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Sargento Getúlio

(João Ubaldo Reibeiro)

O destacamento de Japaratuba quase não tem. Só quando tem eleição, aí tem. Mas não tendo eleição, quase que não tem, é uma besteira. Mesmo tendo, não é muita coisa. Tem uma casa alta, com o telhado de banda. De dois lados, dá para nada. Dum lado, um terreno muito gramado, que tem sempre sombra, por causa dumas gramas e fica sempre um pouco molhado, porque umas mulheres estende a roupa ali, lençol, fronha e tudo. Na frente, tem um batente que dá para uma porta alta, mais ou menos vermelha, de duas bandas, que está sempre aberta só uma banda, e tem umas janelas altas, da mesma côr. Do outro lado, dá numa casa não sei de quem, mas no meio tem um devão com um portão de pau e se passando por ali vai dar no quintal, que é pouca coisa e não tem nada, mas dá saída por um muro baixo, com cacos de garrafa. Pode-se olhar junto do muro: sempre tem um que mija junto do muro e se tiver um pé de pimenteira é bom para as pimentas, que arde mais. Tem uns pés de tomateiro e uns quiabos, com umas folhas largas, e uns pimentãos e umas coisas dessas e tudo fica ali no sossego dias e dias, um ventinho sacudindo de quando em vez e uma pes¬soa olhando da janela sem prestar atenção e cuspindo de lado às vezes. Mas teve alguém que se abaixou ali e plantou aqueles quiabos e tomates e pimentãos e pensa neles, isso deve ter, por¬que é um canteiro estrumado e limpo, e todo tomate tem um pai, pode se dizer. O muro dos cacos de garrafa se pula, aqueles cacos não corta nada, fica tudo cego e esbotado. Na frente tem um largo com mais gramas e uns capins e por ali ninguém me pega, porque por ali se pega todos os caminhos. Solto num cavalo, ainda hoje, quero ver quem me pega, ah meu nome é Getúlio, minha flor. E nesse largo tem como que uns montinhos baixos mas largos, que as patas do cavalo não empata e está tudo ótimo. Porque que eu vou não sei, só que estou com von¬tade de fazer uma arrelia, uma coisa assim, só para demonstrar. Precisar não preciso de uma máquina dessas, mesmo porque não acredito que tenha uma em Japaratuba, com um destaca¬mento marca roscofe desses que tem lá. An-bem, mas eu vou. Digo isso não sei direito por que, acho que é porque não estou tendo vontade de sair mais daqui e me dá uns arrupios quando eu vejo que não estou tendo mais vontade de sair daqui. Amaro, então, nem se fala, fica tomando leite de cabra, que nem um bezerro, vai cevar. Entra e sai e dá uns assobios e quando pára é para olhar a espingarda, é uma agonia. Eu mesmo, quando estou deitado aqui e olhando o embigo dela, fico que nem sei. Quando eu olho o embigo, às vezes me dá tenção de assoprar, às vezes de meter a língua. Quando ela está em pé é melhor, porque a barriga faz uma curva para fora e se vê com mais contorno as duas coisas: a barriga e o embigo. Eu fico pen¬sando, taí olhai essa vaca, não é que essa vaca é minha, e acho ótimo. Quando eu olho o seu embigo, minha filha, me dá uma tesão. É porisso que eu não estou com vontade de sair e aí vou lá buscar essa metralhadora que disseram a Amaro que tem lá, só para tirar a teima e para ver se tem mesmo, porque não vejo muitas metralhadoras por aqui, essa é que é a verdade e mesmo não gosto muito delas. Gosto de uma arma que atira com pre¬cisão, é isso que eu gosto, e elas estragam muito, não sei. Bom, vou lá. É verdade que fica esse embigo aí assim e não me dá vontade. Às vezes, penso: sabe o que é que eu faço? Penso assim: fico aqui mesmo e me emperno com ela, é uma boa mulher, é uma mulher como outra qualquer, só que das boas. E penso assim: amarro esse trempe aí e vou deixando, até abes-talhar. Até esturricar. Ou senão dou um fim logo nele, enterro e acabou e vou ficando. Faço um filho, faço dois filhos, faço uma ruma de filhos. É uma mulher retada. Se eu digo: não gostei dessa peste dessa moringa, ela vai e quebra a moringa e ainda diz não sei como essa peste dessa moringa veio parar aqui, não suporto essa moringa. E se na hora que ela vai quebrar eu digo mas que moringa bonita da moléstia já se viu um diacho duma moringa bonita assim, ela pega a moringa, abraça ela e diz que uma moringa porreta assim ela só tem porque eu gosto. Eu bem que podia ficar o dia todo fazendo ela pegar e soltar a moringa, mas fico com pena e aí paro. Melhor espiar o embigo, que não é um embigo desse para fora que tem na maior parte, nem desses batatudos, que é de choro demais em criança; nem também é um embigo desses todos para dentro demais, que as beiradas fica pretas; sai um pouco em cima; agora em baixo fica uma concha dobrada que quando sobe vai virando para fora e nessa concha termina uns cabelinhos que vem de baixo quase que nem se enxergando e dentro dessa concha sempre é cheiroso. É uma paisagem. Uns filhos, mas o bom mais é emprenhar. Isso me disse o doutor Renivaldo, que por sinal tem um engenho aqui mesmo, me disse ele que vai para o Rio de Janeiro e dorme com as melhores mulheres, cada mulher que só vendo. Mas sabe mesmo de que é que eu gosto, Seu Getúlio? Eu gosto é no tempo de cortar a cana, quando tem as mulheres lá cor¬tando cana e eu vou de cavalo correndo o canavial, e aí é que eu gosto, porque está ali uma de lenço na cabeça amarrado, cortando sua cana e toda suadinha e eu vou chegando, nem falo nada. Derribo no chão e ela também não fala nada, fica derribada e ali mesmo, sem dar tenção, ali mesmo eu escabaço e gosto de ficar pensando que estou emprenhando todas as vezes. Depois dou uma casa a ela e caso ela, se ela quiser. Mas é assim que eu gosto, prefiro muitíssimo. Bom, mas isso é coisa de usineiro, eu não tenho usina e se fôr derribar uma mulher cortando cana vou ter que empacotar a família dela toda, ou senão casar, ou senão deixar eles me empacotar. Fico pensando que eu podia levar Luzinete para o canavial e derribar ela no meio das canas, mas me sinto meio besta, deixa isso assim mesmo, que é que tem essa cama. Agora, enxertar às vezes penso que é bom, às vezes penso que não é. Porque emprenhar a mulher é bom, e ver a mulher inchando todo dia, inchando, inchando, e passar a mão em cima, mas depois nasce o filho e aí possa ser que não seja mais bom, porque o raio do menino cresce e anda e faz perguntas, muitas que a gente não quer responder, porque incomoda. E vai querer uma porção de coisas, nem sei. Fica gente, não posso tolerar, não sei. Depois tem ela fazendo perguntas também e mulher depois que tem o filho fica como galinha choca, difere. Não sei. Não dou para isso, ficando aqui. Que é que eu posso ter, uns roçados? E que é que eu posso fazer aqui? É ficar tendo uns roçados e todo dia roçando e indo na cidade com um sapato apertado e vendo a mulher parir e ouvindo o menino chorar e me amofinando. Depois morro e pronto. Morri. Ora, merda, tudo é assim, isso não é uma merda. Porisso que eu estou andando, porque quando estou andando não estou pensando e quando estou fazendo não estou nem sabendo, é isso.
Razão essa por que eu estou metido nesse timão preto, que é de Luzinete, enfiado por dentro das calças, que é para ninguém ver que eu estou de saia e montado num burro preto e tirei as esporas que é para não estilintar e rebrilhar nessa meia lua aí e estou perto da igreja, ouvindo cada bacurau que é uma festa de bacuraus, inclusive tem umas respostas, acho que de pai para filho e de mãe para filha, de bacurau par bacurauinho, êta, mas que vai ser um sarseiro, vai, quando eu entrar. Estou assom¬brando, com essa cara que eu estou, pode crer. Hem, Amaro, se eu tivesse um dente de ouro na frente essas alturas, estava escritinho o cão, cagado e cuspido, eu mesmo não me olhava no espelho, inda mais com essas corujonas piando aí. Toda casa grande aqui tem corujas, mas é bom, que come ratos e umas pragas assim, eu até que acho coruja bonitinho bem olhada, mais do que aquele galo que não se vê agora mas que eu ser que está empinado em cima do oitão não sei para que, porque coruja tem aquela cara toda fofa, eu gosto, só não gosto dumas corujonas que estrala o bico, é cada estralo que chega estremece,, já viu? ele fica assim parado e espia para a frente e pisca as vistas sem nem dar mostra, dá um estralo com o bico, aquilo alto que parece uma martelada seca, Ave Maria. Esse eu não suporto, me dá umas parenças que tira o dedo fora, se deixar.. E deve de tirar, porque papagaio tira, já viu? Apois tira. Bom,, mas é isso mesmo, assim de noite só pode dar corujona mesmo, tomara que elas comam essa morcegada toda que deve ter aí nos ocos da igreja, não tolero morcego. Só é bom para expe¬rimentar dar uns tiros, quando eles estão todos dependurados de cabeça para baixo feito uns badalos, mas só dá para dar um tiro, visto que depois do primeiro só se vê morcego doido pelos ares e aí não tem quem acerte mesmo, ô raça nojenta e ainda faz qui-qui-qui quando está voando, um barulho que um cristão não pode suportar. Se eu pudesse, não tinha morcego. É porisso que eu não entro em nenhumas grotas, nada de socavão, se encostar um em mim é a mesma coisa que me dar um copo de água morna, lanço logo até o fato. Ah-bom, tu fica aqui encostado comigo e espera que a luz da coletoria apague, porque o coletor fica acordado, lendo uns livros. Deve de estar estu¬dando tomar o dinheiro dos outros mais do que ele já toma, com aquele bigodinho, tu conhece ele? Não perde nada, aquilo não vale um derréis de mel coado. Devo estar uma novidade, aqui todo de preto, só não gosto de estar amuntado em burro, já sentiu que esse burro daqui está bufando, só quero que não apareça aí uma jega para ele não querer cobrir agora, que vai ser graça isso. esse burro eu conheço ele, é uma safadeza e fica aí bufando. Bom a salvação é que essa cidade aquieta logo, fica essa paradeira, e se não fosse o estrumado do coletor lá de lamparina acesa, bem que eu já tinha entrado naquela delegacia para buscar o material. Tu não acha que entrar nessa certa dele¬gacia para apanhar essa certa metralhadora é roubo, porque eu não sou ladrão. Pode ser crime, mas não é roubo, porque tirar coisa de delegacia não deve ser roubo, pode ser crime. Pode ser o que quiser, em mim não pega nada, eu sou eu e nicuri é o diabo, campe-se. Agora, esse coletor fica lá arrastando os chichelos pelo chão e lendo as besteiras dele e empatando os outros. Não é por nada, é porque, depois dele apagado, dá trabalho para acender de novo e se ele estiver em pé, possa ser que eu tenha de atirar na cara dele com essa botina dessa carabina e aí não ia sobrar coletor mais nem em miúdos, rapaz eu ando doido para ver essa bicha atirando, deve ser um desprecato. Mas olhe, não puxe esses caos agora, que essa merda não tem regulador e esses burros pode passarinhar e aí você vai ficar até dando tiro de chumbo para o céu, não fica bem, possa ser que fure o chape do santo, uma coisa dessas. Eu fico pensando assim aqui de preto se eu fosse para o cangaço, se tivesse cangaço. Antiga¬mente, eu tinha raiva de cangaceiro, acho que até ontem, tresantonte, antes do antes, mas agora não tenho mais; que é que eu posso fazer. Pois, podia ser do cangaço, apois; se tivesse can¬gaço. Como não tem, fico aqui. Ô Amaro, íu, ô fulô, se eu fosse Lampião, tu ia ser Maria Bonita? Olhai, hum. Disse uma vez, digo duas e três, que tu é frouxo por demasiado, fica aí masti¬gando essa lasca de couro parecendo um bode, homem creia. Já estou cansado de ficar aqui, daqui a pouco me pico pelaquela porta de burro e tudo e estrompo a guarinição e carrego as coisas. Estou melhor do que o reis da Hungria, aqui todo de preto, hum, bem que podia ser um cavalo sem ser um cavalo chotão como essas pestes que eu vi pelai, mas um cavalo desses que os cascos parece de cortiça, um cavalo que morde a brida, baixa a cara e arresfolega fumaça, desses é que podia ser, e eu melhor e mais bonito e mais valente do que o reis da Hungria, esperando o combate. Ninguém me segura, vai ser de burro mes¬mo, quero ver. Eu estou pensando: se um peste desses da dele¬gacia me conhece, vai morrer, para não sair dando testemunho pelo mundo. Mas depois eu digo, oras seu mano que besteira, pode dizer que é Getúlio, que foi eu que arrombou essa casta¬nha, deu uns croques na putada toda, mijou na sala e arremeteu pelos matos, como faísca de coriscos, vaite. Hum. Ajeito seu qualquer que dê seu grito ou faça sua valentia, acho que eu es¬tou ficando mais ruim, ah-bom. Está cheio de viado ali dentro e vai ser assim, não quero nem saber o que é que vão dizer de¬pois. Por mim.
Quando eu desbarafustei nos pinotes pela porta, carregando uma fileira de pau furado enfiado nos ombros pelas alças, Amaro saiu que saiu embucetado de trás dos pés de árvore, ar¬rastando um burro e amuntado no outro e fazendo um espôrro retado e os burros galopando daquele jeito de burro com a ga¬rupa empinando e a janela do coletor ficou logo aluminada e foi grito de mulher que não tinha mais para aonde e um homem saiu de cueca de dentro e apontou um vinchesta para o lado da gente e eu berrei: olha a vida, Amaro! e Amaro não conversou, enrolou a corda do cabresto do meu burro no peador, nem sei como rodeou na cangalha, e levantou a bichinha bem em cima do atirador que foi uma só: tun! e não pegou nele, mas pegou no telhado de cima dele e avoou foi pedaço de barro e foi uma fumaceira e Amaro quase que despenca da cangalha, aquela desgraça tem um coice quase igual ao tiro, só mesmo para aque¬le padre grande atirar sem cair para trás. Isso tudo muito ligeiro que eu já vinha azuretado, porque lá dentro tinha muito mais soldado do que eu pensava que tinha e quase que me agarram e só não agarraram porque pensaram possa ser que eu fosse visagem e porque tudo dorme desprevenido. Quando eu entrei, a desgrama da porta, que fica aberta por causa da quentura, deu um range e eu aí parei e espiei lá dentro. Eu dava tudo pa¬ra ter um dente de ouro nessa hora, porque lá dentro tinha um caboverde dormindo, que acordou na hora que a porta rangiu e eu nem precisava encostar nele, se tivesse o dente de ouro, bastava dar uma risada alumiada, que ele amunhecava de medo, preto assim tem um medo do diabo que só vendo, porque está mais perto, acho. Eu disse: dormindo na sua cama de vara, seu pirôbo, agora veja essa peixeira que eu truxe, que deixei enve¬nenada dentro dum rato morto duas semanas e tem um anzol no bico que é para eu arrancar um pedaço de sua tripa quando ela sair da sua barriga, e tomar com cachaça, porque se tem uma coisa boa essa coisa é uma tripa de cabra safado assada de ti-ragôsto, fritada na farinha do reino. Disse no ouvido dele, para não fazer barulho, e de fato tinha uma peixeira na minha mão das melhores que eu carreguei de Luzinete e passei o dia inteiro amolando, mas não tinha anzol, porque eu não sou pernambu¬cano para gostar de comer tripa do inimigo, e eu nem estava com vontade de sangrar aquele caboverde que até estava fican¬do branco de medo e tive de meter a mão na boca dele para ele não botar a boca no mundo e ele ficou unf unf e sacudindo as pernas, mas eu encostei a pontinha da peixeira e fui rodando, encostei a ponta da peixeira numa costela dele que ele estava sem camisa, e fui rodando, sem porém enfiar muitíssimo, só a pontinha até ficar vermelho e ele sentir. Olhe, seu peste, se piar lhe faço-lhe de churrasco nestante, onde é que fica as armas da¬qui. Aí tive de ficar esperando, que ele quando eu soltava um pouco a boca, só parecia que estava com vontade de rezar e eu fiquei assim assuntando, quase que sento numa cadeira que tem lá e fico olhando ele se remexer. Vosmecê é quem? Ah eu? Eu sou o esprito do dono de seu avô escravo, fidumaégua, e é ago¬ra! Mas ele ficava com atitude de reza, estava mesmo uma pa¬pa de frouxidão e aí eu botei ele em pé, que era pequeno e fra¬co como nem sei e disse: é só me levar no armário, que eu que¬ro pegar umas coisas, vosmecê deve ser baiano, preto e tremen¬do assim, só pode ser baiano. Aí ele disse pelo amor de Deus, que eu sou de Muribeca, e eu quase dou uma gaitada porque outro muribequense é Amaro, que está lá fora e não deve estar passando muito melhor do que esse daqui, lá no meio das co¬rujas na escuridão, segurando um burro e uma espingarda. Es¬tá certo, vosmecê é muribequense, agora amostre aonde está o negócio e fui levando ele com o braço torcido para o lado as¬sim e cheguemos defronte dum armário, quem disse que tinha metralhadora nem nada, só tinha uns fuzios velhos, que eu fui pegando e enfiando no braço, nisso que me entra que parecia uma chuva de cabeça de gente, bem umas quatro, uma atrás da outra, sendo que uma de chapéu e uma disse: que foi que teve aí? Foi o cão, eu disse, e aí achei que devia de vastar, porque era muita gente e podia ter mais armas que não aquelas que eu apanhei e tive que vastar e aí levantei o pé e dei um chute de bico no traseiro do caboverde e empurrei ele em cima do resto e me piquei, que foi quando eu apareci pela porta e pensando para que diacho que eu quero vim aqui nessas horas da noite apa¬nhar umas armas velhas me arriscando a tomar um tiro sem ne¬cessidade? Não faço somente o que eu preciso, mas também faço o que eu quero, pronto, e fui vendo Amaro se despachando na porta, só que na afobação descarregou os dois canos em ci¬ma do telhado do homem e possa ser que alguém tenha mais outra arma e queira abrir fogo, de maneiras que foi só me arru¬mar na direção de Amaro e subir no burro, que estava mesmo num assanhamento danado e Amaro ainda segurando a corda do cabresto enrolada mais ou menos na canela, não sei como, e uma fumaceira infeliz e mais uma porção de cabras saindo de dentro da delegacia nos atropelos, as mulheres sem parar de gritar. Aí eu disse se pilhe, Amaro, que agora vai ser de jeito e qualidade, não quero nem apreciar. ele nem viu nada, foi que foi desenroscando a corda do pé, que eu só tive tempo de subir no burro, dar com o calcanhar nele e sair ripado pelo caminho da praça. Minha sorte é que esse burro já conhece o caminho, é só soltar que ele vai e vai bem, porque ainda estou para ver um burro que goste de ouvir tiro ou passar em ponte, que nenhum passa por gosto, acho que tem medo de cair, e lá vou eu, melhor do que o reis da Hungria, não quero nem olhar para trás. Temos um bom caminho para essa carreira e o melhor que se faz é pegar pelos matos mesmo, de qualquer forma o ca¬boverde deve estar dizendo que foi alma penada e inda vai demorar que venha um atrás, ainda mais que a lua está murcha e sem luz e é escuro. Bom, Amaro, vá baixando a cabeça por causo de qualquer galho de pau que tenha na frente e vá re¬mando aí e pode até fechar as vistas, que os bichos não erra e chega em casa direitinho. Amaro perguntou se eu apanhei algu¬ma coisa e eu respondi que eu queria apanhar o cabrunquento que disse que tinha uma metralhadora dentro da delegacia de Japaratuba, só tinha mesmo esses fuzios velhos e umas car-tucheiras que eu nem dei ousadia, essas pestes se duvidar nem fogo fazem mais, an-bem, fui porque quis e gostei de ver o jeito que essa bichinha aí ia quase derrubando a casa do homem toda, também o que é que ele queria com aquele repetição em cima da gente. Quando eu saí e até tropecei na saída da porta e arrumei o dedão num pedaço de ferro que tinha saindo do chão, quando eu saí e gritei vai Amaro que eu matei vinte e três aí dentro, posso jurar que tu acreditou, mas senão tinha uma vintena, bem que tinha um renque de cotia lá dentro, porque só se viu foi cabeça aparecendo. Depois diz que eu não sou bom. Se eu fosse ruim, tinha parado ali e catado aquela putada toda na ponta do rifle, que era fácil, estava tudo correndo como umas cotias mesmo, umas caças no meio dum descampado, isso era o que era. Mas não fiz nem mira em nenhum. Agora, que dava vontade de parar aqui e esperar, isso dava, porque ia ser uma facilidade, mas primeiro estou com um ranho no nariz que pode ser defluxo e esse sereno piora, e por segundo ninguém vem atrás mesmo, aquilo não tem cara de boa guarnição e terço esse califom de Luzinete fica me empatando nas partes e esses bicos parece que arranha, não sei como mulher agüenta usar esse trembique, com essas farpas que tem aqui. Pode dizer que já me vesti de mulher, quando entrei na delegacia de Japaratuba, quando entrei na delegacia de Japaratuba e lá, na vista de todos machos que diz que tem lá e mais tivesse, na vista de todos os machos que tem lá, fui entrando, fui abrindo e fui panhando o que bem quis e é isso mesmo, mulungu. Precisar não preciso, fui só de abuso, graças a Deus.
Pois é, Luzinete, olhando assim pela janela, podia ficar aqui. Mas tem horas que se pode ficar, horas que não se admite. É assim. É como certas horas que um fole tocando lhe agrada, outras horas dá vontade de dar porrada no sanfoneiro. É a mes¬ma coisa. Por isso certas horas, com o cotovelo na janela, quando tu volta de lavar roupa ainda com as mãos encorugujadas de água e umas machas de anil e eu fico olhando o verdume, essas horas pode ser. Porque o que é que tem depois? Tem o seguinte: eu fico achando graça em tudo, e com muita preguiça. E eu sei que não vai ter nada para fazer, nem hoje nem amanhã. E eu sei que, voltando você, a gente pode esperar comer, que vai sair e a gente pode dizer que horas quer que saia o de comer. E pode ficar prosando o que quiser, tomando umas coisas, e de repente vem uma novidade: um caranguejo. Ou dois. A gente fica muito satisfeito com aquele caranguejo, tu escalda e a gente chupa as pernas e fica e é uma tarde tão comprida e depois a gente come à vontade e vai dormir. Diga se não é? Ora, ora. ôi fresca, hum? Quem perturba, hum? Umas comilanças e umas dormidas e vaite para a sorete quem quiser, adeus. Mas, quando não é isso, tem conversas ou então não tem nada e a gente fica tendo de andar para riba e para baixo, pegando numa coisa aqui outra lá, sacudindo uma tira de couro no ar e chutando umas pedras. Assim não pode, não quero. Me diga-me, vamos para o cangaço? Eu sei que não tem cangaço, mas se tivesse você ia? Não ia, você é mulher que gosta mais de um filho no bucho e de um homem na cama e de morte morrida. Eu não, que na minha mão tem uma linha riscando a linha maior, que diz: morte matada. Isso é fato, não tem como correr. É melhor, dói menos e dá menos transtorno. Nessa morte eu acredito, porque não posso pensar que eu vou ficar velho e sem dente e minha mão vai tremer. Uma coisa que não existe é Getúlio velho, só existe Getúlio homem inteiro, não posso ficar de boca mole, falando porque no meu tempo isso no meu tempo aquilo. Verdade que tem certos velhos que ainda são machos, mas esses é do tempo antigo, não é hoje. Antigamente, tinha umas mágicas, acho. Se tivesse cangaço, eu ia para o cangaço, com um chapéu de estrelas prateadas e ia me chamar Dragão Manjaléu e ia falar pouco e fazer muito. Quando entrasse, entrava batendo os pés. Quando amuntasse, amuntava com o peito inchado e a cara para cima, com as vistas na frente, sempre. Quando marchasse, marchava rodando o corpo e cheirando o vento. Quando co¬messe, comia aos batoques, levando a faca na boca. Eu ia ser o maior cangaceiro do Brasil, o maior piloto de jagunço do Brasil e ia ter a maior tropa. E não me chamasse de sargento, me chamasse de capitão. Ou me chamasse de major. Um tenente que eu cortasse a cabeça, arrancava os dentes e fazia um colar. Quantos tenentes cortasse a cabeça, tantos tenentes arrancava os dentes. E todos lugares que chegasse, dava uns urros bem altos para quebrar vidraças e tomava duas pipas de cachaça de cada vez e comia dois cabritos sozinho ou então um bezerro e assoprava para arrancar os pés de árvore do chão e quando eu ba¬tesse a coronha no chão, o chão tremia todo e as frutas despen¬cavam. Dragão Manjaléu, pode me chamar. Luzinete, eu vou ser é deputado e vou fumar uns charutos. Amaro pode guiar meu carro, que eu deixo. Para ser deputado não é preciso nada. Se eu fosse deputado, você ia, não ia? Para ficar toda lorde, e aprendia a falar difícil, não aprendia? Aí quando eu chegasse na câmara com esse traste dali amarrado pelo pescoço, eu dizia a meus corligionários, olhe aqui esse presente e sabe o que é que eu vou fazer com esse presente? Vou enforcar esse presente para todo mundo ver, e enforcava ele no pé da mesa da sala. E dizia: esse palmo de língua de fora eu dou à mulher do governador, que fala muito e nem repara. Esse pescoço quebrado eu dou aos doutores de medicina, que é para ver como é um pescoço bem quebrado. Esses braços dependurados eu dou ao povo, que é para o povo me abraçar. Essas pernas assim bambas eu também dou ao povo, que é para o povo andar. E por aí eu ia, dava o trempe todo e depois saía e ia na rádio difusora e botava um lenço no bolso e um duque de diagonal e sapato carrapeta mar¬rom e branco e ia jogar baralho a dinheiro. Tu não acha que eu tenho jeito para deputado? Eu acho que eu tenho, pode crer, eu ia ser um bom deputado. Isso se eu quisesse ser deputado. Tu se lembra do chefe? Esse também agora é deputado, eu acho, me mandou eu buscar esse traste em Paulo Afonso e agora vieram me dizer que não levasse mais ele para Aracaju, ordem do chefe. Não acredito nisso, tu crê? Possa ser, mas agora eu levo de qualquer jeito. Ontem eu disse que levava, hoje eu nem sei bem, porque me dá mesmo uma moleza isso aqui, mas como é que eu posso viver assim? É como eu digo: muitas vezes, numa hora como essa, a gente pensa que o mundo pára. Mas não pára nada, se sabe. Tem uma porção de gente se me¬xendo, e eu aqui no meio, paradão. Mas parado como um peixe junto das pedras dum riacho, que se você quiser mexer perto ele dá uma rabanada e some. Porque é assim que eu sou. Veja que povo mole, veja que povo mais burro. Eu vou lá, pego essa porcariada toda, faço cosca de faca nas costelas dum soldado caboverde e venho bendomeu aqui para perto e não tem nada. Então eu podia morrer de velho, não podia? Podia. Podia ficar aqui e todo ano lhe emprenhar certo para vir um filho em janeiro, que é princípios do ano e acerta mais. Não ia nascer mulher, só ia nascer um bando de macho e eu botava uns nomes de macho e depois a gente tomava essas terras que tem aí e arma¬va umas tropas de mais macho e ficava dono do mundo aqui, cada filho arranjando outra mulher, cada mulher parindo mais macho e nós mandando, e quando eu morresse, avô de todos, pai direto ou por tabela, me enterravam ali e botavam em riba uma cruz com o Senhor crucificado e quem passasse ia dizer: aquela cruz é do finado, se não se benzer ele ainda vem e lhe pega. A machidão toda aí, era Garanhão Santos Bezerra, Mal¬vadeza Santos Bezerra, Abusado Santos Bezerra, Tombatudo Santos Bezerra, Comegente Santos Bezerra, Enrabador Santos Bezerra, Rombaquirica Santos Bezerra, Sangrador Santos Bezer¬ra, Vencecavalo Santos Bezerra, todo mundo. Tu bem que ia gostar disso, eu acho. Um belo dia, Vencecavalo Santos Bezerra ia pela rodagem e encontrou uma tropa de burros atravessando um caminho que só dava um de cada lado, e Vencecavalo disse aos homens da tropa: peço passagem, porque sou mais homem, e sua tropa pode muito bem esperar que eu passe, bem descan¬sado, bem devagar e assobiando, ainda mais que eu sou o Reis •de Sergipe da Coroa. E o tropeiro disse: pode vosmecê achar que vosmecê é mais homem do que nós, e achar que é o Reis de Sergipe da Coroa, mas nós bem que não achemos isso, aliás nós achemos que semos mais homem do que vosmecê e por isso mesmo vosmecê vai ficar aí sentadinho, esperando até que o derradeiro dos burros passe, de formas que vosmecê vai poder então passar, isso se eu quiser. Aí que Vencecavalo disse: veja bem, seu minhoca amarelão, escute bem, largata mole, olhe o que eu estou lhe dizendo, cara de besouro bostento, assunte, boi pegado na saia dador de venta, atente, que eu só falo uma vez, coração de caga-sebo: quando eu nasci, desceu uns arcanjos para me presentear, e São Romão me coroar e eu era tão forte que minha cama era de aço com prata e quando eu chorava chovia aqui e na Bahia e minha mama era o leite de quatro vacas dou¬radas landesas, e posso lhe dizer: está vendo esse braço daqui? Pois com esse braço eu derrubo esse morro de seiscentas mil arrobas em cima de sua cabeça. E se eu lhe der uma dentada, eu lhe tiro sua cabeça fora só com uma mordida. Se eu lhe cuspir e pegar no olho, eu lhe cego. Se eu bater palma, deixo a tropa toda surda. E se eu chutar essa mula madrinha, ela vai parar no jebe-jebe de penedo, é o que eu estou lhe dizendo. E aí ficou no seu cavalo árdico, empinado, estufado e aguardando resposta. De junto dele só tinha sombra, porque o sol não era besta de encostar. Pois então o tropeiro tirou uma garruncha e fez fogo contra Vencecavalo Santos Bezerra, e os outros tropei¬ros também fizeram fogo e foi a coisa mais sem juízo que eles fizeram na vida, porque não foi assim que Vencecavalo agarrou as balas com os dentes e cuspiu elas no chão e disse: com essas balas, apustemado, vosmecê me tirou uma lasca do dente queiro de cima do lado direito e se é um dente que eu tenho estimação é esse dente queiro de cima do lado direito e por isso mesmo vou lhe dar um punitivo, e aí pegou um burro pelo rabo em cada mão e rodou e rodou e rodou e foi atacando a tropa com os bur¬ros e cada um que se levantava tomava uma burrada. Depois ele pegou a tropa toda e jogou lá no jebe-jebe de penedo. Já viu você que filho esse que eu tenho? Arretado.


VII
POIS ENTÃO aqui sentado nessa solta, com essas cinzas que botei na cabeça e todos caminhos que cavei com os pés, an¬dando em roda não sei quanto tempo e batendo no peito e gurgurando na garganta, que eu dei um grito que se ouviu em todo Estado de Sergipe, para todos lados, para baixo, para cima, até encostar no ôco do mundo, que ribombou, eu dei o grito mais retado que se deu na terra, porque foi agora que eu senti. Pri¬meiro, eu sentei num toco e enfiei a cabeça no meio das duas pernas espichadas e fiquei sentado vinte e duas horas, cinqüenta e oito horas, fiquei sentado mais horas do que qualquer um já ficou sentado, e não mexi nada: espiei o chão, mas sem enxer¬gar nada, só o chão de uma côr só. Depois eu me levantei e me deu uma raiva, a maior raiva que já se teve em todo Estado de Sergipe, me deu uma raiva grossa como sangue e pesada como quinhentas sacas de açúcar e quente como uma brasa do tama¬nho de uma boiada. E estando de pé, estiquei um braço com a mão fechada, estiquei o outro braço e bati nos peitos tanto que trovejou e as folhas dos pés de árvore foram caindo e depois eu andei com cada passada de duas braças e quando eu andava cada passada subia umas nuvens de poeira que virou lama na minha cara com o choro que saiu. Aí eu olhei assim no redor e não vi nada. Forcei as vistas e não vi nada, e eu queria ter uma espada muito grande, que eu com essa espada botasse em¬baixo todas coisas que ficasse na minha frente ou de trás, amuntado num cavalo preto que o suor fedesse tanto que matasse pelo cheiro e com esse cavalo fosse com a espada pelo rio Cotinguiba, metesse a espada no rio e matasse os peixes e abrisse a água e enchesse o mundo de água e comesse tudo e sumisse tudo. E eu. Forcei as vistas dessa forma e não pude nada ver mesmo, só estava sentindo, e apaguei a fogueira da noite com as mãos e peguei a cinza que ficou, esfreguei na cabeça e na cara e não quis fazer mais nada por muito tempo, porque fi¬quei triste e então eu dei um grito ouvido em todo Estado de Sergipe, o chão tremeu e eu sentei de novo.
Quando eu vi, estava parado, com o olho aberto, na mes¬ma posição que tomava para bater no cano da arma, baixar e descarregar. Quer dizer, com a mão direita ainda levantando, mas nunca que pôde baixar, porque ficou presa pela manga num prego da parede e lá ficou. O primeiro que eu vi foi os olhos, porque eu estava espiando pela janela para fechar a entrada, felizmente que pelo fundo não podia entrar ninguém, que é um barranco alto, e eu estava até achando que era serviço coisa pouca, porque era aparecer na estrada era acertar fácil, uns bons alvos, mesmo eles atirando para dentro e tirando batocas da parede, pelo lado de fora e pelo lado de dentro. Nos prin¬cípios, veio na idéia botar o bicho com a cabeça para o lado de fora, mas eles estavam atirando tanto e tinha uma fumaceira tão descabida e um espôrro que parecia que o mundo ia des¬pencar, que se eu botasse a cara dele na janela com certeza que furavam a cara dele toda logo, morria e perdia a serventia. Fisdaputa, devem ter pedido campo na cidade toda para me pegar como tresmalhada, só que não vão pegar, vão pegar a mãe, eu não vão pegar. Pois eu estava de olho na janela, descansando a arma para atirar nos peitos de um que vinha de banda e eu queria atirar resvelado nas costelas dele e aí a arma de Amaro parou de papocar. Eu digo: que é isso, Ama¬ro, se faltou munição pegue uma arma dessas do destacamento, que tem bastante e ele nada respostou. E nada, de formas que, quando eu consegui acertar dois balaços no infeliz lá, que ele foi desencostando no mourão da cerca, desencostando, desen-costando, até que eu vi que era a última desencostada que ele dava na vida, eu espiei de banda e vi os olhos de Amaro.
Antes, ele estava bem, aliás estava ótimo, porque apren¬deu a manejar bem a arma, que não é fácil. Parece fácil, mas não é fácil, precisa preparo. Mas foi ele, que estava sentado no chão com os dois joelhos para cima e esfregando a arma pelo cano e mastigando um talo de capim como quem não está nem aí, foi ele que viu primeiro chegar alguma coisa e aí se levantou sem dizer nada e foi olhar para o lado do caminho. Guente aí, disse ele, e encostou do lado da porta, cuspiu o capim e ficou. Essa porta vai abrir daqui a pouco, disse ele, e eu vou fazer um festejo. An-bem, disse eu, temos pertubação, e me levantei, segurei um instrumento e espiei de meia travessa pela janela e de fato estava lá quase na curva um bando de cabra safado, tudo esperando. Esse cá que Amaro vai pegar de jeito deve de ter tirado carta de valente lá, e vem aqui. Êi cambada de mulher solteira ordinária, se prepare para morrer! Hum-hum. Pensei, mas não disse, que todos estavam parados lá e nem dava na impressão que a gente aqui dentro tinha se precatado. Eu mesmo não escutei nada, estava pensando numas rapaduras e Luzinete estava catando uns piolhos. Tudo muito assossegado, não tinha nem horas, não tinha antes nem depois, era uma paradeira e eu ficava com preguiça de pensar quando era que eu ia sair para levar o trempe para Aracaju, nem sei, nem sei. Amaro, ..fareje esse um se esbeirando para ver não sei o quê aqui dentro, é capaz de não ter certeza que a gente está aqui dentro e aí vem em missão de espionagem. Segurei a arma na mão, encostando o cano na madeira da janela, ôi cospe-fogo, ôi cospe-fogo. Vamos aí. Amaro agora nem parecia, só que estava com os caos puxados e a canhota estava com os dedos meios brancos, agarrada nos dois canos. Que quando o homem foi empurrando a porta e Amaro estava atrás para meter o cano nas costas dele e a gente fazer um inquérito com ele, o sacano do traste, que estava amarrado mas sem mordaça, gritou com aquela fala de gengiva: cuidado que tem um homem na porta. Bom, dois gritos o ordinário não deu, porque eu fui para ele e dei um par de porradas na cara com o cano de minha arma e depois empurrei a cara dele no chão com a sola da bota e fiquei esfregando, esfregando, até amunhecar e dei umas duas bicudas nos rins para completar e ele acho que achou melhor se aquie¬tar, ou aquietava ou dizia por que é que não aquietava. E eu disse a Luzinete, se ele mexer nem que seja o dedão do pé, quebre essa moringa na cabeça dele e se aporrinhar muito jogue querosene e toque fogo, que assim ele aprende. Ela aí se abai¬xou e ficou olhando ele, com um molho de fósforo desse que risca na sola do sapato de junto e o fifó de junto e a moringa. Na primeira, dou uma moringada. Na segunda, toco fogo. E pensou que era até melhor jogar logo o querosene para garantir dar tempo na hora, de formas que despejou metade do fifó nas calças dele e ficou lá abaixada, nem parecia. Aquilo é uma mulher especial. Mas o homem que vinha entrando parece que não deu tempo de mudar a intenção por causo do grito, ou então nem ouviu porque o traste grita fraco mesmo, e foi empurrando a porta. E nisso foi que Amaro deu um pulinho de banda, ficou na frente do homem e deu nos dois gatilhos de vez bem na direção e só se viu foi a cara do homem sumir e foi lasca de cabeça para todo lado. Êta, que se você acerta no escrivão assim, não ia ter quem escrevinhasse em Japaratuba por mais vinte anos, ave Maria, o homem quase que deu uma maria-escombona, quando recebeu a marrada. O homem deu aquele pulo, quer dizer, não foi ele que deu, foi o porrete da arma, e foi se parar lá no caralhoplano. Sem nada quase dos peitos para cima, estava uma pintura. Aí eu pensei, se naquela zorra daquela delegacia tivesse mesmo uma metralhadora, não precisava mais nada, daqui mesmo eu resolvia o resto, mas não pôde ser, de maneiras que quando eu abri fogo a raça foi se espalhando e parecia que cada hora chegava mais homem. Como que eu fosse Lampião, com tanta gente para me levar, está bonito uma coisa dessas? Bom, agora é segurar, até aparecer um jeito de sair e parece que não vai ter muito jeito, porque esse povo não é de desistir e vai ficar ali até entrar aqui, mas eu sou eu e quero ver esse renque de inquizilado entrar aqui. Vai vastar, tem de vastar, ora ora. E eu que dizia que tu tinha coração mole, hem Amaro, quem te viu quem te vê, bentevi. Aquele ali deve de se chamar Secundino da Moleira Grossa, com aquele pitombo em riba da cabeça, como se fosse umas ôndias. Aquilo é banha pura. Pois esse Secundino vinha atirando muito bem e dando umas negaças, se achando grande combatente. Deve ter tomado umas antes de chegar e eu estou até vendo a conversa dele: volto aqui trazendo esse cabra safado arrastado no cavalo, sem culote, sem gibão, sem túnica e sem divisa e a cova dele vai ser a poeira que ele vai comer antes de morrer. Vai ser uma cova por den¬tro. Isso ele deve de ter dito. Pois assunte, Secundino da Moleira Grossa, quem vai lhe enterrar sou eu e vou até deixando que você venha feito macaco de lá, com esses pulos que nem palhaço pelanca, que pulo nunca decidiu destino de homem, nunca suportei esses puladores, posso lhe garantir. Secundino, olhe o céu, se lembre daquela vaca daquela sua mãe, que eu vou abrir um buraco em vosmecê, um buraco tão retado que vosmecê vai sair por ele, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, eu sou o Dragão Manjaléu, Comedor de Coração. Eu aqui no canto da janela, só olhando para ele dar os pinotes dele. Deixe dar: vá escolhendo as quixabeiras do céu, as palmatórias do inferno, hum-hum. E aí a boca se enche dum pouco dágua como quando se espreme um tumor e se arranca um carnegão, quando ele deu um pinote para a banda da esquerda e eu escolhi acertar no meio do pinote. Adeus, Secundino da Moleira Grossa Soares de Azevedo da Paixão, pode dizer que morreu nos ares. Morreu direitinho, quando desceu nem mais mexeu. Aquele ou¬tro, olhe, Amaro, aquele tu deve de dar na barriga um desses caprichados, porque aquilo é uma barrigua agüenta, de banha de porco, de torresmo de carneiro, aquilo vale nada. Um homem desses está prenho, e o nome dele é Fabrico Fraco Fofolento da Farofa e quando tu acertar na pança dele vai ser como o Vaza-Barril impazinado, desvertendo água por tudo quanto é lado, o diacho é que ele fica só deitado e oferece somente um pedaço do ombro. Oferte mais, Fafá, ôi. Amostre essa barriguinha, meu santo. Siu! Luzinete, depois a gente mandamos cobrar umas contas de conserto de reboco no destacamento, que estão me arrancando esse reboco todo, já viu. É cada torête de reboco, olhe aí Homem creia, estão crentes. Amaro, se aquele peste levantar a barriga, você manda na barriga com os dois, que nessa distância espalha bem e não dá para o vento enfraquecer. Aquilo ali, mesmo que viva, não tem doutor que cate centos chumbos no bucho e dói que é uma beleza, ainda mais naquelas dobras, deve ter a barriga cheia de roscas. Fofolento, hu Fofolento. Siu! Olhe aí, Amaro, ele está subindo. Olhe aí, Amaro, todo suado, parece uma jega enxertada, olhe a cara dele, gordo as¬sim aonde já se viu. Olhe aí, Amaro, que cara de capilogênio, cada baga de suor que parece uns bagos de jaca, já se viu. Quando ele passar junto da mangabeira, tu assiste ele, não precisa apressar, que, gordo assim, ele vai encostar a mão na mangabeira, tirar o chapéu e limpar a testa. Aquela água toda já deve estar entrando nas vistas e ardendo. Bonito ia ser acer¬tar na bunda desse boi, mas isso ele não vira, é natural. Pois veja: eu não lhe disse que ele ia encostar na mangabeira? Agora aí, olhe, ô canhão, parece uma peça do Dezanove BC, ôvo na negrinha, Amaro! Hum. Vai ficar ali se estorcendo uns tem¬pos, deixe ele. Tem umas formigas pretas naquela mangabeira, daquelas que fede, ainda vai apoquentar mais, deixe ele. Eu disse que ele ia se encostar na mangabeira. Falei e disse. Se a gente sair daqui, vai para as catanduvas, que as catanduvas briga por nós, não é certo? Lá vem atrás dois outros, um fino e um grosso queimado. Tu não está achando isso uma facilidade não, Amaro? Se visse de bolo, aí não sei, porque tinha que ser uns disparos muito ligeiros, mas assim de um em um, de dois em dois, assim quantos venha quantos não volta. Esse queimado chama-se Chico Banana Seca, por causa de que pa¬rece que tem a cara toda pregueada. Acho que passaram je¬nipapo na cara dele, para ficar toda preta assim, bicho feio da desgrama, hem Amaro. Esse deixe aqui, que ele vem na minha linha de tiro bonito, está parecendo uma galinha dágua galinhando na beira da lagoa. O fino é por nome Carolino Carola Caruara, por causa de duas coisas: primeiramente, tem cara de noiteiro de novena, diga se não? Tem. Bota as mulheres cantando para purgar os pecados, que ele tem medo de morrer e ir para o inferno. Segundo, anda todo troncho, espie, veja se não tem umas parenças que deu caruara nele em pequeno. Pois muito bom, tu soca dois caruchos de novo aí e acerta Carolino aonde tu puder acertar, que ele já deve ter pagado uma vintena de novenas antes. Me diga uma coisa, o cano dessa estrovenga não esquenta muito, não? Tu pega o tortinho que eu pego Banana Seca e se prepare, porque deve de estar um espotismo de gente lá em baixo. Olhe aí, Amaro, ô vexame, o tortinho se desentortou todo, acho que você acertou de re-lepada, porque ele já se despencou e sumiu. O nome dele mes¬mo deve ser Desandado da Desautoria, porque lá vai ele como um garrote desautorizado, mas esse queimado acredito que, quando abaixou, abaixou de vez. De formas que pode esperar aumentar a fuzilaria, ô peste, tem uma força de homem ali que não acaba, só vendo. E fica essa fumaceira, porque o tempo está molhado. Se tivesse seco, era melhor, não levantava essa fumaçaria. Possa ser que todo esse logrador esteja cheio de homem atrás. Enfim, ou vai ou fica. Eu vou, e quero ver quem me pára.

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