Entremos e tinha um cachorro preto e o padre de goiva e camisolão, e arreado no ombro pela passadeira vinha uma de dois canos serrados e caos puxados, que ele agüentava no subaco e no cotovelo, mirando em frente. Nunca vi uma dessas igual, seu padre, me diga-me, esses dois caos não estão puxados? Estão, disse o padre, e se der um trompaço eles batem e vai ser uns pipocos. Tem boa carga aí, acho que os dois de vez joga um bom macho avoando para trás umas quatro braças. E vos¬mecê não acha que êssescãos vosmecê devia de encostar devagar nas espoletas, vote, deve dar uma porrada de umas quinze arro¬bas para mais. O padre alisou o lado da bicha devagar, empurrou o catapiolho em cada cão bem devagar e fazendo uma caretinha e descansou a bicha. Mesmo assim, disse ele, avirando os canos para o chão, ela atira, com um pouco de força. Os caos sobem e descem, como num revólver. Mas dentro da igreja eu não ati¬rava, porque deixava de ser igreja, não se pode matar dentro da igreja, mata-se lá fora. Inda porém tem muito cerca-igreja nessa terra, de modos que não se pode facilitar, não tolero caceteiros. Teve um tempo que se fazia eleição na igreja, disse o padre, aí, aí é que era preciso muito preparo, disse o padre, enfiando o cano da espingarda pelo meio do buraco de trás dum banco e deixando lá. Ficou como quem estava falando sozinho, olhando para cima e para os lados, mais para cima.
— Um tiro aqui desses despenca tudo. Não fica nada. Não tenho dinheiro para escorar.
Passou uns tempos assim, com a mão na cabeça do ca¬chorro e conversando sozinho, porque não tinha dinheiro para isso, não tinha dinheiro para aquilo.
— Isso é uma porra — disse o padre, levantando os braços duros para o lado e descendo para bater forte nos quartos. — Desce todo mundo para rezar.
Todo mundo desceu nos joelhos, nem nunca pude pensar que Amaro soubesse essas rezas todas, eu mesmo não sei. Amaro principia uma reza alta. Cale essa boca, disse o padre, alto só eu. Tivemos antes de tirar a mordaça do coisa e Amaro queria tirar devagar, visto estar colada no meio das gengivas, mas assim não acabava mesmo. Por mim não tirava, o bicho acho que não vai poder falar mesmo, nem para rezar, está com a fuça toda inchada da operação e não sei nem por que rezar vai ele, Deus é contra os udenistas, sempre digo, comunista não tem Deus. Mas Amaro foi tirando e o trem só chiando, chiando, inclusive aquilo não estava com bom cheiro, estava uma inhaca desgra¬çada mesmo, e o padre segurou a vela, para olhar direito a cara do alguém. Acho melhor tirar de vez, disse Amaro, que assim dói mais ligeiro. O padre achou que ia dar sangue e apertou as bochechas do coisa para espiar. Que foi que teve aí no infeliz, sargento? Hum. Nele mesmo não teve, quem teve nele foi uma coisa de fora. Sim, sim. Taí. Que é que o senhor fez aí, sargento? Virgem Santa. Bom, por primeiro bati a coronha nele para ele abrir a boca; depois tirei dois dentes de riba, dois dentes de baixo. Foi serviço ligeiro. Hum-hum, disse o padre, depois você me conta. Orêmus confitodéu ominipotente beaté Marié semper-virgi beatomicaéli arcanjo beato Jones Batista sânquitis apóstis Pedro é de Paulo ominibussântis etibipate cuia pecavinimis cogi-tatone verbetópere mea culpa mea culpa orare promé adidómino deunostri ameim. O coisa fez sinal de duas mãos, porque esta¬vam amarradas juntas, quer dizer, um sinal saiu pelo avesso, não estou aí nem vou chegando, se amaldiçoe sozinho. Indugêntum absolutônein é de remissione pacatorum nostroro tributinóbis ominípotes é de misericórdia dóminus. Muitas rezas. Eu rezei dois padrenossos e duas ave-marias e depois não quis mais rezar, fiquei ouvindo o padre falando língua de padre. Só quero que não faça o bicho ficar bom de repente, mas acho que esse padre não é de milagres, só é de rezas e assim mesmo, de maneiras que sentei no banco e fiquei esperando o fim das rezas, fazendo tenção de dormir, mas não sabia se a igreja deixava de ser igreja se eu dormisse nela, e fiquei agüentando os olhos. Amaro está uma novidade, entertido nas rezas. Deve ser porisso que nunca bateu no carro, se fecha-se com as rezas. Tinha vontade de saber rezas assim. Me lembro do filho do chefe, que eu levei para tirar retrato de primeira comunhão, ele segurando uma vela com uma fita no braço, e tirou um retrato com uns anjos atrás, mas a mãe não gostou, porque saiu perfilado. Por mim. Perfilou porque quis, ele é que ficou de perfil.
O padre disse, alisando o camisolão o padre da cara ver¬melha e andando pelo meio dos bancos, andando meio nadando como um vaqueiro, e o peste nisso todo descomposto e arreado e as munhecas reladas pela embira que eu amarrei, um sono da moléstia, bom, disse o padre, depois das rezas pelo perdão dos pecados, depois botamos água e sal na boca do infeliz e arru¬mamos ele com vosmecês no quartinho do sobrado, por mim eu despencava ali mesmo naqueles bancos, mas manhãzinha o sacristão com certeza vem abrir a porta e começar as arruma¬ções da primeira missa e não quero também amordaçar um sacristão, pode trazer desgraça, bom, disse o padre, eu mostro lá o quarto a vosmecês, tem duas camas de couro e um chão de cimento vermelho que pode forrar de esteira, dá-se um jeito. Ali mesmo, se pudesse, bem que eu emborcava e fico olhando esse padre, nem sei quantos anos pode ter, pode ter cinqüenta pode ter mil, andando feito vaqueiro, deve ter sido filho de va¬queiro antes de ser padre, um pau dum homem que não tem mais para onde, chega a vergar, e também espiei o coisa com os beiços inchados: agora fazia lombo, bem que pegava umas porretadas nas costas do jeito que estava ali, hum, an-bem, ora merda, não compreendo direito, horas parece que esse padre é padre, horas parece que é usineiro, não sei direito, bem capaz de ficar cavacando a noite toda e o pior é que é gente branca da política, não sei, um sono, amanhã resolvemos, sargento, pegue1 o paciente. Como é, seu padre? Pegue o paciente. E foi aí que eu ri porque achei mesmo o bicho com cara de paciente e aí fiquei rindo com uma cosca na barriga que já dava até dor, fi¬quei achando tudo muito gracioso e até alisei o casco da cabeça do traste e dei um empurrãozinho. Vamos, seu paciente, doutor paciente, ôi, ôi. Apois não tem cara de paciente mesmo. Fico com vontade de fazer como se fosse um animal, siu aí, paciente, cada gaitada, mestre, siu aí, cada gaitada, ui. O paciente, já se viu, é um paciente escrito. Essas alturas, se ele pudesse, me matava. Quer dizer, então não pode mais viver, que eu não vou existir com um cabra com sede no meu sangue, adonde. Agora, que se eu pudesse não botar água e sal no alguém, não botava, mas paramos defronte do purrão e depois o padre resolveu que era melhor água benta. Amaro foi buscar, num jarro branco de metal, um metal espécie de metal de pinico só que o jarro era comprido, e o padre misturou com sal devagar e botemos e bo¬temos e botemos e mais logo botemos o traste para mijar, que ele queria, e arrumamos ele na esteira, com mais embira nos pés. E lá ficou, muito instalado. Hem, Amaro, já viu como esse padre anda nadando para baixo, como um vaqueiro? Hum-hum. Se dá-se bem com cama de couro? Aqui não temos jias. Me diga-me, ficou com o fiofó aprontado, quando viu a fraqueza do governo chegando lá na fazenda de Nestor, embalada que era uma ar¬mada completa, você viu, era uma grosa de machos aquilo, hem Amaro? Descubra isso, peste, que de tanto dormir ferrado um vem e ainda lhe sangra como aquela mulher de Campo do Brito sangrou o marido, com ele roncando na rede. Isso é fato, cha¬mou o feitor que ela andava empernada com esse dito feitor, ajeitaram o homem na rede, meteram uma bacia por debaixo e sangraram todo como galinha, o bicho ficou alvo, precisava ver. Quer dizer, eu não vi, o Chefe me disse, mas todo mundo soube disso. Pois um dia desses, leso como tu é, com essa barriga de purga orenha subindo e descendo, vem um e lhe acerta e não pense que não tem uns querendo lhe finar, porque tem, basta dirigir aquele hudso comigo dentro. Ô Amaro, esse hudso na porta da igreja e se aparecer a força aqui? Eu estava com sono, mas não estou mais, acho que vou carregar aquela de dois canos do padre e armar na janela. Um devia ficar acordado, isso era que devia. Ô fidumaégua, ou filho de uma mãe com vinte pais, ô condenado tu não acha que essas alturas já não está vindo uma força de cabras aí? Não sei o que está em Aracaju, Elevaldo não disse direito, mas está uma coisa qualquer, de ma¬neiras que por mim essa viagem já está comprida, por mim a gente arreda o pé daqui, pede a bença do padre, enrola o pa¬ciente — ô Amaro, ele não tem cara de paciente? Paciente, pa¬ciente, doutor paciente, esse padre tem cada uma diferente, viu que ele soltou uma porra, será que porra é alguma coisa em língua de padre? A gente enrola esse paciente, mete atrás todo embirado e vai. Por mim, esperava recado na Barra dos Coquei¬ros, nem queria saber mais. Lá ninguém busca, eu acho, ninguém pensa que a gente vai ficar defronte de Aracaju, carregando esse traste bem na frente da cidade, bem na cara da Ponte do Impe¬rador, olhando os siris da beira dágua. Amanhã, não sei, pode ser. Bom, esse padre tem artes, mal se sabe. Pode fazer um par de rezas, pode sair com aquela de dois canos. Gostei daquilo, ele mesmo serrou, está bem serradinho mesmo, aquilo tem uma porrada de umas quinze arrobas, mata um boi, pode crer. Bom, se aparecer gente, faço questão de esperar atrás da porta desse sobrado, que é pegado mas não é igreja, espero bem assim atrás da porta e pico a zorra no primeiro vivente que atravessar a porta e esse eu abro um rombo da pinóia, êta caraio, catibum, um dois gatilhos, trá-trá, é só bater. Viu que dois burros de dois caos, aquilo é peça antiga, aquilo não falha, não en¬gasga, parece que tem libras de chumbo ali dentro, ou então não é chumbo, é cartucho especial, ainda pior, nunca disparei um instrumento daquele, ai vida, ai vida, isso não é uma peste duma vida, Amaro? Não se quieta o rabo. Também não sei outra, que diacho que eu sei fazer? Putamerda, Amaro, tu dorme fácil, eu não agüento. Acho que esse padre pode fazer umas rezas, mas possa ser que só sabe fazer reza de bicheira. Quer dizer, nunca vi padre fazendo reza de bicheira, diz que não adianta. Não adianta porque não precisa, padre não é vaqueiro, mas vaqueiro precisa e faz e as bichas cai, uma por uma, pam-pam. Me di¬ga-me, Sergipe não é um sertão só? Não é? ô terra, ô vida, siô. Não sei, essa cama de couro me dói o espinhaço, não dói o seu? Ninguém conversa, acho que sou eu que mais converso, mas pode crer que você assim estica a canela no primeiro dia que Deus der. Viu o cachorro do padre, eu tive um cachorro assim, quer dizer um cachorro mais ou menos dessa marca de cachorro só que mais grosso, que o nome era Logo-Eu-Digo, porque o povo perguntava o nome e eu dizia Logo-Eu-Digo e ficava calado. Aí passava um tempo e vinha a pessoa: como é o nome do cachorro. E eu: Logo-Eu-Digo. Aí mais tempo e a pessoa dizia: vosmecê não disse que logo dizia o nome do cachorro, como ê o nome do cachorro, e eu dizia Logo-Eu-Digo. Homem, nem risada tu não dá, nem risada já se viu, é deitar ferra, acho que até em mundéu, se tiver um mundéu grande, acho que até em mundéu lhe pegam qualquer um que queira, Amaro, tu é uma besta, pois hoje eu não durmo direito. Amaro, passo de arapuca. Não sei mesmo como foi que a gente pôde partir de Boa Esperança no meio daquele fogo, parecia um são joão, êta. Em¬bora antes estivesse calmo, ninguém dissesse pela cara de Seu Nestor que tinha emergências naquela hora, porque ele chegou e apeou e ainda tirou os couros todos e pendurou devagar e, quando chegou no copiar, ainda olhou os pés, viu que trazia as esporas, entrou de novo, tirou as esporas, chegou, acocorou, levantou, tirou o fumo do aió, picou e disse: sabe? Eu que es¬tava sem nada na idéia e Amaro que estava deitado em baixo do hudso, posso ter certeza que dormindo que não tinha nada para fazer no carro, e o preso que estava trancado outra vez no quarto, o que é que eu podia saber. Nada. Nestor só disse: sabe? E fez uma cara e ficou. Eu não falei nada e quedei espiando a feição dele, até que ele acabou de picar o fumo e informou que tinha uns vinte cabras ali e tinha mandado Carmolino arreba¬nhar nos pastos e tinha facãos e espingardas e um par de armas curtas, umas coisas dessas, e se eu podia esperar e sair pelo outro lado, depois que chegasse a força. Vem força, que peste é essa? Elevaldo não contou, disse Nestor, mas acho que a po¬lítica entrou pelos contrários, mandaram buscar o homem. Esse aí? Esse mesmo daí. Bem, matamos o homem, ponto final, eles levam ele duro, espichado, pronto que acabou. Mas porém Nes¬tor, que achava uma desconsideração que aquele povo chegasse pelas terras dele adentro, resolveu que todo mundo esperava até que a força desse na encruzilhada. Aí fazia resistência, até dar tempo da gente buscar guarida com o Padre de Aço. An-bem, disse Nestor, levantando com um cigarro aceso no bico e a cara enfarruscada, vamos receber a porcaria do governo. Não me lembro de quanto tempo fiquemos olhando o caminho, e Nestor, picando mais fumo, começou a se bufar todo, umas bufas altas. Todas decisões me borro, disse Nestor, sou assim, me ataca-me uma caminheira bruta. Da última vez que eu tive de defender essas terras, me calabriei todo, chegava a pingar pelas calças. Ora, chô, um tiro, uma bufa, quanto mais se vive, não é. Pois um homem macho aquele, pulando na frente das balas, se bor¬rava, atirava e se borrava, chegava as calças a transparecer. Sei bem não, máximo que sinto é o peito apertado, assim mesmo logo antes. No aceso, nem vejo.
Nunca pensei que ia degolar o tenente, pelo menos nunca pensei assim no claro, quer dizer, nunca disse: Getúlio, vamos cortar a moléstia da cabeça do tenente. Até só vi que era tenente depois de perto, mas vi mais que era mais cabra safado do que qualquer outra coisa. A gente estava desencostado um pouco pelali, todo mundo pensando numa coisa um cadinho diferente, com o olho na estrada. Nessas horas, fica um silêncio, o ar fica duro mais ou menos. De longe um matinho, parecendo uns ban¬cos de macambira, tudo muito quieto, só mutucas de vez em quando, uns bichos assim, umas coisas dessas. Essas alturas, nunca pensei em degolar o tenente, até nunca pratiquei uma de-golação antes, só que ele chegou com um lenço branco e falou com Nestor como se estivesse dando ordem num meganha da¬queles lá dele. Me olhou: o senhor está fora de uniforme, sar¬gento. Nisso, eu estou conhecendo ele, que chama-se Amâncio e é por demais perverso, todo mundo sabe, e é udenista. O sol batia muito quente e ele enrolou um lenço por debaixo do quepe e espiava a gente com as vistinhas miúdas, como de porco. Fala fino, nunca admiti homem de fala fina, se bem que seja o tipo de maior ruindade, possa ser até porque tem a fala fina mesmo. ele disse, olhando para minha cara, esse sargento desenquadrado retirou um homem de Paulo Afonso e se homiziou na sua terra e eu vim buscar o homem, o sargento e o chofer, o governo não tolera essas bitrariedades. O homem vai. Nestor pregueou a cara toda, acho que já estava se agüentando da vontade de bufar mais, mas não disse nada um tempão, apesar do tenente ficar falando e tirar um patacho do bolso e fazer uma pose de porretã e dizer que não tinha tempo, quando não foi que Nestor cuspiu um fuminho mastigado e ficou fazendo pôit-pôit com a boca, até tirar todos pedacinhos de fumo. Aí perguntou ao tenente: o senhor é do governo da Bahia? Porque, se se aborreceu por¬que tiraram um homem de Paulo Afonso, é porque é do governo da Bahia, não é fato? Não, disse o tenente, eu sou é desse go¬verno mesmo daqui, o governo do senhor e desse sargento. Meu mesmo não, disse Nestor; só às vezes; às vezes nem é. Bom, eu sou do governo que interessa, disse o tenente. Ah, disse Nestor, e deu uma bufa. Nisso só olhando para o chão, sabendo-se que, quando um cabra como Nestor conversa com um sujeito olhando para o chão é somente com a tenção que o outro não veja o que ele vá fazer nas vistas dele. Eu lá. Calado, a terra não era minha, só o couro que era, e aquele peste não era flor que se cheirasse, devia ter uma porção de gente espalhada ali pelas beiras do caminho. Nestor encostou na porteira e disse o senhor está vendo esta porteira, não está, pois essa porteira é a porteira do caminho de minha fazenda, que vai dar na minha casa, a minha casa que só entra quem eu convido, e ninguém convidou o senhor. Quase que dava para sentir um cheiro de defunto, tinha mais homem ruim espalhado ali que nem sei. Não tenho nada com isso, disse o tenente, vim aqui buscar três homens e só saio com eles. Quês homens, meu filho? Eu já disse ao senhor, já expliquei muito bem explicado, é o sargento, o chofer e o preso. Bom, disse eu, eu é que não vou, você vai, Amaro? Eu não, disse Amaro, eu não estou com vontade de viajar. Pois an-bem, disse Nestor. Apois está. O senhor escutou bem direito que eles não estão com vontade de sair e não sou eu que vou botar as visitas para fora, meu pai me deu educação. Agora, uma coisa eu pedia ao senhor, que é para não entrar, porque se entra vira visita e eu nunca dei um tiro numa visita, não sabe o senhor como é, disse Nestor, e bufou mais. Lá por riba, os cabras quase podia se ouvir cantando panderrolê tepandepi tapetape rugi, es¬colhendo quem ia receber a paçoca por primeiro. Arre. Eu sei que o senhor veio pelai com a fraqueza do governo toda emba¬lada, mas tenho para mim que nem aquele sacrista daquele seu patrão vai achar decente que o senhor entre assim na casa de uma pessoa honesta e venha aqui tirar as visitas de dentro de casa, fazer umas macriações, arranjar umas encrencas. Olhe, Seu Nestor, não queremos mortandade, o senhor entrega os homens e eu vou embora e fica tudo na mais santa, não se fala mais nisso.
— Pois eu acho que isso vai ser uma festa de urubu — disse Nestor.
— Possa ser — disse o tenente. — Mas o senhor alembre que o caqui é mais duro para o bico do urubu.
— Roupa possa ser — disse Nestor — mas o couro é mais.
— Possa ser — disse o tenente. — Mas na companhia de um sargento corno e desertor, com um pirobo por chofer, não acredito muito, não.
Eu nem sei quem descarregou primeiro, se foi eu se foi Nes¬tor, se foi o cabra na distância, mas a situação não podia pros¬seguir, com o tenente começando a dar uns assobios e aqueles assobios dando umas parenças de sinal para a força e ninguém sabendo quantos ele vinha trazendo por detrás e ainda mais me chamando nome, que eu não gostei, de formas que empoeirou logo tudo e a gente fomos caindo logo pelo outro lado da vala no meio dos pipocos e nisso Nestor se levantava, dava num pa-rabelo em pé, gritava e se borrava sempre mais, parecia um macaco, nos pinotes. Foi tudo azul, assim uma fumaça grande, mas o fidamãe logo na primeira escapou dos seis tiros que lhe dirigi encarreirado, a canhota no chão, e ficou no meio de dois pé de pau, um pouco amarrado de um lado e de outro, se bem a força tivesse por detrás e guentasse o fogo bastante. Mas eu tinha resolvido que ia lá, que era que eu ia fazer. Logo nos prin¬cípios é assim: um frio na barriga e um aperto. Depois, uma vontade de não fazer nada, umas lembranças. Até que a raiva sobe na cabeça, ou uma coisa dessas, até que estrala um ne¬gócio e a gente sobe. Sobe mesmo. De maneiras que procurei feição de encostar mais e Nestor mandou descer os cabras por riba, atravessando atrás das cabeças da gente, para arrodear e enfincar no meio da força e da gente, saindo por detrás duns matos de onde ninguém esperava. Sei bem não, mas foi um fogo brabo, quase que um papôco só, sem pedaços, um barulho grosso como pedra, um barulho inteiro. Voava folhas que era bastante. Voava aquele folharame numa fuzilaria e eu vou chegando junto do tenente, vou chegando pelo lado me arrastando e ele quase que me acerta, mas Nestor levanta a mão e desce em cima dele uma chuva de chumbo que descia e subia terra por todos lados, e eu ando mais e enrolo e aí espio a cara dele bem de junto da minha, com um lenço enrolado na boca, sem dúvidas por causo de todo o pó que está avoando e então pego uma mão de terra e pico nos olhos do infeliz e pico mais e pico mais e vou ater¬rando, quando ele pega um punhal que tinha nos quartos, quando ele pega esse punhal do tamanho de um jegue e traça pela frente dele com as vistas fechadas, mas num arco que vai e vem para os lados, mas porém faz curvas de baixo para cima, de modos que não existe posição para se entrar naquela roda que ele de¬senha com o punhal que mais parece uma baioneta e eu não sei o que vou fazer, porque não tenho na mão nada carregado na hora e a faca que eu levei é curta e assim estou só agarrando mais terra com a mão e faço tenção de arrumar pela goela dele, nisso que eu vejo uma pedra como que uma pedra de calçamento e agarro essa pedra e com uma raiva que nem sei, porque a bicha cortava minha mão, olhei bem no pé do nariz dele, olho bem assim para a cara dele e solto a pedra na cara dele com toda a força que eu tenho e vejo ele amunhecar de logo e o sangue es-guinchar. Ah vai, ah vai, vai, vai, vai! Hum. Encarco, peste ruim, quase que não agüento levantar mais a pedra, estava deitado de barriga no chão e tinha chegado ali gatinhando e tinha a alma nos bofes, mas ainda segurei com as duas mãos, mirei devagar e carreguei a pedra em cima dele com as duas mãos outra vez e aí pronto, com uma satisfação, só escutei o barulhinho da cara dele entrando, tchunque, como quem parte uma melencia e o sangue dele correu por dentro de minha manga e a pedra rolou e caiu no colo dele e ficou.
Pois nunca mesmo tinha feito isso, só sabia de ouvir falar, mas deu uma vontade, de maneiras que fiquei sentado um pouco, vendo o punhal, que estava largado no chão e sem ação. E então arrastei ele para dentro da porteira. Uma visita, uma visita, Seu Nestor, uma visita de cara torta
pois ô de casa abre essa porta tem uma visita de cara torta
e fui assim cantando baixo e com ele arrastando pelo cabelo e cheguei na porteira e com o mesmo punhal que ele estava ris¬cando o ar, com aquele mesmo punhal que ele estava ciscando, passei no pescoço, de frente para trás, sendo mais fácil do que eu tinha por mim antes de experimentar, com aquele mesmo punhal que ele estava na cintura e depois na esgrima e me cha¬mando de corno, cortei o pescoço, foi bastante mesmo mais fácil do que eu pensei antes e por dentro tinha mais coisa também do que eu pensei, uma porção de nervos, só o osso de trás que demorou um pouco, mas achei um buraco no meio de dois, escritinho uma rabada de boi, e aí foi fácil, atravessando ligeiro o tutano e encerrando, a cavalaria de Deus pela justiça, corno é a mãe, teve sangue como quatro torneiras, numa distância mais do que se pode acreditar, logo se esgotando-se e diminuindo e pronto final. Donde que o homem esguincha sangue mais longe do que pode cuspir.
Sonhos melhores eu já tive, porque hoje é sonho com uma perfeição de jias. Cada jia grande, com umas bocas maiores, que fica perfiladas na minha frente. Impossível cortar a cabeça de uma jia sem cortar o resto do corpo todo, por falta de pescoço, mas o tenente, assim que decepei, pude amarrar a cabeça num pedaço de corda e rodar por cima da cabeça e marchar lá em baixo, nem sei como nem morri, porque não pararam, mas eu fiquei olhando um tempo para lá para os cabras e falando olhe a cabeça dele, olhe a cabeça dele, quem permanecer vai acabar assim também e dei um safanão na corda e joguei lá no meio da força, que parou um pouco na hora, também estava uma bicha feia, uma bicha troncha, visto que não fechou direito as vistas e a côr era a mais feia e ainda tinha terra até dentro dos ouvidos e mais eu tinha quebrado as partes da frente antes, de maneiras que era um desconchavo e deve ter sustado a força da força. Mas não era eu que podia ficar, com a responsabilidade do coisa atrás de mim, de formas que estamos aqui e não é aqui que vamos parar, aliás, esse é um padre bem doido, sonho com uma ruma de jias, ou nem sonho, sei lá, Amaro dorme e o trem vela, garanto. Bom, tem essas jias. Uma jia se chama Natércio e prefere dar risada a outra coisa. Uma risada de jia, com os braços cruzados. E fica ali, pensando em mosca e vagalume e besouro. A outra jia, que se chama-se Roque Pedrosa, é mais séria e só dá uma risada de vez em quando, quando vê neces¬sidade. Quando acha que aparece a necessidade de dar risada, ela pára e fica pensando, pensando e depois pergunta: nesse caso, o compadre acha que tem necessidade de dar risada? Se o compadre achar, ela pergunta: vosmecê garante? Se ele garan¬tir, ela então dá risada, mas com muita educação, a mão em cima da boca e sem barulho demais. Tem outra jia, por nome Estêves Jaques, que é uma jia doutora e fica com muita pose e dando conselho às outras e fazendo propaganda, mas não vale nada, porque só gosta mesmo de dinheiro e tomar conhaques e fazer cara de santa e pimenta no eu dos outros é refresco. É um carreirão de jias que só vendo, com Roque Pedrosa na frente, que nem um comandante. Podia-se dar uma ordem unida nessas jias, mas só que Estêves Jaques faz muita confusão, falando mal dos amigos com a mulher e dizendo que ele sim é que é bom e sem defeito e contando tudo que os amigos contam à mulher e nisso fazendo cada pelossinal da pega, até que fica tudo num batebôca danado, fica tudo como um batuque, porque é cada talagada de cada boca de jia. Tudo sem dente, mas com um eco dentro. Também sofro recordação, como quando eu comi em São Cristóvão, na casa de um udenista que tem lá, muito rico, que porém é udenista e amigo do chefe, não sei como, e gosta de dar risada, como essa jia Natércio. Até parece, só que a jia não tem bigode, e aí não parece tanto assim. Primeiro: a mesa que nunca eu vi igual, de pau preto duro, talvez gonçalo alves, muito importante, numa varanda, meia varanda, um pedaço den¬tro de casa outro pedaço fora, uns pés de árvore, uma cajarana e um oiti e um abacateiro muito grande e mais outras para dentro do quintal, só vendo a fresca que batia, uma fresca mesmo, se pensava em dois ganchos de rede ali para dormir ou espichar, uma cidade quieta e a fresca fazendo barulho como chuva nas folhas das árvores e lá fora tinha sol, mas um sol que só escor¬regava ladeira abaixo sem ferir, tocando e rebatendo nas pedras lisas, dobrando na igreja e acabando embaixo, numa praça que tem em São Cristóvão que de lá se vê a igreja em cima e da igreja se vê ela, como que se tivesse o mar lá, por causo de tudo ser azul em riba da igreja e umas ruas velhas que desemboca, sabendo-se que é velhas por ser tortas e sem largura e as casas uma na cara da outra de janelão em janelão de não sei quantas partes de abrir, e o sol volta ladeira acima e fica nisso, e lá de dentro a gente pode sentar e esticar a mão para quebrar as ro-dinhas das trepadeiras de chuchu nos dedos, ou então alisar como se fosse para endireitar, parece umas molas e a gente vai pu¬xando, vai puxando, sem prestar muita atenção e esquece a vida, ou então se lembra de uma vida verdadeira, sentado, sentindo. Segundo: a comida. O homem disse: hoje estamos aqui reunidos para comer, graças a Deus, porisso vamos comer, graças a Deus, e se benzeu, parecia um crente; como os crentes tem parte com o cão, desconfiei, além disso era udenista; mas não era crente, porque não cantou, como os crentes que eu ajudava a jogar pe¬dra em Aracaju, com os cantos deles e escrito na parede do culto: se você vem em paz, pode entrar, mas respeite a religião dos outros, e a gente tacava a pedra do mesmo jeito, já se viu, por¬que crente não dança, não brinca, não mija e quando morre não apodrece, fica penando. No entretanto, não era crente. Bom, es¬tamos aqui para comer, graças a Deus, e vamos todo mundo comer, sem pressa. Quem tem o que fazer não faça aqui, por¬que, deu uma hora da tarde, a gente inicia a comer, depois desses vermutes, dessas cangibrinas, depois dessas catuabas, dessas jurubebas, desses alcatrãos, dessas meopatias, depois dessas mundurebas, e dê quantas horas dê a gente só paramos de comer •quando quiser, graças a Deus, e podemos comer até quando der, graças a Deus, para isso tem comida aí, não é? Tinha quatro empregadas, sendo que duas de chapéu na cabeça e avental branco e umas bandejas, que tinha de segurar de duas mãos,, chega estavam pejadas mesmo. Terceiro: a comida mesmo, que veio primeiramente umas curimãs de viveiro, gordas, com ba¬nhas. Veio dois tipos: umas curimãs assadas em folha, mas assadas com mais arte do que no mato, e bem espeladas. Essas, a gordura derreteu e soltou nas folhas, de formas que a folha já rebrilhava mesmo e é necessário emborcar as folhas em cima do prato, para não perder a gordura e o cheiro e a carne soltava das espinhas, hum; se emborcava no pirão branco e tinha ura molho dos cozidos dentro do óleo com pimentas inteiras, dos que engrossam e escurecem, que faz bolhas, no meio duns temperos verdes, era bom olhar o molho, mexendo devagar com a colher. A outra era de muqueca, com pirão amarelo e essa tinha postas dentro da terrina, umas partes das postas mais escuras do que as outras e umas mais macias e se podia pegar a parte do rabo e ir tirando a carne com cuidado, para só deixar a espinha e a parte do rabo e aquilo se catava com facilidade e se despejava mais caldo no pirão e cada pedaço vinha mais macio. Do lado: uns pitus, um de quarto, no meio da muqueca, um frito, saído do rio, na manteiga sem sal, mas com sal no pitu, na manteiga branca, com o cheiro que se cheirava. Melhor de todos, aqueles pituzinhos dos miúdos que não tinha nem casca direito e que a gente ia comendo um e já olhando outro, para escolher o que vinha seguinte. Antes, ostras de mergulho, como uns bolachãos,, essas possa ser cruas ou escaldadas, sendo de preferência as cruas, por se prestar a não ter de botar no prato como uma malassada, mas poder comer com barulho dentro da concha, e uns sururus de bolo na tigela, que se pode misturar com o molho e jogar na ostra e uns aratus fritos catados, e as ostras a gente despejando um tico de salgema, aquilo côr-de-gema de ôvo com dourado, e afogando no ardido, é bom que dá uma tesão muito boa. Comemos diversas, mas tinha mais, só que essas não co¬memos. Isso, eu comendo e olhando as outras coisas. O dono disse, depois todo mundo pode dormir na rede, se tiver rede que chegue. Quarto: um feijão com couve, que pusemos farinha e misturamos, misturamos e botemos em cima uma jabá frita e cortada miúda e juntemos umas mangas espadas e umas melencias. Tinha uma porca matada na hora, de molho pardo, uma porca sequinha e desengordurada e quase toda desossada, só fi¬cando osso onde era de conveniência ficar pelo gosto que dá, e essa porca também foi. E tinha uma manta de carne do sol, que foi comida por último, porque o homem disse: depois de carne do sol tudo fica sem graça, tem que deixar por derradeiro, e é verdade. Essa se pode comer até crua, como presunto. Mas não vinha crua, vinha assada. Uma manta de carne do sol, um lado gordura um lado maciça, que essa também foi, em riba de um pirão de leite, no ponto, sem encaroçar nem anguzar, hum. A manta era cortada na frente de todos que esperava espiando e não se negava nada, levantando com um garfão grande de dois dentes e tirando as lascas com a faca ligeirinho e derrubando por cima do pirão, com caldo. No meio, um aqui outro ali, uns pe¬dacinhos de cebola que quase não se conhecia, atorresmados e pretos, mas dando muita felicidade no caldo. O caldo era um caldo devagar, grosso, que escorre, escorre, hum. Aí todo mundo calado, comendo no calado e dando arrotos; quando tinha que dar, olhava para o lado e desapertava o cinto e se rescostava e de vez em quando tem umas paradas para suspirar, todo mundo desencilhado e ancho e olhando para cima sem ver nada e tiran¬do uma talisquinha de coisa do meio de dois dentes. No calado, hum. Quarto: uns cajus na calda, a calda que parecia um vinho com cajus dentro e os cajus que parecia umas massas feitas na¬quele jeito de propósito, e então parte-se o queijo de cabra que vem ardido e com um cheiro que ninguém se engana e por pri¬meiro se bota o queijo no prato e por cima disso os cajus, com bem calda. E come-se os cajus. Comemos os cajus e o dono ficou também chupando pitomba e cuspindo os caroços no quintal. Essa terra é tão boa, disse o homem, que esses caroços tudo nascem depois, fica cheio de pé de pitomba isso aqui. Eu fiquei agradando mais uns cajus. E eu tenho sangue bom, disse o dono, basta cuspir uns caroços ou jogar assim como marraio, que nasce logo, e nós demos para uma prosa mole enquanto moía o café e veio o café e fiquemos. O dono disse: graças a Deus, e aí nós dormimos nas redes e não teve sonhos.
Agora, esse padre, quando todo mundo acordou e eu estava na janela, olhando a rua pela venziana e fumando um cigarro e sentindo uma tonteira que eu sempre sinto quando fumo o pri¬meiro cigarro de manhã e ouvindo os ralos ralando milho de cuscus, esse padre chega e diz que a gente espere, porque a gente vai esperar o recado que ele mandou para umas certas pessoas, ou senão a gente vai em marcha para Ilha das Flores, ou qual¬quer coisa, aí o padre se aporrinha e dá uma porção de nomes e diz que ninguém vai sair dali nem nada até chegar as pessoas que vai dar uma decisão naquele caso. Porque esse caso já está com cheiro de podre, diz o padre, e eu nem sei se vosmecês das duas uma: ou dá um fim direto nesse cristão, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado, ou então solta ele, diz o padre, porque não sei mais se é possível levar ele para a capital, essa é que é a verdade. Inda mais, diz o padre, que temos aqui trocidades, dentes arrancados, violências, e os tempos estão mudando e vosmecê cortou a cabeça dum tenente e não sei como é que isso vai ser, inda se fosse um cabo, qualquer coisa assim, mas como é que se vai cortar a cabeça dum superior mesmo no aceso, acho que é maluquice. Que desse umas por¬radas, ainda vá, ou arrancasse um olho na disputa, uma coisa dessas, quase que sem querer, acontece. Agora, a cabeça não; a cabeça se vai lá, se olha o pescoço e se resolve cortar, é uma coisa quase parada, não pode ser. Mas nesse mesmo minuto se senta na marquesa e olha para o lado do coisa e fica olhando mais e mais e aí se acalma.
— É isso mesmo. Tem muitas cabeças nesse mundo de meu Deus.
— O tenente me chamou de corno, seu padre. E era ele ou eu.
— É isso mesmo — diz o padre. — Devia de ter cortado mesmo.
E se benzeu e disse que não precisava dizer aquilo. É que a situação mudou, diz o padre, não sei se vosmecê vai poder levar o homem para Aracaju, porque lá está uma novidade de gente e uma porção de jornais e dizem que quando vosmecê chegar vão lhe encher o couro e soltar o homem. Não acredito que An¬tunes possa lhe sustentar. Ah, isso não, se Antunes não me sus¬tenta, o que é que me sustenta? Não sei, disse o padre, e enfiou as duas mãos pelo meio da batina, com as pernas escarranchadas e ficou com a cabeça pendurada. Essa terra, diz ele depois de muito tempo, já foi uma boa terra, porque havia mais homens e quem era homem não tinha de que temer. Hoje essa terra não vale mais nada não vale quase mais nada, está uma frouxidão e um homem não sabe de quem depende e querem mudar tudo e nunca vai adiantar. Porque, se tiram os recursos do homem, o que é que deixam com o homem? Nada. Uma vida, possa ser, e isso não é vida de homem, é um enterro. Não sei, não sei, diz o padre, sacudindo a cabeça e fazendo um bico com a boca. Por que vosmecê não some? Eu sumir, eu sumir? Como que eu posso sumir, se primeiro eu sou eu e fico aí me vendo sempre, não posso sumir de mim e eu estando aí sempre estou, nunca que eu posso sumir. Quem some é os outros, a gente nunca. Bom, isso é, diz o padre. Sempre quem pode sumir é os outros, a gente nunca. An-bem, depois não sei quantos homens tem em Aracaju que possa me parar assim. Depois, o chefe me mandou buscar isso aí e eu fui, peguei, truxe, amansei, e vou levar porque, mesmo que o chefe agora não possa me sustentar, eu levei o homem e chego lá entrego. É preciso entregar o bicho. Entrego e digo: ordem cumprida. Depois, o resto se agüenta-se como fôr, mas a entrega já foi feita, não sou homem de parar no meio. Se fôr assim mesmo como se diz que é, espero as outras ordens, porque essa está dada e nem ele que viesse aqui e me pedisse para não levar eu não deixava de não levar, porque possa ser que ele es¬teja somente querendo me livrar de encrenca e eu não tenho medo de encrenca, eu levo esse lixo de qualquer jeito, chego lá e entrego. Nem que eu estupore. Quero ver esse bom em Ara¬caju que me diz que eu não posso, porque eu sou Getúlio Santos Bezerra e igual a mim ainda não nasceu. Eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu nome é um verso e meu avô era brabo e todo mundo na minha raça era brabo e minha mãe se chamava Justa e era braba e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu, todas as coisas eu sou melhor. Pode vim. Getúlio Santos Bezerra eu me chamo, e enquanto um carneiro qualquer um mata com uma mão de pilão na testa eu dou um murro na testa e mato esse carneiro ou outro que tenha e mato qualquer vivente e esses ferros que eu carrego eu manejo. Corro, berro, atiro melhor e sangro melhor e bebo melhor e luto melhor e brigo melhor e bato melhor e tenho quatorze balas no corpo e corto cabeça e mato qualquer coisa e ninguém me mata. E não tenho medo de alma, não tenho medo de papafigo, não tenho medo de lobisomem, não tenho medo de escuridão, não tenho medo de inferno, não tenho medo de zorra de peste nenhuma. E não escuto liberdade, não converso fiado, não falo de mulher, não devo favor e não gosto que ninguém me pegue. O senhor já ouviu falar de meu nome, Getúlio Santos Bezerra, sou eu mesmo e quando eu dou risada pode todo mundo tremer e quando eu franzo a testa pode todo mundo tremer e se eu bater o pé no chão pode todo mundo correr e se eu assoprar na cara de um pode se encomendar. Sou curado de cobra e passo fomer passo frio e passo qualquer coisa e não pio e se me cortarem eu não pio. Durmo no chão, durmo em cama de vara, durmo em ca¬ma de couro, ou então não durmo e quem primeiro aparecer pri¬meiro quem atira sou eu e quando atiro não atiro nas pernas, atiro na cara ou atiro nos peitos e os buracos que eu faço às vezes é um em cima do outro e tem uma coisa: em Sergipe todo não tem melhor do que eu e se eu lhe digo que não tem um melhor do que eu em Sergipe, não vejo esse bom, estou lhe dizendo que não tem melhor no mundo, porque essa é uma terra macha e eu sou o macho dessa terra. Se fôr para esperar, espero, mas esperar não é ficar. E eu vou levar esse traste arras¬tado ou espetado, naquela hudso até Aracaju, e chegando lá apresento ele: veio de Paulo Afonso até aqui e está com essa boca em petição porque deu cupim no caminho e comeu dos dentes da frente. E se cortei a cabeça do tenente, foi bem cortada. Mas não vou dizer a todo mundo que eu cortei a cabeça do tenente. Só digo ao chefe e calo a boca e cruzo os braços e boto o olho no vento. E quem quiser que bote o olho no meu. E pronto. E se ninguém quiser ir comigo, eu vou só, aviu Amaro? É, disse o padre, eu não sou esses machos todo.
V AO POSSO DIZER que eu gosto de estar aqui no sobrado do padre, sem fazer nada e todo dia ouvindo os dobres desde cedo e sem vontade nem de raspar a barba. O padre vem aqui e conta umas histórias. Também trouxe um jogo de dominó que eu fico jogando com Amaro até fartar, depois jogamos damas e fartamos também e paramos de novo. Chamei o padre e disse a ele: espero até amanhã. Não chegando ninguém até amanhã vou pisar na poeira, não tem quem me segure. Amaro diz que, repe¬tindo ele todas as mexidas que eu der nas minhas pedras de dama, eu tomo um porco completo, fico todo entalado. Vemos isso, começando pelos cantos, que é a melhor forma. De fato, não comendo nenhuma, entala. Nunca que eu vou acertar a fazer isso. Não tenho paciência para ficar estudando essas pedras nesse tabuleiro, esquenta a cabeça, não tem propósito. Amaro não, fica falando nas damas como se fosse coisa. Também não jogo sem assoprar e Amaro joga sem assoprar. Não entendo isso. Melhor é assoprando, porque dá mais graça. Filho da mãe, joga dama como galo de briga de corrida. Vai deixando, vai deixando e lepe! — à traição. Dá porco e diz que vale 25 pontos cada porco de uma, 30 pontos cada porco de três, nunca vi essas regras. Dominó mesma coisa, uma porção de idéias com as bom¬bas, cada qual valendo isso ou aquilo. Assim não pode, não acredito nesses jogos. Podia experimentar voltar na fazenda de Nestor, mas possa ser que vá e arraste a mala, aquilo está uma guerra, com toda certeza. Lá era melhor, pelo menos tinha os bois e as jias para a gente ficar falando mal e Amaro ficava cor¬tando as tiriricas dele, sem apoquentar. Aqui me procura, precisa companhia, uma peste. Vez em quando, espio pelas venezianas e tem uns meninos empinando arraia, que é setembro e tempo de arraia mais ou menos, como tem um tempo de pinhão e um tempo de ferrinho e um tempo de marraio, não sei como é que esses tempos aparece, mas tem tempo de tudo. Umas arraias bestas, sem nada, também nesta cidade não deve ter nem cordão. Eu mesmo nunca empinei arraia, não acertava, mas gostava de quebrar pinhão dos outros e não gostava que quebrasse os meus. Uns meninos magros, que nunca viram outro lugar e depois vão embora e some tudo e fica só as moças vitalinas, sem homem. O sujeito aí vai morar em Aracaju e diz: eu nasci em Japoatão. Homem creia. E vai nascendo mesmo, cada dia nasce mais gente. Tem gente que nasce até em Muribeca, hem Amaro? An-bem. Esse padre é muito nervoso, precisava era de umas freiras aqui para ferrar. Tu acha que freira o padre ferra, Amaro? Possa ser que nem tenha nada, tem quem diga. Fica cantando.