Capitão Moreira César Dezoito guerras venceu A terceira não interou No Belo Monte morreu.
Uma voz grossa, e bate palmas quando canta.
O alfere Vanderlei É bicho de opinião Quando foi para Canudo Foi em frente ao batalhão.
Os urubus de Canudo Escreveu ao Presidente Que já tão de bico fino De comer carne de gente.
Os urubus de Canudo Escreveu pra Capital Que já tão de bico fino De comer oficial.
Alfere Joaquim Teles Por ser bicho de arrelia Quando foi para Canudo Baixou logo à enfermaria.
A fraqueza do Governo Passou por Cocorobó Depois que passou por lá O Governo ficou só.
Alfere Luiz Peçanha Era cabra bem valente Quando chegou em Canudo Lhe atacou dor de dente.
Alfere Martim Francisco Queria vencer a guerra Quando chegou em Canudo Findou em baixo da terra.
Alfere Manuel da Costa Era muito valentão Quando chegou em Canudo Fugiu pra Japoatão.
Isso ele canta sem mudar a voz e quebra a música com umas risadas, como quando subiu aqui outra vez e explicou quantas pessoas tinham morrido em Canudo e como socavam pregos nas espingardas para fazer de bala. Pegava-se o prego, disse o padre, um prego enferrujado e se pegava esse prego depois de socar bem polvra e embuchava na espingarda e um prego desses, todo frouxo no cano, fazia um estrago desgraçado no recebente e quando não morria da pregada morria da doença que dava a ferruge do prego. Quer dizer que morreu muito macho de prego ali.
— A mortandade foi tão grande — disse o padre — que os urubus só comia altas patentes.
E deu uma risada e foi descendo. E então eu fico aqui como uma vaca, fico eu como não sei quê, esperando que venha esse povo trazer uma decisão para eu me mexer, que já não agüento mesmo. Bom, amanhã me solto no mundo, não fico aqui de jeito nenhum. De onde vem esses homens, em que guritas vem amuntados, que melindrismo vão amostrar? Não entendo direito. O padre também vem ensinar umas rezas e eu e Amaro ficamos aprendendo as rezas e o vivente quer se meter por vezes. Na primeira vez, tencionei amarrar a mordaça nele novamente, por¬que receei que começasse a gritar por adjutório, mas o padre disse que podia gritar à vontade, que dali ninguém tinha con¬dição de escutar. Mas de qualquer forma eu disse a ele, bem explicado, eu disse: olhe, peste, se gritar, eu mando tocar o sino para não se ouvir o barulho, mando tocar um toque de festa e na mesma batida do toque acabo de lhe arrancar o resto dos dentes, que é para deixar de ser besta. E não adianta olhar para o padre, eu já estou aqui é retado mesmo, socado nesse buraco e se vosmecê pensa que está safo por causa dessa conversa toda que vosmecê anda ouvindo que vão lhe soltar, fique sabendo que o seu destino está escrito e vosmecê vai comigo para Ara¬caju para eu lhe entregar e lhe fechar no depósito e lá vosmecê vai sofrer umas duas dúzias de enrabaçãos, que os presos de lá só vive tudo seco, está entendendo, e vosmecê já viu que eu torei a cabeça do tenente e não estou olhando para torar a cabeça de quem mais aparecer, com divisa ou sem divisa, inclusive a sua eu pelo menos arranjava o que fazer, porque aparava aqui, aparava ali e fazia uma bolinha e ia jogar pirulêtas com Amaro, ou então dava para esses meninos fazer uma linha lá em baixo. O padre diz que é isso, sargento, estamos destemperados, e eu digo é isso mesmo, padre, é isso mesmo e esse troço já está me dando uma ingrizilha que eu não agüento, nunca tive tanta per¬turbação, não gosto dele. É como que me dá uma vontade de chorar, mas é de pena de mim. Fico assuntando umas coisas para fazer nele: botar um mamãe-evém-aí na boca dele, com cadeado, abrir, jogar uma brasa e fechar e olhar fumegar. Vou lhe dizer, uma pessoa pode ficar maluco, numa missão que não ata nem desata, e esses misteriosismos todos, não pode isso, não pode aquilo, por que não pode? Por que não pode, por que não pode? Tudo não pode, tem sempre algum para informar que não pode. Pois pode. O que é que eu não posso, lhe pergunto isso, ora bosta. Mas de vez em quando o padre me dá um esbregue, cada esbregue grosso que eu tenho de calar o bico, porque o padre também carrega aquela perigosa de dois canos para lá e para cá e tem cara de quem sabe apontar a bichinha e mais tem cara de que se apontar atira mesmo e eu não quero matar um padre, dá atraso. Mas é porque, nessas horas que não tem nada para fazer, nessas horas vem uma vontade de arreliar o alguém e quanto mais ele não faz nada, mais dá vontade de arreliar e puxar e dar porrada, é isso mesmo. Agora, o padre vem e ensina as rezas e faz pelossinais e se ajoelha, de maneiras que nós tam¬bém se ajoelhamos e rezamos e o coisa é quem mais reza e durante o tempo todo que estamos rezando me dá vontade de arreliar ele, me dá sua mão aí para eu assoar o meu nariz que não estou com~vontade de sujar a minha, mas não digo nada e ficamos ali olhando para cima e puxando umas rezas. Também o coisa é o mais necessitado de rezas, porque não deve andar sastifeito da vida, do jeito que vai, porque não vai bem, está mais magro e amofinado e não quer mais fazer a barba. A gengiva sarou bem e principiou a murchar, outro dia levantei os beiços e olhei. Não ficou bem sem os dentes, a boca parece uma flor para dentro. Está uma boca de fiofó perfeita e quando fala sai, sai assobiada. Fica interessante. Também não tem tomado banho, deve estar cheio de lêndias na barba e fede bastante. Bom, cada qual vive como quer.
De qualquer forma, repito para o padre, de qualquer forma eu não fico mais aqui e digo isso também a Amaro, que disse que com o hudso escondido sem poder esquentar não garante e que não sabe se a gasolina das latas de trás está secando e que naquela terra não tem onde comprar nem cem réis de gasolina e que uma porção de choramingação, Amaro sempre foi disso. Não interessa, se aquela estrovenga quebrar, a gente largamos ela no meio da rodagem e vamos andando mesmo, possa ser até melhor. Porque carro não tem sapato, para a gente colar o cal¬canhar na frente e o seguidor pensar que a gente está indo para o lado contrário que está indo mesmo, não é isso? Todos casos, vamos mesmo, não acredito que ninguém esteja atrás da gente, mesmo porque não acredito que Nestor vá contar quem cortou a cabeça do tenente, nem acredito que tenha ninguém vivo por lá. Sei lá, não sei de nada, mas aqui não fico mais e amanhã cedo eu vou, antes do sol levantar. Mas o padre vem e me diz que ama¬nhã não pode ser, porque recebeu recado que os homens chegam amanhã mesmo para conversar, de forma que convém ficar. Anbem, fico, mas só até amanhã, depois eu vou, não sei conversar direito mesmo e só devo sastifação a uma pessoa, graças a Deus, e dessa pessoa nada ouvi até agora, a não ser o que ficam me dizendo, só que eu não emprenho pelos ouvidos. Tenho que ver, ali, pronto. Padre, quês homens são esses? Não sei, disse o padre, são graúdos, eu acho. São graúdos. Bem, primeiro é Deus nas alturas. Segundo, não sei bem. Quando eu era rapazi¬nho, era o dono de um vapor de algodão que tinha. Quando eu era bem menino, era um moendeiro que tinha. Não sei direito, essas coisas dão uma confusão. O padre disse você não tinha nada de cortar a cabeça do tenente, agora você é desertor e não tem muito jeito para você. Ora, estou estranhando isso, nunca vi tanta besteira por causa de uma merda duma cabeça de tenente cortada. Nem que fosse patente mesmo, que ninguém anda res¬peitando galão mais. Foi, foi, pronto. O negócio é ser homem, foi, pronto. O tenente está no céu, seu padre, pronto, deve estar com umas asas e tocando viola e melhor do que o resto daqui de baixo. Talvez seja o padre, parece de ser um padre impor¬tante. Talvez seja todos os padres, depois de Deus. Sei não. Tem Cristiano Machado e o Brigadeiro e Getúlio Vargas. O Gover¬nador. Não, tem as amizades. Não sei como é que isso está disposto. Tinha vontade de saber um pouco, possa ser que Amaro sabe, mas não vou perguntar a ele, porque não quero dar parte de ignorante. Campe-se, se eu fôr pensar, não vou entender mesmo, de maneiras que o mundo é assim: é o chefe e sou eu. Quer dizer, existe outras pessoas, mas não são pessoas para mim, porque estão fora. Não sei. Hum. Quer dizer, eu estou aqui. Sou eu. Para eu ser eu direito, tem que ser com o chefe, porque senão eu era outra coisa, mas eu sou eu e não posso ser outra coisa. Estou ficando velho, devo ter mais de trinta. Devo ter mais de quarenta, possa ser, e reparei uns cabelos brancos na barba já tem muito tempo. Não posso ser outra coisa, quer dizer que eu tenho de fazer as coisas que eu faço direito, porque senão como é que vai ser? O que é que eu vou ser? Não gosto dessa conversa desses homens vir aqui conversar. Se o chefe vem, bom. Se não vem, não sei. Eu sou sargento da Polícia Militar do Estado de Sergipe. Não sou nada, eu sou é Getúlio. Bem que eu queria ver o chefe agora, porque sozinho me canso, tenho que pensar, não entendo as coisas direito. Sou sargento da Polícia Militar do Estado de Sergipe. O que é isso? Fico espiando aqui essa dobra de caqui da gola da farda me espetando o queixo. Eu não sou é nada. Gosto de comer, dormir e fazer as coisas.
O que eu não entendo eu não gosto, me canso. Chegasse lá, sentava, historiava e esperava a decisão. Era muito melhor. Assim como está, não sei. Não gosto que o mundo mude, me dá uma agonia, fico sem saber o que fazer. É porisso que eu só posso ter de levar esse traste para Aracaju e entregar. Tem que ser. Depois resolvo as outras coisas e tal. Não sei se esse povo é da Bota Amarela, se querem me acertar, me dar um chá da meia noite aí, se são de confiança. Essa Bota Amarela faz os serviços ligeiro. O homem está na porta, com seu pijama e seu sossego, sentado numa cadeira de vime, chega o pistoleiro: boa-noite, desculpe o incômodo, que horas são? E aí, por baixo do subaco mesmo, por dentro do paletó, olhando para o outro lado, mete duas no homem e vai embora no mesmo pé. Não gosto deles, recebem dinheiro para fazer isso, não acho direito. Todos casos, quando os homens chegar, não conheço ninguém e seguro a mão debaixo da mesa, com um negócio apontado por baixo mesmo para a queixada de um. Se embarcar, não embarco só, e não tenho vontade de embarcar agora. Preciso avisar a Amaro. Pode ser uma fuzilaria. Quer ver que o padre me empresta aquela de dois.
Esse grande careca, esse eu já vi, uma vez quando mataram Arnaldo na feirinha de Natal e tivemos um grande movimento e ele estava no meio do bolo da Chefatura, dizendo: ele foi levan¬tar o copo de cerveja e quando levantou o copo de cerveja, foi só dois tiros, um em cima do outro. Vão dizer que é Mário Barreto, vão dizer que é Mário Barreto. Eu que estou sabendo que não foi Mário Barreto, que estou sabendo quem foi mesmo mas não estou com vontade de dizer porque não é para dizer, fico calado, olhando ele. Gosta de ficar esfregando as mãos e tem um dente de ouro, quer dizer, meio dente de ouro, que brilha. Os outros dois eu não conheço, nunca vi: um que fala embolado e usa alpercata e tem um bigode. Esse um eu não gosto da cara, visto que não pára as vistas. Esse outro, que eu vou apontar o ferro para ele, não fala nada e está com as costelas grossas, deve ter artilharia aí. Possa ser que possa ser para mim esse armamento, possa ser que não possa, ele que não se coce, é melhor, porque se cocar daqui mesmo dessa mesa que eu estou — e eu estou nessa mesa muito bem, com as pernas esticadas e os pés numa cadeira e estou como quem não quer nada, até pensando na vida, estou assim esfregando a barriga com uma mão e com a outra segurando o velho de guerra debaixo da túnica, olhando para o outro lado e estou muito como que desprecatado para quem me olha assim e nem ponho as vistas no calado, que é ele que eu atiro por primeiro tendo necessidade, e nem vou dando nas parenças e até dá uma vontade de tomar umas coisas, dar umas risadas, está um dia fresco e bom e nem parece que existe alguma coisa, mas pois daqui mesmo onde eu estou só mexendo o fura-bôlo com essa cara de tacho, eu abro um rombo nessa mesa direto no quengo desse. Parece até que eu estou preferindo pensar em acertar ele do que ouvir a conversa. É isso mesmo, meu sangue não foi com o sangue dele. Me abria-me a túnica, mas isso é o de menos, remenda-se. Bom, esse careca é o que fala, mas o de bigode também quer falar e não pode muito, porque se engasga na fala, como é que um bicho desses arranja um anel de doutor. Essas alturas, eu digo, essas alturas Sergipe inteiro já sabe que vosmecês estão aqui e que eu estou aqui. E já estou adivinhando o que o careca vai responder. Me dá uma agonia ver o de bigode se remexendo na cadeira. Fico com von¬tade de mandar ele parar quieto, mas não posso, tenho que me reconhecer. O senhor, sargento, matou o tenente e estrompou o destacamento. Ah-hum, ah-hum. Cortou a cabeça do tenente e sacudiu na ponta da corda. Pereré-pereré. Isso não é a lei da selva. Bonito. O senhor, sargento, fez uma porção de coisas. Pereré-pereré. Estou escutando, parece minha mãe falando, quan¬do ela falava. Fiz a minha obrigação, não é por ser tenente que me chama de corno, demais era ele ou eu. Demais, não foi eu que cortou a cabeça, foi um cabra. Que cabra? Ah, esse eu não me lembro, tinha bastante poeira, estava uma dificuldade para enxergar até os pés da gente mesmo. Eu nunca andei matando ninguém assim, foi um cabra safado, onde já se viu cortar a cabeça dum tenente numa sexta-feira, não fica bem. Hum. Tenho que passar os olhos no calado, que pode estar se mexendo, mas traz as duas mãos em cima da mesa e é melhor. O doido se levantou: sargento, olhe sargento, o poblema é que foi um en¬gano, sargento, um engano que foi mandar o senhor buscar o homem em Paulo Afonso, agora temos complicação. Quem disse isso, foi o chefe? Foi o chefe que disse, não tem mais condição de cobertura, a coisa mudou. Foi o chefe que mandou o recado? Foi, foi. E por que não veio ele? Ah, responda essa. Não veio porque não quer deixar ninguém saber que foi mandado dele. Vem força federal, vem tudo. Então o senhor solta o homem e some e pronto. E o resto se ajeita em Aracaju.
— Não posso sumir. Quem pode sumir é os outros, como é que eu posso sumir, se eu sou eu? Do mais, se vosmecês estão querendo que eu solte o homem e suma, é porque depois ele e vosmecês vão atrás de mim, me arrancar nos infernos para me botar a culpa do negócio.
— O senhor tem a minha palavra de honra.
Pode ficar com sua palavra, eu só tenho o que é meu, e é pouco. Faço o seguinte: o seguinte é o seguinte: eu resolvo isso hoje. Vosmecês vão, eu fico e converso com o padre e depois solto o homem. Mas aqui, com vosmecês aqui, não solto, preciso de garantia. O calado se mexeu e eu disse: meu santo, eu já vi que vosmecê traz aí em baixo um armamento, mas me faça o favor de me permitir que eu lhe diga uma coisinha, uma coisinhazinha: em primeiro lugar, nunca senti medo de macho ne¬nhum e maior do que vosmecê já vi diversos, mas todos uma balinha do mesmo tamanho dá conta, basta ser bem encaixada; em segundo lugar, me faça o favor de reparar que esta minha mão que está aqui em baixo não está cocando as minhas partes, mas está em cima de um chimite, pode crer, um chimite bom que faz gosto e que se vosmecê faz questão eu mostro a vosmecê; em terço lugar, Amaro está ali com uma coisa atrás, bem por riba do balaústre da igreja, não está Amaro, hem Amaro? Nem precisa olhar para trás, é uma beleza aquilo, foi um amigo meu que emprestou a ele, ele gosta muito, não gosta, Amaro? Pode crer que gosta e vosmecê já viu um gatilho daquilo como é manso de puxar, por causo que tem uma mola, a cuja mola basta a gente roçar o dedo que ela solta e soltando bate os caos na espoleta e batendo na espoleta dá uns papocos e dando uns papocos espalha um chuvisquinho quente danado, é só vosmecê pedir. Sargento, vamos ter calma, pereré-pereré. Mas eu estou calmo. Vosmecês me contaram que o chefe não quer mais saber disso, creio, creio. Assim sendo, eu posso soltar o homem, mas com vosmecês aqui não solto, de formas que espero vosmecês ir saindo, na mesma paz que entraram e depois que vosmecês sair eu solto o homem e vou embora.
Não sei direito como é que eu falei assim, mas de repente eu estava me sentindo muito bom e o que é mais que pode me acontecer. O que pode me acontecer é eu morrer, daí para baixo não pode mais nada, e se eu morrer vou com diversos, vai ser uma caravana, e quando os homens desistiram de mais conversar e quando eu me lembrei do recado de Elevaldo e quando eu vi que eles foram e eu tinha de dar uma decisão, aí não sei. Não gosto dessa folia de recado, não é meu jeito. Mas possa ser que é verdade tudo, e então eu estou só no mundo, eu mais Amaro.
Agora veja, por Amaro eu respondo não, respondo por mim. Que foi que ele me disse? Me disse, me traga esse homem aqui, pelo menos meio inteiro. Vai somente com quatro dentes fal¬tando, isso ele bota depois uns pustícios, e menos um pouco de banha, que até nem é bom por causo do calor. Agora, se eu tomo o recado e não levo o homem, fico sem graça e possa ser que nem seja verdade. Se eu levo, pelo menos vejo com meus olhos, e morrer assim ou assado é a mesma coisa. Mas o chefe pode não gostar. Não sei. Não gosto.
Levo ou não levo, é isso. Talvez seja melhor sofrer a sorte da gente de qualquer jeito, porque deve estar escrito. Ou é melhor brigar com tudo e acabar com tudo. Morrer é como que dormir e dormindo é quando a gente termina as consumições, porisso é que a gente sempre quer dormir. Só que dormir pode dar sonhos e aí fica tudo no mesmo. Porisso é que é melhor morrer, porque não tem sonhos, quando a gente solta a alma e tudo finda. Porque a vida é comprida demais e tem desastres. Quem agüenta a velhice que vai chegando, os espotismos e as ordens falsas, a dor de corno, as demoras em tudo, as coisas que não se entende e a ingratidão, quando a gente não merece, se a gente mesmo pode se despachar, até com uma faca? Quem é que agüenta esse peso, nessa vida que só dá suor e briga? Quem agüenta é quem tem medo da morte, porque de lá nenhum viajante voltou e isso é que enfraquece a vontade de morrer. E aí a gente vai suportando as coisas ruins, só para não experimen¬tar outras, que a gente não conhece ainda. E é pensando que a gente fica frouxo e a vontade de brigar se amarela quando se assunta nisso, e o que a gente resolveu fazer, quando a gente se lembra disso se desvia e acaba não se fazendo nada. Padre, ô reverêndio, em suas rezas, lembre dos meus pecados.
Faço o seguinte, eu levo, sim. Nunca fui homem de falhar no meio, eu levo, sim. Eu sei que o senhor seu padre dá prefe¬rência que eu largue esse troço aí, mas não largo e pode dizer que foi eu que disse e pode dizer que foi até na violência que eu desobedeci essas ordens, mas eu levo o homem, nem que me deixe os pedaços pelai, qualquer coisa. Ultimo caso, me arru¬mo por qualquer caminho, vou e volto, faço um camin-sem-fim, saio daqui, arrodeio por Muribeca, subo para Malhada dos Bois, me bato até Gararu, volto para Amparo de São Francisco, me enfio por Aquidabã e Cumbe, me lasco para Feira Nova e Divina Pastôra e Santa Rosa de Lima e Malhador e Rosário do Catete e Maruim e entro em Santo Amaro das Brotas e me despenco pelo rio abaixo e quero ver ninguém me pegar, até que ninguém nunca viu sargento de canoa ou qualquer coisa e me paro na Barra dos Coqueiros e quero ver ninguém me segurar, chego lá e me ajeito e dou um fim nessa situação e nesses lugares todos não tem prefeito nem delegado nem pretor que bote a mão em mim, muitos deles não tem delegado nem prefeito, que não é nem cidades, de formas que eu vou. Olhe, se um santo me dissesse quer morrer velho e frouxo ou quer morrer assim e macho, eu posso lhe garantir que dizia que queria morrer macho, não vejo graça no outro jeito. E de mais que já estou azuretado •com isso e quero parar. E demais que não quero viver me escon¬dendo pelai ou ir ser chofer em São Paulo, nem sei aonde é isso, de maneiras que se eu puder meter a mão naquela água benta e fazer pelossinal e empacotar meus trens, acho que tenho uma febre quarta de aporrinhação, de vez em quando me dá e eu não agüento, pronto. Deus me livre que eu não leve o coisa comigo e não entregue, o que é que eu vou ficar pensando depois, se já tenho pouco para pensar e o pouco que eu tenho vai inchando na minha cabeça e vai tomando conta do ôco que tem lá dentro? Eu lhe agradeço a comida e a pousada e as cantigas e as prosas e o trabalho. E lhe agradeço se puder emprestar, que talvez nunca nem volte, essa bichinha a Amaro, que ele gostou e se dá bem com ela e faz pena ele deixar, eu sei que o senhor de onde tirou essa tira outras, um padre como o senhor. Pela mesma porta que eu entrei, pela mesma porta eu saio, esteja o senhor bem.
VI TÔDAS CASAS parece um prato de comida, nem que seja papa de farinha. Esse hudso, quando encrencou por não ter gaso¬lina, eu olhei bem ele e pensei que isso era um monarquismo de bicho, porque necessitava que a gente botasse gasolina e as latas acabou e nem bem sei aonde nesse mundo direito estamos. Dizer a verdade, sei, mas vejo que andar é o que se pode fazer e o traste abre a boca e diz que não pode andar. E eu digo, olhe que vosmecê anda. Senão lhe faço-lhe as piores coisas, não se descompreenda. Nem fazia nem nada, com essa canseira e a túnica eu fui largando, que me pesava, mal carrego a arma e Amaro a dele, de fato gostou muito, só falta cheirar ela, aliás acho que cheira, assim de noite, quando ninguém está espiando, dá uns cheiros nela. Que lustra eu sei, com a flanela que tirou do carro. Eu fiquei olhando esse carro, que é novo mas já ficou velho faz muito tempo, eu fiquei olhando ele assim, todo frio. Ficou lá morto. Amaro ainda levantou a tampa e espiou para dentro, uma ruma de partes que tinha dentro, tudo parado, até os hudsos morre. Então o que fica para Amaro é a bichinha de dois canos, que ele alisa e lustra e cheira e quando encosta desafasta, põe em pé com a coronha no chão, pega a espiar como quem espia uma filha. Esse Amaro é meu irmão, porque só tem ele no mundo, essas alturas, posso crer, só tem ele no mundo que escuta o que eu estou dizendo, possa ser que só tem ele no mundo que não acha que eu estou bobo da idéia, até mesmo que eu estou um pouco abestalhado da idéia mesmo, com essas léguas todas que eu tenho comigo, inda mais com o peste de arreio, só posso chamar isso de arreio, quase que só vive dependurado em mim e fica se arrastando, é mesmo uma fraqueza por demasiado, só dá para política de prosa. Então eu digo: lhe faço as piores coisas, aviu? Nem responde, esse acha que eu estou avariado também, deixe achar. Pois então: lhe pen¬duro de cabeça para baixo num pé de pau e enfio sua cabeça numa barrica cheia de areia fina como aquela do Morro de Areia de Aracaju, uma areia bem fininha, que nem dá para segurar direito com as mãos e lhe deixo lá, tomando fôlego de areia. Vai espirando, espirando e vai enchendo os bofes de areia e dói que nem lhe digo, hum. Nem acredita mais, eu acho. Ou en¬tão acredita, mas nem está aí nem vai chegando mais, talvez nem se lembre mais do nome dele. Ninguém se lembra mais do nome dele, ninguém se lembra mais nem do nome da gente, quer dizer eu me lembro do meu nome e me lembro do nome de Amaro e se quisesse me lembrava do nome do peste, mas não quero e esqueci. E pronto. Então fiquemos nisso e de vez em quando ele empaca como uma mula e a gente tem que esporar ele, para ele ir. Oras eu esporo, oras Amaro espora, mas eu prefiro esporar eu mesmo, porque Amaro não espora bem. Espora mal: quando encarca a espora nos quartos do traste, faz uma careta e agüenta a mão um pouco. Falta umas coisas em Amaro, não sei o que é, bom assim alguém acerta ele, sempre eu disse. Bom, eu toma a espora na minha mão e mostro a Amaro — é assim, ôi, humf — mas não tem jeito, que quando ele pega é a mesma frouxidão e uma caretinha, desfranzindo as vistas. Tem que se esporar esse preso, senão ele não anda, é justo, já se viu querer atrasar os outros assim, mas vejo que um dia desses, da forma que ele vai, nem vai ligar mais para a espora, a bunda já deve estar um calo, sem dúvidas, mas eu ainda amolo essa espora bem espo-radinha, quero ver ele não andar, pelo menos até a gente se deparar com um lugar para arriar os costados um pouco e de¬mandar viagem novamente. Estou sabendo que andam atrás da gente, dá para sentir uns fedores olhando assim para trás, mas não quero combate, porque o cão pode atentar e aí não vou poder chegar em Aracaju com o peste e isso eu chego, em Ara¬caju eu encosto com ele, nem que seja, nem que seja, nem sei, mas encosto. Esse coitado desse hudso velho metralhado, com uma porta quase que se pode dizer soldada de metralhadora, já viu foi coisas. Parece uns arrebites, esses buracos, parece uns cravos de panela. Viu foi coisa. An-bem, ali fica com a tampa levantada, como um burro morto e depois de muito tempo alguém acha ele, com uns maribondos fazendo casa pelas partes dele e as caças passando por debaixo. Fica uma estauta. Deixa lá. Bem tu anda, peste, que eu lhe esporio e assim andemos e de noite Amaro conta histórias de trancoso, depois que a gente amarremos o bicho bem amarrado e demos água a ele e ficamos lá e Amaro diz: foi um dia uma vaca vitória, deu um peido se acabou-se a história e a gente damos muitas risadas e como não temos mais o que dizer, só ficamos repetindo foi um dia uma vaca vitória deu um peido se acabou-se a história, mesmo porque Amaro se esquece do começo ou do fim das histórias, às vezes esquece do meio, às vezes esquece do fim, às vezes esquece do começo e diz assim: essa eu começo pelo meio, essa eu começo pelo fim, conforme. Tem umas que só se lembra uns pedaços ali outros pedaços lá. Nos princípios não dá vontade nem de contar nem de ouvir, mas depois não tem diferença, contanto que tenha uma história, que depois a gente vai botando o meio ou depois o fim, ou «ntão não bota nada e fica lá. Amaro se lembra de uma história de uma velha que comeu um macaquinho e o macaquinho depois de dois dias ela botou vivo, vivo, no pinico. Como é, Amaro, ah-hum. Como é as histórias do macaco? Então se deu-se que a velha comeu o macaco, mas o macaco saiu inteiro, quer dizer, ela botou inteiro, e como foi que esse macaco saiu inteiro? Bom, isso a história não diz, é porque é um bicho muito safado, comeu assim sem uma nem duas, ele sai inteiro. Apois: saiu inteiro e cantou: eu vi eu vi o cuzinho da velha, é preto e branco e amarelo. Como é, Amaro, cante aí. Eu vi, eu vi, e eu sorrio muito, sorrio que me engasgo, às vezes sorrio mais do que eu pensava que tinha condição de sorrir, fico só pensando no diacho da velha com dor de barriga, e que eu é esse que é preto e branco e amarelo? Como é, Amaro, quem ensinou essa cantiga ao macaco, e a gente cantamos o tempo todo, quando a gente não temos mesmo o que fazer e damos muitas risadas e depois paramos e voltamos de novo, até que paramos de dar risada e aí só fica umas espremidazinhas: ai, ai. Ui, ui. An. Como é, Amaro, e ele bate palma, e tome-lhe can¬tiga. Já se viu isso, um macaco saindo ali desse eu dessa velha, veja. Homem creia. Mecreia. É preto e branco e amarelo, coitada da velha, deve ser isso mesmo. É negócio comer macaco, desta. Hem, Amaro, agora mesmo a gente podia estar em Tacaratu, na festa de Nossa Senhora da Saúde, já pensou como a gente estava lá agora? Hem? Nem fale, boa festa. Tem uns bons pernambu¬canos, hem Amaro, pelo menos não é gente frouxa por lá, tem homens, como nas Alagoas. No Piauí, no Ceará, nas Alagoas, canta Amaro, no Piauí, no Ceará, nas Alagoas, o macaco voa, o macaco voa. Gostei disso: no Piauí, no Ceará, nas Alagoas, o macaco voa, o macaco voa, gostei dessa, que macaco retado. Como é esse macaco que voa, Amaro. Bem, tem umas asas, umas asas de macaco mesmo, umas asas de carne, como morcego, aquelas asonas de macaco, só vendo. Deixe de lorota, tu anda contando potoca, nunca ninguém me disse que macaco avoa, macaco não é avião. É no Piauí, disse Amaro, no Ceará e nas Alagoas. Bom, só se é lá, porque nunca se disse que um macaco sergipano avoa, esses tenho certeza. É no Piauí, mestre, diz Amaro. Pronto, lá possa ser. Até que se um macaco desses de aviação passasse aqui batendo asa, até que a gente podia matar um bicho desses, para ver se tinha o que comer. Cada casa parece um prato de comida, mas o melhor é ir desafastando das casas que não se sabe de quem é, porque pode dar complicação, o melhor é não trastejar na vigilância, arreceio tudo numa hora dessas. Por isso que um macaco desses piauizeiros dando uma avoadazinha pelaqui não era ruim. Se tivesse um cachorro tam¬bém, porque nesse mato tem caças e nesses morros tem preás, mas quem pega? Inclusivo, melhor era uma baleadeira para caçar aqui do que essas armas, porque uma desgraça duma fogopagou que se dê um tiro com esse armamento, uma fogopagou nem fica nada dela, porque isso tudo é arma de matar boi. Esse teiú que nós caçamos, caçamos sem querer, porque Amaro viu a toca e se aprestou. Paciência assim nunca vi, é que nem um perdigueiro e ficou lá deitado, até que o teiú se mexeu e ele quis pegar, mas o bicho entrou de novo, mas Amaro se afincou outra vez perto da toca, com meu chimite de cão puxado, espe¬rando. Que paciência, não sei se é ruindade ou santidade. Até que eu ajudei e fui cavando um pouco de facão e alacei a toca, essas alturas o bicho não sei nem aonde é que estava, mas depois que eu saí Amaro ficou na beira muito calado, ficou horas, e eu sei é que terminou agarrando o bicho e nós comemos. Vou tirar esse couro desse teiú para dar a uma mulher, disse Amaro, mulher gosta muito de couro de teiú. Eu mesmo nunca vi mulher nenhuma dizer que gosta de couro de teiú, esse Amaro sabe de coisa. Bom, deixa tirar. A carne parece de galinha, só que mais desfiapada e todo ele parece um calangro grande e não tem muito gosto de nada, assado assim na brasa e sem sal, com tanto sal que tinha lá com o padre para os batizados, esqueci de pedir um cadinho para trazer, quem é burro pede a Deus que mate e o diabo que carregue, é isso mesmo. Teiú sem sal. Melhor do que nada e até o trempe comeu uns pedaços, pensei que ia fazer chique, fez nada, comeu tudo direitinho e mais lhe desse.
Amaro, tu é um caçador de teiú retado. Nunca cacei não, disse Amaro, mas eu estava com um buraco na barriga, isso era o que eu estava. Um gosto de pustema, lá isso tem esse teiú, mas bem que o tempero da comida é a fome, e até parece que esse peste está indo a locé às vezes, veja como muda, anda até sem esporar. Mas isso de passar fome nos matos, isso nessas brenhas não é boa coisa. Vez em vez, pego o animal e espio nas gengivas. Espio para ver como está a situação, belisco os beiços e espio de perto, muito bem, sim senhor, estamos de gengivas ótimas, nem parece. Ô Amaro, se sair dessa encrencada, vou ser dentista em Aracaju. Em Aracaju não, nem em Estância, que tem outros. Mas em Porto da Folha garanto que eu vou ser o melhor den¬tista, ou senão em Muribeca, lá o povo nem sabe que tem dessas coisas de dentista. Estamos ótimos de gengiva, an-bem, possa ser que eu tire mais uns quatro logo, que é para descompletar. A nestesia está aqui mesmo, olhe aqui, olhe. Hum.
Até que quando está verde é bom. É um verdume. Sergipe é o lugar mais verde que tem, quando está verde, porque às vezes esturrica e amarronza e entristece. Mas quando está verde assim é o mais verde que tem e a gente vê diversas cores de mato, umas mais verdes outras menas, dependendo, e tudo cheira. Poucos matos ruins, maioria matos bons, descansados e as vistas corre de leve por riba, é um verdume da fartura. Digo isso a Luzinete, que está aqui deitada e nós estamos em casa dela, nas beiras de Japaratuba, e ela tem um xodó comigo, é enrabichada e é bom saber disso, por causo de que é eu sentir e é ela fazer, basta eu levantar a cara. É um diabo duma mulher grande, duas braças de mulher de cima para baixo, cinco arrobas de mulher da legítima, no pesado, uma mulher boa e quer que eu faça um filho nela e fique aqui morando, só fazendo mais filho. Eu disse, se eu faço um filho, o que é que eu estou fazendo? Estou é ficando por aqui, estou é pensando na criação. E depois me amarro, fico parado e cheio de raiz, não me serve. Quando eu fui chegando e fui me ajeitando, era de noitinha, e só tive tempo de dizer o que era que a gente estava fazendo e amarrar o bicho bem amarrado e soltar Amaro numa esteira, que foi logo ela me arrancando a camisa e a calça e foi logo me arrumando em cima dela, e deu um suspiro. Sim, que eu não vejo mulher não sei desquando, mas ainda disse tem uns dias que eu não tomo banho, ando nas brenhas, devo estar com um cheiro da pega mesmo. E ela disse, é o cheiro do homem que mais eu gosto, disse ela, e eu fui sentindo aquele negócio se desencolher de dentro das minhas verilhas e foi uma salvação, quer dizer, foi bom, e chegou a doer, e ela faz falando, só faz falando e fazendo zuada e dizendo: me enxerte, meu filho, me enxerte, meu santi¬nho, enxerte essa mulher toda encha ela toda meu cavalo trepador, ai taça, e vai se enroscando até misturar: eu gosto. Mas não quero lhe enxertar, já disse. An-bem, um dia você pega juízo e vai. Pois que eu só vou ficar aqui mais uns dias, o tempo de descansar, que eu vou me arrumar daqui para Aracaju de qualquer jeito, não tem gueguê nem gagá, pode crer. Os olhos me perturba, isso é verdade, porque é uns olhos lustrosos e grandes e uns olhos muito devagar, que me olha fundo. Ou me passeia em cima, quase engordurando, dá para sentir. Não na hora mesmo, porque na hora dá vontade de lascar, assim estu¬fando por dentro e eu espio entrar e quanto mais entra mais eu tenho vontade que entre e tenho vontade de abrir mais e levanto a cara e espio outra vez entrando e vou alisando e repu-xando e dou umas mordidas, ai meu Deus, tenho vontade de dar umas porradas e perguntando a ela você quer umas porradas minha filha e ela dizendo bata nela, bata nela que ela é sua. Me mate, ela dizendo. Ai meu bom Jesus, vuct-vuct. Cafute-cafute. Hum.