- Exatamente porque eu sou vivido e moderno é que eu acho que ela está interessada em seu dinheiro. Em seu dinheiro, em seu nome, em sua posição... Mas observe também que, no fundo, toda mulher, mesmo apaixonada, está interessada é nessas coisas mesmo, de uma forma ou de outra. Não estou censurando a posição dela, sou um homem realista. Mas, por ser realista, também não vou desconhecer que ela tem essa motivação, é preciso ver a verdade sem medo dela. O que você tem a fazer é equilibrar os interesses de seus filhos com os dados dessa situação.
- Mas como? Uma coisa eu lhe digo: haja o que houver, mesmo contra sua opinião, eu vou casar com a Maria Dulce.
- Claro que você vai casar com a Maria Dulce. Mas você não vai investir nada nas fazendas dela.
- Mas eu já prometi, não posso voltar atrás.
- Já prometeu? Ela é ligeira, hem? - Você não devia falar assim! - Está bem, tio. Você já prometeu, mas isso não significa que tem de cumprir a promessa com o seu dinheiro. Eu dou um jeito nisso para você.
- Você dá um jeito? Como? - Dou um jeito, já lhe explico. Mas primeiro você tem de aceitar a condição de deixar que um advogado da minha maior confiança, o Dr. Chagas Borges, a maior puta velha do foro de São Paulo, professor da USP, cobrão mesmo, você já deve ter ouvido falar nele, deixar que ele elabore as condições prévias ao casamento. Ou seja, deixar que ele elabore um plano que garanta os interesses dos meninos e evite problemas futuros, e isto envolve providências anteriores ao casamento, há muitos recursos legais, não se preocupe.
- Mas, para garantir os interesses dos meninos, eu vou ter de desistir da idéia de me associar a ela nas fazendas.
- Você não vai ter de desistir de nada. Eu tenho um departamento de projetos de primeira qualidade, tenho gente na Sudene que apressa a tramitação de qualquer coisa que eu queira, tenho tudo nas mãos. Então o que nós faremos vai ser arrumar um pacote financeiro para a titia Maria Dulce, tomando dinheiro de um desses fundos - são tantos que me esqueci das siglas, mas pago a muita gente para não esquecê-las. Que tipo de fazenda tem a tia Maria Dulce? - Sisal. Ela tem terras na área sisaleira.
- Grande merda. Mas não tem importância, isso a gente resolve, montamos uma pesquisa de mercado em cima de alguma coisa, instruímos o projeto com material de peso e, mesmo que não seja sisal, seja óleo de mamona, papel de embrulho, caneta-tinteiro, alguma coisa nós achamos, isso não é problema, não é problema, nem pense nisso, isso eu resolvo. Pode ser um pacote relativamente complexo, podemos emitir umas letras de câmbio, fazer os repasses.. . Deixe que eu cuido de tudo. Confia em mim? - Confio, confio! Mas ainda não entendi direito.
- Querido tio Phelippe, o dinheiro existe, não precisa ser seu dinheiro. O dinheiro existe, é só saber o caminho para pôr as mãos nele e é para isso que esta organização toda, cujo edifício você tanto admirou, funciona. Ela tem a terra, deve ter alguma coisa em cima dela, cuja avaliação nós podemos configurar da maneira que melhor servir a nossos interesses, isso é uma coisa simples. Isso não vai custar um centavo a nenhum de nós, pelo contrário, vai até render dinheiro, porque a tramitação financeira não é feita de graça e nós mesmos é que vamos cuidar dela, aqui no banco e nas outras empresas. Há prazos de carência especiais, juros especiais, há tudo isso no meio. As letras de câmbio podem ser baseadas nos mecanismos de juros normais, de operações comerciais normais, mas financiando um projeto pago a custos financeiros muito mais baixos.
- Estou sentindo, estou sentindo, você é realmente um gênio.
- Sou nada, isto é rotina, todo mundo sabe disto que lhe disse, se tudo fosse isso. Voltando à vaca fria: você precisa confiar em mim. Eu monto essa operação em que todo mundo vai sair ganhando, você casa com sua Maria Dulce, os meninos não se grilam, tudo fica perfeito.
- Mas eu fico meio assustado. Você mesmo disse que sisal é merda e que eu posso quebrar a cara.
- E também disse para confiar em mim, não disse? - Disse, disse.
- Pois então? Em primeiro lugar, tenho gente que pode ajudar nesse projeto, na implantação, quero dizer. Isto tudo pode ser perfeitamente pago pelo orçamento da operação, quer dizer, não custa nada, como nada vai custar nada, o dinheiro existe, tio! A única maneira de não quebrar a cara é não meter dinheiro seu nesse negócio, há dinheiro para meter que não é seu, não envolve risco, não ameaça em nada seu patrimônio nem o dos meninos. Hoje em dia, quem mete dinheiro seu num projeto é maluco, é irracional, isso não existe hoje em dia. O dinheiro está lá, foi apropriado para esse fim, é até um pecado deixar de usar as oportunidades como essa.
- Ah, quer dizer que você acha essa coisa toda uma oportunidade boa? - Acho, acho. Já lhe disse, deixe comigo. Quando eu estiver com esse pacote econômico-matrimonial arrumado, eu lhe chamo ou então vou ao Rio conversar - tem muito tempo que não vou lá, tem até gente que eu quero ver lá, não sei se você me entende, ha-ha -, pode deixar. Preciso somente de elementos. Assim que você voltar, mande tudo o que se refere às propriedades dela, localização, medições, escrituras, balanços, tudo, tudo, tudo. Vou destacar o Menezes, um cara que eu tenho aqui que é uma fera nesse tipo de coisa, para acompanhar esse negócio. Ele está viajando agora, cuidando de um projeto no Maranhão, negócio de babaçu, que está muito incentivado agora, mas volta dentro de um ou dois dias e passo a ele tudo. Ah, estou com preguiça para lhe explicar os detalhes, mas pode ficar tranqüilo, está tudo claro na minha cabeça. O Governo dá dinheiro para se fazer esse tipo de coisa, pode ficar tranqüilo. Não tem nada desse negócio de quebrar a cara, quebrar a cara seria meter seu dinheirinho suado numa embaixada dessas, que nunca vai dar certo, a não ser por uma cagada monumental.
- Bem, não estou entendendo direito, mas confio em você, que galho você me quebra, fico-lhe gratíssimo! - Ora, parente é para essas coisas. E, como você mesmo disse, sempre fomos amigos. Não vai me dar trabalho nenhum, pelo contrário, será um grande prazer ajudá-lo a ser feliz com a sua Maria Dulce, é o meu presente de casamento.
- Você fala com os meninos? - Falo, falo, telefono para a Silvia ou a Henriqueta ainda hoje, pode deixar. Vou chamar D. Shirley para anotar algumas coisas e depois vamos almoçar, está certo? Mas o tio, muito assanhado com a solução inesperada de seu problema, alegou que não podia, a Maria Dulce tinha aproveitado para vir com ele a São Paulo fazer umas compras e ir a uns restaurantes - ela adorava comida árabe, adorava comida italiana, adorava comer em São Paulo, São Paulo, é preciso que se diga, é onde melhor se come no Brasil -, dar uns passeios. Ela devia estar esperando por ele no hotel e ele ia levar a grande notícia, comemorar, comemorar! Dr. Eulálio compreendeu, o velho queria dar uma trepadinha na Paulicéia, essas mudanças de ambiente são sempre estimulantes. Abraçou-o afetuosamente, levou-o até a porta com a mão em seu ombro, despediu-se com outro abraço, ficou olhando enquanto ele atravessava a ante-sala, um sorriso meio alvar no rostinho rechonchudo.
Fechou a porta, voltou vagarosamente para sua mesa, com a satisfação cálida de quem praticou uma boa ação. E de quem certamente tinha feito um bom negócio para o banco. Anotou num bloquinho um lembrete para mandar D. Shirley providenciar uma lista completa dos fundos e programas cujos recursos o banco poderia repassar para empreendimentos agrícolas e industriais no Nordeste. E convocar o Menezes para falar com ele assim que chegasse do Maranhão.
Puxou o álbum para perto, contemplou longamente o retrato do trisav6. Realmente, estirpe era estirpe, bom sangue era bom sangue, o destino da família tinha que ser aquele, um destino de grandeza, de elite. Teria herdado, através de tantas gerações, o talento do patriarca? Claro que herdara, mesmo porque esse talento passara multiplicado para o bisavô Bonifácio Odulfo, homem extraordinário, empresário muito à frente de seu tempo, inteligência multifa-cetada, que lhe permitia até mesmo atividades literárias de alto valor, praticadas secretamente nas poucas horas vagas. Curioso que tivesse morrido dos pulmões, como se a doença dos poetas daquele tempo o houvesse alcançado na maturidade. Entrou em devaneio outra vez, só se levantou muito depois, para almoçar no escritório mesmo, porque, com aquela conversa toda e as recordações da família, a avó Isabel Regina, a única vez em que vira o tio Patrício Macário, na festa de seus cem anos, tanta coisa, esquecera que tinha um discurso importante a fazer na noite seguinte, na Federação das Indústrias. Apesar de o staff já ter escrito praticamente tudo, fazia questão de dar um toque pessoal no pronunciamento, mandar alguns recados, preparar umas carapuças para uns e outros. Não podia falhar, a cobertura da solenidade seria nacional. O almoço, peixe grelhado com molho de limão, salada, um copo de vinho branco alemão, pão de centeio integral e meio mamão, chegou logo, encontrou-o debruçado sobre um bloco cheio de rabiscos e frases emendadas bruscamente. Não levantou os olhos para o copeiro uniformizado que trouxera o almoço, acenou-lhe com a mão para que arrumasse tudo na mesa redonda, perto das poltronas de couro. Tinha bebido nova dose dupla de uísque e talvez por isso estivesse afogueado e veemente, emocionado mesmo, quando dois minutos mais tarde levantou-se para ir até a mesa do almoço, declamando entredentes o que havia escrito. O empresariado nacional está consciente de suas graves responsabilidades para com a nação e para com o povo brasileiro! Há hoje no Brasil um novo empresário. uma nova mentalidade, uma nova consciência do papel social da empresa, que se reveste de magna importância no Brasil de hoje! Não, não, duas vezes “hoje” e “Brasil”, mudar, mudar. Mas essencialmente estava bom, estava ótimo e deveria impressionar o auditório, principalmente porque eram afirmações sinceras, todos os que o conheciam sabiam disso.
Estância Hidromineral de Itaparica, 10 de março de 1939.
O vapor fretado por D. Isabel Regina saiu de Salvador às sete horas da manhã e devia chegar a Itaparica lá pelas nove, mas a vazante forte e o nordeste batendo rijo retardavam um pouco a marcha do 10 de Novembro, que subia e descia pelas ondas como um cavalinho de carrossel. Ela se impacientava com a demora, arrependia-se de não ter zarpado com o navio da comitiva, que saíra meia hora antes e certamente devia estar atracando na ilha. Já Eulálio Henrique e Bonifácio Odulfo III, seus dois netos que a acompanhavam na viagem, não queriam chegar, porque toda hora descobriam no mar alguma coisa que nunca tinham visto, cardumes de botos cercando tainhas, peixes voando ao lado do navio, grandes pássaros acinzentados mergulhando para pescar.
- Meninos - disse ela, olhando para o relógio -, saiam de tão perto dessa amurada, por que não vêm olhar o mar aqui desta janelinha? - Ah, vovó, daí não tem graça. A gente não está se pendurando, não, a gente só está chegando perto.
O menino tinha razão, não havia por que proibi-los de se divertir, viviam ou na fazenda de Itu ou no colégio interno em São Paulo, era uma oportunidade rara para eles e, depois, não existia mesmo risco nenhum na amurada. Não devia descarregar o nervosismo nas crianças. Juntou-se a eles na amurada, mostrou-lhes a costa onde antigamente ficava a armação de baleias do famoso Barão de Pirapuama, que de certa forma era parente deles, pois um de seus filhos, o grande banqueiro Dr. Vasco Miguel, casara com Carlota Borroméia, única filha do vovozão Amleto Henrique, irmã do vovozinho Bonifácio Odulfo e do tio-vovô general, a qual tinha morrido de um colapso ainda bem moça - quem sabe, hem, se fosse hoje talvez se salvasse. Os meninos assestaram os binóculos em direção à praia distante, não se impressionaram muito com o que viram, alguns escombros encardidos, um saveiro adernado, duas ou três canoinhas, uma cerca de ossos de baleia semidestruída serpenteando até desaparecer no matagal.
- Não tem nada aí - disse Eulálio Henrique. - Não tem nada.
Vovó Isabel Regina, lembrando-se de alguma coisa que havia lido na crestomatia e que achara muito instrutiva para os jovens, sobre como ruínas e paisagens aparentemente sem vida são na verdade testemunhas silenciosas da História, carregadas do peso dos tempos, habitadas por tudo o que entre elas já aconteceu, virou-se para o neto levantando o dedo na postura de quem vai dar uma aulazinha. Mas nem chegou a começar a falar, pois quando abriu os olhos, que tinha fechado por um instante para arrumar bem o que queria dizer, deu um grito de horror, porque sobre a cabeça de Eulálio Henrique, adejando molemente como se fosse de gelatina, um bicho preto, talvez um morcego, talvez uma mariposa gigantesca, parecia que ia pousar. O menino, assustado com o grito da avó, passou as mãos por trás da cabeça e o bicho pousou nelas e não saiu, apesar de ele agitá-las desesperadamente, sem conseguir gritar de tanto pânico. Isabel Regina hesitou, levantou a bolsa para bater no bicho, mas demorou por não ter coragem de aproximar-se, dando tempo a que um marinheiro preto e espadaúdo atravessasse o passadiço e, com uma espécie de bastão, tocasse no bicho, que imediatamente esvoaçou, ainda pairou um pouco à frente do grupo e, abrindo muito as asas, planou no vento em direção à praia.
- Meu Deus, que bicho horrível! Meu filho, você está bem? Não foi nada, não foi nada, foi só um susto. Ele mordeu você? Deixa ver a mão, não, não mordeu, está tudo bem, foi só um susto. Meu Deus, que bicho horrível, nunca tinha visto um bicho desses! - É a Curuquerê - disse o marinheiro preto, com uma expressão que Isabel Regina achou desagradável, quase assustadora.
- Que é que está fazendo aí parado? - falou ela com energia. - Providencie um copo d'água para o menino, água com açúcar, ande! Abraçou o neto, continuou a consolá-lo, prometeu-lhe um presente, muitos presentes, agora já podia parar de chorar, tudo tinha passado. E, enquanto segurava a cabeça dele junto ao peito, levantou a vista, olhou de novo a praia agora surpreendentemente mais perto e teve um arrepio, porque sentiu vir dela e do matagal, não sabia como, uma espécie de malevolência surda, uma paz apenas aparente, pejada de ameaças invisíveis. Estremeceu, achou que estava ficando muito impressionável, parecia uma criança ingênua. A água com açúcar chegou, trazida não pelo negro estranho, mas por um rapaz que devia ser uma espécie de oficial, muito gentil. Conversou com o menino, perguntou se não podia fazer mais alguma coisa, ofereceu-se para levar os dois a passear pelo navio. Isabel Regina recusou, já estavam chegando e preferia ficar na companhia deles. E, já que ele estava ali, podia dizer que bicho seria aquele que tanto assustara o menino? O marinheiro dissera que era uma curuquerê, ou qualquer coisa assim. Mas o rapaz respondeu que nunca tinha ouvido falar nesse bicho, devia ser coisa de negros. Isabel Regina fez um gesto como quem concordava, resolveu esquecer tudo; preparar-se para desembarcar. Já se viam as torres das igrejas, o casario do Boulevard, as árvores da Praça Getúlio Vargas, eles estavam chegando, sim, finalmente, não era sem tempo.
A missa seria ainda às dez, eram apenas nove e vinte, mas ela queria descer o mais rápido possível, queria rever uma porção de gente, queria supervisionar pessoalmente os últimos detalhes da festa e queria principalmente ter tempo para estar com seu tiozinho Tico, tão velhinho, coitadinho, embora muito lúcido e desempenadinho para a idade. Cem anos, que beleza! Um homem que tinha vivido momentos tão importantes da História brasileira, tinha conhecido bem o tempo da escravidão, tinha lutado no Paraguai, um verdadeiro monumento vivo. Cem anos de vida ali na placidez de Itaparica, recolhido a seus estudos, suas plantas, seus bichos, suas manias esquisitas, seus amigos de condição social inferior que lhe davam muita estima entre o povo, suas lembranças, que certamente seriam riquíssimas. Claro que fizera muito bem em movimentar céus e terras para que seu tio tivesse uma festa de cem anos à altura de sua importância e do prestígio da família. Bem verdade que a maior parte dos parentes, morando no Rio ou em São Paulo, iria deixar de participar das comemorações - a missa, a pequena recepção e o almoço íntimo, além da quermesse que ela mandara montar para o povo da cidade, dos foguetes que mandara comprar, da banda de música da Polícia Militar que providenciara e mais algumas coisas que achara apropriadas para as comemorações. Mas, no navio que precedera o 10 de Novembro, tinham ido para a festa autoridades, jornalistas, pessoas das mais importantes da Bahia, seria um êxito completo, mesmo sem a parentela.
O mais complicado na chegada foi desembarcar o automóvel que ela fizera questão de trazer para transportar o general de sua casa na Rua do Cretal para a igrejinha de São Lourenço. A distância era pequena, mas ele certamente teria dificuldade em andar e era necessário um transporte condigno, numa cidade em que só havia um par de calhambeques e uma multidão de burros e carroças. Lembrou-se aborrecida de que o general não aceitara que a missa fosse rezada na Matriz do Santíssimo Sacramento, igreja de importância e tamanho à altura do evento, mas ele lhe escrevera uma carta em que dizia, com letra firme, que só cairia de casa se a missa fosse na igreja de São Lourenço, quase uma capelinha, um prediozinho pobre e desolado, que os jesuítas construíram para os índios. Sim, mas era preciso respeitar as manias do velho e, afinal, a igrejinha tinha lá seu valor histórico, apesar da pobreza.
Não esperou que concluíssem o desembarque do automóvel, recomendou somente que se apressassem e correu pelo ancoradouro de mãos dadas com os netos como se fosse uma menina, mas logo se controlou, ajeitou o chapéu e apenas marchou apressadamente o resto do percurso, sem olhar para os lados para não ter de falar com ninguém e atrasar-se ainda mais. Encontrou o velho sorrindo, sentado numa poltrona de vime e cercado por um grupo numeroso, que o ouvia contar alguma coisa. Correu para ele, abraçou-o, beijou-o, mostrou-lhe os sobrinhos-bisnetos, o Bonifacinho Odulfo e o Eulálio Henrique. O velho riu - mas coitados dos meninos da família, ficam herdando esses nomes horrorosos. A voz dele falhava volta e meia, muitas vezes tinham de chegar os ouvidos a sua boca para escutá-lo, mas de resto parecia muito forte, muito forte mesmo. Quanto tempo, tio Tico querido! Parecia ontem o tempo em que ele morava no Rio de Janeiro e ela ia visitá-lo, não com os netos, mas com os filhos. Como o tempo passava! E que beleza viver cem anos com tal lucidez, tal alegria, tal vivacidade! Quanta coisa vista e sentida, quantas histórias para contar! Falar nisso, e as tais memórias que estava escrevendo, já estavam prontas havia muito tempo, não? - Ah - respondeu o general, com um sorriso quase maroto - , guardei tudo dentro de uma canastra.
- Canastra? O senhor disse canastra? Um baú? - Sim, sim, canastra, baú, canastra, não falo grego. Botei tudo dentro de uma canastra.
- Que canastra? - Para que você quer saber? Está fechada, não é para ser aberta antes que eu morra.
- Ih, não fale assim, tio, que pensamento horrível.
- Mas é verdade. Que é que você quer, não sou imortal e já estou indecentemente velho, viver tanto tempo é um exagero, uma coisa de mau gosto.
- Não acho. Eu mesma queria viver tanto quanto o senhor.
- Não diga bobagens. Depois de uma certa idade, a vida parece..
Mas ela nunca soube com que a vida parece depois dos cem, porque a festa explodia dentro e fora de casa, com foguetes, dobrados executados pela banda, gente entrando e saindo, abraços, cumprimentos, vivas. Levantando-se para ir para a missa, o general insistiu um pouco em caminhar, mas acabou concordando que seria cansativo e lento demais e aceitou ir de automóvel, no qual entrou debaixo de aplausos e chuvas de pétalas de flores. Com a banda, agora formada à porta da igrejinha, rompendo em rufos e clarins à sua entrada, o general desceu sorrindo, fez uma continência aos músicos e acenou para o povo aglomerado desde o Largo da Matriz à Praça da Quitanda. A missa teve música de um quinteto de cordas do Rio de Janeiro acompanhando um soprano e um barítono e foi celebrada pelo bispo auxiliar, cujo longo e erudito sermão recebeu a qualificação de verdadeira aula de História e oratória sacra declamada em tons de glória, enquanto o general, sentado no banco da frente, dormia ressonando de leve, um sorriso parecendo esboçar-se em seu rosto.
De volta à casa, tanto D. Dalva, sua enfermeira e governanta, quanto Isabel Regina quiseram que ele descansasse, fizesse uma refeição desengordurada e dormisse até o meio da tarde, quando então reapareceria para despedir-se dos convidados e conversar mais um pouco. Mas ele respondeu que não tinha a menor intenção de concordar com isso, mesmo porque já dormira magnifica-mente fazia pouco, na oportunidade proporcionada pelo excelente sermão de D. Ludovico. Sentou-se na mesma poltrona de vime em que estivera antes, brigou com as mulheres da casa porque não quiseram trazer-lhe uma lapada de cachaça e a muito custo aceitou um copinho de clarete, que bebeu aos golinhos, classificando-o de xarope azedo. Perguntou o que havia para o almoço e, quando lhe disseram de toda a comida que tinham preparado para os convidados, reclamou que nem no dia de seus cem anos lhe davam a oportunidade de não comer daquelas papinhas abomináveis que sempre lhe obrigavam a engolir. Começou a fazer uma palestra engraçada, com gente sentada até no chão para ouvi-lo, a respeito de uma curva que ele havia traçado para a vida humana e como era curioso que tudo fosse realmente circular e o homem, por muito velho, retornasse à infância, não só era sabedoria como nas restrições que essa sabedoria provocava da parte dos adultos, que monopolizam a sabedoria, mas, como sabem que ela é tão falsa quanto qualquer outra, têm medo da falta de compromisso da extrema juventude ou da extrema velhice e então proíbem que meninos e velhos façam ou até digam qualquer coisa que ameace suas convicções.
- Que pensamento! - disse um dos circunstantes, entre graves acenos de cabeça dos demais, mas o general deu um muxoxo e respondeu que não era nada disso, era uma coisa sabida e repetida desde que o mundo é mundo, que apenas adquiria um certo peso quando quem a dizia era alguém de cem anos. Ficou em silêncio algum tempo, sorriu, ficou sério outra vez, cruzou os braços.
- Eu pensei em lhes contar umas histórias - falou, a voz mais baixa da que antes.
Um menino que o fitava intensamente, parecendo ao mesmo tempo prestes a chorar, correu lá para dentro, chamando mais gente para ouvir as histórias do general, o general ia contar histórias, que histórias ele não teria para contar! Mas o general, baixando a cabeça como se estivesse olhando para alguma coisa dentro de si, disse que não, que apenas pensara em contar histórias, pois sempre soubera que não as contaria, nunca contaria histórias, isso fariam outros, sempre haveria alguém para contar histórias. Ele queria - continuou falando, a voz cada vez mais tênue - dizer alguma coisa sobre o povo brasileiro, pois que aprendera muito com o povo brasileiro, sabia do povo brasileiro. Mas não podia falar sobre isso, porque isso era uma vida, e uma vida só se pode viver, não contar. Queria também partilhar alguns segredos, sabia também de muitos segredos. Mas não podia contar nenhum desses segredos, porque sua condição secreta não estava em que fossem mantidos ocultos à custa de sanções. Nada disso, eram de certa forma segredos por sua própria essência, serem segredo era parte de sua natureza, serem segredo, por outro lado, não dependia deles, dependia de quem os descobrisse. Não adiantava, assim, revelá-los porque, mesmo revelados, não deixariam de ser segredos, ninguém ali saberia a maneira certa de acreditar neles.
Gostaria também de dizer que estava feliz, mas não estava, não por si, mas por eles. Por si só, estaria feliz, mas isso naturalmente não é possível. Não estava feliz, porque fazia cem anos e o povo brasileiro ainda nem sabia de si mesmo, não sabia nada de si mesmo! Compreendiam o que era isso, não saber de si mesmo? Não, pensavam que compreendiam, mas não compreendiam e ainda sofreriam muito antes de compreender, por isso ele não estava feliz. Não estava feliz nem mesmo com o ofício que escolheram por ele mas depois se tornou parte sua; isto porque jamais tinha conseguido ser um soldado brasileiro - quase gritou, com a voz, apesar de sumida, tremendo de emoção -, um verdadeiro soldado brasileiro, um soldado do povo, um soldado com o povo, um soldado que não mande no povo mas seja parte do povo, um soldado que não mate o povo mas morra pelo povo, um soldado que mereça a estátua, a lágrima, a lembrança, os corações, um soldado que não odeie mas ame, um soldado que não queira ensinar mas aprender, um soldado que se envergonhe diante da fome e da opressão, um soldado que se envergonhe de ser policial do governo contra o povo, um soldado que não esbanje inutilmente sua bravura, lutando em vão, morrendo em vão e, o que é pior, matando em vão, comba-tendo contra si mesmo, dando a vida para que seu povo continue a perdê-la. Mas não conseguira ser esse soldado, por mais que o fosse, como muitos outros antes ou depois dele não conseguiram, conseguiram apenas sofrer muito, geral-mente num silêncio mais doloroso que as feridas das guerras. Chegaria o dia em que os soldados estariam tão distantes do povo que teriam de viver desmentindo essa distância, sem convencer ninguém? O dia em que teriam medo de sair à rua fardados, a não ser a serviço? Não, medo não, porque têm poder, muito mais poder do que deviam ter, não teriam medo nenhum. Vergonha? Sim, vergonha sim, não propriamente da farda, porque sempre existiu quem a honrasse. Mas uma vergonha sutil, uma vergonha enrodilhada e traiçoeira, a vergonha de não ser semelhante, vergonha porque os outros não conseguem tratá-lo como igual. Pois, quando põe a farda, sabe que intimida; quando põe a farda, sabe que não lhe dizem toda a verdade; quando põe a farda, sabe que há gente que o evita; quando põe a farda, nunca sabe se é bem tratado porque gostam dele ou porque têm medo dele e acham que precisam agradá-lo. E sabe que mete medo porque a farda há sido demasiadamente mal usada, talvez por ele próprio. E essa vergonha, vergonha que vem de serem os soldados cada vez mais tutores ou tiranos, vergonha que cada vez mais aumentará, porque o poder quer mais poder e o poder odioso só se conserva aumentando essa vergonha. Pior ainda é que, com todo esse poder, cujo gosto terá sempre um travo amargo e não produzirá senão uma felicidade rasa, não serão de fato senhores, mas capatazes de seu próprio povo, seduzidos por falsas honrarias e pelas migalhinhas dos ricos e aristocratas, cuja vida jamais lhes será permitido conhecer. Servos, servos graduados, mas servos. Só não o seriam se o seu serviço fosse à única entidade soberana, que é o povo, da qual não querem, embora mintam, fazer parte.
Deixou que uma lágrima lhe escorresse livremente de cada olho, deu um empurrão no lenço que uma mão solícita lhe levou ao rosto e disse, a voz tão baixinha que quase ninguém escutou, que não estava pretendendo que alguma coisa acontecesse por causa do que falara ou falasse. Não pretendia que acontecesse nada, não previa nada, apenas testemunhava e era um testemunho a que dariam fé ou não, mas era um testemunho. Não podia morrer sem contar que sabia com certeza de uma coisa, a qual, por sua vez, lhe dava certeza de uma segunda coisa – que o povo pensa, que o povo pulsa, que o povo tem uma cabeça que transcende as cabeças dos indivíduos, que não poderá ser exterminado, mesmo que façam tudo para isso, como fazem e farão. E a primeira coisa de que tinha certeza era a respeito do Espírito do Homem.
- Não posso morrer antes de garantir - disse, levantando a cabeça sem olhar para lugar algum - que o povo brasileiro não está só. Não porque tenha aliados, pois só quem tem aliados são os governantes, mas em razão de uma causa comum a todos os homens, por mais que não pareça assim, mesmo porque o Mal existe. Mas o Espírito do Homem também existe, não como uma quimera, como algo inventado por necessidade. Tudo mais se inventou por necessidade e a única coisa que não se inventou por necessidade, embora seja a única que por necessidade existe, é o Espírito do Homem. O Espírito do Homem é universal e aspira à plenitude e à graça, tem como causa comum a todas as suas consciências essa aspiração, que se traduz na paz final de existir sem que se veja a existência, existir como essência, só existir, porque o Espírito do Homem anseia a perfeição, que é o Bem.
Curvou a cabeça para o lado e continuou a falar como se apenas suspirasse e somente o ar insonoro lhe modulasse o pensamento. Ninguém mais pôde ouvir o que ele disse, muitos até julgaram que dormia movendo os lábios, mas ele falou ainda um pouco, disse que o Espírito do Homem venceria e portanto o povo venceria. Respirou fundo, fez um ar de riso, acenou com o indicador para o meninote que o olhava tão penduradamente desde que começara a falar, pediu-lhe que se aproximasse o mais possível.
- Vou lhe dizer uma coisa por enquanto inútil - cochichou.
- Talvez para sempre, porque posso ser um velho caduco e não saber. Psssi! Você só vai poder ser tudo depois que for você! Psssi! Entendeu? Parece bobagem, mas não é! Temos de ser tudo, mas antes temos de ser nós, entendeu? Como é seu nome? Tudo, tudo, tudo, tudo! Psssi! Viva o povo brasileiro, viva nós! Empertigou o pescoço, cruzou os braços, fechou os olhos, inspirou mais fundo do que da outra vez, manteve os pulmões estufados alguns segundos e de repente soprou como quem sopra a fumaça de um cigarro e não se mexeu mais.
- Dormiu? - perguntou Isabel Regina, que tinha saído um instante para ver como iam as coisas na copa.
- Não sei - disse o rapazinho. - Eu pensei que ele já estava dormindo antes, mas aí ele me chamou para me dizer uma coisa.
- O que foi que ele lhe disse? - Não entendi direito, ele falou muito baixinho e disse que podia ser coisa de velho caduco. E terminou dando um viva ao povo brasileiro.
- Ah, titio não perde a mania, eu conheço essas coisas dele - exclamou Isabel Regina olhando para o velho carinhosamente, mas ao abraçá-lo a cabeça dele pendeu e ele caiu em seu colo.
- Tio! Tio Tico! Ajudem aqui pelo amor de Deus, tio Tico, tiozinho! Mas nem o Secretário da Saúde, médico famoso, nem os dois outros médicos presentes e mais os que estavam veraneando na ilha e foram chamados às pressas conseguiram fazer reviver o velho general, apesar da injeção de coramina e das massagens no peito. O coração parara mesmo, a festa estava acabada, agora só restava velar o morto e enterrá-lo. Isabel Regina, lívida mas decidida e calma, tomou todas as providências. O velório não seria na Matriz, seria na velha igrejinha de São Lourenço mesmo tão querida do general. O bispo auxiliar rezaria a missa de corpo presente, não podia furtar-se a pernoitar em Itaparica para atender a esse desejo dela. O 10 de Novembro zarpou, levando um amigo da família para providenciar o caixão, o representante do comandante da Região Militar para comunicar a seus superiores o passamento e providenciar as honras devidas, um mensageiro encarregado de passar telegramas aos parentes via Western e alguns jornalistas, que publicariam a notícia nas edições do dia seguinte. A Prefeitura decretou luto de uma semana e recusou o pagamento habitual para manter o gerador funcionando toda a noite, em vez de desligá-lo como de costume às 10 horas. Todo o povo da cidadezinha, falando em vozes sussurradas como se estivesse dentro de uma igreja, veio para a frente da casa, ter certeza de que o general morrera mesmo e vê-lo pela última vez.
Sete horas da noite, submergido em angélicas, palmas-de-santa-rita, crisântemos, cravos, dálias e sorrisos-de-maria, o corpo de Patrício Macário estava em câmara ardente na nave da igrejinha, onde tinha ingressado carregado por tantas mãos que muitas não chegavam a tocar no esquife, a banda perfilada executando a Marcha Fúnebre de Beethoven, o sargento-regente, muito preto em seu uniforme branco de alamares dourados, chorando, uma mão esgrimindo a batuta e a outra exortando os ataques entristecidos de sua orquestra, a tuba desentoando e fazendo os dós solenes da música soar como lás menores desesperados.
Isabel Regina, muito cansada, foi convencida a voltar para casa às dez horas, tomar um banho, descansar um pouco. Mas, ao chegar, apesar do banho morno, não conseguiu dormir e ficou conversando com Dalva na sala de jantar. Pediu-lhe que continuasse morando ali até saberem o que fariam da casa. Quem sabe a D. Dalva, claro que mediante uma boa remuneração, não podia ficar residindo na casa para sempre, mantendo-a como uma espécie de monumento à memória do general? Melhor ainda, por que não transformavam a casa num museu, o Museu Patrício Macário, reunindo tudo o que foi dele e mais outros objetos relacionados com a participação de Itaparica na guerra? Não era uma boa idéia? O general tivera uma vida muito rica, reunira muita coisa ao longo de tantos anos, até escrevera suas memórias. As memórias! Sim, até parecia que ele estava adivinhando, contara-lhe que tinha guardado as memórias numa canastra que só poderia ser aberta depois de sua morte. D. Dalva sabia que canastra era essa? Sabia, sim, devia ser uma esquisita, que ficava no gabinete, sempre coberta por um pano. Raramente a vira, porque o general mantinha o gabinete trancado e só consentia que o arrumassem na sua presença.
- Onde está a chave do gabinete? - perguntou Isabel Regina, levantando-se tão bruscamente que derrubou a cadeira.
- Deve estar no chaveiro dele, na gaveta da mesa-de-cabeceira.
Pegaram a penca de chaves, correram ao gabinete, abriram a porta, encontraram, para surpresa de D. Dalva, o janelão escancarado e as cortinas esvoaçando. E, no lugar onde devia estar a canastra, não acharam nada, ela tinha desaparecido.
Os ladrões Leucino Batata, Nonô do Candeal e Virgílio Sororoca, não contentes em fazer um verdadeiro catado do Campo Formoso ao Largo da Glória, aproveitando que muita gente estava fora de casa por causa da festa do general, ainda bagunharam os três jegues de Astério da Bica, com cangalha, caçuá e tudo, para carregar para bem longe o que tinham furtado, antes que dessem pela coisa. Tinha rádio elétrico, baixela de prata, colar de pérolas, volta de ouro, vestimenta de luxo, tinha tudo, bastante para encher os seis caçuás e ainda sobrar coisa para carregar nas costas. Tinha também o bauzinho que Nonô apanhara na casa do general e que preocupava Sororoca, que votou contra roubarem do general. Mas Nonô era descuidista de nascimento, ficava doente se via um artigo dando sopa sem ele levar. Chegou a dizer que também lhe cortava o coração furtar do grande general a quem todo mundo queria bem, mas não podiam ter deixado aquela janelona aberta, é uma coisa que não se faz. E depois, não devia ter nada mesmo naquele baú, era mais bem uma recordação. Já tinha até tentado abri-lo para provar que dentro dele só devia haver uns papéis velhos e outros bagulhos deste tipo, mas não conseguira, mesmo porque não tinham tempo a perder, precisavam juntar tudo e dar no pé. Depois, chegados a lugar seguro, ele o abriria, não havia de ser tão difícil assim.
Aonde diabo dos infernos Batata inventou de ir? Numa noite escura assim, faz até medo o sujeito andar pelos matos desarmado, é bicho, é alma, é qualquer desgraça, até mesmo os garranchos, os carrapichos, as malícias e os cansanções, cada toreba de folha larga que parece um cocó espinhudo. Mas Batata era um sujeito teimoso e resolvera que só dividiriam o produto do trabalho quando chegassem a uma maloca segura. Ele conhecia alguma maloca por ali? Não, não é que conhecesse, mas sabia que por ali havia muitas taperas, muitas ruínas cercadas de matagal e daí a pouco bateriam com uma.
- Só conheço o caminho pela praia - resmungou Sororoca irritado. - Isso aqui é mais ou menos Amoreiras ou Manguinho, não é não? - Mais ou menos. Pode ficar sossegado, que daqui a pouco nós batemos com um lugar para ficar, por aqui tinha muita construção.
- Tomara, tomara, porque eu já estou aqui agoniado com esse negócio, ainda mais com esse baú que Nonô resolveu levar do finado general. O homem morreu hoje, o defunto está fresco, de repente a alma dele se reta com o roubo do baú e vem procurar vingança, não sei, não.
- Deixe de besteira, rapaz, eu queria ver alma para acreditar, nunca vi foi nada, eu queria ver.
- Não diga isso, pela bênção de sua mãe, não diga uma desgraça dessas, a pessoa paga a boca.
- Quero ver, quero ver! - Pare com isso, por Nossa Senhora! - Foi falar em Nossa Senhora, ela ajudou! Está vendo ali, perto do riacho, junto daquela touceira de banana brava? Ali, não está vendo aquilo branco, aquilo é muro. Eu já estive aqui uma vez, aquilo ali era uma casa de farinha do tempo dos engenhos e das baleias, ainda tem até um pedaço do telhado, pronto, chegamos! Vombora, jegue ordinário! - Aquilo ali não é assombrado, não, homem? - Qual é assombrado, Sororoca, deixe de ser frouxo! - De vivente de carne e osso, não tenho medo de nenhum, mas de alma eu tenho. Eu sei cada caso... Você conheceu o finado Xaréu, um que morava na Misericórdia, pai daquele menino como-é-o-nome, um ruço? Pois esse menino...
- Guarde seus casos, Sororoca, é melhor acender os dois fifós.
- Você não pegou uma lanternona naquela casa da Rua dos Patos? - E mesmo, busque aí, você sabe acender? - Não tem dificuldade.
Levantando a lanterna acesa para alumiar o caminho, Batata entrou, seguido pelos dois outros e pelos jegues. Para uma ruína há tanto tempo abandonada, a casa de farinha estava até em bom estado, a maior parte das paredes de pé, um pedaço de telhado cobrindo a área onde ficavam os fornos, o piso livre de mato e capim, como se tivesse continuado a ter uso. Os três se abancaram, penduraram a lanterna numa ripa, acenderam mais dois fifós de lata.
- Aqui vem gente de vez em quando - disse Batata, passando o pé pelo chão. - Pé de alma não arranca capim, nem desbasta a terra assim.
- Bom, vamos logo ver isso - disse Sororoca. - Vamos descarregar esses caçuás, fazer a divisão, um jegue para cada um, dois caçuás para cada um, o material a gente divide pelo valor e não pelas peças, está certo? Levaram muito tempo, discutindo e se aborrecendo uns com os outros, para fazer a divisão. Batata e Sororoca já estavam até dispostos a brigar, quando Nonô, que tinha levado o baú para um canto mas ainda não conseguira abri-lo, resolveu a disputa, abdicando em favor dos outros de algumas coisas a que tinha direito, em troca de concordarem que o baú era seu. Os outros descon-fiaram a princípio, examinaram o baú, sacudiram-no para tentar adivinhar-lhe o conteúdo, mas, como sabiam que Nonô era meio amalucado e certamente estava querendo o baú por simples capricho, não porque já soubesse o que havia dentro dele, terminaram por assentir.
- Por que não joga essa peste no muro para arrebentar logo e ver o que tem dentro? - perguntou Sororoca.
- Não, não senhor, nada de quebrar, esse baú tem valor.
- Que diabo de valor vai ter uma arca velha dessas, pesada que nem a necessidade, toda esquisita, quem é que vai querer um negócio desses, ainda mais que ninguém acerta a abrir? Cadé a fechadura? - Não tem fechadura, já espiei tudo. S6 tem essas fendazinhas aqui e essas alças. Isso deve ser um segredo, deve ter um segredo para abrir, isso com calma a pessoa descobre. Tem que ter calma.
- Pois então vá tendo sua calma, eu vou é comer o frango assado que a gente apanhou na casa daquela branca.
- Vá, vá, basta deixar um pedacinho para mim, eu já vou, num instante eu resolvo isso aqui.
- Quem é burro pede a Deus que o mate e o diabo que carregue. Então fique você aí com seu baú, que nós vamos comer.
E já tinham até terminado de comer, Batata começava a adormecer e Sororoca pitava um charuto roubado, quando Nonô deu um grito lá do canto, onde, deitado de barriga para baixo defronte da canastra, parecia estar com a cabeça colada a ela.
- Venham cá, venham cá! Ligeiro, venham cá! - Por que é que você está falando assim? - É que eu estou aqui prendendo uma lingüetinha com o dente e, se eu soltar, acho que não acerto mais a abrir ela! E dura como a desgraça e parece que tem uma mola! Menino! Menino! Menino! - Menino o quê, infeliz, que diabo você está vendo aí? Você está vendo alguma coisa aí? Tem um buraco aí? - Tem, bem em riba de meu olho direito, bem em riba, tem um negócio piscando lá dentro! Menino! - Tem um negócio piscando? - Tem. Não! Parou de piscar! Menino! Virsantíssima! Nossa Senhora do Perpessocorro! Tudo alumiado! Menino! - Deixe de ser colhudeiro, Nonô, você não está vendo nada aí, está vendo coisa nenhuma! Saia daí para eu ver também.
- Não, não saio, se eu largar, essa desgraça fecha e não tem esse santo que abra de novo, eu abri foi de cagada. Menino! Mas que coisa, si meu olhinho, Santa Mãe de Deus! - Deixe de ser mentiroso, rapaz, você não está vendo nada aí..
- Pela luz do alto, por tudo que é sagrado, juro a você! Quer que eu lhe diga o que eu estou vendo? - Diga, diga.
- Eu estou vendo o futuro! - Vendo o futuro? O futuro como? - Não sei, só sei que é o futuro, é uma coisa que tem aqui que mostra que é o futuro.
- Que coisa é essa? - Não sei dizer, é uma coisa.
- Ora, deixe de querer fazer os outros de besta, você não está vendo futuro nenhum, não está vendo é nada.
- Estou, estou, estou! - Então diga que bicho vai dar amanhã, que bicho vai dar? - Não é esse tipo de futuro que eu estou vendo. É como se tivesse aqui uma voz me cochichando para explicar o que tem lá dentro, mas não tem voz nenhuma, porém tem. Menino! - Que é que você está vendo agora? - Ladrão como um corno! Ladrão pra dar de pau, ladrão e mentiroso por tudo quanto é lado! - Muito ladrão aí? - Chi! Chiiii! Nem me fale! E tudo muito bem trajado, uma finura! - Trajado como, de terno, de duque, de colete e gravata? - De duque de diagonal, terno de gabardine, gravata de seda, alfinetes de brilhantes, botuaduras de péurulas, sapato de corcodilo, água de cheiro no subaco de vintes contos a gota! Isso quando é paisano.
- Tem ladrão fardado? - Niminfales! Jesus Cristo, ói cuma tem! Menino! - Tudo entrando nas casas e metendo a mão em tudo dos outros? - Que nada! Eles nem toca no dinheiro, tudo tem uns cartãozinho, o dinheiro não tem nome de dinheiro.
- Que nome tem o dinheiro? - Todo tipo de nome. E verba, é dotação, é uma certa quantia, é age, é desage, é numerário, é honorário, é remoneração, é recursos alocado, é propriação de reculso, é comissão, é fis, é contisprestação, é desembolso, é crédio, é transferência, é vestimento, é tanto nome que se eu fosse dizer nunca que acabava hoje e tem mais coisa para ver. Dinheiro mesmo é que ninguém fala, todo mundo tem vergonha de falar que quer dinheiro.
- Vergonha de dinheiro si? - Grande vergonha! Todo mundo manda o dinheiro para fora e tem tanto acanhamento que, quando alguém conta que eles mandaram o dinheiro para fora, eles ficam acanhados e mandam prender esse dito certo alguém e, se esse dito certo alguém continuar falando no dinheiro que eles malocaram, eles mandam matar esse dito certo alguém! - Muita gente morta aí? - Chiii! Tem uma bomba que não deixa a alma do vivente nem sair, torta a alma também. Tá escrito aqui: nada non suferfife a uma prosão telmonucreá, nem as arminhas, as alminhas! - Botaram a bomba aí? - Botaram não, tão querendo botar, que é para garantir a paz. Se ninguém se comportar, morre todo mundo, morre até as alminhas no telmonucreá! - Mas então ninguém morreu ainda, pode morrer mas não morreu.
- Morreu, sim! Tá morrendo! Tem um menino aqui de oito anos que está carregando a irmã de dois anos que um americano deu um tiro sem querer, depois que outros americanos jogaram uma bomba na casa do pai dele sem querer, na hora que os americanos entraram para invadir a terra dele para salvar ele, só que não sobrou ninguém, ficou tudo salvo. Tem gente morrendo também de todo jeito, morrendo muito de fome, cada menino magro que parece uma taquara, tudo os aribus vindo para comer. Muito aribu gordo! - Não tem comida aí, não? - Não, comida tem, tem até demais. Tem um pessoal louro musturando leite em pó no macadame da avenida, para ficar mais macio. Tem gente tocando fogo em pinto e afogando pinto que faz gosto, tem gente matando ganso só para tirar o figo, tem gente pagando para o homem não plantar que é para não ter comida demais e o preço não descer, tem gente querendo capar os outros para os outros não fazer filhos que possam comer a comida que se joga fora, tem coisa que Deus duvida aqui! Tem subola e alho jogado no rio, veja você, subola e alho! Depois que eles joga no rio, eles compra outra vez, só que no estrangeiro, que é para o estrangeiro respeitar ele.
- Muito estrangeiro aí? - Poucos, mas tudo mandando, uma coisa por demais. O sujeito gosta de uma coisa, ele vem e diz que o sujeito não gosta e manda o sujeito gostar de outra, porém com arte. O estrangeiro manda, porém não é o estrangeiro, é o dinheiro. O dinheiro manda.
- Muito dinheiro sobrando aí? - Chiiii! Mas tudo na mão deles! - E para que serve esse dinheiro todo? - Pra tudo! Você não sabe o que eles faz! - Que é que eles fazem assim, menino? - Ah, eles mata, eles furta, eles rouba, eles mente, eles manda e desmanda, eles pinta o caráio e nada acontece com eles. Pense aí numa coisa, que eu lhe digo se tem aqui. Pense numa coisa bem ruim aí.
- Estão matando pai de família? - Nem lhe conto! Chiiii! Ave Maria! Chiiii! E tem ninguém podendo sair na rua, menino? Tudo saindo, tudo morto à bala! - Criança aí, estão matando? - Mas que é uma liquidação, esse menino! Parece mosca no vinagre! Eta, que desgraça, que desgraça, ai meus olhinhos! - Que foi aí, Nonô? - Ai meus olhinhos, não posso crer, ai meus olhinhos, minha Nossa Senhora, minha Virgem Santíssima, perdoe os meus pecados, meu Deus do céu, ai meus olhinhos, ai meu olhinho! Quanta desgraça! - Tem jeito não, Nonô? - Ai meu olhinho, eu não quero ver mais, ai meu olhinho! Lá vem cacete, eu não quero ver mais, lá vem cacete! - Largue não, espie mais! - Tem que ter coragem, tem que ter coragem.
- Tenha coragem, rapaz, espie mais! Conte mais, que é que você está vendo mais? Mas Nonô não pôde continuar a olhar para dentro da canastra, porque um ronco surdo, como se um animal imenso estivesse soterrado ali e quisesse levantar o chão para sair, começou a agitar tudo em torno, um ronco de elefante, de baleia, de onça, um arfar penoso que de repente tomou conta do mundo, não era mais um bicho embaixo da terra, era a própria terra como se estivesse em dor de parir, como se fosse morder, como se fosse revirar-se sobre si mesma.
- Está tudo vivo, minha Nossa Senhora, meu Jesus Cristo, tudo é vivo! - gritou Sororoca. - Ai, minha mãe! Os outros, mesmo que quisessem responder, não poderiam, porque, com um grito que jamais pensara poder dar, Batata puxou a mão da parede em que a encostara, ao sentir escorrer sobre ela um caldo espesso e quente, um caldo vermelho e ardente, um caldo semelhante a sangue, sangue porejando lentamente das paredes das ruínas da casa de farinha, derramando-se em borbotões vagarosos sobre os blocos de argamassa, saindo de todos os pontos da parede, uma cachoeira viscosa e silenciosa, sangue brotando de cada rachadura, cada ponto escuro do cimento antigo, cada esconderijo de aranhas e lacraias, cada grão de areia ali juntado, cada pedrinha. A casa da farinha entrou em compasso com a terra por baixo dela, o sangue passou a jorrar como se bombeado por aqueles grandes suspiros, os jegues arrepanharam as cabeças e quebraram os cabrestos para fugir, os três ladrões, sem falar nada, desembestaram pelo meio das brenhas, procurando o mar pelo cheiro. No céu de Amoreiras nada se via, a não ser as constelações de janeiro em seu passeio inexorável. Mais acima desse céu de Amoreiras, onde tudo existe e nada é inacreditável, o Poleiro das Almas, vibrando de tantas asas agitadas e tantos sonhos brandidos ao vento indiferente do Universo, quase despenca da agitação que o avassalou, enquanto terra latejava lá embaixo e as alminhas faziam força para descer, descer, descer, descer, descer, descer, porque queriam brigar. Por que queriam brigar? Não se sabe, nada se sabe, tudo se escolhe. Tudo se escolhe, como sabem as alminhas agora tiritando no frio infinito do cosmos, que as balança como as arraias empinadas pelos meninos de que têm saudades. Almas brasileirinhas, tão pequetitinhas que faziam pena, tão bobas que davam dó, mas decididas a voltar para lutar. Alminhas que tinham aprendido tão pouco e queriam aprender mais, como é da natureza das alminhas, e tremeram outra vez quando lá embaixo três ladrões correram da velha canastra, a qual foi soterrada pelo sangue, pelo sangue, pelo sangue, pela argamassa que é a mesma coisa, pelo suor que é a mesma coisa, pelas .lágrimas que são a mesma coisa, pelo leite do peito que é a mesma coisa. Isso lá em cima, Deus sorrindo ou não, porque embaixo, muito embaixo sob os ares de Amoreiras, tudo acontecia ou estava sempre podendo acontecer. O sudeste bateu, juntou as nuvens, começou a chover em bagas grossas e ritmadas, todos os que ainda estavam acordados levantaram-se para fechar suas janelas e aparar a água que viria das calhas. Ninguém olhou para cima e assim ninguém viu, no meio do temporal, o Espírito do Homem, erradio mas cheio de esperança, vagando sobre as águas sem luz da grande bafa.
FIM DO LIVRO
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