- Tu entendeu, Zé Pinto? - perguntou.
- Da-da-da-da - respondeu Zé Pinto, com os olhos baixos.
- Tu vais entender - disse Júlio Dandão. - Eu vou mostrar um segredo. Vou mostrar mais de um segredo, segredos que eu venho guardando sozinho, mas não devo mais guardar sozinho. Antes, todos os que sabiam desses segredos morreram ou desapareceram, só fiquei eu, com essa missão de guarda. Mas segredo de um só não serve para nada, só leva ao desvario do juízo e à perda completa da idéia. De maneira que chegou a hora de dividir esses segredos, que é o único jeito de manter esses segredos inteiros. Mas não é somente para mostrar, é também para fazer.
Passou os olhos pelos três com o cachimbo na boca, as bochechas enconchadas pela forca das chupadas até se tocarem por dentro e a fumaça, em chumaços cada vez mais volumosos, encobrindo-lhe a cabeça.
- Muito bem - disse, o rosto retomando forma gradualmente em meio à fumaça. - Vamos ver esses segredos todos, todos que fiquem aí como estão.
Estendeu o braço para trás, pegou um surrão de pano pardo que ninguém antes tinha visto ali no cantinho, puxou-o pela boca, afrouxou o cadarço, abriu-o, olhou para dentro um instante, arrancou com as duas mãos uma canastra de madeira e metal, prendeu o surrão com o pé para que ela pudesse sair desimpedida e levantou-a diante dos outros. Parecia ser pesada, pois mesmo seu braço, da grossura de um mamoeiro na primeira fruteação, tremia ao erguê-la. Depositou-a à frente, tirou o chapéu, tenteou com os dedos por dentro dele, sacou um pedaço de ferro de contorno ziguezagueado e passou a enfiá-lo, em movimentos nervosos, nas oito ranhuras laterais da canastra, até que, murmurando um canto abafado e uns sons como os de quem faz contas entre dentes, bateu três ou quatro vezes nas quinas e a tampa se levantou como a cabeça de um peixe vagaroso saindo fora d'água, o rangido leve das dobradiças soando muito alto naquele silêncio. Dandão olhou para dentro da canastra, pôs-lhe a mão na tampa, quase fechando-a de volta.
- Estes segredos - disse sem tirar a mão da tampa – são parte de um grande conhecimento, conhecimento este que ainda não está completo, mesmo porque nenhum conhecimento fica completo nunca, faz parte dele que sempre se queira que ele fique completo. E faz parte dele também, por ser segredo e somente para certas pessoas, que cada um que saiba dele trabalhe para que ele fique completo. Se todos trabalharem, geração por geração, este é o conhecimento que vai vencer.
Budião, Feliciano e Zé Pinto continuaram sem compreender direito o que ele estava dizendo, mas não sentiram vontade de perguntar nada, como se tivessem certeza de que acabariam compreendendo. Mesmo porque, enquanto falava entre seus rolos de fumaça, Dandão ficou muito maior, muitíssimo maior, mais alto do que a casa que o continha, ficou de todas as cores e expressões, ficou até transparente, ficou úmido como o entrepernas de uma mulher e sabido como a raiz da árvore, ficou uma verdadeira paisagem. E então soltou de vez a tampa, que voltou a escancarar-se pendulando até achar sua posição, e de lá principiou a puxar segredos, um segredo atrás do outro, cada qual mais maioral, havendo quem afirme terem sido libertados inúmeros espíritos de coisas, maneiras de ser, sopros trabalhadores, papéis que não se podia ver com os dois olhos para não cegar, influências aéreas, as verdades por trás do que se ouve, sugestões inarredáveis, realidades tão claras quanto o imperativo de viver e criar filhos. Foi também tudo muito sonoroso, tão melódico que nada mais se escutou dentro da casa da farinha, dizendo uns que ali, naquela hora, se fundou uma irmandade clandestina, a qual irmandade ficou sendo a do Povo Brasileiro, outros dizendo que não houve nada, nunca houve nada, nunca houve nem essa casa dessa farinha desse engenho desse barão dessa armação, tudo se afigurando mais labiríntico a cada perquirição. Enquanto Júlio Dandão vai aos poucos catando na canastra o que mostrar e vai exibindo alguma coisa e explicando outra, essa Irmandade talvez esteja se fundando, talvez não esteja, talvez tenha sido fundada para sempre e para sempre persista, talvez seja tudo mentira, talvez seja a verdade mais patente e por isso mesmo invisível, porém não se sabendo, porque essa Irmandade, se bem que mate e morra, não fala
Salvador da Bahia, 13 de setembro de 1827.
Sorriso de Desdém estava pálido, a voz falhando, as mãos apertadas, os olhos arregalados. E Zé Libório não lhe ficava atrás, só que não tinha paciência para permanecer sentado e, enquanto o outro falava, zanzava de uma ponta para outra do tendal, para de quando em vez encarar Nego Leléu como quem espera explicações de alguém que fez alguma coisa muito errada. Mas Leléu, que no começo ficara tamborilando as unhas na mesa, agora ouvia as acusações com o rosto impassível, os braços cruzados e até, podia-se dizer, uma atenção cortês. Só não iria admitir que Sorriso de Desdém o chamasse de nomes feios, caso em que talvez passasse a mão no porrete que descansava entre os joelhos, mas Sorriso de Desdém tinha preparado sua fala, estava mais interessado em demonstrar razão do que em xingamentos, pelo menos por enquanto. Lembrou que Leléu fora o primeiro a juntar os açambarcadores de peixe para combinar o preço da compra e o preço da venda e acertar a união que faz a boa prática comercial, ainda mais neste comércio de merda, em que qualquer chuva ou qualquer lua mudavam tudo, comércio de pobre em que toda gente achava de dar penada e todo funcionário de cagar regra. Então nada mais era do que alta canalhice aquele comportamento de Leléu nos últimos dias, andando todo monarca pelo meio dos balaios e dando os preços no olho e na veneta. Quando encontrava um balaio já apalavrado, dizia dichotes do preço apalavrado, chamava o pescador de besta da bolacha, oferecia qualquer derréis a mais e arrastava tudo. Se chegasse cedo, se comportava de maneira nunca vista no mercado da Conceição desde que o mundo era mundo, indo até mesmo encontrar as canoas na largada da poita para anunciar, como se fosse o exclusivo rei do mar com todos os seus peixinhos, que cobria qualquer oferta passada ou futura e que portanto não adiantava levar o pescado para o lugar de ver, carregassem logo tudo para uma de suas quatro bancas. Se algum pescador por acaso hesitava ou lembrava acordo e amizade com outro peixeiro, ele primeiro debochava, depois ameaçava, depois traía a confiança dos colegas, denunciando os compradores que usavam pedras de peso ocadas para ganhar um pouco mais na quantidade, prevendo falências e falcatruas, arrotando vantagens, exibindo poderes financiais e, enfim, surpreendendo a todos com tanta ousadia, descaramento e desfaçatez. Se chegava ao mercado pelas quatro, cinco horas, como os outros desmanchava tudo quanto fora organizado tão laboriosamente no curso de anos e mais anos de arrelia e intranquilidade. Pois o peixe, como sabem todos, é vendido pela cotação, a cotação é feita sem alarde, com educação e discrição, tudo conchavado dentro da decência que deve imperar nos negócios sérios, a ponto de quem não conhece o ramo poder ficar ali defronte, em cima mesmo, e não perceber coisa alguma acontecendo. Não é nada disso do que resolveu Nego Leléu, entrando pelo meio das conversas alheias, rindo alto das combinações, debicando dos que vendiam a outros que não ele e manobrando para que o peixe alheio encalhasse, fosse dizendo que era reimoso, velho e de segunda, fosse baixando seu preço tanto que ninguém podia concorrer sem arruinar-se. Como ficava o Grêmio dos Marchantes de Peixe Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que Leléu mesmo tinha inventado e até batizado? O Grêmio não tinha sede, não tinha letreiro, não tinha carta, não tinha nada, mas existia, tanto assim que, depois que eles reuniam para fazer a cota de cada um, fazer o preço de cada qualidade de peixe e marisco e dar as condições de pagamento não era necessário mais que um comprador para representar todos eles, um comprador sem controvérsia ou protesto, era aquilo ou nada, pescador que não gostasse que fosse vender seu peixe sozinho, sabendo-se que quem trabalha no fazer não trabalha no vender e por conseguinte o pescador não tinha jeito. Agora não, agora a salga do peixe de Leléu estava cada vez maior, fileiras e mais fileiras de peixe e camarão pegando o sol, falava-se até mesmo de minas de cernambis e mariscos de areia conservados em cochos com lama e água da maré, esperando comprador.
Então, disse Sorriso de Desdém tremendo como carne de tartaruga, isso não pode mais ser, isso não vai continuar, isso está um abuso, mais do que abuso, que é que Leléu estava pensando, estava pensando que todos os outros iam ficar de braços cruzados enquanto esse despautério acontecia? Zé Libório, para quem, cada vez mais exaltado, Sorriso de Desdém olhou pedindo apoio, silencioso. E Leléu chegou até a pensar em lhes contar como estava azul, azul mesmo de retado, azucrinado, infernado, como se sentia lutando contra o mundo e como dera para achar que era cada um por si, ainda mais do que achava antes. Doutor Pedro Manoel Augusto mesmo, lá em Nazaré, entendera de voltar, depois de toda aquela ladainha de Santa Marta e Dona Marta de Betânia e não sei mais o quê, para tornar a perguntar se Leléu não tinha uma menina para tomar conta da casa de Aratuípe, uma menina nova, de pernas grossas e bom traseiro, que fosse disposta e não tivesse calundu nem muito bodum.
- Mas Senhor Doutor Tabelião Pedro Manoel Augusto, não me disse o senhor mesmo que não queria mais saber dessas coisas? Não devolveu a menina que lhe arranjei, coisa mais que fina, de boa raça das senzalas do Barão de Pirapuama, afamado pelo capricho no criatório de negros? - É, disse – respondera Pedro Manoel Augusto – Devolvi, sim. Mas agora estou pensando melhor, o homem não pode se prender a essas promessas obrigadas pela mulher, o homem tem de ser fiel a si mesmo e eu assim.
- O homem tem de ser fiel a quê, meu ioiozinho? - Fiel a si mesmo. Tu não entendes desses assuntos, são assuntos da Filosofia Moral, que estão tão longe de ti quanto a inteligência está longe dos vermes. Que é feito da menina, não a mandaste embora, pois não? - E a promessa, meu ioiozinho Doutor Pedro Manoel Augusto, a promessa a Santa Marta? - Isto não é questão que te interesse, nada tens com isso, não sejas ousado, a promessa é entre a santa e eu, não te metas. Então, onde está a menina? - Mas Doutor Pedro Manoel Augusto, Vossa Excelência não já recebeu todo o dinheiro, não já levei tudo que Vossa Excelência mandou? Não já acertamos tudo? - Ah, mas então faço-te um favor, um favor muito grande, livro-te de multas e do xadrez, dou-te todas as oportunidades e, quando preciso eu de um favor, tu me negas? - Mas Senhor Doutor Tabelião Provedor Pedro Manoel Augusto, aqueles pagamentos não foram por causa de que Vossa Excelência não aceitou a menina? Não foi uma coisa no lugar da outra? Ioiô não disse...
- Bem diz sempre meu pai que a gente como tu não se deve fazer favor e obséquio, porque não compreendem, e a virtude da gratidão lhes é desconhecida! Mas então, negro safado, é assim que me respondes, com rezingas e negaças? Tu pensas que aquele dinheirinho, aquela meia pataca que pagaste em lugar de tuas dívidas criminosas, adianta-me alguma coisa? Quem pensas que és, quem pensas que sou? Julguei que, com o favor que te fiz, pudesses ver que em mim contavas com um amigo e protetor. Mas percebo que não, não sabes dar valor às coisas de valor, vejo que atiro pérolas aos porcos, como se diz. Bem-feito para mim, que fui esperar ter com negros o mesmo trato que com brancos, tu não vales é nada, tu és um poço de ingratidão e estupidez. Pois muito bem, pois perdes o amigo e o protetor, quero ver agora como te sais com teu comércio ilícito e tuas práticas larápias. Até parece que foste tu que me fizeste o favor de perdoar os devidos e as multas, não eu a ti, isto chega a ser engraçado, chega a ser muito engraçado, se me contassem eu não acreditava. Bem-feito, bem-feito! Leléu franziu o rosto. O desgraçado quis foi tomar o dinheiro primeiro para depois pegar a menina, se duvidar nunca houve nem promessa nenhuma a nenhumas santas martas, sujeito descarado! Está certo, bem faz ele, mal fez Leléu, em não ter pensado em tudo e ter cometido aquela besteira de deixar Vevé ficar em Nazaré, em vez de mandá-la embora logo, para ver se achava serventia para ela em outra coisa. Quanto mais se vive mais se aprende, é isso mesmo, e além disso o preto tem de ser mais esperto, muito mais esperto - já viu, não é, estar neste mundo de sabidos e ainda por cima ser preto, já viu, hem? Leléu se lembrou de suas próprias convicções, recriminou-se por haver esquecido delas a ponto de facilitar com Pedro Manoel Augusto. Muito bem, para sabido, sabido e meio. Caiu de joelhos aos pés do tabelião.
- Ai, ioiozinho, pela bença da santa Senhora Mãe de Vossa Excelência, pelas chagas de Cristo, não diga Vossa Excelência uma coisa dessas, não faça Vossa Excelência uma miséria destas, que eu sou preto mas não sou ordinário, ioiozinho! Eu só perguntei por perguntar, é que eu pensei que a promessa... Mas razão tem Vossa Excelência Doutor ioiozinho, o homem tem que ser fiei a ele mesmo, benza Deus Vossa Excelência por tanta inteligência, ah ioiozinho, não pense que eu não faço qualquer coisa pela amizade e a proteção, São Lourenço que me livre de perder a amizade de ioiô ioiozinho, como é que eu vou ligar para uma negrinha ordinária, isso tem lá valor? Queria eu ter mais para mais pôr à disposição de ioiozinho, pelo amor de Deus, Senhor Doutor Pedro Manoel Augusto, nem pense uma infelicidade destas! O tabelião ainda resistiu um pouco, perseverou no amuo, mas Leléu desta vez conseguiu beijar-lhe a mão e já espremia duas grossas lágrimas pelos cantos dos olhos, quando ele cedeu. Muito bem, por esta vez passaria, mas que aprendesse a lição, procurasse não mais causar-lhe dissabores. Quando poderia ver a negrinha? Ah, se Leléu tivesse sabido, ela já estaria ali, pronta para o que desse e viesse, mas não estava, tinha saído com mais duas para ajudar na cata do marisco - aliás, o Doutor gostava de aratu? Tinha pegado uma carga boa! Mas o Doutor não quis saber dos aratus. Agora que havia garantido a posse da negrinha, ficou afogueado, levantou-se, não parava quieto, esfregava as mãos e coçava o saco incessantemente, um sorrisinho nervoso piscando vez por outra em sua boca, como luz de vagalume. Então fari-3 o seguinte. O que faria era o seguinte. Muito bem, faria o seguinte, o seguinte. Amanhã, sem falta, estaria no trapiche velho, ali por trás dos fardos de piaçaba, que faziam uma parede natural. Que Leléu mandasse a negrinha para lá de manhã cedo, ele a encontraria lá, iria - esfregou as mãos e deu um pulinho curto - ver como eram as coisas, depois falaria com Leléu.
- Bem pensado, bem pensado! - dizia Leléu a cada instante, com grande admiração. - Muita inteligência, muita inteligência! - Hoje mesmo vou dizer à Senhora Dona Marta, minha esposa, que amanhã viajo cedinho, antes do amanhecer. Assim, posso passar o dia inteiro no trapiche velho, sossegadamente.
- Mas que inteligência! Homem! Aí é que eu admiro o estudo, nunca que eu ia pensar essas coisas assim tão bem pensado, o estudo é uma grande coisa, benza Deus. Ioiozinho quer que eu mande comida também? Possa ser que dê fome em ioiozinho, essas coisas assim...
Pedro Manoel Augusto riu cobrindo a boca. Sim, mandasse um farnelzinho pela negrinha, nada de muito pesado, uma merendinha leve, uns docinhos também não fariam mal.
- Pode deixar, ioiozinho, mando uma matalotagem caprichada, Vossa Excelência vai ver, mas, com perdão da má palavra, que homem danado, mas que pensamento, que idéia ligeira! Todavia, assim que Pedro Manoel Augusto terminou de combinar pela décima vez todos os pormenores, desde a hora até o sinal que daria para comunicar que estava à espera - um discreto lencinho encarnado com a ponta aparecendo pelo canto do janelão do trapiche -, e foi embora esfregando as mãos como se quisesse soldá-las, Leléu fechou a cara e correu para o barraco atrás do telheiro do peixe. Chamou Vevé e, de uma forma com que nunca se havia dirigido a ela, pediu-lhe fervorosamente que ficasse no barraco o dia todo, para o próprio bem dela, não saísse de lá por nada. Abriu uma arca enferrujada e, jogando para fora panos coloridos, pedaços de madeira pintados, chocalhos, apitos, cometas, bonecos, rodas, bois de barro e todo tipo de brinquedo, teve uma exclamação de alegria ao achar uma bexiga cheia. Apanhou o mané-gostoso e um pião de bolinhas azuis e vermelhas, embrulhou-os num pano velho junto com a bexiga.
- Depois eu te conto, fica aí - disse a Vevé e saiu sem esquecer de passar a aldrava na porta com atenção.
Encontrou o negrinho Salustiano na quitanda como esperava, chamou-o para uma conversa. Ele conhecia o menino José Vicente, filho do Doutor Tabelião Pedro Manoel Augusto, não conhecia? Não brincavam juntos de vez em quando? Brincavam. E Quelé, o irmão menor de Salu, por onde andava? Tinha um serviço para os dois, serviço muito importante, nada de perguntação, era coisa de grande responsabilidade. De tarde, dava para chamar Quelé aqui? Dava, sim, e Leléu, quando o sol já ia se pondo, conversou com os dois aos cochichos. Estão prestando atenção? Pois muito bem, pois amanhã bem cedinho...
E nesse dia, bem cedinho, já se viam Salustiano e Quelé, o pião e o mané-gostoso enfiados nos bolsos dos calções, a bexiga subindo e descendo em suas mãos como uma bola mágica, defronte do alpendre em que José Vicente estava sem fazer nada, pedindo a uma mucaminha que lhe contasse outra vez a mesma história. E a mucaminha já ia dizer como sempre que contar história de dia faz nascer rabo, quando José Vicente viu a bexiga e correu para a rua. A mucaminha deu de ombros, melhor mesmo que ele fosse brincar lá fora, em vez de ficar por ali querendo uma coisa atrás da outra. Não tardou que Quelé se queixasse de que aquela rua era muito estreita, cheia de valas, não dava para brincar direito. Por que não iam até a capineira baixa, ao lado do trapiche velho? José Vicente olhou para ver se a mucama estava vigiando, não estava. Dona Marta não gostava de que ele fosse brincar pelos lados do trapiche velho, achava que lá haver cobras. Mas, quem sabe uma horinha só? Hesitou um pouco, Quelé insistiu. Se não fossem com ele, iria sozinho, levava sua bexiga, levava o mané-gostoso, não mostrava os outros brinquedos que tinha guardados. Salu fez objeções, ele mesmo não ia, Seu Leovigildo tampouco gostava que ele se afastasse. Ah, então: eu vou - disse Quelé agarrando a bexiga, e José Vicente correu atrás dele, Salu voltou para a quitanda.
De longe Quelé já via a ponta de pano vermelho saindo espremida pelo canto da janela. Então estava tudo certo, era aproveitar a primeira oportunidade para jogar a bexiga por cima do tapume do trapiche, como Leléu tinha mandado. Lá se foi ela, ajudada pelo vento forte que curvava as tiriricas do alagadiço.
- Diacho! - disse Quelé. - Uma bexiga dessas, tão bem enrolada de barbante, que minha madrinha enrolou! - Pula aí para buscar - disse José Vicente.
Quelé avaliou a altura do tapume, curvou a boca para baixo. Quem é que ia trepar numa altura daquelas? Só se tivessem uma escada.
- É capaz que a porta esteja aberta - disse José Vicente.
- Vai ver se a porta grande não está aberta, dali a gente atravessa e entra no quintal.
- Eu não. Se eu entrar lá, vão dizer que eu sou neguinho ladrão, eu mesmo que não vou lá.
José Vicente correu até a porta, empurrou-a, estava meio presa mas parecia fácil de abrir. Forçou outra vez, já estava conseguindo uma abertura por onde se esgueirar, quando alguém do lado de dentro abriu a porta por inteiro.
- Pai! - gritou José Vicente. - Meu pai! A figura espantada de Pedro Manoel Augusto estava de pé à entrada. Chegara com um sorriso para abrir a porta, agora não acertava a dizer nada, enquanto José Vicente, sem nem olhar para Quelé, disparava de volta para casa, com medo de apanhar por brincar em lugar proibido.
- José Vicente, volta aqui! - chamou Pedro Manoel Augusto já tarde demais, o vulto pequeno do filho sumindo por trás dos oitizeiros.
Pronto, pensou o tabelião, pronto. Agora o raio do menino ia para casa dizer à mãe que o pai não estava em viagem, estava escondido dentro do trapiche velho como um rato de armazém. Mas, tão logo começou a engendrar uma desculpa afobada, Vevé apontou no caminho da igreja, carregando pelas abas um cabaz de vime cheio de frutas, pastéis e quartinhas de refresco. Ele fez um sinal atarantado com as duas mãos, ela achou que era para que se apressasse e começou a correr caminho abaixo, sem entender por que, quanto mais ela corria, mais ele gesticulava.
- Ora, que desgraça! - disse ele, quando ela parou diante da porta do trapiche, ainda ofegante da carreira que tinha dado.
- Mas já se viu? Que estás a fazer aqui, não vês que não podes ficar aqui? - Mas o lenço encarnado não estava na janela? Não era para vir quando o lenço encarnado estivesse na janela? - Não! Sim. Era! Era! Não é mais! E desabalou em direção a sua casa, sem falar mais nada com ela, que ficou com um riso esboçado na cara, enquanto ele andava o mais rápido que podia em suas perninhas finas equilibrando o barrigão - que desgraça, que desgraça, essa agora, que desgraça! E, mais tarde, quando a Senhora Dona Marta de Betânia apesar dos protestos do marido, veio fazer uma verificação no trapiche, encontrou-a de olhos baixos, respondendo apenas com um silêncio encolhido às perguntas feitas, exatamente como tinha combinado com Leléu. Dona Marta abriu o cesto, virou-o de cabeça para baixo no chão e, querendo fazer ou dizer mais alguma coisa sem saber porém o quê, fungou ruidosamente, morder os beiços e marchou dura de volta à casa, ignorando o olhar comprido de Pedro Manoel Augusto, que mastigava as mãos com cara de choro.
Leléu, embora não deixasse de escutar vagamente o que Sorriso de Desdém continuava a falar, lembrou com satisfação como tudo tinha dado certo e como aquele estuporado daquele tabelião não tinha papado de graça o que não lhe era devido. Sentiu até uma certa amizade por Vevé, mas em seguida tudo se ensombreou outra vez: não é que a miserável estava mesmo enxertada, não é que a barriga já inchava, mesmo debaixo do saião rodado que lhe dera para que não houvesse comentários enquanto que não resolvesse o que fazer? A negra Inácia tinha razão então, então ela estava mesmo prenhe desde aquele dia de Santo Antônio mais ou menos, estava com quase três meses. Não servia para nada, que diabo ele ia fazer com uma peste de uma negrinha embuchada, mesmo que o filho fosse do barão, barão este finado e terrado, ai quanta aporrinhação! Antes ele tivesse deixado o tabelião socar o relho na negrinha, que naquela época ia dar para pensar que o filho era dele, sendo ele quase tão branco quanto o barão. Tudo desencontrado, tudo dando para trás, em toda parte caloteiros, escorchadores, aproveitadores, invejosos, um atraso só, uma luta mais que tirana, quanta aporrinhação! O homem deve ser fiel a si mesmo, recordou Leléu, a mim me devem sem pagar, a mim me abusam, a mim procuram prejudicar, a mim me atazanam, a mim me atrasam, a mim me botam o olhão nas minhas coisas, a mim só criam dificuldades, ora merda! - Tão todos dois enganados - disse a Sorriso de Desdém, com uma calma ainda maior que a que tinha ensaiado. - A mim não tão dizendo nada, não sei nada disso.
Sorriso de Desdém fez força para a mão que levantava com o dedo em riste não tremer.
- Leléu - falou com a voz estrangulada -, não é Só tu que é sabido, não é só tu que é macho, não é só tu que é disposto.
Leléu passou a mão no porrete, agarrou-o firme.
- Tou com a mão no porrete - disse. - Tu já contou tuas mentiras aí, já fizeste ameaça, já abusaste da minha paciência. E tu também, Zé Libório, que, quando todos os dois passaram necessidade, se acharam foi comigo para emprestar dinheiro.
- A prêmio.
- Pois! Pois! A prêmio, que eu não vou trabalhar de sol a sol, de lua a lua, para sair dando meu dinheiro. O teu mal, o mal de todos os dois, é achar que tudo vem de graça. Nada vem de graça e, se eu tenho, tudo eu conquistei e todo dia tenho de reconquistar. Em vez de ter inveja, vão trabalhar como eu! - Todos aqui trabalham, deixa dessa conversa de disfarce.
- Tou com a mão no porrete e estou com vontade de dar umas cacetadas e não tou fazendo troça! - Leléu, tu não perde por esperar.
- Fora! Todos dois! A porta da rua é serventia da casal Ora, está muito certo, pensou depois que os dois saíram, resolvendo que ia ter o instante de fraqueza.
- É, eu vou ter o instante de fraqueza - disse alto, e pescou uma garrafa de cachaça empoeirada de dentro de um cesto atufado de palha de bananeira. Levantou a garrafa contra a luz, sacudiu-a, passou-lhe um pano para limpar a poeira, sacou a rolha com os dentes, encheu dois canecos, bebeu um atrás do outro, ficou bêbado imediatamente, já saiu melado para a rua. Quem não o conhecesse talvez não notasse que estava meladão, mas isto era visível pelo maxilar pendente mesmo com a boca fechada e o olhar agressivamente enviezado. Também falava alto quando bebia, tão alto que, mesmo se tentava cochichar sua voz reverberava por todo o mercado, acordando até quem já estava dormindo depois de trabalhar a noite toda e almoçar pelas seis horas da manhã.
Prorrompeu da porta, o sol lhe bateu na cara, ele puxou o chapelão por cima da testa. Lambeu os beiços, cuspiu de lado, esfregou as duas mãos dos lados das calças - coisa que tampouco fazia quando estava sóbrio, para não sujá-las -, lembrou-se do porrete, voltou para buscá-lo, emergiu de novo, parecendo outro homem.
- Vamos trabalhar, Leléu - disse, avaliando a paisagem com um olhar confiante e começando a andar para onde os pescadores já enfileiravam os balaios do dia. Sabia que estava bêbado, tinha ficado bêbado de propósito, gostava daquela sensação de maluquice, embora desaprovasse a bebida e soubesse que, no dia seguinte, ia arrepender-se. Mas jamais falava no assunto, jamais reconhecia que estivera bêbado e maluco, mudava de conversa quando alguém perguntava qualquer coisa e, sozinho, somente se arrepiava e estremecia ao lembrar alguma asnice que cometera, bastando contudo esse arrepio e esse estremeção para exorcizar tudo e não deixar que ele pensasse outra vez no que fizera. Marchou para os balaios e o primeiro que viu foi o de Rato e Sarigüê, dois mulatos magros, irmãos por parte de pai e mãe, que saíam também bêbados para pescar e que moravam, cada qual com duas mulheres, duas sogras, quatro cunhados, seis cunhadas e três sobrinhos, nos buracos do paredão da ladeira da Conceição, juntamente com os morcegos, segundo muitos também seus parentes, segundo outros sua comida em dias de festa da família. Nenhum dos dois sabia pescar e, se sabiam, sempre estavam emborrachados demais para trazer o peixe bera, de forma que Leléu já estava ciente do que ofereciam no balaio e de que o venderiam por qualquer preço. Aproximou-se do balaio, apenas confirmou: um monte desordenado de lulas pequenas, siris caxangás de má qualidade, vermelhinhos espinhentos, carrapatos miudinhos, cabeçudos destamanhinho, xixarros e sardinhas ordinários, dois ou três carapicus, quatro ou cinco garapaus, um cavaco muito do esbodegado lá realçado como se fosse grande coisa, seis agulhões mais verdadeiramente agulheiros de tão cheios de farpelas, coisa abaixo de imprestável.
- Quanto quer na bela moqueca meu caro Sarigüê, quanto quer meu nobre Rato Gazo? - disse Leléu, detendo-se com um passo de sarambeque e gestos floreados.
Sarigüê estranhou, deu risada.
- Um cruzado leva tudo - disse, e chegou até a levantar o braço, no caso de Leléu querer dar uma cajadada nele.
- Meu bom homem, meu grande pescador brasileiro, mecê apresenta uma moqueca dessas, coisa de reis e rainhas nesta rampa de mercado, e mecê quer um cruzado por tal belíssimo banquete? - discursou Leléu. - Toma lá seis cruzados por esse balaio precioso, leva ele lá a meus negros cativos.
Achou-se engraçadíssimo, dobrou-se de gargalhar e, curvado, aos tropeções, bateu-se com a guaraiúba de Nego Lodé, o brilho do mar ainda persistindo nas escamas, os lombos azulescentes faiscando. Estacou, rodopiou nos calcanhares. Eparapapá! Me compreenda uma coisa! - Mestre Lodegário - declamou, arrastando o chapeirão nas pedras do calçamento em saudação aos peixes -, permita-me Vossa Excelência que eu cumprimente Vossa Excelência, saudando em grande saudar com toda a reverendíssima, pelo bem conduzir dessa grande pescaria, sim senhor, benza Deus, louvado seja o Altíssimo, que lindas guaraiúbas! Lodé sorriu, trocou de pé de apoio, olhou seu peixe com satisfação.
- Muito bem, muito bem-bem-bem - disse Leléu. – Pode mandar levar para mim, faço questão dessas guaraiúbas, vou até mandar dourar uma.
- Já apalavrei - respondeu Lodé com alguma relutância.
- Só fiquei aqui com a manjubinha.
Mostrou o balaio da manjuba.
- Ótimo – declarou Leléu. - Fico também com essa pititinga de bosta aí.
- A guaraiúba tá apalavrada.
- Apalavraste com quem? - Com Sorriso de Desdém.
- Apalavraste com pobre! - Ele chegou mais cedo.
- Apalavraste com pobre! Pobre é uma desgraça, não adianta ninguém! É por isso que não me dou com pobre, eles lá e eu cá, quando muito um adeusinho e uma esmolinha. Pobreza pega, olhe o que te digo! Leva estas guaraiúbas, siô, deixa de ser besta, qualquer preço que esse pobre, como é o nome dele, Sarrilho de Dendê, te deu, te dou em dobro, leva isto, deixa de ser besta.
Ficou olhando Lodé carregar os dois balaios para suas bancas, as mãos nas cadeiras, a cabeça levantada, um olho fechado por causa do sol. Nem reparou quando três negros chegaram por trás e um deles tentou arrancar-lhe o porrete da mão. Mas sempre o segurava firme e se voltou sem soltá-lo. O que tentara puxar o porrete deu um sorriso, parou sem jeito, os dois outros ficaram a uns passos atrás.
- Que é isso? - perguntou Leléu, olhando de lado e abrindo um pouco as pernas para fincar-se mais solidamente no chão. - Não pode ver cacete, não, vai logo pegando, é? - Sorriso de Desdém mandou nós te falar.
- Ah, eu tou conhecendo vosmecês, muito bem, estou conhecendo, sim, tudo negro de ganho desse como é o nome dele, esse menino Sarrinho de Dandá. Veje como são as coisas, um mulato safado daquele, bom de tar pegando na enxada para trabalhar nem que fosse vez na vida, fica aí com três negros de ganho, safados igual a ele, carregando merda a dois vinténs, capinando roça com os dedos a tostão a tarefa, bando de pobre descarado, tudo descarado! Recuou um pouco, sabia que tinha ofendido, queria insultar mais.
- Já tomei muito café frio na casa dele, desse como é o nome, Surrica de Daidai. A mulher dele não tem asseio. Ele nunca bota nada dentro de casa, dorme no chão, é tão miserável que nem cama tem. Bebe, joga e é falso ao corpo. Mente até dormindo! Não se viu quem deu o primeiro golpe, mas Leléu sabia que ia brigar e então, assim que um deles se mexeu, trocou o cacete de mão sem que se percebesse e, com duas porretadas nas costelas, derrubou o da frente. Mas eram muito fortes e Leléu, apesar de transformado numa roda de catavento, girando rabos-de-arraia, bênçãos e martelos com tanta velocidade que quem estava de junto sentia o ar pinicado por seus movimentos, não evitou também ferir-se e ficar coberto de calombos doloridos. Não se pode dizer que perdeu a briga, pode-se dizer até que ganhou, porque os três terminaram por correr, dois deles manquitolando e o terceiro com o cabelo empapado de sangue. Mas, de volta à barraca, passando arnica nos arranhões e pondo compressas nos pitombos, Leléu achou que estava ficando velho. Não sabia quantos anos tinha, mas seguramente estava ficando velho. O cabelo da cabeça não, mas a barba rala que sempre lhe crescia no queixo dera para aparecer cada dia mais grisalha.
E também já não gostava de se abaixar mesmo por necessidade, sentia que as juntas não eram mais tão lestas quanto antigamente, a carne embaixo do braço, perto do sovaco, pendia um pouco, tinha de afastar o papel para ler letra miúda, estava ficando velho sim, quase não agüentara com aqueles três, que em outros tempos não dariam cuidado a quem como ele conhecia todas as qualidades de luta. Agora andaria armado, em uma necessidade. Além do cacete, alguma coisa mais. Remexeu numa gaveta, tirou lá de dentro um cilindro oco de brim, fechado numa ponta, aberto na outra, com bainha para fora, de pouco mais de um palmo de comprimento e meia polegada de diâmetro. Arregaçou o rolo, examinou o esporão de arraia que estava dentro. Cautelosamente, porque toda a gente sabe que ferimento de esporão de arraia não cicatriza jamais, experimentou a ponta e as farpas, estavam duras como pedra e aguçados como se um fazedor de agulhas as tivesse esculpido em aço fino. Puxou de volta o invólucro de pano, o esporão ficou embainhado, seu ferrão mortífero recolhido logo abaixo da abertura, apenas um rolinho de pano que se pode sair pela rua segurando como um lenço. E estaria somente com esse rolinho vazio e flácido na mão, depois que enfiasse o esporão na barriga de alguém: lá ele se plantaria, sangrando pouco ou nada por fora e destruindo todo por dentro, impossível de remover por causa das farpas.
Quanto a Leléu, nada de arma na mão. Somente aquele inocente rolinho de pano, inofensivo como uma banana descascada. Meteu o cilindro carregado na algibeira, pensou em beber de novo, chegou a apanhar um dos canecos, mas desistiu. Veio-lhe um sono forte, junto com a lembrança de que no dia seguinte seria a missa de sétimo dia do barão, na Basílica, e ele estaria lá, de longe mas estaria. Uma dor de cabeça de lascar as fontes, um enjôo azedo, tanta preocupação sem resolver. E quantas besteira tinha aprontado? E que diabo ele ia fazer com o mulatinho que Vevé ia parir daí a uns sete meses, só faltava essa, menino dentro de casa. Bem, daria o menino para alguém criar, não haveria de ser difícil, principalmente se puxasse mais ao pai, saísse mulatinho claro, amorenado mais ou menos, de cabelo quase bom. Mas já se viu que vida, até isso aparece para atentar. Bem, é isso mesmo, resignou-se Leléu, começando a cair sono e deliberando amanhã vestir seu fato preto para derramar lágrimas soluçantes, quando a baronesa o visse à porta da igreja.
8
Salvador da Bahia, 17 de março de 1839
Choveu a semana toda e amanheceu um dia tão feio quanto os precedentes. Às cinco da manhã, antes de passar a meia hora costumeira trancado no gabinete diante de uma bacia esmaltada e de um gomil cheio de água alfazemada, areando os dentes e lavando a cabeça, que havia atravessado a noite untada por uma camada espessa de caldo de babosa embaixo da touca para amaciar o cabelo, Amleto Ferreira entreabriu a janela e inspecionou seu jardim com desagrado. Quase sempre escuro sob a fronde emaranhada das árvores, que cobria uma conglomeração cerrada de folhas e ramagens de plantas baixas, o jardim estava ainda mais penumbroso, uma floresta gotejante, grandes bagos de chuva esparrinhando a água dos tanquinhos, onde até mesmo os uapés, as ervas-de-santa-luzia, as damas-do-lago, as jaçanãs, as jipiocas retorcidas como novelos de sucuris e as outras vegetações da água estavam excessivamente molhadas, afogadas na molúria que tornava tudo úmido, escorregadio e lamacento. O martelo contínuo de gotas gordas pingadas das favas dos ingazeiros, sobre as folhas ressonantes dos crótons, cocós e taiobas, reiterava uma espécie de desesperança monótona a um dia que devia ser de festa, e somente as maravilhas, os musgos, os limos, as brilhantinas e demais seres que medram na obscuridade encharcada é que não pareciam mangrados e tristes como as outras plantas. Mundo madefato e sem brilho, em que o colorido das folhagens lembrava adornos de funeral, mundo que trouxe a Amleto um ressentimento redobrado. Decidiu sair para ver o que prometia o tempo, embora não acreditasse que fosse melhorar. Enrolou-se num roupão, agasalhou o pescoço com uma manta de crochê, pôs um barrete na cabeça para não resfriar-se, abriu a porta dos fundos do gabinete, desceu os dois batentes procurando não escorregar, pisou com gosto na alfombra de grama e plantinhas rasteiras, sentiu o pé afundar-se na terra empapada. Não chovia mais, apenas os pingos das árvores continuavam a depencar, às vezes como rajadas de chuva, quando uma lufada agitava as copas. Amleto teve um arrepio de frio, temeu constipar-se, mas assim mesmo resolveu ir até o portão de ferro que dava para o Rosário, para olhar melhor o horizonte e avaliar o clima. Gostava de seu jardim, tinha uma satisfação inexplicável em passar horas sentado em frente às plantas, de olhos fixos nelas como se esperasse acompanhá-las crescendo e florando. E gostava também que fosse sombreado, pois o sol na pele lhe era uma agressão pessoal, caso pensado contra ele, para escurecer-lhe a cor sem piedade como já acontecera, virando-o mais uma vez num mulato. Tinha carinho pelas plantas, andou pela alameda de castanheiras prestando atenção a todos os troncos, levantando, a vista para as flores-de-jesus tão leves como se apenas pousadas nas árvores mais ramudas, frágeis como passarinhos de papel, os fetos e samambaias, os jarrões de alvenaria enlaçados por trepadeiras, as estátuas das estações - e Verão, tão estranho, uma forma gregamente delicada, busto suave, ancas onduladas, feição nobre e mansa, fincada entre as raízes elevadas do grande de acácia, seria o Verão uma mulher e a Primavera um éfebo maneiroso, como agora se via, muito marmóreo contra o verdume salpicado de encarnado das bromélias? -, as colunas do talhe romano decepadas obliquamente ao meio como em velhos templos das gravuras antigas, a salsugem da água dos tanques, cadáveres de folhas, insetos e flores fanadas, se arrumando suavemente pelas bordas como enfeite, uma cigarra disparando um zizio repentino. Parou para olhar as trepadeiras grudadas na acafelagem rugosa dos muros, alisou algumas folhas, experimentou o molejo das gavinhas com as pontas dos dedos, chegou finalmente ao portão. Para um lado e para o outro, as nuvens continuavam fechadas e baixas, o vento cessara, o ar se tornara opressivo. Amleto arrepiou-se outra vez, fez meia-volta para tornar a trancar-se no gabinete.
Teve portanto uma surpresa, ao sair à sala e ver pelas janelas abertas para a varanda principal que o sol havia despontado e uma claridade cortante cintilava sobre as plantas molhadas. Correu à varanda, pôs as mãos na balaustrada, somente uma moldura evanescente de nuvens permanecia em torno do céu, esmaecido como se também lavado pelas chuvas. Sorriu, bateu na balaustrada com satisfação. Estivera sorumbático lá dentro, entristecido pelas injustiças que a vida lhe aprontava. O batizado de Patrício Macário Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, seu sétimo filho, quarto vivo, teria pelo menos um belo dia a servir-lhe de pano de fundo. E também uma bela festa - já podia aspirar o cheiro dos biscoitos assando nos fornos, sabia que se misturavam massas, que se batia o alfitete, que se cozinhava toda espécie de comida. Isto, assim como esta bela casa e todo o seu conforto, não lhe podiam tirar, não podiam dizer que não era direito seu. Pensando sobre como ganhara tanto dinheiro, já nem admitia para si mesmo, a não ser vagamente e a cada dia com menos freqüência, que desviara os recursos do barão e se apropriara de tudo em que pudera pôr as mãos, em todo tipo de tranquibérnia possível. Não, não fora bem assim, precisava acabar com a mania de ser excessivamente severo consigo mesmo, chegava a parecer uma propensão ao martírio. E o tino comercial empregado a serviço do barão, as dificuldades sem fim, as soluções heróicas encontradas para problemas insuperáveis? E o sangue, isto mesmo, o sangue e o suor dados ao barão? E a situação tranqüila da baronesa, hoje empobrecida, é verdade, mas vivendo com toda a dignidade, ainda na mesma casa do Bângala, assistida em todas as suas necessidades e as de seus filhos? Não tinha mais tantos negros, é também verdade, apenas três negras e dois negros, pois a dureza dos tempos atuais e os azares que por todos os lados perseguiram os negócios do barão aconselharam a que a escravatura fosse reduzida ao mínimo indispensável. Que queriam? A pesca da baleia piorava a cada ano, era cada vez mais coisa do passado que o progresso soterraria, e a venda da Armação do Bom Jesus fora um excelente negócio, apesar do preço aparentemente baixo. Não contara à baronesa haver sido ele mesmo, oculto numa associação com dois comerciantes franceses, quem comprara a Armação e agora efetivamente a venderia com bom lucro. Afinal, fora uma venda como outra qualquer e de que maneira iriam enfrentar as despesas que se avultavam, com a crise da lavoura e do comércio flagelando todos os negócios do barão? Alguns amigos da baronesa haviam mesmo concordado em que tinha sido bom negócio, como acontecera com o Bacharel Noêmio Pontes de Oliveira, hoje prestando serviços de advocacia a Amleto, depois de, com a estreita colaboração deste, realizar o inventário do barão - inventário, por sinal, decepcionante, com tantas dívidas, ônus e gravames que, não fora a dedicação de Amleto, trabalhando à frente de tudo até mesmo sem remuneração durante muitos meses, a baronesa e seus filhos talvez tivessem sorte muito triste. Ela herdara do pai, realmente, mas os negócios dele já de muito vinham sendo prejudicados não só pela doença como pelos grupos de matamarotos, pelos radicais que chegavam mesmo a atacar corporalmente os portugueses e a depredar-lhes as propriedades. Amleto num artifício jurídico que laboriosamente engendrou junto com o Doutor Noêmio para salvaguardar os interesses da baronesa contra a ganância dos herdeiros portugueses do pai dela, conseguiu vender com astúcia a maior parte do património antes de terceiros lhe deitarem as mãos - a preços certamente não tão compensadores, mas as circunstâncias da transação demandavam expediência, depois do fato é que tudo fica fácil. Para não falar nas despesas e negociações delicadíssimas, havidas para obter a compreensão e apoio dos ouvidores e fiscais da Fazenda, da Junta do Comércio e do Poder Judiciário, gente de respeito e trato que não se podia abordar com leviandade. Agora, o Empório e Trapiche, bem como os outros negócios, estavam na posse de terceiros, pois Amleto, depois de comprá-los com Noêmio, a, através de seu cunhado Emídio Reis, achou mais prudente passá-los adiante do que administrá-los, ainda que por meio de testas-de-ferro. As casas deixadas pelo velho continuavam a render, bem como outras propriedades, mas tudo coisa minguada, uns vinténs que ele usava para pagar as despesas da baronesa, muitas vezes, o Céu é testemunha, tirando algo de seu próprio bolso para inteirar o que não era bastante. Os engenhos, por seu turno, não iam bem, os problemas do açúcar estavam cada vez mais graves, salvava-se apenas a escassa produção de aguardente, mal suficiente para custear o trabalho, no aguardo de melhores dias.
- Pois é - pensou Amleto, deixando a varanda para ir tomar café -, a verdade é que estou em paz com minha consciência, nunca fiz mal a ninguém, sou um homem prestante.
E por isso mesmo não deixava de revoltar-se por não poder arriscar-se a chamar a atenção dos maledicentes e invejosos, capazes até de encher os ouvidos da baronesa de falsas insinuações e mesmo calúnias, com gastos à altura de sua posição na sociedade. Não importava que todos soubessem - e todos sabiam, pois havia sido ele mesmo quem contara, embora não fosse verdade, mas disto eles não sabiam - que Teolina herdara uma fortuna de seus tios-avós portugueses de Trás-os-Montes. Assim mesmo se falava, se comentava. Que caminhos ásperos, quantos obstáculos em cima de obstáculos, quantos escolhos insuspeitados! Cuidava-se de uma coisa, aparecia imediatamente outra, resolvia-se um problema, nascia outro logo a seguir. Quanto tempo perdido com os latinórios, as citações e as palavras decoradas, dura senda que não levava a lugar nenhum, a não ser à pobreza agravada pela inveja dos ignorantes, pobres ou ricos. Agora que achara o rumo certo, que cavara com as unhas sua fortuna, ainda tinha de enfrentar o problema da aparência racial, a aceitação das pessoas gradas, as restrições impostas pelos mesquinhos – a ponto de até a festa do batizado de Patrício Macário, que podia ser suntuosa como poucas na Bahia, ter virado, por cautela, praticamente uma festa íntima, para os parentes e amigos mais chegados. E o pior era que não podia evitar que lhe bafejasse a sorte, lhe desse a mão a Providência e o recompensasse o destino pela capacidade de trabalho e tirocínio. Comprara terras no sertão, baratas, quase de graça por causa da seca de 35, agora se falava que o gado por lá faria ricaços da noite para o dia. Plantara fumo na fazenda que adquirira através de Emídio, em São Félix, e já os lucros dos negócios feitos com os alemães se avolumavam. Cortava madeiras de lei nas terras abandonadas do barão e não tinha mãos a medir para as encomendas. Previra que as novas construções, que todos os dias começavam na cidade, iam aumentar em muito a demanda de cal e assim, na contracosta da Ponta das Baleias, demarcara os grandes depósitos de calcáreo debaixo do mar raso e agora, dia e noite, os negros, manejando pás com a água lhes chegando aos queixos, abarrotavam de cascas de ostras a frota de saveiros que as levaria à caieira de Porto Santo. E até mesmo a cal refinada encontrava serventia a mais da conta, inclusive nas plantações de coco, como a sua mesmo, no Conde, onde em breve estaria fabricando óleo, sabão e gordura sólida, além de vender a fibra para os importadores ingleses.
- Ah! - exclamou com enfado. - Isto um dia vai ser resolvido, isto vai ter que ser resolvido, a vida não pode somente de sacrifícios! Pensou gulosamente no primeiro almoço. Tivera dificuldade em acostumar as negras da cozinha e a própria Teolina a essa refeição, que não impunha a ninguém mas exigia para si, e revelava freqüente desgosto por não ser imitado pela mulher e pelos filhos, pelo menos a mais velha, Carlota Borroméia Martinha Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, que educava como uma inglesa, mas que não aceitava seu desjejum de rins grelhados, arenques defumados, mingau com passas, pãezinhos fofos, chá e torrada com geléia. Havia saído tão branquinha, tão alemoada com sua tez diáfana, seus cabelos claros e finos, seu porte esbelto e frágil como devia ser o de uma jovem senhora da Corte de São Tiago, era tão dócil de maneiras, mas se rebelava contra aquilo, tinha náuseas, ia escondido pedir broas, cuscuz, mingau de tapioca, bolinhos de carimã e café com leite às negras. Um dia, porém, haveria de aprender, afinal não era mentira, tratava-se de uma inglesa de origem, uma Dutton. Recordou com prazer o dia em que o padre-adjutor do Vigário Geral o procurou no escritório, enfiando com nervosismo a mão pelas dobras da sotaina para sacar a certidão de batismo falsa, tão meandrosamente obtida.
- Aqui a tem Vossa Excelência! - dissera o padreco, um desses velhos que não conseguem rir mesmo quando têm vontade, fazendo apenas uma caretinha débil e fibrilante, os lábios tremelicando como se temessem afastar-se um do outro durante mais que um segundo.
- Reverendíssimo! - respondera Amleto, que, poucos minutos antes, Linha relido, no topo da lista das providências: “Certidão Dutton”. Tomou o papel, chegou a fazer-lhe um pequeno rasgão numa das margens, tal a avidez com que o desenrolou, leu em voz alta. - Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton! Ferreira-Dutton! Não acho Vossa Reverendíssima que soa bem, soa muitíssimo bem? O padre não respondeu, tentou sorrir outra vez, bateu delicadamente a bainha da manga direita contra os cantos da boca, para enxugar os filetinhos de baba que não paravam de lhe correr das comissuras dos lábios. Mas percebeu que o momento requeria um comentário menos desentusiasmado.
- Sim, sim, tem um belo som. Ferreira-Dupom! - Não, não, Ferreira-Dutton. Dutton, Dutton, é um nome inglês, não sabe? Do meu pai, John Dutton, John Malcolm Dutton.
- Ah, sim, queira Vossa Excelência desculpar-me, julguei tratar-se de um apelido francês.
- Não, não, inglês. Meu pai era inglês, acho até que parente distante de uns ingleses que ainda têm negócios aqui. E minha mãe era Ferreira, dos Ferreiras de Viana do Castelo.
- De Viana do Castelo? - Sim, sim. Vossa Reverendíssima também é de lá? - Não, não, sou ribatejano.
- Ribatejano, hem? Fica distante, fica bem distante.
- Pois. Pois, se bem percebo, Vossa Excelência, antes desta correção, chamava-se tão-somente Amleto Ferreira.
- Sim, pois, vicissitudes, coisas das questões religiosas do tempo de Dão João, incúria talvez dos padrinhos, as guerras napoleônicas... Eram tempos conturbados, estas coisas não eram de tão perfeita organização quanto o são hoje.
- Sim, pois.
- Mas a correção é necessária, de há muito que se faz necessária e, graças à compreensão de Vossa Reverendíssima e do Excelentíssimo Senhor Vigário... Vossa Reverendíssima compreende, em primeiro lugar era preciso restaurar a verdade dos fatos, a herança histórica de nossa família - afinal, nossa linhagem perde-se no tempo, tanto em Inglaterra como em Portugal -, que se espelha tão bem no nome. E, em segundo lugar, costumo emprestar grande significado ao nome, grande relevância. Não se deve escolher um nome ao capricho, ao acaso. Meu nome, por exemplo, é Amleto, escolhido por minha mãe em homenagem a meu pai; Henrique é pela velha tradição das casas reais de Inglaterra - Henrique, Jorge, Carlos, Guilherme, Eduardo e assim por diante -; Nobre porque este é sempre o terceiro apelido de nossa família portuguesa e, finalmente, Ferreira-Dutton, que é o nome correto da nova família, resultado da união anglo-portuguesa.
- Sim, pois.
- No caso de meus filhos, que, graças também à compreensão que sempre mereci da Igreja, já pude batizar com seus verdadeiros nomes... - Releu a certidão, beijou-a. - Sim, meus filhos não têm nomes escolhidos ao deus-dará. Nomen est omen, não concorda Vossa Reverendíssima? - Sim, pois, de certa maneira...
- Os primeiros nomes de meus filhos são os de dois santos: o do dia do nascimento e o do dia do batizado. É assim com Carlota Borroméia Martinha Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, que nasceu a 4 de novembro, portanto no dia de São Carlos Borromeu, e foi batizada no dia 11, dia de São Martinho. Assim como foram batizados segundo este critério o Clemente André, de 23 também de novembro, o Bonifácio Odulfo e os três anjinhos também, o nome Reis, que vem da minha mulher, da família Reis de Trás-os-Montes, chamados assim imemorialmente por terem sempre estado a serviço real.
- Pois. Muito justo, pois.
Amleto percebeu que o padre podia estar com pressa, tinha até mesmo deixado de sorrir aquele sorrisinho curto a cada anúncio de um novo nome. Sim, claro. já tinha o envelope pronto, bastou tirá-lo da gaveta, onde tinha estado desde o dia anterior. Apalpou-o ao longo das bordas, entregou-o ao padre.
- Dá-me Vossa Excelência licença? - disse o padre, abrindo o envelope e começando a contar as notas sem esperar resposta.
- Sim, naturalmente. É um modesto óbolo para as obras paroquiais, um contributo de coração...
- Pois - disse o padre, terminando de contar o dinheiro.
- Pois, se me concede vênia Vossa Excelência...
Sim, estava no cofre, muito bem trancada, aquela certidão, estava tudo, afinal, a correr muito bem. Sim, por que aborrecimentos? Certo que a vida apresenta percalços a todo passo, mas há também que esquecê-los, num dia como este. Não saiu o sol, não já devia estar tudo praticamente pronto, desde a pia batismal toda burnida, às flores pela casa, às toalhas de linho branco refulgindo, a festa em todo o ar? A esta hora, os rins grelhados sangravam em cima da chapa, a chaleira de ferro sibilava esplendidamente sobre as brasas, o mingau, frio como ele gostava, o esperava numa terrinazinha de porcelana fina, coalhado de passas descaroçadas uma a uma pelas negras. Entrou pela grande copa, a mesa estava posta, a mucama Luzia passou os olhos por tudo quando o viu, para verificar se havia alguma coisa errada.
- Hoje, quero o rim um pouco malpassado - disse ele, sentando-se depois de cheirar as rosas do vaso do centro da mesa.
- Nhô, sim - disse Luzia, e correu para dentro arrastando os pés.
Mordiscando um brioche, Amleto pensou que já chegava a bandeja com os rins, ao ouvir passos atrás de si, na direção da porta da cozinha. Virou-se em antecipação alegre, fechou uma carranca logo em seguida.
- Que é que estás a fazer aqui hoje? Logo hoje? Já não te disse para não vires aqui a não ser quando te chame? Que queres hoje, não tens tudo arranjado? Uma mulher pequena, mulata escura, cabelos presos no cocuruto por dois pentes de osso, se deteve, fez menção de que ia voltar para a cozinha, terminou em pé diante dele, as mãos encolhidas no colo.
- Eu não vim atrapalhar - disse. - Podes ficar sossegado.
Amleto levantou-se, pareceu não conseguir conter a impaciência, cobriu os olhos com as mãos, ficou muito tempo assim.
- Dona Jesuína - falou, como se estivesse repetindo à força alguma coisa que o molestava muito. - Dona Jesuína, que quer a senhora, Dona Jesuína? Que mais quer que diga, quer que fale, que mais quer que dê? - Chamas-me de Dona Jesuína e estamos sós.
- Pois claro que te chamo Dona Jesuína, pois claro que tive de habituar-me a isto, pois claro! - Mas disseste que só me chamarias assim quando nos vime ou ouvisse alguém.
- Está certo, está certo, disse-te isto. Mas que há de mais em que te chame respeitosamente de Dona Jesuína, pois que és Dona Jesuína, não te chamas Jesuína? - Jesuína sou, mas também sou tua mãe.