Só saiu do hospital muito tempo depois, quando já andara quilômetros em volta do salão e no jardim e já folheara todas as revistas que encontrara. E, apesar da espera, não saiu descontente, pelo contrário, saiu muito satisfeito. Ela tinha fraturado um ossinho do tornozelo, fratura boba, já imobilizada. Tinha tomado uma porrada na cabeça, mas não passara de um galo e de uma tonturazinha, não chegara a haver propriamente concussão. Estava lá dentro, sedada, até porque o médico disse que ficara muito nervosa e agitada, assim que soube que perdera o filho. Deu para repetir que era uma sarigüéia, contou o médico, Ângelo Marcos sabia o que queria dizer isso? Não, não sabia e, embora não dissesse isto ao médico, tampouco queria saber. Mas não teve como recusar dar uma olhada nela, o que não foi muito difícil, porque ela estava dormindo, embora com o rosto estranhamente contraído. Demorou um pouquinho diante dela, despediu-se do médico e voltou para casa, pensando em como era bom que aquilo por que torcera tanto, enquanto esperava no salão, houvesse terminado por acontecer. Agora estava livre desse chatíssimo problema da gravidez dela, Deus é grande.
— Pirada — disse Tavinho. — Não pirada dessas de ter de amarrar e sifonar um galão de tranqüilizante na veia, mas pirada, completamente pirada.
— Também não é assim — disse Bebel. — No começo, sim, parecia bem pior. Quando eu cheguei da Europa, pensei que ela ia morrer, pálida, meio escaveirada, com aquele pé engessado e aquela muletinha, sem querer falar, sem querer comer, depressão braba mesmo, a ponto de eu ter até pensado em morar com ela uns tempos, com medo de que ela se suicidasse. Mas hoje não, hoje ela está ótima. Tem umas manias meio estranhas, mas dá para dizer que é somente excentricidade. Não, pirada ela não está, não.
— Então não sei o que é que você entende por piração.
Você não se lembra daquele dia, na casa dela mesma, em que eu falei em a gente fazer uma pescaria na ilha? Eu falava com ela e parecia que ela não estava ouvindo. Eu repetia: hem, Ana Clara, por que não fazemos outra expedição de pesca na ilha? E ela, nada. Parecia que eu era completamente invisível e inaudível. Eu fiquei grilado com aquilo e aí futuquei o braço dela: hem, Ana Clara, você não está ouvindo? Hem, Ana Clara, que é que você acha de uma nova expedição de pesca, na ilha? Você ouviu, você e Nando, os dois ouviram o que ela respondeu. Ela fez uma cara quase de raiva e disse: eu não suporto a ilha e odeio lancha.
— É, eu sei, eu já sabia, ela já tinha me dito isso antes.
— E você não se espanta, não? Como é que pode ser isso, se ela adorava a ilha? — Sei lá, talvez por causa do acidente, sei lá, as pessoas mudam, de repente ela mudou, simplesmente.
— Ah, qual é, Bebel, e depois eu falei naquele amigo de vocês, aquele cara que marcava os lugares da pescaria, como é o nome dele? — João Pedroso.
— Pois é, eu falei nele e ela se levantou, ajeitou o cabelo e disse: não me lembro de nada disso, você tem a imaginação muito fértil, Tavinho. E foi saindo.
— É, eu sei. É, é meio esquisito, mas também não é suficiente para se afirmar que ela está maluca. Ela pode estar querendo esquecer alguma coisa, isso acontece. Além disso, ela tomou uma pancada na cabeça, no acidente.
— Ah, uma pancadinha de nada, Marquinhos me contou. E também me contou que ela anda pirada, sim, e o médico receitou um coquetel de bolinhas da pesada para ela.
— Bem, o fato é que ela continua minha amiga, e excelente amiga, por sinal. Gosto muito da companhia dela e não acho ela nada maluca.
— Tudo bem, tudo bem, não vamos brigar por causa disso. Venha cá, me dê um beijinho, venha cá. Gostosa! Sabe que cada dia eu acho você mais gostosa? Não me canso de lhe comer, é melhor agora do que quando éramos casados, não é, não? Por que a gente demorou tanto em começar a se encontrar? — Porque você vivia cheirando e o mínimo que ia fazer era contar a Nando na primeira oportunidade.
— Mas você sempre disse que você mesma contava tudo a Nando.
— Não no seu caso. No seu caso, eu abri uma exceção, não acho que ia pegar bem com ele, melhor assim como está, em segredo. Nem pense, mas nem de longe, nem por uma fração de segundo, em contar nada a Nando.
— Claro, claro, meu amor, não só já prometi, como não estou cheirando mais mesmo, não há perigo.
— Às vezes eu desconfio dessa sua regeneração. Eu...
—Ah, deixe disso, não tem de desconfiar de nada, eu sou um homem sério. Venha cá, venha, deixe eu sentir essa bundinha, essa bunda fantástica! Ai, gostosa! Não houve como evitar a trepadinha saideira, aliás ótima. Tavinho estava se revelando um talento na cama, quem diria. Mas o resultado foi que saiu atrasada do apartamento dele. Precisava anotar algumas coisas a fazer no dia seguinte, precisava dar telefonemas para uma porção de gente e já passava das cinco da tarde, não ia dar tempo para tudo. O dia seguinte não seria propriamente tarde demais, mas o tempo já estava ficando curto e essa festa tinha que ser absolutamente impecável, sem a menor falha. Requeria dedicação exclusiva e, portanto, nada de diversões extracurriculares, ou seja, nada de Tavinho, até depois da festa. Tudo corria muito bem e coisa e tal, mas não só a organização da festa não podia ser atrapalhada, como a verdade era que estava se encontrando demais com Tavinho. Na semana anterior, três vezes, um grande exagero. Uma hora dessas, Nando ia acabar desconfiando, e isso não podia acontecer. Não, ninguém podia saber desse caso, talvez somente Ana Clara.
Mas poderia mesmo? E se ela, de repente, pirasse mesmo, de vez? Por enquanto, Tavinho não tinha razão, ela estava sob controle, estava praticamente normal. Aliás, inteiramente normal, a não ser, talvez, para quem a conhecia intimamente antes. Nunca mais caíra em depressão, como nos primeiros dias. Como nos primeiros dias, não; como nos primeiros dois ou três meses, pensando bem, parecia que ela nunca mais ia recuperar-se, uma coisa triste. Nessa época, ainda não havia chegado a amnésia — se é que realmente ela tem amnésia, essa amnésia esquisita, meio especializada demais. E aí, quando se dispunha a falar com Bebel, contava tudo o que agora não lembra mais. Contou sobre a gravidez e o aborto e como, durante alguns dias, teve pesadelos medonhos, em que era uma sarigüéia que uma vez fizera matar de pancada e que estava cheia de filhos imaturos na bolsa. Aí chorava, às vezes dias a fio, como também chorava quando falava em João Pedroso, de quem, allernadamenle, como quem recita uma ladainha, dizia que perdoava e não perdoava, perdoava e não perdoava, perdoava e não perdoava. Quanto a Marquinhos, não falava em seu nome, chamava-o apenas de "ele" e costumava trancar-se a chave quando ele estava em casa. Mas explicava que não havia desistido de deixá-lo, apenas não tinha energia para isso — e aí chorava novamente e se dizia uma pessoa desprezível, um verme, um inseto que não merecia viver. Foi nesse tempo que Bebel resolveu passar uns dias na companhia dela, com medo de que ela se matasse. Mas, quando chegou à casa dela para conversar sobre o assunto, teve uma surpresa enorme, porque, vestida num macacão de brim, com uma tesoura de jardinagem na mão e uma colher de pedreiro enfiada no bolso de trás, pedaços de folhas grudados no rosto suado e o cabelo preso no alto da cabeça, ela a recebeu com um sorriso escancarado, abraçando-a sem tocá-la com as mãos, porque estavam sujas de terra.
— Suzanna Fleischman! — exclamou, esfuziante. — Estou escrevendo desde as seis da manhã e agora resolvi esfriar a cabeça, fazendo um pouco de jardinagem.
— Mas que maravilha, mas não posso acreditar, você está tão bem! Não acredito, para quem, há três dias... Mas que bom, Aninha, você está outra pessoa, que milagre! — Eu não estou outra pessoa, eu sou outra pessoa. Eu não sou Ana Clara, eu sou Suzanna Fleischman, você me conhece.
— Sim, eu sei. Mas você também é Ana Clara.
— Não, não. Sou exclusivamente Suzanna Fleischman.
Ana Clara é outra.
— Sim, mas...
Demorou muito para Bebel perceber que ela estava falando sério e não se considerava mesmo Ana Clara, só Suzanna Fleischman. Naturalmente que sabia—como confidenciou com uma caretinha marota — que os outros achavam que ela era Ana Clara. Aí ela fingia, só por conveniência, que era Ana Clara. Tudo truque, uma maneira de Suzanna não se aporrinhar. Por exemplo, claro que Suzanna não se dava com Ângelo Marcos, tinha o mais completo desprezo por ele, mas, na frente dos outros, falava com ele, ninguém desconfiava de nada.
— E a separação, você vai levar adiante a separação? — Que separação? Quem pode se separar dele é Ana Clara, eu não tenho nada com ele, nunca fui casada com ele.
Ele me sustenta, não tenho preocupações materiais, é como se ele fosse o meu mecenas. E, aliás, ainda é muito pouco para ele expiar todas as bandidagens que fez, faz e fará, aquele canalha absoluto. Eu, inclusive, sustento que ele é veado, sempre sustentei, e não tem coragem de encarar a realidade.
— E você acha que Ana Clara se separa? — Ah, não sei. Estou chegando à conclusão de que Ana Clara é uma debilóide, uma dondoquinha de merda, sem nada na cabeça. Separa nada, ela não é de nada, ela merece aquele calhorda cheiroso — fedorento, melhor dizendo.
— Ainda bem, inclusive porque João Pedroso sumiu e, independentemente de eu ser contra, ela enfrentar essa separação sozinha ia ser muito difícil.
— Que João Pedroso? Não entendi nada do que você falou.
— Anin... Suzanna... Suzanna, você está falando sério? Você não sabe nada de João Pedroso? — Pode me chamar de Aninha, todo mundo me chama assim, estou acostumada. Agora, quanto a esse João, claro que não sei nada sobre ele. Tenho a vaga impressão de que já ouvi falar, mas me esqueci e não tenho vontade de me lembrar. Dá muito trabalho, eu preciso ocupar minha mente com outras coisas, estou cheia de projetos, cheiíssima de projetos, você precisa ver. Estou inspiradíssima, vamos aqui ao meu escritório — resolvi montar um escritório sério, de escritora mesmo, e vou aprender datilografia, para escrever direto na máquina —, vamos aqui no meu escritório, para eu lhe mostrar umas coisas. Está tudo no começo. Até uma novela eu estou escrevendo. Uma novela! Na escrivaninha, entre uma profusão de blocos, canetas de todos os tipos, grampeadores, furadores, pesos de papel e dezenas de miudezas de escritório, um caderno de capa dura, com uma etiqueta branca colada no frontispício, onde se lia 'As Venturas de Amanda Cienfuegos, ou A Ruindade Recompensada — obra moral e educativa, contendo lições sobre o Amor, o Dinheiro e a Felicidade Sem Trabalho". Essa Amanda Cienfuegos era uma mulher fantástica, lindíssima, gostosíssima, interesseira e ordinária. Acabava ela ficando milionária, comendo e corneando todo mundo e casando com o rei e corneando o rei também. Contado assim, podia parecer sem graça, mas ela garantia que ia ficar ótimo. Mas o projeto principal não era esse, o projeto principal era reescrever Maquiavel. Isso mesmo, reescrever Maquiavel! Ela já tinha ouvido falar de "O Príncipe". Aí, não sabia bem por que nem como, resolveu dar uma fuçada naquelas coleções virgens do filho da puta e encontrou logo "O Príncipe". Livrinho pequenininho, leu todo em poucas horas, maravilha. De início, pensara apenas em parodiá-lo, escrevendo outro, com o título de "Teoria e Prática da Mulher Esperta". Mas aí não, aí bateu esse negócio de mulher e poder e aí ela decidiu encarar a reescritura do bicho. "A Princesa — Maquiavel para Mulheres." Que tal o título? Ela achava excelente. Não começara pela ordem, mas pelos pedaços que considerava mais interessantes, como aquele sobre a obtenção de principados através da malvadeza. Fantástico, fantástico, tremendas idéias — quando estivesse pronto, Bebel seria a primeira a ver. E a publicação estava garantida, o patife pagaria, claro, era obrigação dele. Pega uma dessas editoras do Rio ou de São Paulo, dessas de prestígio, dá uma grana aos caras e publica o livro. Nada de lançamentos, já tinha resolvido como seria sua carreira literária. Seria tipo misterioso, ninguém ia saber a identidade de Suzanna Fleischman — só mesmo os únicos que sabem hoje, Bebel e o salafrário —, nada de fotografias, nada de entrevistas, mistério absoluto. Ah, mas havia tanto a fazer, que excitação! Depois dessa jardinagem, ia comer qualquer coisinha — estava com o estômago roído de fome, fome de pastel, fome de sanduíche, fome de coxinha de galinha, de tudo quanto era porcaria — e pegar nos cadernos outra vez, Amanda já estava partindo para aprontar a primeira sacanagem de uma longuíssima série.
Mesmo depois de acostumada, às vezes Bebel ainda levava algum tempo para saber se estava falando com Ana Clara ou com Suzanna, até porque, quando a chamavam de Ana, ela não deixava de responder, mesmo que no momento fosse Suzanna — o tal truque de fingir que era Ana, embora também houvesse as roupas e o modo de se aprontarem, sempre um pouco diferentes. Suzanna arrancara Ana Clara definitivamente da depressão, porque, quando de repente ela desapareceu e Ana Clara voltou, voltou muito diferente. Faladora, gastadora, fresquíssima, meio frívola, engraçada, risonha e festeira — embora com novas esquisitices, como não querer nem ouvir falar na ilha ou na lancha, ficar com náuseas ao ver ou cheirar peixe fresco e, da mesma maneira que Suzanna, alegar não se lembrar absolutamente de João Pedroso. Bem, no começo a pessoa estranha, mas depois se habitua. A alternância entre Ana Clara e Suzanna acabou não fazendo grande diferença. Pelo contrário, tornava a amizade mais divertida, dava-lhe mais variedade. De alguma forma, as duas continuavam sendo a mesma pessoa, amiga, agradável, confidente, seguramente bem melhor do que no tempo em que resolvera fazer aquela maluquice de ir viver com um peixeiro e já estava até falando e pensando como ele.
Tudo mudou para melhor, pensou Bebel, quando, pouco depois das cinco horas, pôs o carro na garagem e correu para o gabinete de Nando, que estava usando como escritório central para as providências da festa. Listas e mais listas, milhões de listas, uma confusão infernal. Ânsia para começar logo o trabalho, de vez em quando tinha a impressão de que nunca conseguiria fazer tudo. Foi ao quarto, vestiu uma roupa leve e voltou, quase correndo. Pegou a primeira lista, fez um gesto irritado, como quem ia jogá-la na cesta e se arrependeu a meio caminho. Lista de convidados de Ângelo Marcos. Algumas pessoas aceitáveis, mas muita gente de baixa extração. Por que tivera a triste idéia de pedir uma lista a ele? Bem, ele estava muito prestigiado, talvez saísse até candidato a Governador, uma espécie de terceira opção, no arranca-rabo em que estava se transformando a disputa dentro do partido.
Aliás, Ângelo Marcos de repente entrara numa das melhores fases de sua vida, até em relação a Ana Clara. Surpreendentemente, aprendeu a conviver com ela nos termos dela e estava se dando muito bem. Bem, talvez não tão surpreendentemente assim, porque todo mundo sabia de sua ligação com Mônica Leitão Sobral, que a esta altura já era praticamente teúda e manteúda. E aí, enquanto Ana Clara não incomodasse e Suzanna Fleischman ficasse lá com seus escritos amalucados, as coisas estavam convenientes para ele. E talvez saísse candidato mesmo, talvez fosse até eleito. É, pensou Bebel, vamos mandar os convites de Sua Excelência. Esse pessoal político se segregaria naturalmente, e ela montaria dois ambientes básicos, que facilitariam a divisão da festa. De um lado, a caretice. Do outro, o embalo. Tinha que dar certo, estava jogando tudo nessa festa — quarenta anos de Nando, tinha que ser tudo realmente perfeito.
E tudo chegou, realmente, a ser quase perfeito. A casa parecendo um palácio iluminado no meio do jardim e do gramado, a piscina feérica, uma orquestra na varanda grande, som de discoteca lá embaixo, ela e Ana Clara lindíssimas e ligadíssimas, divisão impecável entre o embalo e a caretice, os banheiros cá de baixo cheios do pessoal que cheira e as mesas lá de cima tomadas pelos solenes, tudo realmente acima de qualquer crítica. O único problema aconteceu por volta das três horas da manhã, quando um grupo de homens armados tentou transpor a área de segurança que separa o jardim do muro externo, para fazer um assalto. Mas os cachorros e os vigias funcionaram, bem como todos os alarmes que Nando instalou, e até a polícia chegou imediatamente, entrando em tiroteio com os assaltantes, matando dois, ferindo três e pondo os outros em fuga. Nando não se recusou a dar entrevistas aos jornais, no dia seguinte. Pelo contrário, fez até questão, porque achou que, divulgando como sua casa era protegida, desencorajava futuros assaltos. E aproveitou para denunciar a falta de segurança nas cidades brasileiras e revelar-se favorável à instituição da pena de morte, a seu ver a única maneira de conter a onda de violência. Nas colunas sociais, o destaque foi para Bebel Magalhães. Na hora em que os tiros estavam espoucando lá fora, a orquestra parou e começou a instalar-se um certo pânico, ela disse que de repente se lembrou do naufrágio do Titanic, quando os músicos continuaram tocando enquanto o navio afundava, e aí puxou o maestro pela manga e fez a música recomeçar como se nada estivesse acontecendo, tendo sido muito aplaudida pela sua coragem e sangue-frio.
Já no fim da tarde, depois de adejar em espirais sobre as cristas das ondinhas ao largo da ponte velha, um pato-d'água majestoso e pausado embicou para baixo de repente, recolheu as grandes asas e virou uma flecha, que mergulhou e emergiu adiante, com um peixe faiscando na ponta. Padre Monteirinho, parado à beira do cais para admirar o pássaro, sorriu e suspirou. Sentia falta desta paisagem e deste ar, falta bem maior do que aquela de que tinha consciência antes. Como era diferente da paróquia que agora ocupava, no sertão, a uns seiscentos quilômetros dali, em outro mundo. O mar ampliava o horizonte, era a liberdade, a sensação de que haverá sempre outro lado, sempre uma saída. Suspirou outra vez, retomou a caminhada que começara tão logo chegara à cidadezinha que fazia meses não via. A velha caminhada do tempo em que morava ali, tempo que agora parecia tão longínquo, o velho roteiro. Que, por sinal, hoje podia terminar no Largo da Quitanda, a poucas dezenas de metros de onde estava. Sim, por que não, pararia no largo, escolheria uma mesa defronte do pôr-do-sol, pediria uma cerveja — uma cerveja, não, um uísque, em homenagem aos velhos tempos — e iria cultivar a melancolia agridoce que certamente lhe viria, entre lembranças saudosas e sentimentos antigos. Ainda era Luiz Garçom. Claro que ainda era, por que razão haveria de ser outro? Mas tudo de fato lhe parecia tão remoto que se surpreendia em ver as mesmas coisas, como se tanto tempo fosse passado que tudo tivesse de estar diferente.
Mas nao estava, não havia diferença alguma. Com a praça quase deserta, sentou-se exatamente no lugar que esperara encontrar desocupado, pediu um uísque com um pouco dt água e gelo e fixou os olhos no horizonte à frente, onde o sol já era metade de uma bola vermelha, entre nuvens esfiapadas. O uísque chegou, a noite começou a baixar rapidamente, apenas uma das lâmpadas da praça se acendeu e Monteirinho ficou envolvido numa penumbra suave, sentindo realmente a melancolia que antecipara.
Começando a bebericar o segundo uísque e prometendo a si mesmo que não iria ao terceiro, embora quisesse, pensou em como, se não fosse pela passagem ocasional de Luiz Garçom e por duas vozes conversando em algum lugar que não podia precisar, era possível achar que estava sozinho no mundo, parado no tempo, destacado de tudo, perto de Deus. Lua nova, céu escuro, ele escorregou um pouco na cadeira para ver mais confortavelmente as estrelas, e se irritou quando seus olhos foram encandeados pela luz alta de um carro que encostou do outro lado, com a frente para sua mesa. Protegeu os olhos com a mão, mas a luz continuava a incomodá-lo e o ocupante do carro parecia não querer sair dele, nem apagar os faróis. Já pensava em reclamar, quando finalmente as luzes foram desligadas e um vulto corpulento saiu do carro, dirigiu-se para uma mesa próxima, sentou-se e transformou-se numa silhueta negra, contrastada com a cal do tronco do oitizeiro por trás dela.
Monteirinho estava de rosto para cima outra vez, quando sentiu que o homem o olhava. Usava um chapéu, o que acentuava a escuridão sobre seu rosto, mas era impossível não perceber a direção de seu olhar persistente. Quem seria esse sujeito, que pretendia com esse olhar desagradável? Sim, cada vez mais desagradável, fazendo-o remexer-se na cadeira e querer levantar-se para ir para qualquer outro lugar. Que bobagem, não dava nem para ter certeza de que o homem estava realmente com os olhos pregados nele, podia ser impressão. Não, não era. Mas também era um simples olhar de um desconhecido, não havia por que ser tido como hostil. Mas havia. Se não hostil, pelo menos não amistoso. Talvez nem isso, mas certamente desagradável. Desagradável, sim. E não somente o olhar, mas seu dono, embora não lhe visse as feições. Talvez pudesse mudar-se para uma mesa por trás da castanheira, onde aquele olhar não o alcançasse, mas, antes de decidir-se, tomou um susto, porque o estranho levantou-se e, em passadas rápidas, veio em sua direção.
— Boa-noite — disse, e Monteirinho espantou-se ao ver quem era. — O senhor é Padre Monteiro, não é? Nunca fomos apresentados, mas naturalmente que o conheço bastante de nome. E de vista.
— Eu também conheço o senhor, de nome e de vista. O senhor é Dr. Lúcio Nemésio, diretor do hospital, não é? Quando o senhor chegou ali, não o reconheci, talvez o chapéu...
— É, pois é, sou eu mesmo. Muito prazer. O senhor se incomoda que eu sente um pouco em sua companhia? Incomodava-se, sim. Ele estava falando com amabilidade e não havia como tratá-lo mal, mas, por causa da lembrança da história das criaturas e da possibilidade de que fosse verdadeira, sua presença deixava Monteirinho perturbado. Para não falar no constrangimento, porque, afinal, haviam trocado acusações mútuas em público, se bem que a briga principal tivesse sido com João Pedroso. Mas respondeu que claro que não se incomodava, e Lúcio Nemésio voltou brevemente à mesa onde estivera, pegou seu copo e sentou-se defronte. Fazia muito tempo que não via o padre — alguma viagem, ou coisa assim? — Não. Transferência. Estou em outra diocese, em Santa Maria da Vitória.
— Santa Maria da Vitória? Longe, hem? — É verdade, longe mesmo.
— E está dando um passeio aqui na ilha, para matar saudades.
— Não, não é bem isso. Saudades eu tenho, mas não vim por causa delas, vim para buscar umas coisas minhas, que deixei aqui temporariamente, até arrumar minhas instalações em Santa Maria da Vitória. Já resolvi tudo, volto amanhã.
— O senhor deve estar estranhando que eu tenha vindo lhe falar. Depois daquele problema das denúncias de João Pedroso, que o senhor apoiou, o senhor pode achar que existe alguma animosidade de minha parte. Não existe nenhuma, posso garantir-lhe. Aquilo foi um equívoco, que compreendo perfeitamente.
— Eu vi as fotos.
— Que fotos? — As fotos que o senhor destruiu.
— As fotos não queriam dizer nada, eram truques grosseiros.
— Mas o senhor as destruiu.
— Porque não queria mais chateações, ficar dando entrevistas a repórteres estúpidos, só para esclarecer uma fraude de que vocês foram vítimas.
— Não foi bem isso que João Pedroso me contou.
— O senhor sabe que o nosso João é um homem problemático. Mesmo assim, gosto dele, também não guardo mágoa nenhuma dele, por causa desse episódio. Pelo contrário, preocupo-me com ele. Foi esta a razão por que vim até o senhor.
Achei que, sendo seu amigo, podia ter notícias dele. O senhor sabe onde é que ele anda? — Não faço a mínima idéia. Às vezes, penso que ele pode ter sido assassinado.
— Assassinado? Quem poderia querer assassiná-lo? A quem interessaria sua morte? — Não sei, é tudo especulação, coisas que passam pela cabeça da gente, e é irresponsabilidade dizê-las em voz alta.
— A mim essa hipótese nunca ocorreu. Eu acho que ele está vivo e gostaria de saber onde.
— Dr. Nemésio, nisto que vou dizer ao senhor não vai nem um pouquinho de agressividade, quero deixar bem claro.
Não é minha intenção ofendê-lo ou acusá-lo, mas não posso deixar de fazer-lhe esta pergunta. A verdade e que, se o senhor e João eram inicialmente amigos, depois romperam em circunstâncias desagradáveis, em que o senhor chegou a falar muito mal dele e ele do senhor. O que se supõe a partir disso é que sua curiosidade pelo paradeiro dele não é tanto por amizade, como o senhor diz, mas talvez por interesse. É esta a pergunta: o senhor não estará, no fundo, preocupado em encontrá-lo para saber o que ele pode estar fazendo, para denunciar a existência das criaturas? — Desculpe, padre, também não quero ofendê-lo, mas isso é uma bobagem. Até porque, mesmo que o senhor não acredite na minha sinceridade, a verdade objetiva é que nada que João Pedroso faça pode impedir a marcha dos aconteci mentos. Há um processo em andamento, um processo inexorável e irreversível. Os muitos joões pedrosos que certamente aparecerão poderão no máximo afetar levemente um aspecto ou outro.
— Eu confesso ao senhor que, num certo momento, cheguei a ter minhas dúvidas quanto ao que João me contou, até me desentendi um pouco com ele por causa disso, mas agora o senhor parece estar admitindo tudo o que ele disse. Do jeito que o senhor fala...
— Eu não estou admitindo nada, estou falando sobre o curso da evolução científica. Aquilo que João e o senhor denunciaram como monstruoso e inadmissível não só não é nem uma coisa nem outra, como é inevitável. Esse tipo de projeto e outros, correlatos, já estão sendo conduzidos em vários centros.
— O senhor está dizendo que esse homem-macaco existe? — Existe, existe. Ou se não existe ainda, deverá existir e existirá.
— Mas o senhor realmente não acha isso uma monstruosidade, uma aberração? — Absolutamente. É apenas um animal novo, que abre imensas perspectivas de progresso em vários campos do conhecimento, tanto básico quanto aplicado. O homem precisava desse animal e, quando teve condições, criou-o, é somente isto. Ainda estamos muito longe de poder construir um animal desses geneticamente, de maneira que a hibridização foi o recurso adotado. Posteriormente, esse animal pode ser aperfeiçoado através de recursos estritamente genéticos, no nível molecular mesmo.
— Esse animal também será usado como cobaia? — Naturalmente, da mesma forma que qualquer outro animal.
— Mas esse não teria o direito de se recusar a ser cobaia? — Como assim? Animal não é sujeito de direito, isso é maluquice de ecologista ignorante. Se animal fosse sujeito de direito, a onça teria o direito de comer o senhor, assim como o boi, se fosse carnívoro. Mas quem tem o direito de comer o boi é o senhor, não vice-versa.
— E o direito de não sofrer? Eles não têm o direito de não sofrer? — Não. O homem, que, inclusive, é o único animal capaz de conceituar o sofrimento, é que tem, talvez, o direito de não presenciar o que julga, fundadamente ou não, ser o sofrimento de um animal. Animal não tem direito nenhum, só quem tem direito é gente. Além disso, em condições normais de laboratório, essa coisa de sofrimento é muito relativa, procura-se evitá-lo, até porque é estressante, e o estresse induz reações fisiológicas muitas vezes indesejáveis para a manutenção das condições experimentais.
— Dr. Nemésio, o senhor, como João já me disse, não acredita em Deus, o que cria um abismo entre nós, mas deve haver um conteúdo humanista em sua formação, não é possível que não haja. O senhor não acha terrível criar-se um híbrido do ser humano com um animal e, ainda por cima, chamar esse híbrido de "apenas um novo animal"? — Não, porque, como o senhor mesmo disse, não creio em Deus, ou seja, não creio que sejamos fruto do sopro divino.
Para mim, somos animais ainda bastante primitivos mas inteligentes e dominantes e com possibilidades de progresso. Meu humanismo é porque eu sou homem, é claro. Se a espécie dominante fosse o gorila e eu fosse gorila, eu seria um gorilista. O homem é apenas uma espécie temporária, num planeta temporário, num universo temporário, e o mínimo que pode fazer por si mesmo é utilizar a inteligência para prolongar mais seu poder sobre a Natureza. O resto é pensamento voluntarista ou superstição, ou ambas as coisas. A sociedade, a partir de agora, começa a controlar seus elementos com racionalidade, vai poder livrar-se de vários problemas, antes fora de seu controle. Eu acho que vamos atingir um grau elevadíssimo de controle — não no futuro próximo, claro, mas vamos, mais cedo ou mais tarde.
— Eu vejo nesse híbrido e em outras coisas do mesmo tipo a rejeição pelo homem de sua semelhança com Deus. Eu vejo o poder, tantas vezes corrupto, como é no Brasil, perpetrando cada vez maiores monstruosidades e se perpetuando de forma hedionda.
— Quanto à semelhança com Deus, receio que partamos de premissas inconciliáveis. Mas, de qualquer forma, tenho dificuldade em compreender como se concebe um ser absoluto de barba, bigode e cabelinho no nariz.
— O senhor sabe que não me refiro a isso, refiro-me à consciência, que é nossa semelhança com o Criador. Vocês, materialistas, jamais conseguiram explicar a consciência.
— Nem vocês. Vocês apenas transferem o problema.
— Não quero discutir questões de fé com o senhor, para mim isso tem importância, para o senhor não tem. Mas veja o problema moral contido nisso, o problema político. O poder político plasmando a Humanidade e a Natureza.
— Isso é inevitável. Quem chegou, chegou, quem não chegou, não chega mais. O poder hoje dispõe de tais instrumentos que se sedimentou definitivamente, jamais vai mudar realmente de mãos e a tendência é isso se acentuar. Isso é bom. Isso significa maiores possibilidades de controle racional. Não haverá revolução, nem alteração radical na do poder, nem entre nações, nem entre classes sociais, nesse sentido a História acabou. Sempre digo que democracia é um mito supersticioso, assim como igualdade e outros chavões. Há muito tempo que a democracia não é mais praticada em lugar nenhum, a não ser microscopicamente, e temos que colocar essa situação a nosso favor, ou seja, aperfeiçoar o homem de todas as formas possíveis.
— Para mim, isso é extinguir a Humanidade, tal como a conhecemos. Para mim, é o homem se tornando inimigo do homem, deixando o adversário que traz dentro de si vencer, fazendo com que se volte contra si mesmo. É como se fosse a obra de Satanás.
— Sim, Satanás, ha-ha! Satanás quer dizer "inimigo", não é? Neste caso, eu seria Satanás, ou pelo menos um satanás, pois creio que há controvérsia na própria Igreja sobre a existência de um ou vários satanases. Engraçado, desculpe-me por estar rindo, muito engraçado mesmo — Satanás. Pois, olhe, eu aceito, e acho tecnicamente certa sua inferência. Eu sou inimigo de Deus, sim, embora o considere um inimigo fictício, vocês me arranjaram esse inimigo fictício, que eu preciso combater. É uma espécie de humanismo radical, rebelião mesmo. Chega desse negócio de ficar se ajoelhando para um espírito invisível, indemonstrável e absurdo, com práticas e rituais grotescos. Chega de entregar tudo às mãos de Deus, temos que pegar as coisas com as nossas próprias mãos, decidir até mesmo quando queremos morrer, em vez de nos entregarmos a uma espera masoquista e angustiada, de que não escapam os próprios teístas, que, apesar de sua imortalidade, também têm medo de morrer. Deus não existe e, se existe, é preciso tomar dele o poder, ele não tem sido competente, para um onipotente tem um desempenho muito pouco satisfatório. E então, diante do exposto, o senhor tem razão, de fato eu sou Satanás, o senhor tem razão, é mais do que lógico.
Riu novamente, uma gargalhada que lhe sacudiu todo o corpanzil e deixou Monteirinho achando que se tratava mesmo da voz das Trevas e do Inimigo. Enquanto a gargalhada parava gradualmente, Monteirinho tomou em poucos goles todo o resto do uísque esquecido e ficou com medo de que ele recomeçasse a falar, ficou com medo da escuridão, ficou quase em pânico. Levantou-se, procurando olhar para o rosto dele o mínimo possível, despediu-se com um boa-noite e um aceno e saiu apressado, ouvindo-o ainda responder à despedida e dizer que entendia perfeitamente a retirada do reverendo, não ficava bem para um padre a companhia de Satanás.
Vade retro, pensou Monteirinho, já no quarto da casa paroquial em que se hospedara. Disse as mesmas palavras outra vez, se sentindo ao mesmo tempo assustado e ridículo. Não, ridículo por quê? Aquilo tudo era terrível mesmo, e mais terrível ainda por se passar daquela forma irresistível, como Lúcio Nemésio dissera tão convincentemente. João Pedroso tentara resistir e fora eliminado. Sim, fora eliminado, agora tinha certeza, embora não pudesse provar, embora jamais pudesse dizer a ninguém. Tinha certeza, certeza absoluta de que João fora morto por obra de Ângelo Marcos, ao se descobrir enganado — não sabia como, mas fora. E, assim, esse agente do Mal cumpriu sua missão, removeu um obstáculo. Tudo se encaixava, o Mal havia tido uma grande vitória. Dedicaria a vida, tinha dito João, dedicaria a vida a lutar contra aquilo. Mas apenas perdeu a vida, martirizou-se anonimamente.
Seria possível a vitória completa do Mal? O Mal que vem de dentro do homem, o Mal é o que sai do homem, não o que entra nele, como está nos Evangelhos. Orgulho, hubris total, liberdade absoluta, pecado absoluto. Deus estava realmente indiferente? Por que aquilo tudo acontecia? Não, Deus não estava indiferente, mas o homem é apenas uma de suas criaturas e, se ela se volta contra si mesma, não cabe a Ele fazer nada, há muitas outras criaturas d'Ele no Universo, que não se afastam d'Ele assim, e tudo na face do mundo pode mudar, sob Seus olhos eternos. Ajoelhou-se e rezou pela Humanidade com fervor durante muito tempo, até que adormeceu e teve um sonho intensamente colorido, do qual acordou trêmulo e suado, em que Deus lhe falava como falou a Jó e perguntava se a chuva tinha pai e quem era o pai da chuva e onde estava ele quando o mundo foi criado.
O dia amanheceu chuvoso, mas, na hora em que acabou de tomar café, despedir-se e sair, carregando sua pequena valise, o sol despontou e tomou conta de todo o céu, que ficou extraordinariamente azul. Por cima do teto da casa das freiras, uma lua cheia retardaria, muito branca, quase brilhante, o mar liso refletindo a cor do céu, os pássaros marinhos se empoleirando em biribas e estroncas, as deltóides delicadas das velas dos saveiros deslizando solenes sobre a água límpida — e Monteirinho, que tinha acordado triste, sentiu-se ainda mais triste. Tinha de ir embora, e ir embora assim tão perplexo e desalentado, para viver como quem apenas cumpre uma sina. Chegou ao fim de linha, não encontrou nenhum ônibus, ficou esperando embaixo do abrigo. Tudo parado, quatro ou cinco pessoas espalhadas pelos bancos do jardim, cachorros dormindo pelos cantos, uma acácia toda florida de amarelo, no fim da rua. A uns três metros dele, um bulício num dos canteiros rompeu o silêncio e ele foi ver o que era. Era um grande lagarto esverdeado e iridescente, que pôs a cabeça para fora de uma touceira de margaridas e o encarou, mostrando e recolhendo a língua repetidamente. O lagarto de João Pedroso, o lagarto que sorria, o lagarto que ainda ia sorrir mais? Não era possível que um lagarto sorrisse, mas a verdade é que, depois de se aproximar mais um pouco, sentiu que realmente havia algo de um sorriso em torno do bicho e não sorria para ele, mas como que sorria dele. Lembrou o medo que acossara João Pedroso e, vagarosamente, esse mesmo medo, um medo semelhante ao que lhe infundira Lúcio Nemésio, também o assaltou. Seria o tal lagarto de dois rabos, visto por João Pedroso, podia haver tamanha coincidência — e, se houvesse, o que significaria? Notou que, por trás do lagarto, a touceira era mais baixa e pensou em rodeá-la, para ver se de fato ele tinha dois rabos. Mas desistiu depois do primeiro passo. Era o mesmo lagarto, com certeza que era e, contudo, ele não tinha coragem de provar a si próprio essa certeza — enquanto o bicho de alguma forma sorria, sorria, sim. E o assustava muito, mas, por mais que quisesse e se agoniasse e se sentisse sitiado e amedrontado, não conseguia desviar os olhos, e foi com muito alívio que entrou no ônibus que acabara de parar para fazer horário e se sentou num lugar de onde era impossível continuar a vê-lo, embora soubesse que não podia realmente fugir dele.
Fonte: livrosparatodos.net