Bem verdade que tinha havido grandes mudanças na vida de João Popó, desde a partida de seu filho Zé Popó para a guerra, de forma que a estranheza, apesar de grande, foi menor do que seria em outros tempos. Para começar, depois da partida o velho deve ter passado umas duas noites sem dormir de puro assanhamento, com os olhos arregalados como se tivesse bebido cinco potes de café, um verdadeiro corrupio para cima e para baixo, nas horas mais impróprias. Mandou chamar Coquinho Popó em casa de madrugada, deu-lhe um esbregue que durou até o amanhecer, disse-lhe que, se tivesse vergonha na cara, nunca mais pusesse os pés em lar que ele sustentasse e se preparasse para arranjar onde morar, porque ia ser despejado. Fez mais ou menos a mesma coisa com Labinha e Ostinho, deixou de se dar com Lafayette e, quando Candinha protestou, ameaçou dar-lhe uma surra de cipó caboclo, chegando a mandar o negro Boanerges ir buscar no mato uma boa quantidade. Franklin Popó quis defender a mãe e perdeu uma camisa nova, rasgada pelas cipoadas do velho, que o perseguiu de quarto em quarto, chegando até a pular a janela atrás dele, parecendo que tinha vinte anos. Voltando para casa, anunciou que não tinha perdido nada ali, que não considerava aquele povo uma família decente e daquela hora em diante ia morar com Iaiá Menina. Candinha disse que ia cortar a garganta, ele foi lá dentro, pegou a navalha, amolou-a caprichosamente na cortiça, experimentou o fio cortando um cabelo seguro apenas por uma das pontas e a entregou a ela, recomendando que fosse fazer o serviço lá fora, para não embostelar a casa toda com aquele sangue ordinário, incapaz de dar um filho que prestasse. Candinha desmaiou, ele reclamou que nem para se matar ela servia, mandou as negras arrumar suas trouxas e baús, fretou duas carroças e fez uma mudança espalhafatosa, levando até mesmo o piano e as estatuetas do violinista e da harpista que ficavam em cima dele, de biscuit e presente do finado Hermelindo, pai de Candinha.
Na casa de Iaiá Menina, pronunciou um discurso na frente dos negros e dos vizinhos, em que afirmou que ser amigado, em muitos casos, era melhor do que viver com uma legítima que só trazia atraso, mas não se metessem a bestas, porque ele estava ali exercendo seu direito de dono da casa e arrimo da família e não tinha de dar explicações a ninguém. De tardinha, nem bem terminara a mudança, mandou chamar Menina, disse que ia precisar dela logo cedo e, quando ela mandou recado por Laurinda informando que o reumatismo havia piorado, entrou no quarto abrindo a porta com um pontapé e disse que queria vê-la suficientemente lépida, até para bailar a polca, dentro de um quarto de hora contado em seu cebolão de ouro, senão ele curava aquele reumatismo na porrada.
E não se satisfez em ocupar Iaiá Menina dessa forma, mas pareceu ter incorporado o mais salaz dos diabos, pois não se passava dia sem que fosse aos dares e tomares com pelo menos uma de suas mulheres, às vezes duas, tal o fogo lúbrico que o incendiava todo o tempo e tal o priapísmo que lhe invadia os quartos à visão de qualquer fêmea, a ponto de anunciar a amigos, em tons fingidamente confidentes, que desejava que a própria Terra tivesse uma vulva, para ele possuí-la com seu vergalho invencível, que lhe trazia sentimentos épicos ao enfiar-se irresistivelmente pelas dobras das mulheres. Até mesmo ao Mutá ele deu de ir de vez em quando, para ver Maria Zezé. E Candinha, passada a primeira zanga, conservava na casa tudo o que ele deixara para trás, inclusive a xícara de porcelana, os chinelos ingleses e o penico esmaltado, do mesmo jeito a que ele estava habituado, de forma que, quando ele aparecia, podia sentir-se à vontade, antes de levá-la à cama, onde ela se benzia e fechava os olhos.
Só com Rufina Popó é que encontrou dificuldades, porque, mesmo ele fazendo visitas freqüentes, dando mais dinheiro do que jamais dera e elogiando tudo o que via e ouvia, ela não cedia, só cederia se houvesse os acertos pretendidos, ainda mais agora, que seu dela filho Zé Popó era a honra da família em figura de gente. João Popó não chegou a concordar quanto aos acertos, acenando apenas com um vago testamento que iria fazer no futuro próximo, mas prometeu que, quando o filho voltasse da guerra, as coisas mudariam. Mudariam, sim. E, já que as coisas eram assim, por que ela não...? Se assunte, respondia ela com um empurrão, aqui só com o papel na minha mão.
Essa atitude lhe causou nervosismo algumas vezes, a ponto de um dia haver parado à porta dela. bem no meio do Alto de Santo Antônio, à vista de todo mundo, e feito um dos maiores escândalos já presenciados em toda a ilha, tendo-se ouvido palavrões e xingamentos de tal diversidade que muitos deles ninguém havia escutado antes. Precisou ser seguro por seus filhos Geminiano e Vavá, e Dionísio, de todos o mais ferrado, chegou a ameaçar cair-lhe em cima de cacete, se tornasse a xingar sua mãe.
Então o comportamento de João Popó já não era tão inusitado assim, fazia, de certa maneira, parte dos acontecimentos cotidianos da vila. Mas agora que seu filho voltara herói, promovido a cabo, o peito coberto de medalhas, se esperava que João Popó mudasse outra vez. E era o que tudo indicava, ele vestido num terno preto resplandecente, chapéu novo, botinas novas. Lenço novo, tudo novo, esperando o navio atracar, trazendo de volta os que sobreviveram aos combates e às doenças, trazendo de volta o seu filho Zé Popó. Entre sirenes, apitos, serpentinas, gritos, clarinetadas, fanfarras e foguetes, João Popó quase carrega o filho no colo, levando-o, seguido por uma banda de música, para o Campo Formoso, onde a festa já estava pronta, a pracinha forrada de mesas, as mesas cobertas de comida e bebida. Durante quatro meses, trabalhara duramente num acróstico e, finalmente, no auge da festa, pôde declamá-lo triunfante, como chave de ouro para o discurso de saudação a Zé Popó. Que felicidade, que arrebatamento, que glória, ver Zé Popó respondendo às perguntas dos meninos sobre as medalhas que lhe coruscavam no peito, que dia indescritível! E continuou indescritível pela noite adentro e pela manhã seguinte, João Popó decretando feriado e celebrando em toda a vila, a própria imagem da felicidade e do orgulho.
Mas, agora, vergonha! Opróbrio! Vergonha! Desgraçado do sangue mandingueiro de Rufina, aquela peste ordinária! Nunca que a felicidade pode ser completa, mas já se viu? Zé Popó, cachorro, infeliz, miserável, doente, tinha que abater a felicidade do velho com aquela desfeita? Aquela desfeita, não, aquela ofensa, aquela agressão, aquele ultraje, aquele verdadeiro ataque! Aquela vergonha, vergonha, vergonha, para não falar no crime de lesa-pátria indubitavelmente cometido, para pasto e gáudio de seus inimigos e - por que não dizer? - dos inimigos do Brasil. João Popó arrepiou-se ao lembrar mais uma vez o acontecido, encheu de cachaça um canequinho e bebeu tudo, terminando com um estremeção.
A Sociedade dos Filhos da Independência Sete de Janeiro, reconhecida como de utilidade pública pelo Município e pela Província, foi criada com fins lítero-recreativos, colimando ainda o fomento dos ideais do amor à Pátria, do espírito público e dos valores mais acendrados da Nacionalidade. Na eleição para o biênio 1869-1870, venceu a chapa Liberdade, apesar da aguerrida oposição capitaneada por João Popó à testa da chapa Autoridade, cuja plataforma era um espinheiro de verrinas contra a dissolução dos costumes, o livre pensamento, as idéias republicanas e abolicionistas, a liberdade de religião e tudo mais quanto representasse o solapamento dos alicerces sobre os quais deve assentar-se uma verdadeira civilização. Corinto Mello, o presidente da chapa vitoriosa, era uma figura aparentemente inatacável, mas João Popó via na sua complacência para com certas novidades um extremo perigo, além de evidente desdouro para uma entidade que fora criada para conservar e não para mudar. Por um fio, sua proposta de modificação dos estatutos para permitir o ingresso de pardos não foi aprovada, requerendo de João Popó sobre-humanos esforços de eloqüência e arregimentação, para evitar que tal calamidade ocorresse. Onde estamos? - havia perguntado na assembléia geral. Em Sodoma e Gomorra? Nos reinos devassos do Oriente? Não consentiremos jamais que chegue o dia em que os destinos de uma agremiação que traz a Independência no próprio nome sejam regidos por escravos e filhos de escravos! Em muitas outras ocasiões, o espírito vigilante e combativo de João Popó se contrapôs ao reformismo de Corinto Mello, a ponto de as relações entre os dois terem ficado bastante estremecidas e as reuniões dos sábados à tarde se processarem o mais das vezes em atmosfera de exacerbada tensão. Assim, foi necessário que João Popó congregasse apoio até mesmo entre alguns membros da facção adversária, para a homenagem que queria prestar ao filho numa sessão especial. Argumentava-se que a homenagem devia ser a todos os ex-combatentes, inclusive os muitos mortos, mas João Popó contra-argumentava que o filho tinha sido de longe o mais condecorado, ditando pois a justiça que se simbolizasse nele a honraria. Depois de longas e pacientes negociações, em que João Popó se viu freqüentemente constrangido a cobrar dívidas atrasadas e exercer outras formas de pressão, chegou-se a uma posição conciliatória. A homenagem seria a todos, mas caberia a Zé Popó receber o diploma de honra ao mérito em nome dos outros e dirigir-se aos presentes, fazendo um pronunciamento sobre a Campanha, talvez até uma pequena palestra.
Pequena palestra esta que, cobrindo miudamente 56 folhas de papel almaço, João Popó já tinha preparado ao longo de meses de labor exaustivo, em que muitas vezes se sentiu febre e foi obrigado a levantar-se da escrivaninha, tamanha a exaltação que lhe vinha da narrativa das glórias brasileiras.
Já galopa desabrido o Centauro dos Pampas.
Sob uma saraivada inclemente de balas, ergue o peito majestoso e, diante de sua aparição magnífica, recobram nossos homens o ânimo vergastado pela sanguinolência da batalha.
Não é um homem. E um deus. Os olhos cintilando sob as abas adejantes do grande chapéu negro, saca da espada gloriosa e de seus lábios prorrompe, em voz forte e estentórea como os clarins do Triunfo, a ordem há tanto tempo ansiada: - A carga! De cada garganta estruge um brado, que reboa uníssono pelos campos.
É a tropa brasileira em sua arrancada invencível.
Já não marcham; correm. Já não correm; atropelam, abalroam, vão de escantilhão, nada consegue detê-los.
Rola pelo chão um corpo ferido.
E um camarada que cai no campo de honra! Uma vida ainda em botão, ceifada pelo horror da guerra! Entretanto, o combate prossegue, atroz, tremebundo, a cada instante reclamando novas vidas para imolar no altar flamejante do deus Marte. Soa a corneta...
Mas não houve jeito de Zé Popó querer ler o que o velho escrevera, por mais patéticos que fossem os apelos. Se lhe convinha, acrescentasse alguma coisa, desse um toque pessoal aqui e ali, mas como esperdiçar um trabalho daquele quilate, em que estava tanta pesquisa envolvida, tanto esforço hercúleo de linguagem? Inútil. Zé Popó se manteve firme e, assim, em sua tarde de sábado engalanada, João Popó, apesar dos sorrisos e do peito empinado, não podia negar a si mesmo que estava um pouco apreensivo ao entrar no sobradão da sede da Sociedade.
A vergonha se instalou logo no início da cerim8nia, porque Zé Popó se recusou a tomar assento no lugar de honra que lhe haviam destinado e cuja instalação tanto custara ao pai. Declarou que não via motivo para sentar-se em lugar diverso do de seus companheiros, que tinham tanto merecimento quanto ele e, além do mais, o merecimento na guerra nem sempre é reconhecido onde realmente se manifesta. João Popó não deu o braço a torcer, chegou a aplaudir as palavras do filho, mas evitou o olhar de Corinto Mello, que devia estar muito satisfeito com aquilo.
A vergonha aumentou quando, depois da entrega do diploma e das saudações, uma do presidente, outra do orador oficial, Zé Popó foi conduzido à tribuna e, em vez de entrar direto no assunto do dia, disse, em tom destituído de grandiloqüência, quase chocho, que não sabia sobre o que falar. Que desejavam ouvir? Não imaginassem que a guerra era feita por pessoas diversas das que estavam ali. Pelo contrário, dos praças aos marechais, era feita por pessoas como as que estavam ali, o mesmo homem que trabalha na paz trabalha na guerra. Se quisessem, contudo, teria boa vontade, embora às vezes as palavras lhe custassem e não soubesse usá-las com propriedade, em responder às perguntas que porventura lhe quisessem fazer.
Baixou pesado silêncio no salão, as pessoas mexendo os pés e olhando para o soalho, alguns pigarros, algumas mudanças de posição ruidosas, cadeiras arrastadas, tábuas gemendo. João Popó sentiu as orelhas quentes, olhou em redor, não viu ninguém com cara de quem queria fazer uma pergunta. Seria tudo um grande fiasco, um xabu, uma vergonha. E se o filho de Políbio, que era metido a poeta e letrado, resolvesse fazer um improviso e tomar de Zé Popó todo o destaque? Humilhação! João Popó olhou para o filho de Políbio, achou que ele estava construindo o período de abertura de seu discurso, tinha a expressão perigosa de quem arruma na cabeça orações intercaladas. Não, não, aquilo não podia acontecer, e João Popó começou a levantar a mão para pedir a palavra. Já que a coisa chegara àquele ponto, ele assumiria o controle da situação, leria a palestra que havia escrito, felizmente a trouxera consigo.
Mas teve de fingir que a mão erguida era para coçar os olhos, porque Corinto Mello, depois de limpar a garganta com o punho pedantemente fechado sobre a boca, resolveu fazer uma pergunta, O salão se imobilizou, Zé Popó pôs as mãos na barra da tribuna, olhou com solicitude para a mesa da sessão.
Corinto Mello fez um pequeno preâmbulo em que repetiu algumas das melhores frases de seu discurso anterior, encostou nos lábios as mãos postas, respirou fundo e indagou de Zé Popó qual, entre todas as suas ricas experiências como herói da Pátria, a imagem que mais lhe ficara, a reminiscência que mais o perseguia, aquilo que mais se plantara em sua mente, e Zé Popó respondeu: as bicheiras. Sim, as bicheiras, falou com simplicidade. Em muitas partes do Paraguai e das áreas fronteiriças do Brasil, as moscas varejeiras eram tão abundantes que de início os homens passavam todo o tempo que podiam protegendo a carne, muitas vezes preciosa e rara. Mas depois desistiram de uma luta que sempre perdiam e se acostumaram a carne bichada, coalhada de larvinhas esbranquiçadas, se acostumaram a tudo bichado, muitos se acostumaram até a comer as próprias moscas, ou engoli-las com quaisquer líquidos que ingerissem, pois elas enxameavam em tudo. Em conseqüência, os feridos, mesmo levemente, transformavam-se aos poucos em viveiros de larvas, bicheiras ambulantes. Usava-se como remédio a lavagem com clorato de potássio, mas não era comum encontrá-lo, de forma que alguns camaradas foram comidos vivos, seus corpos, seus rostos, suas vísceras cevando aqueles bichinhos, causando-lhes no início comichões que os levavam a arrancar nacos de sua carne apodrecida e depois dores fortíssimas, que tinham de arrostar na solidão, pois que nem os médicos se aproximavam deles. Mais de uma vez Zé Popó tinha visto companheiros com as caras semi-devoradas, bichinhos formigando nas bochechas, nos olhos, nos ouvidos, e por isso essas bicheiras eram talvez a reminiscência da guerra que mais o perseguia.
João Popó, que precisou ser contido para não interromper o filho, não esperou que houvesse reação ao que tinha sido falado e imediatamente perguntou sobre qual era o sentimento que dominava o soldado na hora de combater pela Pátria, ao que Zé Popó respondeu: medo. Mesmo depois de muitas horas de combate, mesmo depois de anos de guerra, o que se sentia era medo todas as vezes. Combatia-se apesar do medo, porque o inimigo também tinha medo e porque os bons oficiais, que da mesma forma tinham medo, davam o exemplo, fingindo corajosamente não ter medo. Em certas ocasiões, o medo era tanto que os homens corriam espavoridos fugindo da luta, e isso aconteceu com os melhores soldados, de um e de outro lado. Por causa desse medo, a guerra se tornava pior, já que os homens se desesperavam por tanto ter de dominá-lo e cometiam, quando podiam, as atrocidades mais horripilantes até contra gente indefesa, como, aliás, tinha acontecido muito nessa guerra.
João Popó, muito vermelho, contestou o filho e apontou para suas medalhas, a maior parte concedida por bravura em ação. Perguntou, falando incisivamente e de olhos fixos na mesa diretora, se não era verdade, por exemplo, que uma das medalhas fora outorgada pelo salvamento de um oficial em circunstâncias de excepcional dificuldade, e Zé Popó respondeu: mais ou menos. Estava em Curupaiti, onde os aliados sofreram grande derrota e foram escorraçados pelo inimigo, e seu comandante, o Major Patrício Macário, empurrava os homens apavorados para a frente, acompanhado apenas por alguns soldados. A situação ficava cada vez mais difícil, com os paraguaios parecendo multiplicar-se por vinte a cada instante e os brasileiros em pânico, correndo para trás como aves sarapantadas. Ele próprio já pensava também em fugir, inclusive porque, em gritos desconexos, os homens que corriam anunciavam acontecimentos terríveis logo à frente. Perguntou ao oficial se não achava que deviam também escafeder-se dali e ele, vendo que não havia jeito para aquela situação, achou que talvez conseguissem reagrupar-se um pouco mais atrás. Nesse instante, foi ferido de raspão na testa e logo cegado pelo sangue que lhe escorria incontrolavelmente para os olhos, além de ter ficado um pouco tonto e cambalear. Em conseqüência, Zé Popó fora obrigado a ampará-lo um pouco e, no caminho de volta, defendeu-o contra duas ou três investidas, com sorte em todas essas ocasiões. Mas o major andara com os próprios pés, não deixara de carregar e usar a espada e, se Zé Popó o defendeu até conseguirem chegar a lugar seguro, não se devia obscurecer a circunstância de que também defendia a si mesmo. Não falava isto por modéstia, que nem sequer considerava uma virtude respeitável, mas por honestidade e porque queria que vissem que não existem homens especiais e que o herói pode ser qualquer um, a depender de onde esteja, do que faça e de como o que faz é interpretado pelos outros.
João Popó levantou-se, quis oferecer um adendo aos comentários do filho, entrou em conflito com a mesa, que lhe cassou a palavra, mesmo porque agora já havia outras perguntas, muitas outras perguntas. Pensou em retirar-se, hesitou, foi até a porta, assistiu ao resto da sessão em pé junto à saída, fazendo menção de ir embora todo o tempo, mudando de idéia e fixando O olhar no teto sem poder dar vazão à raiva.
Zé Popó havia sido ferido? Havia, sim, e o que podia dizer era que dava uma quentura enorme no corpo e uma sede medonha, uma sede como nunca havia sentido em sua vida. Mas, nesse lugar onde fora ferido, a água era fétida, pois retirada de poças onde apodreciam cadáveres, e certamente causaria cólera ou qualquer das outras pestes, como a bexiga, que matavam mais soldados que a metralha. Assim, recusou-se a beber água até o dia seguinte, quando o transportaram para um hospital, onde havia um pouco mais de limpeza, mas não muita, sendo comum que os feridos que podiam andar pedissem para não ficar nos hospitais de campanha.
Não tinha presenciado nenhum dos grandes atos de heroísmo de que tanto se falava desde que a Campanha começara? Tinha, sim, tinha visto muitos atos de valentia e coragem, em ambos os lados. Mas gostaria de dizer que não se podia esquecer que eram heróis todos os que suportaram o medo, a doença, a fome, o cansaço, a lama, os piolhos, as moscas, os percevejos, os carrapatos, as mutucas, o frio, a desesperança, a dor, a indiferença, a lama, a injustiça, a mutilação. Eram todos heróis e não nasceram heróis, eram gente do povo, gente como a gente da ilha e da Bahia, que também suportava muitas dessas coisas e mais outras, até piores, sem ir à guerra nem ser chamada de heróica. E também foram heróicos os paraguaios. Não tinha ódio aos paraguaios, nem achava que se devia ter ódio deles, pois lutaram pela sua terra como nós lutamos pela nossa. Também os paraguaios eram um povo, gente como aquela gente, gente como nós. Agora tinham sido dizimados e, nos últimos meses da guerra, praticamente só havia meninos em suas tropas, meninos sem barba e de fala fina, olhinhos espantados e valentes, muitos dos quais ele mesmo matara e ninguém lhe pedisse que se orgulhasse disso, nem tivesse boas lembranças heróicas. Teria orgulho, sim, e estava seguro de que um dia teria mesmo esse orgulho, se a luta e o sofrimento fossem não para preservar um Brasil onde muitos trabalhavam e poucos ganhavam, onde o verdadeiro povo brasileiro, o povo que produzia, o povo que construía, o povo que vivia e criava, não tinha voz nem respeito, onde os poderosos encaravam sua terra apenas como algo a ser pilhado e aproveitado sem nada darem em troca, piratas de seu próprio país; teria orgulho se essa luta pudesse servir, como poderia vir a servir, para armar o Exército a favor do povo e não contra ele como havia sido sempre, esmagando-o para servir aos poderosos; teria orgulho se essa luta tivesse sido, como poderia ser, para defender um Brasil onde o povo governasse, um grande país, uma grande Pátria, em que houvesse dignidade, justiça e liberdade! João Popó encostou-se na porta para não cair, mas quase foi , derrubado pelo tumulto que se formou, em meio a um coral desordenado de “apoiados”, “bravos”, “abaixos”, assovios, palmas, gritos exaltados, xingamentos.
- Viva o povo brasileiro! - gritou Zé Popó da tribuna, com o punho fechado apontando para cima. - Viva nós!
Capoeira do Tuntum, 13 de junho de 1871.
As almas e os espíritos às vezes zumbem. Não é bem que zumbam, é que, quando o ambiente está muito carregado deles, parece haver uma vibração atmosférica que, aos ouvidos dos indivíduos sensíveis, zune como um zumbido. Rufina do Alto, por exemplo, declarou logo ao chegar à capoeira que parecia haver um abelheiro em cada moita.
- Tá um anxame - disse ela a sua filha Rita Popó, que vinha junto dela, carregando a cestinha dos preceitos. – Diga a esse povo que tenha paciência, a trabalheira hoje vai ser grande, preciso pegar fôlego.
Tomou a cestinha, andou a passadas largas para a encruzilhada, farejando as almas que sabia estarem por ali, os cabocos e as outras entidades. Já antecipava o cansaço em que estaria no fim da noite, ficou um pouco de mau humor. Chegou à encruzilhada, se aborreceu por encontrar gente por perto, enxotou todo mundo com impaciência. Zumbideira desgraçada, não haveria outro lugar neste grande mundo para aquelas almas todas irem? Suspirou, acocorou-se junto ao cruzamento das duas trilhas, agora já tão pisadas que eram bem mais fundas que o terreno em volta, prendeu a saia entre os joelhos dobrados, começou a tirar suas coisas da cestinha devagar. O zumbido realmente a incomodava e, antes de beijar suas contas e se benzer com elas, correu os olhos com irritação pela escuridão das touceiras e das árvores que cercavam a capoeira.
- Frelvilhando de gente aí - resmoneou, esticando o lábio inferior. - Tomara que não saia porrada.
Arrumou todos os preceitos, pôs uma mão na testa e com a outra levantou uma quartinha de cachaça até a boca, puxou-lhe a rolha com os dentes e tomou vários goles compridos. Cuspiu de lado, tirou um charuto preto de dentro dos cabelos, enfiou-o no canto direito da boca, entre a bochecha e as gengivas.
- Sa menina Rita, pode trazer esse povo! - gritou em direção ao outro lado da capoeira. - Sem barulho nem muita conversa! Quando chegaram até ela, encontraram-na com os cabelos soltos, os olhos injetados, uma expressão no rosto que deixava todos um pouco inquietos, um pouco amedrontados. Rufina era grande feiticeira, das maiores feiticeiras entre as muitas grandes feiticeiras da ilha, e sua disposição, quase sempre meio desapoderada, intimidava quem se aproximasse dela na hora em que estava reunindo seus poderes mágicos.
- Cenda mô charuto - ordenou ela, sem visar ninguém em especial, e um preto magricela correu para uma fogueirinha e voltou com um tição.
Ela levou muito tempo acendendo o charuto e depois soprando grandes lufadas de fumaça para cima.
- Tchobém - falou afinal. - Centração. Oração.
Mas não precisou demorar rezando em voz baixa, com os dedos espremendo a testa, porque logo seu corpo estremeceu, o charuto quase caiu da boca, a cabeça quis soltar-se do pescoço e ela deu um pulo repentino, que fez todos recuarem um passo.
- Rrrreis! Rrrreis! Reixe! Queré-quexé, queré-quexé, queré-quexé! Quêde-quêde todes menines, echiquitái queres falares, todes menines! Hum! Rrreixe! Rufina tinha razão, seria uma noite azafamada, porque se vira bem que aquele caboco tinha chegado depois de disputar com os outros, numa briga feia pelo cavalo. E que belo caboco era, muito altivo, muito sanhudo, muito elegante, muito comunicativo em sua fala arrevezada. Rita Popó devolveu o olhar que ele lhe endereçava e sentiu um solavanco na espinha. Que noite!
Patrício Macário deixou a quinta de Jefferson Pedreira sem falar com ninguém. Também não ia a lugar nenhum, só queria sair um pouco, já estava com os olhos ardendo da fumaça dos charutos e um tanto cansado de ouvir os mesmos argumentos em favor da forma republicana de governo. Conhecia aquilo tudo de cor e a verdade era que não estava havendo propriamente um debate lá dentro. Cada um, em vez de prestar atenção no que o outro falava, ficava pensando no que ia dizer quando chegasse sua vez, mesmo que fosse para repetir com outras palavras tudo o que já se dissera antes. Normalmente tinha muita paciência com isto, até gostava, quando os oradores eram bons, mas desta vez lhe faltava disposição.
A noite estava clara, ele caminhou para uma árvore grande, cujo nome não conhecia. Alisou-lhe o tronco, aspirou o ar fresco e lavado pela chuvinha que caíra fazia umas duas horas, levantou o rosto para olhar para a lua, muito luminosa num céu sem nuvens. Sempre gostara de Itaparica, não só da vila como dos recantos como essa quinta, agasalhados pelos matos, cercados de árvores mansas e plantinhas de todas as cores, noites animadas por vaga-lumes e grilos, uma brisazinha fria agitando as folhagens, janelas iluminadas por luzes suaves. Ficar lá dentro conspirando, ou brincando de conspirar, numa noite assim, chegava a ser pecado.
Sorriu sem saber a razão, notou que, pela primeira vez em muitos dias, não encarava a vida com desesperança, com um grande tédio viscoso. Chegara muito moço a major, era verdade, mas agora a vida militar lhe parecia um deserto fastidioso, cercado de colegas medíocres, de carreiristas bajuladores como Vieira, por sinal já também major às vésperas de outra promoção, em época em que elas ficavam cada vez mais lentas. Que fazer, para onde ir? Talvez ainda fosse cedo para contar com isso, mas as mudanças que ele esperava para depois da guerra não davam o menor sinal de que algum dia se concretizariam. Pelo contrário, o Exército continuava mal pago, quando pago, maltrapilho, mal equipado, desmoralizado, corrupto e malvisto. Os negros, que tinham carregado a maior parte do peso da guerra nas contas, não podiam ser chamados de soldados, embora tivessem voltado da guerra soldados, pois que ainda eram de fato escravos - e como se podia ter um Exército de escravos e não de soldados livres? Nada, enfim, tinha mudado, nada acontecera do que ele, naquele dia de bebedeira em Corrientes, dissera a Vieira tão enfaticamente. Então nada mais natural que o desalento, que nem era minorado pela ebulição republicana de alguns idealistas. Ele mesmo se tornara partidário dessas idéias, achava vagamente que a República poderia levar o país a melhores caminhos, mas que podia fazer para trabalhar por ela, degredado no Distrito Militar da Bahia, comandando um bando de roceiros analfabetos e bêbedos irrecuperáveis, convivendo com oficiais incapazes de pensar em outra coisa senão dinheiro e locupletação? Nem mesmo tinha as idéias ciaras a respeito do assunto, por falta de estudo e de informação, até de conhecimento do ,que se passava no país. E conspiradores eloqüentes e bem-intencionados, como seu amigo Jefferson Pedreira, de pouco valiam, pois estavam praticamente na mesma situação que ele, provincianos inexperientes que leram dois ou três livros em francês. Estava certo, era bom que tivesse vindo a esse encontro na ilha, casava bem com as férias que acabava de iniciar, talvez fosse uma oportunidade para sair do torpor que á mesmice da vida de caserna lhe instilara. Mas a Natureza o atraía mais do que o estudo comparativo dos graus de avanço das diversas nações que optaram pela forma de governo republicana, o qual vinha sendo desenvolvido com fúria exoftálmica por um bacharel que ele conhecera naquela noite e não calara a boca desde que chegara à quinta.
Sim, mas se nada era mais compreensível que seu desalento, compreensível também foi que se encantasse por ver que ele se dissolvia, perdia a razão de ser, nessa noite tão bonita, tão amistosa e calma. Talvez tivesse até razão para más lembranças de Itaparica, pois afinal fora aqui, embora na contracosta, que acontecera o grande fiasco da operação comandada por Vieira. Mas não, isso não incomodava, parecia coisa vivida em outra existência, por outra pessoa. Somente a recordação da belíssima mulher com quem conversara rapidamente é que permanecia muito vívida, como se não tivesse sido aquela a única vez em que a vira, como se ela tivesse alguma coisa a ver com ele mais do que justificaria uma curta e ríspida conversa. Onde andaria ela? Falava-se que continuava a mesma bandoleira de sempre, que sumira nos sertões, que virara santa, que libertara escravos e guerreara ao lado de índios rebeldes, que obrara milagres, que podia tornar-se invisível e que não tinha idade. Tudo lenda, naturalmente, mas assim mesmo tinha curiosidade sobre ela.
E foi com uma espécie de nostalgia, uma espécie de saudade indefinida, a sensação de que já tinha estado ali nas mesmas circunstâncias, só que mais feliz e inocente, que começou a andar distraído por uma trilha antiga, afundada no meio do capinzal grosso que defrontava a quinta por aquele lado. A luz da lua, as folhas ainda molhadas assumiam feições diversas a cada instante e ele caminhou entre elas se entretendo em sacudi-las para ver as gotinhas d'água se esfacelando nos raios que varavam as copas das árvores mais sobranceiras. Não notou que a trilha fazia muitas curvas e que já não sabia direito onde estava, quando chegou à beira de uma clareira ampla e, do outro lado, avistou um grupo numeroso de negros e mulatos, somente dois ou três brancos, cercados por fachos e fogueirinhas, reunidos em torno de alguém agachado. Deviam ser os negros nas suas práticas fetichistas, que eram proibidas mas todos sabiam que persistiam. Podia ser uma coisa interessante de assistir, embora, se ele se mostrasse, provavelmente interrompessem a cerimônia. Resolveu então esconder-se, entrou pelo meio das touceiras altas que circundavam a clareira, achou um toco velho onde se sentou como num tamborete e, oculto pela rama dos arbustos, começou a assistir ao ritual dos negros.
Quando Maria da Fé soube que Zé Popó, aproveitando estarem de passagem pela ilha de Maré, ia fazer uma visita rápida à mãe que não via desde a volta da guerra, disse que ia junto com ele e, depois que falou, ficou surpresa. Por que tinha dito aquilo? Não havia razão para ela arriscar-se nessa viagem, se bem que o risco na verdade fosse muito pouco, pois, indo somente eles e a tripulação de um saveiro, não chamariam a atenção e saberiam como esconder-se, se preciso. Mas por que ir a Itaparica? Não conseguiu atinar com um bom pretexto. Dia de Santo Antônio, as novenas zunzunando pela noite adentro, os pretos provavelmente aproveitando a folga para alguma cerimônia religiosa, nada para fazer em especial. Bem, talvez sentisse saudades da ilha, afinal tinha vivido lá tanto tempo e lá a lembrança de Vô Leléu estava em toda parte.
De qualquer forma, já resolvera ir e, quando Zé Popó saiu com a vazante e o saveirinho embicou para o sul na direção de Itaparica, ela sentiu o coração leve como se estivesse boiando naquela aragem macia. A noite ia descer daí a pouquinho, o céu começou a arroxear a boreste e, de repente, como uma montanha cinzenta que houvesse decidido emergir do fundo do mar, uma grande baleia apontou à frente, envolta na bruma criada pelo vapor de seu esguicho. Maria da Fé levantou-se deslumbrada, correu à proa para ver melhor o enorme bicho, que mal se mexia, com a metade do corpo fora d'água, numa majestade plácida e imponente. E já o saveiro se aproximava tanto que Maria da Fé imaginava que chegaria a tocar na baleia, quando ela emitiu um som melodioso e gutural, estranhamente delicado para um animal daquele tamanho, arqueou o lombo numa curvatura graciosa e mergulhou no mar deixando atrás uma crista de espuma. Maria da Fé soltou o fôlego, que pareceu haver prendido durante todo o tempo que durou a aparição maravilhosa, e sentiu uma alegria extasiante, um arroubo juvenil de felicidade e liberdade que a fez abrir-se num sorriso largo, enquanto o barquinho cambava a estibordo e fazia prumo direto para a velha Ponta das Baleias, emoldurado por um céu todo vermelho.
Assim que fundearam em Ponta de Areia, souberam por um recado trazido pelo saveirista Bernardino, mandado a terra antes de desembarcarem, que Rufina, como, aliás, já se esperava, estava indo para a Capoeira do Tuntum, era noite de trabalho. Ancoraram o barco, desceram à praia no caíque e tomaram a trilha para o Tuntum, como se, por direções opostas, houvessem marcado encontro com Patrício Macário.
Patrício Macário deixou o toco onde estava sentado e decidiu aproximar-se mais do grupo em torno da encruzilhada. Queria ver melhor o que se passava, ouvir direito o que falavam. Havia, evidentemente, uma espécie de sacerdotisa principal, que comandava as ações e tinha um comportamento muito curioso, alternando períodos quietos, junto a suas velas e fetiches, com momentos em que andava, corria, pulava, se mexia e discursava numa linguagem tataranhada, que soava como uma espécie de galego mal falado. De onde estava, não percebia quase nada do sentido do que ela dizia. Estaria dando receitas, prevendo o futuro, lançando maldições? Tomando cuidado para não fazer barulho, começou a arrodear a capoeira pela periferia, mantendo-se por trás das touceiras. Quando já estava bem próximo da encruzilhada, um novo grupo apareceu, vindo do outro lado, quatro ou cinco pessoas, inclusive uma que parecia ser uma mulher encapuzada, muito alta. Achou melhor não prosseguir, de onde estava já podia ver tudo muito bem. Não encontrou um novo toco para sentar-se, encostou-se numa árvore. E se realmente aquela feiticeira operasse feitos mágicos? Sempre ouvia histórias, conhecia gente que jurava a veracidade de muitas coisas acontecidas pela força de feitiços e mandingas. Não, bobagem, era tudo invencionice, versões distorcidas de eventos normais. Se bem que ali, perto do grupo e de suas fogueiras, fazia frio, um frio esquisito, e os matos não mostravam aquela aparência tranqüila e calma de em torno da quinta. Teve um arrepio, puxou a gola do casaco para agasalhar o pescoço, olhou em volta como para certificar-se de que estava mesmo sozinho e voltou a prestar atenção na cerimônia. Quem era aquele recém-chegado espadaúdo, de cabelo encaracolado? Era uma pessoa conhecida. Mas, claro, era seu antigo soldado, o cabo José Hipólito, o Zé Popó! Patrício Macário quase sai de seu esconderijo para falar com ele, mas pensou melhor e se deteve. Agora outras pessoas, que não a sacerdotisa, pareciam possuídas por alguma coisa, agindo como se estivessem fora de si. Uma moça vistosa, de saia colorida e rodada, com quem Zé Popó estava começando a falar, desprendeu-se dele e, rodopiando como um pião, se embarafustou pelos matos. A sacerdotisa, um pouco bamba, tirou seu charutão da boca e fez uns círculos no ar em direção a ela.
- Deixá! Deixá! Xá! -- gritou para os que tentaram seguir a moça. - Deixá ela! Repentinamente, um silêncio completo se instaurou no grupo, os grilos e sapos voltaram a ser ouvidos, o vento abanou as folhas da árvore e ele teve novo arrepio. Era um lugar esquisito mesmo, tudo parecia ter vida, o ar mantinha alguma coisa permanentemente engatilhada. Não, não era agradável ficar ali e ele começou a pensar em voltar. E que diabo de barulho era esse agora, como se alguém estivesse atacando os matos a pauladas? Algum bicho, talvez? Mas que bicho seria, para fazer um barulho desse tipo? Desencostou da árvore, voltou-se na direção do barulho e tomou um susto que o deixou sem fala. Diante dele, com uma expressão terrificante no rosto, olhos brilhando, cabelos desgrenhados, dentes à mostra num riso desagradavel-mente confiado, braços abertos como para abraçá-lo, a moça da saia colorida parou quando ele se voltou e empinou o queixo em sua direção duas ou três vezes.
- Comensria! Comensria! - falou, quase rosnando, numa voz que não parecia ser dela. - Fu! Ár-gúti-gúti-gúti! Fu! Comensria nu, han? Fu! Nurrísti gúti-gúti-gúti, iá, líbichim Fu? Comensria! A voz, apesar de ainda áspera, se adoçou, a expressão passou a terna, ela inclinou o pescoço com um sorriso amável. Patrício Macário ficou indeciso, não sabia como reagir.
- O que você quer? - perguntou, procurando soar firme, mas não hostil.
- Fu! Fu! Movendo-se com rapidez, ela o abraçou, encostou o rosto no dele e começou a alisar-lhe as costas, mas ele, assustado, a empurrou e deu um grito involuntário. Imediatamente o grupo da encruzilhada, como se já estivesse ali desde a chegada dela, rodeou os dois, com a mulher do charuto à frente.
- Hum! - fez ela, muito alto, aproximando-se de Patrício Macário e inspecionando-o de cima a baixo. - Hum! Os outros, como se confiassem que a mulher os protegeria, caso aquele branco estranho quisesse fazer alguma coisa contra eles por encontrá-los em atos proibidos, não se moviam, tinham os olhos presos a ela. Patrício Macário se desvencilhou do abraço da moça e ia dirigir-se à mulher do charuto, quando deu com Zé Popó.
- Comandante, o senhor aqui? - Fico contente em vê-lo, cabo, porque esta situação é muito estranha. Cheguei aqui por acaso e estava apenas observando O que se passava, quando essa moça me atacou. Aliás, não sei bem se me atacou, agarrou-me, pelo menos. Não tenho nada contra suas práticas, não tenho a intenção de interferir nelas, mas acho que isto é ir longe demais.
Zé Popó sorriu. Achava natural que o major, por não ter familiaridade com nada daquilo, não compreendesse o que havia acontecido, na realidade uma coisa inofensiva. Ali estavam sendo recebidas entidades, cabocos, espíritos, almas de ancestrais, parentes e amigos, e certamente a entidade incorporada por sua irmã Rita conhecia o major, talvez fosse até o espírito de algum comandado seu, morto na guerra. Patrício Macário fitou a moça, agora quieta junto à mulher do charuto, mas ainda com seu olhar inquietante fixado nele. Mal ouviu Zé Popó explicar-lhe ainda que aquela gente não desejava nem iria fazer nada de mais, apenas entregar-se a uma prática que vinha de muitos e muitos anos, passada de geração em geração. Pedia ao major que os perdoasse, não os levasse a mal, muitos deles eram pobres cativos, não tinham alegria nenhuma na vida, exceto aqueles pequenos momentos secretos.
- Hem? - disse Patrício Macário, quando Zé Popó lhe fez uma pergunta.
- Perguntei se o senhor vai tomar alguma medida contra eles.
- Medida? Por quê? Medida, como? Não, claro que não, não sou policial e tenho mais o que fazer do que tomar esse tipo de medida. Pelo contrário, estou curiosíssimo. Você disse que essa moça está...
- Está incorporando uma entidade.
- Sim, incorporando, incorporando uma entidade. Você disse que essa moça está incorporando uma entidade que me conhece? Como assim? Me conhece como? - Bem, isto talvez seja difícil de saber, major. Eu mesmo não entendo bem desses assuntos, estou aqui porque minha mãe... Minha mãe é esta senhora aqui.
Patrício Macário recobrou-se da surpresa rapidamente, fez menção de cumprimentar Rufina, mas ela, de olho revirado para cima e a mão direita displicentemente apoiada no quadril, não tomou conhecimento dele e Zé Popó continuou falando.
- Minha mãe - disse Zé Popó - é herdeira de uma grande tradição. Tudo o que ela sabe, aprendeu com a falecida Mãe Inácia, de quem o senhor nunca deve ter ouvido falar, mas pertencia a uma espécie de linhagem, uma linhagem que tem sua nobreza, que vem de Mãe Dadinha, de Mãe Inácia e de outras, muito raras e prezadas por esse povo todo. Mas são coisas desse povo, em que o senhor com certeza não estará interessado tanto assim, são coisas do povo mesmo.
- Não, eu me interesso, me interesso, sim. Quer dizer que a senhora sua mãe... Interessante, muito curioso. Eu nunca podia imaginar... Que coincidência, encontrar você aqui, numa noite como esta.
- Muita coincidência mesmo, major, eu venho . aqui muito pouco, não moro aqui.
- Sim, nem eu, é claro. Mas, voltando a sua irmã - não é sua irmã? - Minha irmã, Rita.
- Pois então, voltando a sua irmã, como posso ouvir a respeito dessa tal entidade que me conhece? Se me conhece, deve saber alguma coisa sobre mim. Isso seria uma comprovação interessante de fenômenos em que jamais acreditei. Há possibilidade de eu conversar com ela, estando ela nessa condição? Zé Popó ia dizer qualquer coisa, mas Rufina se antecipou, fazendo um novo “hum” muito alto.
- Hum! Acho bom não - disse, com a voz engrolada. - Saí é Sinique. Eu vou ver se ele vai embora unstantinho, aí eu explico a situação. Não vai ser fácil, porque ele está encasquetado.
- E quem? Desculpe, não entendi bem.
- Sinique é um caboco - esclareceu Zé Popó. - Já ouvi muito falar nesse Sinique, é um caboco forte, parece que holandês, um caboco que xinga muito e derruba cercas.
Rita Popó deu um repelão na mãe, que a segurava por um braço e lhe punha a mão alternadamente na testa e na nuca.
- Náin, náin, náin! - gritou com a mesma voz roufenha de antes. - Euche non fai, non fai, non fai! Euche fica! Euche non fai! - Ele está encasquetado mesmo - disse Rufina. - Vou ver se levo ele ali para conversar, ver se acalmo ele.
- Ele? - perguntou Patrício Macário a Zé Popó, enquanto Rufina se afastava na companhia de Rita, em direção à encruzilhada. - Eu sei que ela, como você diz, incorporou uma entidade, mas aí ela deixa completamente de ser ela? - É, aí é só o corpo dela. Aqui se diz que ela é o cavalo desse caboco.
- E por que esse caboclo ia ter interesse em mim? Julguei que você tinha dito que era alguém que me conhecia, mas, se é esse tal caboclo, como ele poderia me conhecer? Aliás, outra coisa curiosa, um caboclo holandês, não foi isso que você disse? - É, foi isso que me ensinaram. E uma história complicada, meio sem pé nem cabeça. Dizem que ele era um holandês que foi deixado para trás quando eles fugiram depois da invasão e aí foi gado do caboco Capiroba, que é outro caboco famoso, mas que há muito tempo não se manifesta em lugar nenhum, nem em Amoreiras, onde se fala que todos os espíritos se juntam e todos vêm, mesmo não sendo chamados.
- Foi gado do caboclo Capiroba? Você disse “gado”? - E, mais ou menos. A história é que esse caboco Capiroba, que depois de se tornar caboco espírito virou protetor do índio, do preto e do povo da terra, morava nos apicuns e criava holandeses para corte. Ele engordava os holandeses num cercado e, quando chegava a época certa, matava um para comer com suas mulheres e filhas. Dizem que tinha muitas mulheres e só filhas, nunca filhos.
- Você tem razão, a história é inteiramente sem pé nem cabeça. Mas você acredita nisso, não? - Nem acredito nem desacredito. Mas a verdade é que tenho visto muitas coisas.
- Claro, com sua mãe exercendo essa atividade. Ela tem alguma designação oficial, algum cargo, por assim dizer? - Não, não, o povo não raciocina assim, as coisas para eles não são organizadas dessa forma. Eles a chamam de Mãe Rufina, mãe, mãe de santo, feiticeira, cada um chama o que acha que ela é, varia de pessoa para pessoa, ou de grupo para grupo, talvez.
- Muito interessante, curiosíssimo. Ela impõe muito respeito, não? Tem um ar de autoridade forte, apesar da fala difícil de entender.
- Isso também varia. Quer dizer, não o que o senhor chama de autoridade, porque isso ela sempre tem, afinal seus poderes e sua ciência realmente existem para todo esse povo e poucos podem comparar-se a ela neste aspecto. Mas a fala varia. Quando ela está incorporando...
- Ah, ela também incorpora? Claro, que pergunta, naturalmente que deve incorporar, afinal é uma espécie de suma sacerdotisa.
- Sim, incorpora e então fala língua de caboco e essa própria língua varia de caboco para caboco, conforme a origem dele, o tempo em que viveu, até as manias dele, é complicado.
- Percebo, é óbvio, claro. Então era por isso que sua irmã estava com aquela voz e aquela algaravia estranha.
- É, era Sinique falando.
- E a Dona Rufina também estava incorporando? Achei a fala dela também estranha, embora nem de longe como a do holandês.
- Não, é que ela bebeu quase uma quartinha de cachaça, a julgar pelo resto que ainda ficou na encruzilhada.
- Ela bebeu cachaça? Isto faz parte do ritual, é indispensável, digamos, para a convocação dos espíritos - Não sei bem. Ela sempre bebeu cachaça e Mãe Inácia também bebia. Dizem que Mãe Dadinha, a mais famosa e reputada de todas, não bebia. Mas minha mãe bebe, bebe todas as vezes em que tem de trabalhar aqui na encruzilhada, embora normalmente não toque em bebidas alcoólicas.
- Fascinante! Mas então os caboclos ficam também sob o efeito da cachaça. Claro, pois se estão no corpo de alguém que se embriagou...
- Não, isso não acontece. Se o senhor ficar aqui, o senhor verá.
- Claro que vou ficar! Nada me tiraria daqui, sempre tive muita curiosidade por essas coisas, principalmente agora que surgiu o misterioso interesse desse caboclo por mim. A não ser, é claro, que minha presença se torne inconveniente por alguma razão.
- Ora, major, como poderia ser inconveniente a sua presença? Eles estão agradecidos ao senhor, por ter manifestado tanta compreensão, quando qualquer outro os repreenderia e provavelmente procuraria denunciá-los. Aliás, eu também agradeço.
- Que bobagem, cabo, tenho um irmão que é padre e acredito no latinório dele ainda menos do que acredito nessas coisas, sem querer ofender a ninguém, é claro. Em matéria de religião, posso considerar-me um agnóstico, embora pratique os atos católicos em ocasiões que não posso evitar. E em matéria de costumes, creio que posso ser considerado um liberal, estou pouco me incomodando com as práticas fetichistas dos pretos, contanto que as levem adiante sem ofender ninguém ou prejudicar o trabalho.
- E, mas nem todos pensam assim. Aliás, muito poucos pensam assim.
- Eu sempre tive fama de esquentado e sou mesmo. Esquentado porque não suporto que violem direitos meus que considero sagrados. Então tenho simpatia pelos que procuram exercer esses direitos, que para mim seriam sagrados.
- Olhe que isto envolve a libertação dos negros, major...
- Digo-lhe a verdade: eu sou a favor. Sempre fui e agora sou mais, depois que lutei, lutamos, ao lado de tantos negros na Campanha. Mas não falemos de política agora, acabo de fugir de uma reunião política, infinitamente menos interessante do que esta. A Dona Rufina demora muito? Não que eu tenha pressa, não tenho nada para fazer, estou de férias, mas a curiosidade é grande.
A uma distância relativamente curta podiam ver Rufina e Rita, acocoradas na encruzilhada. Rita, às vezes levantando-se de excitação e gesticulando muito, parecia fazer um relato compridíssimo a Rufina, relato este interrompido por exclamações e apelos quase chorosos. Rufina limitava-se a conter de vez em quando os movimentos exaltados da filha e a ouvir o relato com nutos lentos e judiciosos. Mas, quando falava, a filha não lhe prestava atenção, chegava a puxar os cabelos exasperada e tentava correr para as árvores.
- Aquilo eu acho que vai demorar - disse Zé Popó. – O senhor não aceitava beber qualquer coisa? Comer qualquer coisa? - Comer, beber? Não me diga que estabeleceram também um refeitório aqui! Cabo, eu estou cada vez mais pasmo. quantas coisas acontecem em torno de nós, bem debaixo dos nossos narizes, e não nos apercebemos delas! Há comida e bebida aqui? - Não do tipo a que o senhor esteja acostumado. A comida, por exemplo, é boa, mas não creio que o senhor a conheça, há de tê-la visto no máximo em feiras ou festas de largo. A maior parte dela é feita no dendê.
- Já comi, já provei, gostei! É um pouco forte, mas eu gostei.
- E comida pobre, feita de feijão, de miúdos, das folhas que são encontradas no mato, coisa de pobre mesmo, mas é boa.
- Vamos lá, cabo, isto está me saindo uma aventura muitíssimo melhor que a encomenda. E bebidas, você disse? - Sim, bebidas de pobre também. Aluá de abacaxi...
- Suco de ananás? - Não, é uma bebida feita pela infusão de cascas de abacaxi em água, é muito saborosa.
- Mas não há nada mais forte? Quero dizer, esse como-é-o-nome não contém álcool, pois não? - Não, não contém. Mas há outras bebidas que contêm. Nesta época do ano, fazem muitos licores, de jenipapo, de maracujá, de pitanga, de folhas aromáticas, de leite...
- Não me diga, cabo José Hipólito, não tivesse você dado baixa, eu o faria sargento amanhã! Contornaram a encruzilhada sem se aproximar muito dela, chegaram a um lugar onde o capim era baixo e, em cima de panos e tábuas, a comida estava exposta. Do lado direito, arrumadas como uma fileira de soldadinhos de chumbo, as quartinhas dos licores. Patrício Macário destapou e cheirou uma por uma, serviu-se de uma dose generosa de licor de jenipapo.
- Não se serve também, cabo? Não gosta desses licores? - Vou acompanhar o senhor. Apenas um trago pequeno, ainda vou ter de viajar antes de amanhecer.
- A nossa, cabo! E de certa maneira, devo a você a minha saúde, ha-ha! - Bondade do senhor, major. A nossa! - É uma pena que tenha deixado os charutos lá na quinta. Um charutinho agora viria a calhar. Você não tem um, por acaso? - Não, senhor, eu não fumo.
- Mas certamente alguém por aqui tem um. Olhe ali, eles estão fumando umas cigarrilhas.
- Mas aquilo não é fumo tabaco, major, é outra espécie de fumo, é fumo d'Angola, chamado também de liamba.
- Verdade? Nunca ouvi falar. Posso experimentar? - Bem, eles fumam para sentir coisas.
- Sentir coisas? Como assim, você quer dizer que eles fumam isso e sentem coisas? Você acredita nisso? Acha possível a pessoa fumar uma cigarrilha e sentir coisas? - Não tenho certeza. De qualquer forma, é muito diferente do fumo tabaco.
- Vá, consiga-me um, cabo, quero experimentar.
- Pois não, major.
Patrício Macário deu uma tragada na cigarrilha de palha que Zé Popó lhe trouxe, não gostou do sabor a princípio, mas, depois de um gole do licor, achou que a combinação era boa. Sentou-se num tamborete, indicou outro para Zé Popó, encostou-se numa árvore. Esticou as pernas, deu outra tragada, bebeu mais um gole, sentiu-se infinitamente bem, muito leve, quase sem peso, toda a paisagem adquirindo um novo encanto.
- Cabo José Hipólito, devo agradecer-lhe. Estava numa noite excepcional-mente paulificante e agora você me proporciona um extraordinário bem-estar. Formidável este licor, formidável este fumo.
Enlevado com tudo em torno, terminou por esquecer a cigarrilha, que se apagou e caiu de seus dedos relaxados. E não tinha certeza de que não estava sonhando, quando, levado pelo braço por Zé Popó para a encruzilhada, foi deixado a sós com Rufina e ouviu uma história que entendeu e ao mesmo tempo não entendeu, mas que de qualquer forma o maravilhou, a ponto de às vezes achar que estava vivendo os episódios, num mundo de luz difusa e contornos imprecisos. Contou-lhe Rufina que ele tinha a mesma alma que Vu, filha do caboco Capiroba e, portanto, num certo sentido, ele era Vu. Essa Vu tinha sido mulher do caboco Sinique e por isso Sinique, agora que a alma de Vu se encarnara num homem, baixara numa mulher para poder beijá-lo. Disse ainda que ele não podia talvez entender essas coisas, mas lhe contara Sinique que ele, Patrício Macário, logo encontraria uma mulher que antes era o caboco Capiroba e essa mulher e ele se amariam. Mostrou-lhe então, narrando tudo em pormenores, como essa mulher, cuja identidade ela conhecia mas não podia revelar, era também descendente carnal do caboco Capiroba, pai de Vu, bisavô de Dadinha, trisavô de Turíbio Cafubá, tetravô de Daê, também chamada de Vevé, avô no quinto grau dessa dita mulher, a qual, portanto, considerando as almas, era ancestral de si mesma - e isso devia querer dizer alguma coisa, Rufina não sabia o quê. Visse também que essa mulher e ele, por ter ele a alma de Vu, eram sob um aspecto almas parentas, tendo sido Vu a filha que mais saiu ao grande caboco Capiroba - e isso seguramente queria dizer alguma coisa, que o major descobriria no devido tempo. Algo era certo, certíssimo: aquilo tudo era coisa armada, coisa feita, coisa orquestrada, que ele não se enganasse e procurasse aprender. Ele podia não acreditar, mas era parte daquele povo, talvez não pela carne, mais muito mais fundo, pela alma - e estava ali por alguma razão, não era à toa.
Olhou para ele com a mão em seu ombro, sorriu.
- Você está sendo encantado - disse. - Não está?