6
João Pedroso podia até estar bêbedo, pois já tinha passado da quinta dose reforçada de uísque, mas não se sentia nem um pouco bêbedo, quando, sentado num bar cujo único outro freqüentador era um cachorro enrodilhado junto à porta, viu Monteirinho passar, levantou-se e foi até ele.
— Bater papo no bar pode, não pode? Já puxei conversa com aquele cachorro, mas ele não responde e Zoinho do Balcão tem um vocabulário menor que o de qualquer cachorro.
Monteirinho sorriu e estendeu a mão. Em todo o largo, mal iluminado por um conjunto de lâmpadas na maior parte apagadas, não se via ninguém, a não ser um grupo de rapazes sem camisa jogando dominó no banco de madeira do sobradão, observado por dois velhos de chapéu. Parecia que ia chover, pelas nuvens que começavam a se empilhar pesadamente por cima das torres da igreja de São Lourenço e pela gelatina morna em que aos poucos se transformava o ar. Numa gaiola pendurada junto às infusões de aguardente, um cancã como que acordou de repente com os olhos irrequietos e começou a pular de um lado para o outro.
— O único movimento aqui é o desse passarinho hipercinético — disse João Pedroso. — Eu aprecio, mas às vezes fica monótono. Eu preferia o tempo em que Waldemar tinha um posto aí no cais e a gente ia assistir à bomba de gasolina funcionando.
— É verdade, eu também estou sentindo falta de uma boa conversa. Como vai você? — Sente aí, sente aí. Prometo assuntos estritamente públicos.
Monteirinho fingiu que não entendeu e sentou-se, ainda sorridente. Comentou que a cidade estava um verdadeiro deserto, até mais que o habitual para a época do ano, e pediu um caie no copo.
— Você já comeu gato? — perguntou João Pedroso.
— Gato? Como assim, peixe-gato? — Não, gato, gato mesmo, miau-miau, Felis cattus, variedade doméstica.
— Não, Deus me livre, só se foi enganado. Mas por que, você já comeu? — Já. Almocei um hoje e não posso dizer que estava ruim.
— Você almoçou um gato? — Almocei. Dois gatos, para ser mais exato. Churrasqueados, com molho de pimenta, tomate e cebola, arroz, feijão e farofa d'água, na companhia de Mãozinha Quatro, só eu e ele, porque a mulher dele não come gato. Há muito tempo que ele insiste que eu vá comer um gato com ele e hoje eu resolvi ir. Quando um gato entra na casa dele, pode ir preparando o último miado, porque ele não perdoa, pega pelo rabo e arrebenta a cabeça no muro do quintal.
— Que coisa horrorosa.
— É, mas eu já vi você comprando costela de porco e você sabe como é que matam os porcos por aqui. O gato tem destino menos ruim, é mais ou menos como uma guilhotina, não dá nem tempo dele saber o que está se passando. Mas eu não participei dessa cerimônia. Quando eu cheguei, os gatos já estavam na vinha-d'alho, dormiram no tempero.
— É muita disposição, eu não teria coragem.
— É, eu sei que você é meio enjoado para comer. Já eu não, eu topo qualquer parada. Já comi cobra, sapo, cagado...
— É, como dizia meu avô, eu não sou esses homens todos, você deve ser uma espécie de recordista.
— Não, que nada, eu li num livro aí tipo almanaque que um tal Dr. Buckland, que morava perto do Zoológico de Londres, no século passado, se gabava de ter comido amostras de praticamente todo o reino animal. Quando morria um bicho no Zoológico, ele ia lá e pegava um pedacinho para comer. E dizem que certa feita um leopardo morreu e foi enterrado enquanto ele estava viajando e, quando ele voltou, foi lá, desenterrou o bicho e tirou um bife para experimentar, Não sei se gente ele comeu, mas ele contava que uma das piores coisas que comeu na vida foi toupeira, embora mosca varejeira fosse pior. Era um homem excepcional, claro. Eu não ia de leopardo faisandé, nem aceitaria um tira-gosto de varejeira.
— Bem, um gafanhotinho São João Batista comia. Dizem que é parecido com camarão de água doce.
— Pois é, se come de tudo neste mundo. Você não imagina o que o povo aqui é capaz de comer. Sarigüê é iguaria, diante dos outros troços que eles cozinham para comer. Se você conhecesse essas brenhas por aí como eu, os hábitos e as práticas desse pessoal...
— É verdade, todo dia a gente descobre uma coisa nova por aqui. Você falou aí em Mãozinha Quatro e na quarta-feira da outra semana eu tive uma experiência interessante, embora não propriamente agradável, na companhia de um irmão mais velho dele, Florisvaldo, Mãozinha Três. Você já ouviu falarem Bará, esse curandeiro da Misericórdia? — Claro, todo mundo já ouviu falar nele, o povo chama ele de santinho e diz que ele faz milagres.
— É, eu sei, mas naturalmente é tudo embuste. Agora, isso não impede que ele seja um homem interessante, uma figura muito curiosa.
— Ele esteve com você? — Não, na verdade quem esteve com ele fui eu. Ele me mandou uma carta, pedindo que eu fosse lá vê-lo, a respeito de um gravíssimo assunto, que ele não dizia qual era. Eu não quero ter nada a ver com esse camarada, pelo contrário, ele é uma péssima influência na minha paróquia, mas a carta me deixou curioso e eu acompanhei Florisvaldo até lá, de noite. Homem estranhíssimo. Você precisa ver como ele fala, parece que é uma gravação, ele não tropeça, não hesita, vai falando como se tivesse tudo decorado na cabeça, e tudo numa linguagem empolada, cheia de "assaz", "sobremaneira", não sei o quê.
— E o que é que ele queria? — É uma história comprida, com uma tal de cigana no meio, depois eu lhe conto sobre essa cigana. Ele, aliás, queria falar com você, disse que mandou recado e você não atendeu.
— É, mandou, mas eu não tive saco para ir e até achei que era para me pedir para se aproximar de você, ou qualquer coisa assim. E deve ter sido mesmo, porque agora ele procurou diretamente você.
— É, é possível, porque a história dele não convence.
— Qual é a história dele? — Bem, ele diz que, levado pela tal cigana — que para começar é uma mulher negra que não tem nada de cigana, mas diz que uma cigana baixa nela, veja você —, levado por ela, ele foi a uns tais casebres à beira de um apicum e lá encontraram algumas mulheres e seus filhos. Só que os filhos, segundo ele, não eram gente, mas também não eram propriamente bichos.
E tinham uma fala estranha e, principalmente, um olhar que aterrorizou tanto ele quanto a cigana.
— Que história louca! Não terá sido algum macaco que ele viu, não? — Não, ele disse que as mulheres garantiram que eram filhos das barrigas delas.
— E ele descreveu bem a aparência deles? — Não, só falou no olhar e nas mãos ossudas de um deles.
— E onde estão eles? Ele mostrou eles a você? — Aí é que está. Com essas coisas, é sempre assim, é como disco voador e ser extraterreno. As fotografias que aparecem são sempre uns borrões indistinguíveis, que só os fiéis, porque esse negócio de disco voador é uma espécie de religião, é que reconhecem discos neles. Ele disse que, apesar do medo, voltou lá, mas não encontrou mais ninguém, tanto as mulheres como as criaturas sumiram.
— E por que será que ele também queria falar comigo? — Sei lá, certamente por aquilo mesmo de que você suspeitou, para aproximar-se, fazer gênero, adquirir respeitabilidade, sei lá. Ele imaginou que, sendo você biólogo, ia se interessar por essas coisas que ele inventou. Eu não acredito absolutamente nele. Nem nele, nem na cigana, nem em nada daquele negócio. O que era que ele imaginava que eu achas se? Só se eu achasse que eram filhos das mulheres com algum visitante interplanetário, porque eu não sou analfabeto para acreditar que essas mulheres pudessem, por exemplo, ter tido relações com algum animal e produzido filhos. Relações com animais, essa coisa para mim inconcebível e hedionda, eu não sou tão inocente para achar que não existem, mas filhos claro que não, senão esta ilha já estava cheia de centauros e, vamos dizer, jegauros.
— Há alguns anos, você estaria completamente certo, mas agora não está mais. Desde mais ou menos o século dezessete, considera-se que dois indivíduos são da mesma espécie quando seu acasalamento produz descendência fértil, ou seja, capaz, por seu turno, de também gerar descendência.
Agora não, agora a tendência crescente é isso ser reformulado, e eu lamento decepcionar você, mas, de certa forma, já se pode dizer que serão criados meios para se produzir esse centauro.
— O filho de um homem com uma égua? Que maluquice é essa, João? — Bem, não o filho de um homem com uma égua, no sentido estrito, mas um ser transgênico, que incorporasse genes de um homem num cavalo. Isto, embora ainda com muitas limitações, já é perfeitamente possível e tem uma porção de caras no mundo fazendo alguma coisa nessa linha.
— Você quer dizer juntar espermatozóides de homem com óvulos de égua? — Não, isso não dá pé, pelo menos ainda, mas eu não duvido de nada, tem muita grana nesse negócio e muita cuca superior querendo tirar o Prêmio Nobel. Por enquanto, esse tipo de fertilização só é possível em casos muito restritos, com espécies muito próximas, como jumento e cavalo, homem e chimpanzé. E na verdade, meu caro amigo, este último caso já é uma realidade, ao menos até certo ponto.
— O quê? Existem híbridos de gente com macaco? — Pelo menos embriões já foram conseguidos, in vitro.
Mas, pelo que eu sei, foram destruídos. E também não sei se seriam viáveis, se a gestação seria levada a termo, se sobreviveriam após o parto, e assim por diante.
— Mas isso é uma barbaridade, uma coisa monstruosa.
— Meu nobre Padre Olavo Bento Monteiro, vosmecê está desatualizado. Se segure aí, para eu lhe contar. Não faz uma semana, eu li uma comunicação sobre uns malucos da Pensilvânia e de Maryland, que já conseguiram porcos com o gene humano para a produção de hormônio de crescimento, ou seja, na verdade uma espécie de cruzamento de gente com porco, não deixa de ser. Os porcos não cresceram como eles esperavam e muitos nasceram com problemas, inclusive da libido. Mas eles continuam, eles são danados, eles vão acabar conseguindo alguma coisa. Você não pode negar que é mais um elo muito forte entre a Humanidade e a porcalidade, além dos que já existem por usarmos os aminoácidos essenciais da carne do porco e muitas outras coisas dele.
— Eu não posso acreditar nisso, não pode ser verdade.
— Mas acredite, porque é verdade mesmo. E não é tão complicado como pode parecer. Antigamente, eles precisavam de equipamentos mais incrementados. Para centrifugar ovos, por exemplo, porque o citoplasma dos ovos de muitos mamíferos é praticamente opaco e não deixa o sujeito ver os pronúcleos, mas agora já existem técnicas e material de microscopia que permitem a localização perfeita dos pronúcleos. II o seguinte: pouco depois que o óvulo se torna ovo, ou seja, depois de fertilizado, os cromossomos, que antes estavam, digamos, empacotados, se dispersam e passam a existir em pequenos corpos, que se chamam pronúcleos. Aí o sujeito pega duas pipetas, uma grandinha para segurar o ovo por sucção e outra, muito delicada, para injetar seqüências de ADN, quer dizer, genes, num pronúcleo. Requer mãos de relojoeiro, mas se faz com relativa facilidade. E também é possível, se não se tratar de um gene grande demais para isso, usar um retrovírus parcialmente incapacitado, ou seja, cuja capacidade de replicação tenha sido inibida, para transportar esse gene para uma célula qualquer, como um ferryboat ou um saveiro. É mais complicado, porque o retrovírus não pode penetrar na zona pellucida, o envoltório do embrião. Mas dá-se um jeito, remove-se parcialmente esse envoltório. Tudo isso, mais outras técnicas, combinadas com os progressos nas técnicas embriológicas, torna perfeitamente possível, viável e, em certos casos, desejável que se façam coisas desse tipo.
— Desejável? Como isso pode ser desejável? — Se se fixar, por exemplo, o que se poderia chamar de gene nitrogênico nos vegetais, o problema da fome estará resolvido, pelo menos tecnicamente. Já há experiências, por exemplo, para produzir carneiros transgênicos, com mais lã. E, por falar em carneiro, não é só porco que estão cruzando com gente, não. Pelo menos na Escócia eu sei com certeza que já fabricaram uma ovelha com gene humano, para produzir fatores de coagulação do sangue nas tetas. Olhe bem, nas tetas e não no fígado, que é o órgão onde esses fatores são produzidos normalmente, isto porque eles direcionaram o gene para as células das tetas, a fim de poder usar o leite para a extração dos fatores. Aí não se vai mais usar sangue humano para obter esses fatores. Uma boa para os hemofílicos, que não vão pagar tão caro pelos seus remédios e vão correr menos risco de pegar Aids. A produção de um porrilhão de substâncias orgânicas, hoje muito caras, poderia ser grandemente facilitada, ou completamente resolvida, com a criação desses animais trans-gênicos. É um pouquinho complicado, mas eu manjo mais ou menos, se você quiser eu explico. As possibilidades futuras são tão mirabolantes, que às vezes eu fico completamente confuso.
— Não, você já explicou o suficiente, não quero saber desse negócio, isso me arrepia.
— Como seria o nome do híbrido de chimpanzé com homem? Chimpomem ou homanzé, que é que você acha? Não, ia ser em inglês, claro, manchimp, manape, um negócio desses. Que é que você acha? — Não acho nada, acho uma coisa terrível, isso não pode acontecer, tem de haver um limite para essas coisas. Para que alguém ia querer fazer um híbrido de chimpanzé com homem? — Ah, é um nunca acabar de utilidades, até mesmo tiro ao alvo, nunca se sabe o que um rico pode querer fazer. Podiam servir de bancos de órgãos para transplantes. Ou de cobaias. Ou podiam servir para fazer serviços pesados ou desagradáveis, podiam servir de tropas de choque para ditaduras, guias de cego e atendentes para incapacitados, fonte de proteína animal, sei lá. Só sei que os embriões teriam de ser implantados em fêmeas de chimpanzés e não em fêmeas humanas, porque, além de ser difícil encontrar uma mulher disposta a parir um macacaquito, ou semimacaquito, há ainda o problema de que, se o bicho nascesse do ventre de uma cidadã, teria direito a registro civil e, aí, como é que ia ser? — Horrível, horrível! Será que a Humanidade vai chegar a esse ponto? Que coisa horrorosa! E o interessante é que ele disse que, se eu visse essas crianças, eu me recusaria a batizá-las. Rapaz, você já parou para analisar a monstruosidade de tudo isso? — Mais ou menos, também tenho um certo grilo, não gosto de pensar. Mas não precisa ficar preocupado, duvido muito que o seu feiticeiro tenha visto algum animal assim, é tudo chute mesmo, isso tudo que eu estou falando ainda está muito no começo, a maior parte dos problemas ainda não está resolvida, também não é assim. Ainda vai demorar para se poder produzir um animal desses e, mesmo que já se tivesse conseguido, não seria aqui na ilha.
— É, você tem razão, mas eu sei lá, fico pensando naquele sujeito estranho, cercado pelos seus cachorros sinistros, sacrificando carneiros...
— Carneiros? Ele sacrifica carneiros? — Ele diz que pensa que está dormindo, quando manda sacrificar carneiros. Certamente é para dar a entender que fica em transe. Mas o fato é que manda fazer os sacrifícios e então as pessoas matam carneiros e fazem outras coisas que eu não quero nem saber.
— Interessante, isto que você está me dizendo, interessante. Cachorros e carneiros, interessante.
— O que é que cachorros e carneiros têm de interessante? Você vai me contar outra história, agora sobre um mestiço de bode com pastor alemão? — Não, não é nada disso, é por causa de uma conversa que eu tive com Lúcio Nemésio, faz algum tempo. São muitos cachorros? — Pelo que ele falou, sim, mas eu mesmo só vi um.
— Que é que ele faz com os carneiros sacrificados'' — Não tenho a mínima idéia. Nem quero ter, aliás, não quero mais saber de nenhum contato, direto ou indireto, com esse homem.
Pediu mais uma pingadinha no seu copo de café, disse que aquele era o último gole porque precisava ir embora, mas não se levantou e recordou que Bará e a cigana haviam falado qualquer coisa sobre se os tais seres tinham alma. Meias-almas, ela dissera, lembrava-se muito bem. Teriam? Se, algum dia, um desses híbridos de homem fosse criado, com o dom da fala e alguma inteligência, teria alma, meu Deus? Tremeu a cabeça, disse que sentia medo, que talvez estivesse com a mesma apreensão assustada descrita algum tempo atrás por João Pedroso, a sensação de que havia algo de mau em torno, não sabia o quê. Os dois se calaram, o padre terminou o café e se despediu. Ia acordar ainda mais cedo do que de hábito, porque tinha combinado sair para pescar com Eduardinho. Havia muito tempo que não pescava, Padre Coriolano ia rezar a missa em seu lugar. Levantou-se, fez um cumprimento final pegando na pala do boné e tomou a rua Direita para ir para casa.
João Pedroso agora sentia que a bebida lhe chegava à cabeça, mas resolveu que, mesmo assim, tomaria mais uma dose dupla, pelo menos mais uma, antes que Zoinho ficasse com sono e resolvesse fechar. Chato, esse negócio de uma amizade assim pela metade, nunca mais a mesma coisa. Estava enciumado com a pescaria no barco de Eduardinho, antigamente o teriam chamado, mas certamente Monteirinho não o queria mais como companheiro de pescaria. No que tem toda a razão, pensou, bebendo de um só gole os dois dedos de uísque que restavam no copo e estendendo-o para que Zoinho o enchesse outra vez.
Duas horas mais tarde, cambaleou para fora do bar e quase caiu, ao descer o meio-fio para atravessar o Largo da Quitanda, leve vontade de que houvesse alguém na rua, qualquer pessoa com quem pudesse conversar. Não, não, melhor que não houvesse ninguém, como não havia. Estivera a ponto de contar a Zoinho tudo sobre Ana Clara e chegara a abrir a boca para começar. Diabo, não poder contar a ninguém, era como se aquilo tudo existisse só parcialmente. Monteirinho tinha mesmo razão em evitá-lo, estava comprovado novamente. Se tivesse ficado no bar, acabaria ouvindo tudo. Ou teria ido embora, tapando os ouvidos. Tropeçou de novo, de novo quase caiu, entre passos atabalhoados. Desistiu de evitar as poças que a chuva tinha deixado e caminhou sobre elas, molhando os sapatos e as bainhas da calça. Cachaça feia. E se ela o visse assim? Ela já o vira meio tomado, mas nunca bêbedo assim, bebedão mesmo, quase sem controle motor e sabendo que, se falasse, a fala sairia engrolada e contendo uma enxurrada insopitável de besteiras grandiloqüentes e derramadas, que ele freqüentemente queria conter e não conseguia. Que é que ela tinha achado nele? Tédio, tédio de grã-fina, não era, não? Tédio, ninguém na ilha e ela querendo se divertir um pouco. Podia não parecer, mas devia ser a verdade, tinha que ser a verdade. Bem, pelo menos não vinha broxando como esperava, milagre de uns uisquezinhos antes, com certeza. Mas acabaria broxando, não acabaria? Sempre assim, sempre uma perspectiva de derrota. Se bem que apenas perspectiva, porque, por enquanto, ele parecia vitorioso. Ela disse que ele a enlouquecia na cama e, de fato, parecia enlouquecida mesmo, ambos ficavam enlouquecidos. Aonde ia dar tudo isso? Ia durar até ela se fartar dele, claro, como fatalmente aconteceria. Trepavam, trepavam, quase não falavam, não conversavam. Claro, claro, claro, ela devia estar acostumada a esse tipo de coisa, estava se distraindo, depois ia encher o saco e deixá-lo de lado.
Parou na esquina da Glória, encostou-se na parede de um sobradinho e respirou fundo. Muitas vezes, ali mesmo, bêbedo ou não, fora obrigado quase a rezar para acreditar que a vida tinha algum sentido e não alimentar a fantasia, vaga mas real, de se matar. E agora a vida tinha sentido? Podia entregar-se a essa paixão, que o dominava inteiramente, mas ele tinha vergonha e medo de confessar, paixão fadada a feri-lo, talvez de maneira humilhante, talvez acabando de destruí-lo? Como também já acontecera muitas vezes, viu diante de si uma réplica de si mesmo, olhando-o com severidade e algum desprezo e lhe fazendo um sermão. Sim, era isso mesmo, tudo estava a seu alcance, era só reagir contra esse verdadeiro masoquismo, fazer alguma coisa de construtivo. Não tinha que ser um merda a vida toda, era uma questão de escolha, não tinha que ser um merda. Claro, claro, tudo estava em suas mãos, por que ver o mundo através de um permanente prisma de derrota e abatimento? É isso mesmo, pensou, empinando o peito o mais que pôde e levantando a cabeça. Naturalmente que sabia, mas gostava desse jogo de fingir que não sabia, que no dia seguinte tudo voltaria ao mesmo, ou até se esqueceria do que agora lhe parecia tão definido em sua mente. Sim, vida nova amanhã, novos rumos, disse várias vezes, fechando os punhos e retomando a caminhada para casa.
Toda molhada, só de pensar. Notara porque estava sem calcinha e, ao rodopiar pelo simples prazer de girar a saia rodada, viu uma manchinha nela. Tocou-se, estava alagada. Bem, não tinha por que surpreender-se, já que ficara mesmo numa excitação inenarrável, sentada com as coxas apertadas e à beira de gozar pensando nele. Ah, não queria mudar o vestido, tinha que ser este vestido e sem calcinha, para que ela desfrutasse daquela linda cara que ele certamente faria, uma espécie de susto maravilhado, uma espécie de careta divina, quando lhe enfiasse a mão por baixo da saia e ela se revelasse antes do momento esperado, pronta para ele, pronta! Ou então por que não o aguardava logo nua? Nua, lençol por cima. Nua, em pé junto à porta. Ou enrolada numa toalha. Nua, por que não? Aaai! Não, que bobagem, o vestido tem mais graça, já basta o detalhe da falta da calcinha, que dá o toque de sensualidade adequado, sem exagero.
Que horas serão? Três e vinte ainda? Três e vinte? Por que não marcara para três e meia, mas que burrice! Ângelo Marcos tinha ido para Salvador na tarde precedente e não voltaria antes de pelo menos mais dois dias, Bebel finalmente conseguira fazer outra curta temporada na ilha e já estava dando cobertura integral com a competência de sempre, tudo tranqüilo — e por que essa idéia cretina de marcar para as quatro e meia? Quatro e meia, quatro e meia, sempre esse horário, parece superstição. Ou coisa do tempo da vovó, trepar pouco depois do almoço dá congestão e a pessoa morre, ou então fica toda tortinha. Besteira. Ainda mais que não havia almoçado nada, parecia que o estômago tinha trancado, virado uma ameixa seca. Bebel tomou um martíni antes, ela resolveu que faria a mesma coisa. Desceu bem, tanto assim que pediu outro rapidamente e ficou com os olhos umedecidos e brilhantes. Mas comida, nem pensar. Sentou-se sem fome nenhuma, mexendo no prato com a ponta do garfo, diante de Bebel, que comia avidamente um arroz de aussá com feijão-fradinho no dendê, feito especialmente para ela por Cornélio. Que impaciência, meu Deus do céu! Os ponteiros não andam e Bebel chega quase a irritar, fazendo hmm-hmm, fechando os olhos e se servindo outra vez. Meu Deus, que vontade de sair correndo, de agitar os braços, fazer alguma coisa, bater em alguma coisa! — Você não sabe o que está perdendo — dissera Bebel.
— Este arroz está absolutamente deslumbrante, uma obra-prima.
— Eu sei. Mas não consigo pôr nada na boca, mastigar nada, engolir muito menos.
— Que coisa! Tudo isso é nervoso? Tenha calma, menina, tudo vai dar certo! Vá, coma alguma coisa, com boa alimentação tudo é melhor. E esta comida é afrodisíaca, todo mundo fala.
— Não é bem nervoso, é uma espécie de impaciência, ansiedade, fica parecendo que o tempo não passa nunca. Por que eu marquei para as quatro e meia? — Quatro e meia é uma hora perfeitamente decente.
Três e meia parece uma coisa meio assim de estudante, coisa de adolescente amador. Quatro e meia, cinco, é o tradicional, assim a tarde terminando, a brisa amena, a luz mais suave...
— Eu podia ter marcado para as três e meia, podia perfeitamente, não tinha problema nenhum.
— Mas que sangria desatada, que coisa horrível. Até parece que é a primeira vez em que vocês se encontram.
— É como se tosse, é como se fosse, eu fico num estado...
Você está vendo, não preciso explicar. Eu podia ter marcado para as três e meia! Resultado, ainda não deu uma hora e eu vou ter de enfrentar uma agonia de três horas e meia de espera! Eu não acerto a fazer nada enquanto espero, sabe o que é nada? Não consigo prestar atenção em nada, fico só na ansiedade.
— Aninha, você já parou para pensar nesse caso com alguma calma? Quer dizer, você já avaliou como ele está evoluindo? Eu, particularmente, não querendo vender nenhum grilo a você, mas falando como amiga e como colaboradora nessa transa toda, estou achando que a coisa está ficando perigosa. Outro dia, quando eu perguntei, você veio com uma conversa mole, toda psicanalítica, e acabou não respondendo nada. Mas agora eu vou perguntar de novo e você vai me dar uma resposta direta, pão-pão, queijo-queijo. Você não acha que esse caso está ficando sério demais? Nunca vi você assim.
— Bem, a tesão...
— Esse papo de tesão não cola mais, isso colava no comecinho, mas agora não. Tesão é claro que existe, mas existe muito mais do que isso, tesão sozinha não se segura dessa forma, não vai subindo dessa forma, tem de ter algo mais.
— Bem, claro, eu estou apaixonadinha por ele, sem um molhozinho de paixão não tem graça nenhuma.
— Apaixonadinha, uma conversa, apaixonadona. Reconheça, mulher, você está arriada, babando, de quatro, reconheça! — Não, também não é assim. Eu gosto e tenho tesão e tal e coisa, mas não é assim, também não é assim.
— Me responda uma coisa, o que é paixão? Grau mais elevado do que o que você já atingiu, só se você desse uns cinco tiros em Marquinhos e fugisse com João para Casablanca. Que é que você quer mais, para caracterizar seu estado? Aí inteiramente transtornada, completamente fora de si, parecendo que vai ter um ataque. Se isso não for paixão desenfreada, então não sei mais o que é paixão. E seu papo? Procure notar, é só João, você só fala nele! Tudo bem, mas é preciso ver as coisas com clareza. Eu acho, sinceramente, que você está tentando não encarar o problema, mas o melhor é encarar, antes que pinte uma complicação da pesada.
— Você acha mesmo, Bebel? E eu estou dando essa bandeira toda, você acha? — Acho, acho. Pelo menos para mim, está.
— Você sabe que eu e ele praticamente não conversamos, quando estamos juntos? A gente se agarra e praticamente não fala. Eu nunca disse a ele que estava apaixonada por ele, nem ele a mim, nunca falamos isso. É interessante, não é? Nunca, nem "meu amor" a gente falou. É por isso que eu acho que não é paixão, é uma espécie de tesão exacerbada, é...
— Não falou porque não quer reconhecer para você mesma, claro. Mas agora isso já está mais para varrer lixo para baixo do tapete do que qualquer outra coisa. Não adianta.
Reconheça que está apaixonada e tome suas precauções. O que me preocupa é isso, é você entrar nesse desbunde total, se deixar levar assim de roldão e, de repente, acontecer alguma coisa que vá prejudicar você, talvez para sempre. Tem que ver, tem que ver. Já pensou se você fica de um jeito que não dê para segurar a barra com Marquinhos? — É verdade, você tem razão, já está ficando um pouco assim. Tem dias em que eu não consigo nem olhar para a cara dele. E quando ele me procura, com aquele ar meloso que deu para assumir depois da doença? Cheguei a inventar uma crise de aftas, para evitar beijos e qualquer coisa de boca, não consigo nem pensar em bolar a boca ali nele, morro de nojo. Eu fecho os olhos e penso em João, mas não adianta, é um nojo.
Outro dia, eu não ia falando o nome de João? Cheguei a fazer jjjj, mas me segurei a tempo.
— Que horror! Regra capital, minha filha, nunca se diz o nome de ninguém na cama. Qualquer vocativo, menos o nome. Depois de uma certa altura da vida, as trocas são inevitáveis. Mas por aí você vê que eu tenho mesmo razão, você precisa se orientar, sei lá, avaliar isso tudo com cuidado.
É, sim, é verdade, Bebel estava coberta de razão. Mas ela respondera que outra hora pensaria no assunto, agora não podia, não podia! E, logo depois que Bebel acabou de almoçar e, dando uma risadinha meio obscena, disse que estaria desde já na salinha da varanda, até a hora de descer para trazer João Pedroso ao andar de cima, ela correu para o quarto. Podia tomar um banho longo e calmo, até de espuma, mas mal conseguia ficar parada embaixo do chuveiro. Sim, lavar os cabelos, claro, lavar os cabelos com seiscentos xampus e duzentos cremes rinses, massagear as raízes, tratamento completo. Depois secador, para se gastar algum tempo.
Não, não se gasta lá muito tempo e, ainda antes das quatro, ela já tinha lavado a manchinha e passado a ferro o vestido com o ferrozinho de viagem, mas ainda não o tinha posto. Nua e suavemente cheirosa, alisou-se com os olhos fechados e entrou na mesma excitação que sentira antes, uma fibrilação profunda lhe subindo das virilhas e das faces internas das coxas apertadas, um afogueamento que lhe esquentava todo o rosto, o fôlego quase arfante. Puxando para o lado o vestido, que estendera sobre a cama, deitou de pernas abertas e começou a masturbar-se com ambas as mãos, uma apertando o púbis e a outra esfregando o médio e o indicador em movimentos rápidos e curtos. Virando a cabeça para um lado e para o outro cada vez mais depressa, gemendo alto e abrindo a boca como se toda a musculatura da face houvesse endurecido naquela posição, gozou uma vez e logo duas e três, terminando por rolar na cama com um soluço gutural, até parar de lado, os joelhos dobrados, as mãos ainda entre as coxas juntas.
Mas não relaxou e continuava praticamente na mesma condição, embora já vestida e arrumada, quando abriu a porta para João Pedroso e fez força para recebê-lo parada, apenas com um sorriso, até que ele, logo depois de fechar a porta, caminhou para ela com uma ereção que já se via claramente por baixo da calça e a beijou e abraçou, puxando-a para si pelo traseiro, com as duas mãos. Como era possível que se dessem tão bem, desde a primeira vez e cada vez melhor? Ela sempre pensava nisso, quando recordava os beijos como o que agora trocavam, o bigode com um cheiro secreto que só se revelava nessa hora, os lábios que ela lambia e chupava como se dependesse deles para viver. Esfregou-se nele, e ele, se abaixando um pouco, suspendeu-lhe a saia e fez realmente a cara que ela esperava, quando viu à sua frente os pêlos crespos e brilhantes do púbis dela. Um ofego rápido, os olhos se arregalando levemente, a boca se abrindo com um jeito de desejo inimitável. Alisando e apertando o traseiro dela, deu-lhe um beijo longo entre as coxas, enquanto ela abria as pernas e puxava sua cabeça. Mas ele afastou-se para olhar para ela, segurando a saia como quem arma a tenda de um pequeno circo.
— Não sei para o que olho, não sei para o que olho! — disse com a voz transformada, fazendo-a girar algumas vezes e logo abraçando-a pelas pernas com tanta força que caíram ambos em cima do sofá da ante-sala da suíte, ele estendendo os braços para evitar uma queda completa, ela meio sentada, com a saia à altura dos quadris. Enquanto ele desatava o cinturão, ela decidiu ir-lhe abrindo a braguilha e, com sofreguidão, começou a chupá-lo assim que ele se descobriu. Queria engoli-lo todo, não sabia se chupava ou se enfiava a cara pelos ovos dele, se lhe cheirava e beijava as virilhas, se queria que ele gozasse logo em sua boca para poder beber dele o mais que pudesse, até que ele puxou o vestido dela por cima de sua cabeça e, também de um jeito que a enlouquecia, deitou-a de bruços, pôs-lhe um travesseiro às costas, montou-a suavemente à altura do tórax e, depois de passar algum tempo se roçando nos peitos dela, enfiou-se em sua boca e passou a mover-se para a frente e para trás, enquanto ela agarrava gemendo as coxas dele. Ficou algum tempo assim e então, saindo dela com um barulhinho provocado pela língua e os lábios dela, desceu-lhe a boca pela barriga abaixo e começou a chupá-la, enquanto ela gemia e lhe enfiava as mãos pelos cabelos.
— Meta em mim, meta, ai, eu não agüento mais! — gritou ela, puxando-o para cima pelos braços e fazendo questão de olhá-lo erecto e quase pulsante, a grande cabeça brilhando, uma lança, um tronco, entre pentelhos de aroma inesquecível.
Sempre um momento sublime, um instante indescritível, a hora da penetração, uma sacudidela arfante, um tranco inexprimível — e ela com as pernas trancadas nele, começando a gozar, a gozar muitas vezes, até que ele lhe suspendia as coxas, como já estavam acostumados e preferiam para o primeiro gozo dele, e se enfiava nela até que ela sentia os ovos dele e então, gemendo, quase num choro, dava algumas estocadas fundas e parava dentro dela, ela o sentindo latejar e molhá-la por dentro.
— Meu amor, meu amor! — disse ela, abraçando-o tão forte quanto pôde e mantendo esse abraço um tempo muito longo, enquanto pensava em como era verdade que realmente o amava, como aquelas palavras tinham um sentido tão fundo. E ele, alisando os cabelos dela e falando como num monólogo, disse que custava a acreditar naquilo, mas queria acreditar, porque também a amava, e a amava de todos os jeitos, não só porque gostava dela e da companhia dela, como porque a desejava sempre mais e se lembrava de tudo o que fizeram juntos, lembrava-se da maneira deslumbrante com que ela empinava aquela bunda tão linda, na hora em que ele queria fodê-la por trás, lembrava-se de morder o seu pescoço e depois, enquanto metia nela, metia nela o mais fundo que podia, ver como ela virava o rosto para trás com tanta graça para que ele lhe beijasse a boca, lembrava-se da forma gloriosa como gozara em sua boca pela primeira vez, com ela gemendo e ofegando e como que querendo ter todo o seu pau na boca, lembrava-se de tudo, tudo, tudo, em cada pequenino pormenor. E pela primeira vez, nus e abraçados, conversaram sobre tudo o que chegaram a pensar que jamais conversariam, e ele se sentiu numa felicidade muito esquisita.
Grande trepada, a negrinha, cada vez melhor. Bimbada completa, em tudo quanto é buraco. Que rabo! Uma beleza mesmo, e uma tranqüilidade, de agora em diante ia comer sempre essa negrinha. Que rabo! Tinha até esquecido de como as nativas são boas de cama, a moleca é um azougue e sabe tudo, encara qualquer coisa, até umas porradinhas, que sempre dão uma certa graça à trepada e em casa não pode, porque Ana Clara nunca deixou. Não se vai chupar uma negrinha dessas, mas ela não se interessa por reciprocidade, ela cai de boca — é boca, é bunda, é tudo, maravilha. Pronto. É só fazer como das outras vezes: acertar as coisas na ilha, esperá-la em Salvador, levá-la ao motel e dar-lhe um agradinho depois.
Tranqüilidade. E ela tem uma irmã ainda mais gostosa do que ela, vai dar para ferrar também, não há nada que uma graninha não resolva, ainda mais na situação delas e com o interesse da mãe delas. Essa estada na ilha está saindo melhor do que a encomenda.
Ângelo Marcos se sentiu quase contente, tamborilando com as unhas na mesa do restaurante e pensando no seu desempenho naquela tarde. Muita tesão. A negrinha é fogo, mas ele tem gás. Três. Três. Na sua idade, não é brincadeira. Três. E dureza na segunda suficiente para enrabar a putinha, aquela bunda sensacional. O pessoal tinha razão, deixar de fumar incrementa a dureza. É, três não é brincadeira. Bem verdade que vinha de um jejum de muitos dias, mas, assim mesmo, é impressionante. Dá vontade de contar, mas os caras pensam que é chute, principalmente o pessoal da meia-bomba, que mal consegue dar uma por semana e olhe lá.
Por semana. Foi com esse negócio de "por semana" que a briga começou — e ele franziu a testa com a lembrança. Já vinha notando alguma coisa diferente em Ana Clara havia algum tempo, inclusive na cama. Isto quando ela ia, porque parecia sempre achar uma desculpa, desde a tradicional dor de cabeça — coisa que antes ela nunca tinha tido, como ela mesma gostava de apregoar — até umas menstruações extralongas, que ela também nunca linha tido. Nada de concreto, nada em que se pudesse pôr o dedo, mas estava na cara. No começo, pensou que ela sabia de alguma escapada dele, mas depois viu que não podia ser, não havia meio de ela saber de nada. E, quando conseguia levá-la à cama, não era a mesma mulher, parecia um bife, lá despencada, largadona e apática. Aftas, vaginite, dor nas costas, não sei o quê. Tentara ter compreensão, até o dia em que, depois que comentou, com cara de bom humor, que o marido tinha direito a sua mulher pelo menos três vezes por semana, ela respondeu daquela forma grosseira, tão grosseira que ela própria se arrependeu em seguida, pediu desculpas e disse que fora uma brincadeira, uma brincadeira infeliz. Mas agora o mal já estava feito. "Três vezes por ano já é demais para mim", dissera ela, e ele se irritou tanto que quase lhe dá um soco. Mas se acalmou e de noite tentou ter uma conversa conciliatória, que planejava encerrar com uma trepadinha. Ela, contudo, nem ouviu direito o que ele falou, porque dormiu, ou fingiu que dormiu e, entre cotoveladas e pequenos safanões, virada para o outro lado, recusou-se a acordar.
E não adiantou nada insistir até a exasperação que ela dissesse qual era o problema. Nenhum problema, dizia ela, você está inventando coisas. Mas como não havia problema, se ela estava toda diferente, ela sabia que estava diferente, por que não reconhecia isso e dizia logo o que era? Podia ser franca, podia abrir o peito, quem sabe se não era alguma coisa de que ele não sabia e podia corrigir? Nada. E, depois de algum tempo, ela inventava uma desculpa e saía de perto dele. Enervante. E de enervante o clima passou a insuportável, quando, procurando nas gavetas dela um chapéu que ela tinha tomado emprestado, bateu-se com dois cadernos grossos, cheios de escritos com a letra dela.
— Que diabo é isto aqui? — perguntou-lhe gritando, assim que a viu, depois de, incrédulo e tão indignado que não conseguia ficar sentado, passar grande parte da manhã lendo e relendo os cadernos, até ela voltar da praia.
— Esses cadernos são meus. Onde foi que você achou? — Eu sei que são seus, eu sei que são seus! Eu... -- Passe para cá meus cadernos, você não tem nada que bisbilhotar minhas coisas, me dê meus cadernos! — Não dou! E tenho todo o direito de bisbilhotar, isso não é bisbilhotar, é saber da vida de minha mulher, tenho todo o direito! — Não tem direito nenhum, passe meus cadernos para cá, Ângelo Marcos, eu estou falando sério.
— Eu sei! E como você fala sério! Escute esta jóia aqui, esta jóia primorosa: "Talvez, do ponto de vista da mulher casada que queira transar fora de casa, mas queira também conservar o casamento, seja melhor vários amantes simultâneos do que um só. É possível que o monopólio seja danoso ao casamento e, além disso, mudar de homem...” — Me dê esses cadernos, você não tem nenhum direito de fazer isso! — Pare de falar no que eu não tenho direito de fazer! Quem sabe de meus direitos sou eu. Eu tenho todo o direito de exigir esclarecimentos. Minha mulher agora escreve textos pornográficos, que beleza! Autora de livros de sacanagem, que beleza! E em que experiência a senhora se baseia, como são suas pesquisas? Porque, por aqui, seu conhecimento de putaria parece excelente.
— Me dê os cadernos, me dê os cadernos! Eu nunca andei bisbilhotando nada seu! — Porque eu não tenho nada para ser bisbilhotado, minha vida é completamente aberta, não tenho nada secreto.
Muito menos esse lixo degenerado que eu nunca imaginei que uma mulher como você...
— Me dê esses cadernos, me dê esses cadernos! Sim, os cadernos chegaram a rasgar-se bastante, na verdadeira luta corporal pela posse deles. E ela ainda teve o cinismo de referir-se a uma tal Suzana Friedman, Fondman Foster, qualquer coisa assim, como se ela fosse duas pessoas Essa Suzana seria a autora, não ela. Só se ela estiver esquizofrênica. Taí, não deixa de ser uma possibilidade. Ela pode estai ficando leléu da cabeça, uma tia dela é maluca e vive entrando e saindo do sanatório e dizem que o avô dela morreu doido varrido. Mas como convencê-la a se examinar? Bem, agora é observar o comportamento dela, porque, se for maluquice, acaba se manifestando feio. Talvez Bebel possa ajudar. Não, não, fica chato. Bem, isto se vê depois. Era só o que faltava, estar casado com uma mulher pirada. Passatempo estranhíssimo, esse de inventar outra personalidade, como ela mesma disse, e sair escrevendo aquele tipo de coisa. Mas pode não ser tão grave, pode ser até uma perversão dela, que ele nunca havia detectado. Se ela não estivesse em Itaparica, de onde não queria mais sair nem a passeio, ficaria desconfiado, mas na ilha não há perigo. Não só não tem homem, como a fiscalização é em tempo integral. É, só vendo o desenrolar dos acontecimentos.
Mas o clima ficou mesmo absolutamente insuportável, inclusive porque, depois do episódio dos cadernos, ela não queria mais falar nada com ele e só respondia ao que não podia evitar, assim mesmo monossilabicamente. Tão insuportável que ele resolveu passar uma temporada indefinida em Salvador. A mãe da negrinha, através de quem o contacto tinha sido feito, era servente na Prefeitura, podia ser chamada ao telefone a qualquer momento, a cama estava resolvida. Ficaria talvez uma semana ou duas. Talvez assim ela se tocasse, talvez desconfiasse que ele estava com um caso. Ciúme, suspeita, isso são grandes armas, quando bem usadas. É, mulher segura demais não dá pé, tem que ter uma certa insegurançazinha, que é para ela não botar banca, nem se meter a besta.
Olhou em volta, satisfeito por não ver nenhuma cara conhecida por perto, ninguém que pudesse querer vir para sua mesa ou convidá-lo para outra. Esperar em restaurante, sem fumar nem beber, é um saco, nunca tinha pensado nisso. Nando dissera "entre nove e nove e meia". Nove e vinte agora, ele não estava atrasado. Mas bem que já podia ter chegado, pelo menos uma boa conversa ajudaria a tirar aqueles problemas da cabeça. Embora o jantar fosse mais de negócios do que de amizade, porque Nando ia trazer o tal banqueiro nova-iorquino que orienta seus investimentos em dólares. Quando contara a Nando que vinha pegando oito por cento ao ano na sua conta em Nassau, quase fora recebido com vaias. "Você está maluco", falou Nando. "Do jeito que a economia americana vai, daqui a pouco não cobre nem a inflação, você está maluco." E aí, quando o gringo apareceu, numa de suas costumeiras viagens, Nando resolveu promover o contacto. E finalmente lá vinham eles, passando ao lado do bar e se aproximando.
— Está aí há muito tempo? — Não, não, uns quinze minutos.
— Deixe eu lhe apresentar. Este aqui é o Abe Kaplan.
Abe, este é o famoso Dr. Ângelo Marcos, de quem venho tanto lhe falando. Abe é casado com brasileira, fala português melhor do que a gente, você não precisa gastar seu inglês.