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As Mulheres de Mantilha

Joaquim Manuel de Macedo

A morena, que bebera já três cálices de vinho, principiava a tornar-se

eloqüente.

Alexandre Cardoso acabava de jurar-lhe amor eterno sob a condição de merecer-lhe um beijo diante da assembléia.

– Um beijo a preço de amor eterno, valia a pena; mas, quantos amores eternos é capaz de sentir o senhor tenente-coronel em uma noite? A morena falava em voz alta.

– Por que o perguntas, meu anjo? – Porque ainda há duas horas, era um dos dois lírios que o transportava; agora sou eu que o cativo; e dentro em pouco...

– Dentro em pouco?...

– É uma coisa que todos sabem... dentro em pouco a famosa Maria lhe tomará contas desta noite.

E a morena, empunhando o copo, exclamou: – Viva o sultão! Os oficiais e as moças beberam, e depois desataram a rir.

Alexandre Cardoso tinha afogado a dignidade em vinho.

– Meu anjo, disse ele: o lírio mais novo é a mais formosa; tu, porém, és a mais linda e voluptuosa... a vitória é tua.

– E Maria?...

– É um livro de história antiga, que às vezes releio pela força do hábito.

– É bela...

– E toda ela não vale os olhos que tens... palavra de honra! – Sei que não posso comparar-me com ela! Sou bonita; porém Maria é formosa...

– Toma-lhe o luxo e a riqueza, e verás que a aniquilas, eclipsandolhe as graças! és um querubim! Não é, senhores?...

– Pois bem; dou-lhe um beijo, se, a seu convite, todos aqui me proclamarem mais bela que Maria.

– Como te chamas?... perguntou Alexandre Cardoso, enchendo pela vigésima vez o copo – Eduvirges.

–Viva Eduvirges, mil vezes mais bela que Maria! Exclamou Alexandre Cardoso.

– Viva Eduvirges, mais bela que Maria! responderam quase todos, bebendo.

– Ouviste! – Mas aquele senhor não bebeu, e, portanto, não dou-lhe o beijo, disse Eduvirges, mostrando Gonçalo Pereira.

– tenente Gonçalo Pereira! Quer estorvar-me o gozo de um beijo?...

– Não, sr. tenente-coronel, respondeu Gonçalo; beije mil vezes Eduvirges; mas eu não direi que Eduvirges é mais bela que Maria.

– Está vendo?... disse Eduvirges um pouco ressentida, mas fingindose

calma; – perdeu o beijo.

E voltando-se para Gonçalo Pereira, acrescentou: – Obrigada, sr. Tenente; pois que salvou-me da sedução.

– Que lambida é aquela Eduvirges! Murmurou outra moça de iguais costumes, ao ouvido do oficial que ficava ao lado.

– Mas eu protesto contra a injustiça de que sou vítima, tornou Alexandre Cardoso com palavra já difícil pelo excesso das libações; protesto duas vezes: primeiro, contra o Tenente, que se improvisa cavaleiro de dama que não é sua; e contra Eduvirges, que me sacrifica à impertinência e à abelhudice de um cavaleiro que não é seu.

– O sr. tenente-coronel está sem dúvida gracejando, quando fala em impertinência e abelhudice, respondeu Gonçalo, corando.

Alexandre Cardoso, muito ocupado de Eduvirges, não ouviu a resposta do tenente, a quem outros oficiais trataram de serenar.

– Estou no meu direito, negando-lhe o beijo, disse Eduvirges, falando sempre em alta voz, e a rir sem saber de que ou somente para melhor mostrar seus dentes lindíssimos; estou no meu direito, pois que se declarou uma opinião contra mim, e eu exigia por condição todas a meu favor.

Alexandre Cardoso insistia ridiculamente.

– Agora, sr. tenente-coronel, só lhe daria um beijo, se diante de Maria, o senhor fosse capaz de declarar-me mais famosa que ela...

– Sou capaz...

– Na sua presença... não creio.

O vinho tinha já embotado todos os sentimentos de delicadeza e de generosidade no ânimo de Alexandre Cardoso; pois que ele ousou responder: – Já estou muito aborrecido de Maria... tomei-a por vaidade, e conservo-a por... eu sei? por costume.

– É fácil dize-lo aqui; mas diante dela...

– Pois mandem-na chamar! exclamou Alexandre Cardoso. Uma das incógnitas e supostas velhas ergueu-se, atirou com força mantilha para trás, e disse: – Eduvirges teve a idéia de abater Maria sem compreender a superioridade da cortesã formosa, instruída e espirituosa, sobre a bonita; mas, ignorante e rude rapariga de vida alegre, teve porém essa idéia, e notando a hesitação de Alexandre Cardoso, pisou-lhe com força o pé para que ele a olhasse, sorriu-se provocadoramente e depois fechou os olhos, alongou um pouco o pescoço para o oficial, e com um leve movimento extensor dos lábios não lhe ofereceu, pediu-lhe um beijo.

Alexandre Cardoso balbuciou sem consciência e com um tom rouquenho: – Eduvirges é mais bela que Maria.

E beijou três vezes os lábios de Eduvirges.

Quando Alexandre Cardoso, Eduvirges e os sócios de orgia procuraram com os olhos a formosa cortesã, acharam somente a mantilha negra, que ela deixara esquecida, ou desprezada no chão.

– Sabe que é aquela mantilha preta? perguntou um oficial a Gonçalo Pereira.

– Que é? – É a mortalha em que se enterrou o amor de Alexandre Cardoso e Maria.

O oficial que vira na mantilha deixada por Maria a mortalha do amor da cortesã e do ajudante oficial-de-sala do vice-rei, enganara-se completamente.

A ligação de Alexandre Cardoso e Eduvirges acabara no fim de uma semana, e tão friamente, como se tivesse durado à força um século.

Alexandre Cardoso, envergonhado da cena de embriaguez em que se dera em espetáculo, não procurara dar desculpas a Maria do seu escandaloso procedimento. Em verdade ele não sentia mais a paixão em que se abrasara pela esplêndida cortesã; esta porém o prendia pelo seu espírito e pelas aparências de comedimento, ostentação de luxo e de elegância, e delicadezas de fino trato com que cobria de lavor as misérias do vício.

Saudoso de Maria, Alexandre Cardoso não pôde resistir à lembrança dos seus encantos por mais de oito dias e receoso de justificável repulsa, não ousou ir logo à casa da sua amante; escreveu-lhe, pois, um bilhete pouco mais ou menos assim concebido: “Maria – oito dias têm me parecido oitenta anos: não posso mais. Um homem que se embriaga uma vez não é bêbado; mas basta uma hora de embriaguez para enlouquecê-lo; preciso ajoelhar-me a teus mimosos pés e limpar neles os lábios, que o sacrilégio nodoou. Maria! serás tão santa que possa perdoar-me?... – Alexandre.” Uma hora depois o ajudante oficial-de-sala do vice-rei recebeu a seguinte resposta: “Alexandre – Vênus perdoa a Baco. Vem – Maria.” A mão de Maria tinha intencionalmente errado, escrevendo; em vez de Vênus, a deusa dos compassivos amores, deveria ter escrito – Juno – a deusa das implacáveis vinganças.

A famosa cortesã tão caprichosa em seus amores, como violenta em seu ódio, conservando viva e sempre profundamente dolorosa a memória da orgia da noite da festa de Nossa Senhora do Rosário, nem uma só vez, nem sequer por um só instante lembrou-se de vingar-se em Eduvirges; muito vaidosa e soberba esqueceu em sua vida miserável a bonita mas pobre e desgraçada vítima da devassidão; em seu orgulho de rica e nobre, em sua presunção de formosíssima e fascinadora, a cortesã altiva desprezava aquela irmã pelo vício, e dela só se ocuparia um minuto, se julgasse preciso mandar-lhe esmola.

Há pretensões e tons aristocráticos em todas as classes, e até na classe da corrupção hedionda.

Maria esquecera pois Eduvirges; não esquecera porém o escárnio, os insultos, e a afronta que recebera de Alexandre Cardoso na orgia escandalosa.

O amor, ou a paixão do ajudante oficial-de-sala do vice-rei pela menina Inês, filha de Jerônimo Lírio, era pois somente um incentivo concorrente que acendia as fúrias da terrível Medéia.15 Era por isso que Maria deixara-se como esquecida na sala em sombria meditação depois da retirada de Ângelo.

Ela tinha mentido a Alexandre Cardoso quando fizera suspeitar que no pátio do convento da Ajuda um namorado feliz gozara as vistas furtivas da menina Inês, e tinha mentido a Ângelo, quando o animara com a esperança de casamento com a filha mais moça de Jerônimo Lírio; nem sabia se houvera namorado de Inês, nem ela até então pensara em casar Ângelo.

Maria tinha um único pensamento, uma única ambição, um único empenho; era vingar-se de Alexandre Cardoso.

XI

Eram seis horas da manhã, quando Maria procurou no leito o descanso e o sono; na noite que acabava de passar, sofrera muito em sua vaidade e nos seus cálculos: não amava Alexandre Cardoso, nunca se dera a ele nem por paixão, nem por capricho; mas essa mulher inconstante e louca que se reservava o direito de atraiçoar seus amantes e de mudar de amantes, sempre e logo que isso lhe aprazia, não tolerava o ser deixada, e menos que por outra algum amante quebrasse suas cadeias; então a ciumenta elevavase a inimiga terrível que não poupava, nem escolhia generosa os meios e a

natureza da vingança.

Alexandre Cardoso não só começava a mostrar-se menos cativo dos encantos de Maria, como não fazia mistério da sua paixão por Inês, chegando a declarar-se no círculo de seus amigos disposto a tomá-la por esposa.

15 Segundo a mitologia grega, Medéia, apaixonada por Jasão, chegou a trair o próprio pai para ajudá-lo a obter o Velo de Ouro. Mais tarde, ao ver-se preterida por Creusa, vingou-se de maneira terrível matando os próprios filhos que tivera com ele . Foi tema de tragédias de Eurípides, Sêneca e Corneille.

Maria estava habituada a perdoar a Alexandre seus deboches, suas seduções imorais, seus crimes de concupiscência malvada; mas o desprezo que a ameaçava, e a hipótese do casamento com Inês eram o primeiro um ultraje à sua vaidade de formosa, e também e ainda mais com o segundo a

ruína da sua influência que ela sabia fazer valer.

A amante do conde de Bobadela provara por vezes a importância do patronato exercido pelo domínio do coração daquele que governa: Gomes Freire nunca escravizara com escândalo o governador à amante, sempre porém que o pôde fazer sem desar16 público, servira-lhe aos empenhos.

O oficial-de-sala do conde da Cunha, perdido de paixão durante muito tempo e até 1765 pela encantadora e voluptuosa moça, obedecia cego aos seus desejos e preceitos, e Maria dispunha de empregos e de favores, governando o governo pelo poder de sua beleza e pela magia das suas graças o ter que fascinavam Alexandre Cardoso.

O amor que a inocente Inês sem pensar e sem querer inspirava ao oficial-de-sala do vice-rei, viera dar a Maria a certeza do que ela já pressentira no arrefecimento da paixão de Alexandre, isto é, o próximo termo do seu reinado no coração do poderoso secretário do governo da colônia.

Esta convicção encheu de cólera e de ódio a alma da soberba e ambiciosa Maria, que jurando a si vingar-se de Alexandre Cardoso, destruindo os fundamentos da sua influência oficial que em breve não mais a ela poderia aproveitar, abafou seus furores, e fingindo-se ora ciumenta, ora terna e apaixonada, e retendo ainda com prodígios de lascivos laços o amante arrefecido e infiel, cercou-o de espionagem segura e vigilante que ela sabia alimentar, pagando-a a preço de ouro e de favores de natureza diversa.

Às onze horas da manhã Maria saltou do leito, como arrependida de haver dormido tanto; após demorado e perfumado banho, entregou-se ainda mais aos próprios cuidados, do que aos de duas habilíssimas escravas, que por acordo com o espelho lisonjeavam à porfia a formosa moça, que à uma hora da tarde achando-se primorosamente vestida, toucada e fresca, e bela como a aurora, que ela tinha saudado antes de dormir, foi sentar-se na sala, tendo aí mesmo tomado por almoço meia chávena de chocolate.

– O jantar?17... perguntou ela.

– Está pronto.

– Às duas horas precisas deve estar na mesa.

As escravas retiraram-se.

Maria esperava sem dúvida alguém. Meia hora depois entrou na sala o tenente Gonçalo Pereira, aquele mesmo que na ceia da precedente madrugada fora objeto das zombarias e do ridículo dardejado pela formosa

16 No texto: prejuízo.

17 No século XIX chamava-se almoço a refeição da manhã; jantar a do meio do dia; e ceia a da noite.

moça pelos abraços dados à velha de mantilha na Ladeira de Santo

Antônio.

Gonçalo Pereira era um elegante oficial português desde dez anos mandado para o Brasil com o posto de alferes e incorporado ao regimento novo, entre este e o regimento velho havia ciúmes e pontos de vaidoso antagonismo, que cada vez mais acesos e irritados, contudo se concentraram temerosos pela elevação de Alexandre Cardoso, tenentecoronel do regimento velho, a oficial-de-sala do vice-rei conde da Cunha.

Os oficiais do regimento novo queixavam-se de que os do outro por mais protegidos os preteriam na escala dos postos, o que foi sempre e é motivo de grande desgosto no exército; Gonçalo Pereira, apesar de exato e ativo no cumprimento de seus deveres militares, e de ser muito mais instruído do que o eram então em geral os oficiais das tropas portuguesas, conseguira em dez anos apenas passar de alferes a tenente; no regimento novo todos o apresentavam como exemplo de injustas preterições; entretanto o tenente não se queixava, e o que mais é, alegre e folgazão, devoto do belo sexo, e dos prazeres da mesa, do amor e do jogo, era o mais infalível companheiro, desde alguns meses ao menos do chefe das orgias famosas, de Alexandre Cardoso, a quem antes o supunham justificavelmente adverso.

No regimento novo todos lamentavam a indigna e aduladora ligação de Gonçalo Pereira com o comandante do regimento velho, e nenhum tinha adivinhado que ele era o mísero escravo do amor mais ardente a que até então rendera cultos, ajoelhando aos pés da falsa amante de Alexandre Cardoso.

Em 1765 as primeiras relações de fácil intimidade de Gonçalo Pereira com Alexandre Cardoso marcaram a época das primeiras e misteriosas relações do tenente do regimento novo com a amante do chefe do regimento velho.

Maria, vendo entrar o elegante oficial, correu para ele, exclamando: – Tardavas-me! Gonçalo Pereira recebeu-a nos braços e com fervor que aliás não encontrou resistência, beijou-a duas vezes nos lábios.

Sentaram-se ao lado um do outro com as mãos dadas, e com os olhos a gozarem-se.

– Tardavas-me, repetiu Maria.

– Cheguei meia hora antes do prazo marcado...

– Eu te esperava há uma hora.

– Obrigado! disse Gonçalo, beijando-a outra vez.

– Conversemos. .. tornou Maria, procurando esquivar-se às carícias do amante amado.

– Sobra-nos tempo, respondeu o oficial, insistindo.

A bela moça recuou, ameaçou Gonçalo com o leque, e fugiu a rir-se pela sala, enquanto ele a perseguia, rindo-se também.

Como duas crianças, uma corria, outro cercava, correndo também: Maria ligeira e viva escapava rodeando o cravo e as cadeiras; mas por fim, deixando-se enganar ou enganada pelo falso ataque simulado por um lado, foi pelo outro cair nos braços de Gonçalo Pereira, soltando um fraco grito evidentemente de alegria menos pudica.

XII

Maria e Gonçalo Pereira levantaram-se da mesa do jantar às três horas da tarde, e voltando à sala, acharam-se livres da presença dos

escravos.

– Que há? perguntou Maria.

– O vice-rei ficou furioso, recebendo a notícia da fatal décima improvisada; numerosos agentes do governo se espalharam disfarçados pela cidade, e ao meio-dia o oficial-de-sala deu conta ao conde da Cunha das suas descobertas.

– E quais foram? – Nem mais nem menos do que aquilo que a tua admirável polícia tinha te informado imediatamente depois do fato: o poeta improvisador fora uma mulher de mantilha.

– Quem é? Como se chama? – O conde da Cunha oferece mil cruzados a quem lho disser, e o seu oficial-de-sala bem desejara achar o revelador; porque sem dúvida lhe daria metade daquela quantia, tomando a outra metade para si.

Maria pôs-se a rir.

– Tens-me feito três perguntas; agora é a minha vez: quem te contou o que se passara no pátio do convento da Ajuda? – Um homem que esteve lá, e que correu a informar-me de tudo antes que chegasses a minha casa.

– Ah! tens outro espião além de mim?...

– Tenho dez e mais.

– Maria!... Porque me abraso de paixão por ti, sujeito-me a aviltamento que me repugna; impuseste-me, como condição essencial do teu amor, a companhia e a sociedade do homem que mais detesto; resisti longas semanas; mas enfim, desonrei-me para que me abrisses os braços; duas manchas enegrecem-me a vida: é uma a tolerância, com que suporto a entrada de Alexandre Cardoso nesta casa, que deverá ser somente minha pelo amor, e onde eu penetro como ladrão de tesouro alheio; é outra essa deslealdade indigna, com que espio para te contar as ações e os passos do meu inimigo.

– Do nosso inimigo, murmurou surdamente Maria.

– Pois bem: dois opróbrios já são demais e não me submeto a terceiro; sei e sabes a moeda que me paga a infâmia da deslealdade e da espionagem; acabas de declarar-me que tens um outro e mais dez espiões: com que moeda lhos pagas, Maria?...

A feiticeira moça sorriu-se docemente, e inclinou a cabeça, procurando com os lábios a face de Gonçalo Pereira; este, porém, sustevea, pondo-lhe as mãos nos ombros formosos e nus, e renovou a pergunta: – Com que moeda lhos pagas?...

Maria respondeu seriamente: – Na minha vida condenada, tenho ao menos o bom costume de iludir as perguntas, quando não me convém confessar a verdade, e de nunca mentir, quando falo ou respondo positivamente.

– Tanto melhor! – O meu outro espião é Ângelo, a quem amei até que te encontrei no caminho da minha vida, e que deste então é apenas interesseiro instrumento de meus projetos de vingança; os outros são as mulheres que tudo dizem, velhas a quem protejo, moços e velhos que de meus auxílios precisam, e que muitas vezes me servem sem saber que o fazem.

– Maria! – Eu te juro, Gonçalo; não tens rival no meu coração e nem sei mais ter caprichos loucos: amo só a ti e quero-te por meu senhor; se um dia mudar de sentimentos, quem primeiro to há de dizer, sou eu.

E a sereia que cantara, inclinou de novo a cabeça, as mãos do oficial cederam e roçando pelo tronco, foram apertar a cintura mais delicada, enquanto os lábios da amante beijavam a face do amado.

Maria pagava a deslealdade e a espionagem, alucinando o oficial perdidamente escravo da sua beleza e dos seus invites18 fascinadores.

Vencido o ímpeto de ciúme e embotados os santos escrúpulos e protestos de honra sacrificados à paixão mais violenta, Maria, voluptuosamente reclinada na cadeira em que se sentara, com um lindo anel de madeixa, que fugira ao penteado já meio confuso, a brincar-lhe na face levemente corada, disse a Gonçalo: – Contigo eu me perco, porque esqueço o mundo...

– E para que lembrá-lo? Para vingar-me.

– Muito amaste, ou ainda muito amas Alexandre Cardoso! – Nunca o amei, e hoje o detesto; mas cada qual tem suas misérias na vida...

– Cuidemos antes dos prazeres da vida.

– Alexandre Cardoso é o meu amante, passa por meu amante e dono; se queres poupá-lo, como é que me amas?... se queres ser só, como é que o poupas?...

18 Convites.

Gonçalo soltou um gemido profundo, que pareceu um rugido feroz.

Maria tocara na corda sensível de Gonçalo Pereira.

O poder e o orgulho desse homem imoral e perverso devem ser abatidos, continuou Maria.

– Dever, disse Gonçalo.

– Como procede ele agora? – Como dantes: bebe, joga e seduz.

– E o vice-rei? – Surdo e cego; surdo às queixas, cego pela confiança.

– Pois que Alexandre Cardoso beba e jogue, e seduza em dobro.

– Fa-lo-á sem esforço nosso.

– Joga feliz? – Nem sempre.

– Sobra-lhe dinheiro?...

– Emprestei-lhe anteontem dois mil cruzados.

– Ainda bem. Que premedita ele agora?.

– Novo e numeroso recrutamento para duas ou três companhias de cavalaria ligeira, que sirvam à guarda especial dos vice-reis e novas obras de aquartelamento de tropas na Ponta da Misericórdia.

– E no recrutamento e nas obras novas, novo meio de bater moeda na forja do patronato.

– É da sua regra.

– Quanto pior, melhor: também é de regra.

– Talvez.

– Que diz a esses projetos o conde da Cunha?...

– Hesita ainda, pretendendo que a população tem sido por demais onerada.

– E Alexandre Cardoso?..

– Sustenta que o povo vive feliz e satisfeito; mas que o número excessivo dos vadios torna o serviço militar uma providência salutar para a sociedade ameaçada por eles, e que o comércio altanado19 e revoltoso tem sobras de lucros que são exageradas, e que podem aproveitar às obras do rei, entrando para elas como donativos voluntários.

– Perfeitamente e o melhor possível; uma última pergunta...

– Qual?...

– E Inês?... a filha de Jerônimo Lírio? – Sabe ela que Alexandre a ama?... Eu duvido.

Maria sorriu-se.

– De que ris?...

– De tua dúvida; a mulher, ainda que não olhe, sempre vê quem a namora.

19 Alvoroçado.

– Em tal caso, Alexandre Cardoso namora em vão.

E, tornando-se um pouco triste, Gonçalo Pereira perguntou: – Era isto o que querias ouvir, Maria?...

A resposta da famosa cortesã foi lançar-se nos braços do belo oficial.

XIII

No principio do mês de fevereiro, uma série de resoluções tomadas pelo conde da Cunha, algumas das quais inspiradas pelo oficial-de-sala, que com a sua enérgica atividade ia pô-las em execução, encheu de cuidados a

capitania e especialmente a cidade do Rio de Janeiro.

Foi ordenado o alistamento dos habitantes da capitania para organização de quatro novos terços de infantaria auxiliar, milícia ainda mais opressora do que o é a própria guarda nacional dos nossos dias.

Determinou-se e abriu-se recrutamento geral para companhias de cavalaria ligeira da guarda do vice-rei.

Deu-se começo às obras de uma grande casa para recolher o parque da artilharia, e estabelecer aí fábricas e oficinas respectivas, e de um quartel para a cavalaria na Ponta da Misericórdia.

E enfim, retiraram-se da comunicação da cidade os míseros afetados de morféia20, que foram reunidos na antiga casa dos Jesuítas, em São Cristóvão, mandando-se preparar ali um hospital suficiente, sendo em favor deste caridoso estabelecimento lançado sobre a cidade um imposto anual de 480 réis por casa de sobrado e 240 réis por casa térrea.

Apesar do tributo, a providência relativa aos morféticos agradou à população; mas as obras do hospital, e ainda os militares da Ponta da Misericórdia, anunciaram novos vexames e violências, como o alistamento e o recrutamento levaram o susto e o terror aos moços de todas as paróquias da capitania, onde os capitães-mores e seus delegados eram déspotas impiedosos.

O oficial-de-sala sabia, por experiência, os lucros que lhe trariam o recrutamento com as dispensas, os novos terços de infantaria auxiliar, com as nomeações de mestres de campo, de sargentos-mores e de outros postos, e as obras com a modificação e a eximição21 de custosas imposições.

Toda a cidade se preocupava, alterada e temerosa, dos vexames que acompanhavam semelhantes medidas.

Nos governos absolutos e opressores o desgosto público, a quem falta a válvula da imprensa, antes de chegar a revolta, manifesta-se nas zombarias e nos insultos do pasquim, e nos versos e cantigas, de que não se conhece o autor, e se espalham e se decoram, e se repetem, a despeito da autoridade.

20 Hanseníase. Lepra.

21 Isenção.

No domingo do entrudo22, amanheceram nas portas da casa da Câmara Municipal, da Misericórdia, do Convento do Carmo, e em vinte outros, pasquins injuriosos, que antes de arrancados e despedaçados, foram lidos e tomados de cor, passando a correr em cópias confidenciais pela cidade. Um deles dizia assim:

O vice-rei os leprosos Da cidade desterrou; Mas a lepra mais horrível Na cidade conservou! Se a morféia o apavora, E quer de nós afastá-la, Vá o vice-rei embora Com o oficial-de-sala.

Outro era o seguinte:

A nau Sebastião está no estaleiro,23 Há obras novas e recrutamento, Para terços geral alistamento, Povo a servir governo caloteiro;

A explicação quereis?...

Vós todos o sabeis: Alexandre Cardoso quer dinheiro.

Eis ainda outro:

Senhor conde da Cunha, De vós muito se fala; Tem brio?... corte a unha Do oficial-de-sala.

Como estes, muitos outros pasquins que não chegaram até nós.

O furor de Alexandre Cardoso, que espalhou soldados e espiões pela cidade toda, a cólera do vice-rei, que mandou proibir o entrudo, as prisões dos rapazes que andavam com seringas e tintas, molhando-se e pintando-se uns aos outros, os gritos das negras, que em tabuleiros vendiam os famosos limões-de-cheiro, isto é, pequenos globos com paredes finas de cera e cheios de água cheirosa, os quais foram esmagados nos tabuleiros pelas

22 O entrudo era composto de brincadeiras grosseiras feitas pela população carioca durante o carnaval,

entre elas o banho dos transeuntes com farinha, tinta ou água suja. Era motivo de brigas violentas.

23 Alusão a um navio que então estava se construindo.

patrulhas rondante, a privação de um divertimento, rude e perigoso sem dúvida, mas arraigado aos costumes do povo, o pesar das moças e dos mancebos, que adoravam o entrudo por mil razões injustificadíssimas,

derramaram a tristeza e quase a consternação na cidade.

As casas se fecharam e em cada família falava-se em voz baixa e temerosa da ousadia dos pasquineiros e da reação excessiva do governo.

XIV

Na chácara de Jerônimo Lírio também se conversava sobre as

novidades do dia.

O velho negociante português Antônio Pires, amigo de Jerônimo desde quarenta anos e padrinho de batismo de Inês, tinha ido passar o dia na chácara da Gamboa, e dera conta do que se passara na cidade.

Estavam na sala a sra. Inês e suas duas filhas, que alegremente festejavam os presentes de doces e frutas que lhes trouxera o velho amigo de seu pai, e especialmente a bela afilhada, que recebera, além do mais uma linda boneca, não cabia em si de contente.

– Imprudências loucas, Antônio! Não nos governam bem, mas a falta de respeito ao governo é pior, dissera Jerônimo.

Antônio Pires olhou em torno da sala, e não vendo senão o amigo, a comadre e as meninas, respondeu, fazendo com o braço um movimento: – Leve o demo o governo que desgoverna, Jerônimo.

– Compadre! disse a sra. Inês.

– Arrancam-nos dinheiro e propriedades, prendem nossos caixeiros24 e nossos escravos, desenfreiam e protegem a devassidão... pois em tal caso venha ao menos a vingança do pasquim! – Antônio, tu és um velho criança; vamos jogar o gamão.25 – Cala-te aí, que pensas como eu penso, e como todos os homens de siso e de honra.

– Anda jogar o gamão ou eu mando as meninas molharem-te a cabeleira e os babados da camisa.

– Elas não ousariam fazê-lo, compadre, observou Inês.

– E que o fizessem! O dia é de folguedo e eu não sou carranca rabugento, como seu marido, comadre.

E voltando-se para as duas meninas, perguntou: – Sinhazinha, tens limões-de-cheiro? – Não, meu padrinho, respondeu Inês.

– E tu, nhanhã? – Também não.

O velho tirou da bolsa duas moedas de ouro, e dando uma a cada

24 Caixeiro. Balconista.

25 Tipo de jogo onde as peças se movem num tabuleiro, de acordo com a sorte de dados.

menina, disse-lhes: – Hoje governo eu aqui, e muito melhor do que se governa lá fora; enquanto vou ensinar o gamão a vosso pai mandem vocês comprar limõesde- cheiro nas casas em que os vendem, fazendo traze-los em caixas fechadas, para não serem quebrados pelos rondantes do vice-rei, e molhemse uma a outra, e molhem pai e mãe, e a mim também, com a condição de serem e de se mostrarem bem contentes e bem felizes; não?!

As meninas, coitadinhas, hesitavam, olhando para o severo pai.

– Este velho criança tem direitos de padrinho, que é quase pai; ide brincar, e obedecei-lhe; pois que ele manda; nada, porém, de doidices... ide brincar.

As meninas saíram correndo.

– Olhem como elas vão! exclamou Antônio.

– Inês, disse Jerônimo, manda-nos vir o gamão.

A sra. Inês saiu da sala e em breve chegou o tabuleiro do gamão, que os dois velhos amigos descansaram sobre os joelhos; armadas, porém, as pedras, e tendo Antônio lançado o seu dado, Jerônimo, em vez de imitá-lo, falou tristemente: – Dizias bem: o governo da colônia está confiado a um cego, que não quer ver e que tomou por condutor o vício desenfreado.

– Cada dia, novas extorsões...

– É o menos: o mais é o exemplo da corrução que parte dos que governam, e que empesta a sociedade; o mais é a impunidade do sedutor indigno que ameaça as famílias!...

O rosto de Jerônimo tornara-se rubro de cólera.

– É assim; mas...

– Antônio, eu a ninguém o disse ainda, nem mesmo à tua comadre; direi, porém, a ti, e a ti somente; pois que tens direito de sabê-lo, e és homem capaz de compreender-me...

– Que há então?...

– O oficial-de-sala ousou levantar seus olhos corrutores até à tua inocente afilhada!...

– Estás certo disso? Jerônimo continuou com voz trêmula e abalada: – Quando quisesse duvidar, não podia...

– Por quê?...

– Porque cartas anônimas me denunciam todos os passos e todas as maquinações de Alexandre Cardoso para aproximar-se de minha filha, relacionando-se comigo, e tudo se verifica de quanto me previnem; portanto, já anda por ai o nome de Inês exposto às línguas venenosas desses devassos da companhia do oficial-de-sala! – Jerônimo, talvez estejas exagerando: és rico e pode bem ser que Alexandre Cardoso calcule com um casamento...

– Casamento! Darias a mão de tua afilhada a esse homem? – Nunca; mas, semelhante ambição está longe de ser uma ofensa,

como seria a infame tentativa de sedução.

– E quem assegura que o não é?...

– Eu por certo que não.

– Também minha resolução está tomada, e eu precisava comunicá-la a ti.

– Qual é? – Minha família continuará a negar-se a Alexandre Cardoso.

– Muito bem.

– E se o homem fatal por qualquer modo tentar seduzir Inês, ou der motivo a que seu nome e a sua reputação sofram ainda a mais leve e a mais injusta suspeita.

– Que farás?...

Jerônimo levantou-se e indo abrir as pesadas portas de um pequeno armário cavado na parede da sala, tirou dele um papel dobrado e lacrado triplicadamente duas ricas pistolas.

– Estes objetos explicam o que hei de fazer: ficas sabendo onde se há de achar o meu testamento e estás vendo as pistolas, com que hei de na rua, de dia, e à face de todos matar Alexandre Cardoso.

Antônio fez um movimento de aprovação; mas logo depois disse: – Pobre velho Jerônimo! se errasses o primeiro tiro, não te dariam tempo de usar da segunda pistola.

– Antônio! – Eu tenho melhor idéia.

Qual?...

– Que magníficas pistolas! Aqui na colônia não se encontram iguais! Jerônimo, dá-me uma delas... será aquela de que não terias tempo de servirte.

Jerônimo, banhado o rosto em lágrimas, abraçou-se com o amigo, exclamando: – Não! Seria demais! – Que demais?... tornou Antônio com gravidade; tu és pai, e por isso tens o direito de ir adiante; mas eu sou amigo e padrinho e tenho o direito de ir depois. Em dois velhos que atiram de pistola, quando um erra, o outro pode acertar.

Jerônimo estendeu o braço para dar uma das pistolas a Antônio, que não a quis receber, dizendo a sorrir: – Tenho lá em casa também duas da mesma fábrica: o que eu queria, era assegurar-te que na hipótese que imaginaste, se errares o tiro, eu tratarei de apontar mais certeiro. Vamos jogar o gamão.

Hoje em dia dois velhos que assim falassem, fariam rir pelas bravatas ridículas, a que ninguém daria grande importância; naqueles tempos havia um ditado que definia certos homens; o ditado rude, como rude era o povo, era este: “pé de boi português velho”26 e em Jerônimo e Antônio se encontravam dois pés de boi portugueses velhos que fariam o que diziam, dois homens de bem às direitas, mas teimosos, emperrados, indomáveis, que tinham no cumprimento da palavra o fanatismo da religião.

Os últimos representantes dessa geração de heróis de firmeza obstinada, antíteses da egoísta inconstância e interesseiro aviltamento de notabilidades passivas, foram aqueles paulistas que tomavam por divisa vaidosa, ao menos porém não suspeita de indignidade, o famoso princípio: “antes quebrar, que torcer”.

XV

Jerônimo foi trancar o testamento e as pistolas no armário com a

mesma fria simplicidade com que os tirara dele e os mostrara pouco antes.

Os dois amigos voltaram ao gamão, ordenaram de novo as pedras, outra vez Antônio lançou no tabuleiro o seu dado e outra vez Jerônimo lhe disse: – O vice-rei nos oprime; além do mais o recrutamento não tarda a caçar o povo...

– Já está caçando: recebi dos meus fregueses notícias de Magé, de Itapacorá e de Cabo Frio, onde o recrutamento é horrível; queriam poupá-lo à cidade durante os dias da folgança do entrudo; mas os pasquins de hoje exacerbaram o vice-rei que mandou recrutar sem piedade.

– Como devemos proceder? – A resistência é impossível.

– Antônio,eu penso que há duas resistências, e que uma das duas é sempre possível.

– Qual? – A resistência passiva, a resistência que pela inércia cria embaraços, e pela negação dos meios fatiga a violência. Doravante eu não darei mais um só real, o mais insignificante auxílio ao governo: o que o governo quiser de mim há de tirar-mo à força; contra o governo do vice-rei nem uma palavra, hei de observar completa submissão passiva; mas a favor do governo do vice-rei nem um passo, nem o mais leve concurso.

– A idéia é boa; muitos te seguirão o exemplo.

– Nada mais de donativos, nem de oferecimento de trabalhadores para as obras do rei; que nos arranquem o nosso dinheiro, e que nos tomem à força nossos escravos; o arbítrio e o despotismo também cansam, ou se tornam impossíveis pelo ódio de todos; façamo-los cansar pelo excesso das violências, e morrer pela sentença da condenação geral.

– Tens mil vezes razão, Jerônimo, disse Antônio; mas eu entendo que

26 No texto, “pé-de-boi” tem o significado de pessoa conservadora, apegada aos velhos costumes.

não basta a inércia, e que é indispensável também a ação negativa: onde o governo do vice-rei perseguir haja proteção, caridoso amparo e couto27 aos perseguidos; um, dois hóspedes demais não exigem aumento de pratos em nossas mesas; em regra nossas refeições chegam para o triplo da família; a

hospedagem é um dever, hospedemos os que fugirem à perseguição.

Jerônimo sacudiu a cabeça, indicando desaprovação.

– Discordo e discordarei de tudo quanto puder dar ao governo o direito de repressão; na minha idéia não há ofensa das leis del-Rei nosso senhor, e na tua há: ninguém, sem delinqüir, acouta ou protege contra a ação da autoridade o homem criminoso ou não que a autoridade se empenha em prender.

– Eu não falei em proteção a criminosos.

– Embora: falaste em vítimas injustamente perseguidas, em infelizes marcados pela vingança e pelos ódios pessoais dos recrutadores; mas nem para salvar essas vítimas nos é lícito ultrajar as leis, maquinando contra a ação da autoridade.

– Ora esta!... então se um desses desgraçados te batesse à porta esta noite, fugindo a uma patrulha de soldados, tu lhe negarias entrada e asilo?...

– Ainda mesmo a réus de certos crimes eu não o negaria; mas ao romper do dia de amanhã, depois de fazer almoçar regaladamente o hóspede, dar-lhe-ia uma bolsa cheia de ouro, e dir-lhe-ia: o dever da hospedagem está cumprido por mim; agora salve-se, como puder.

– Para um homem generoso é pouco.

– Eu sou ainda mais respeitador do governo do que homem generoso.

– Jerônimo! – Que é? – E as pistolas que guardas naquele armário?...

Vingança de honra ultrajada; mas crime na própria consciência do criminoso, se eu precisar vingar-me.

– És um parlapatão.

– Por quê?...

– Porque acoutarias durante um mês, um ano, dez anos o infeliz injustamente perseguido pela autoridade que bradasse à tua porta: “protegei-me!” – Faria o que disse há pouco.

– Farias o que acabaste de ouvir-me.

– Não! – Sim! – Não! – Aposto.

– Só se és tu que vens pedir-me asilo.

27 Abrigo. Asilo.

– Isso é medo de apostar.

– Aposto o que quiseres.

– A época é tal, que bem pode dar-se a hipótese em qualquer dia: marco o prazo de vinte dias, porque exatamente acaba na noite da serração da velha.

– Como te parecer.

– Se até lá ninguém te vier pedir guarida, paciência, não me darei por convencido; mas perco a aposta, e virei jantar contigo em quatro domingos consecutivos; mas se eu ganhar a aposta em qualquer dia desse prazo, tu irás com a comadre e as meninas assistir da minha casa à passagem da serração da velha e em seguida cear comigo; hein? – Entendo: juraste comer o meu peixe da quaresma em quatro domingos. Está feita a aposta.

– Vamos finalmente ao gamão.

– É verdade... é agora que sinto o tabuleiro nas pernas.

Os dois amigos sorveram suas pitadas de tabaco amostrinha28, e lançaram os dados: coube jogar primeiro a Antônio, que sacudindo os dados no copo, ia atirá-los no tabuleiro, quando se suspendeu, ouvindo bater palmas e uma voz argentina e trêmula dizer: – Deus esteja nesta casa.

– Amém, respondeu Jerônimo, levantando-se.

– Quer me parecer que hoje não jogamos o gamão, observou Antônio...

XVI

Jerônimo foi até à porta da entrada que se abria para um pequeno

terraço com duas escadas laterais.

– Pode subir e entrar.

Saiu de uma cadeirinha de aluguel uma mulher de mantilha, que subiu a escada do terraço e entrou na sala. Era uma mulher alta que pelo vulto indicava ser magra e sem dúvida tinha alvo rosto, pois que branca e fina foi a mão que mostrou fora da mantilha, entregando uma carta a Jerônimo.

– Queira sentar-se, tornou este, oferecendo-lhe uma cadeira.

A mulher sentou-se, Jerônimo abriu a carta e à medida que a foi lendo, seu rosto corou fortemente, as mãos tremeram-lhe e o fogo da ira brilhou em seus olhos.

Acabando de ler a carta, dobrou-a e pô-la no bolso, e enquanto a mulher de mantilha, tendo a cabeça tão caída que a ponta do queixo tocavalhe no peito, parecia esperar importante decisão, o nobre velho levantou-se

28 Rapé.

e agitado passeou ao longo da sala durante alguns minutos; enfim, como se

tomasse uma resolução, mandou chamar sua esposa.

A senhora Inês entrou, e fez de longe um leve cumprimento à mulher de mantilha que se levantou para saudá-la.

– Inês, preciso ler-te esta carta, vem cá.

E levou a mulher para a janela mais afastada em cujo vão desapareceram ambos defendidos pelas grossas paredes de pedra da antiga edificação das casas grandes.

Jerônimo leu em voz baixa a carta que recebera à sua esposa e logo em seguida perguntou: – Que pensas?...

– Eu não sei: o melhor de todos os conselhos é aquele que quiseres seguir.

– Eu, porém, quero ouvir-te: acho-me em luta comigo mesmo; hesito.

– Por quê? – O meu desejo era servir, e o meu dever é não servir ao que me pedem.

– Nunca desejaste o mal, e o dever nunca é ofendido pelo verdadeiro bem; Deus me perdoe, se erro.

– Explicar-me-ei melhor: eu desejo e não devo asilar em minha casa esta vítima de infame perseguição.

– Se há vítima de infame perseguição, deves dar-lhe asilo e defendêla.

– É contra as leis del-Rei nosso senhor.

– É conforme as leis de Deus senhor dos reis, da terra.

Jerônimo estava no caso daqueles que, almejando ser convencidos para desculpar-se ante a própria consciência, cedem às primeiras razões que lhe apresentam; felizmente para ele a primeira razão que a senhora Inês esta carta lhe apresentou, vinha cheia de unção religiosa.

– Inês, disse ele, tu refletes bem.

– Eu não reflito, Jerônimo; digo o que aprendi, graças a Deus.

– Mas além deste embaraço há outro muito mais sério.

– Qual? – Ouviste, atendeste bem à carta que li? – Sim.

– As relações diárias, constantes, de nossas filhas com a tal mulher de mantilha assustam-me...

– Desejas deveras prestar-lhe asilo?...

– Confesso que desejava... tenho meus motivos.

– Deus abençoará a obra de caridade.

– Mas as meninas?...

– O gabinete contíguo ao do oratório não tem comunicação com o resto da casa.

– E de dia? – Sabes que acordo sempre mais cedo e me deito sempre mais tarde

do que nossas filhas.

– Qualquer descuido facilitará liberdades que não admito.

– Jerônimo, queres saber? Creio que Deus nosso senhor quis pôr em provas os nossos corações: em nome de Deus façamos esta obra de misericórdia. Eu respondo pelas meninas.

– Tu respondes por elas, Inês?...

A virtuosa senhora, ouvindo a pergunta do marido feita à mãe de Irene e Inês, sorriu-se e disse: – Sou mãe, meu amigo; as mães vêem mais e adivinham antes dos pais tudo quanto se refere aos filhos; sou mãe que vê mais e que adivinha antes de ti o que mais tarde me escondes para poupar-me cuidados.

Jerônimo ficou um pouco confuso.

– Respondo pelas meninas, repetiu a piedosa e digna senhora; e vou mandar preparar o gabinete.

A senhora Inês retirou-se, e Jerônimo, levantando a cabeça e cravando os olhos no céu, disse em voz alta sumida, mas lançada no coração.

– Santíssima Virgem Mãe de Deus! Esta obra de misericórdia que vou fazer recaia toda por vossa poderosa intercessão em proveito da minha inocente Inês, em favor e defesa de cuja virtude e castidade peço e reclamo a proteção divina.

E tendo-se persignado, Jerônimo deixou a janela, foi a sua secretária, escreveu brevíssima carta que fechou e selou, dirigindo-se à mulher de mantilha: – A senhora fica conosco, disse-lhe; despache a cadeirinha29, e dê esta carta ao escravo que a acompanhou desde o lugar donde veio para a cidade.

A mulher de mantilha levantou-se, avançou um passo para o velho, beijou-lhe com ardor a mão, que lhe dava a carta e foi despachar a cadeirinha e o criado.

Jerônimo ficou por momentos a sós com Antônio, e olhando para ele corou, e sorriu-se.

Desde a leitura da carta trazida pela mulher de mantilha, Jerônimo tinha esquecido completamente a presença de Antônio e a singular aposta que fizera; mas ao olhá-lo, de súbito lembrou-se da conversação que tivera, dos princípios de obediência severa que sustentara e do imediato desmentido que dava contraditório àqueles mesmos princípios: corou por orgulho, sorriu-se por amizade.

A mulher de mantilha voltou antes que os dois velhos amigos

29 Palanquim. Andor. Assento individual com encosto e cobertura, geralmente fechado, montado sobre dois longos varais paralelos, na frente e atrás, conduzidos por dois carregadores humanos.

tivessem trocado palavras; logo depois a senhora Inês tornou à sala, e veio tomar conta da asilada a quem convidou para segui-la ao aposento que lhe

destinava.

Quando ambas iam sair, Jerônimo disse à mulher de mantilha, mostrando-lhe Antônio: – Minha lealdade deve-lhe uma prevenção: este velho é o meu primeiro amigo; com ele não tenho reservas possíveis; o nosso segredo será também dele, que em minha falta lhe servirá de protetor ainda melhor.

A mulher de mantilha aproximou-se de Antônio, e tomando-lhe a mão, beijou-a, como tinha beijado a mão de Jerônimo.

A senhora Inês levou consigo a mulher de mantilha.

Jerônimo voltou-se então para Antônio, e deu-lhe a carta que havia recebido, e que este sem hesitação tomou e leu para si de princípio a fim.

– Bem te dizia eu! disse Antônio, restituindo a carta.

– Sim; mas, tu o vês, era impossível que eu resistisse! Quem me escreve é um amigo, um dos meus melhores fregueses, estabelecido na vila opulenta de Santo Antônio de Sá; tudo isso é o menos; nota porém: um pobre casal tem uma bela e honestíssima filha, e um filho rico de inteligência, que ali nas aulas dos frades franciscanos, que o estimam e dele se apoderam, faz prodígios e tem o infortúnio de superar, de tornar invisível o rude bronco filho mais novo do capitão-mor do distrito, que por isso o aborrece ainda pior: o filho mais velho do capitão-mor tenta seduzir a bela filha do pobre casal e repelido por ela chega a ameaçar os pais; essa menina, Antônio, chama-se Inês, tem o mesmo nome de minha filha, quase a mesma desdita da tua afilhada, a diferença única é que eu sou rico, e que a outra Inês é filha de pais pobres; perseguição infame! Ao menino mais talentoso do que o estúpido filho do capitão-mor, ao filho único e esperançoso de mísera família marca-se e procura-se para soldado recrutado, e à linda donzela desvalida e sem fortuna atropela-se, armam-se ciladas, e maquinam-se violências para os gozos impuros do filho mais velho do senhor capitão-mor!... Esta donzela também se chama Inês, Antônio! Que coincidência nos tormentos que sofro!...

– Ainda bem que veio ao caso a coincidência.

– Dize, pois, que podia, que me cumpria fazer?... Das duas vítimas de atroz perseguição, uma me chega recomendada por bom amigo, por homem honrado e incapaz de mentir; que deveria eu fazer? dize-o pelo amor de Deus! – Devias fazer o que fizeste, Jerônimo.

– Portanto eu errava ainda há pouco, quando conversava contigo; não há princípios absolutos na vida humana. A minha vaidade foi castigada: no mesmo dia, na mesma hora fiz o contrário do que assegurava e jurava fazer!...

Antônio começou a rir.

– Guloso, exclamou Jerônimo; não me comerás o peixe de quaresma em quatro domingos, sou eu, minha mulher, as meninas e esta misteriosa senhora de mantilha que havemos de devorar a tua ceia na noite da serração

da velha.

– Confessas que perdeste a aposta? – Claro: apronta-nos boa ceia.

– Fica a meu cuidado; agora experimentemos, se é possível que hoje nos deixem jogar o gamão.

Os dois velhos amigos tomaram de novo o tabuleiro do gamão e ordenaram as pedras que se tinham desarranjado.

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