Pois então, quando eu vi os olhos de Amaro parados e ele olhando para lugar nenhum, com o braço pendurado no prego, eu vi que ele tinha sido matado e no começo não senti nada. Somente olhei de novo e disse olhe Luzinete, olhe que acertaram Amaro, não está bom a gente pendurar esse animal pelum pé, que foi por causo dele que mataram Amaro? Mas não tive tempo de fazer mais nada, porque estava ainda a fuzilaria e eu tinha de me agüentar e fiquei assim até quando deu umas duas horas e parece que eles mandaram buscar reforço, porque pelo que eu sei devem ter deixado uns quatro vigiando o caminho, ou mesmo mais, que é para não admitir saída nenhuma. Em meia hora esse reforço chega, não chega não? Deve de chegar, disse Luzinete, e não estava com medo. Eu fiquei olhando mais Amaro morto. Luzinete disse, quando você estava atirando na janela, eu quis fechar as vistas dele, mas não fechou, vai ter que ficar assim mesmo. É, eu disse, vai ter que ficar assim mesmo. É, vai ter que ficar. Aí ela disse ele era como seu irmão, e eu disse acho que era, era mesmo, acho que era, e acredito que no mundo eu só tinha ele e você, isso eu acredito. Estou sentido, eu disse, essa vida é uma bosta. Puxei ar: quem está vivo está morto, a verdade é essa. Reze um terço, Luzinete. Reze um rosário. Ainda outro dia ele estava rezando lá no padre, ele sabe todas as rezas. Sabe, não; sabia, disse Luzinete, e por que tu não acaba com aqueles pestes de uma vez logo e vai embora com sua missão? É, digo eu, só se eu fosse um avião. Só se eu fosse um elefante. Ali tem uma ruma de homem e se eu fôr lá, antes de eu poder dizer uai, eles dão conta de mim certinho e aí quem vai levar esse bexiguento para Aracaju, você com certeza é que não vai. Bom, ficando aí, tu também não sai. Isso eu sei, digo eu, mas também não sei. Acontece sempre al¬guma coisa. Olhe, eu sou um homem diferente, mas não diferente do jeito que você pensa, mas eu sou diferente porque me sinto diferente, é uma coisa. Posso dizer uma coisa que pensei quan¬do estava lá no padre, mas escute calada, porque, se der ri¬sada, eu lhe dou uma porrada: eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu pai era brabo e meu avô era brabo e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu. E eu dou um murro na testa do carneiro que aparecer e o carneiro morre. E tem mais coisas, mas eu não digo agora. Essas coisas eu acho que não se fala, talvez. Hum, não adianta. Eu sou eu. Meu nome é um verso: Getúlio Santos Bezerra, e de vez em quando eu penso que, não tendo ninguém melhor do que eu, tudo que pode me acontecer é melhor do que os outros. Hum. Não sei, acho que eu penso demais, não adianta. Seu nome é um verso, disse Luzinete, e você nunca que vai morrer. Isso é fato. Agora mesmo eu levo esse homem. Olhe, tem essa força lá fora, não tem? Sendo eu cabresteiro, já tinha me livrado de tudo isso. Não tem nin¬guém por trás de mim, essas alturas. Mas sendo eu mais do que qualquer coisa, porque eu sou e fui criado assim, pode acontecer tudo, que esse traste eu levo para Aracaju arrastado. Eu disse que levava, e levo e tiro de eito tudo, estou lhe dizendo. Depois pode ser o que fôr, não é preciso cascavilhar esse Ser¬gipe inteiro atrás de mim, que eu estou livre e homem e que¬ro ver, porque o pior que pode me acontecer é eu morrer e isso não é o pior. Pior é ser pataqueiro em qualquer engenho. Pior é não ser ninguém, mas lá no padre eu vi, quando conversei com os homens e Amaro estava com aquela ferramenta apon¬tada dentro da igreja, eu vi o que é que eu sou, e eu sou eu, e porisso que eu vou levar esse animal e ninguém me empata, que se me empata eu destruo. Eu sei, disse Luzinete me olhan¬do, mas como é que tu não acaba com aqueles pestes de uma vez logo? Já lhe disse, tem que acontecer qualquer coisa, não sou avião. Possa ser de noite, possa ser que eu me desembarafuste de noite pelai e suma, hoje não tem lua nem eu sou vagalume para brilhar no escuro. Tem umas bombas aí, disse Luzinete, tem umas bombas aí, do homem que vivia amancebado com minha irmã e que trabalhou numa pedreira. Quês bombas? Umas bombas, disse ela, que parece um rolo cada e que vem num molho dumas cinco, acende e joga. E separando todas pode jogar umas cinco vezes, meia dúzia, que abre caminho ali e não sobra nada. São umas bombas ótimas.
Está vendo aquilo brilhando no escuro, peste? Aquilo bri¬lhando meio azul, aquilo se chama-se uma planta por nome cunanã, que é como uns cipós. Aquilo é seu inferno, sempre foi. Mas meu, meu é minhas estrelas e por ali sei para onde eu vou, porque nasci aqui e essa terra é minha. E agora é minha só, porque morreu todo mundo que prestava. Tudo culpa sua, que não tem nada com essa terra, posso lhe garantir. Pois está vendo aqueles brilhos, são meus brilhos do mato e se eu qui¬sesse brilhava também e casava com a Princesa Vagalume e voava. Mas não faço isso, lhe levo para Aracaju e lá não sei. Luzinete subiu com as bombas, nada deve ser achado dela, no meio da pedra e do barro. Satisfatório, isso? Apois. E então. Não ia ficar lá, isso eu não ia. Tinha uns instantes que eu pensava que eu ia, mas era porque eu me esquecia quem sou eu. Quando eu me lembrava, me lembrava da estrada e dessas soltas que tem aí, desse e daquele logrador, um canavial e uma catinga, era disso que eu me lembrava, dessas cabeças de frade. Isso é um verdume só, mas isso ninguém sente, só que sente. Agora, como minha mulher, podia ela ficar lá o tempo todo, que uma vez no ano eu ia lá e com uma vergalhada só eu emprenhava ela por toda a vida, suficiente para ela ir parindo, ir parindo até o fim, cada filho tão grande que os embigos era metros e a barriga de doze meses, porque eu tenho aqui como um jegue, eu tenho aqui como o maior dos bichos, e se eu galar esse chão nasce árvores de frutos. O chão é como minha mãe, seu peste. Seu peste, puto, peste, peste, peste, seu pirobão. Perde a força os nomes, quando eu lhe xingo e porisso vou inventar uma porção de nomes para lhe xingar e de hoje em diante todo mundo vai xingar esses nomes. Crazento da pustema, violado do inferno, disfricumbado firigufico do azeite. E invento mais. Se ela ficasse, não que eu ficasse também, eu deixava. Mas ia lá e emprenhava de uma enfincada só e ela nem precisava comer nem nada, porque ela ficava como o chão, só tomava chuva. Só precisava disso. E meus filhos, peste? Carniculado da isburriguela, retrelequento do estrulambique. Não se ouse de responder, porque lhe tiro sua vida da pior maneira, levando dois anos e meio, cada dia tirando umas gramas de sua carne, pense nisso, nem se ouse. Ela era minha mulher, agora é a lua. Sabe vosmecê que minha mulher agora é a lua? Ficou lua quando explodiu com as bombas e os cabras que estavam lá são uns belzebus e vão viver debaixo do chão até que eu queira e eu sempre vou querer. Agora, Amaro. Não me interessa o que nin¬guém diga quando me olhar, com essa cinza na cara, mesmo por¬que quem disser o que eu não gosto eu como a alma, eu olho e esturrico, eu viro a pessoa numa lingüiça. Quando eu gritei que se ouviu em todo o Estado de Sergipe, desde lá no São Francisco até no Estado da Bahia, de bandinha por bandinha, foi por causo de Amaro que eu gritei, que era meu irmão. Luzinete é a lua, mas Amaro? Não é nada. ele não é nada, porque morreu e ficou lá, com as vistas abertas. Era pequeno, mas era homem, mais homem do que novecentos mil da sua marca e com essa mesma arma que era do padre e depois dele e agora minha, que eu guardo nas costas e que mão nenhuma pode tocar que não a minha senão morre, com essa mesma arma eu enfrento o que aparecer, eu tiro de eito. Se vem um batalhão, eu dou testa. Se vem um gigante, eu garguelo. Agora eu tenho dor no peito e às vezes não posso tomar fôlego e até agora estou chorando lama e passei umas horas sem querer nada, sem poder levantar a mão, sem enxergar nada. ele era chofer, escute, e agora não é mais nada. Como se pode pensar nisso. E fique quieto e vá marchando bem, que cada vez que eu digo Amaro eu também estou queren¬do dizer louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e vosmecê pensa sem dizer, mas tem que pensar mesmo, que eu estou olhando sua cara, vosmecê pensa para sempre seia louvado tão bom Senhor, e tem que pensar assim: para sempre seja louvado tão bom Se¬nhor Amaro, tão bom Senhor Amaro, tão bom Senhor Amaro, vai que eu lhe furo as costas de espora, e agradeça que não lhe amunto e agradeça que não lhe enterro no chão de cabeça para baixo com um canudo de mamão na venta para entrar ar, agradeça, sacrista! Ai, ai, ai, ai. Pode dizer que eu estou sujo, mas isso é cinza e cinza de tão queimada é limpa e não tiro essa cinza da cara. Nem vi quando ele tomou o tiro, estava vigiando a sua laia. Vá marchando, vá marchando, quero marchando. Nós vamos marchando até chegar na beira do rio, que nós possa ser que vamos de canoa, vosmecê remando e eu com pose, é assim que nós vamos. Diga: louvado seja nosso Senhor Amaro, para sempre seja louvado tão bom Senhor Amaro. Agora me digo: como pode ter outra coisa que não eu lhe levar para Ara¬caju e depois, depois não sei? Porque, se eu fosse tirar vingança, não tinha tantos que eu matasse que pudesse descontar Amaro nem meus filhos, nem a cara de Luzinete avoando pelas nuvens e virando lua e eu daqui de baixo com cinza na cara e chorando lama, me diga uma coisa. Homem creia. Não me diga nada: louvado seja nosso Senhor Amaro, para sempre seja louvado tão bom Senhor Amaro, tão bom Senhor Amaro, vá pensando, vá pensando, e quando eu falar no nome dele, vá pensando e se benzendo, vosmecê tem pecado por demasiado. Antes, eu nem conhecia Amaro direito, mas depois era o melhor amigo que um homem já pôde ter e até de jia ele gostava, ficava espiando jia e tendo pena de jia e qualquer coisa com jia. Lá com as vistas abertas. Quer dizer, agora que foi todo mundo, só resto eu e então. Repare aquele mato brilhando azul. Diz que é mato? Não, diz que é alma, diz que é luz de defunto, diz que é caipora pitando, diz tudo, mas não é, e é um fogo frio que só eu sei, minhas estrelas. Pode compreender, eu estou no céu e vosmecê está no inferno, não adianta. E eu não preciso nem comer nem fazer nada, daqui nós vamos. Se eu quiser, pego a Bandeira do Divino e seguro em riba e uns apitos que pode se fazer de ta¬quara, mas vosmecê nem sabe o que é taquara, esses apitos para chamar o Exércio dos homens machos donos dessa terra, tudo uns campiãos e sempre fazendo guerra, tudo uns santos. Aí é que eu quero ver quem vai falar. Eu era sargento, veja vosmecê, do enfiador do sapato até o emblema. Bom, então me olho e digo: você é um macaco, coisinha, isso é o que você é, mestre. Então não sou mais macaco. E em vez de ficar aqui olhando esses flagelados, essas levas, esses libombos, chupando mamãe de luana sem mais nada e vendo o mundo passar, em vez disso que se podia ter? Se podia ter, para provar que vosmecê não presta, nem sua laia presta, se podia ter o meu Exércio nova¬mente, que eu vou chamar esse Exércio outra vez e a terra toda vai ver, porque, quando juntar aquele mundo de homem e bicho, aquele Exércio, ninguém ganha mais, e a gente toma conta e eu vou fazer meus filhos na lua. O que é que eu fiz até agora? Nada. Eu não era eu, era um pedaço do outro, mas ago¬ra eu sou eu sempre e quem pode? Eu vou lhe levar, peste, até o meio de Aracaju, lhe levo na Rua João Pessoa de coleira e vou dizer: se eu quiser ser governador, eu vou ser governador e quem quiser que se acerte com o meu Exércio, que quase que nem cabe no Estado de Sergipe. Tomando de Canindé de São Francisco até Brejo Grande, beirando o rio e entrando mais para dentro vem os alemãos brancos do comando de Porto da Folha e os brabos de Própria, Primeiro Regimento dos Encourados, que faz uma fileira de quatrocentos homens por fila e é tanta fila que não se pode contar, tudo amuntado nuns cavalos pequenos de cabeça buliçosa e que as patas cavam no chão e sai fumaça das ventas no tempo frio. Esses tem lanças, carregando as guia¬das no braço direito e desce como uma arribada, uma estourada pela riba do capim panaço e do que mais tiver na frente, não tem força que possa resistir. De cada lado, vem uma fileira de trombeteiros assoprando numas trombetas de aço que nem vinte homens dos daqui pode levantar e com essas trombetas to¬cando todos homens na frente desaparece e as mulheres que vão ter filho o filho encrua e não nasce, por causa dessas trombetas. E é uma raça forte, que quando tem come cuscus com leite, quando não tem come bró e se sustenta. Comandada pelo Capi¬tão Geraldo Bonfim do Cansanção, que o cavalo anda mais do que o vento e que fuzila um homem a duas léguas e que quando chove desafasta as nuvens assoprando e no combate só perde para mim, porque já ganhou de São Jorge e botou o santo cor¬rendo no prado, dando uns berros de santo e pedindo misericór¬dia. Esses tem gibão, perneira, colete, joelheira e guarda-pé de couro ruço e empoeirado e nada fura aquele couro, possa ser qualquer peça ronqueira, possa ser o que vinher. São Jorge des¬ceu uma certa feita para salvar um homem que o Capitão Geral¬do ia sangrar, por ele ser ruim e um prejuízo e disse ao Capitão: esse homem é meu devoto, me faça vosmecê o favor de soltar ele e ainda reza umas penitências para desfazer o malfeito. Então o Capitão Geraldo, com o pé na goela do ordinário, tirou o cha¬péu, atufou a cabeleira loura para trás, se benzeu e disse ao santo: o senhor é um bom santo, merecedor de respeito e se fosse em outra ocasião eu estava disposto a receber a vontade de Vossa Santidão, mas esse homem aqui não merece preocupação e além do mais me deu trabalho de correr pelêsse descampado para laçar ele e o senhor queira me desculpar, mas esse vivente daqui vai ser sangrado e é agora. E dito isso fez uma careta tão medonha que um pé de árvore que estava de junto foi logo murchando. O santo disse: taí, é o primeiro homem que me fala assim e não gostei dessa fala, de formas que eu vou pegar minha lança e vou lhe esbuchar, e é agora. E esporeou seu cavalo avoador e foi de lança para o Capitão Geraldo, mas ele segurou a lança e arreganhou uns dentes tão lustrosos para o cavalo do santo, que o cavalo passarinhou. Ôi, santo, disse o Capitão Geraldo, vá desculpando, e encarcou a lança na perneira e sen¬do a perneira daquele couro duro, a lança partiu em vinte e três pedaços, e o santo não teve mais nada o que fazer e so¬mente disse: está maluco, homem? Endoidou? Estava não, mas fiquei, disse o Capitão Geraldo, e arreganhou mais os dentes ainda e tirou uma lambedeira de dois metros da cintura o cujo aço era tanto que dois homens dos bons não agüentava carre¬gar, e disse ao santo, ciscando o ar: o senhor é São Jorge, mas Deus me perdoe se com esse espinho de Santo Antônio eu não fizer uma miséria, se Vossa Santidão não sair desse Estado nestante. Vendo dessa forma o seu cavalo amofinado e a sua lan¬ça partida, o santo foi só virando no calcanhar e se meteu num arrastador com o Capitão Geraldo atrás e foi uma corrida que durou dois dias e meio, por cima de terra, água e macambira e o que viesse e o Capitão tirando faísca do chão com sua faca de arrasto, que de tão amolada tirava gemido do ar. De vez em quando, chegava perto do santo, mas aí o santo olhava para trás, empinava a cabeça e se picava, esbagaçando os matos pelo ca¬minho e levantando folha e galho por tudo quanto era canto, ficava aquelas folhas e matos boiando nos ares e uma barulheira de galho quebrado pelo campo. Acabou o santo se escon¬dendo atrás duma nuvem e o Capitão Geraldo deixou de lado, foi para casa, matou um bezerro e comeu e palitou os dentes com as costelas. O santo correu quase que de Porto da Folha a Siriri e até hoje tem aquela nuvem lá, que é para ele se esconder, se o Capitão Geraldo Cansanção aparecer novamente por lá aperreado da vida. O Segundo Regimento dos Encourados parte da quina de Nossa Senhora da Glória, por cima de Carira e Frei Paulo, até Socorro, e essa força é comandada pelo Major Jacaré de Carira, assim chamado porque tem mais dente do que um jacaré e a boca maior e gosta muito de dar risada e dizem que não tem pai nem mãe, nascendo de dentro de uma ipueira, donde saiu todo armado, na mão esquerda uma cruz de mandacaru, na mão direita uma foice de prata e quem estava na beira da ipueira ele foi logo degolando com a foice, para mostrar quem era o comandante daquelas terras. Esse regimento tem diversos tenentes dos melhores, e todos vestidos de couro ma¬lhado de preto e branco e que por mais que tome pó nunca avermelha nem encarde. Muitos vão no combate amuntados em bois e na hora do encontro se a arma cai arrancam os chifres dos bois e chifram os inimigos com aqueles chifres todos entortados, pretos e compridos. Foi o Major Jacaré de Carira que venceu duzentos batalhãos de baianos que passaram a fronteira, e o Major foi vencendo baiano, vencendo baiano, e a baianada des¬pencando e ele aproveitando para fazer um roçado que foi de Itabaiana até Poço Redondo e esse vai ser sempre o roçado dele, quando o Exércio avançar e tomar as terras. E esses com¬batem com gritos, que é para os inimigos amunhecar só de ouvir o alarido. É como se diz: se olhando-se a Serra do Quizongo, nada se vê-se, só que de repente o chão principia a estrondejar e sair fumaça de trás dos montes e aquela fumaça vai subindo, vai subindo, quando se não é o Major Jacaré de Carira que está naquelas bandas e vai destabocando pela serra em baixo seguido pelos seus cavaleiros e onde vai passando vai arrancan¬do os pés de árvore e desassombrando. Ou assim: quando o rio Morcego está cheio e todos estão desprecatados, ouvindo as águas desaguando e sentindo o cheiro da terra molhada e aguar¬dando tanajuras e qualquer coisa nesse sistema, quando é que me pula de dentro do rio o Major Jacaré com os peixes tudo saltando pela barba dele e quando ele sai levanta uma ôndia que o rio fica maior do que o São Francisco e depois seca de medo e toda a terra esturrica, isso até o Major dar uma risa¬da e se embrenhar nos matos e nisso o rio vai voltando, vai voltando, até voltar com todos os seus peixinhos. E quando teve a guerra iam mandar esse povo do Major Jacaré para a guerra, mas veio o americano e disse: não me mande esses ho¬mens do Major Jacaré aqui, que não sobra nada e aí não manda¬ram e a guerra demorou mais. O Terceiro Regimento dos Encou¬rados parte mais ou menos das beiradas de Simão Dias, fa¬zendo ziguezague até Barracão, de lá para Estância e Indiaroba e outros lugares, e esse Comandante é o Capitão Rosivaldo da Silva com Onça, que foi criado pelumas onças, mas depois teve que sair ainda menino, porque as onças não podiam com ele, por¬que com dois meses de idade ele já pintava os canecos e inclusive num dia que estava muito azuretado armou um quebra-pé no chão que afundou duas dúzias de boiadas, buraco esse que ele cavou só com as unhas, porque nem dente tinha ainda, para mas¬car as pedras que aparecesse, e depois foi vaqueiro muito tempo. Quando baixava um boi, a mucica era tão forte que o boi entrava pelo chão e tem diversos plantados pelo chão que ele andou, isso das mucicas que ele dava, e às vezes cocorotes. Quando parou, vinha numa mula de padre, mas dava muito trabalho para criar e ele soltou a mula com muito desgosto, mas até hoje, de vez em quando, ele chega no mato e chama a mula e os dois ficam prosando muito tempo e às vezes ele amunta e passa vinte dias nos matos passeando com a mula, quando é depois volta muito do satisfeito. Esse regimento combate vestido de cou¬ro de onça, e o Capitão Rosivaldo anda de couro de onça pin¬tada, com a cabeça da onça em cima do chapéu e uma flor vermelha dentro da boca da onça, carregando como arma um ca¬nhão pequeno que ele usa debaixo do subaco e que destrui mil e duzentos homens com cada tiro bem encaixado. Teve uma certa feita que o Capitão Rosivaldo estava lutando com mil e duzentos homens e por mais que lutasse não conseguia matar mais do que quarenta e dois por minuto, de formas que de repente ele disse: macho não briga assim de bolo; macho briga com ordem; façam fila aí, que eu recebo vosmecês um por um. Aí eles fizeram fila e o Capitão Rosivaldo levantou o canhão mais do que de¬pressa e deu um tiro só e não ficou nenhum inimigo em pé e ele voltou para casa muito ancho, assobiando uns assobios de chamar onça e veio foi onça nesse dia festejar. Só que as onças ficaram se queixando por não pode comer aquela força de homem toda, isso porque quem estava ali no chão tinha virado poeira ou então papa e muitos tinham ido parar no Estado das Alagoas, com a força do tiro de canhão, e diz que choveu cabra safado no Maranhão nesse dia, tudo em fila como tinha sido combinado.
Pois, dando no juízo fazer isso, eu pego uns apitos e umas cometas e chamo esse meu Exércio que eu sou Comandante e entro em Aracaju com vosmecê numa parada, com o chão chei¬rando a folha de pitanga e não deixo nada no caminho. Isso tudo são machos, isso é que eles são.
VIII ESSE RIO tem pouca água, menas água do que os outros rios e bem menas água do que o rio São Francisco, mas posso lhe dizer que é bom rio. E se vamos aqui é porque eu inventei de vim pelaqui, acho que de Santo Amaro deslizemos pelo rio e es¬tamos chegando logo na Barra dos Coqueiros. De lá espio Ara¬caju e fico lá olhando, curtindo raiva, e uma bela hora arrasto isso para lá, jogo no meio da rua, faço a entrega e espero. Entreguei, cambada de capadoços, entreguei. Agora quero ver. An-bem, nunca pensei no que eu vou fazer depois, comigo agora não tem depois. Rio safado, já vai ficando salgado desde ionge, fica como que um mar, isso é o que me reta, porque, no direito, sendo rio Sergipe, devia de empurrar essa maré toda para dentro até ela gritar chega. Mas não, vai salgando, vai salgando e até faz umas ôndias de mar e fica azul. Não gos¬to dessa água toda. Bem que gosto mas é às vezes de ver de cá os costados dos balaústres dos cais de Aracaju e essas casas de porta grande que tem do outro lado da rua da Frente e uns caminhãos ou outros e às vezes um navio. Se vai-se na¬vegando, se vai-se vendo a cidade chegando. Tem um pedaço que se pode sentir o cheiro da feira e essa barra, que só se vê coqueiro. Eu que digo, antes de chegar na água salgada, com bem umas cinco ou seis léguas da saída, antes disso é um rio bom. Não é um rio como o São Francisco, que é um espotismo e essas canoas e esses barcos que nem se compara com as canoas e os barcos de lá, porque a canoa do São Francisco é alta e forte e cabe centos coisas dentro. Defronte de Penedo, pode dar voltas o São Francisco, que as voltas não é de fraqueza, é de capricho mesmo, e tem a hora das cabaças, que as mulheres vão no rio e lá se pesca camarão com uma estôpa e tripa de galinha ou qualquer coisa. Pode ficar sentado na beira, com aquela estôpa e trazendo camarão, que é farto lá, e os meninos pegam tanto camarão que os grandes ficam enjoados. Também possa ser piranhas, que uns lugares tem, outros lugares não, com um dente que corta o fio de aço e uma malvadeza por demais. Aquilo quando pega um animal que cai dentro do rio junta mais de mil e vai rebuliçando e entrando por debaixo do couro do bicho que só se vê estufar e tudo junto faz um barulho chiado quase que como uns passarinhos. Logo fica a carcaça escarnada, é uma limpeza, e aquilo o rio vai deixando, vai dei¬xando e de repente vira um pedaço do rio, uma pedra cheia de limo, um chão e uma lama, e as piranhas nunca mais se vê até que outro animal entra e elas fazem a limpeza outra vez. Eu que não sou de lá, mas tive de visitar Passagem muitas vezes, eu que não sou de lá, não entro no rio: chego nas partes bai¬xas de bota e boto a mão no queixo e assunto aquela água amarela um tempão. Uma água que nem parece que é a maior do mundo, como o São Francisco é, separando Sergipe do resto em riba, como o Real separa o resto em baixo, e fica Sergipe in-teirão aí. E depois o São Francisco vai para todo o Brasil e enche tudo e carrega as terras até o ôco do mundo, quase que não pode existir coisa mais importante. Muitas vezes, quando faz lua, o rio prateia, mas não é sempre, mas às vezes prateia e pode se olhar aquilo como uma fita, escamando e luzindo. Qualquer barulho que se faz se ouve, um homem andando na beira molhada, quando ela é baixa, um mourão encostando e desencostando na borda da canoa ou uma mulher falando até bem longe, e temos aquele sossego grande, às vezes um grilo ou outro, às vezes bastantes sapos, mas só. Agora, esse rio daqui tem suas boas coisas, passando nessas boas terras e fazendo essa confusão de água aqui, desde Maruim, mais ou menos. Não sei nem aonde começa o peste, porque de repente pode sumir e só pega mesmo força aqui por perto, e aí entra e sai e sai e entra e salga e é um negócio, qualquer um pode ver. Agora, esse povo de beira de maré é uma coisa ruim, está acostuma¬do com facilidade: mete a mão no mangue e tira um sururu, tira um gaiamum, tira um aratu, tira umas ostras, e come. No outro dia, está pensando o que? Nada. A maré nunca seca, nem a lama nem essas gaiteiras estralando aí com esse barulhinho de mangue, que quando a gente vai entrando a gente vai ouvindo e toma até susto. Aí sai tudo de novo, vai lá dentro do mangue, pega um sururu, umas ostras, um gaiamum e come e pode dormir. Em Aracaju, atrás da igreja de São José, atrás do Carro Quebrado, tem um rio pelo nome de rio Tamandaí, um bicho imundo, bicho porco desgraçado, que quando se entra nele se «ai com uma barba de lama. Apois, atravessando o apicum, en¬trando naquele mangue, se vê uma ruma de gente com uma va¬rinha, pegando siri no rio Tamandaí. E tem umas capineiras altas, aonde a terra é mais seca, que se acha gente fazendo qual¬quer pior tipo de descaração. Povo de beira de maré é isso, come e faz senvergonhice, tudo tem um renque de filho que é uma enfieira, porque é tudo na facilidade. Então fica tudo ordi¬nário, falador e testemunha, não vale nada, nunca tem de pensar no outro dia, e isso não é bom. Eu mesmo não gosto dessa raça, não suporto, fico sem jeito e vou me raspando, vou saindo, pre¬firo ir ficando .nos meus. Então já estão fazendo uma revirada lá em Aracaju e eu vou sair de noite pelo rio, que eu sei que estão me esperando em Aracaju e eu não gosto de homem me esperando, que não assenta. Então: vão me esperar por terra em Aracaju. Aí eu chego por água na Barra dos Coqueiros, para ver como é que está tudo e de lá eu atravesso e levo a carga. Aí tem quem me segure. Posso lhe dizer: seu eu quiser, atra¬vesso essa merda andando. Se eu quiser, bebo essa água toda, seco o rio e vou a pé, só que o diabo da água é salgada e não é fácil. Em Aracaju, tem quem atravesse nadando todo dia, tem uma mulher chamada Rita Peixe que faz isso, para mim ela é maluca e o irmão dela também, onde já se viu mania de atra¬vessar uma largura dessa nadando todo santo dia, desta. Bom, possa ser que eu mande vosmecê nadando, isso possa ser, por¬que com a sustança que vosmecê está vai ser uma festa, não chega nem na beira. A gengiva deve de ir bem, essas alturas, hem? Ora, um serviço bem feito desses, nem pagando se encon¬trava melhor. Chegando lá, chegando bem de manhã, vamos ver tudo côr-de-rosa, com o sol nascendo. Se eu quiser, eu mando parar de nascer o sol, mas não quero laçar o peste hoje, deixe ele. Pois então. Chegando logo de manhã, fico com o dia todo para pensar e ficar lá. Posso lhe ancorar dentro do rio, para os siris ficar lhe pegando os pés e vosmecê vai ter que ficar dan¬çando, que é para os bichinhos não se fartar. Mas não faça isso, que vem logo gente ver o que é, esse povo não pode ver nada que não pergunte o que é, de formas que, chegando de manhã¬zinha, encostemos na praia, passamos naquela lama e aguarda¬mos. Podia descer logo em Aracaju, com a raça toda me esperando lá, mas não desço. Não pense que eu tenho medo, porque medo é uma coisa que um macho como eu não tem, nunca teve, nunca vai ter, nem nunca ia ter. Medo de que? Duns inquizilados que tem lá e duns praças de beira de praia, tudo tremendo, que nunca viu ação. Porque eu com uma mão amar¬rada num pé almoço todos eles, porisso que não é medo. Mas, na hora que chegar, pode ter uma mortalidade muito grande e aí se atrapalha-se as coisas, porque até vosmecê pode receber D seu, no melhor do gosto, e vosmecê não vai assim, não. Vai até a casa do chefe, que eu quero levar e quero olhar a cara dele e dizer: olhe aí sua encomenda, pode fazer o que quiser; por mim, pegava esse ordinário e aplicava um merecido logo, que aprontava as coisas, mas não tenho nada com isso mesmo. É isso que eu quero fazer, e quero botar as vistas bem dentro das dele, que é para ele dizer na minha cara que não mandou buscar e aí eu digo a ele: quem o senhor mandou em Paulo Afonso, que eu me lembro, aqui mesmo nessa sala, quem o senhor mandou em Paulo Afonso, numa noite aqui nessa sala mesmo, eu, Getúlio Santos Bezerra, tomando um vermute ver¬melho aqui, quem o senhor mandou para Paulo Afonso para buscar esse criaturo, não foi nem eu. Possa ser que ele diga oxente Getúlio, mas você não recebeu o meu recado, que é isso, Getúlio, vá sentando aí e vamos resolver esse assunto, você é meus pecados, seu Getúlio. Uma coisa dessas. Eu digo: o senhor não entendeu o que eu falei. Eu falei que o homem que o senhor mandou em Paulo Afonso — e me diga logo, mandou ou não mandou? me diga logo, me diga logo! Mandei, Seu Getúlio, mas a coisa correu diferente, vamos conversar. Apois estou lhe di¬zendo que o homem que o senhor mandou em Paulo Afonso, numa noite aqui nessa sala mesmo, tomando um vermute, aquele homem que deixou o quepe pendurado nas costas de uma ca¬deira e pediu permissão para desabotoar a túnica e o senhor deixou e seu filho ficou olhando as duas cartucheiras e eu pedi um copo dágua e ele chamou a empregada e eu tomei água e até na hora a barriga me cocou do lado e eu fiquei cocando e escutando, depois que bebi a água. Aquele homem que o senhor mandou nessa condição, no hudso preto com Amaro, que nem estava lá na hora e estava dormindo na Chefatura ou olhando os crentes na Rua Duque de Caxia, que ele apreciava os cantos dos crentes, eu acho, pois então, aquele homem que o senhor mandou não é mais aquele. Eu era ele, agora eu sou eu. Hum, seja homem, sustente o seu, que eu sustentei o meu, tome seu pacote e não rode essa manivela desse telefone para chamar nada, que não adianta, porque eu vou atravessar essa porta, com sua licença, estimo recomendação a seus parentes, muito agra¬decido por tudo, qualquer coisa estou às ordens, ainda não sei aonde, muito prazer, passe bem, muito obrigado, viva nós, qual¬quer coisa estou na sua disposição, agora aquele cabo na porta é melhor que ele não me pare, estou lhe dizendo, doutor, não sou mais aquele que o senhor mandou para Paulo Afonso, eu era ele e agora eu sou eu. Isso mesmo eu digo com as vistas nas vistas dele e lhe deixo lá, amarrado e sem dente e com minha cara de cinza e com minha mulher de lua, vou no mundo. Eu moro no mundo mesmo, pronto. É porisso que eu paro aqui e fico aguardando a melhor hora. E mais, quero espiar bastante Aracaju. Eu nunca me dei bem com Aracaju, de verdade. Quan¬do estava assim sem nada, tomava o bonde circular e ficava dando umas voltas até cansar ou então ficava na Chefatura jo¬gando pio com quem aparecesse ou prosando com Giba, que era um investigador que tinha, com uns oclos pretos e meio capenga. E era só. Ou então ia para a Casa do Chefe e pegava um pirão e ficava lá, ajeitando uma cerca, comprando umas coisas na rua ou ensinando um cachorro grande que tinha lá, ou contando his¬tória de trancoso ao filho dele. Mas logo que podia, ia embora para dentro de Sergipe e lá ficava, que prefiro muitíssimo. Quero ficar olhando muito Aracaju, curtindo minha raiva e pensando em minha vida e querendo saber o que é que faz tanto povo lá, amuntuado lá, naquelas ruas grandes. Quando eu falo, ninguém entende lá, quando um fala lá eu não entendo. É, depois disso, nunca mais eu piso lá. Eu não tenho nada, tenho as minhas armas e a minha cara de cinza e tenho essa terra toda. Isso eu tenho, essa terra toda eu tenho, porque quem me pariu foi a terra, abrindo um buraco no chão e eu saindo no meio de umas fuma¬ças quentes e como eu outros ela sempre vai parir, porque essa terra é a maior parideira do mundo todo. Quer dizer, esse povo de Aracaju não sabe, nem nunca vai saber, só eu que sei o que tem nessa terra toda e posso correr por cima dela com o vento na cara, nas águas e no chão. Eu não tinha nada o que fazer aqui da primeira vez, nunca tive. Tinha minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso tinha também, e vivi, e se me per¬guntasse quer viver uma vida comprida amotinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu res¬pondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão. Que trouxe uma mortandade para os inimigos, que não traiu nem amunhecou, que não teve melhor do que ele e que sangrou quem quis sangrar. Agora eu sei quem eu sou.
Aquela força que vem, coisa, aquela força que vem pelo rio atravessando, pode se ver os fuzios apontando para cima e está se vendo que ninguém pensa que vai me pegar fácil, por¬que senão não vinha tanta gente. Todo mundo sabe que eu vou dar testa, aviu vosmecê? E só vem fardado, veja bem, coisa, não vem um paisano para remédio com certeza, só vem mesmo os mandados, os mandadores não vem. Antes que eles queiram me acabar, coisa, eu ainda sou capaz de lhe arrastar sete vezes pela beira dessa praia de lama, indo e voltando, e arrasto o coman¬dante dessa força e mais quantos praças chegue perto. Não vejo nem a cara, coisa, e não quero conversar, acho que não carece conversa agora, carece atividade. Aquela força, aquela força, coisa, é uma fraqueza, e daqui mesmo, com vosmecê amarrado aí no coqueiro que é para ver um macho lutando, o que vos¬mecê nunca fez na vida, trempe, aquela força é uma fraqueza, venha de lá fraqueza do governo, me solto, me destaramelo, me vou e é assim mesmo, na idéia umas lembranças, na mão uns bacamartes, nos pés uma fincada, minha vida e a laranjeira morta e a lua que Luzinete mora, espie aí, coisa, é uma fraqueza e miles homens desses é como nada e como eu tem mais aqui, essa é uma terra de macho, viu, traste, e a terra que me pariu vai me vomitar de novo, quantas vezes me enterrarem, quem tem amigo nesse mundo, ôi Amaro, viu Amaro, olhe quês jias bran¬cas nos tijolos do chão, não estremeça, trem, veja que terra essa, com a morte deslizando pelo rio, as caras deles nem se enxerga, mas veja que terra essa, com nós aqui plantados no chão, não semos a mesma coisa? não semos a mesma coisa? é engraçado como vem esses homens e esses homens nenhum está pensando nada, porque todos estão somente sentindo, veja bem, eu sinto, eles sentem, tudo sente, olhe essa água salgada, sujeito, que veio de lá de dentro dos matos de Sergipe e vai chegando devagar, Morcego, Cotinguiba, Jacarecica, Ganhamoroba, Poxi, Pomonga e o Vazabarril e o Piauí e o Itamerim e o Siriri e o Japaratuba, veja, coisa, é até bonito essa água vindo de lá de dentro, isso tudo não é uma coisa só? a minha cara de cinza, o meu cabelo de terra, a minha bota de couro, a minha arma de ferro, hem, coisa? não semos tudo o mesmo? agora não muito, porque eu sou eu, Getúlio Santos Bezerra e meu nome é um verso que vai ser sempre versado e se tem lua alumia e se tem sol queima a cara e se tem frio desaquece, ai dois bois de barro e uma caixa de fósforo e um garajau cheio de barro, aboio eu abóia tu, hem Amaro, ecô, ecô, nós que semos marinheiros larguemos a grande vela porisso que puxemos ferro, olerê, larguemos a grande vela, olhe aí, Amaro, eu sou maior do que o reis da Hungria, no dia dois de fevereiro tem uma festa em Capela, hem coisa, sabe onde Capela fica? sabe onde Capela fica, sabe onde Capela fica, e onde fica Capela? e onde fica Salgado e onde fica Largato? e onde fiquemos nós? ôi, lá vem eles, assunte, e tão devagar que não se sente, em casa tem todos uma mulher e um cuscus e uns inchadinhos, veja bem isso, cada dia se pare mais nessa terra, é assim uma fortaleza de gente aparecendo nesse mundo de meu Deus, para que isso, hem? e eu sendo eu, sendo eu, quando eu era menino eu comi barro e entrei por dentro do chão, comendo barro, cagando barro e comendo de novo, ôi coisa, olhe a vida, lá vem a força, em Japaratuba tem umas canas e o canavial é louro, louro como uns portodafolhenses e quem nasce em Muribeca é muribequeno ou muribequeiro, hem Amaro? quando eu entrei em Luzinete, entrei e fiquei, minha santa santinha, na lua, minha santa santinha e umas bombas de banana que jogou nos cabras, por que a gente não dá umas risadas, coisa? que é que está vendo aí, coisa, o chão? isso tudo é um verdume só, coisa, quando chove e quando não chove é uma amarelidão, mas vos¬mecê pode se jogar no chão que não tem perigo que ele lhe abraça, talvez até lhe coma e você vire um pé de pau ou tu vire um gaiamum ou vossa excelência vire numa pedra, isso pode crer e mesmo quente com a chuva esfumaçando, mesmo assim ele lhe abraça e pode ficar lá, porque aonde é que vai ficar mesmo, tem que ficar no chão, já chorou uma certa feita, coisa? de fora para dentro não, mas de dentro para fora, nos repuxos e cavando lá de dentro? eu mesmo não, mas possa ser que chore agora, porque eu estou com um pouco de vontade de chorar agora, seu coisa, seu traste, seu trempe, possa ser que eu chore agora, visto que não é que eu tenho medo, eu não tenho medo nem de alma, mas eu posso chorar porque eu nunca falei com aquela força fraqueza nem vou falar e tem tanta coisa que eu não pude fazer porque eu não sabia e o mundo inteiro parou aqui, hem Amaro? veja essa água e essa beira de rio, com esse barulho aí de leve noite e dia, veja essa água e Aracaju e a ponte do imperador, veja esse povo vindo atravessando de barco atrás de nós e carregando as armas apontando para cima e aquele navio parado ali, nem sabe o que está se passando, tem uns homens lá jogando dominó e pensando na vida, mas porém o destino está dando volta, hem Amaro? lá na lua e pode crer que eu estou vivo no inferno, lá na lua está Luzinete e essa força se atira eu também atiro, ô minha lazarina, ô meu papo amarelo e um mandacaru de cabeça para cima eu vou morrer e nunca vou morrer eu nunca vou morrer Amaro eu nunca vou morrer um aboio e uma vida Amaro aaaaaaaaaaaaaaaahhh eeeeeeeeeeeeeeeh aê aê aê aê aê aê aê aê aê aê ecô ecô aê aê aê aê aê eu nunca vou morrer Amaro e Luzi netena lua essas balas é como meu dedo longe e o lhelá Ara eu vejocaju e a águacor rendode vagar e sal gadaela éboa nun cavoumor rernun caeusoueu, ai um boi de barro, aiumboi aiumboide barroaê aê aê aiumgara jauchei de barro e vidaeu sou eu e vou e quem foi ai mi nhalaran jeiramur chaai ei eu vou e cumpro e faço e
FIM
Fonte: livrosparatodos.net