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As Mulheres de Mantilha

Joaquim Manuel de Macedo

V

Havia sarau e ceia esplêndida que bem se pudera chamar almoço pela hora adiantada da noite; mas na noite dos Reis a mesa não tinha hora,

estava sempre posta e renovada até o amanhecer.

Apesar de sua má reputação, e graças à sua riqueza, ao seu espírito e à sua influência, Maria tinha círculo numeroso e agradável, embora não formado por senhoras de classe elevada e de educação escrupulosa. Os mancebos mais distintos, muitos homens ricos, e os oficiais dos regimentos da guarnição da cidade freqüentavam a sua casa, e não faltavam às suas reuniões; por isso mesmo acudiam também a estas muitas jovens de procedimento equívoco, e algumas famílias sem protetor zeloso, e pouco exigentes e melindrosas, ou por dependência da bela e rica libertina, ou pelo desejo de atrair noivos para as filhas, ou enfim pelas aparências e exterioridade de boa companhia, que a elegante pervertida zelava em sua casa.

Alexandre Cardoso e seus companheiros entraram na sala, quando Maria dançava o minuete com um requinte de enlevadora e provocante graça que nenhuma outra possuía como ela.

Maria contava então vinte e quatro anos e não parecia ter vinte; era de estatura regular, esbelta, ligeira e um pouco lasciva, não afetada, naturalmente lasciva nos movimentos; seus cabelos eram louros, seus olhos grandes e de celeste azul, o rosto oval, branco, as faces docemente coradas, o nariz pequeno e bem-feito, os lábios admiráveis de suave rubor e não finos nem demasiadamente grossos, bordando pequena boca, escondendo lindíssimos dentes, e servindo a sorrisos cheios de magia; tinha o colo alto e elegante, como a fronte, o peito encarnado a não deixar adivinhar as clavículas, e de alvura deslumbrante, os seios pequenos, a cintura fina, os braços admiráveis, as mãos e os pés de maravilhosa delicadeza, e em seus modos e na expressão móbil de sua fisionomia certo que de graça indizível, de inocência que ela não tinha, de malícia que lhe sobrava, de contradição caprichosa, de mistura do bem que se adora e do mal que cativa, de anjo cujos pés se devem beijar e de demônio a cuja tentação se obedece à força de encantamento irresistível.

Maria chegara nessa época ao apogeu da sua formosura e à consciência experiente do poder dos seus enfeitiçadores dotes físicos.

Sem interromper o seu minuete11 ela viu entrar Alexandre Cardoso e em vez de saudá-lo com um sorriso, encrespou passageira e levemente os supercílios e a fronte, como se um ressentimento do ânimo lhe viesse ondear nos supercílios e na fronte; logo porém serenou e seu rosto foi todo, como pouco antes, espelho de bonança, e céu de alegria.

Acabado o minuete no meio de palmas batidas em aplauso, conforme era de uso, Maria recebeu as saudações dos recém-chegados, e logo depois conduziu todos os seus convidados para a mesa da ceia que foi longa e ruidosamente festejada.

Entre os brindes que se faziam, falaram todos dos divertimentos da noite, comparando as diversas sociedades dos cantadores dos Reis disputando sobre o merecimento de cada uma delas para o ganho da primazia.

Cada qual referia os episódios interessantes ou grotescos que havia observado; só Maria, um pouco pensativa, ouvia e não falava, e Alexandre Cardoso e seus companheiros discorriam sobre tudo, guardando porém reserva acerca do tumulto do pátio do convento da Ajuda, porque não lhes convinha propalar o improviso injurioso do poeta que atacara o bispo e o vice-rei antes de comunicarem a este o insólito caso.

– Faço um protesto, disse Alexandre Cardoso elevando a voz.

– Um protesto? – Sim; contra o silêncio obstinado da encantadora fada que nos hospeda.

– Ah! disse Maria, interrompendo-o; são tantos os que protestam contra o oficial-de-sala do senhor vice-rei, que bem se lhe pode permitir que ele também proteste alguma vez.

Alexandre Cardoso corou e prosseguiu: – Aqui cada um de nós tem contado o que viu de melhor e de pior nesta noite de folia e de divertimentos característicos: que viu, que sabe e guarda consigo a bela Maria?... Aposto que ela dirá o que ninguém disse ainda, porque seus lindos olhos vêem sempre mais do que os dos outros com a luz divina que radia neles.

– Eu?.. pobre mulher que não saiu de sua casa, o que eu dissesse agora, vinte bocas já o têm repetido.

– Fale! fale! – Vós outros que tão tarde chegastes, sois os que tendes mais a contar; tenente-coronel Alexandre Cardoso, capitão Aires de Brito, alferes Constâncio Lessa, vós todos, que chegastes tão tarde, dizei-nos: que aconteceu por aí?...

– Responda, quem pergunta.

11 Dança de salão, leve e graciosa, de origem francesa.

– Posso eu adivinhar?

– Como fada que é.

Maria sorriu: – Pois bem, disse ela; ensaiarei um sortilégio...

E deitando no cálice algumas gotas de vinho, fingiu que murmurava palavras cabalísticas, depois tocou com os lábios no vinho, e exclamou: – Vejo longe daqui, e é a vós que eu vejo, senhores oficiais recémchegados! – E então? – Jogastes a banca até às dez horas da noite; o senhor tenente-coronel Alexandre Cardoso ganhou mais de mil cruzados; mau sinal; feliz no jogo, infeliz no amor.

– Sinistro agouro! – Saístes a correr a cidade e a visitar os presepes; tenente Gonçalo Pereira, não foi decente nem digno que na ladeira de Santo Antônio abraçasses à força uma mulher de mantilha: recebeste justo castigo nas risadas dos teus amigos, quando descobrindo o rosto da vítima, encontraste em vez de um fresco semblante de moça, a cara enrugada de uma velha.

– Ah! um espião nos seguiu!...

– Poupo-vos a muito mais que estou vendo e que pudera dizer, e agora vos observo na vossa última estação...

– Onde? – Há apenas uma hora, no pátio do convento da Ajuda. Os oficiais começavam a perturbar-se.

– Ali Alexandre Cardoso estava embevecido a contemplar um dos dois lírios... feliz no jogo, infeliz no amor... o lírio indiferente não pendia para ele, que perdido e cego não viu, não soube ver, se bem perto para alguém a furto pendia o lírio... eu também não sei se houve pendor.. mas é tão natural...

Alexandre Cardoso fingiu sorrir; mas estava confundido.

– É saber muito e até demais! disse o tenente Gonçalo Pereira.

– Se eu sou fada! respondeu sem olhar o interruptor a soberba moça.

– Depois continuou: – As freiras davam motes, e os poetas glosavam..

– Basta... basta...

– Não; agora hei de ir até o fim, e hei de dizer-vos o que não sabeis, embora estivésseis lá, e eu não saísse daqui.

– Ouçamo-la, disse Alexandre Cardoso, seriamente.

Maria compreendeu a seriedade do oficial-de-sala, e sem constrangimento aparente, mediu suas palavras para não dizer mais do que lhe convinha.

Uma freira deu por fim o mote: Viva o bispo e o vice-rei.

E um poeta que não se quis mostrar glosou do meio da multidão, improvisando com voz fanhosa uma décima assim:

Maldito seja quem diz Viva o bispo e o vice-rei.

– Ah!... exclamou com hipócrita horror a assembléia.

– Vós, nobres oficiais, vos atirastes de espada em punho contra o poeta audacioso, houve tumulto, desordem, ferimentos, contusões de inocentes, e tudo em vão, porque o misterioso improvisador escapou sem ser ao menos conhecido, e, o que foi ainda pior...

– Acabe...

– Quando Alexandre Cardoso voltou ao seu posto de embevecida contemplação, o lírio tinha fugido com o poeta... feliz no jogo, infeliz no amor... paciência! Evidentemente os mal disfarçados ciúmes de Maria saíam-lhe do coração para cair dos lábios transformados em epigramas pelo ressentimento.

Alexandre Cardoso sentiu a natureza dos golpes que sobre ele descarregava a terrível e ciumenta amante; mas dominado pelo desejo ardente de conhecer o desconhecido, aquilo que Maria sem sair de casa sabia do que se passara no pátio do convento da Ajuda, mais do que os oficiais lá tinham estado, disse: – A história do poeta e do nosso empenho para castigá-lo é exata, confesso-o; mas que é que podemos ignorar e que a bela fada adivinha?...

– Vós não pudestes saber e eu sei quem foi o poeta que improvisou a décima revoltante...

– Quem foi?... perguntou Alexandre Card – Uma mulher de mantilha.

– Não...

– Sim; eu nunca minto, nem quando erro, ou me comprometo: o poeta que improvisou a décima foi uma mulher de mantilha.

– E o seu nome?...

Maria fez um movimento com o braço, e tocou no cálice encantado, que caiu sobre a mesa e quebrou-se, entornando as gotas de vinho.

– Ah! exclamou a pérfida sereia, cobrindo o rosto com as mãos mimosas, que o não podiam esconder de todo.

– O nome dessa mulher de mantilha... tornou a perguntar, alterado, Alexandre Cardoso.

– Não viu que se quebrou o copo?... respondeu Maria; agora acabou o encanto; não adivinho mais, esqueci tudo.

Uma hora depois, todos os convidados tinham-se retirado; o último, Alexandre Cardoso, teimava em demorar-se.

– Tenho sono, disse-lhe Maria; quero ficar só e dormir.

– Maria! – Feliz no jogo, infeliz no amor...

– Não jogarei mais...

– Não me importa que jogues ou não!...

– Mas o resto desta noite?...

– Disse a palavra: é um resto... e eu rejeito o resto...

– Maria!...

– Vá sonhar com o lírio.

Alexandre Cardoso beijou a mão gelada da amante ciumenta e colérica, e retirou-se.

VI

Jerônimo Lírio era negociante de grosso tráfico, de bem merecida fama de probidade e de austeros costumes; português de nascimento e muito pobre, viera para o Brasil procurar fortuna; sabendo apenas ler e escrever e as quatro espécies de aritmética, começara por varredor do armazém e arranjador de fardos na casa comercial de outro português que o recebeu; ativo e fiel, agradou ao amo, que nunca deixou, foi gradualmente subindo até primeiro caixeiro depois de oito anos de labor e de provas; no fim de doze anos, chegou a sócio com direito à terça parte dos lucros da casa e três anos depois casou com a filha única do seu patrão, a qual viu pela primeira vez no dia do casamento; ainda viveu algum tempo sob a tutela do sogro e por morte deste, que já era viúvo, herdou-lhe toda a

riqueza e ficou único representante da casa.

No casamento por aquele modo realizado haveria que notar a manifestação franca do interesse material, servindo de base ou razão exclusiva da união de dois corações, de um homem e de uma mulher que não se conheciam; mas no século passado eram freqüentes os casamentos feitos assim, e não havia então quem se lembrasse de censurar essa prática absurda e muitas vezes fatal; especialmente na nobreza e no comércio rico a autoridade dos pais não queria em tal ponto reconhecer limites, e amesquinhava até o extremo a condição da mulher que, aliás era educada com preciso cuidado para não revoltar-se contra a inaudita prepotência; basta lembrar que era de regra que as filhas não aprendessem a ler e ainda menos a escrever.

Se os costumes da época escusavam a Jerônimo Lírio o se ter sujeitado ao casamento com uma noiva a quem nunca tinha visto, nada mais há no seu proceder que possa desmerecê-lo. É certo que ainda hoje, às vezes a inveja, às vezes a irreflexão ou a murmuração indesculpável, atiram contra a opulência de quem começara paupérrimo a lembrança de seus rudes e abatidos serviços no princípio da mais afadigosa vida; eis aí o que é deprimir aquilo mesmo que dá direito, que obriga o elogio! Nada mais belo nem mais nobre do que a riqueza filha do trabalho e da economia. O homem que assim enriquece, anda e deve andar de cabeça levantada, e é digno de servir de exemplo aos outros homens.

Jerônimo foi um esposo modelo para sua dedicação e fidelidade à honestíssima e dócil senhora, com quem se casara; viveu feliz e teve de sua união duas filhas: Irene e Inês; dera à primeira o nome de sua mãe, à segunda o nome de sua esposa; amou-as extremosamente, mas sem comprometer com os carinhos a sua gravidade de pai; a mãe educou as filhas no sacrário do lar doméstico; ensinou-lhes quanto sabia, a rezar, a coser, e a bordar, a tocar o cravo e a guitarra, a dançar o minuete, e danças do tempo, a preparar delicadíssimos doces, a governar a casa e nada mais; não sabendo ler, deixou-as na mesma triste ignorância.

O pai foi contando os anos, e medindo a altura e o desenvolvimento das meninas, e dobrando de cuidados logo que as sentiu chegadas à idade em que a natureza revela à jovem mulher uma súbita revolução na vida, embora a inocência não compreenda nem explique o misterioso segredo pensou no futuro das filhas, e em prudente silêncio estudou solícito e perseverante os costumes e o procedimento dos seus caixeiros, e dos mais estimados fez logo a um sócio em pequena parte dos lucros, a outro guardalivros da sua casa comercial.

Jerônimo tinha o seu armazém na Rua Direita, onde passava os dias, dirigindo as transações; chegava já almoçado, às oito horas da manhã; ao meio-dia em ponto, jantava só ou com negociantes e amigos, que lhe aceitavam a mesa; todos os caixeiros e empregados da casa comercial jantavam a parte; às duas horas da tarde começavam a arrefecer os negócios; das três em diante, só os havia para os armazéns de retalho, e então retirava-se o negociante para o seio de sua família, que morava em uma grande chácara da Gamboa.

Por mais que eu me exponha a não me perdoarem certas digressões, teimarei nelas, porque são indispensáveis para o conhecimento do estado e dos costumes da cidade do Rio de Janeiro, no século passado.

A retirada diária e constante de Jerônimo Lírio para passar a noite na sua chácara da Gamboa, onde fazia morar a família, era uma das raras exceções que em semelhante prática se observava na cidade.

É verdade que muitos negociantes e homens ricos possuíam chácaras nas vizinhanças do outeiro da Glória, no caminho depois chamado Rua de Mata-Cavalos, e agora Rua do Riachuelo, em memória da mais gloriosa vitória e também na Gamboa e no Saco do Alferes; essas chácaras, porém, serviam só para o gozo dos domingos e dos dias santificados, que eram muitos até perto da metade do século atual. Então as famílias faziam os seus farnéis, convidavam os amigos e na tarde da véspera dos dias sem trabalho, lá iam para Mata-Cavalos ou para a Gamboa, como atualmente se vai para Petrópolis e para Nova Friburgo. Aqueles lugares eram solidões, retiros mal povoados, para onde não havia ruas, e apenas azinhagas12 difíceis, e tinham fama de perigosos pela lembrança dos roubos e assassinatos que algumas vezes ali fácil e impunemente se davam.

Bem poucos, bem raros eram aqueles que tinham suas famílias morando em chácaras, e entre esses contava-se Jerônimo, que provavelmente, como os outros, assim procedia pelo justo receio da insalubridade e das moléstias contagiosas que com freqüência eram o flagelo da cidade.

Duas causas principais contribuíam para empestar a capital do Brasil: a vala que deu tão feio nome à rua que apenas ultimamente recebeu o de Uruguaiana, em lembrança de outra importante vitória, era vala aberta, imunda, que servia para escoamento das águas e para despejos, sendo, portanto, foco perene de infecções.

O tráfico de africanos escravos já era então muito importante; os míseros filhos d’África, guardados em multidão, em depósitos, dentro da cidade, propagavam nela suas moléstias, e, sem o pensar, vingavam-se da escravidão, envenenando os senhores com os germes da peste que espalhavam.

O conde da Cunha acertara de combater aquela primeira causa de infecções mortíferas, mandando cobrir a vala sinistra com grandes lajes, melhoramento incontestável que a ele se deve, embora realizado a alto e violento pagar de sacrifícios pelos particulares, cujos escravos foram tomados à força para serviços dessa, como de outras obras.

Continuava, porém, ainda a influência, maligna, mortífera, dos depósitos de escravos africanos no centro da cidade, e, pois que o podia, Jerônimo Lírio praticava prudentemente, conservando a família longe dos focos de moléstias contagiosas.

Por isso, sujeitava-se ele a ir todas as tardes, e algumas vezes à noite, para a chácara da Gamboa, marchando a cavalo, levando boas pistolas e seguido de dois pajens prontos para defendê-lo em algum encontro arriscado, por uma azinhaga quase sempre deserta, que poucos anos depois se alargou sem corrigir sua tortuosidade para dar lugar à rua que se chamou do Valongo até o ano de 1849, em que tomou o nome de Rua da Imperatriz em lembrança da passagem que fez por ela, após o seu desembarque na capital do Império, a virtuosa senhora que é a augusta esposa do atual imperador do Brasil.

A azinhaga que dava caminho para a Gamboa, Saco do Alferes e outros pontos, muito pouco povoados, era, como dissemos, suspeita de maus encontros, e dada a hipótese de algum caso sinistro, era inútil gritar

12 Caminho estreito ou atalho entre muros ou propriedades, fora dos povoados.

ali – ah! quem del-rei! – pois que não havia socorro possível da autoridade naqueles confins solitários do Campo do Rosário; em tais apertos, cada

qual devia contar exclusivamente com os seus próprios recursos.

Jerônimo Lírio sabia bem que a sua condição de negociante rico era um perigo demais, e, portanto, não se esquecia nunca de renovar as escovas das suas pistolas e de se fazer acompanhar sempre de dois e à noite, por três ou quatro pajens escravos que mereciam a sua plena confiança, por valentes e dedicados.

VII

Irene contava dezessete anos. Inês ia fazer dezesseis e, embora resplendessem com todo o viço da mocidade, que tão doce se ostenta sob a e influência do nosso clima, eram ambas inocentes e puras, como os amores da infância; duas avezinhas irmãs nascidas no mesmo ninho, criadas presas, mas no meio de mil desvelos na mesma gaiola, tinham asas para voar, e não conheciam, nem sabiam desejar o espaço; eram lindas com seus longos cabelos pretos, suas frontes lisas e altas, sua tez moreno-clara, e com a delicadeza e justas proporções de seus corpos esbeltos; ambas se pareciam muito: Irene, porém, tinha os olhos pardos e de suavíssimo brilho, e a cor um pouco menos morena que Inês, cujos olhos eram negros, maiores e mais ardentes, além de que esta lastimava-se de um buçozinho mimoso que lhe

ornava o lábio superior.

Irene era um pouco menos alegre de gênio, Inês mais viva e curiosa; qualquer das duas, muito acanhadas diante de estranhos, amando com temor o pai, com expansão a expansiva mãe e com enlevo indizível uma à outra diríeis duas belas flores abertas à luz da mesma aurora em dois pedúnculos unidos no mesmo ramo.

Jerônimo Lírio e sua esposa guardavam no retiro doméstico os dois belos frutos de sua união. Só os amigos íntimos e suas famílias eram admitidos à companhia das duas meninas; fora dessas relações prediletas e escrupulosamente escolhidas a muralha do zelo defendia Irene e Inês a toda e qualquer sociedade. Se algum homem velho ou moço ia passar um domingo ou dia santificado na chácara da Gamboa, desde que não era dos excetuados pela amizade, Irene e Inês não se mostravam nem à mesa do jantar.

Todavia, muitas vezes por santo dever, e algumas por notável contradição entre esses costumes de clausura doméstica e os costumes de certos folguedos tradicionais, Jerônimo Lírio levava a mulher e as filhas, onde a multidão concorria.

Por santo dever, em todos os domingos e dias santificados, a família Lírio, embarcando em suas cadeirinhas que eram levadas aos ombros de escravos possantes, trajando véstia13 e calças brancas, mas com os pés descalços, descia à porta da Igreja da Matriz da paróquia do Sacramento para assistir ao sagrado sacrifício da Missa, e além do cumprimento do preceito do decálogo, Jerônimo concorria, com sua esposa e filhas, às grandes solenidades religiosas, e a todas as procissões, em que o culto católico se ostentava nas ruas, nem sempre com proveito real da religião.

E também, por obediência ao império tradicional dos costumes, as duas meninas, sistematicamente clausuradas, eram no entanto vistas, olhadas e admiradas através de seus véus, que muitas vezes cediam ao ímpeto da curiosidade, em divertimentos profanos e públicos, como os presepes da festa do Natal, a serração da velha, as corridas de touros e outros, que, por herança do passado, se usavam no século décimo-oitavo.

Assim, pois, Jerônimo, contraditoriamente escondia as filhas em casa, e as mostrava nas Igrejas e nos grandes espetáculos públicos.

Os véus transparentes e de finíssima renda, mal podem eclipsar a beleza, e tanto mais que o sopro de uma aragem traiçoeira, aproveitando um descuido feliz, enrola ou levanta o véu, e patenteia o rosto que se reserva e procura ocultar-se na sombra.

A lindeza e as graças naturais das duas filhas de Jerônimo Lírio eram desde algum tempo geralmente conhecidas e apregoadas no Rio de Janeiro, e, como já dissemos, o povo, ou antes primeiro os mancebos entusiastas e depois todos adotaram a denominação dada por algum apaixonado ou simples admirador do belo às duas meninas, que foram conhecidas pelo nome poético_ os dois lírios.

Irene e Inês não eram brancas, como o lírio; mas a denominação ou amorosa alcunha fizera do nome da família um nome de flores.

No lar doméstico eram outros ímpetos ou nomes familiares dados às meninas ou pelos pais ou pelas escravas: a Irene chamavam nhanhã, diminutivo feminino que quer dizer filha do senhor; a Inês, que recebera no batismo o nome de sua mãe, a quem os escravos tratavam por sinhá, corrução do nome senhora – chamavam sinhazinha, que, como se vê, é o diminutivo de sinhá.

Tenho quase a certeza de que hoje haverá de sobra quem me censure por estas explicações do que todos sabem, visto como ainda atualmente existe o cancro da escravidão, ainda há população escrava, e portanto, ainda há também nas famílias – nhanhãs e sinhazinhas, há senhores pais de – nhonhôs e sinhás, ou senhoras mães de – sinhazinhas; mas no século vigésimo os romancistas historiadores, que são os professores da história do povo, hão de agradecer estes e outros esclarecimentos da vida íntima das famílias do nosso tempo.

E uma vez que tocamos neste assunto, que parece mais que muito

13 Tipo de casaco ou jaqueta que não se aperta na cintura.

insignificante e que por certo o não é, deixem-me escrever uma página alheia ao romance, e toda reveladora dos costumes domésticos da antiga

colônia e ainda do nosso tempo.

O nhonhô, a nhanhã e a sinhazinha, os filhos e as filhas dos senhores e das sinhás ou senhoras são de ordinário elos de amor que prendem, como eram e prendiam, alguns escravos aos senhores e fontes de reconhecimento dos senhores que aproveitava aos escravos.

Aleitados às vezes por escravas, o filho e a filha do senhor, o nhonhô e a nhanhã e a sinhazinha eram e são os protetores de suas amas de leite, que freqüentemente por esse serviço recebiam e recebem a sua emancipação, merecendo ainda depois continuados benefícios.

O nhonhô, a nhãnhã, a sinhazinha têm nos escravos e escravas de sua idade companheiros e sócios nos brincos e travessuras da infância, e sabem amá-los então, e protegê-los depois, tornando-se providências desses desgraçados pela escravidão.

O nhonhô, a nhanhã, a sinhazinha são os anjos de compaixão e de caridade, que impõem o seu celeste veto de lágrimas aos castigos que seus pais querem impor aos escravos; são os agentes do bem, e os pais os deixam ser, e se aplaudem de que eles o sejam, e exageram furores fingidos e desarmados por aquela angélica influência, para também exagerar a influência dos filhos, e a poderosa e santa intervenção destes a favor daqueles infelizes.

O nhonhô, a nhanhã, a sinhazinha em casa de seus pais significam alegria da família, patronagem dos escravos, perdão de castigos, emancipação para um ou outro, e esperança para muitos desses míseros condenados. O nhonhô é o travesso que assegura impunidade aos cúmplices; a nhanhã é quem às vezes acalenta em seus braços a filha ou o filho da escrava de sua predileção: o nhonhô, a nhanhã, a sinhazinha são quase sempre amados pelos escravos da casa Cada escravo traz ao nhonhô o passarinho que apanhou no laço, à nhanhã uma fruta e uma flor silvestre, um ninho de beija-flores, pombinhas-rolas a criar, o pouco, que é muito, porque é tudo quanto ele pode dar.

E essa afeição que alguns escravos tributavam aos senhores moços a quem tinham visto nascer e crescer, era (como ainda se observa) talvez o único sentimento generoso contrastador do ódio que todos os escravos naturalmente votam aos senhores.

VIII

A fama da beleza dos dois lírios tinha chegado aos ouvidos de Alexandre Cardoso, que em breve mais de uma vez, pelos próprios olhos, se convenceu da verdade que todas as vozes proclamavam; impressionou-se principalmente da graça e dos encantos de Inês, e amando-a ou presumindo amá-la, o sedutor costumeiro e impune planejou essa nova e difícil

conquista.

As duas meninas tinham aprendido que não lhes era lícito nas igrejas e nos espetáculos públicos, olhar com atenção para mancebo algum e ou obedeciam à risca a exageradamente austera lição, ou Alexandre Cardoso apesar de seus dotes naturais e do seu bonito uniforme militar, não conseguia delas a glória almejada do mais furtivo reparo.

Jerônimo, ancião venerando por suas virtudes, e negociante de grande consideração pela sua riqueza, não era homem contra cuja família se tentasse escandalosa violência ofensiva da honra.

O leão fez-se raposa: para as diversas obras de abertura de ruas, de melhoramento da Vala, fundação do arsenal junto ao monte de São Bento, reconstrução e aumento de fortalezas, edificação de armazéns para guarda de pólvora que se retirou da cidade, o vice-rei mandava prender homens bem ou mal declarados vadios, e escravos apanhados nas ruas, e os empregava naqueles trabalhos, além de pedir, o que era exigir e mandar, o concurso dos negociantes e proprietários em tributos de materiais ou de dinheiro que se recebiam como voluntários donativos.

Provando a má fortuna dos seus companheiros do comércio e dos proprietários desde 1763 até 1765, Jerônimo notou que a começar da semana santa desse último ano, era ele poupado às costumadas exigências e arbitrariedades do governo; não lhe pediam mais donativos, e nenhum dos seus caixeiros, como nenhum dos seus escravos era agarrado para o serviço das obras do rei; o nobre ancião, sem explicar o motivo do seu ressentimento, sem falar e menos queixar-se em silêncio contra a exceção obsequiosa, e para as obras em andamento e a cada nova obra do governo mandou o dobro dos donativos que de ordinário fazia, e o dobro do maior número de escravos que à força lhe haviam tomado para aqueles ou outros trabalhos nos três primeiros anos.

Poucos meses depois, em um dia prenderam quatro escravos de Jerônimo para os trabalhos públicos; mas logo depois, no mesmo dia, dois soldados acompanharam os escravos à casa comercial do negociante, a quem os entregaram, com o seguinte bilhete: “O senhor Vice-Rei condena como injusta a prisão destes escravos do mais dedicado vassalo del-Rei nosso Senhor na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. – Alexandre Cardoso de Meneses, oficial-de-sala.” Na manhã seguinte, Jerônimo enviou oito trabalhadores para as obras do rei.

Passados alguns dias, um mancebo, afilhado de batismo de Jerônimo, foi recrutado e no fim de algumas horas levou ao negociante este outro bilhete: “A bênção do padrinho benemérito poupa este excelente soldado ao tribunal da guerra. – Alexandre Cardoso.” Algumas horas depois, Jerônimo tinha, a elevado preço, conseguido contratar para o serviço do exército dois portugueses recém-chegados do reino, e os mandava diretamente a Alexandre Cardoso.

O oficial-de-sala, vencido na luta dos favores, recorreu a outro meio: obteve do vice-rei ordem para uma visita oficial de agradecimento a Jerônimo, e na manhã de um domingo, apresentou-se na chácara da Gamboa, para desempenhar a comissão, e foi recebido com respeito e consideração, cercado de obséquios, instado, como era de regra inalterável, para aceitar o jantar, a que polidamente se recusou, retirando-se sem ter visto nem a mulher, nem as filhas do negociante.

Jerônimo foi, na manhã seguinte, cortejar o vice-rei conde da Cunha, e visitar Alexandre Cardoso, a quem convidou para jantar em sua chácara em dia aprazado: deu-lhe com efeito o mais rico banquete a que concorreram todos os homens notáveis por sua posição oficial, nobreza e riqueza da cidade do Rio de Janeiro; mas faltaram à mesa a mulher e as filhas do zeloso e austero ancião.

Alexandre Cardoso voltou três vezes à chácara da Gamboa e ali três vezes aceitou o jantar de Jerônimo: nem uma só vez, porém, mereceu ser recebido na sociedade da família; a senhora Inês e suas filhas nunca lhe apareceram.

Naquele tempo, semelhante reserva não era motivo de queixa ou de reparo; porque a abstenção da presença das senhoras no recebimento e nas honras que se faziam ao hóspede, entrava nos costumes de muitas casas, mas evidentemente essa prática anunciava ao hóspede que ele era um homem obsequiado, talvez bem aceito pelo dono da casa, não era, porém ainda um amigo, cavalheiro da confiança íntima da família.

Alexandre Cardoso, inteligente e atilado, compreendeu o procedimento do pai de Inês; adivinhou que Jerônimo pressentira o seu amor ou a sua paixão condenável e que nem lhe aprovava o amor honesto, nem toleraria culto menos respeitoso a qualquer de suas duas filhas; simulou, porém, desconhecer a contrariedade, e, cultivando suas relações com o nobre velho, tornou impossível um rompimento, esmerando-se em escrupulosas delicadezas.

A oposição, os obstáculos, a resistência produziram seus naturais resultados: Alexandre Cardoso amou ou desejou mil vezes mais ardentemente Inês e por Inês sacrificaria tudo.

Amante feliz de Maria de...Alexandre Cardoso, preso ainda nos laços dessa encantadora sereia, vaidoso da sua posse muito invejada, mas saciada de gozos impuros, não hesitaria em esquecer a Vênus da inconstância e da libertinagem pela flor mimosa, cândida e rescendente de inocência e de pureza. Na noite dos Reis, em 1766, ainda Alexandre Cardoso contemplara inutilmente e sem merecer ao menos passageiro olhar, o lindo rosto e a figura graciosa de Inês.

O afortunado sedutor de vinte míseras vítimas começava a irritar-se contra a isenção e fria indiferença da filha de Jerônimo.

Talvez que essa irritação houvesse contribuído para o ímpeto de furor oficial que fizera Alexandre Cardoso arrancar da espada e acometer desastradamente a multidão em cujo seio se escondia o poeta improvisador da décima terrível.

E para mais vivo incitamento da paixão de Alexandre Cardoso, a ciumenta Maria lhe lançara no coração veneno semelhante ao que a estava abrasando, dizendo-lhe à mesa da ceia festiva: “feliz no jogo, infeliz no amor...” O lírio indiferente não pendia para ele, que, perdido e cego, não viu, não soube ver, se bem perto, para alguém a furto, pendia o lírio...

IX

Alexandre Cardoso saíra da casa de Maria de... quando a aurora vinha já rompendo; parecia, pois, natural, que a bela mulher tivesse sono e

quisesse dormir, como dissera, ao despedi-lo seca e enregeladamente.

Todavia, apenas a porta da rua se fechou sobre o oficial-de-sala do vice-rei, Maria, que se deixara ficar sentada, voltou os olhos para o corredor que se estendia até à sala de jantar, e para o qual abria uma porta cada um dos aposentos interiores do sobrado, e poucos momentos depois apareceu diante dela, e foi sentar-se em uma cadeira fronteira da sua, um bonito mancebo que certamente ainda não contava trinta anos de idade.

Era um homem de estatura regular e tão bem feito de formas, como desejaria sê-lo uma mulher; tinha os cabelos pretos, finos e crespos, e os olhos tão negros e belos, como eram belos e brancos os dentes; o rosto oval ostentava encantos e graças demais para o seu sexo; longe de ser um tipo de beleza varonil, dir-se-ia um erro da natureza que lhe dera formosura feminina e sexo masculino.

– Maria, disse ele seriamente; não me sujeitarei segunda vez a situação tão mesquinha e aviltante! Maria pareceu não tê-lo ouvido, porque não lhe respondeu; mas perguntou-lhe: – Ângelo, sabes jogar?...

Também Ângelo não respondeu à pergunta de Maria, e continuou, insistindo no seu protesto.

– Por que excluir-me da sala e da mesa dos teus convidados e imporme essa cruel prisão de duas ou três horas em um quarto retirado, que nem ao menos é o do teu leito!... Envergonhas-te da minha companhia, ou pensas que me causam medo os teus amigos de bigodes e espadas?... Maria tornou-lhe: – Ângelo, sabes jogar a banca14?...

O mancebo levantou-se colérico: – É demais!...exclamou.

– Senta-te e ouve, tornou-lhe Maria com voz imperiosa.

Ângelo sentou-se.

– Deixei-te naquele quarto, porque me convinha que não te vissem hoje em minha casa: muito me serviste hoje; mas se te encontrassem aqui, não poderias servir-me amanhã; pois adivinhariam em ti o amigo, que há tempo me pôs ao fato de quanto se passou no pátio do convento da Ajuda.

Ângelo curvou a cabeça e disse: – Entendo: pensaste bem em ti mesma, zelando o teu espião.

Maria encrespou os supercílios, e falou em tom severo: – Tens vinte e sete anos, Ângelo, e aos vinte e cinco, na idade em que o homem deve assumir uma posição na sociedade, eras o filho mimoso de pais sem fortuna, um pobre moço sem ofício, sem hábito do trabalho, e portanto um condenado às provações dos desvalidos; eu te encontrei, te distingui, e te amei porque eras e és belo; fiz por ti o que teus pais não poderiam fazer.

– Mas eu também te amei, Maria! – E o amor é fogo que se apaga...

- O teu...

– Pois seja assim, o meu: arrefecido o meu amor, nem por isso te faltou minha proteção; de amante furtiva ou mal encoberta, eu me tornei tua amiga manifesta; dei-te um emprego que te assegura posição medíocre, mas suficiente para a vida do homem modesto, e não poupei nem poupo favores que te facilitem aparências de abastança que não possuis.

– Lanças-me em rosto os benefícios, Maria? – Não; somente lembro os fundamentos da gratidão que tenho exigido e exijo ainda.

– E poderias julgar-me ingrato? – Também não: ainda precisas muito de mim para que tão cedo me voltasses as costas. Lembrei-te o casamento com a filha mais nova do negociante Jerônimo, que te tornaria esposo de uma linda moça e herdeira de grande fortuna...

– Inspiração do ciúme...

– Já o neguei? É certo, inspiração do ciúme; mas inspiração que te pode aproveitar; prometi auxiliar-te neste empenho, e sabes que o tenho feito; que mais quererias que fizesse por ti a amante de dois anos, que saciada do teu amor, hoje faz muito ainda, amparando-te, protegendo-te com a sua amizade?

14 Tipo de jogo em que o banqueiro distribui as cartas em vários montes, ganhando quem tiver a menor.

– Tua franqueza é cruel e desalmada!...

– Que importa? Eu sou melhor do que as que fingem e mentem; eu não te devo nada, Ângelo; porque paguei-te o que me deste; e tu me deves muito, porque não te pedindo mais, e quando debalde mais me quererias dar, ainda te dou e te prometo; eu, porém, preciso de ti contra Alexandre Cardoso, de quem jurei vingar-me; nada mais claro e nada mais franco; entendamo-nos pois; queres continuar a servir-me?...

Ângelo respondeu submisso: – Estou pronto.

– Já te fiz rival de Alexandre Cardoso, aconselhando-te o amor e o casamento com Inês Lírio: neste empenho tu me serves e eu te sirvo; agora tenho outro.

– Qual? - O jogo.

– O jogo? – Sabes jogar? – Conheço as cartas do baralho, e mais ou menos compreendo os jogos.

– Jogas a banca? - Mal.

– É preciso que a saibas jogar honesta e desonestamente; porque eu quero que ganhes o dinheiro de Alexandre Cardoso.

– O famoso jogador?! – Serei tua sócia nas perdas e lucros e tomo à minha conta o capital necessário; entrarei com cinco mil cruzados para a sociedade, e tu com a tua simples participação no jogo, que muitas vezes se dará em minha casa.

– Aceito a proposta sem modificação alguma, disse Ângelo.

– Eu, porém, exijo mais alguma coisa, tornou Maria.

– O quê?...

– Que ganhes sempre a Alexandre Cardoso.

– Isso desejo eu; mas o meio?...

– Ângelo, tens as mãos finas, e a sutileza das organizações delicadas; tudo é fácil no jogo, a quem sobram essas condições: irás amanhã, quero dizer, hoje mesmo, ao Outeiro da Glória, ensinar-te-ão ali a casa do velho Placêncio Guedes, o mais hábil jogador, adivinhador e empalmador de cartas, que a fama apregoa; é um velho que deixou de jogar somente porque todos se esquivam de o fazer com ele; entregar-lhe-ás um bilhete de recomendação que vou escrever-lhe; durante quinze dias ou um mês praticarás com Placêncio Guedes a ganhar sempre ao jogo, e especialmente ao jogo da banca, e quando o velho Placêncio te disser: – “podes jogar” – tu, de sociedade comigo, que fornecerei o dinheiro, jogarás sempre contra Alexandre Cardoso.

Ângelo não respondia.

– Explique-me claramente, disse Maria; cumpre-te agora responder;

queres ou não?... aceitas ou não?...

– Quero e aceito, respondeu enfim, sobriamente, o mancebo. Maria levantou-se, e abrindo uma rica escrivaninha de jacarandá, escreveu algumas linhas em uma folha de papel, que dobrou e veio a entregar a Ângelo.

– Amanhã te apresentarás com este bilhete ao velho Placêncio. Agora deixa-me; preciso descansar.

Ângelo saiu.

X

Depois da retirada de Ângelo, Maria deixou-se como esquecida na

sala, em sombria meditação.

A entrevista confidencial que acabava de ter com o mísero mancebo que se prestava a ser instrumento cego e indigno de planos sinistros, indicava bem que um abismo de odiento ressentimento já separava o coração de Maria do de Alexandre Cardoso, se é que algum dia ela amara verdadeiramente o ajudante oficial-de-sala; mas a paixão deste pela filha de Jerônimo Lírio, explicando muito, não explica bastante os sentimentos que agitavam e moviam os dissimulados furores da bela cortesã.

Além dos ciúmes e das apreensões de perda de influência que essa paixão provocava, a vaidade de Maria tinha recebido da mão de Alexandre a Cardoso o golpe mais profundo e doloroso.

É indispensável voltar um pouco atrás para se apanhar a ponta do fio desta intriga que promete desenvolver-se.

No século décimo oitavo e ainda em princípios do atual, eram muito notáveis e curiosas as cerimônias da festa de Nossa Senhora do Rosário a em diversas capitais do Brasil e especialmente na do Rio de Janeiro.

Eram os pretos livres, emancipados, e em grande parte os escravos que tomavam a si as solenidades da devoção de Nossa Senhora do Rosário, e os senhores de escravos devotos concorriam por eles com elevadas quantias, Os principais festeiros tomavam o título de rei e rainha, e se apresentavam na igreja trajando vestidos magníficos e com sinais e aparato de realeza, tendo corte mais ou menos numerosa de príncipes e criados de ambos os sexos, trazendo também vestidos apropriados e às vezes ricamente extravagantes.

Acabada a missa solene da manhã, e o Te-Deum ao anoitecer, o rei e a rainha de Nossa Senhora do Rosário, com toda a sua corte, dançavam pelas ruas ou em tablados, horas inteiras, as suas danças d’África, algumas das quais já modificadas pela influência dos costumes da colônia portuguesa da América e sempre ao som dos seus rudes instrumentos especiais.

À parte o ridículo da cômica realeza que se misturava assim com o divino culto, era pelo menos divertido, aquele espetáculo que os pretos davam nas ruas, e tornava-se notável a despesa que faziam os senhores para vestir com riqueza e luxo os seus escravos que deviam ser príncipes ou criados e principalmente rei e rainha da festa de Nossa Senhora do Rosário.

Em 1765 a festa foi brilhante e ostentosa na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cujos habitantes, terminadas na Igreja do Rosário as sagradas solenidades, acudiram em massa ao campo do mesmo nome, ainda pouco povoado, para assistir às danças e gozar a iluminação.

Foi na noite desse dia que Alexandre Cardoso viu pela primeira vez a família Jerônimo Lírio, sentindo-se arrebatado na contemplação da beleza de Inês.

Ou porque houvesse notado esse arrebatamento ou por outro qualquer motivo, Maria retirara-se cedo do campo do Rosário, onde ostentara formosura e esplêndido luxo.

Às onze horas da noite, as danças tinham terminado; ia, porém, começar o fogo de artifício e a muldidão se aumentava ainda.

Em algumas barracas improvisadas, muitas famílias ceavam alegremente e em uma casa de um só pavimento, porém espaçosa e transformada nesse dia em casa de pasto, Alexandre Cardoso e uns vinte oficiais dos regimentos velho e novo dominavam absolutamente; raros paisanos, e esses, amigos dos oficiais, ali se achavam; mas em compensação, abundavam na sala imensa, alegres moças, que faziam tolerar uma dúzia de mulheres de mantilha, sem dúvida velhas mães ou parentes que as acompanhavam.

Desde que se respeitava a mantilha, a mulher que a trazia, guardava com facilidade o incógnito; ora, os oficiais, tendo em conta de velhas as mantilhadas, as deixavam em tranqüilo abandono.

A ceia era abundante, embora muito trivial, e mais de cem garrafas já tinham sido despejadas.

De súbito, viram entrar na sala e logo recuar, um oficial do regimento novo.

– O tenente Gonçalo Pereira! gritaram uns.

– O tenente anacoreta! bradaram outros.

– Vão buscá-lo preso à ordem de Baco e Vênus! exclamou Alexandre Cardoso.

Alguns oficiais saíram e pouco depois voltaram com o tenente Gonçalo Pereira, que não quisera negar-se ao convite de camaradas, mas que, sentando-se à mesa, ceou e bebeu com sobriedade e decência.

As cabeças começavam a tontear.

Alexandre Cardoso bebia, e requestava uma bela e travessa morena que fizera sentar a seu lado.

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