Prezado amigo Getúlio Permita eu lhe contar Um caso que se passou Na vila de Própria Teve tanta mortandade Que até o cão teve lá.
As mulheres virou homem E os homens virou mulher E até os bichos do mato Quando viram deu no pé Pra o compadre acreditar Vai ser preciso ter fé.
O rio se abriu no meio E o mato se escancarou Igual como São Noé Quando o mundo se acabou E tudo isso por causo De um homem que lá chegou.
Esse homem era por nome De um tal de Honorato Nascido de mãe pagona E de pai cabra safado Criado em leite de onça E muito mal educado.
Quando dormia era ruim E acordado pior Matava quatro por dia E ainda dizia — é só E um dia só pra interar Deu um fim até na avó.
No dia que ele chegou Naquele grande arraial Ficou tudo sem governo Nem força policial O prefeito se borrou E o tenente passou mal.
Ele sabia todas e ficava recitando devagar, sacudindo o dedo de cima para baixo, fazendo compasso. Se não fosse homem, eu sentia saudade. Às vezes dava risada e batia com as mãos nas pernas, arribando o corpo na cadeira. Mas não era muito que ria, porque quase sempre estava com a testa franzida e olhando longe, com aquele olho só. Podia ter morrido em Ribeirópolisr só que nada aconteceu naquele dia, visto a frouxidão udenista não deixar começar os festejos. Mas, na hora de fazer o malfeito, fizeram, e o que não tem remédio remediado está. Não existe quem bote a honra no lugar da saída. Saiu, saiu, pronto. De formas que não posso tolerar esse daqui. Vale nada. Vendo a cara, não se diz. Nunca se diz, vendo a cara, estou cansado de saber isso. De menino, sei que é assim, porque os enganos são muitos. Agora, aí amarrado num pé de imbu. Não solto nem que chova, e gostava que chovesse, ir lá espiar, dizer umas coisas,, dar uns benefícios no peste. Tomando uma chuvinha, está se vendo que é um homem distinto, com seu cabelo napoleão, um homem muito asseado com suas costeletas trevessadas e tomando um banhozinho essas horas. Estamos tomando uma chuvinha, hum? Apois. Eu podia dizer: não adianta seus corligionários, não adianta nada, quede os corligionários. Chame um aí para se ver, caminhe. Hum. Política é negócio de homem, podia dizer, se amunhecasse como tenho para mim que amunhecasse. Posso dizer que, se amofinasse e arreliasse como mulher parida, se estrebuchasse, podia fazer o que fizesse, eu até gostava. Me dá uma raiva por dentro, acho que careço ter raiva. Demais, não incomoda mais um ou mais outro, mais um ou mais outro eu vejo pelai toda hora. A coisa que mais tem é morte, e o mais certo que tem. Desque nasce começa a morrer. Tárcio dizia: eu só faço os buracos, quem mata é Deus. Mesma coisa, até ele mesmo, Tárcio, chegando com as duas mãos enroladas na maça¬neta da sela, cheio de buracos, nunca esqueço. Se morreu ele, morre qualquer. Então. A morte se apressa-se. É um alívio. Este válio de lágrimas, esta merda. Defunto é que nem praga de abobra, nesta terra. É um chão. Ih. É um chão. Chô, nem digo. Eu mesmo estou aí como uma vara em pé, posso qualquer hora desemborcar. Cheguei, como vai todo mundo, muito boa tarde, já vou indo, licença aqui. Quem se incomoda. Tudo só. Eu mesmo já pensei de outras maneiras. Ela estava de barriga na ocasião. Eu alisava a barriga, quando tinha tempo, quando vinha um sossego, quando quentava, quando deitava, quando estava neblina, quando aquietava. Parecia um cachorro, ficava ali, os olhos gazos miúdos me assuntando. O barrigão me trazia sastifação, já se adivinhava bem ali e o embigo bem que já saía um pouco para fora e se podia sentir passando a mão. Pois ficava alisando de um lado para o outro, numa banzeira, pensando no bicho lá dentro. Quando matei, nem pensei mais em matar. Matei sem raiva. Pensei que não, antes da hora, pensei que ia com muita raiva, mas não fui. Cheguei, olhei, ela deitada assim e ainda perguntou: que é que tem? Ela sabia, não sabia só disso, tinha certeza que não adiantava fugir, porque eu ia atrás. A dor de corno, uma dor funda na caixa, uma coisa tirando a força de dentro. Nem sei. Uma mulher não é como um homem. O homem vai lá e se despeja. A mulher recebe o caldo de outro. Que fica lá dentro, se mistura com ela. Então não é a mesma mulher. E também tem que se abrir. E quando se abre assim, se escanchela e mostra tudo, qual é o segredo que tem? A mulher que viu dois é diferente da mulher que só um viu, porque tem de abrir as pernas, mostrar até lá dentro. Não é a mesma mulher. Isso pensei em dizer a ela, cheguei a abrir a boca. No natural, não falo com quem atiro, é um despropósito. Já se viu, por exemplo, matar um porco e dizer a ele que ele vai morrer porisso e por aquilo outro. Nada, é a faca. Quem se mata não se con¬versa. Mas ela eu quis dizer, porque, na hora que primeiro bati os pés nos tijolos da sala aberta, vinha com dor. Chegando,, passou a dor, não acertei com a fala. Uns olhos gazos tão para¬dos e o cabelo escorrido de banda e a cabeça também de lado, me olhando. Que é que tem? Ela sabia. Quando viu meu braço atrás das costas, tirou as vistas. Quis falar de novo. Eu podia dizer, mas tive medo de conversar. Se quer fazer uma coisa, não converse. Se não quer, converse. Eu tinha de fazer. Não gostava de pensar que ia atravessar a rua com o povo me olhando: lá vai o dos galhos. Isso eu podia dizer a ela. Mas não disse nada e, na hora que enfiei o ferro, fechei os olhos. Nem gemeu. Caiu lá, com a mão na barriga. Fui embora logo, nunca mais botei os pés lá, moro no mundo. Melhor morar andando, agora. Luzinete, ela me diz: me emprenhe. Não deixo mulher enxertada nesse mundo, não tenho como. Matado aquele filho, morreu o resto que podia vir. Ora, cipó do mato, arrenego de diabo de penca comigo, arreia. Fico assim no mundo. A mulher do homem é ele mesmo, tirante as de quando em vez, uma coisa ou outra, somente para aliviar, uma descarga havendo precisão. Minha mulher sou eu e meu filho sou eu e eu sou eu. É assim. E no outro dia podiam me ver dançando uma jornada de chegança, nós que semos marinheiros dentro dessa anau de guerra porisso que puxemos ferro olelê largamos a grande vela. Em Riachuelo. Pelo mundo. Diga se não é Sergipe o meio do mundo? Se não é aqui as grandes belezas e os verdes matos, que chão. Se aqui não temos tudo e preferimos ficar aqui? Diga se não é. Posso ser o reis do Congo. Tocando porca. Fazendo o sete pelo quatro. O diabo. Vezes que me sinto solto, almirante de mourama, reis dos mouros, reis dos mouros. Lá vou eu. Possa ser o inferno. Sinto uma ruma de coisas. Estai um garajau se sacudindo na mula, um garajau cheio de boi. Aquelas grades, não volto. Mas um garajau, os caçuás, um garajau cheio de barro, um garajau cheio de boi, ai mãe, a laranjeira murcha, os pés de árvore, tudo morto, sacudindo pela rodagem velha de Laranjeira, pelo meio das casas gradeadas, um garajau cheio de barro, um caçuá cheio de boi, um garajau cheio de boi. Tudo parado, só vai subindo e descendo aquela boiada de barro no movimento dos quartos da mula. Os olhinhos pintados, que não mexe. Os chifres, que não fura. As pernas, que não anda. Mas, quando bate o sol na feira, que rebrilha, aí se mexe, é uma boiada que estremece. Ai, ai, ai, ai, aaaaaaaaaaai um boi de barro, um boi de barro, aaaaaai, ai, ai, ai, mãe, um boi de barro na neblina, um boi de barro na feira, nos quartos da mula. Um burro com duas anco-retas nas ancas, cada passo uma pendência da esquerda, uma pendência da direita, duas ancoretas para a secura de nós, e a laranjeira como está murcha, mãe, ai, aaaaaaai, ai um boi de barro, um boi de barro, um garajau cheio de barro, cheio de boi de barro, na feira. Lá em casa, duas caveiras de boi, muitas caveiras de boi, as ossadas alvas e meu gibão de buracos, meu peitoral sem enfeite, sentado na beira de lá, as vistas duras nas cascas de ôvo enfiadas nas pontas das árvores e das varas. Ai, um boi de barro, um boi de muito barro que eu comia, todas as cores, um dia eu morro e a laranjeira murcha, ai, mãe, um boi de barro. Meto um dedo no ouvido bem de leve, e devagar-zinho vou sacudindo, vou sacudindo, e solto um aboio alto pelos ares. Mas ninguém escuta, não tem boiada, o meu aboio é ôco. Nunca fui vaqueiro. Mas mesmo assim solto um aboio bem alto e o dedo quase arranca a orelha e olho o chão e fico triste.
III PORQUE ACHEI que estava com um bicho no dedão do pé, demandei sinal com a vista e não enxerguei nada, mas fiquei um tempo só pensando em nomes de lugares atoa, pelaqui pelessas redondezas mesmo, Planta de Milho, Pedra Preta, Miramar, Cocomanha, uma ruma deles, mor parte quase que não havendo, somente com suas duas ou três casas de sopapo, outras só de vara, e um povo desengordado, andando se arrastando e com a cara no chão, e porque acabei me achando meio besta, só mi¬rando o dedão do pé daqui de longe, enfiei a mão no meio dele e do barro do chão e fiquei cocando manso, beliscando a carne. Meu pé está todo fumbambento, também quase que só vê bota há não sei quantos dias, nem me alembro, e essas aveias todas aparecendo, e as meias, quando saíram, saíram derretidas nas pontas como farofa dágua. Repare ou não, tenho de esticar os pés para riba rumo ao oitão e deixar tudo tomando vento, abrin¬do bem os dedos para arejar bastante e livrar o budum, que está uma novidade. Mas não tem onde encostar as costas nessa va¬randa grande, de maneiras que é botar os pés de novo na terra e tornar a espiar eles, agora mais de perto, com muita atenção. E estava nisso assim, quando senti o bicho, uma coceira funda que nunca passa. Dei mais uma beliscada e agarrei bem no onde ele estava enfincado. Não que eu tenha disposição de tirar bicho de pé agora, porque preferia mais não fazer nada, possa ser en¬rolar um cigarro bem sem pressa, ajeitando e desenrolando outra vez, até a forma ficar toda redonda no meio e chata nas pontas, e seguir a fumaça, que é muito fácil e bom, nesse ar parado, ou ficar pasmando aquele boi laranjo que lá se encontra-se, detido e balançando o rabo, está um ótimo boi. Mas ninguém sente um bicho de pé sem se ver na obrigação de tirar. ele fica ali como se a gente fosse pasto, cevando na gente. Sempre tem alguma coisa para obrigar um cristão a sair dos seus precatos. E tive de tirar o papel das agulhas de debaixo da cartucheira e abrir sem deixar desparramar as linhas e escolher uma agulha olhando con¬tra a claridade e lamber a ponta muitas vezes, para tirar a reima. Depois, cruzar a perna encostando o peador no joelho, para pegar boa posição, segurar o dedão e retirar o bicho com a ponta. Tem que se romper a pele, mas não se pode romper o bicho, que se¬não nasce vários, é uma tabuada. A desgraça do couro do dedão já parece casca de tangerina, todo fofo. Esfrega o dedo e vai soltando as lascas, tudo podre. Uma catinga notável, vou ter de esfregar limão e cinza nessas partes, é o jeito.
Esse diabo dessa peste dessa menina fica me assuntando de lá. Ainda ontem, pensei que estava ximando meu beiju e dei um beiju a ela, embora ali tivesse beiju de dar de pau, não sei por que ela ia querer logo o meu. Quer beiju? Não queria. Acho uma menina grande demais para estar andando de califom pela casa. Já está cheia de corpo. Amaro viu ontem e disse: Deus lhe crie, benza Nossa Senhora. E ficou de olho pregado no assento dela, pensando besteira. Eu disse: Amaro, ói. Que nada, oxente. Que nada oxente, que nada oxente? Que nada oxente tu vê depois, quando o homem reparar que tu está com intenção na filha dele. An-bem, não lhe digo. Mas ficou com uma tiririca na mão, fa¬zendo rolête com o cometa de aço, depois botando em fila e chutando com o dedo. Como quem não é com ele. Bom, não sei. Outras feitas, vem ela de timão, com os peitos se vendo por baixo. Não sei. Isso não gosto, dá sempre distúrbio. An-bem, não é comigo, filha sem mãe, sem irmão, o pai metido no meio das vacas. Tinha um irmão mabaço. Dizem, nunca vi. Morreu de mal de sete dias. O embigo estuporou, botaram estrume em cima, mastruço pilado, nada foi. Endureceu todo, não tinha esse que vergasse, e enterraram em pé. Meio acocorado, meio em pé. Dizem, nunca vi. Por mim. Por mim, eu vou embora assim que chegar Elevaldo e disser: pode ir. Vou logo. Isso aqui me dá uma agonia, ainda mais com Amaro cortando tiririca, mordendo tiririca, lascando o dedo na tiririca, uma agonia. E olhando o novelo da menina. Não sei. Já é mulher, deve ter uns treze anos, possa ser catorze, o oveiro já está rebaixado no ponto de mulher. Pois a tal fica aí, de olho duro em mim.
— Tirando bicho de pé, Seu Getúlio? Não gosto de me chamarem de Seu. Ora, pustema, o raio da divisa para que serve? Estou tirando bicho do pé, não sei mais o que eu podia estar fazendo com uma agulha na mão e o pé para cima, só se quisesse costurar os pés. Não gosto do jeito dela, tem uns olhos muito mexidos e a cara de sonsidão e as mãos sempre ajuntadas na parte de baixo da barriga. Arre. Não gosto. Pior é que ele também fica espiando e dá risada. Tresantontem, vi ele dando risada para ela e ela dando risada para ele. Quando dei na senvergonheira, ficaram um gelo. Quando eu che¬guei, avisei logo: tranca esse cabra no quarto menor, bota um pinico lá dentro, manda Osonira Velha levar comida e amarra ele na ripa. Primeiro dia, deixaram. Segundo dia, já ficaram com pena, ele parece muito fino, com seu ginásio e tudo. É uma fi-nura. E Osonira Velha, aquela vaca velha surda, fica falando, coitado que está com as mãos cortadas da corda, coitado que não agüenta nem se mexer, coitado que nem reclama, coitado que está com fome. Por mim degolava a língua dessa égua velha, peste, não vejo serventia nessa. Apoquenta, isso faz. Pois então ficou Amaro falando e Seu Nestor falando, para mim quanto mais velho mais frouxo. Dizem que tem passado, esse Nestor, já fez acontecimentos. De mim, fico espiando quando ele sai todo encourado, e eu arrumado aqui. Vaqueja, passa com as vacas o dia todo que Deus dá. Parece de boa carne, com a cara seca e esturricada e os olhos apertados. Quando volta, antes do banho, senta ali e cata as unhas uma por uma com uma ponta de solinge, bem devagar, bem com catilogência. Vezes ouve rádio, nem sempre. É, mas quase pede para soltar o homem, da mesma forma que Osonira Velha. Não sei por que. Para mim esse peste é bicho, está virando bicho. Aí tiraram o homem do quarto, mas a amarra não dispenso. Deixo que nem uma mão de milho, mesmo que no meio da sala e, se quer andar, anda de laço no pescoço. Eu disse a Seu Nestor: isso não é boa coisa, esse alguém. Disse: isso não é peça que preste. Isso não é gente. Para mim é lobisomem. Eu disse a Seu Nestor: isso vira lobisomem, homem, isso quase acaba Ribeirópolis, homem. Não deu certo. É bicho mesmo, esse peste é um bicho. Sangrava logo e cumpria a missão. Não, tem que levar, é nunca de outro jeito agora. Agora fica no meio da sala, faz cumprimentos.
— Boa tarde para todos.
É uma finura. Como se nunca tivesse dado uma ordem de morte, como se nunca tivesse anulado uma urna, como se nunca tivesse um pecado nas costas, que tal? Por essa razão que o ban¬dido sou eu aqui, eu que nunca dei tiro por trás de ninguém, nunca. Pois sou o bandido aqui. Arreceio que, se demorar muito tempo, termina ele saindo e eu ficando, como cachorro ruim, um capuco amarrado no pescoço, uma corda no pé. Já se viu. Tem um manguá ali, um manguá de sete oitavos, desses mesmo. Que faço que não tiro da parede e passo o rebenque nele, em Osonira Velha e quem mais aparecer e pronto e resolvo? Por que deixo tudo assim? Por que não faço nada? Isso é engraçado, a gente deixa os negócios acontecer, é uma graça. Agora o que se cons¬trui é ele contra mim e até Amaro dá sua parte e depois fica com suas tiriricas, mirando o rabo da menina com cara de cachorro que quebrou o prato. An-bem. É assim. Não tolero isso, fico uma chaleira fervendo, não agüento.
Bom, Elevaldo vem uma hora dessas, não é possível que não volte. Pegou a gente no caminho e quase que leva uma na testa, dado que apareceu de repente e eu estava mesmo que es¬tava azul para dar umas providências no mundo e não gostei daquele jeito, mexendo nos matos sem avisar. Sabe, Seu Eleval¬do, que vosmecê deu sorte de eu não estar com o ferro na mão na hora que vosmecê despontou por trás dos matos, porque se estivesse não trastejava, era tunque, tunque, tunque, tudo num lugar só? No meio da testa num buraco só, e pelai mesmo vos¬mecê ia? Me olhou assim. Não gostou. Deixe de besteira, Getúlio. Pois hum, deixe ele.
— Acontece que tem de deixar o homem uns tempos na fazenda de Nestor Franco.
De vez em quando, no melhor do gosto das coisas, quando a gente já se prepara para executar tudo, dar continência e vol¬tar, vem uma coisa dessas.
— Vai dizer por que.
— Os jornais estão fazendo um barulho danado, vai chegar força federal em Aracaju. O Chefe disse na rádio que não pren¬deu ninguém.
— ele mesmo não prendeu, quem prendeu foi eu.
Isso o peste está de junto, ainda amarrado no pé de imbu, e dá uma gaitada. Certa feita, uma tia que eu tive viu o diabo junto de uma jaqueira a cuja ia cortar e a lâmina do machado soltou na hora e ela disse que diabo de machado ordinário e não foi assim que o bicho apareceu, um bicho imundo, um bicho preto, o pior bicho que já se viu, com um rabo e um fedor, e disse a ela, com a cara mais descarada, uma cara como só o diabo pode fazer: — Me chamou? Isso ele falando cantando numa voz de frauta. Diz que o bafo do bicho era tanto e a goela se via lá dentro que era um nojo completo. Bosta pura. Só se benzendo, pense na cara, com aquela fala de diabo: — Me chamou? E aí se queixou que ela tinha chamado o machado ordinário com o nome dele e disse que não tinha nada que ver com o ma¬chado largar, que ele nem estava atentando ali naquela hora, mas que estava só de passagem porque ia atentar naquele dia era em Itaporanga e que isso não se faz de chamar assim sem mais o que um machado ordinário de diabo. Ela disse que não tinha chamado de diabo. Eu disse foi quiabo, não foi diabo. Foi quiabo nada, mentirosa, disse o bicho, e aí deu dois tapas estralados na cara dela, diz 'que foi dois tapas desses de rolar no chão, com aquela mão preta, imunda, de diabo mesmo. E ficou levantando a saia dela e dizendo as piores coisas com a cara mais debo¬chada, como somente o diabo mesmo pode fazer. Ela disse que ele disse a ela: — Me chamou? O meu nome é Erundino.
Era um diabo diferente, que nem era lúcifer nem era bel-zebu nem era satanás nem era bute, mas era esse tal de Erun¬dino. E ficou naquela dança, o meu nome é Erundino, o meu nome é Erundino. Bicho imundo, bicho preto, só vendo, um diabo. Foi sorte que ela se lembrou-se de uma reza, meu São Ciprião, as três cruzes de Davi, os três sinos de Salomão, as três lágrimas de Madalena, as três chagas de Cristo e foi rezan¬do, foi rezando, até que teve posição para pisar no rabo da as¬sombração, um rabo de ponta como uma frecha de índio e então deu-se que ele papocou e sumiu, contudo deixando uma catinga que ficou naquelas brenhas mais de vinte anos, não havia quem pudesse passar sem estontear. Pois, quando eu vi o alguém dar aquela gaitada preso no imbu, foi o que me veio na cabeça foi o diabo que minha tia encontrou. Estava ali, sorrindo com os dentes brancos, e ainda falou: — Seu Getúlio, vamos esquecer isso. Olhe, eu me retiro de volta para Paulo Afonso e fico na Bahia e vosmecê vai para onde quiser e tudo esfria e fica na santa paz.
Sim. Para mim é bicho, posso crer. Elevaldo trouxe ordens, não tem como desobedecer. Mas antes comuniquei ao alguém: — Vosmecê faz favor, não fala. Aliás, posso dar com a coronha do fuzil nos dentes de vosmecê e até gostava que vosmecê xingasse minha mãe agora, para eu ter uma desculpa de pegar esse rifle daqui e dar duas na sua cara, não sabe? Possa ser que Elevaldo não tem culpa nesse assunto, possa ser que o melhor é aquietar, mas a cara dele me deixa com essa vontade de ficar na violência, não sei o que é que ele tem na cara. Se vosmecê tivesse um panarice no nariz, eu gostava de dar uma porrada bem atrevessada, bastante de com força, sabe disso, até curava, porrada de fuzil é especial para panarice. Per¬guntei a Elevaldo se não era melhor terminar o serviço logo ali na hora mesmo, até disse bem alto como era a execução. Queria que o coisa ouvisse tudo, ainda mais porque fazia jeito de que não estava aí nem ia chegando e tinha uma confiança. Eu disse: a gente podemos enforcar, que isso não vale nada. Elevaldo ficou olhando ele como quem assunta se era bom ou não. Aquilo também não é bisca, esse Elevaldo. E Amaro saiu do hudso es¬fregando a cara, passando cuspe em jejum no pitombo que ele tem na testa e perguntou se não ia ser que a gente não ia dar um fim no bicho naquela hora. Porque se vai dê logo, disse Amaro, que é para não ficar nessa aporrinhação de manhã cedo. Ele¬valdo disse nada, deu uns tuncos. Essa altura, o espécie parou de amostrar os dentes sentado na raiz do imbuzeiro. Ah, parou de rir, cabrunquento? Viu a vida? Hum. Melhor pensando, en¬forcar é trabalho por demasiado, porque a corda que tem aí na mala da viatura é fina e é bem capaz de, em vez de enforcar, arrancar a cabeça fora e aí ficava um serviço porco. Lhe digo melhor, Seu Elevaldo, vosmecê que entende dessas coisas de me¬dicina, não é melhor dar sal grosso até os rins estuporar? Porque se não vinher com muita água é o que dá, embora seja devagar e haja choramingação. Vosmecê acredita que ele vai choromingar? É bem, que até ele fica bem conservado na salmoura. Ele¬valdo só olhando, nos tuncos. Fazer o seguinte: mela o homem de mel nas partes e manda um bezerrinho novo para lamber. Vai acabando o mel, vai botando mais. Assim morre bonito, dando risada. Olhe, enterre vivo de cabeça para baixo. Aliás, as duas coisas. Sal, porque foi isso que ele botou na terra dos Pa¬raíba, em Ribeirópolis. Bezerro, porque foi isso que ele matou, um por um. Foi ou não foi, peste? Se foi. Na hora, estava todo mangangão, não estava? Agora, veja o que eu faço. Mas Ele¬valdo parece que ficou com pena e disse que levemos o homem para a casa de Nestor, que já estava avisado e que voltava para dizer a hora que a gente levava o cabra de volta. Talvez pelo rio, evitando estradas, ia se ver. Botamos o homem em marcha até a casa, atrás do hudso e Amaro estava muito alegre, porque olhava para trás quando em vez e dizia: marcha soldado, marcha soldado. Na primeira vez, disse marcha soldado cabeça de pa¬pelão, depois disse cabeça de macarrão, depois cabeça de mamão, depois cabeça de camarão, depois cabeça de capão, depois ca¬beça de manjelão, e assim foi, até que se chegou na casa e se instalamos e eu estou aqui com essa me olhando e querendo saber se eu estou tirando bicho do pé. Um fastio aqui. No co¬meço, mascava um queijo de cabra ardido, por falta do que fazer, hoje só como de fado, passo as horas estendido na varanda, nem sei quantos dias tem, Amaro corta tiririca e desmonta o motor do hudso e assovia a mesma música, às vezes canta. Não en¬tendo direito, porque Amaro enrola a língua, não sei o que é: até o sol (isso,entendo: até o sol). Até o sol ipiaça invadiu a vidraça e o retrato dela icoiou. Deixe examinar isso. Até o sol ipiaça invadiu a vidraça e o retrato dela icoiou, que merda é essa não sei. Perguntei a ele. Até o sol ipiaça, que vem a ser? Não sei, disse ele, aprendi assim. E o retrato dela icoiou. Acho que as músicas devia de ser feitas para entendimentos, assim não. Amaro sabe diversas, mas tem costume de pegar uma e não tirar da boca, e aí fica o dia todo naquilo só.
Bonequinha linda dos cabelos louros olhos tentadôrios lascos de lubila.
Perguntei o que vem a ser lascos de lubila, também não sou¬be, parece mesmo que não gosta que eu pergunte. Acho despro¬pósito cantar uma coisa que não se entende e disse isso a ele, mas ele não quer saber, lascos de lubila, lascos de lubila, nunca ouvi isso. Só ele mesmo. No normal, não me incomodava, mas quando só se tem mugido de vaca para escutar e cheiro de curral para cheirar e não se sabe quando vai se sair dessa pasmaceira, não se agüenta uma coisa dessas. Amaro gosta de palavras. Fica repetindo uma porção sozinho, feito maluco, acho que só para sentir o gosto. Antes deu tirar o bicho do pé, quando nem tinha começado a desfivelar as botas, chegou e disse, com um rolête de tiririca no meio dos dentes: — Se a gente levar o homem agora para Aracaju, vai ser uma poteose de tiros.
Mas, mas veja, mas olhe. Mas, mas homem. Disse assim e até tive vontade de dar risada, porque Amaro usa um dente sim, um dente não, vai acabar perdendo tudo. A boca é engra¬çada, como dentes cavados numa casca de melencia. Que vai se fazer. Não resta nada para fazer, não ser mesmo um cavaco assim com os dentes de melencia, mas, quando o tempo é grande como aqui e se espicha pela tarde como que não vai acabar, até a con¬versa parece coisa do inferno, traz impaciência. Amaro ou fala de mulher ou fala de Charuto do Cotinguiba. Fala no pontapé de Charuto. É um chute, fica dizendo. Cada chute. Furou a rede do time da Passagem, deixou a marca ali. Furou a rede de di¬versos, fez e aconteceu. Ora, Amaro, an-bem, não gosto do Co¬tinguiba, em primeiro lugar, não gosto de Socorro, que é uma terrinha mirrada, cheia de pivetes fugidos da Cidade de Menores, em segundo lugar não gosto de time azul, em terço lugar não acho que Charuto, com aquelas pernas de jaburu e aquele nariz de ponta possa ser bom chutador, em quarto lugar cale essa boca arreliada da gota, aviu, time é o Olímpico, aviu. Bom. Nunca nem vi direito a camisa do Olímpico, só me alembro daquelas rodas enroscadas umas dentro das outras nos peitos dos joga¬dores, mas não posso que não ficar falando, que mais se pode fazer. Nos princípios, vem raiva de Amaro, os buracos nos den¬tes e a fala mole de muribequense, mas depois o tempo é tão grande e nada mais se ouve senão as vacas de curral e a quentura abafa tanto e nada mais se ouve, que fiquemos ali, só fa¬lando por falar, por meio dumas grandes paradas na conversa, enquanto espiemos o ar. Deitado numa tarimba velha, de noite, também sem dormir, tem uma conversa mansa. Que mais? E Amaro só Charuto isso, Charuto aquilo, porque Charuto, por¬que isso e mais aquilo. Certo, certo. Umas horas aparece umas jias no chão e a gente espiemos as jias como se a gente nunca tivesse enxergado uma jia nesse mundo de meu Deus e se apro¬veita para conversar de jias, sem muita direção. Assim: Amaro diz: já viu como uma jia é branca, repare que bicho branco. Aí eu levanto a cabeça da tarimba, tapo o olho por causo do clarume do fifó nas vistas e espio a jia. Demoro um tanto assun¬tando a jia, que fica lá desprecatada, esperando algum vagalume, sem dúvidas. Aí eu digo a Amaro: tem razão, é um bicho branco danado, de cabeça assim ninguém dizia que era branco desse jeito. Aí ele sacode a cabeça e diz: é um bichinho tão branco que parece pintado, hem? Aí eu levanto outra vez, espio a jia e digo: parece até pintado, de tão branco essa jia, hem Amaro? De fato, Amaro diz, branco assim só pintado. Aí ele olha mais a jia e eu olho também, de cada vez um dizendo uma coisa um cadinho diferente. É branca. Na luz se vê as tripas. O vagalume acende dentro da barriga, quando ela engole. Depois, vai logo faltando iluminação nele e ele vai apagando, até apagar. Amaro diz que jia é parente de sapo. Todo mundo sabe disso, Amaro. Me diga-me, esse hudso não vai ficar encrencado no meio da rodagem? Que encrencado, meu santo, que encrencado? Esse hudso é americano, hem Amaro? Vi dois americanos uma vez, uns vermelhos. Tem preto lá, hem? Não existe. A Bahia não fica na América. A América fica para lá da África, é bastante longe. E fiquemos nisso um tempão, até que eu quero treinar uns tiros na jia e Amaro diz que vai fazer buracos demasiado no chão e vai causar um espôrro descabido. Por essa razão, finca¬mos o olho na jia e ela quieta ali calada jiando e não damos tiros nela e acabamos tendo de dormir naquela soaeira besta. Amaro achou um livro marrom e ficou tencionando ler. Tinha uma frase: o discurso sem verbo. Mas não gostou do discurso e logo rodou a rosca do fifó com o dedão e foi dormir. Deve sonhar com uma jia dentro do hudso.
Pois então com esse bicho na ponta da agulha, posso quei¬mar com fósforo. Nem trasteja, não dá tempo. Dá, sim uma torcidinha de banda, nham-nham, uma esticadinha e fica logo preto. Deixou um bom buraco, isso posso garantir, e aí carece atufar de terra para não sinfetar. Às vezes fico retado, quando me vejo fazendo certas coisas, um homem como eu aqui sen¬tado, coculando terra num buraco do dedão, sabendo que não vai ter mais nada que fazer depois. Podia ir para lá com Seu Nestor, mas não me dou com vacas. Não gosto de boi de perto, é um bicho burro e anda de cara baixa. Do mais, não posso deixar ele aqui, com essa de frete com ele, porque pode soltar, isso tenho certeza. Se solta ele, eu levo ela, isso pode botar a mão no fogo, que eu levo.
Mesmo porque não vi nada antes de rebentar a pamonha. Estou aqui bendomeu, cocando meu dedo furado, quando vejo os gritos na sala e é gritos de Osonira Velha, minha Nossa Se¬nhora do Perpeto Socorro, meu Bom Jesus de Pirapora, não sei que tem mais lá, e que vejo assim naquele arrupio todo, e que quando vejo assim uma porção de destampatórios da parte de Osonira Velha que destapo pelo batente da porta arriba e que seguro o cano logo no sentido da fuga do homem e que vou virando no batente já com o aço enrístio para frente que vejo é a menina segurando as partes com a mão e toda encolhida com cara de atocaiada e o alguém todo descomposto, exibido na frente. Logo que vi, parei.
— Estou lhe dizendo, Seu Nestor, tivesse uma faca na mão, tinha cortado logo. Estava um destempero.
Pois até que não foi, porque eu até que tinha a faca da bota e era uma boa faca, por falar. Mas não vi senso nisso. O homem ainda estava amarrado, mas tinha achado um jeito de se abrir na frente e agora o que ia fazer era que ia se aliviar com a outra. E só não fez sua tenção e teve de ficar com o de encarcar balançando no vento porque a bainha escapuliu, na hora que apareceu Osonira Velha. Com isso ninguém contava, porque a peste da velha essas horas já devia ter batido sua légua e meia para casa, só que nesse dia atentou que tinha que ficar e pegou a safadeza.
— Olhe, Seu Nestor, o fato é que a menina não queria e ele ia pegando apusso.
O fato é que ela bem que queria, deve ser ela mesmo que abriu o homem, porque as mãos não podia mexer bem naquele estado de amarração. Mas ela vastou e ficou berrando de solúcios: ela não quis, pai dela, ela foi dar água e ele agarrou ela, ela é donzela, ela estava quieta no canto dela.
— É fato, Seu Nestor. A menina estava no canto dela, quieta. O peste é ruim, para mim é bicho.
Sim. Boto um dinheiro como ela encostou lá por primeiro. An-bem, chu. Quem freta e desliza é barcaça. Estou aí, estou assistindo e não posso garantir que não gostei de ver Seu Nestor sacudir a cabeça de um lado para o outro, assuntar a descompostura do homem. E ele todo sem nem saber como era a cara que fazia, nem se olhava para cima ou se olhava para baixo, se mordia os beiços, se falava, se nada, nada.
— Tire a mão da frente, cabrunquento. Não queria amos¬trar? Pois pode mostrar.
Essas alturas, murchado, não está vendo logo. Eu que não queria ser ele. Mas Seu Nestor só falou duas coisas alto e deu com a mão na menina e eu e Amaro fomos ajudar a segurar para dar umas porradas nela. Merecia. Mulher que viu homem nessas condições é rapariga. Ou vai ser. Punitivos é bom. Porisso que seguremos um pouco, ao que o pai dava o castigante com o mesmo manguá que eu olhei e aparava na mão crua, com a canhota, quer dizer que era em cima e em baixo. Mas não teve precisão de segurar mais, porque aquele manguá era dos de amansar burro, de maneiras que ela amunhecou e ficou ali no dela. Boa taça e manejava bem, sem curva muito grande, só quase que de munheca, mas batia bem. Osonira Velha foi botar vinagre e sal em cima. Carecia. Homem nenhum uma filha assim não apreceia, mesmo pensando que não foi ela. Diabo de mulher tem querer não, mesmo, pronto. Demais, vinagre e sal cura li¬geiro, fica só uns vergãos, manhã esquece, pode crer. Agora é não falar mais nada e agradecer ter pai bom, que não jogou logo no mundo, para seguir a carreira de mulher dama. Eu mesmo sabia que só podia sair nisso ou noutra coisa disso, aquele frete. Aquele timão em cima da pele. Afinal, homem nu com mulher nua um vai cair na pua, está dito.
Agora que aquietou, Seu Nestor chamou nós dois para sen¬tar na varanda e sentamos na varanda, eu enrolando um cigarro e Amaro cavando o chão com a ponta da bota num traço bem comprido e Seu Nestor segurando uma faca. Eu disse: por mim podia sangrar logo, mas vai ter de sangrar em Aracaju. Isso é boi de matadouro é animal cheio de idéias. Não pode morrer no mato. Assim mesmo, não sei se nem em Aracaju, ele é des¬pachado. É todo importante, está um sistema, os jornais, tudo. A política está mudando, eu disse, está ficando uma política maricona. Mas Seu Nestor não estava escutando, porque nada res¬pondeu e, quando eu vi que nada respondeu, também calei minha boca e fiquei na aguarda, ali. Também pouca coisa mais tinha que fazer, era esperar. E esperar esperamos, porque ele estava sem pressa, tinha que pensar bastante no que devia de fazer. Se algum estava avexado não era eu nem ninguém, era o da sala, que, em vez de sentar, ficou caminhando até onde a corda dava. No começo, quis falar, armou discussão.
— O senhor precisa me escutar-me. Isso é um problema que pode ser explicado.
Vá explicar na casa da puta que pariu, disse Seu Nestor, e levantou até lá e deu com o joelho nos quibas deles duas vezes. Assim amansa, não vou discutir com cabra safado, aviu. Voltou e sentou na cadeira de vime e deu de balançar em cadência, olhando duro na frente. A moça o senhor manda para o con¬vento de São José, disse Amaro. Lá depura. Sai velha e esque¬cida da memória. Ou então bote num daqueles que tem grades e que ela só pode falar pelas grades e nem não vê ninguém, eu acho.
— Por mim morria, Seu Amaro. Por mim não existe.
An-bem, todos calados então, de quem era a filha se não era dele. Só depois de mais tempo ainda é que demonstrou suas idéias.
— Impossível matar o homem, pode vim alguém aqui. Não suporto ninguém me tesourando.
Certo, certo. Podemos surrar.
— Porém, vou deixar ele roncolho. Vosmecê queima? — Eu nunca queimei nem ôvo de bode, quanto mais.
— Não tem dificuldade. Encosta o ferro quente. Fica um pouco de um cheiro de carne esturricada, mas tem precisão, por¬que pode sangrar demais e o bicho morre de esvaição. Assim,, faz a queima logo e sara, que fica ótimo.
Amaro disse que podia amarrar um fio de cabelo de rabo de cavalo na raiz do quiba, que ia apertando, apertando, até ficar como massapuba. Justo, disse Seu Nestor, mas aí ele pode tirar,, numa hora de desprecato de quem tiver olhando. Mas é o me¬lhor, disse Amaro, é assim que melhor se tira berrugas, nem dói, só desconforta um pouquinho. Cortar pode resvelar e cortar logo tudo, dá um estrago. Não tem homem que fique quieto direito numa hora dessas.
— A gente avisa: olhe, se chiar, enfio um pano na boca' bem atufado e pode lhe afogar logo de vez. Melhor se confor¬mar, porque o destino não se engana. Também não fique se me¬xendo, que dificulta. Deixe que eu corto um corte só, na raiz, nunstantinho.
— Também pode dar com a mão do pilão, não precisa nem enrolar, porque já tem embrulho no natural. Pode ir pilando,, pilando, até esfarinhar por dentro e aí deixa, que vai inchando e rende. Fica um espotismo de cunhão, pode dar até no joelho. Sei de um velho em Aquidabã, por nome Manoel Joaquim, que tem um assim, o direito, que é direitinho uma abobra dessas compridas e ele ali pode fazer todas espécies de serviço sem susto, só que as pernas das calças tem que ser mais folgadas um pouco, para poder entrar. Vi diversas vezes, é interessante. Lá em Aquidabã não tem nada para fazer e Seu Manoel Joaquim gosta muito de prosar e fica com aquele cunhão inchado nas calças, que nem um saco. Mas rendeu de moléstia, não foi de pancada. É uma doença que dá, que incha os ovos e daí não tem mais jeito.
— Não, que o vivente pode esfalecer e não tornar. Ou ficar abilolado para todo o futuro.
Mas olhe que para um alguém que estava um pouquinho todo alterado, no vício mesmo, ver a pajeú do velho retinindo de amolada, coriscando na mão, para separar um ôvo do criaturo, olhe que é preciso ser muito macho para não se ajoelhar. Mas ele não, agora que reparei, dava umas parenças de tão can¬sado que nem era como se fosse com ele. Estava lá, acho que se mandasse ajoelhar ajoelhava, se mandasse arreganhar os quartos arreganhava. É bicho, pode crer. Udenista é gente, siô.
E fiquemos considerando a maneira de esmochar os balangandãs do homem, um saindo para ele sentir e um ficando para ele lembrar, mas todas algum achava defeito, se era no sangra-mento ou bem era no resultado, ou bem nas perguntas que iam fazer, quando chegasse em Aracaju. Eu mesmo nada vejo de¬masiado que um,udenista chegue em Aracaju roncolho. Isso eu mesmo, mas tem quem repare nisso, tem quem repare em qual¬quer coisa. Para mim ele é bicho, não faz diferença. Lá, até parando de andar, por volta e meia e ficando estancado em pé, como cavalo, com a testa para riba, às vezes nem parecia que a conversa era com ele, às vezes esfregava as mãos mas não fa¬lava nada, porque Seu Nestor ia lá e dava com o joelho por baixo dele toda vez que ele falava, de maneiras que deve ter achado melhor virar mudo.
— Assim vosmecê capa o homem antes da hora.
Isso vai esquentando ele, disse Seu Nestor. É um preparo. É bom que ele vá sentindo, porque nessa casa homem que não •eu só saca a vara para verter água e mais nada. Não gosto desse negócio, não admito falta de respeito.
— Isso é.
Mas já era bem de noite e só tinha grilo e sapo, sem nin¬guém resolver. Seu Nestor, melhor o homem ficar inteiro. Minha obrigação é entregar o preso inteiro.
— Vosmecê me desculpe, inteiro daqui é que ele não sai. Veja se ele pensou em deixar a menina inteira. Não é Osonira Velha, se aprofundava-se todo, fazia uma feirinha de natal.
Bom, o jeito é resolver de outro jeito. Ô Amaro, batendo a cabeça no vrido do hudso, quebra o vrido? Amaro disse hum-hum, quebra não, aquilo amassa que nem quebraqueixo, pode até raiar um pouco, mas não quebra assim com uma nem duas, é vrido safeti. Então já sei, então digo que o homem bateu com a cara no vrido, depois de dar dois tombos na estrada. Qualquer estrago na cara está explicado. ele que diga que não foi o tombo, que é a última coisa que ele abre a boca para dizer. Vosmecê tem um alicate aí? Que eu arranco dois dentes da frente dele. Arranco dois de baixo, dois de cima, que fica mais certo. Assim ele assobia e cospe bem, hum? Primeiro, dou de coronha atrevessada nos beiços, que amorteceia, amolece e ele abre a boca mais fácil. Depois, puxo de uma, puxo de duas, puxo de três e arranco. Isso não tem dificuldade, os de baixo puxa para cima direto e os de cima puxa para baixo direto. Resistindo, sacode de uma banda para outra, até vir. Seu Nestor trouxe um baú de folha, aquilo assim de ferruge, tão assim que abriu com um roncor devagar, e deu o alicate. Esse, não muito melhor, um negrume. Achei que ia estrompar as gengivas do coisa. Acho que vai estrompar suas gengivas, coisa. Vosmecê desculpe, não tem outro, mas é isso ou capação. Vá entendendo, viu, esse menino? — Vosmecê sabe o termo bonito para arrancar dente? Vos¬mecê não quer abrir logo essa boquinha de bunina? ôi peste, ôi peste! Aí inverti a arma, encarquei duas vezes no beiço do alguém e arranquei quatro dentes de alicate. E deixei.
IV NEM NUNCA pude pensar que Amaro soubesse essas rezas, nem muito menos que esse padre de Japoatã fosse botar os três ajoelhados e rezando. O padre eu não conhecia. Só de nome, e quando vi, pensei que não fosse padre, pensei que fosse um avariado maluco, fazendo de padre. Ou manifestado, pode sempre estar. ele fala depressa e grosso, não se entende quase. Mas se sabe por que se chama o Padre de Aço da Cara Ver¬melha, porque demonstra a dureza e porque tem uma marca vermelha trespassada pela cara, a cuja marca vermelha fica mais vermelha agora, menas vermelha indagora e assim vai, confor¬me. Sabia que a gente estávamos chegando e que era forçado abrigar, mas ficou todo monarca na porta, com os braços cruza¬dos, sendo que era para mais de onze horas da noite e nós no mundo há não sei quantas. Espiou pela atrás de uma grade de pau que tinha no meio da porta do lado da igreja. E ficou es¬piando, nem chite nem chute, e eu e Amaro que vinha escarreirados e mais o traste que vinha próximo de arrastado, com as caras desgueladas, na porta. Inda mais que a gente estava de disfarce de capote de capuz e o trem amordaçado atrás, gemendo por causa da dor do lenço nas gengivas, que o alicate não era mesmo para tirar dente e tinha ferruge e deslizava, de maneiras que a extraição foi puxada e desvaziou gengiva que não foi graça e fiquemos o tempo todo com medo dele morrer logo sem o puni¬tivo esperado e havia um nervoso, porque a hora não era de molequeira, com um tenente defunto e degolado e mais uma por¬ção de cabras no tiroteio e um sarseiro completo na fazenda de Seu Nestor e isso tudo ele devendo de saber e de braço cruzado. Ora, pode ser padre pode ser frade, pode ser freira pode ser bispo, pode ser santo pode ser anjo, pode ser imagem pode ser profeta, mas numa hora de precisão como que fica ali só es¬piando, que parece um ano. Não que parece um ano; parece um dia, que o ano passa depressa, mas o dia passa devagar. Come¬çando, espiei também, segurando o cabo do revólver com a mão e encostando a cara na grade dele, mas ele não desencostou, só fez alevantar uma vela de promessa e alumiar a cara dele lá, que não era boa cara, mas uma cara toda vermelha, uma cara vermelha e embolada, crequenta. Parecia mais um cão, olhando assim. Mas fitou-me fixe, ali olho com olho, e o meu bem arre¬galado, para dar testa. Baixei o capuz e botei a cara no lume e dei um arrasto no coisa, vem traste, só sabe gemer por baixo dessa mordaça, aprenda jeito de homem, olhe o padre, tome a bença ao padre, estava todo meio abestalhado com a situação, parece que levou horas. O padre terminou dizendo ô de fora, ô de fora, com uma voz de gruta. Tinha como que uma goiva na cabeça, que trempe é essa não sei, petrechos de padre. Ô de dentro, eu disse, ô de dentro, ô de dentro. Getúlio, pois não. Getúlio de Acrísio Antunes, Antunes do pecidê, pecidê desse Ser¬gipe desse mundão, mundão que está esquentado, esquentado que vai derreter, ora merda, seu padre; êi seu padre, que não abre essa castanha dessa porta, vai abrir ou temos que nos pi¬sarmos para Pacatuba ou Pirambu, mas se a missão não der certo quem não deu certo foi vosmecê. Padre avariado, pode crer. Ô de fora, ô de fora. Ô de casa, ô de casa! Quer que toque o sino? Ô de casa. Ô de igreja. Nestor morreu, o padre foi per¬guntando, sem abrir a bendita porta. Não morre fácil, disse eu, porém acho que está dando um fim numa ruma de gente lá, acho que está uma mortandade na Boa Esperança, porque quiseram entrar apusso nas terras. Mas logo eu conto a vosmecê, porque vosmecê não abre a porta? — Em nome de Deus — disse o padre, abrindo a porta.