— Porque não. Porque não quero. E ele pode me amarrar, pode me bater, pode fazer o que quiser, que eu não digo. Ele pode até me pedir pra ficar nua, como da outra vez, e eu fico. Eu nasci nua, índio anda nu e, se eu tivesse na terra de meu avô, também tava andando de peito de fora ou senão logo tudo, não tem nada demais. Eu fico nua, mas não digo e aí eu quero ver ele. Eu não digo, não tem quem me faça.

— Mas por que tu não diz? Isso é capricho, é só capricho, uma coisa tão besta, que não custa nada! Se eu pudesse dizer por tu, ai se eu pudesse dizer por tu! — Graças a Deus que não pode. Muito bem, então dai-me licença, que eu vou indo.

— Donde que se vai assim? Vai fazer compra no Olival, é? — Possa ser pra mecês, mas pra mim não tem nada que me dê vontade, naquele ladrão. Não, senhora, eu vou passear na vila.

— Tu vai passear na vila nada, tu vai de novo na furna da Degredada, tu não sabe no que tu tá se metendo, esse saco aí é das mandingas dela, não é, não? Eu não quero saber de tuas feitiçarias, não vem nem me contar! — E eu tou querendo contar nada? Ai, meu Deus, xoí, xoí, xoí, que o tempo não espera por ninguém. Daí licença, dai-me licença.

Dai-me licença, sim, dai-me licência, pensou, enquanto descia ligeiro a alameda, soprando e se abanando, apesar de o dia continuar fresco. Lá embaixo, a água da angra do Bispo já quase não se via, coberta por um rebanho de velas castanhas, brancas e azuladas, se fazendo ao vento, em harmonia como se pastoreado, para bordejar a costa entre as paredes de pedra. Ela olhou para os pés descalços e quis ter um par de sandálias novas, qualquer sandália. Qualquer não, uma sandália bonita, colorida e com sola um pouco alta, queria ser ainda mais alta, queria voar! E pensar que voaria, voaria, sim, não ia ser fácil, mas voaria. Envergaria as jarreteiras de Salomão, que estava começando a fazer e teria a determinação de acabar, nem que levasse dezenas de anos e sairia voando sem que ninguém a pudesse enxergar, conhecendo todos os locais, vendo todas as coisas e escutando todas as conversas. Sandália, pra que sandália? Chegou perto da praia, olhou a picada, que entrava nos matos a uns cinqüenta passos de distância. Próximo à trilha, como sempre, o jumentinho Paciência, que não tinha dono e só trabalhava quando acontecia alguém precisar dele. Justamente o caso dela, que assim evitaria . uma caminhada longa, que lhe tomaria toda a manhã. Paciência gostava de todos e a levaria com rapidez, em seu passinho duro e apurado. "Paciencinha do meu coração", murmurou ela, arrepanhando a saia e se escanchando no lombo do jumentinho, para entrar na picada e começar nova viagem à furna da Degredada.

III

Que palavras não quer pronunciar Crescência, que lhe dão tanto poder? Por certo não será nenhuma das mandraquices que talvez tenha aprendido com o povo que vive rondando a furna da Degredada, do contrário não falaria nelas tão abertamente. E não devem ser grande mistério, embora quiçá ioiô Pedro Feitosa Cavalo, nomeado de família com a alcunha conquistada pelo pai e chamado por todos de Iô Pepeu, tenha a esperança de que alguma reserva se guarde em torno do assunto. Ainda suficientemente jovem para isso, Iô Pepeu tem, não só essa, mas diversas outras esperanças, as quais somente um espírito maldoso procuraria desfazer e, mesmo assim, encontraria dificuldades, dada a renitência das ilusões imberbes, que tantas vezes transpõem em muito a idade do juízo. Essa esperança mesma, a de que não se comentem as palavras para ele tão imprescindíveis, é vã, mas pode ser que ele acredite que somente suas mulheres as conheçam, guardando-as meigamente para si e no máximo partilhando-as com uma ou outra conselheira mais velha, como Clementina. Sim, e também Crescência as conhecia bastante, havendo tão cruelmente se recusado a proferi-las, ainda que uma única vez. Mas certamente não fazia comentários, pois seria repreendida pela mãe e repelida pelas outras, tão dóceis, fiéis e dedicadas como verdadeiras esposas, até mais do que isso, porque inteiramente destituídas de vontade que não a dele e sem vida a não ser por ele.

Neste ponto também, Iô Pepeu se engana um pouco, pois, se dóceis e dedicadas eram, fiéis não eram. Boas negras, Vitória, Naná, Das Dores, Pureza, Eulâmpia e outras, mulheres com quem qualquer se gabaria de haver deitado e delas recebido chamego e dengo, mas fiéis não eram. Pelo contrário, nas casas de todas elas dormiam homens, em algumas um hoje, outro amanhã. E os homens não cuidavam de estabelecer se punham chifres a Iô Pepeu ou era este que os punha a eles, eis que só queriam saber que vida melhor não podiam almejar e tudo fariam para que o trato com Iô Pepeu pairasse sempre acima de qualquer queixa e as benesses disso derivadas lhes fossem vitalícias. E tanto se precatavam que os moleques da quinta, nas vezes raras em que Iô Pepeu preferia ir ter com uma mulher na casa dela, em vez de chamá-la à sua, estavam industriados para sair correndo e dar o aviso.

De todas as esperanças do coração moço de Iô Pepeu, a que parece às vezes estar tão perto que ele não consegue pregar olhos, mesmo tendo ido a uma de suas mulheres atrás da outra, é a de que Crescência finalmente ceda. Mas, na maior parte do tempo, o sonho está tão longe quanto o fim do mundo. Nunca o tratou mal, nunca lhe apareceu de calundu, nunca lhe negou nada, somente negou as palavras que pedira com tanto fervor e humildade, que suplicara mesmo, que chegara a se ajoelhar para mendigar. Na noite encantada e maldita em que, finalmente persuadida, com o empenhadíssimo ademão de Clementina, ela veio ao quarto dele, deixou que ele.lhe tirasse o camisão sem ajudar, facilitando e levantando os braços sem que ele pedisse. Nua em pêlo à sua frente, braços pendidos com naturalidade, um joelho levemente dobrado, uma perna meio passo à frente da outra, não tinha a expressão nem um pouco diferente da de quando falava com ele em casa ou lhe trazia um refresco, os lábios num semi-sorriso amistoso, os olhos suavemente fixos nele. Ele chegou mais perto para ver e sentir a pele rija e sem manchas, os poros eriçados pelo friozinho de junho, e ela se deixou admirar sem se mover. Ele pediu-lhe que se deitasse, ela se deitou, quase na mesma posição em que estivera de pé, apenas um dos joelhos mais dobrado. Ele quis falar, pensou em como não conseguia convocar palavras para descrever o que sentia e, tremendo como se estivesse com calafrios de febre, tirou também a roupa. "Abre as pernas", disse, e ela abriu. Sentindo que, novamente, desta feita mais que nunca, ia precisar que a mulher dissesse aquilo de que tanto dependia, pediu-lhe que o fizesse, com a voz constrita e esganiçada. "Não", respondeu ela, falando pela primeira vez naquela noite. Mas por quê? Que mal havia nisso, que transtorno lhe causava? "Nenhum", disse ela. "Mas não digo." Não diz por quê? "Porque não quero", retrucou ela, "porque, se vosmecê tem o querer de me trazer aqui, me tirar minha roupa, me mandar abrir as pernas e se servir de mim, resta o meu querer de não dizer o que eu não tenho vontade. Fazer, vosmecê me faz; dizer não me faz, não é parte. O resto pode fazer, eu tou aqui, o da mulher já cumpri, o do homem vosmecê cumpre." Não, ele não queria forçar nada, porque forçado não servia. Sim, o do homem ele tinha que cumprir, mas ela não devia ter dito isso de forma tão empedernida, que o angustiava e envergonhava cada vez mais fundo, embora não o impedisse de insistir. Pediu mais, pediu dezenas de vezes, prometeu mais do que havia prometido a qualquer mulher antes, mas ela agora nem respondia, nua na mesma posição. E, quando ele passou a bravatear sua biografia, descrevendo as mulheres que rastejavam a seus pés e o banhavam em glória e orgulho, feitos de combate, navegações desassombradas, caçadas e pescarias prodigiosas, ela continuou sem falar e, depois de algum tempo, fechou os olhos como se fosse dormir e virou-se de costas, sem se preocupar em cobrir-se. Suando e com vontade de arrebentar a cabeça contra a parede, ele primeiro passou-lhe a mão por todo o dorso, depois pelo meio das coxas entreabertas e depois apertando-lhe as nádegas com força. Deitou-se, encostou-se nela por trás, enlaçou-a para pegar-lhe os peitos, mordeu-lhe a nuca e a ouviu gemer e suspirar, antes de mexer-se para chegar-se mais a ele. Por favor, por favor, por todos os santos, por todas as almas, diz, é só dizer, são só umas palavrinhas, que são palavras? E, enquanto ele se levantava fora de si e vociferando todas as pragas que jamais ouvira, ela indagou se podia fechar as pernas, se podia levantar-se, se podia vestir-se, se podia ir embora, pausando a cada pergunta e, como ele continuava a imprecar com os punhos fechados no peito, deu um muxoxo alto, enfiou o camisão e saiu, entreabrindo a porta como se não fosse possível abri-la toda e roçando nela o corpo, até ganhar vagarosamente o corredor.

Agora, enquanto Iô Pepeu decidia se ia à bica tomar um banho, porque, mesmo a manhã estando tão fresca, tinha suado muito com Vitória, brotou de novo a lembrança que durante toda a semana o alegrara, voltando à sua cabeça em horas inesperadas. A tisana de Tantanhengá, Balduíno Galo Mau! Balduíno Galo Mau, índio tupinambá muito do péssimo no ver da maioria, homem de alto valor no ver de Iô Pepeu, ras-tejador mestre, doutor dos matos, amigo de todas as ervas, conhecedor de todos os bichos, íntimo de todas as árvores, velhaco como toda a mascataria levantina, matreiro como oitocentos curupiras, mentiroso como um frade viajante, o maior entendido em aguardente de cana de que se tem notícia, do fabrico ao desfrute — e a única coisa que lhe falta é saber falar direito língua batizada, mas há quem afirme que é fingimento. Balduíno lhe dissera que de fato as palavras são de grandíssima importância, havendo homens que obram qualquer graça ou desgraça com elas, a seu belo talante. Mas, por mais importantes, no fundo não passam de vento mastigado e, por conseguinte, não podem com a força das plantas e das qualidades dos bichos, que são a própria Natureza e ninguém vence a Natureza. Comprende coisa aqui, disse Balduíno, zerva forte, muito forte, zerva do mato boa. Pega isso, índio pega: txutxu-riana, dois mói; casca do ipê-roxo, duas lasca; capabiléu, duas raiz grossa; um cunhão de jacaré-curuá; caroço de curuiri, duas mão; ponta de rabo de jararacuçu; cardo de ceranambi apurado até não poder, três mais um dedo de caneca; milômi, dois mói; acatuaba, três lasca; bola de nhaca de porco-do-mato, pronto. Afere-venta, afereventa, deixa sereno três dia, bebe xuque-xuque-xuque, pronto. Daí a pouquinho o fulano começa a sentir uma quenturinha nos baixios, quenturinha essa que vira um calorão, calorão esse que levanta o mucurango que chega a parecer que ele vai estourar e aquilo fica o dia inteiro e a noite inteira que nem um pau de bandeira e nem todas as mulheres da vila, encarreiradinhas, conseguiriam abaixá-lo. Escalavrar, desfarelar, sim, mas derribar, nunca do nunca.

Ah, exultou Balduíno, embriagado com a própria sapiência. Esse façanhoso preparo lhe tinha sido ensinado havia muito tempo, por um velho muito velho, que morreu numa esteira, empernado com uma mulher novinha, novinha. O velho emborcava a tisana — ih, ih, íh! — e ia para onde tinha mulher passando. A mulher passava, ele dizia: vamos se distrair? A mulher dava risada. Ele aí dizia: espie eu aqui, cabecinha pra riba por sua causa, querendo se distrair. A mulher dava mais risada e dizia velho, velho, por que tu não faz como os outros velhos e não vai pra sua rede pitar seu cachimbinho, se queixar das novidades e contar história? Ele olhava para a mulher com aqueles olhinhos pregueados, fazia que não ouvia e dizia: vamos se distrair, essa menina, bote aqui sua mãozinha. A mulher ria de novo, ia rindo, ia rindo, ia rindo e, nessa risadaria — ih, ih, ih! — adivinhe o que o velho fazia mais ela. Depois ele deixava ela desmilingüida na beira do rio e gostando muito de velho desse dia em diante, e ia caçar outra. A outra vinha, ele dizia: vamos se distrair? E por aí ia, até não passar mais mulher.

Iô Pepeu antecipou com um arrepio o gosto da tisana e resolveu que taparia o nariz, fecharia os olhos e se pegaria com todos os santos, mas a beberia. Qualquer coisa valia a pena para que, com os poderes seqüestrados por Balduíno e a ele repassados, pudesse enfim encarar Crescência e dizer-lhe: Não precisas falar nada e, aliás, prefiro que te cales, porque agora verás o que é homem. Sim, dessa forma vingaria o pundonor tão afrontado, mas, apesar de a alegria não o desertar, vinha afeada por uma nódoa às vezes pequena a ponto de mal ser percebida, às vezes alastrada como os sargaços no verão. Vida irônica, vida cruel, logo ele, que aspirava reputar-se como o garanhão Confiado, de memória e descendência perenes em toda a ilha do Pavão, não se registrando égua ou mula que, pisando seu território, tivesse escapado de havê-lo aos quartos. Logo ele que, desde os catorze anos, tivera todas as mulheres da quinta, da Casa dos Degraus e da fazenda Sossego Manso, numa sucessão tão infrene que até mesmo seu pai, também notado pelo vigor, se espantou e pediu o testemunho das mulheres para acreditar. Delas todas, ao que parece, só escaparam as velhas, as meninas ainda sem peitos e a índia Celestina, que anda nua pela casa, mas, quando ele a quis agarrar, deu-lhe um safanão e disse que não gostava de homem, tinha nojo, ainda mais de corpo cabeludo como os brancos. E Crescência, sempre Crescência, sim, sim. E não deixava de ser uma vergonha que, com a recusa dela a dizer aquelas palavras singelas, ele precisasse de uma triaga de índio velho para ter certeza de que não falharia, como até agora falhara.

Que palavras, malditas palavras, cravadas em seu miolo tão indelevelmente, desde aquela tremenda primeira ocasião em que a negra Sansona, uma das preferidas de Capitão Cavalo e três vezes maior que Iô Pepeu, puxou-o para uma esteira e, com as feições assustadoramente transfiguradas e a voz parecendo lhe sair dos peitos enormíssimos, tirou-lhe a roupa, apalpou-o todo, mordeu-lhe o pescoço, alisou-lhe a bunda e abriu diante dele as coxas poderosas, gritando: — A ela sem pena! Nesse dia e em todos os outros em que esteve com Sansona, o medo só passava depois que ela fazia essa exortação com entusiasmo, o que, aliás, lhe ocorria naturalmente. Quando ele levou Esmeraldina para os matos, achando que dessa feita não sentiria medo, teve o mesmo pavor, até que lhe veio à mente pedir que ela dissesse as palavras de Sansona. Milagrosamente, o medo se desfez, mas ele se tornou para sempre escravo dessas palavras e, de certa maneira, escravo da obsessão por Crescência, que tinha o poder de não dizê-las. Mas agora não dependeria mais daquilo, porque a tisana de Balduíno o libertaria.

IV Balduíno Galo Mau tinha ido para a frente do sobrado da Câmara, como havia combinado com Iô Pe-peu, mas não era mais por essa razão. Ali não estava nem Balduíno nessa hora, estava Tantanhengá. Pintado de jenipapo e urucu, com uma borduna na mão, uma pena enfiada no lábio inferior, duas outras nas bochechas e a carantonha feroz, rezingava, rosnava, andava e perneava de um lado para o outro, diante de uma pequena multidão de índios, os homens mais ou menos paramentados da mesma forma que ele e alguns completamente nus, embora usassem cintos de cipó, que de vez em quando arrumavam atentamente, como quem ajeita uma peça de roupa essencial. A intervalos regulares, voltava-se para o grupo, brandia a borduna e, com as veias do pescoço túmidas, proferia um pequeno discurso em língua de índio, fazendo pausas para ouvir os gritos com que os outros reagiam. O sobrado, inteiramente fechado, tinha à porta dois milicianos com mosquetes antigos montados em forquilhas, de olhos fixos nos índios e a expressão de que gostariam de estar bem longe dali. Na hora em que Iô Pepeu ia chegando, Balduíno, inflamado pela própria facúndia, rodopiou batendo os pés, conversou com o chão e, depois de ficar de cabeça para baixo muito tempo, deu um salto altíssimo, fez uma careta horripilante e, gorgolando como um peru demente, correu para a porta do sobrado e encostou a testa na de Francisco Cabeça Reta, o miliciano mais atemorizado.

— Cadê tendente? Cadê Dão Filipe de Meulo Furutado? Cadê condenado pecador, tendente estrumo? Uá! Uá! índio mata, índio dá carne de branco postadinha pra guará, pra raposa, pra tatu e aribu, pra siri e pra mecê atecuri, na terra, no vento e na maré! índio pega toda gente e mata de dentada, arrum, armm, creque-creque, ramo-ramo, racha cabeça, bebe sangue na coité, tuque-tuque-tuque-tuque! Curuí-curuê, é com vossimicecê! Donde que saiu? Saiu de eu, bosta sem mistura, bosta pura! Fio arrejeitado de sarigüéia amolestosa, bixiguento! Cadê tendente? Não manda ele? Manda eu também! Aqui tudo, índio já mandava antes de branco parecer! Vão-te à merda do caraio da postema da barabaridade! Dismigaia mioleira, come nariz, chupa olho, capa zovo, enfia porrete no rabo! Uá! Uá! Joga feitiço da Degueredada, faz desgraça, vai secar tu e tua parentage, tua mãe, teu pai, teus com que vive, teus de sangue tudo! — Não é eu que dá as ordens — disse Cabeça Reta, apoiando-se na forquilha do mosquete como se estivesse com medo de cair.

— Ordes dá tendente Dão Filipe, índio sabe! Mas tendente fugiu, se escondeu aí dentro! índio vai entrar, índio lasca porta toda, entra aí dentro, quebra tudo, tudo! Então, povo: todos índio não vai entrar? Vai! Vai! Índio vai entrar, garguelar tendente, enfiar no espeto, assar no moquém! — Seu Dão intendente não tá aí. Tá tudo fechado, hoje é feriado, dia do outono.

— Dia de quem? Quem é o tono, é santo? Santo Antono não é, não fica com conversa querendo enganar índio, Santo Antono é no tempo de trezena e novena, índio não é besta! — Não sei se é santo, só sei que é feriado, dia do outono. Está na postura, é feriado dia do outono, dia da primavera, todos esses dias. O outono começa hoje, é muito importante, é feriado.

— Mentira. Mentira de Dão Filipe tendente, filadumaégua com oitenta jumento.

— Mentira, não. Tá escrito e pregado ali na porta. Tando escrito, não pode ser mentira, tá escrito.

— Diz tu e diz o cura Bonege. E é porque é dia do tono que o tendente não tá aí? — Não, é porque é feriado. Por primeiro é o dia do outono, por segundo é o feriado. No feriado, ninguém tá aqui, só tá nós.

— Então onde é que ele tá? Em casa não tá, na rua não tá, aqui não tá. Ele tem que tá. Ninguém não não tá, todo homem tem que tá, não pode não tá, índio não é besta.

Iô Pepeu abriu caminho pelo ajuntamento e pôs a mão no ombro de Balduíno, que se virou e, de início com a mesma cara feia, pareceu não reconhecê-lo, para somente depois bater-lhe amistosamente no braço, embora ainda enfezado. Iô Pepeu quis saber o que tinha acontecido, que cizânia era aquela, entre gente antes de tão pacata convivência. Ah, não quisesse saber Iô Pepeu! Pois me comprenda uma coisa, o desgraçado do Dão Filipe, que nunca gostou de índio, mandou sergente Polônio procurar Dominguinho, índio mais velho de todos, que nem sicutar direito sicuta mais e se esquece de tudo, chegou e disse que Dão tendente fez orde nova, orde essa que diz que índio não pode mais ficar na vila, lugar de índio é no mato. Que as damas se queixa de ver índio nu e as filha de familha também, que índio bebe cachaça, faz disturbação, não quer trabalhar e, por isso e muito mais, vai ter que voltar pro mato. E que índio tem três dia pra voltar pro mato, nem mais um tico nem um tiquitito.

— Índio não volta pro mato! — gritou Balduíno, com as veias do pescoço mais uma vez parecendo prestes a estourar. — Se mato é coisa boa, branco ia pro mato! Branco só quer coisa boa! Por que branco não vai pro mato? — Mas por que tu não queres ir para o mato? Tu sempre disseste que o mato tinha tudo, a vida era melhor...

— Era! Isso qjuando índio era besta e descomprendido, não tinha aprendido nada, índio era besta. Era! Agora não é mais! Tem çúcar no mato? Tem sal no mato? Tem fiambre no mato? Tem galinha gorda e dinheiro no mato? Tem sabão no mato? Tem jogo de carta no mato? Tem dinheiro no mato? Tem sabão no mato? Tem carne de vaca no mato? Tem vrido, panela de ferro e faca molada no mato? Tem aramofada no mato? Tem tenda de novidade e armazém no mato? No mato tem é bicho, tem mutuca, tem musquito, tem potó, tem cobra jararaca, tem coceira, tem perreação, no mato tem é isso! índio volta pro mato? Nunca que nunca! índio quer voltar pro mato? Não, não, não, não! índio,..não volta pro mato, já falou. índio volta pro mato? — Não! — responderam os outros, os homens levantando as bordunas e as mulheres e crianças de mãos dadas, girando numa espécie de roda apressadinha.

— Mas é verdade essa história? Ninguém me disse nada, eu não soube de nada. Quede Apolônio? — Sumiu também, deve de tá pescando. É o dia do tono e eles todos sumiu.

— É o dia de quê? — Do tono. Cabeça Reta disse que tá pregado ali na porta.

Iô Pepeu aproximou-se para ler o que estava escrito no papel pregado na porta. No inimitável estilo do mestre José Joaquim Moniz Andrade, dodecassílabos de grande poder evocativo exaltavam a formosura do outono, a dadivosa estação das frutas, dom do ubertoso solo que Deus abençoa. Incumbe ao homem por ele afortunado erguer as mãos para os céus, na alegria da colheita, quando as macieiras, cerejeiras e pessegueiros tornam ledos os campos, na deleitável cornucópia da abundância.

— Índio não perecebeu nada — disse Balduíno. — O que é estação? — É o tempo, agora é o tempo das frutas. A maçã, a cereja...

— O que é cejera? O que é amaçã? — Frutas. São frutas que tu não conheces, mas há.

O outono é o tempo das frutas.

— De acajueiro mesmo não, agora não tem caju. E quase o resto todo não precisa de tono, dá tempo todo.

— Tu não entendes disso, Balduíno, é porque aqui somos muito atrasados, só agora é que o outono está chegando por aqui, antigamente não existia, é por isso que as frutas daqui são assim. Mas a fruta verdadeira respeita o outono.

— Pode ser, mas índio não respeita. É por causa do tono que índio tem que voltar pro mato? Não, não era. Em duas folhas de papel apergaminhado, ambos com o selo da vila estampado — uma cauda de pavão emoldurada pelo dístico Sic impavidus scintillat pavo e circundando os quartos de um leão de juba cacheada — luziam novos lavores da erudição de mestre Moniz de Andrade, embora firmados por uma das incontáveis plumas de pato com que Dão Felipe Mendes Furtado ia às turras com a grafia e a sintaxe, para depois, amaldiçoando o cálamo rebelde, desejar a morte súbita de todos os palmípedes do universo e a conseqüente extinção da laia dos escrevedores e gramáticos. Nessas duas páginas, em meticulosa caligrafia processual, faziam-se primeiramente assisados considerandos, a saber, entre outros: que era da natureza das diversas raças e povos díspares opugnarem-se entre si, se submetidos a excessiva convivência, como sobejamente ilustrava a História, estando o índio para o branco assim como o hitita para o egípcio, ou este para o hebreu, ou os romanos para os filhos de Dido; que os da raça vermelha, em todas as partes do mundo, por mais que forcejassem a caridade e o empenho catequé-tico dos brancos, mostravam-se invariavelmente infensos ao mais elementar ensinamento, quer da cristandade, quer da urbanidade, embriagando-se em público, trafegando sem roupa ou qualquer espécie de cobertura, bebendo a fumaça do cânhamo-da-índia ou do tabaco, soltando nos ares vapores ofensivos pelo vaso traseiro, dando-se a algazarras a toda e qualquer hora, refugando trabalho honesto e ignorando a autoridade; que cabia à Intendência e à Câmara o zelo da ordem pública, da moralidade e dos bons, costumes, múnus em cujo fiel e indemovível exercício penhorariam honra e vida; que a própria palavra "selvagem", originária do mais patrício e castiço latim e digna da pena de um Cícero ou de um Tito Lívio, queria dizer "próprio da selva", construindo-se a partir desse alicerce um perfeito silogismo, nos puros moldes do insigne mestre de Estagira: selvagens são os habitantes da selva; os índios são selvagens; ergo, o sítio próprio para os índios é a selva, não havendo como refutar tão exata razão sem que a lógica do universo se derribe. Tudo isso e mais outros juízos e postulados levavam o intendente e a Câmara a haver por bem injungir os ditos índios a deixar a vila para dela não mais se aproximarem, a não ser portando salvo-conduto, concedido ao alvedrio da Intendência. Três dias a contar da data, o índio pilhado na sede da vila receberia por ensinadela ser posto a ferros e escorraçado de volta ao seu meio natural. Pela segunda vez cometendo a mesma felonia, penaria todos os rigores da lei cabíveis a desordeiros, vagabundos, salteadores e demais celerados que sobejam em sua grei imunda.

— Tudo mentira! — gritou Balduíno, apesar de não haver entendido quase nada do que Iô Pepeu, com alguma dificuldade, lera em voz alta. — índio anda nu porque é nocente, desconhece roupa, não sabe mardade, padre cura disse, padre cura não se poquenta com índio nu! Toda gente gosta índio! Assomente é Dão Filipe que não gosta! Assomente Dão Filipe e as beata beguina! Assomente Dão Filipe, as beguina e os miserave! Quando índio tá na casa de mulher que eles vai, ajudando no sereviço e fazendo covitage, eles não recrama nem manda índio simbora! Quando índio vê o que eles faz e elas faz, fica tudo muito amigo de índio, pra índio espiar mas não contar! Eles quer índio tarabaiando de graça, consertando rede, carregando fruta, capinando mato, levando barrica de bosta, pra depois nem comida querê dá índio, nem misgaia! E, se índio peida, é comida junto mais bebida de branco que faz bufa, comida boa, mas faz bufa! Dê dinheiro índio, índio contente! Dê mais dinheiro índio, índio mais contente ainda! Por que não dá dinheiro índio? Não se enganava Balduíno quanto à hostilidade, ditada pelo medo, daqueles vários moradores da vila que os índios ajudavam, nas questões delicadas que citou. Não se devia tal hostilidade a que os índios furtassem tudo o que queriam, mesmo porque não costumavam subtrair mais do que comida, um enfeite ou outro, um utensílio ou outro, e distribuíam o que furtavam a quem lhes pedisse, partilhando o uso, se não se podia dividir a peça. Não era por coisa alguma do que o intendente reprovava em seu edito, era que os índios agora ameaçados pelas autoridades, com argumentos privadamente indefensáveis mas publicamente irrecusáveis, podiam contar o que presenciavam em toda a vila, principalmente na baixa do Alecrim. Para muitos maridos e esposas, nesse instante gravemente arrependidos e prometendo aos céus jamais repetir os seus malfeitos secretos, era melhor, ao menos por enquanto, que os índios fossem embora, sem a oportunidade de, com a língua solta por uma malunga ou outra, contar bem alto o que tinham visto ou de que tinham até participado — cala-te, boca sem siso; apeia do juízo, pensamento malquerido. E, assim, em lugar de aprovação, o que corria entre esses preocupados, nervosamente acotovelando-se entre os outros assistentes, na pequena multidão que se formara para ver o que se passava, eram comentários destinados a converter a maioria à sua conveniência — esses peidorreiros ladrões têm mesmo é que ser arrojados aos quintos dos infernos, eu por mim passava-os todos ao fio da espada, para mim é pecado batizá-los, pois está visto que alma não têm, já cá vivemos fartos de ver mamas despencadas e tomates Iramposos a baloiçar-se, o que penso deles não disse a Mafoma do toicinho, e assim por diante, mandando o pejo cristão que aqui se detenha tal medonha enumeração. Finalmente, a muito custo, Iô Pepeu conseguiu convencer Balduíno a dispersar os outros índios e acompanhá-lo à casa de Mirinha Vesga, na baixa do Alecrim. Lá iriam a uns copos e conversariam com mais calma, talvez se pudesse dar um jeito na situação.

Tomaram muitos copos, Iô Pepeu de moscatel e Balduíno de uma supupara na cobra coral que ele mesmo tinha feito e guardava na casa de Mirinha, sob grandes precauções, por se tratar de um garrafão raríssimo, de fundo chato, que surripiara da casa da mãe de padre Boanerges, fazia mais de um ano. Quem tocasse no garrafão sem seu consentimento ele ameaçava matar, com os olhos fuzilando e a mão no facalhão. E, de fato, algo diferente devia existir nessa jeribita, porque a cachaça de Balduíno era diversa da de qualquer outra pessoa. Toda gente tem ou cachaça feia ou boa cachaça, sendo a mesma coisa dizer, como se diz no reino, que se tem mau vinho ou bom vinho. Dentro dessas cachaças, há a chorosa, a confessional, a dançarina, a amante, a querelosa, a porradeira e as inteiramente fora de si, mas cada uma se amolda num dos dois feitios, ou o bom ou o mau. Balduíno, porém, não tem boa ou má cachaça, tem a cachaça do dia, sempre de acordo com a necessidade e nunca falhando nessa exigência. Se precisa de cachaça para sair dizendo desaforo, para declarar paixão, para historiar patranhas, para chorar de arrependimento ou para qualquer outra finalidade premente, das muitas que emboscam o homem nesta vida ludibriosa, ele convoca dos ares essa cachaça, logo depois da segunda talagada. Na primeira talagada, não. Na primeira talagada, abana a cabeça com força, enfia os fura-bolos nos ouvidos para agitá-los enquanto revira os olhos, franze a boca, faz um bico estalado e, depois de uma pausa em que parece ter ficado cego, esconde o rosto entre as mãos. Ao descobri-lo, nem mesmo seus amigos mais chegados podem perscrutar o que lhe vai no espírito. Pausado e grave, apanha o garrafão com ambas as mãos e, cerrando as pálpebras, bebe a segunda talagada. A segunda talagada, essa sim, já traz sua natureza encomendada e então, havendo mais uma vez escondido o rosto entre as mãos, ele ressurge com a cara certa para aquela certa ocasião, com sua certa cachaça.