Irene e Inês, ou, como o povo as chamava, os dois lírios, tomaram ao pé da letra a ordem de Antônio Pires, e a tolerante concessão de Jerônimo, e mandaram comprar com as cautelas que o padrinho de Inês aconselhara
algumas dúzias de limões-de-cheiro.Enquanto não chegam os compradores de limões-de-cheiro que as meninas despacharam, matarei o tempo, conversando sobre o entrudo.
Há cerca de vinte anos que a máscara matou a seringa, que o passeio e o baile carnavalesco da nova civilização aniquilaram o entrudo dos costumes rudes trazidos dos séculos passados. A geração moderna ainda hoje ouve descrições completas desse folguedo, loucura festiva de três dias; daqui mais a vinte anos ninguém se lembrará do entrudo, e poucos compreenderão o que era entrudo.
O entrudo era durante os três dias que se chamam do carnaval o jogo delirante de todas as idades, desde o menino até o velho, de ambos os sexos, e de todas as classes da sociedade, de todas, porque também os escravos jogavam entre si.
O jogo consistia essencialmente em molharem-se uns aos outros; o exaltamento e o frenesi dos jogadores, uma vez travado o combate, não se limitavam a água e com outros meios enxovalhavam, como podiam, naturalmente havia no jogo práticas delicadas, práticas rudes e práticas selvagens.
A prática delicada adotava o limão de cera cheio de águas perfumadas, e tolerava a seringa esguichando águas da mesma natureza; a prática rude ostentava-se no banho de corpo inteiro dado à força em grandes gamelões ou banheiras de pau, e na aplicação do polvilho ao rosto; a prática selvagem apelava para todas as tintas, e até nos jantares para o arrojo de caldos gordurosos e com especialidade de – arroz-de-leite – ao rosto e ao corpo dos jogadores.
Molhar sem ser molhado era para alguns ponto de vaidade, que em geral se reputava de mau gosto, quando se jogava o entrudo com senhoras.
Quem não queria jogar o entrudo, trancava as portas e janelas de sua
casa, e não saía à rua durante três dias.As laranjinhas ou limões-de-cheiro jogavam-se de perto e de longe: de perto nas ruas entre os que se encontravam, e no interior das habitações, onde se reuniam famílias para brincar, o que era muito comum; de longe das ruas para as janelas dos sobrados, como combate entre a força que atacava a praça e esta que se defendia, ou de sobrado contra sobrado, casa térrea contra casa térrea, como fortalezas a bombardear-se. Muitas vezes grupos de jogadores invadiam as casas, como assaltantes que escalavam muralhas de fortes, e então a alegre e ruidosa peleja começava na escada, estendia-se pelos corredores, e inundava as salas.
Nas ruas e praças a multidão estrepitosa tresloucava sem medida; os gritos e as gargalhadas, às vezes injúrias e violências, outras vezes passageiras desordens tumultuavam sem perigo a cidade; homens e mulheres de educação desmazelada, ou de costumes livres, com os vestidos alagados grudando-se ao corpo, e desenhando perfeitamente as formas, com as caras pintadas de vermelho e negro, com as roupas rotas, os pés nus, corriam, fugindo ou perseguindo, molhando, enxovalhando, pintando, e besuntando conhecidos e desconhecidos, e de hora em hora procurando as tavernas, por gosto muitos, por necessidade todos para beber aguardente e molhar com ela os corpos resfriados.
No interior das casas pobres e ricas, onde se ajuntavam família amigas, o entrudo não era brutal; era porém igualmente arrebatado e delirante: jurava-se três vezes, quatro e mais no fim de cada acesso do jogo febricitante, adiá-lo por algumas horas aprazadas; senhoras e homens mudavam de vestidos, tinham-se trancado à chave os tabuleiros das laranjinha cheirosas; mas de súbito um limão-de-cheiro voava no espaço e ia quebrar-se contra alguém, lá se ia o juramento, e recomeçava a batalha, que só à noite e tarde terminava.
Como nos atuais festejos carnavalescos, o entrudo era animado no domingo, fraco na segunda-feira, desenfreado e frenético na terça-feira.
O entrudo era mil vezes mais contagioso que a máscara, porque era ilimitadamente provocador; sobravam os casos em que os velhos mais austeros e severos, as donzelas mais mimosas e as mais acanhadas, aborrecendo o entrudo, desde que, a despeito de suas pragas e de seus protestos se viam molhados, perdiam as cabeças, e se tornavam furiosos jogadores do jogo d’água.
Sem contestação havia muitos que abusavam da grande liberdade autorizada pelos costumes do entrudo; é positivo que nesse jogo desordenado, nessa reunião de tantos homens e senhoras que se apertavam em lutas o pudor destas nem sempre escapava a atrevimentos que se perdoavam ou não. O menor desses abusos ainda era um abuso pela intenção; o anelo e ardente de um namorado, anelo que com freqüência se realizava, sendo compreendido e tolerado à custa do rubor do pejo que assomava às faces da mulher amada, era quebrar com a mão um limão-decheiro suavíssimo sobre a parte superior e não velada do peito querido, de modo que a água odorífera lhe fosse banhar os cândidos seios.
Não é possível negá-lo: os folguedos do nosso carnaval não são menos perigosos do que o antigo entrudo, no que diz respeito à saúde dos que neles tomam parte; mas em relação à moral a sociedade moralizada ficou menos exposta. O nosso carnaval também facilita mil abusos, mas em regra as vítimas desses abusos não têm muito que perder com eles, e, o que é mais, teve a fortuna de menos áspero, muito mais aparatoso, e dobradamente aprazível substituir um jogo rude, material e desenvolto.
Havia muitos ou pelo menos alguns que não jogavam, nem permitiam que em suas casas se jogasse o entrudo, e isso por princípios de moral e de higiene.
Jerônimo Lírio era um desses: suas filhas tinham visto o entrudo sempre de longe, e a fingida cegueira dos pais tolerava apenas que elas fizessem uma dúzia de laranjinhas para molhar uma a outra. Em 1766 a intervenção protetora do padrinho de Inês autorizara a compra de duas caixas de limões-de-cheiro, o mais ostensivo brinquedo.
Os portadores das duas meninas chegaram enfim.
Os dois lírios penderam suavemente para as caixas de laranjinhas que
acabavam de abrir.Brilhavam nos olhos a flama, e nos lábios o sorriso da alegria de Irene e Inês.
Eram limões-de-cheiro brancos, verdes, rubros, amarelos, de todas as cores e nuanças possíveis...
– Tão bonitos, diz Irene; que faremos deles?...
Inês fez um momo e respondeu: – Tu me molharás e eu te molharei... eis aí tudo.
A nobre mãe das duas meninas tinha parado junto delas e as contemplava e ouvia risonha.
Irene tornou: – Se pudéssemos molhar mais alguém...
– Nhanhã, disse Inês, meu padrinho me deu licença para molhar a todos. E se não fosse meu pai, eu era capaz...
– De quê?...
– De molhar, de quebrar limões em meu padrinho que deu licença para isso...
A senhora Inês não se pôde vencer, riu-se da idéia da filha e de modo que as meninas se voltaram para ela.
– Mamãe ouviu?
– Ouvi, sim.– E que diz? – Vão molhar o compadre: cada uma leve dois limões, cheguem-se a ele sem mostrar os limões, e não tenham medo.
– E meu pai?... perguntou Irene, enquanto Inês se armava, não com dois, mas com quatro limões em suas mãos pequeninas.
As duas meninas animadas pela mãe, palpitantes de emoção, dirigiram-se à sala, escondendo, como puderam, os limões-de-cheiro que levavam, e se aproximaram de Antônio.
Era exatamente no momento em que, armadas as pedras, os dois amigos lançavam os dados.
– Vou dar-te um gamão cantado! exclamara o padrinho de Inês.
Mas de súbito soltou um grito: as meninas tinham-lhe quebrado os limões-de-cheiro no peito.
Em vez de ralhar Jerônimo desatou a rir.
– Ah, brejeirinhas! exclamou Antônio, levantando-se e largando o tabuleiro do gamão nos joelhos do parceiro.
E correndo a um moringue d’água, que vira sobre a mesa, tomou-o, mas em vez de vingar-se das meninas, foi despejá-lo na cabeça de Jerônimo que ainda se ria.
Jerônimo deixou cair o tabuleiro do gamão, e levantando-se para o interior da casa, voltou com um prato d’água que atirou sobre Antônio.
As meninas tornaram com outros limões e também a senhora Inês que os quebrou no marido e no compadre; vendedores de limões-de-cheiro da casa onde os portadores de Irene e Inês os tinham ido comprar, prevendo o costumado fervor que sucedia sempre ao começo do jogo, apareceram no terreiro, trazendo tabuleiros disfarçados em caixas fechadas; Antônio e Jerônimo compraram todos estes, e a luta se tornou mais vigorosa e animada com a abundância e igualdade das armas, embora houvesse desproporção entre os combatentes; porque toda a família Lírio acabava de fazer colisão contra Antônio.
De repente e ao grande ruído que se fazia, apareceu correndo agitada e temerosa a mulher de mantilha, já porém sem mantilha, e deixando ver em si uma bela moça vestida com simplicidade.
A chegada imprevista da jovem fez hesitar por instantes os com batentes; as duas meninas ficaram surpreendidas; Jerônimo contrariado; mas a senhora Inês pronunciava-lhe breves palavras ao ouvido, quando também Antônio exclamava à bela moça: – São quatro contra um! Venha em meu socorro, menina!...
A moça confusa e trêmula não ousava avançar um passo; Jerônimo porém que ouvira o bom conselho, provocou-a, arrojando-lhe limões, no que foi imitado pela mulher e pelas filhas; então ela, risonha e com vivacidade pronta, voou para o lado de Antônio, e tomou parte na ação, excedendo a todos na viveza do ataque e na certeza das pontarias.
No fim de uma hora de amigas provocações, risadas, gritos e alegria, que novos tabuleiros de limões, acudindo à mina explorada, alimentaram, o combate cessou por falta de munições e pela fadiga dos combatentes que todos se acharam molhados da cabeça aos pés, assim como estava sala toda inundada.
Jerônimo atirou-se em uma cadeira, dizendo: – Eis aí o que fizeram aquelas duas doidinhas impelidas por um velho criança! – Cala-te aí, rabugento! Comadre, mande-nos vir aguardente e Parati, disse Antônio.
– E basta de entrudo, ouviram? tornou o outro, falando a Irene e Inês; vão mudar de roupa. Quanto à senhora... à senhora... esqueceu-me o seu nome...
A moça respondeu, abaixando os olhos: – Isidora.
– Peço-lhe perdão, menina Isidora; pois fui o primeiro a desafiá-la a este jogo maldito; ande, vá mudar de vestidos e tranqüilize-se que ninguém mais se lembrará de entrudo nesta casa.
A senhora Inês e suas filhas entraram para o interior da casa, e Isidora recolheu-se ao gabinete que lhe haviam destinado.
Cada um dos dois velhos bebeu um cálix30 de aguardente e foram ambos tomar outras roupas, ao mesmo tempo que alguns escravos varriam e enxugavam a sala.
Meia hora depois aqueles bons amigos achavam-se de novo em frente um do outro, rindo-se das inocentes proezas que acabavam de fazer tão contra os seus hábitos e disposições, e como um pouco envergonhados ambos, não disseram palavra sobre o entrudo.
– Jerônimo, disse Antônio: estou com vontade de ensaiar uma experiência...
– Qual? – Quisera ver, se ainda haveria hoje pessoa ou fato que nos impedisse de jogar o gamão...
– Pois experimentemos.
E, tomando o tabuleiro, sentaram-se e armaram as pedras; mas imediatamente a senhora Inês entrou na sala, e disse: – Compadre, o nosso feijão está na mesa.
E foi à porta do gabinete chamar Isidora.
– Antônio, observou Jerônimo, sopa fria não presta.
– Hás de ver que nem à tarde conseguiremos jogar o gamão,
30 Cálice.
respondeu Antônio, deixando o tabuleiro sobre as duas cadeiras.
Eram seis pessoas à mesa de um excelente e variado jantar de família rica em dia de festa; sólido jantar da cozinha portuguesa de mistura com os guisados especiais da cozinha brasileira: suculenta sopa, o monumental cozido de vaca com seus numerosos acessórios, o peru recheado, o leitão assado, o magnífico presunto, o arroz de forno, as galinhas assadas e de molho pardo, e, além do mais, o lombo fresco e as costeletas de porco, o carneiro assado, o peixe de forno, o negro feijão, e dez pratos ardentes de pimenta, enfeitiçadores do paladar e do olfato, e de ordinário mais ou menos
nocivos à saúde.Para sobremesa, doces secos e de calda, variadíssimos, e superiores em número e perfeição a quanto nesse gênero ostentavam e ostentam os banquetes europeus; nos vinhos exclusivismo nacional, os do reino e nenhum outro.
Eram seis pessoas em um jantar que chegaria para sessenta: ainda hoje nos dias solenes, em que se recebem algum, ou alguns amigos de família, se observa essa prática, especialmente nas casas ricas do interior do Brasil, onde o banquete apenas tocado pelos convivas, passa aos escravos do serviço doméstico e aos pajens dos hóspedes.
Eram seis pessoas a jantar, Jerônimo à cabeceira da mesa, a seu lado direito Isidora e depois Antônio e a senhora Inês; ao seu lado esquerdo Irene, e em seguida Inês, ou a sinhazinha, defronte do padrinho. Esta disposição indicava a exclusão sistemática de toda e qualquer contigüidade das filhas com os hóspedes. A regra não se estenderia com Antônio que se sentaria onde lhe aprouvesse, e mesmo entre as duas meninas, a quem tratava como pai; mas foi observada com rigor explicável pela presença de Isidora, que devia aprender desde logo as leis, os costumes da casa, que aliás eram gerais na colônia.
Irene e Inês, os dois lírios, comiam pouco, tocavam nos pratos, como passarinhos em frutas, ao contrário de Isidora que mostrava o melhor apetite, e mais desocupadas que os outros à mesa, observavam a bela hóspede a quem não conheciam, nem sabiam quem era; se fora um mancebo, não ousariam levantar para ele os olhos, sendo porém do seu sexo, e moça como elas, ousavam do inocente direito de estudar-lhe as feições, os modos e os vestidos.
Isidora era uma moça alta, esbelta, porém não bem feita de corpo; tinha o peito demasiadamente largo, e a cintura pouco delicada; mas em compensação sua cabeça era magnífica: seus cabelos castanho-claros, finos e crespos, perdiam-se escondidos em uma touca de mau gosto; tinha a fronte branca, alta e espaçosa, os supercílios bastos sem exageração e separados, os olhos grandes, claros e brilhantes; o nariz de proporcional feição, as faces coradas, os lábios quase grossos, levemente curvos, o superior com finíssimo e franco buço cor de cinza clara, e ambos formando pequena e graciosa boca ornada de dentes iguais e lindíssimos; a ponta de seu queixo terminava com suavidade o belo oval do rosto; seu pescoço era mais grosso que fino, e suas mãos brancas, pequenas e bonitas, como deviam ser seus pés.
Em seu proceder e em seus modos Isidora dava testemunho de educação doméstica desvelada, mas comprometida pelo mais confuso acanhamento de moça, apenas chegada da roça; em seu trajar mais infeliz ainda, além da touca severa e funestíssima para sua natural beleza, vestia-se com aquela exagerada e sinistra simplicidade que amesquinha as graças, e torna o corpo como um cabide do vestido.
Em uma palavra, Isidora era bela, mas desajeitada; brilhante bruto apanhado no leito da corrente do deserto, precisava que a moda, lapidandoo, fizesse ostentar o seu elevado e natural valor.
Isidora era uma linda roceira com todas as confusões, acanhamento e rudezas das solidões em que vivera, e que na vida da cidade receberia o lavor, que havia de torná-la esplêndida beleza.
Foi este pelo menos o juízo que sem inveja e com espontaneidade inocente e conscienciosa fizeram sobre ela Irene e Inês.
É provável que Isidora desejasse também e muito apreciar os encantos físicos e não menos os enfeites das duas meninas da cidade; mas a pobre roceira sem dúvida por vexame apenas de relance e a furto olhara algumas vezes para elas: era em verdade moça excessivamente acanhada; tinha os olhos quase sempre fitos, pregados, ou no colo ou no prato, e se lhe faziam alguma pergunta, respondia com discrição, mas com voz trêmula e sem olhar para o interlocutor; só em um ponto não sabia acanhar-se; comia como Antônio Pires ou Jerônimo Lírio, que eram bons gastrônomos; não bebia porém vinho, e unicamente pelo dever de saudar a companhia, fazendo sucessivamente a saúde de cada um dos convivas, como era de uso, tocara com os lábios em um cálice de vinho.
Jerônimo e a senhora Inês ocupavam-se particularmente da sua hóspede, porém com certo constrangimento mal dissimulado, ou com inexplicáveis reservas, que todavia não incomodavam Isidora.
Antônio no intervalo de cada prato entendia com as meninas e atirava ora a uma, ora a outra pequenas bolas de miolo de pão.
O jantar prolongou-se um pouco; porque os dois velhos amigos que desde algum tempo tinham por companheira única a gulosa Isidora, acabaram por deixá-la fora de combate, e continuaram muito plácida e pausadamente a atacar todos os pratos, amenizando o gozo gastronômico com histórias e recordações da sua mocidade.
Enfim resolveram-se os dois velhos a passar à sobremesa, e Jerônimo, vendo retirarem-se os pratos do jantar, voltou-se para a mulher, e disse: – Ah, Inês! eu já não sei comer, como dantes! – É a velhice que até do apetite nos vai privando, observou Antônio.
E carregaram ambos sobre as duas colunas de compoteiras e pratos de doces que se enfileiravam na mesa; mas nesse ataque Isidora fez-lhes boa companhia até o fim.
Jerônimo deu o sinal de termo do jantar: levantaram-se todos e em pé renderam graças a Deus e persignaram-se.
Imediatamente depois Jerônimo e Antônio foram dormir a sesta, e Isidora retirou-se para o seu gabinete.
Dormir a sesta era costume português muito mais generalizado no clima ardente do Brasil; mas Jerônimo e Antônio não abusavam da sesta, e a limitavam a uma hora de descanso.
O primeiro que se levantou do leito foi Jerônimo, que indo á porta do quarto onde dormia o amigo, gritou-lhe: – Acorda, velho preguiçoso! Vem jogar o gamão.
Antônio acudiu ao chamado.
– Deixar-nos-ão jogar? perguntou.
– Estás maníaco, Antônio?...
– É a quarta ou quinta vez que hoje inutilmente tomamos o tabuleiro.
E dessa vez nem chegaram a toma-lo; porque ouviram o tinir da espada de um soldado de cavalaria que subia a escada de pedra do terraço.
– Então? disse Antônio.
Jerônimo não respondeu e chegou à porta, onde recebeu da mão do soldado uma carta com caráter oficial.
A carta estava assinada por Alexandre Cardoso de Meneses com a designação de – ajudante-de-sala do senhor vice-rei e dizia assim: “Senhor Jerônimo Lírio. Hoje depois do conhecimento dos insolentes, criminosos e públicos desacatos e injúrias à pessoa e autoridade do senhor vice-rei, fixaram-se editais, proibindo absolutamente o jogo do entrudo sob penas que se marcaram; mas agora mesmo o senhor vice-rei acaba de saber com dolorosa surpresa e vivo e justo ressentimento que em ti vossa casa da Gamboa se ostentou escandaloso jogo de entrudo com ofensa de suas terminantes ordens, e audaciosa provocação aos castigos impostos a semelhante crime de formal e manifesta desobediência; ordenava a justiça severa que fôsseis imediatamente preso e sujeito a duro castigo, como todos quantos em vossa casa concorreram convenientemente naquele crime; lembrando-se porém dos serviços que haveis prestado, ordena-vos o senhor vice-rei que amanhã ao meio-dia compareçais na minha sala para dar-me explicações do vosso procedimento revoltado e de péssimo exemplo, a fim de que, ouvidas vossas desculpas, se as tendes, delibere depois o senhor vice-rei sobre a vossa muito grave responsabilidade do crime de semelhante desobediência nas circunstâncias melindrosas em que se acha a capital da colônia.” Seguia-se a data e a assinatura.
Mas dentro da carta e em uma tira de papel de marca diferente liamse em letra disfarçada as seguintes palavras: “O oficial-de-sala obedeceu; porém o amigo que hoje não pôde conseguir mais, assevera que amanhã conseguirá tudo; venha sem falta falar lhe amanhã ao meio-dia; pois que é isso formalidade indispensável; o amigo lhe garante plena segurança e a todos os seus.” Rubro e trêmulo de cólera, Jerônimo, contendo-se por dignidade darlhe cor própria, disse ao soldado: – Está entregue: beba um copo de vinho e retire-se.
À ordem de seu senhor um escravo trouxe um grande copo de vinho do Porto ao soldado que o bebeu todo, e voltou para a cidade a galope do seu cavalo.
– Que é isso, Jerônimo? perguntou Antônio.
– Toma e lê.
Enquanto Antônio lia, Jerônimo refletia.
– Jerônimo, disse Antônio, entregando ao amigo a carta e o bilhete; isto é um atentado incrível! Os sacrários de nossas casas não são tascas sujeitas à fiscalização imoral de sacrílegos; as tuas e as minhas pistolas não bastam: quando a autoridade ataca as casas, é direito e dever de todos defendê-las com trabucos.
Jerônimo riu-se com um rir horrível.
– Que rir é esse? – Olha, Antônio; eu nunca fui citado em minha vida, e isto é citação, a que só faltou a vergonha do meirinho à porta!...
– É assim! – Eu nunca fui injuriado por alguém, e nesta carta há insultos, há injúrias que eu não hei de perdoar.
– Nem eu.
– Há até ameaça de perseguição a minha mulher, a minhas filhas, e a ti!.
Antônio quis falar, e rugiu, gaguejando uma praga.
– E ainda há insulto maior do que todos os que contém esta carta infernal... há este bilhete, e neste bilhete a extrema afronta... há nela a intenção de seduzir o pai para em seguida e por conta da gratidão seduzir a filha!.
– Dá-me outra vez o bilhete.
Jerônimo entregou-o a Antônio, que o leu de novo, e disse com voz rouca:
– Tens razão; há.– Pois bem: quero vingar-me.
– Conta comigo.
– Sim; mas por ora te conservarás de parte.
– Eu o exijo.
– Conforme, que vais fazer?.
– Obedecer.
– Jerônimo! – Farei o que devo: o vice-rei me ordena que me apresente a dar-lhe contas de mim, irei; mas dormir com a suspeita de um crime me é impossível; amanhã ao meio-dia é muito tarde para a minha honra: hei de ir hoje, hei de ir já; não quero desculpar-me ao oficial-de-sala, quero queixarme do vice-rei ao vice-rei.
– E eu? – Ficarás aqui, velando por minha família; se eu não voltar, é que me mandaram pôr a ferros; porque vou falar português claro, português do bom tempo dos nossos avós, português leal, nobre e sem medo.
– E se não voltares? – Procederás como te aconselhar a honra e a amizade combinadas com a prudência.
– Vai, Jerônimo.
– Antônio, tu não deixarás minha mulher e minhas filhas!...
– Vai; eu ficarei aqui; mas se te puserem a ferros, o que é possível, também tenho o meu plano.
– Qual é? – Custe o dinheiro que custar, tua mulher e tuas filhas terão asilo seguro no convento d’Ajuda.
– E tu?...
– Depois de havê-las posto em segurança, farei com que me ponham também a ferros.
– Antônio! – Vai, Jerônimo.
Esses dois homens se conheciam: cada qual mais honrado e mais teimoso, sabiam ambos que era inútil toda disputa para mudar a resolução tomada por um deles; entendiam-se bem: eram amigos desde o tempo da pobreza: tinham-se relacionado sobre o mar, vindo ambos para o Brasil no mesmo barco, em cuja tolda31 haviam dormido juntos ao relento; tinham jurado amizade e proteção um ao outro, e com o trabalho e a economia enriquecido quase ao mesmo tempo, e em firme e constante estima
31 Cobertura de palha ou madeira para abrigar carga ou passageiros nas embarcações.
recíproca. Eram amigos como dois irmãos amigos; as filhas de Jerônimo podiam contar com um segundo pai em Antônio, e tanto mais que este sempre decidido e pertinaz celibatário por exagerado espírito de perfeita
independência individual, não tinha família que lhe ocupasse o coração.Jerônimo tinha chamado um escravo e mandado selar um cavalo para si e aprontar dois pajens, e tendo combinado com Antônio uma explicação que servisse para poupar cuidados à mulher e às filhas que bem poderiam alvoroçar-se, sabendo o verdadeiro motivo da sua ida à cidade, despediu-se da família, e partiu às sete horas da noite.
A senhora Inês não se iludiu; mas conteve-se por amor das filhas; não dirigiu pergunta alguma a Antônio; tomando porém por pretexto a possibilidade de encontros sinistros à noite no caminho da Gamboa, abriu o oratório, fez acender as velas e às nove horas da noite foi rezar com Irene e Inês, sendo nesse piedoso ato acompanhada pelo velho compadre.
As duas meninas repetiam as orações ditadas por sua mãe, e embora o fizessem com a maior atenção e fé, sentiam-se como que receosas de algum mal iminente; porque para elas era extraordinária aquela oração a horas, em que de costume já se achavam recolhidas.
Ficou dito que o gabinete, onde estava o oratório, era contíguo ao que fora destinado a Isidora, a qual, ouvindo a oração da família hospitaleira, foi de manso e sem que a percebessem, ajoelhar-se também, mas um pouco afastada das três senhoras e de Antônio, e rezou em voz baixa e sumida.
No meio da ladainha de Nossa Senhora a fadiga e a comoção tolheram a voz à senhora Inês que a entoava; houve uma pausa de cruel ansiedade para esta que se empenhava em ocultar sua aflição; logo porém uma voz de suavíssimo e firme contralto se desprendeu, continuando a entoar a ladainha, e terminada esta, prosseguiu, dirigindo as orações.
– Rezemos um credo, disse enfim Isidora, pela vida, segurança e felicidade do chefe desta família! E rezou o credo em latim, pronunciando-o, como se fora um padre.
Quando acabava o credo, chegou Jerônimo de volta da cidade e de joelhos com a mulher, as filhas e os hóspedes, rendeu graças a Deus.
Apagadas as luzes e fechado o oratório, a senhora Inês foi apertar a mão do marido, e logo depois, procurando com os olhos Isidora, não a encontrou mais; dirigiu-se então à porta do gabinete contíguo, e sem entrar disse em voz bastante alta para ser ouvida: – Deus te abençoe! – Que é? perguntou Jerônimo.
– Um socorro oportuno e um credo que me ficaram no coração.
Irene e Inês receberam a bênção do pai e de Antônio e se retiraram seguidas pela zelosa mãe e nobre esposa que se tranqüilizara, observando a serenidade e quase a satisfação no rosto do marido.
Os dois velhos amigos ficaram sós, e velaram, conversando, até depois da meia-noite.
Alexandre Cardoso tinha errado em seus cálculos: mandando a carta e o traiçoeiro bilhete à hora vizinha da noite a Jerônimo Lírio, contava que só no dia seguinte, e no prazo oficialmente marcado, se apresentaria este para dar as explicações exigidas, e tanto mais que redigia a carta de modos
encher de terror o mais corajoso.Na segunda-feira desde as oito horas da manhã, o ajudante oficial-desala estaria no seu posto, e somente com ele Jerônimo Lírio poderia entender-se, pois que para chegar ao vice-rei era preciso passar por ele, que quando lhe convinha, sabia ser indestrutível barreira, tendo em todos os empregados da sala e da alta administração criaturas suas.
Refletindo assim, Alexandre Cardoso foi procurar esquecer-se da bela Inês, mergulhando a lembrança do seu amor ainda infeliz no Letes32 do jogo e da orgia.
Além do jogo e da orgia Alexandre Cardoso apetecera para um dos dias de entrudo o passatempo da sedução ou do rapto violento de uma bonita rapariga de cor, que tinha pretensões a viver muito honestamente apesar de ser filha de um simples carpinteiro.
Jerônimo Lírio tivera a mais feliz das inspirações.
Às oito horas da noite, apresentou-se a pé e só na antiga casa dos governadores, onde estava o vice-rei; a guarda disputou-lhe a entrada e ele insistiu, declarando que viera a chamado do próprio vice-rei.
Um soldado subiu a dar parte ao conde da Cunha do que se passava, e voltou em breve, dizendo que o vice-rei não recebia pessoa alguma a tais horas.
Jerônimo Lírio teimou; rasgando uma tira de papel da carteira, escreveu seu nome, e disse que havia questão de honra, e caso de grande crime público, obrigando-o a incomodar o chefe supremo da colônia.
O soldado, depois de longo hesitar, e convencido pela eloqüência uma peça de ouro, tornou a subir, embora tremendo de medo.
Ouviu-se dai a pouco uma praga do vice-rei, e em seguida prolongado silêncio.
O conde da Cunha ouvira o anúncio de grande crime público e sopitara, lera o nome de Jerônimo Lírio, e se lembrara de que esse homem reputado um dos negociantes mais respeitáveis da praça e um dos homens honrados e venerandos da cidade do Rio de Janeiro: esse nome, a quem se abriram todas as portas, não achou fechada a do vice-rei.
32 Na mitologia grega, um dos rios do Inferno. As almas dos mortos bebiam de sua água para esquecer os males e os prazeres da vida terrena.
Jerônimo Lírio foi introduzido em uma sala particular do conde da
Cunha, que o recebeu e o ouviu de pé.A sala estava mal esclarecida por uma única luz. O conde da Cunha nos fracos raios dessa flama se mostrou a Jerônimo Lírio que avançou com passo firme, em pé, com a mão esquerda apoiada na ilharga, alto, pálido, e com a fronte severamente enrugada.
– Por que me incomoda a esta hora? perguntou.
– Porque a minha honra foi incomodada, senhor, respondeu com firmeza Jerônimo.
– A sua honra...
– Afrontada hoje por ordem do vice-rei, não pode esperar até – Não o entendo.., anunciava-se um crime público...
– É o meu: o vice-rei me declarou atroz criminoso; vim pedir o meu castigo...
– O vice-rei sou eu; que está dizendo? – Joguei hoje o entrudo com minha mulher, minhas filhas e dois hóspedes no interior da minha casa na chácara que possuo na Gamboa.
– Que tenho eu com isso? Mandei proibir o entrudo: é claro que o proibi nas ruas; que me importam as loucuras ou os folguedos do interior da sua casa? Jerônimo Lírio entregou a carta que havia recebido ao Conde da Cunha que, chegando-se à luz, leu com enregelada aparência de serenidade as ordens e as ameaças passadas em seu nome, – Exageração de zelo muito louvável, disse ele, restituindo a carta.
– Vinha dentro este bilhete, tornou Jerônimo, entregando a pequena tira de papel.
O vice-rei leu dez vezes o bilhete, examinou o papel do bilhete com o passeou ao longo da saia, meditando, e vindo parar de súbito diante de Jerônimo, disse-lhe: – Explique o fato ou a intriga, como os entende.
Jerônimo estremeceu de raiva.
– Fale, ordeno-lhe que fale, tornou o vice-rei.
– Senhor vice-rei, eu fui intimado para vir explicar um fato passado em minha casa e declarado crime revoltoso; corria a confessar o fato que é absolutamente verdadeiro e a sujeitar-me a receber o castigo que mereço.
– Já não se trata disso, disse o conde da Cunha, impacientando-se, não houve crime da sua parte, houve excesso de zelo do meu ajudante oficial-de-sala... mas este bilhete?..
– Há de ser exageração de amizade do meu protetor, respondeu com ironia pungente Jerônimo Lírio.
O conde da Cunha, soberbo e irritável como era, bradou com furor: – Assim me respondeu!...
– Daquela janela, senhor, se vê a dois passos a cadeia, e lá embaixo no saguão sobram soldados para conduzir-me a ela, pois que faltei ao respeito devido ao senhor vice-rei.
– Retire-se! gritou de novo o conde da Cunha; retire-se, e agradeça ao nome honrado de que goza, a impunidade do seu atrevimento.
E voltou as costas a Jerônimo que saiu da sala não menos irritado e já descia com precipitação a escada, quando um criado veio, correndo, chamálo por ordem do vice-rei.
Não obedecer fora impossível; Jerônimo entrou de novo na sala que momentos antes deixara.
O conde da Cunha o esperava.
– Como se retirou sem pedir-me perdão? perguntou.
– Porque não tenho consciência de haver ofendido ao senhor vice-rei, e porque o senhor vice-rei me ofendeu sem razão, respondeu Jerônimo com voz firme.
– Ofendi-o? Como?...
– Expulsando-me da sua casa com grito de cólera.
O conde da Cunha não estava habituado a ouvir essas respostas francas e dignas e a ver essa atitude respeitosa, mas serena e grave, que Jerônimo mantinha diante dele; muito orgulhoso para desculpar-se, porém, impressionado pelas nobres maneiras do velho negociante português, compreendeu que a seus olhos tinha um homem e não um escravo; abrandando pois a voz alterada disse-lhe: – Lealdade e franqueza: porque veio hoje falar-me?..
– Vim hoje apresentar-me ao senhor vice-rei para não vir amanhã apresentar-me ao ajudante oficial-de-sala.
– Por vaidade talvez.
– Não sou vaidoso; mas amanhã, ainda que eu quisesse e pedisse, não conseguiria falar ao senhor vice-rei.
– Quem lho impediria? – O ajudante oficial-de-sala.
– E por que tanto se empenhava em falar-me? – Porque estava seguro de que o senhor vice-rei ignorava a ordem que me foi mandada em seu nome na carta injuriosa que recebi.
O conde da Cunha encrespou as sobrancelhas.
– Estava seguro que eu a ignorava? Pesa bem, entende bem o que e pode significar o que acaba de dizer? – Sim, senhor vice-rei.
– Diga pois, diga franco e sem reservas donde lhe vinha semelhante segurança, diga.
– É que tenho a certeza de que o senhor vice-rei ignora muitas ordens que se executam, e muitos atos que se praticam em seu nome! – Mas... então... essa minha ignorância é um desmazelo criminoso, indigno... uma prova de incapacidade.
– Não, senhor vice-rei; mas é uma cegueira fatal.
O conde da Cunha deu um murro sobre a mesa, e exclamou: – Sei tudo quanto se faz! – Não sabe, senhor vice-rei! Não sabe, e ainda bem que o não sabe! O conde da Cunha agarrou com ambas as mãos o braço direito de Jerônimo, e apertando-lho, disse: – Velho terrível! Quero dar-te o direito do insulto, fala! dize tudo!...
– Não sabe, senhor vice-rei, tornou Jerônimo impavidamente; não sabe; porque eu recebi de Portugal informações sobre o caráter do senhor conde da Cunha, e foram todas acordes em lamentar a rispidez do seu gênio, e em louvar o seu espírito de justiça severa, e a honestidade dos seus costumes e do seu caráter.
– E então?...
Jerônimo hesitou pela primeira vez.
– Fale! bradou-lhe o vice-rei.
– É que, se o senhor vice-rei soubesse tudo quanto se faz em seu nome e os verdadeiros motivos de atos que manda praticar, o senhor conde da Cunha não seria um homem honrado.
O velho, orgulhoso fidalgo e potente vice-rei, recuou alguns passos aturdido e como cambaleando pela violência do golpe que recebera; guardou silêncio ameaçador durante alguns minutos; depois avançou para Jerônimo e disse-lhe com voz cavernosa e trêmula: – Entendo: é inimigo de Alexandre Cardoso.
Jerônimo respondeu: – Sou, senhor vice-rei.
– Deseja perdê-lo...
– Desejo.
O conde da Cunha esperava negativas, e a franca declaração de Jerônimo ainda mais o impressionou.
– A razão dessa inimizade? – É segredo meu que, se tiver conseqüências, correrão todas por minha conta e risco.
O vice-rei refletiu ainda alguns momentos, e enfim perguntou: – Quais são os fatos mais escandalosos, os abusos mais violentos ou condenáveis, com que o ajudante oficial-de-sala tem comprometido o meu nome? Jerônimo respondeu logo.
– Eu tinha o dever de avisar o senhor conde da Cunha do perigo que corre a sua reputação já muito caluniada pelas vítimas de mil abusos; mas não quero tomar o papel de denunciante de criminoso algum, declinando o seu nome, e marcando os crimes.
– O nome é Alexandre Cardoso...
– É o povo que o denuncia.
O vice-rei tornou a refletir por algum tempo; respirava ansioso, e a cólera, a dúvida, o orgulho, o ressentimento, a dor atormentavam-lhe o
coração e o espírito: voltava amiúde olhos ardentes para Jerônimo.Depois que muito pensou, disse pausada e gravemente: – Jerônimo Lírio tem fama de negociante consciencioso e de homem puro, cuja palavra é sagrada.
Jerônimo curvou-se.
O conde da Cunha continuou: – Tenho até hoje desprezado quantas queixas e denúncias contra Alexandre Cardoso seus inimigos forjaram; depositei até hoje plena, e, se quiserem, cega confiança no meu ajudante oficial-de-sala; sei bem como é fértil em calúnias o ódio, e como aqueles que mais fielmente, e em mais alta posição servem ao governo, estão sujeitos às setas do aleive e aos embustes da perfídia; mas Jerônimo Lírio, o homem austero, sem refolhos nem mentira, o velho negociante português que nesta cidade é mais considerado e venerado, ou me ultrajou com injúria descomedida, ou me abriu os olhos sobre um erro que nodoa a minha vida: é isso ou não?...
– É isso, senhor vice-rei, respondeu Jerônimo.
– Pois bem: juro que hei de castigar a injúria ao lavar a nódoa.
E o conde da Cunha fez a Jerônimo sinal para retirar-se.
– E amanhã ao meio-dia?... perguntou este.
– Apresente-se ao oficial-de-sala.
– Ele saberá que estive aqui hoje.
O vice-rei sorriu-se terrivelmente.
– Não é claro que o remeti para ele?... Se Jerônimo Lírio não mente o vice-rei é o oficial-de-sala.
E com um novo aceno despediu Jerônimo, que, depois de aprofunda reverência apenas correspondida por leve movimento da cabeça do conde da Cunha, se retirou.
O vice-rei foi encerrar-se em seu gabinete; mas passados dez minutos tocou com força a campainha, a que acudiu... um criado: – Germiano? perguntou ele.
– Está no seu quarto.
– Que venha já aqui.
Germiano era um português soldado, ordenança, criado, agente de compras, o homem fiel e dedicado, o cão amigo do conde da Cunha que o encontrara em Maragão, o levara para Angola, o trouxera para o Brasil, e não mais se separara dele.
Germiano não sabia ler e somente por isso não pudera adiantar-se na carreira militar; mas era a atividade que nunca dormia, a dedicação que nunca fraqueara, a astúcia que nunca falhara no serviço do amo; adorava o conde da Cunha com dedicação sublime, nem havia ofensa, havia verdade na apreciação dos seus sentimentos, quando o comparavam ao animal tipo da fidelidade.
Na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro a gente que servia no palácio chamava a Germiano – o cão do vice-rei.
Sempre ocupado de Inês, Alexandre Cardoso, tendo sabido do entrudo que se jogara na casa de Jerônimo Lírio, aproveitara o ensejo para explorar duas minas, a da intimidação e a gratidão de Jerônimo Lírio, e enquanto esperava o resultado da carta e do bilhete, saiu quase ao anoitecer da sala do vice-rei, com quem havia jantado, e seguido de um dos seus amigos dirigiu-se pela praia de Santa Luzia para tomar o Largo d’Ajuda e
irá casa de Maria de... onde se ajustara jogar a banca nessa noite.Porque Alexandre Cardoso se impunha tão extensa volta, era muito simples: no ponto em que começa hoje a pequena rua, onde naquele mesmo século foi estabelecido o matadouro que ali ficou até os nossos dias, ponto que então comunicava a praia de Santa Luzia com o Largo d’Ajuda, havia uma pequena casa térrea isolada, quase solitária, mas com o seu terreiro limpo e meia dúzia de laranjeiras ao lado; morava aí Marcos Fulgêncio com sua mulher e uma filha de vinte anos de idade.
Marcos Fulgêncio era laborioso e zelava sua família, duas condições porém o amesquinhavam aos olhos de Alexandre Cardoso, de seus amigos e de muitos outros: era pobre e sua cor menos branca, e seus caracteres físicos atestavam o cruzamento de duas raças.
Emiliana, a filha de Marcos Fulgêncio, quase desmentia a origem de seu pai e era verdadeiramente bonita: tinha recebido boa educação moral; e honesta e esperta sabia bem fugir aos cumprimentos e aos manejos de sedução que empregavam contra ela velhos e mancebos ricos e de posição muito superior à sua.
Alexandre Cardoso andava à pista de Emiliana, não porque a amasse, mas porque desde alguns dias a desejava, embora tivesse-lhe mandado debalde recados lisonjeiros e oferecimentos deslumbradores.
Passando diante da pequena casa, o ajudante oficial-de-sala parou, e no empenho de ver Emíliana, chamou em voz alta por Marcos Fulgêncio, que apareceu à porta.
– Como vamos de trabalho? perguntou Alexandre Cardoso.
– Não me faltam obras, louvado Deus! – Mas nem por isso aumenta a fortuna, creio eu.
– Não lastimo a minha sorte, senhor: sou mais feliz do que muitos.
– Por que não se emprega nas obras del-rei? Asseguro-lhe que será bem pago; temos necessidade de bons carpinteiros; se lhe fizer conta, eu o protegerei.
– El-rei é meu senhor e se em nome dele me intimarem para trabalhar nas obras, hei de obedecer, mas prefiro andar ocupado nas obras de meus antigos fregueses.
– Por quê?...
– É por costume, senhor; a gente trabalha em mais liberdade cá por fora.
– Pois bem: não será incomodado; se porém precisar de trabalho ou de proteção, procure-me.
– Deus lhe pague, senhor! Alexandre Cardoso, vendo que Emiliana não aparecia, continuou seu caminho, e algumas braças adiante viu sentada no terreiro de um casebre humilde e em começo de ruína uma velha que com respeito se levantou, e estendeu a mão direita, pedindo esmola.
O elegante oficial deixou por instantes o amigo, e foi dar a esmola à velha, que ao recebê-la passou fingidamente à mão caridosa um anel, e murmurou: – Ela não quis.
Alexandre Cardoso, retirou-se contrariado: Emiliana rejeitara um rico anel, que lhe mandara.
– Vamos, capitão, disse ele ao companheiro; vamos e tome o meu conselho: não jogue hoje contra mim; tenho certeza de ganhar.
– Como? – Infeliz no amor, feliz no jogo.
– Nem sempre, e conselho por conselho, seja prudente e cauteloso, senhor tenente-coronel; há oito dias que temos jogado três vezes, e três vezes as suas perdas foram excessivas.
– Apenas chegaram a dois mil cruzados.
– Temos um antagonista que adivinha as cartas.
– É feliz; mas joga com franqueza e lisura.
– Conhece-o? – Pouco; sei que Ângelo por algum tempo mereceu que Maria me atraiçoasse; não lhe perdoaria essa dita há cinco meses; hoje que é desprezado e que Maria não me domina mais, pouco ou nada me importa isso; fui eu que o convidei para o sarau desta noite.
– Desconfio desse mancebo... juraria que ele furta ao jogo.
– De que modo? – Não sei: se as cartas obedecem às suas paradas é que ele sem dúvida as terá marcado.
– Não é Ângelo que dá as cartas para o jogo, e nós mudamos de baralho por vezes.
– Mas a sua teimosia e infalível fortuna? – É fortuna.
– Ângelo não é rico...
– Ao contrário, não tem onde caia morto.
– Todavia... o seu ouro cobre a mesa do jogo, e ele pára com afoiteza
de um milionário.– É claro: se fosse milionário não parava assim; mas o seu ouro é ouro verdadeiro, eis o essencial.
– Donde lho vem? – Que importa? Façamos por ganhar-lhe o ouro.
– Eu não jogarei esta noite.
– Tanto melhor: jogador que não joga e observa o jogo, vê em dobro; preste-nos um serviço; não arrede os olhos e a atenção desse endemoninhado Ângelo, para quem não sei donde tire mais dinheiro.
Quando isso dizia, Alexandre Cardoso chegava com o amigo à porta da casa de Maria de...